Sexta-feira, 15 de Julho de 2011
Mais uma Ode, de Ricardo Reis

 

 

 

 

 

 

 

Só esta liberdade nos concedem

Os deuses: submetermo-nos

Ao seu domínio por vontade nossa.

Mais vale assim fazermos

Porque só na ilusão da liberdade

A liberdade existe.

 

Nem outro jeito os deuses, sobre quem

O eterno fado pesa,

Usam para seu calmo e possuído

Convencimento antigo

De que é divina e livre a sua vida.

 

Nós, imitando os deuses,

Tão pouco livres como eles no Olimpo,

Como quem pela areia

Ergue castelos para encher os olhos,

Ergamos nossa vida

E os deuses saberão agradecer-nos

O sermos tão como eles.



publicado por João Machado às 07:00
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Quinta-feira, 14 de Julho de 2011
ENCONTROS IMAGINÁRIOS NA BARRACA - por Hélder Costa

 

 

Camaradas, amigos, companheiros

 

Penso que este escandalo Universal das agências de "rating"(talvez de ratice), tem um lado muito positivo. Acho que dá para perceber o lado discricionário e injusto de juris e concursos pretensamente sérios e impolutos, quando na verdade não passam de representantes de lobbies e máfias.

 

A Barraca sabe do que fala porque é perseguida e menorisada desde os anos 80!!! Mas, como não somos nem "pigs" nem marginais e nos habituámos desde sempre à luta, cá estamos com sorriso aberto perante esta ignominia socio-cultural. E por isso temos sabido responder a mais cortes da dita crise ( que, como sempre, só ataca alguns) . "As peugas d e Einstein", 3 meses em cena e digressões pelo país ; as Terças a ler ; os concertos de António Vitorino de Almeida e os Encontros Imaginários, quinzenalmente à 2ª feira. E ainda vai estrear no dia 20 "D. Maria, a louca", um trabalho de Maria do Céu Guerra. Muito trabalho e muito feliz trabalho. Em Agosto vamos de férias, mas queremos fazer uma despedida em grande dos nossos

 

Encontros Imaginários com Cervantes, Chaplin e Rasputin. Referencais a D. Quixote, Charlot e ao misticismo e imoralidade da Corte Czarista nas vésperas da Revolução Soviética. Reservas 213965360--- dia 18, 21, 30--- Bar

da Barraca.

 

E, já agora, vejam algumas cenas "Tempos Modernos":

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 09:00
editado por João Machado em 13/07/2011 às 15:29
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Fazer Horas, por Pedro Tamen

 

 

 

 

 

 

Adelina: a bruma que era ontem

voa – não é já. Foi-se tão prestes

como o João das Índias. E foi lá

que um pêro se ficou – tão são,

tão nosso irmão.

 

Adelina: que é do candeeiro

que tu dizias fosco? A luz que deu

dá ora gosto. Por isso aqui te digo

que após a morte é um minuto grande

e outro umbigo.

 

E está-se, Adelina. Se como burro

dói, é vero, mas está-se.

Até que passe.

 

 

 

 

Este poema foi incluído em Poemas a Isto, de 1962. E fomos encontrá-lo no Retábulo das Matérias, editado pela Gótica em 2001, e que agrupa a poesia de Pedro Tamen, de1956 a 2001. Ao Pedro Tamen e à Gótica o nosso obrigado e os nossos cumprimentos.



publicado por João Machado às 07:00
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2011
Epitáfio, de Políbio Gomes dos Santos

 

 

 


 

 

Menino, bem menino, fiz o meu balão

Papel de seda às cores...

- Tantas eram!

Ai, nunca mais as vi, nos olhos se perderam.

Quando a tarde morria o meu balão subiu

E tão direito ia, tão veloz correu

Que eu disse: "Vai tombar a Lua

E talvez queime o céu."

 

Anoiteceu.

E no horizonte o meu balão era uma rosa

Vermelha, não minha, aflitiva,

Murchando,

Poisando na água pantanosa

De além.

 

Ninguém o viu.

 

Ninguém colheu a angústia dum balão ardendo.

Somente a água verde rebrilhou acesa,

Clamorosa e podre,

Como nos incêndios de Veneza

E rãs, acreditando o mal mortal e seu

Foram fugindo, pela noite fria,

Do balão que ardeu.

 

Ó tu, quem sejas, o balão fui eu!

