Sábado, 9 de Julho de 2011
Um Novo Coração 47 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 47

 

 

 

QUASE  EPÍLOGO

 

 

A constante penumbra da Casa de Saúde, que me parece sempre sem janelas, me encobre na noite sempre interminável. Eu me debruço sobre a minha imagem que percorre a penumbra; a vejo embaciada, fora de foco, e então me contorço, me contorço na procura de minha imagem, quase afogado na impossibilidade molhada de captar o meu rosto, de encontrar um ponto de apoio para voltar às coisas. Mais me contorço, mais me perco, afundando num oco espaço que vejo tanto como a vida, quanto como a morte. Morrer não é difícil, difícil é retornar à tona da vida ansiada, quase perdida na penumbra.

 

Pouco a pouco me faço menos contorcionista, lentamente vejo algo a mais dentro da penumbra, e abraço então as pessoas amadas.

 

De repente vejo luzes na penumbra que se dilui. Anna Rosa passa serena e bela diante de mim e vai abrindo janelas, as muitas janelas da Casa de Saúde.



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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011
Um Novo Coração 46 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 46

 

 

Arco, última jornada, 25/02/05

 

 

Hoje é o meu último dia na “Casa de Saúde”. Como sempre, já antes do alvorecer eu acordara, porém com a tranquilidade própria da tomada de consciência das coisas que estão acabando. Deitado na minha cama, me vinha de procurar devassar através da cortina da janela as sombras densas que cobriam a paisagem inteiramente conhecida. Mais que ver, eu intuía os contornos das colinas recobertas de verde e o subir dos caminhos na direção dos montes mais altos. Pela constância do olhar fixado e pela força da minha miopia que desde há muito declina e se esforça sempre na procura de superamentos, as sombras como que começam a dissolver-se e a minha imaginação das coisas cede o lugar às coisas mesmas, agora quase percebidas.

 

São já as seis e daqui a pouco entrarão as enfermeiras; mas hoje elas quase não me dão atenção, como se eu já tivesse partido.

 

Desço para o café um pouco antes das oito e caminho pelos corredores que se me fizeram familiares, mas caminho sem considerar as pessoas que começam a circular por eles. Caminho passeando, absorvido por uma vontade de alargar os espaços e assim encontrar-me não confinado em corredores, mas dentro de estradas que me levem para longe. Por elas vou sem pensar senão em ir, para onde sei que devo chegar. Então tudo é tranquilo e assim vou, sentindo-me muito leve, sereno, quase possuído do poder de caminhar pelo ar que me circunda e que é frio, mas de um frio confortante.

 

No salão do bar não me sento nas poltronas, mas estou de pé diante das janelas envidraçadas e fixo o jardim lá fora. A luz pálida do inverno desenha em aquarelas a paisagem: são cores tênues, como que filtradas pela luz que a medo revela os protagonistas da paisagem e seus contornos, linhas, formas.

 

O dr. Citton, apoiado na sua muleta, mas muito serenamente, me faz retornar ao salão e juntos vamos para o café da manhã. Ele hoje vai fazer um dos seus últimos testes e depois irá à piscina para um longo banho terapéutico. Então lhe digo que parto antes do almoço e que lhe deixarei um meu livro trazido por Gianni com o carro de Paola que me levará de volta para Veneza.

 

Depois de despedir-me do meu amigo médico, subo devagar para o segundo andar e vou preparar definitivamente as minhas coisas. Em verdade quase tudo já está pronto, devo somente decidir o que fazer dos objetos de uso fornecidos pela “Casa de Sáude”. Os chinelos brancos e felpados que me serviram principalmente para minhas andanças no banheiro, ali os deixo; assim também faço com as toalhas de banho e de rosto, com o roupão branco. Esse, se o quisesse para mim, me custaria 25 euros; não quero. Todo o resto, roupas e livros, esses já estão arrumados na minha maleta e na minha pasta. Devo evitar o excesso de peso, sempre pensando que já se passaram quase dois meses da minha operação, mas o meu caro osso esterno dá ainda sinais das penas sofridas. As horas da manhã correm velozes nesse divagar sem fim e no cumprimentar médicos, enfermeiros e enfermeiras que me sorriem como que felizes por me verem tão bem disposto na minha partida. Todos me dizem, certamente sem atenção para o meu determinado olhar    breve nos revemos, não é verdade?

