Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011
Lula da Silva fala sobre o Wikileaks

 

 

 

 

 

 

 

 

João Machado

 

 

 

 

Várias pessoas me remeteram separadamente o vídeo que acima coloquei, e que na realidade tem grande interesse. Lula da Silva, ao invés de muitos dos seus colegas governantes (julgo que não seria exagerado dizer: ao invés da grande maioria dos seus colegas governantes) defende o Wikileaks, e põe a questão: será que ao perseguir os seus responsáveis não se está a perseguir a liberdade de expressão? O presidente brasileiro cessante chama a atenção para o facto evidente de os responsáveis pelos escândalos revelados serem os autores das mensagens e não quem as trouxe ao conhecimento do público.

 

É óbvio que Lula, ao fazer aquelas afirmações sobre o Wikileaks, não conquistou muitas simpatias entre a classe política. E não vemos Tony Blair, Bill Clinton, muito menos Aznar ou Georges Bush, a fazer declarações semelhantes. E Mário Soares ou Freitas do Amaral? Ignoro se se pronunciaram sobre o assunto. Mas suspeito que também não terão concordado. Talvez o sentido das suas declarações variasse, conforme estivessem no poder ou na oposição. Também os agentes políticos (diplomatas, espiões, que também são agentes políticos, e de que maneira, assessores, etc.) não devem ter gostado de que lhes chamassem a atenção para o dever que têm de procurar ser mais rigorosos e empenhados no exercício das suas funções. Mas Lula ao pronunciar as suas declarações não foi com certeza ingénuo ou descuidado. Quem o observa percebe que não é uma coisa nem outra. Privilegiou a defesa da transparência e da democracia (não existe uma sem a outra) em vez de dar prioridade às vantagens pessoais que resultam de uma reforma tranquila, sem controvérsias.

 

José Carlos de Vasconcelos, na Visão de 6 de Janeiro de 2011, na sua coluna de opinião Portugal Comentário, sob o título O exemplo de Lula, faz um resumo do que foi a evolução de Brasil com Lula da Silva, e remata concluindo que as características pessoais de Lula, para além das suas opções políticas, contribuíram para o êxito dos seus governos. Êxito esse sem dúvida parcial, na medida em que o Brasil continua a ser um país de grandes contrastes. E Lula terá deixado grandes problemas por resolver, como a corrupção, o problema ambiental, a reforma agrária e, apesar de grandes melhorias, grande pobreza, com os seus fenómenos correlativos (crime violenta, número enorme de crianças e jovens desvalidos, doença). Contudo são inegáveis a melhoria de condições de vida de muitos, a maneira como o Brasil resistiu à crise financeira  mantendo-se na via do progresso económico, e o papel cada vez mais importante que vem desempenhando na cena internacional. José Carlos de Vasconcelos realça a sabedoria, a experiência de vida, a visão política, o amor e fidelidade ao povo e outras qualidades que fizeram de Lula o líder mais indicado para dirigir o país, na sua opinião.

 

Sem dúvida que essas qualidades foram muito importantes para os sucessos dos governos de Lula, nacional e internacionalmente. Por mim acho que Lula poderia e deveria ter ido mais longe em vários sectores. Lula pertence a uma ala esquerda moderada (não terá sido sempre assim) que recusa as fracturas que são necessárias para corrigir as grandes disfunções sociais. José Carlos de Vasconcelos relembra que fez "pactos com Deus e com o Diabo" para garantir a estabilidade governativa. Mas pessoalmente acho que Lula,  nascido no Pernambuco, emigrante dentro do Brasil, que engraxou sapatos, se tornou operário e sindicalista, com poucos estudos se lançou na política, se candidatou várias vezes à presidência do seu país (só foi eleito à quarta), é um caso raro num político que chegou tão longe. Porque manteve uma grande ligação com o seu povo, ao contrário dos que já acima referi (será que alguma vez a tiveram, essa ligação?), e de muitos outros. Dos políticos que conheço (dos que tenho uma ideia sobre as suas vidas e do que são como pessoas), por esse mundo, só talvez os cabo-verdianos Aristides Pereira e Pedro Pires tenham algumas parecenças com Lula da Silva. E Cabo Verde e o Brasil  são tão diferentes. De qualquer modo, foram as qualidades pessoais de Lula da Silva que emergiram quando falou do Wikileaks. Julgo que isso deve ficar para a história.



publicado por João Machado às 16:00
editado por Luis Moreira às 03:26
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Domingo, 12 de Dezembro de 2010
WikiLeaks – A Guerra da Internet
Augusta Clara de Matos

 
Apurem-se ou não os reais objectivos da WikiLeaks ao divulgar informação dos telegramas secretos da diplomacia norte-americana, seja qual for o desfecho que este caso vier a ter, ele já começa a ser conhecido como a Guerra da Internet porque as implicações na Rede não deixarão de se fazer sentir de uma ou de outra forma. Nada ficará como dantes. Entre a extrema liberdade de há vinte anos e a extrema segurança que é um perigo e, certamente, a maioria dos utilizadores não estará disposta a permitir, há toda uma gradação de possibilidades de que ainda não se vislumbram os contornos.

Entretanto, a revolta na Rede prossegue entre activistas do ciberespaço a favor e contra as acções da WikiLeaks dando origem a boicotes e a sabotagens de sites de empresas de seguidores de uma ou de outra posição. Há jornalistas que se manifestam contra esta acção da WikiLeaks a pretexto de não serem profissionais da informação a noticiarem o que tem vindo a lume. É muito estranho que o façam quando a maior parte deles vive presentemente enfeudada às posições ideológicas dos grandes grupos da comunicação social, desprezando o seu dever deontológico de nos dar a conhecer as realidades a que não temos acesso por nós próprios como cidadãos.