 

 

 



publicado por João Machado às 07:00
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Terça-feira, 12 de Julho de 2011
O Autor aos seus versos, de Bocage

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

Chorosos versos meus desentoados,

Sem arte, sem beleza, e sem brandura,

Urdidos pela mão da Desventura,

Pela baça Tristeza envenenados:

 

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

No mudo esquecimento a sepultura;

Se os ditosos vos lerem sem ternura,

Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

 

Não vos inspire, ó versos, cobardia

Da sátira mordaz o furor louco,

Da maldizente voz a tirania:

 

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

Que não pode cantar com melodia

Um peito, de gemer cansado e rouco.



publicado por João Machado às 07:00
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Segunda-feira, 11 de Julho de 2011
Urgentemente, de Eugénio de Andrade

 

 

 

 

 

 

 

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.

 

É urgente destruir certas palavras,

ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos,

muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras.

 

Cai o silêncio nos ombros e a luz

impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente

permanecer.



publicado por João Machado às 07:00
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Domingo, 10 de Julho de 2011
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, de Luís de Camões

 

 

 

 

 

 

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

 

E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía.



publicado por João Machado às 07:00
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Quinta-feira, 7 de Julho de 2011
RANO RARAKU, de André Breton. Tradução de Ernesto Sampaio.

 

 

 

 

 

 

 

Como o mundo é belo

A Grécia nunca existiu

Não passarão

O meu cavalo acha a ração na cratera

Homens-pássaros remadores arqueados

Voaram-me em volta da cabeça porque

Também sou eu

Quem lá está

Atolado a três quartos

A troçar dos etnólogos

Na amena noite do Sul

Não passarão

A planura não tem fim

Quem se destaca é risível

As altas imagens caíram

 

De Xénophiles (1948). Este poema foi incluído no poemário  da Assírio & Alvim, de 2004.  Aos responsáveis da editora, à editora e aos descendentes de André Breton apresentamos os nossos cumprimentos e o nosso obrigado.



publicado por João Machado às 07:00
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Papel amarrotado desse chá que tomaste, de Pedro Tamen

 

 

 

 

 

 

Papel amarrotado desse chá que tomaste

na tarde de qual dia, ou o copo de vidro

depressa transformado na total transparência,

não é que inexistente, mas de mínima espessura

sobre o cais deste porto onde ninguém aporta,

não o papel rasgado, não o desfeito em fogo,

incolor, inodoro, antraz ignoto, anuro,

coisa que sim, que é, mas já não o que foi,

vazia intensidade, inútil excrescência

da vida tilitante

                                   - eis o que tenho agora

quando o dia amanhece e cai no saco roto

da débil complacência com que já não me vejo.

 

Este poema incluiu Memória Indescritível, 2000. Ao Pedro Tamen e à Gótica, responsável pela edição em 2001 do Retábulo das Matérias, os cumprimentos e o obrigado de VerbArte.



publicado por João Machado às 07:00
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2011
Literatura Americana - III, por João Machado

 

 

 

 

 

 

O Movimento Realista e Novas Direcções

 

Assinala Foerster que em 1890 nos EUA houve mais greves do que em qualquer outro ano do século. A situação social e económica continuou agitadíssima nos anos seguintes, até 1896, ano em que foi eleito Presidente o republicano Mckinley. Entretanto,  em 1898 foi anexado o Hawai. Desencadeia-se a guerra com a Espanha, para “libertar” Cuba, e depois com as Filipinas. Os EUA entram na posse de uma série de territórios além-mar (como Porto Rico e as Filipinas), mantêm protectorados sobre Cuba, Panamá e Nicarágua, intervêm no Extremo Oriente. Foerster refere que o Washington Post diz na época que “O gosto do Império está na boca do povo do mesmo modo que o gosto de sangue está na selva”. Esta frase brutal é talvez exagerada nalguns aspectos, mas sem dúvida que ajuda a explicar muito da história americana até hoje.