 

Gianni deve chegar ao meio-dia e faltam somente quinze minutos. Desço, pago a conta de meus extras na portaria e me sento na sala-de-espera. Gianni chega, me abraça contente   como você está bonito!  Gianni me diz que é melhor partir logo; almoçaremos pela estrada; nos preparamos para a viagem de volta.

 

O carro guiado por Gianni deixa Arco, volto para Veneza. Volto. Estou seguro que volto; retorno com aquele gosto que sempre provo em recuperar as minhas coisas vividas. Eu as quero, como quero a volta. Sei que quero é estar de novo diante das coisas que compõem a minha vida, as minhas experiências, os meus movimentos, o meu reconhecimento do estar no mundo, no meu.

 

O carro corre veloz e livre pela auto-estrada. Admiro a paisagem e sinto algo de muito diverso daqueles sentimentos vividos na viagem de duas semanas atrás. Agora vivo de certezas, de claras certezas. Certamente se me olho estou mais magro, até mesmo muito mais magro que o normal. Estou pesando sessenta quilos; nesses últimos dias tive medo de chegar a pesar menos de sessenta. Olhava para a balança com quase temor dos cinquenta e nove. A enfermeira encarregada de registrar o peso dos pacientes, a que veio do Panamá e me falava só em espanhol, ria e me dizia   usted está muy bien! Mas eu via com desconfiança aqueles sessenta quilos. Quero voltar ao meu peso ideal, sessenta e quatro.

 

Gianni diz que está na hora do almoço. Então, caro leitor, queridos leitores que me acompanharam até aqui, só agora, de repente, me recordo que ainda não lhes comuniquei, como certamente eu tinha prometido, o menú, a lista complementar que  sempre tive à disposição para o caso de querer mudar os pratos de meus já sobejamente conhecidos almoços e jantares na “Casa de Saúde”. Mas agora, queridos amigos, não quero esconder mais nada, pelo contrário sinto grande satisfação de fazer com que vocês todos conheçam a lista suplementar, a dos muitos maiores prazeres em confronto com os pratos do dia a dia que ajudaram a fazer com que agora eu me sinta como um passarinho leve, quase somente aéreo. Faço ver a lista, prestem atenção, ela aqui está. E podemos começar a devorá-la -

 

Arenque norueguês defumado, com maçãs grannysmith num tapete de saladas, e com iogurte aromatizado às cebolinhas;

Bresaola (e para quem não sabe, trata-se de uma espécie de salame, de carne bovina salgada e secada) da parte da ponta da anca, com salada especial e nozes;

Controfiletto de carne bovina ai ferri;

Filé de boi ai ferri;

Queijos mistos;

Paillard de novilho ai ferri;

Presunto cozido de Parma, um pouco defumado na madeira;

Presunto crú de Parma;

Salmão defumado;

Bifinhos de novilho ao limão;

Truta defumada com saladinhas especiais da época;

Pudins;

Sorvetes;

Iogurtes;

Sucos de fruta;

Bolos;

Tortas.

Frutas – maçã, pera, kiwi, laranja, tangerina, abacaxi, pêssego, caqui etc.

 