As acções de pirataria na Internet são praticamente impossíveis de combater, à semelhança das de pirataria em alto-mar, pelo mesmo motivo: não há legislação adequada para as condenar. A própria concepção da Rede é de molde a poderem tornear-se os obstáculos à passagem da informação. Nesse sentido, contribui igualmente uma grande variedade de sites, individuais ou de outra natureza, os blogs, o facebook, o tweeter, etc., através de cujas malhas é possível, actualmente, escapar.

Mas, perante a hipótese de todos os recantos da política suja dos Estados poderem ser vasculhados, muita cibernética se porá em acção para o evitar. É mais do que certo, a criatividade neste campo vai ser posta à prova já que seria dramático, à escala mundial e, por isso, não espectável, os Estados Unidos da América virem a fazer uso da sua capacidade de desligar a Rede em qualquer lugar do planeta quando muito bem lhes aprover.

Uma coisa é certa: este assunto não deixará de ser tema do dia durante muito tempo.

Nada do que se tem sido divulgado é coisa que nos espante, nem mesmo a vigilância dos EUA sobre a ONU. O que acontece é que, como dizia alguém num debate televisivo, “nos estão a esfregar com isso na cara”. E é verdade.

Que dúvidas temos nós sobre as acções do Big Brother actualmente mais activo, esteja Bush ou Obama na presidência? Continuo a não duvidar da boa vontade deste presidente dos Estados Unidos, mas não sou ingénua a ponto de acreditar que o poder, naquela superlativa máquina de negócios e de guerra, está integralmente nas mãos do presidente.

Consta que, do material divulgado pela WikiLeaks, não faz parte nenhum documento crítico às grandes linhas da política internacional de Barak Obama como o entendimento com a Rússia, a questão do Irão ou as negociações da paz no Médio-Oriente, apesar do malogro de que estas se revestiram até agora. No entanto, muitas outras acções condenam, sem apelo nem agravo, a chamada maior democracia do mundo.

Por princípio, e porque a experiência do tempo vivido assim mo ensinou, há muito tempo que não dou o meu apoio incondicional, logo à partida, a acontecimentos cuja virtude política parece óbvia. Lembro-me bem que bastantes houve transformados mais tarde em verdadeiros crimes contra milhares de seres humanos como, por exemplo, a política dos khmeres vermelhos no Camboja. Aqui navegamos em águas diferentes mas, pelo sim pelo não, é melhor acautelarmos a objectividade e ir seguindo sem emoções o decorrer dos acontecimentos.

E, para além da liberdade de informação na Internet correr riscos, temos perante nós a questão de saber que mais perigos vai, também, correr a democracia já tão adulterada em que nos querem convencer que vivemos. A justiça, o tão apregoado pilar dos chamados Estados de Direito, vai ser igualmente testada nos julgamentos quer do militar que passou as informações secretas ao editor da WikiLeaks, quer no deste próprio, cuja imediata prisão sob a acusação de crimes sexuais praticados na Suécia nos faz interrogar sobre a sua oportunidade. Conhecemos este tipo de processos ao longo da História.

A informação que tem chegado faseadamente aos jornais irá moldando a nossa opinião. Necessitamos de estar bem atentos porque este não é um assunto de somenos importância.

A divulgação das informações secretas sobre a ingerência dos serviços da inteligência norte-americana nos interesses de outros países e no interior das próprias organizações internacionais, com todas as conivências que venham a ser reveladas, tem, sem dúvida, foros duma crise mundial que, no entanto, como sabemos, o sistema capitalista tão bem tem sabido ultrapassar.

Como não se, nesse tabuleiro, a rede não é menos intrincada do que a do mundo virtual? Muitas malhas, muitos nós dão segurança aos ameaçadores e aos ameaçados em simultâneo, se é que a distinção entre uns e outros é assim tão grande. Os povos que eles governam são outra coisa, uma realidade bem distinta. Passam ao lado destas maquinações.

Muitas ligações se irão fazer e desfazer para se anularem ressentimentos e, na paz dos deuses do capital, grandes potências e os seus capatazes instalados no poder dos países pobres passarem o apagador no quadro do que parecia uma ameaça para uns e outros.

Mas a Guerra da Internet está para durar. Por enquanto é guerra civil. Passará ou não a outra escala? Creio que não. Só se for contra todos nós, os cibernautas e a liberdade de informação.



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publicado por Carlos Loures às 11:00
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010
VerbArte - A Comunicação Social e a Democracia



Jean Jaurès (1859-1914), líder socialista francês.


João Machado


Escrevi este post no início do Estrolábio. Embora tenham decorrido apenas pouco mais de seis meses, o problema da liberdade de expressão está desde então ainda mais agravado. Veja-se o que se está a passar com o Wikileaks. Não conheço os mentores desse projecto, não sei quem são. Mas sei que o que têm feito é da maior importância para a liberdade e a democracia. Ajudará com certeza a compreender e a interpretar muitos dos acontecimentos recentes, que tanto nos têm afectado. E porá à vista de todas algumas das mãos invisíveis que estiveram por detrás desses acontecimentos. Acima acrescentamos um fotografia de Jean Jaurès, líder socialista, defensor de Dreyfus e pacifista, que foi assassinado por um nacionalista fanático.

É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.

A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.


publicado por Carlos Loures às 16:00
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