Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

O Mistério da Camioneta Fantasma - V

 

(Continuação)

 

 

 

 

 

O Mistério da Camioneta Fantasmapeça de Hélder Costa - 4

 

Cena 4

 

Ódios e necessidades

 

(Reunião de senhoras a tomar chá)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Ciclorama laranja, camponeses trabalham em contra-luz)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Condessa de Ficalho (com um rosário) - Deus me perdoe, não posso mais com tanta miséria que se vê aí pelas ruas.

 

Condessa de Tarouca – É no que deu esta República: crimes, roubos e fome.

 

Berta Maia – Desculpem, minhas amigas. Porquê acusar sempre a República? A miséria vem de muito longe, das injustiças que a monarquia praticava.

 

Condessa de Ficalho – Minha querida Berta, sei que é difícil, mas pense um pouco. Quem fez Portugal? Quem conquistou? Quem derrotou hereges? Quem espalhou a fé e o império? Fomos nós.

 

Condessa de Tarouca – Não é natural que tanto esforço tenha compensação? Queria que distribuíssemos riquezas pelos labregos e pelos cobardes que não derramaram o sangue na faina heróica dos nossos antepassados? Coma! Coma!

 

Condessa de Ficalho– Onde é que já se viu isso? Queria que os filhos dispersassem a fortuna que os pais lhes deixavam?

 

Condessa de Tarouca – Que falta de sensatez, minha amiga.

 

Berta Maia – Deus diz-nos para olharmos para os pobres e infelizes, e para remediarmos as desigualdades deste mundo.

 

Condessa de Tarouca – e por isso nós fazemos estes chás de caridade.

 

Condessa de Ficalho– E o que fazem os republicanos, os bolcheviques, quando nós queremos ir por esse caminho?

 

O que fizeram ao Sidónio Pais que tinha criado a sopa para os pobres e que, abençoado por Deus, ia pelos hospitais confortar os doentes da pneumónica?

 

Abateram-no com um tiro, como se faz a um cão raivoso.

 

Condessa de Tarouca – Berta, você sabe que isso foi um crime. Mataram um santo, e um belo homem.

 

O seu marido, o comandante Carlos da Maia, esteve com o Sidónio...

 

Berta Maia – Sim, esteve com o Sidónio. Ele, o Machado Santos e outros. Por pouco tempo. A esperança que havia numa política nova, para fazer renascer Portugal, desvaneceu-se rapidamente.

 

Condessa de Ficalho – Berta! Não me diga que defende aquele crime...

 

Berta Maia – Não defendo esse, nem qualquer outro crime. (Pausa). Eu nunca quis ser feliz com a infelicidade dos outros. E o meu marido, no dia 5 de Outubro, disse à sua mãe que estava feliz por não ter matado ninguém. Na minha casa só se cultiva o bem.

 

Condessa de Tarouca - Julgam vocês que fazem o bem.

 

Condessa de Ficalho– A resposta não vai demorar muito. Deus já nos deu o sinal do milagre de Fátima em 1917.

 

Berta Maia – A República tem de ser para o bem de todos e acredito que Deus nos guiará no bom caminho.

 

Condessa de Ficalho– Eu também acredito em Deus, mas nós é que temos que fazer o nosso caminho. Sabe como é que eu tratei da fome na minha casa?

 

(Condessa de Ficalho em reunião com os criados)

 

Condessa de Ficalho - como sabem, a nossa casa está com dificuldades. Desde que esses traidores à Pátria nos roubaram terras, vinhas, lagares e cavalos, estamos a viver com muitas dificuldades.

 

Eles dizem que fizeram essa revolução para vos defender, às pessoas que trabalham e que são exploradas. Mas vocês sabem que o nosso palácio se esforçou sempre por tratar de vocês o melhor possível. Já tinha ajudado os vossos pais e avós e nunca faltou nada aos vossos filhos e netos.

 

Éramos uma família. Cada um no seu lugar, com respeito, mas éramos uma família.

 

Hoje, só se ouve falar em ódio e vingança. E isto nunca trouxe nada de bom a ninguém.

 

O que tenho para dizer, é muito triste.

 

A minha casa não pode continuar a alimentar tanta gente. Se eu fosse sozinha, mas há os filhos, genros, noras, sobrinhos, primos, como é que isto se pode aguentar?

 

( murmúrios)

 

Custa-me muito, esta noite fartei-me de chorar, mas as coisas são assim. E a culpa é desses republicanos que nos vieram tirar o sossego e a paz em que vivíamos.

 

(murmúrios)

 

Não querem ir? Mas o que é que eu posso fazer?

 

Bem, eu pensei numa solução.. Vocês, hoje, os trabalhadores é que mandam no país. Têm empregos bem pagos, as fábricas têm que vos aceitar, mesmo que depois fiquem na falência (ri).

 

Eu proponho que vocês vão trabalhar e que tragam cá para casa o ordenado que ganharam. Assim, pode ser que eu consiga aguentar as minhas duas famílias, a de sangue e a vossa, que é para mim de grande amizade e muito sacrifício.

(murmúrios)

 

Não querem, não me digam que já andam influenciados com as ideias desses malandros... Pensem bem. Olhem que a minha casa continua a ser visita de oficiais e de toda a gente que mandava neste país. E olhem que eles não estão parados; estão a organizar a guerra contra esses ladrões e toda a gente sabe que nós vamos ganhar outra vez.

 

Se vocês se portarem bem, eu protejo-vos nessa altura; mas se começarem com revoltas e recusas e ingratidões para comigo, que tenho sido uma mãe para todos, então ajustamos contas.

 

(silencio absoluto dos trabalhadores)

 

De acordo? Assim é que eu gosto de ouvir.

 

Vá, mexam-se, arranjem trabalho depressa que a casa já não é como era dantes, que aguentava tudo, os que trabalhavam e os que não faziam nada.

 

Encontramo-nos na missa, que o senhor padre há-de abençoar este acordo entre nós.

 

E agora, a minha benção...

 

(Grupo vai ao beija-mão)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Berta Maia – E se eles não quiserem?

 

Condessa de Ficalho - Berta, Berta, tenha juízo. Perceba que vocês ganharam contra a monarquia por um mero acaso, por um acidente da história...

 

Nós ganharemos sempre, porque temos a força da tradição, a Igreja apoia-nos, temos séculos de experiência a saber mandar, os criados respeitam-nos e temem-nos. E sabem muito bem que o patrão, o senhor, nunca pode estar na miséria. Até para poderem ter algumas migalhas. E também sabem que se isso acontecer, a nossa vingança será sem dó nem piedade.

 

Por isso, nos obedecem.

 

E é por essa razão que eles não ouvem as vossas belas palavras, vos denunciam e se põem ao nosso serviço.

 

(Continua)

publicado por João Machado às 23:55
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links