Enquanto leio para os meus caríssimos leitores o menú suplementar àquele outro normal de massas várias, risotos, pratos de peixes e mariscos os mais distintos, pratos de carne de boi e de vitelo, coelho, frango, galinha, e também sopas, muitas sopas e verduras e legumes e saladas as mais coloridas, empenhado em lhes pedir sempre e sempre desculpas por ter escondido tão longamente essas revelações, enquanto leio a lista epicuréia vejo que muitos, muitíssimos deles se me aproximam fisicamente. Então descubro que uma grande e magnífica mesa já está ali posta. Anna Rosa, com sua irmã Mariella, pegaram Gianni pela mão e começaram a preparar tudo. Logo chegou meu irmão Ariel e com ele minha cunhada Ildete, mais os meus sobrinhos Rossana, Gisele e Rodrigo. A mesa se alarga sempre. Chegam meus primos, Malusa e Quim, Penha e Luís, mais outros três sobrinhos, Nélia Paula e André, com Nelly; Amanda, com Liana. Começa uma grande festa, cada um chega com mais pratos. Todos estão convidados, parentes, amigos, conhecidos, leitores de todas as partes. Vão chegando, e logo se sentam e comem e bebem, pois não falta vinho e também a cerveja. Chegam de todas as partes, vindos das águas distantes e das estradas mais compridas, de navio, avião, carro, trem. Logo vejo meus amigos de Veneza, todos à mesa. Ali estão comigo Lodovici, Roberto Marina e Luca, Maurizio e Michela, Alberto e Mariele, Candido e Gavina, Vilma e Vega, Manuela Francesco e Antonio Rizzoli, Sandro Meccoli, Alfredo e Maria Camilla Bianchini, Gabriella e Marino Peruzza, Gabriella e Giorgio Zaninni, Vittorio Pescatori, Lida e Gianni Perini, Laura e Ennio Gallo que é ao mesmo tempo o romancista Paolo Barbaro, Gianguido e Louise, Paola Brugnera, Maria Luisa e Philip, Margit, Giusi, Marina Storaci, Adriana Vigneri, Bruna Pieresca, Silvana, Donatella, Gabriele e Grazia, Lilli e Silvano, Mathilde Dolcetti, Bianca, Alberta e Sergio Perosa, Marra, Rino, Mario Togni, Pajalich, Anna Maria Carpi, Eugenio Bernardi, Gianni Vianello, Mario Vianello, Gigi Rincicotti e Donatella, Aldo Bresciani, Matteo Lo Greco e Julieta, Sandro Castro, Romero Pilar e Milena, e quem, lá mais adiante? Claudio Massaria, Dante, Alberto, Otello e Daniela, Piero e Federica, Rossela e Marino Zorzi, Angelo e Silvana, Bruno e Isabella, Irma e Umberto Troni, Carlo Dell’Oliva, Bruna e Piero Salata, Nilse e Roberto Galante, Dorotea, Tomaso Raso, Flavio e Andreina, Luigi Milone, Stefano e Roberto, Billy Boelhower, dr. Raviele, dr. Venturini, dr. Risica, dr. Tenderini, dr. Lotter. Todos os venezianos se reunem num prolongamento da mesa que se faz cada vez maior e Roberto Fiorentini com o violão toca e canta suas canções em dialeto, nas quais se figuram os velhos doges e a vida quotidiana da cidade. Depois, Francesco Rizzoli com seu violão clássico quase mandolim, enquanto os outros continuam a comer sem hesitações, entoa os arabescos de um “estudo” de Villa-Lobos. Por que, Luca Fiorentini, você não trouxe o violoncelo? teriamos podido escutar uma “Bachiana” do brasileiro, não? De outras partes da Itália chegam mais amigos: Sandra e Rita, Giuliana, Gianpaolo e Marco Paolo, Bianca Ferrini, Rivarola, Donatella Pini, Sylvia Truxa, Simonetta, Rosanna, Dedo e Marina, Patrizio e Patrizia, Giacobelli, Paola Bottalla, Gianfelice Peron, Maurizia Rossella, Vincenzo Milanesi; Roberto Vecchi, Piero Ceccucci, Silvano e Sônia, Giulia e Beppe Tavani, Ettore, Nello Avella, Giuliano Soria, Luciana Stegagno Picchio, Ilaria Caraci, Bellini, Belén Tejerina, Beppino Bevilacqua, dr. Citroni, dr Velo. São muitos os que chegam e muitos deles estão lá no fundo da mesa de tal maneira que quase não os distingo. Mas eles estão lá. Anna Rosa, Mariella e Gianni continuam a correr daqui pr’ali, procurando acomodar os recém-chegados. Tranquilos descem diretamente dos aviões para a mesa já sem fim os que chegam de mais longe: Manuel Simões, Isabel e Emídio, Carlos Loures, José Saramago, Fernando Martinho, Manuel Alegre, Vasco Graça Moura,  Casimiro de Brito, Ana Hatherly, Fernando Gil, Arnaldo Saraiva, Anibal Pinto de Castro, Carlos Ascenço André, Pires Laranjeiras, Rita Marnoto, Maria Aparecida Ribeiro, Amadeu Torres, Fernando Cristóvão, Gil Teixeira Lopes, OPS, Keith Botsford, Willy Acher, Florent Kohler, Sylvie, Annamaria e Richard Schwaderer, Goetz Back, Max Back, Berthold Zilly. Mais de longe ainda, depois de todos os parentes e amigos que logo acorreram ao descobrir da mesa, chegam mais brasileiros, amigos de longes tempos, da minha viagem de sempre: Nadyr, Helena Maria, Juarez, Maria das Dores, Waldir, José Roberto e Sônia, Thiago e Terezinha, Luiz Fernando e Eliete, José Botafogo, Anita e Elias Kaufman, Benjamim Silva, Adir Botelho, Lena Bergstein, Gerson Tavares, Cilene e Paulo Roberto Pereira, Ivan Pinheiro Machado, Carlos Dimuno, Carlos Vaz, Bruno Contarini, Flávio Vieira de Sousa, Gilberto Terra, Percília José Augusto e Neusa, Rosinha Flávio e Lucinha, Nilma, Mirian de Carvalho, Lúcia Riff; e os mais recentes no tempo, Andréia e Bebeto, Norma e Francesco. De um grande avião da VARIG desce um grupo que não parece ter fim  Nélida, Zélia, Nejar e Elza, Olinto e Zora, Niskier, Bechara, Evaristo, Padilha, Alberto da Costa e Silva, Carlos Heitor Cony, Moacyr Scliar, Ledo Ivo Gonçalo e Denise, Venâncio, Secchin, Murilo Melo Filho, Ivan Junqueira, Eduardo Portella, Sérgio Corrêa da Costa; e mais, Domício Proença Filho, Cláudio Murilo, Diogo Mainardi, Marly de Oliveira, Lélia Coelho Frota, Suzana Vargas, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho, Adriano Espínola, Anderson Braga Horta, Gilberto Mendonça Teles, Wilson Martins, Fábio Lucas, Maria Helena Ribeiro da Cunha, Massaud Moisés, José Aderaldo Castelo, Hernani Donato, Mauritônio Meira, Affonso Romano de Sant’Anna, Silviano Santiago, Marco Lucchesi, Kleber Leite, Alexei Bueno, Pedro Lyra, Fernando Py, Assis Brasil, Wander Mello Viana, José Clemente Pozenato, Flávio Loureiro Chaves, Miguel Sanches Neto, Alcides Buss, Salim Miguel, José Louzeiro. Logo todos os setores da grande mesa, que se faz sempre maior, todos se falam como se essa fosse uma “tavola rotonda”. Silviano Santiago e Sergio Perosa se abraçam e começam a recordar quando há alguns anos passados, juntos numa comissão composta de críticos literários de vários países, batalharam e conseguiram nos Estados Unidos que um de seus prêmio literários mais importantes a nível internacional fosse dado a João Cabral de Melo Neto; pena, diz Perosa, que ele tenha morrido logo depois, porque após o prêmio americano era um candidato seguro para conquistar o Nobel. Giuliano Soria se alegra festosamente pelo reencontro com Zélia Gattai Amado e lhe recorda   que maravilha foi o nosso congresso internacional em Turim pelos sessenta anos de literatura de Jorge Amado!

