Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

De Onde Vem a Voz? - Eudora Welty

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

 

Quem Conta Um Conto...

"Distinguida com inúmeros prémios ao longo da sua carreira, Eudora Welty (Mississipi, 1909-2001) é hoje considerada uma das autoras mais proeminentes da literatura norte-americana do sécuo XX. (...) A escrita weltiana é caracterizada por uma visão humanista, por um sentido de irmandade para com homens e mundo, no modo como descreve situações do quotidiano, conferindo-lhes uma ressonância poética, próxima do realismo mágico. À visão amorosa distintiva do seu universo ficcional acresce uma marcada consciência política, espelhada num humor inteligente que nunca toca o sarcasmo, e sobretudo centrada nas problemáticas da identidade do género e da questão racial"

Eudora Welty  De Onde Vem a Voz?

(1963)

Digo à minha mulher:

- Podes apagar isso. Não temos de ficar pr'aqui sen­tados a olhar prà cara de um preto se não quisermos, nem de ouvir aquilo que não queremos ouvir. Ainda estamos num país livre.

Acho que foi assim que me veio a ideia.

Disse, eu podia descobrir exactamente onde vive aqui em Thermopylae aquele preto que está a pedir direitos iguais. E sem qualquer problema.

E não estou a dizer que não é por ser muito perto de onde eu vivo. Por outro lado, uma pessoa pode ter razões para saber como ir até lá no escuro. É lá que todos vamos procurar aquilo que queremos quando mais queremos. Não é verdade?

A tabuleta da sucursal do banco tem umas luzes que dizem, pela noite dentro, a temperatura e as horas. Quando eram quatro menos um quarto, e faziam 34°, fui eu que passei na camioneta do meu cunhado. Ele não entrega nada àquela hora da madrugada.

Então é assim, sai-se dos Quatro Recantos para oeste, na Estrada Nathan B. Forrest, passa-se o Poupança Extra e um bocado depois o Acampamento de Rulotes Volta Sempre, antes de aparecerem as tabuletas a dizer «Isco Vivo», «Carros Usados», «Foguetes», «Pêssegos» e «Irmã Rocha: Leituras e Conselhos». Vira-se mesmo antes de sair da cidade e passa-se pelos caminhos-de-ferro. A rua dele está alcatroada.

 

Ele tinha a luz acesa, à minha espera. A luz da gara­gem dele, vejam bem. O carro não está lá. Ele deve con­tinuar por aí a inventar maneiras de fazer aquilo que nós já estamos fartos de dizer que eles não podem fazer. Eu sabia que ia chegar a casa antes dele. Só tive de esco­lher uma árvore e esconder-me atrás dela.

Quando me meti nisto, já sabia que ia ficar à espera. Mas estava tanto calor que eu só rezava para nenhum de nós derreter antes de isto acabar.

Olhem, só sei que não me tinha propriamente calhado a sorte grande.

Eu ouvi o mesmo que vocês sobre o Goat Dyke-man, no Mississipi. Claro que toda a gente conhece o Goat Dykeman. O Goat mandou dizer ao governador que limpava o sebo àquele preto, ao Meredith1, se o dei­xassem sair da choldra para fazer isso. O velho Ross ainda deu umas voltas à cabeça antes de dizer não... dá p'ra entender.

Eu cá não sou nenhum Goat Dykeman, não estou na choldra, nem vou pedir nada de nada ao governador Barnett. A não ser que ele me queira dar uma palmada nas costas pelas chatices desta manhã. Mas não tem de fazer nada disso, se não quiser. Fiz o que fiz, porque me deu na real gana.

Mal ouvi pneus, percebi logo quem estava a che­gar. Era ele, só podia ser ele. Era mesmo aquele preto, a subir pelo quintal acima num carro branco novinho em folha, até à garagem com a luz acesa, mas parou antes de chegar lá, talvez para não os acordar. Era ele. Conheci-o quando apagou as luzes do carro e pôs o pé de fora, eu sabia que era ele que ali estava, escuro contra a luz. Conheci-o naquela altura como me conheço a mim agora. Conheci-o até pelas costas paradas, à escuta.