 

Nesta altura são muitos os aspectos novos na Literatura Americana. Ela cresce enormemente e conhece uma série de correntes e de inovações. Aparece uma literatura de ideias, em avultam HenryGeorge(1839-1897), Thorstein Veblen (1857-1929), sociólogo reputado, William James (1842-1910), psicólogo e filósofo, defensor do pragmatismo, e Henry Adams (1938-1918), historiador. O debate social tem fortes repercussões na ficção. A novela Looking Backward (1888), de Edward Bellamy, vende mais de 500.000 exemplares. Upton Sinclair (1878-1968) escreve A Selva (1906), sobre a destruição de uma família imigrante pela exploração a que estão sujeitos. A corrente naturalista ganha força, destacando-se Stephen Crane (1871-1900), com Maggie: A Girl of the Streets (1893) e The Red Badge of Courage (1895), Frank Norris (1870-1902), seguidor de Zola, que escreveu sobre a epopeia do trigo e Jack London (1876-1916), o mais famoso a nível mundial, e com enorme influência em muitos escritores. Houve também Theodore Dreiser (1871-1945), cujas obras mais famosas terão sido Sister Carrie (1900) e An American Tragedy (1925). Persiste uma corrente que alguns classificam de tradicionalista, na medida em que a integram escritores que estudam a realidade a partir de velhos valores. Incluirá (de modo talvez discutível) Edith Wharton (1862-1837), Willa Cather (1873-1947) e Sinclair Lewis (1885-1941), cuja obra inclui Main Street (1920), que terá sido classificado como “o livro mais importante da década do pós-guerra”, Babbitt (1922) e Elmer Gantry (1927), e foi o primeiro americano a vencer o Prémio Nobel de Literatura, em 1930.

 

Outro aspecto marcante é o renascimento da poesia norte-americana. Ele foi marcado pelo primeiro número de Poetry: A magazine of Verse, que apareceu em Chicago em 1912, e foi editado por Harriet Monroe. Foerster refere o poema dedicado a Chicago, Hog Butcher for the World, de Carl Sandburg (que VerbArte hoje publicou às 7.00). E dá-nos uma lista parcial de 22 livros de poesia publicados de1912 a 1917, entre cujos autores aparecem Amy Lowell (1874-1925), Ezra Pound (1885-1972), Carl Sandburg (1878-1967), Robert Frost (1874-1963) e T. S. Eliot (1888-1965).

 

A literatura norte-americana é um mundo que não cabe num pequeno post como este. A dramaturgia, o romance policial, outras correntes e especialidades, a análise do que foi a geração perdida, são questões que aqui não podemos tratar por falta de tempo e de espaço. Vamos referir apenas que escritores como James T. Farrell (1904-1979), John Steinbeck (1902-1968), John dos Passos (1896-1970) e Erskine Caldwell (1903-1987) são quatro nomes importantes de uma literatura de protesto que surge como consequência das convulsões que dilaceram nos anos 20 e 30 do século passado os EUA e o mundo.

 

Não se pode terminar sem referir Scott Fitzgerald (1896-1940), Ernest Hemingway (1899-1961) e William Faulkner (1897-1962). Os contemporâneos ficarão, tal como os temas acima referidos para outro post.

 

Scott Fitzgerald – escreveu novelas e contos, estudou em Priceton e combateu na I Guerra Mundial. A sua obra é grande, mas o expoente será The Great Gatsby (1925), que aborda o problema sucesso fácil e a qualquer preço, a partir da história de um contrabandista de álcool que quer ser aceite pela sociedade de Long Island. Outros livros seus famosos foram This Side of Paradise (1920) e Tender is the Night (1934).

 

Hemingway – a sua prosa, com um estilo muito cuidado, foi a sua marca dominante. Foi muito influenciado por Mark Twain e Stephen Crane, principalmente. É difícil escolher entre The Sun Also Rises (1926), A Farewell to Arms (1929) ou For Whom the Bell Tolls (1940). Serão os máximos da sua obra … Mas depois de The Old Man and the Sea (1952)… Prémio Nobel em 1954. Tido como o símbolo máximo dos escritores geração perdida.

 

William Faulkner – intérprete e crítico do espírito do Sul norte-americano profundo, a sua obra mais famosa será The Sound and the Fury (1929), sobre a decadência de uma família, outrora rica e famosa. Curiosamente, começa o romance partindo do olhar de um débil mental. Faulkner foi poeta, contista e escreveu uma obra muito vasta, que só relativamente tarde começou a ser reconhecida. Prémio Nobel em 1949. 



publicado por João Machado às 19:00
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CHICAGO, de Carl Sandburg

 

 

 

 

 

 

(1878 - 1967)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


   

 

 

     

 

 

 

     HOG Butcher for the World,
     Tool Maker, Stacker of Wheat,
     Player with Railroads and the Nation's Freight Handler;
     Stormy, husky, brawling,
     City of the Big Shoulders:

They tell me you are wicked and I believe them, for I
     have seen your painted women under the gas lamps
     luring the farm boys.
And they tell me you are crooked and I answer: Yes, it
     is true I have seen the gunman kill and go free to
     kill again.
And they tell me you are brutal and my reply is: On the
     faces of women and children I have seen the marks
     of wanton hunger.
And having answered so I turn once more to those who
     sneer at this my city, and I give them back the sneer
     and say to them:
Come and show me another city with lifted head singing
     so proud to be alive and coarse and strong and cunning.
Flinging magnetic curses amid the toil of piling job on
     job, here is a tall bold slugger set vivid against the
     little soft cities;

Fierce as a dog with tongue lapping for action, cunning
     as a savage pitted against the wilderness,
          Bareheaded,
          Shoveling,
          Wrecking,
          Planning,
          Building, breaking, rebuilding,
Under the smoke, dust all over his mouth, laughing with
     white teeth,
Under the terrible burden of destiny laughing as a young
     man laughs,
Laughing even as an ignorant fighter laughs who has
     never lost a battle,
Bragging and laughing that under his wrist is the pulse.
     and under his ribs the heart of the people,
               Laughing!
Laughing the stormy, husky, brawling laughter of
     Youth, half-naked, sweating, proud to be Hog
     Butcher, Tool Maker, Stacker of Wheat, Player with
     Railroads and Freight Handler to the Nation.



publicado por João Machado às 07:00
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Terça-feira, 5 de Julho de 2011
A Literatura Americana – II, por João Machado

(Continuação)

 

 

O Aparecimento do Realismo

 

Sobretudo após o fim da Guerra Civil (1861-1865), os Estados-Unidos conhecem um processo de crescimento e desenvolvimento para o qual é difícil, senão impossível, encontrar um paralelo na história do mundo. O crescimento industrial gigantesco, o desenvolvimento económico em todos os sectores, o crescimento populacional exponencial alimentado pela imigração, e a marcha para oeste (onde os pioneiros vão desbravar algumas das terras mais férteis do mundo) são componentes desse princípio. Assiste-se a um crescimento desmesurado do capitalismo. A outra face da moeda são o agravamento das tensões sociais, da miséria e das depressões económicas. A especulação financeira invade a economia. Foerster refere o papel dos magnatas no processo, procurando mostrar o lado positivo e o negativo. Mas não deixa de apontar o caso de Jim Fisk, aventureiro, corretor da bolsa de Nova Iorque, assassinado por um rival. Não esquece os índios, que são perseguidos, subjugados e reduzidos à miséria, principalmente devido ao massacre dos búfalos, para facilitar a expansão do caminho de ferro e a introdução do gado.

 

 

A literatura tinha de reflectir estas realidades tão gritantes. Em 1874, Mark Twain (Samuel Langhorne Clemens, 1835-1910), em conjunto com Charles Dudley Warner (1829-1900),  publica a sua primeira obra de ficção, The Gilded Age, uma sátira social inspirada num caso real. É de salientar que Foerster informa que a ficção ficou muito aquém da realidade, pois o caso real envolveria verbas muito maiores do que as contadas no livro. Mark Twain tornou-se um escritor de nível mundial, porque, para além do seu formidável talento e do seu sentido de humor, as suas obras mais conhecidas, The Adventures of Tom Sawyer e The Adventures of Huckleberry Finn, não só reproduzem os modos de falar e o estilo de vida da região do Mississípi de uma maneira muito realista, mas sobretudo transmitem valores reconhecidos universalmente, mas pouco compatíveis com os dominantes nos EUA em expansão.

 

Para além de Mark Twain, dois outros escritores estão na vanguarda desta transição do romantismo para o realismo. William Dean Howells (1837- 1920), natural do Ohio, teve desde novo uma experiência de vida que o despertou para as realidades à sua volta, mas  ao mesmo tempo recebeu uma educação clássica. Admirava Poe e Jane Austen. Os excessos do romantismo, contudo, fizeram com que se inclinasse para o realismo. De entre as suas obras destaca-se The Rise of Silas Lapham (1885), cujo personagem central é um empresário que se arruína devido à sua decisão de vender a sua fábrica de um modo ético.

 

Henry James (1843-1916), nasceu em Nova Iorque, e pertencia a uma família culta e abastada. O filósofo William James era seu irmão mais velho. Viveu muito tempo na Europa, tendo falecido em Londres. Osproblemas básicos que ressaltam das suas obras, logo desde o início da sua carreira, são a contradição entre as maneiras de ser e de proceder dos americanos e dos europeus, as realidades conflituais da arte e da vida e a confusão entre a psicologia e a ética na abordagem do bem e do mal. Deixou uma obra gigantesca. The Portrait of a Lady (1981) foi a sua primeira obra a ter grande êxito junto do público.

