Sábado, 12 de Fevereiro de 2011

De 1789 à crise do Egipto: sobre o pão e a liberdade - por Steven Laureence Kapalan

A juventude está no centro da crise actual, é a sua principal vítima e é também ela o principal agente dos ventos de mudança em curso. Foi assim na Tunísia, foi assim no Egipto, será possivelmente assim na China, de que falaremos amanhã num outro artigo, enquanto que por cá continua a assistir-se à política da mentira sobre a juventude, enganando-a com diplomas sem valor e para empregos que também não existem.   É bom que os responsáveis deixem de fazer o que têm feito, que é comportarem-se  como os avestruzes e passo a citar  um excerto do texto que se segue: “No caso egípcio, onde a miséria pesa muito fortemente, mas onde os pobres e os excluídos de todas as espécies se juntaram aos  licenciados com diploma de curso superior, aos assalariados frustrados, às vítimas das  injustiças e da corrupção, parece hoje que a liberdade tenha sido mais importante”. O texto é claro.

 

Júlio Marques Mota

 

 

 

Objecto de necessidade absoluta para uma pequena minoria de Franceses, mesmo em período de crise, o pão continua no entanto a estar-lhes ligado  ou mesmo  a fazer parte das suas  preocupações . O preço do trigo duplicou desde há um ano, os moleiros, muito perturbados, ultrapassam as suas tendências  liberais apelando para a  regulação do mercado desta  sua matéria‑prima (queixa da qual o presidente Sarkozy  se fez  eco no momento da sua  conferência de imprensa de há  alguns dias), e os padeiros começam a fazer repercutir  o aumento do preço das farinhas sobre  as carcaças, ainda que a farinha represente apenas 15 % do preço do pão.

 

O público nunca não aceitou a ideia que o pão pudesse aumentar de forma independente  das condições económicas, da mesma maneira que os padeiros, submetidos a uma penalisante  fixação dos preços impostos pelas autoridades públicas até ao final de 1986, não podem  nunca aceitar a ideia que os preços possam descer.  Herdeiro do príncipe paternalista, a  sua legitimidade depende em grande parte da sua capacidade em garantir o acesso a um pão de qualidade aceitável, o Estado ainda hoje fica altamente  incomodado com a subida do preço do pão. O Estado  fica obcecado  com a  “ mística” do pão, no entender dos padeiros que a sentem como uma  visão demagógica e anacrónica num mundo onde o pão já muito pouco pesa  no cabaz de consumo familiar.

 

Os desafios desta  “ mística” são explosivos de modo diferente no Egipto, onde esta  está a desabrochar  plenamente nestes dias. Como na Tunísia, onde, nas manifestações da revolução dita do jasmim, se brandiam  pães - sempre um sinal de  severa crítica  social - no Egipto, o pão está muito presente no reportório  da acção colectiva. No país dos faraós, isto não  é um facto novo. Em 1977, já, de maneira espectacular, e ainda em 2008, os motins sobre o pão abalaram o regime.

 

Socorridos por importantes subvenções americanas, o raïs mandou  cozer e distribuir o pão por um exército já bastante vizinho das preocupações e sentimentos  populares. No entanto, não há  só uma das centenas de motins da fome ocorridos um pouco por todo o mundo que não se transformassem em contestação política duradoura. Na hora  actual, o pão reaparece no Egipto, com uma reivindicação pelo menos tão  aguda e urgente como a liberdade. Le Monde do 28 de Janeiro informava que os manifestantes no Cairo  gritavam “O Pão! A Liberdade”. Três dias depois, o mesmo jornal conta que, à noite, na praça  Tahrir, dita da Libertação, epicentro da revolta egípcia, improvisava-se um jogo de futebol: “Duas equipas foram criadas: a “do Pão” e a “da Liberdade”. No Domingo, foi  a equipa “do Pão” que ganhou. »

 

O historiador das revoluções e do pão que eu sou pode só pode ficar  fascinado pela irrupção deste par  pão-liberdade, conhecido na retórica da luta popular em  França desde a Revolução de 1789-1795 até à  Frente Popular, seguidamente à Libertação. “O pobre gosta mais  do pão do que a liberdade”, constatava Rousseau. Tropismo compreendido bem pelos Romanos e mesmo pelos  Bourbons, teorizado  de maneira mais moderna por Montesquieu e sobretudo (não sem amargura) por Tocqueville, no que veio a dar o Estado-providência, a reivindicação do direito à existência frequentemente primou sobre outras  no combate das pessoas do povo.