Nunca o vi antes, nunca o vi depois, nunca vi a cara preta dele, só em fotografia, nunca vi a cara dele ao vivo, em nenhuma altura, em nenhum sítio, e não quero, nem preciso, nem espero ver aquela cara e nunca vou ver. Bastava não ter dúvidas nenhumas.

Tinha de ser ele. Ficou completamente parado, à espera contra a luz, as costas fixas, fixas em mim como os olhos de um padre a gritar «E tu, estás salvo?». É ele.

Já tinha levantado a caçadeira. Já tinha apontado. E já o tinha apanhado, porque já era tarde de mais para se mudarem as coisas, tanto para ele como para mim.

Uma coisa mais escura do que ele, como as asas de um pássaro, cresceu-lhe nas costas e empurrou-o para baixo. Ele levantou-se uma vez, como um homem caído nas garras do mal e, como se o sangue dos justos pesasse uma tonelada, caminhou com aquilo às costas até um sítio com mais luz. Não passou da porta. E caiu de vez.

 

Estava no chão. Estava no chão, e podiam deitar-Ihe em cima uma tonelada de tijolos que não ia sentir maior peso. Ali mesmo no seu caminho alcatroado, sim senhor.

E a cotovia tinha acabado de cantar, segundos antes. Cantava empoleirada em cima do meu sassafrás. Ou se tinha levantado cedo, ou nunca tinha ido para a cama, era como eu. E a cotovia ficou ali comigo, encheu o ar até vir o estouro, até eu descarregar o chumbo. Eu era como ela. Eu próprio tinha o mundo aos meus pés. Por uma vez.

Dei um passo até à beira daquela luz, onde ele estava estendido. E digo:

- Roland? Só havia uma maneira de eu me pôr à tua frente e ficar à tua frente, raios, e acabei de fazer isso. Agora estou vivo e tu não. Agora nunca, mas nunca vamos ser iguais, sabes porquê? Um de nós está morto. E esta, Roland? - disse eu. - Bem, tu já devias estar à espera disto, não é?

Fiquei um bocado... só para ver se vinha alguém de dentro para o apanhar. E lá veio ela, a mulher. Duvido que tivesse dormido. Porque pareceu-me que tinha ficado ali acordada o tempo todo.

Estava bestialmente verde no sítio por onde passei no quintal dele, ao voltar. Aquela preta queria ter relva bonita! Aposto que a minha mulher ia detestar pagar as contas de água dela. E aquela electricidade toda mal gasta. E lá está a camioneta do meu cunhado, ainda à espera, de porta aberta. «Boleias, não»... isso não era comigo.

Até agora, ainda não consegui pensar em nada que tivesse tornado as coisas mais fáceis. Tirando uma cadeira para me encostar, enquanto fiquei à espera. Mas quando ia para casa, vi como afinal não demora nada fazer uma coisa como queremos. Eram 4:34, e enquanto eu olhava mudou para os 35. A temperatura continuava na mesma. Não baixou toda a noite, garanto, faziam uns bons 34°.

A minha mulher diz:

-O quê? Os mosquitos não te morderam?

Ela disse:

-Bem, eles estavam a pedi-las... como é que nin­guém se deu ao trabalho de carregar uma caçadeira e expulsar estes agitadores de Thermopylae. Aquele tipo não andava sempre a dizer o mesmo, que era boa ideia? Aquele que escreve uma coluna todos os dias!

Eu digo à minha mulher:

— Arranja uma maneira qualquer de eu não ser descoberto.

-Ele diz «façam isso por Thermopylae» - diz ela. - Tu nunca olhas para o jornal?