 

Todos conversam entre si nas tantas línguas e não somente com os vizinhos de mesa mais próximos; muitos deles se levantam de encontro a um outro mais particularmente procurado e então, sem parar de comer as sua coisas, caminham longamente, pois os comensais são como que sem fim e formam um movimento localizado que pode levar até mesmo a imaginar, pelo alargamento infindo da mesa de festa, que eles não estão propriamente ali sentados, mas que, por serem tantíssimos, como que vão na direção de suas terras de origem. Mas em verdade ali estão festosamente, na estrada de Veneza, todos à mesa, com os pratos que se renovam, os gostos e sabores que se revelam sem cessar aos paladares prontos para receber mensagens insuspeitadas.

 

Eu caminho ao encontro de todos e é como caminhar na minha própria direção.

 

Eles são dezenas, são centenas e centenas, e eu me sinto unido a essa multiplicidade como num encontro com a vida. Comamos, amigos, comamos!



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Quinta-feira, 7 de Julho de 2011
Um Novo Coração 45 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 45

 

 

 

Arco, 15ª jornada, 24/02/05

 

 

Alguma coisa de novo se passa em mim, eu o sinto nesse dia. Pela primeira vez depois de muito tempo dormi mais longamente. Já quando me sentara na sala de leitura, tomando como sempre uma xícara de camomila muito quente, preparando-me para ali ficar na noite por horas indefinidas, apenas começada a leitura dos mágicos contos do mundo armeno-americano de William Saroyan, depois de não mais de uma hora, repentinamente eu senti o perdido desejo de dormir que retornava. Dormi quase com total tranquilidade por quase seis horas. Quando os enfermeiros entraram, como a cada manhã, no quarto, mais que vê-los, eu os intuía presentes.

