Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

O valor da Arte – por Carlos Loures

 

Segundo li na imprensa internacional de ontem, dia 8, a publicação da correspondência privada de René Magritte (1898-1967), o grande pintor surrealista belga, está a causar algum espanto. Isto porque revela uma faceta comercial que a muitos parece ser incompatível com a essência da arte. “Os meus quadros são uma manifestação visual da poesia”, disse Magritte para descrever a sua obra: a preocupação com a venda da sua produção artística apresenta-se aos olhos de muita gente como a negação do carácter profundamente poético da sua pintura.

As cartas foram trocadas entre Magritte e o seu marchant em Nova Iorque, Alexander Iolas nos anos de 1947 a 1967. São cartas inéditas, acompanhadas por mais de 40 ilustrações, e estão a ser leiloadas em Londres pela conceituada Sotheby’s.

O que surpreende é a importância que o artista dava à vertente comercial da sua actividade, exercendo um controlo rigoroso sobre os negócios da venda das obras, dando instruções pormenorizadas de como deviam ser emolduradas, dos textos que deviam acompanhar cada um dos quadros, a localização de cada um deles na sala, a redacção dos catálogos…

Um editor com quem trabalhei, ficava extremamente irritado quando associações, escolas, clubes, lhe escreviam pedindo a dádiva de livros para as suas bibliotecas - «Será que eles também pedem para os padeiros lhes darem o pão?» E, ou não respondia, ou explicava que os livros custavam dinheiro a quem os fabricava – eram um produto como o pão. Não eram para dar, mas sim para vender. Isto passava-se durante a ditadura e depois da Revolução, mas ele terminava sempre da mesma maneira – Em vez de pedirem aos editores que vos dêem livros, peçam ao Estado que vo-los compre!».

A ideia de que a Arte, a Literatura se degradam ao ser transaccionadas, é disparatada. O artista, não se alimenta de nuvens etéreas - come pão, como qualquer outro trabalhador – se não lhe pagam o que produz como pode ele comprar o pão?