Eu digo:

- Thermopylae nunca fez nada por mim. E eu não devo nada a Thermopylae. Não fiz isto por ti. Como não fazia nada de nada por aqueles Kennedys, diabos me levem! Fiz isto, porque me deu na real gana.

- Com isto, ele vai outra vez direitinho para a TV - diz a minha mulher. - Espera só pelo funeral.

Eu digo:

- Tu nem sequer uma luz deixaste acesa, quando foste para a cama. Por isso como é que eu havia de con­seguir voltar a casa, e deixar a camioneta do Buddy em segurança no nosso quintal?

- Tens cá uma graça, tu! - responde a minha mu­lher. - Não ouviste as notícias? O NAACP2 vai mandar alguém para Thermopylae. Porque é que não esperaste? Se calhar até arranjavas uma pessoa melhor. Ouve lá o que eles estão a dizer agora.

Eu sou só um. Acho que temos sempre de contar a alguém.

- E onde é que está a espingarda? - diz a minha mulher. — Agora como é que nos vamos defender?

Eu digo:

- Estava a ferver! Estava a ferver! - respondi eu. - Está no chão, no meio do mato, a ver se arrefece, é o que é.

- Deixaste-a cair - diz ela. - Ficou por lá.

E eu disse-lhe:

- Porque estou farto de todas as coisas à minha volta serem tão quentes quando toco nelas! As chaves da camioneta, a maçaneta da porta, os lençóis da cama, é tudo como o raio de um forno. Já não tenho vontade de pegar em mais nada - digo eu -, com quarenta graus à sombra durante o dia e praticamente o mesmo à noite. Gostava de te ver a ti pegar naquela espingarda.

— Já sabia que tu ias deixar por lá a espingarda — diz a minha mulher.

- Tens-m' assim em tão baixa conta? - faz-me ela perguntar. — Queres ir tu lá buscá-la?

- Eles vão apanhar-te é a ti. Acho que faz tanto calor que, mesmo quando a gente conseguimos dormir, acordamos e parece que passámos a noite toda a cho­rar! - diz a minha mulher. - Anima-te lá! Olha, mais uma piada antes de serem horas da gente se levantar. Sabes o que disse a Caroline? A Caroline disse: «Papá, quando for grande quero casar-me com o James Meredith». Ouvi isso lá no trabalho. Uma cabra rica a falar com outra, para a fazer rir.

- Olha, pelo menos assim não foi lá nenhum miúdo maluco de North Thermopylae fazer isto primeiro - digo eu. - A guiar o seu próprio carro.

Na TV e no jornal só sabem a história pela metade. Sabem quem era o Roland Summers, mas não sabem quem eu sou. Aquilo já era uma cara conhecida antes de eu me livrar dele, e depois de eu me livrar dele, lá apa­rece o raio daquela cara outra vez... a mesma fotogra­fia. E nenhuma minha. Nunca tirei nenhuma. Nunca! O melhor que o jornal podia fazer por mim era oferecer uma recompensa de quinhentos dólares para desco­brirem quem eu sou. Porque, enquanto não se souber quem é, a pessoa que matou o Roland vale muito mais agora do que esse Roland.

Mas quando me pus às voltas pelos bairros da cidade, ainda fazia mais calor. O pavimento no meio da Rua Principal estava tão quente que me ardiam os pés, como se estivesse a andar em cima do cano da minha espingarda. Se o mundo todo pudesse sentir a Rua Principal esta manhã pelas solas dos meus sapatos, talvez ajudasse um bocado.

E de repente ouvi-os dizer que foi a própria NAACP que fez aquilo, mataram o Roland Summers, e para provar diziam que o tiro foi dado por um perito (eu sei bem que sim!) e mesmo na altura certa para meter os brancos em apuros.

Não se pode ganhar.

— Eles não o vão conseguir encontrar —diz-me na cara o velhote que está para ali a vender amendoins torrados.

E faz tanto calor.