 

Outros autores se poderiam referir. Refira-se apenas Harriet Beecher Stowe (1811-1896), autora de Uncle Tom’s Cabin (1851), obra talvez de escasso valor literário, mas de poderoso conteúdo humano, e a quem Lincoln disse quando lhe foi apresentado, já se travava a Guerra Civil: “Como é que uma senhora tão pequena pode ter causado uma guerra tão grande?"

 

(Continua) 

 

 

 



publicado por João Machado às 15:00
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Ida sem volta, de Mário-Henrique Leiria

 

 

 

 

 

 

 

Acordar na cidade logo de manhã

e esperar a noite com exactidão

no encontrar do último comboio

que parte conciso para outro dia

sair na estação que é central

de outra cidade já a anoitecer

onde talvez seja o lugar habitual

do vendedor ambulante das sortes

quase grandes

no caminho designadamente antecipado

pelo voo dos pássaros migradores

que agora mesmo se vão de partida

para outra cidade de amanhecer definitivo

e depois da viagem sempre conhecida

da porta em porta na cidade

adormecer ao aviso da madrugada

e esperar o sinal propício indicado

pelo caminho persistente dos peixes

a subir o rio exaustivamente nele

acordar na noite da noite na cidade

até chegar o momento muito matinal

de partir no primeiro comboio efectivo

da manhã de outra cidade a entardecer

 

 

 

Este poema integra a obra Contos do Gin-Tonic, de Mário-Henrique Leiria. Reproduzimo-lo a partir da 6.ª edição, da Editorial Estampa. Pedimos a compreensão da da editora, assim como a dos herdeiros do autor. A ambos enviamos os nossos cumprimentos.



publicado por João Machado às 07:00
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Segunda-feira, 4 de Julho de 2011
A Literatura Americana - I, por João Machado

 

 

 

 

 

 

A melhor maneira de conhecer um povo é estudando a sua cultura. E a sua literatura pode revelar-nos os aspectos mais diversos da sua vida, da sua história e das maneiras de ser das suas gentes. Estudando-a ao longo dos tempos, conseguimos chegar a uma ideia dos valores desse povo, das suas ambições, dos seus sofrimentos e do caminho que percorreu.

 

O Professor Norman Foerster no seu livro Image of America, de 1962, traduzido no Brasil por Lúcia Carvalho Alves, para a Editora Lidador, do Rio de Janeiro (colecção Mimesis), com o título A Literatura como Imagem, distingue cinco fases na história da literatura dos Estados Unidos.

 

A Época Puritana.

 

Em 1620 um grupo de puritanos, que fugiam das perseguições em Inglaterra, fundaram Plymouth, em Massachusetts. Depoisvieram vagas sucessivas de emigrantes. Deram à Nova Inglaterra uma carácter especial, que, em alguns aspectos, perdurou até hoje. William Bradford (1590 – 1657), que governou a colónia de Plymouth durante mais de trinta anos, escreveu a History of Plymouth Plantation, onde conta a história do seu grupo de peregrinos e as razões porque viajaram até à América. Foerster assinala que a colónia era governada pelo clero, cujos elementos eram pessoas conhecedoras de teologia, hebreu e grego. E os puritanos eram ingleses, fortemente marcados pela cultura inglesa, e desejosos de assim continuar, transmitindo aos seus filhos a cultura que lhes fora legada. Escreveram sobretudo biografias e autobiografias, sermões e outros textos muito enformados pelo espírito religioso. A maior figura desta época terá sido Jonathan Edwards (1703 -1758), pregador revivalista, defensor do calvinismo.