 

Pouco a pouco saí do sono que me acalentava sem querer cessar e me levantei com um ritmo que não conhecia de há muito. No banheiro, depois de fazer a barba, tomei um banho de chuveiro quente e quase cantei. Vestido com a minha habitual roupa de ginástica azul-marinho, depois de conversar um pouco com Roberto, desci para o café. No refeitório contei ao dr. Citton como eu me sentia bem naquele dia e ele me disse que o mesmo lhe acontecia. Para exaltar o dia, não comi o pão puro quotidiano, mas pela primeira vez em 2005 saborei um brioche. Repeti o café. Logo depois retornei ao meu quarto, onde já estava o dr. Pozzan para uma visita de controle. Com ele subi até o terceiro andar, na radiologia, para um posterior exame de RX torácico. Como sempre o dr. Pozzan conversou animadamente comigo. Mais tarde, quando eu já me repousara na tarde ainda com as alegrias da manhã, a enfermeira chefe me entregou o resultado do exame da radiologia

 

“Boa ainda que incompleta detersão do campo basal de Sn sob controle depois de toraxenteses com resídua epodiafania desemogênica do campo basal e hiporesquearibilidade dos recessos c.f. de mínimos reliquados líquidos. Invariado o restante quadro.”

  

Dentro da euforia vivida por todo aquele dia, de todo o resultado do exame eu me fixei somente no adjetivo “boa” que o abria.

 

Tudo isso porque me sentia envolvido pelo reencontro com o meu intestino em ótima forma. Não mais se podia falar de intestino preguiçoso que me tapava em abstenções defecatórias por muitos dias. Mais que isso, eu me sentia em saúde porque a partir de determinado momento, com o encontro do intestino retomado, eu me livrava com assiduidade e regra. Desde então, passei a me sentir capaz de exprimir alguma coisa que por longo tempo me fora subtraída: num desses dias apenas passados e depois sempre em repetição, como que surpreendido comigo mesmo, eu peidei. Sim, peidei, longa e livremente. Peidei, é assim que eu quero dizer, apesar da constringente tendência ao eufemismo de minha língua que me está sussurando para que eu diga, não como estou dizendo, peido, mas pum, traque.



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Quarta-feira, 6 de Julho de 2011
Um Novo Coração 44 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro Um Novo Coração

 

 

Capítulo 44

 

 

 

Arco, 14ª jornada, 23/02/05

 

 

Acordo nesse dia, um dos últimos que passarei na “Casa de Saúde”, ainda com as impressões de ontem. Com isso, espero o amanhecer definitivo com uma certa inquietude. Olho para a janela que deixa passar as primeiras luzes do dia, por debaixo da cortina completamente cerrada, e vejo que esse dia será o prolongamento de incertezas. Logo os enfermeiros e enfermeiras chegam na prática de todos as operações que se repetem a cada manhã. São dias e dias que me recolhem o sangue, a procura de mais açúcar nele, e o açúcar como que joga mais comigo, porque se faz sentir em mim num ir e vir, estar e não-estar que não acaba mais. O enfermeiro que mede a glicemia parece que se divirte muito com as variantes que lhe ofereço. Eu, como sempre, suporto todos os agravos, que os entendo como tal, ainda que para os médicos e enfermeiros, tudo pareça natural. Mas, neste hoje, me sinto mais exaltado na percepção das coisas. Quando vejo as caixas dos remédios que devo tomar diariamente, sinto que o meu ritmo nervoso se modifica. Vejo a quantidade que eles são e o absurdo que esse dia de hoje me parece. Penso como toda a minha vida foi um desconhecer de remédios. Tomei alguns para uma crise renal aos treze anos, depois mais nada por muito tempo. Você, caro leitor, já sabe do Gardenal, de quando da minha crise neuro-vegetativa. Depois mais nada. Até mesmo no período, já passados muitos anos dessa crise da juventude, em que sofri de forte disfunção gástrica, ignorei a minha gastride e, me vanglorio, a superei sem outra terapia senão a da convivência tenaz e inflexível com e contra os ataques gástricos e os repetidos assaltos de vômitos estoicamente suportados. Agora são muitos, demasiados os remédios que tomo pelas horas do dia, de manhã à noite. Já os conheço sobejamente.