Parece que a cidade está em fogo, para onde quer que se vá, por todas as ruas onde se passa, por causa daquelas árvores com as flores penduradas em cacho, como melancias abertas. E milhares de polícias à pinha, em toda a parte, metade deles tão novos que nem a barba fazem ainda, mas todos a transpirarem em bica. Estou a ficar farto deles.

Já estava farto de ver milhares de polícias que não nos levam a lado nenhum, a nós os brancos. Voltei ao princípio da rua, fiquei ali na esquina e vi aqueles polí­cias novos, com cara de bebé, a meterem putos pretos dentro da carrinha da bófia, vinham a marchar num desfilezinho e entravam na carrinha da bófia a cantar. Entravam e sentavam-se sem fazer ondas, com as mãos cheias de bandeirinhas americanas, novas em folha, e tudo o que os chuis podiam fazer era tirar-lhes os pauzitos das mãos, e não os deixar voltar a apanhá-los, só isso, e davam-lhes uma boleia à borla. E os putos conse­guem sempre arranjar mais bandeiras.

Ouçam todos: não vale a pena tirar nada a ninguém, a não ser quando temos a certeza que podemos ficar com isso, de uma vez por todas, para sempre e ámen.

Até vou gostar de ver as pedras chover sobre nós, para variar. E garrafas de gasosa também, podem vir a voar quando quiserem. Às centenas, todas partidas, como em Birmingham. Estou à espera que eles tirem as navalhas de ponta e mola, como em Harlem e em Chicago. Continuem ligados à televisão e vão ver tudo isto acontecer na Rua Deacon de Thermopylae. O que é que os segura, é isso que pergunto... porque está-lhes no sangue.

Eu cá já estou pronto para esse enterro.

Oh, eles podem-me encontrar! Podem-me apa­nhar um dia destes, apesar de tudo. (Mas eu cresci no campo.) Podem tentar levar-me para a cadeira eléctrica, e o resultado é uma coisa mais quente do que ontem e hoje juntos.

Mas aviso-os que é melhor terem cuidado. Já está n'altura d'a malta que paga os impostos tomar conta disto! Começar a dizer aos professores e aos padres e aos juizes dos nossos chamados tribunais até onde podem ir!

Mesmo o presidente, até agora, não pode entrar na minha casa sem ser convidado, como se fosse meu pai, só p'ra dizer olá. Ainda não!

Uma vez, fugi de casa. E puseram um anúncio por mim, que saiu no semanário da nossa terra. Foi a minha mãe que pagou. Era dela. Dizia: «FILHO: Só andamos à tua procura para te encontrar». Daquela vez, voltei para casa.

Mas as pessoas já estão mortas.

E faz tanto calor. E nem sequer estamos em Agosto ainda.

Em todo o caso, eu vi-o cair. Fui eu para sempre.

Então pego na minha velha guitarra, pendurada na parede. Porque eu tenho a minha guitarra, ando agar­rado a ela desde nem me lembro quando, nunca a lar­guei, nunca a perdi nem esqueci, sempre que a pus no prego fui lá buscá-la outra vez, nunca a dei, e sento-me na minha cadeira, sem mais ninguém em casa senão eu, e começo a tocar e a cantar em voz baixa. A cantar em voz baixa, baixa, baixa, baixa. Em voz baixa, baixa, baixa, baixa. Baixa.

________

l James Meredith, membro do Movimento de Direitos Cívi­cos, foi o primeiro estudante afro-americano a inscrever-se na Universidade do Mississipi, em 1962, provocando oposição do governador segregacionista Ross Barnett, o que obrigou a uma intervenção das tropas federais, enviadas pelo presidente John F. Kennedy.

 

2 NAACP, National Association for the Advancement of Colored People, movimento de direitos cívicos fundado em 1909, com um papel crucial na luta  pela igualdade racial nos Estados Uni­dos da América.

 

(in Os Ventos e Outros Contos, Antígona)

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 14:00

editado por Luis Moreira às 17:14
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