publicado por Carlos Loures às 12:00

editado por Luis Moreira às 23:56
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12 comentários:
De Luis Moreira a 9 de Fevereiro de 2011
A criação artística é um tabalho. A questão que a diferencia é, quanto a mim, que se o pão não se vender não se fabrica. A arte, mesmo sem clientes ,será sempre produzida como condição essencial para a harmonia da humanidade.
De Eva cruz a 9 de Fevereiro de 2011
É verdade, Luís. Mas para a produzir também é preciso pão.
De Carlos Loures a 9 de Fevereiro de 2011
O pão é usado aqui no sentido lato de bens essenciais à vida. Na nossa sociedade, esses bens têm de ser comprados. Se o artista não é pago pelo que produz, não poderá aceder a eles - terá de esmolar, roubar ou morrer. Se a arte é necessária, o artista tem que ser remunerado.
De Luis Moreira a 9 de Fevereiro de 2011
Sem dúvida, Eva. O que eu quero dizer é que arte mesmo sendo paga (e deve ser paga) é mais que uma mercadoria .
De Luis Moreira a 9 de Fevereiro de 2011
O artista passou a ser "um trabalhador" que vende o que sabe fazer. Sabe-se como grandes criadores morreram na miséria enquanto hoje as suas criações valem fortunas.
De Carlos Loures a 9 de Fevereiro de 2011
Luís, de facto, a arte é mais do que uma mercadoria - mas tem sido tratada como menos do que uma mercadoria. O artista não «passou a ser uma trabalhador» - sempre foi um trabalhador. Na nossa sociedade, sendo a obra de arte avaliada pelo seu mercado, o artista arrisca-se a que o seu trabalho não seja pago ou não seja devidamente pago. Os dois maiores poetas portugueses - Camões e Pessoa, só depois de morrer tiveram sucesso. Em vida, forma ultrapassados por poetas menores. O mau funcionamento das estruturas culturais, a começar pelo Ministério, é uma constante dos governos pós 25 de Abril. Um incremento cultural, combatendo a ileteracia, seria um bom investimento. E o papel da arte na cultura é, como se sabe, decisivo.
De adão ctuz a 9 de Fevereiro de 2011
Idealmente, não me parece que a Arte deva ser paga, no sentido de objecto criado , objecto vendido, objecto transacionável. A criação artística deveria, a meu ver, obrigar a uma protecção e apoio por parte da sociedade e dos governos, de modo a salvaguardar a sobrevivência e o bem-estar do artista, a dispensr-lhe todos os materiais e condições, e a estimular-lhe o mais fortemente possível o sentimento artístico.
Talvez tudo fosse diferente se a obra de Arte não tivesse autor nem valor material. O autor da obra é, com efeito, um dos maiores obstáculos à supressão do real-palpável. O autor-pessoa deveria desaparecer na conclusão da obra, a qual seria lançada ao vento como natureza essencial, com toda a sua liberdade e autonomia. Se tal fosse possível, e a obra pudesse ser património colectivo, então sim, poderia atingir o seu verdadeiro estatuto de ponte entre a dimensão antropocêntrica e a dimensão universal do homem, deixando de ser um mero ingrediente deste caldo generalista da nossa cultura.
De ethel feldman a 9 de Fevereiro de 2011
e agora fizeste sonhar acordada
De Luis Moreira a 9 de Fevereiro de 2011
A arte como património da humanidade, sim! Mas, a partir do momento em que a noção de propriedade se apoderou dos homens, a arte passou a ser transccionável, como tudo é transaccionável, tudo é convertível em dinheiro. Eu creio que as obras de arte (na falta de melhor) poderiam ser propriedade de alguem se fossem do domínio público, isto é, estivessem em permanência expostas. Levanta-se outro problema. Quais? Quem escolhe? Como se faz chegar ao maior número de pessoas?
De Josep Anton Vidal a 9 de Fevereiro de 2011
L'art s'ha de pagar, indubtablement, en el mercat de l'art. Però no tot l'art passa pel mercat, ni tot el que passa pel mercat és art. L'art com a expressió harmoniosa del pensament, de la bellesa o de les idees, o dels sentiments, o de les fabulacions, o de la memòria, o de les creences, o de les necessitats... no és exclusiu de les obres literàries, musicals, plàstiques, cinètiques o de qualsevol tipus que es publiquen a través dels canals comercials en tota la seva diversitat. Al llarg de la vida tots tenim la possibilitat de gaudir de moments artístics inoblidables, pels quals no ens cal pagar. No pas per gasiveria, sinó perquè no es produeixen en el mercat de l'art. Altres vegades, hem comprat "art" literari, musical, plàstic, de qualsevol mena, i n'hem quedat molt satisfets per la seva qualitat. D'altres vegades, hem comprat algun producte del mercat artístic -un llibre, una peça musical, una representació teatral, un film...-, pel qual hem pagat un preu estàndar de mercat, i n'hem quedat profundament decebuts, perquè, salvant les diferències d'opinió i les preferències i els criteris valoratius de cadascú, no tenia cap qualitat artística.
El mercat de l'art ven uns productes que han de complir uns estàndars establerts pel mercat. I funciona així, regint-se per les pròpies lleis del mercat en cada societat: amb càrrec al consumidor, amb càrrec a l'Estat, amb beneficis o pèrdues per als autors, o per als intermediaris, o per als accionistes. Aquests estàndars han de ser productes, no necessàriament obres d'art. N'hi ha alguns que, a més de productes, són també obres d'art d'alguna o de molta qualitat, fins i tot d'una qualitat extraordinària, però això no els fa diferents com a productes de mercat dels altres que comparteixen amb ells els mateixos estàndars. L'art es basa sempre en l'apreci o la valoració d'una qualitat, i això és necessàriment variable, s'adiu o no amb les modes... Per això una obra pot trigar anys, fins i tot segles, a ser reconeguda. O pot ser un producte de mercat que respon a uns estàndars i, amb el temps, ser reconeguda amb un grau d'excel·lència molt superior als estàndars en què es va difondre en el seu moment com a producte comercial. Això va passar amb gran part de la novel.lística del XIX, apareguda com a fulletó dels diaris, amb totes les característiques del gènere, i avui consagrada com a gran literatura.
Crec que no hem de barrejar les coses. Quan parlem de mercat, parlem de productes, de professionals, de compradors i venedors, de beneficis i pèrdues, de circuits de distribució, de publicitat, de rànquing de vendes, de fires, de premis, etc., que tenen graus diversos d'afinitat amb l'art: molta, alguna, poca, o cap. I quan parlem de l'art, no estem obligats a parlar necessàriament de mercat, ni de treballadors o productors, ni de qui paga les despeses... Perquè ni tot el mercat dels productes tipificats com a "artístics" és art, ni tot l'art és necessàriament un producte de mercat.
Una novel·la ha de ser sempre "art" perquè si no ja no és novel·la? Un quadre, una escultura, han de ser sempre art, perquè si no ja no són res? No. Una novel·la, un film, una producció televisiva, una escultura, un quadre, una representació teatral... poden complir perfectament tots els estàndars que els escauen com a productes de mercat i no ser art o no merèixer cap consideració artística o molt poca en el moment en què es publica, i ser malgrat tot un èxit comercial extraordinari. Si amb el temps guanyarà excel·lència artística o no, ja ho dirà el temps. I una obra d'art pot no ser mai un producte de mercat, si més no en el temps del seu creador. I hi pot haver també obres d'art que siguin, en el seu temps, productes de mercat de gran rendiment.
Podem parlar d'art i podem parlar de mercat. I podem parlar de les coincidències que es donen entre l'un i l'altre. Però potser no és bo per a l'anàlisi donar per suposada una identidad absoluta entre dues coses que són diferents, encara que puguin coincidir en algun moment.
De Carlos Loures a 9 de Fevereiro de 2011
Penso que o facto de ter suscitado este debate, com comentários de grande profundidade analítica, já justifica o post. No fundo, eu só quis afirmar a ideia que uma obra de arte não é menos valiosa pelo facto de ser transaccionada. Também não é mais valiosa pelo facto de ser bem cotada. O que é arte e o que não é arte? Os critérios que definem o ser ou não ser mudam de e´poca para época. Temos exemplos de grandes artistas a que só a posteridade dá valor e de outros - o caso de Pessoa que morre com um livro publicado (e logo aquela que é talvez a sua obra menos profunda) é paradigmático. Se nos centrarmos em René Magritte, a qualidade da sua obra não sofre o mais pequeno beliscão pelo facto de ele se preocupar com a vertente comercial, com a venda dos seus quadros, com o marketing mais adequado. Estou de acordo com o Adão em como a arte não devia de ser transaccionada - mas estamos a falar de outro tipo de sociedade em que talvez o dinheiro fosse dispensável. Será que o pão deve ser transaccionado? Tenho pena de que alguns comentários, como os do Adão e o do Josep, não sejam posts.
De Andreia Dias a 9 de Fevereiro de 2011
Que coincidência... ontem passeava pelo "nosso" blog e pensei: "nunca vi uma ilustração do Renné Magritte por aqui"... e hoje vejo este post. É o meu pintor preferido, e já tive a sorte de contemplar originais seus. Carlos, obrigada pela partilha!

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