No caso egípcio, onde a miséria pesa muito fortemente, mas onde os pobres e os excluídos de todas as espécies se juntaram aos  licenciados com diploma de curso superior, aos assalariados frustrados, às vítimas das  injustiças e da corrupção, parece hoje que a liberdade tenha sido mais importante. “ Não se vai mendigar a sua liberdade aos outros, escrevia Ignazio Silone, A liberdade, é necessário agarrá-la. » O pão, é necessário, é a sobrevivência; exigí-lo, é também protestar contra as desigualdades gritantes, contra o desemprego em massa,contra a dignidade ridicularizada de cada cidadão no seu dia a dia . Mas o pão não é suficiente sozinho, porque uma vez que passe a ser  abundante e barato, corre o risco de esconder  o essencial, perpetuar as estruturas da injustiça e da dependência.  Daí a sua ligação a partir de  então indivisível   com a liberdade: a denúncia da opressão, da tirania, da ditadura sobre os velhos em  nome de toda  uma juventude  que exige o pão mas com a condição de não ser  o regresso ao método antigo dos jogos do circo.

 

É um pouco  a liberdade dos slogans (não nas exegeses detalhadas dos juristas) de 1789 que pareciam anunciar a regeneração de toda a nação: nada de  direitos puramente  formais  mas sim  a prática real da liberdade de expressão e da representação tanto social como política. É a liberdade como pré-condição  e garantia de uma eventual igualdade de oportunidades (e não somente de uma igualdade face à  lei).

 

Sem conquistar esta liberdade fundamentadora, a matriz, o pão nunca será o pão dos próprios egípcios ; e o pão dos  outros  continua a ser  amargo. Mas, em segundo lugar, esperam que a equipa da liberdade não esmague  a equipa do pão no  terreno da acção social e económica. Porque se  a associação das duas  é exaltante na aurora do iniciar de uma nova época, recordemos  que, a prazo, a relação entre  liberdade e  o pão torna-se bem mais problemática.

 

O paradoxo é que  muita  liberdade, na sua eclosão prometeica , na sua ambição totalizante , priva o cidadão lambda da sua  ração de pão e, a prazo, priva-o da sua própria liberdade. Esta  foi a dura aprendizagem da  liberalização económica da França das Luzes (1763-1776), seguidamente da França revolucionária e, por último, da França cronicamente puxada  entre a liberdade e o pão (ou seja a igualdade). Se a liberdade não for enquadrada e regulada,  a liberdade económica pode minar as bases (e as promessas) da liberdade política.

Um mercado dito  livre  e por conseguinte necessariamente darwiniano , corre o risco de fazer lamentar o pão ao raïs. Se o paradigma do pão da igualdade dá origem a demasiados  constrangimentos e se asfixia demasiado as iniciativas individuais, o liberalismo imoderado gera, sob novas denominações,  o  mesmo tipo de desigualdades e de dominação contra as quais tanto se gritou  no antigo regime. Um bom sinal (se é que não  significa simplesmente “tira daí para eu me aí ficar”): já  os intelectuais e uma parte das classes médias egípcias parecem ter sentido o perigo atirando-se contra os  adeptos da doutrina ultraliberal, frequentemente associada à Gamal Mubarak, delfim em queda. “ O que nasce tort, tarde ou nunca se endireita”

 

Steven Laureence Kapalan, De 1789 à l’intifada egyptienne, le pain reste le symbole de la contestation sociale, Le Monde, 8 Fevereiro de 2011.

O

publicado por Carlos Loures às 20:00
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