 

A Idade Neoclássica

 

Foerster chama a atenção para que o século XVIII já não foi dedicado à religião mas à ciência e à política. Nesta fase a ficção continuou num lugar secundário nas letras norte-americanas. Liam-se, é verdade, escritores ingleses como os romancistas Defoe, Fielding, Sterne, poetas como Alexander Pope, e também Jonathan Swift, o Dr. Johnson e outros. Mas os escritores locais mais lidos eram, sem dúvida Benjamin Franklin (1706 – 1790) e Thomas Jefferson (1743 – 1826), o presidente da comissão que redigiu a Declaração da Independência. Os escritos políticos eram numerosos, como o Common Sense e The American Crisis, de Thomas Paine (1737 – 1809). Deu-se grande ênfase ao estudo dos autores clássicos. Data de 1789 The Power of Sympathy, de William Hill Brown, a primeira novela americana, segundo nos informa Foerster. Em 1767 tinha sido representada em Filadélfia (o maior centro cultural do país na época) The Prince of Parthia, uma peça de Thomas Godfrey, a primeira a ser encenada por uma companhia profissional. Philip Morin Freneau (1752 – 1832) foi o principal poeta da época.

 

O Movimento Romântico

 

A América entrou numa fase de expansão rápida, sobretudo depois da guerra com a Inglaterra de 1812, e do fim das guerras napoleónicas. A população aumentou, a expansão para o oeste abriu novos horizontes. As diferenças regionais, em meados do século XIX, eram enormes. Houve como que uma recuperação do espírito religioso. Na Europa irrompeu o romantismo, curiosamente alimentado também pela epopeia americana. Em 1820, diz-nos Foerster, alguém perguntava: “Quem lê um livro americano?”. Esta pergunta, pouco tempo depois, deixou de ter razão de ser. Em Nova Iorqueapareceu a Escola Knickerbocker, uma associação de escritores, que está na origem do Movimento Romântico norte-americano. As suas figuras principais foram Washington Irving (1783–1859), James Fenimore Cooper (1789–1851) e William Cullen Bryant (1794-1878). Em Setembro de 1836, forma-se o grupo de Concord (uma vila perto de Boston), cujas figuras mais notáveis terão sido Ralph Waldo Emerson (1803-1882) e Henry David Thoreau (1817-1862). Edgar Allan Poe (1809-1849), poeta, contista, crítico literário, figura maior da literatura mundial, tem como tema dominante a procura da beleza que a tudo supera, e procura aliar-lhe o culto pelo exótico. Nathaniel Hawthorne (1804-1864) escreve The Scarlet Letter, sobre os efeitos do pecado e da sua ocultação. Herman Melville (1819-1891), ao contrário dos outros românticos norte-americanos, vira-se para temas mundiais e contemporâneos, e tem como obra máxima Moby Dick. Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882) era o poeta mais lido na altura. James Russell Lowell (1819-1891) escreveu The Biglow Papers. Walt Whitman (1819-1892) é considerado como o maior poeta norte-americano do século XIX. E muitos outros nomes acompanham estes, passando a literatura norte-americana para a primeira linha mundial.

 

(Continua)



publicado por João Machado às 15:00
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Que despierte el leñador - por Pablo Neruda

 

Publicamos um fragmento do extenso poema Que despierte el leñador, do grande poeta chileno Pablo Neruda, Prémio Nobel da Literatura. É um poema integrado na colectânea Canto General, obra épica sobre o continente americano - nos seus 231 poemas, num  total de quinze mil versos, traça uma história das Américas e invoca os libertadores, os criadores das novas nações e os seus ideais em face da profunda injustiça social e da repressão política que, em meados do século passado, manchava a beleza do Novo Mundo. Os Estados Unidos, não são esquecidos e em . Que despierte el leñador, dedicado a Walt Whitman, uma das partes em que se divide a obra, Neruda invoca as raízes puras da grande nação, a generosidade dos ideais dos próceres da sua independência, comparados com a política agressiva e imperialista seguida pelos governos de Washington:

 

 

 

Eres hermosa y ancha Norte América.

Vienes de humilde cuna como una lavandera,

junto a tus ríos, blanca.

Edificada en lo desconocido,

es tu paz de panal lo dulce tuyo.

Amamos tu hombre con las manos rojas

de barro de Oregón, tu niño negro

que te trajo la música nacida

en su comarca de marfil:

amamos tu ciudad, tu substancia,

tu luz, tus mecanismos, la energía

del Oeste, la pacífica

miel, de colmenar y aldea,

el gigante muchacho en el tractor,

la avena que heredaste

de Jefferson, la rueda rumorosa

que mide tu terrestre oceanía,

el humo de una fábrica y el beso

número mil de una colonia nueva:

tu sangre labradora es la que amamos:

tu mano popular llena de aceite.



publicado por Carlos Loures às 07:00
editado por João Machado em 03/07/2011 às 22:42
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EDITORIAL
AUTORES
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Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

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Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

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Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Moreira de Sá

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Hélder Costa

João Machado

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