 

Pela manhã, às 8; 9 horas:

 

Lasix, comprimidos de 25 mg. Indicações terapéuticas – Todas as formas de edemas de gênese cardíaca; obstrução mecânica ou insuficiência cardíaca, edemas periféricos, hipertensão de grau leve ou médio.

 

Dilatrend, comprimidos de 6,25 mg. Indicações terapéuticas – Tratamento da hipertensão arteriosa essencial. Pode ser usado isoladamente ou associado com anti-hipertensivos, especialmente com os diuréticos tiasídicos.

 

 

Depois do almoço, às 14; 15 horas:

 

Cardioaspirin, comprimidos de 100 mg. Indicações – Prevenção da trombose coronariana: depois de infarto do miocárdio, em pacientes com angina pectoris instável, angina estável crônica e em pacientes com fatores de perigos múltiplos (hipertensão arterial, hipercolesterolemia, obesidade, diabetes melito e familiaridade para com cardiopatia isquêmica. Prevenção da re-oclusão dos by-passes aorto-coronarianos e na angioplastica coronariana percutânea transluminal (PTCA). Prevenção das tromboses durante circulação extra-corpórea nos pacientes em hemodiases e na síndrome de Kawsaky.

 

Amaryl. Indicações – Amaryl é indicado no tratamento da diabetes melito de tipo 2, quando a dieta, o exercício físico e a redução do peso corpóreo sozinhos não são suficientes.

 

Depois do jantar, às 21; 22 horas:

 

Dilatrend (como acima)

 

Mepral, comprimidos de 20 mg. Indicações terapêuticas, adultos – Tratamento e profilaxia de úlceras gástricas e duodenal e da gastropatia corrosiva associadas à absorção continuativa de remédios anti-inflamatórios não-esteródicos (FANS). Tratamento,  bem como prevenção das recaídas de esofagite de refluxo e da doença de refluxos gastro-esfágicos. Tratamento da dispepsia funcional não-ulcerosa. Síndrome de Zolinger-Ellison.

 

Selectin, comprimidos de 20 mg. Indicações – Para a prevenção da doença coronariana em pacientes de sexo masculino sem história de infarto miocárdico, nos quais persista uma condição de hiper-colesterolemia apesar da dieta ipocolesterolizante. Nos pacientes com cardiopatia coronariana para reduzir o perigo de mortalidade devida à doença coronariana, de eventos coronarianos, de infarto do miocárdio, de eventos cérebro-vasculares e o perigo de serem submetidos a intervenções de resvacularização (bypass aorto-coronariano e angioplastia coronariana percutânea transluminal).

 

Devo fazer alguma coisa para sair do estado indefinido de insatisfação que me ameaça nesse momento. Passo pela portaria da “Casa de Saúde” e fixo para hoje à tarde, logo depois do almoço, um encontro com a pedicure.

 

Chega o momento de ir encontrar a pedicure. Desço para o sub-solo, pois o setor de cura do corpo, pedicure, manicure etc, se encontra justamente ao lado da sala dos exercícios respiratórios. Chego e me recebe Lorenza, a pedicure, uma jovem muito ativa que logo estabelece uma relação de cordialidade comigo. Convidado por Lorenza, subo num pequeno leito, muito parecido com o meu do 2º andar, ainda que menor. Deitado e já à vontade, arregaço um pouco as pontas das minhas calças, para deixar completamente livres meus pés. Lorenza se aproxima com seus instrumentos de trabalho, ajeita melhor as minhas pernas, contempla sem comentar as cicatrizes já em fase de completa cura, ainda que fortemente visíveis, como dois grandes relâmpagos apenas passados. A delicadeza das mãos de Lorenza conforta as minhas pernas quando ela as levanta, a cada vez que analisa o estado de meus pés. Estes já não estão tão inchados, pois as meias anatómicas atuaram de forma positiva sobre eles. Somente os tornozelos apresentam ainda uma certa deformação, arredondados como estão. Lorenza de tudo toma consciência e se prepara para começar a operação a partir do pé esquerdo. Enquanto passa nele um líquido perfumado e começa a enxugá-lo, me fala de coisas. Eu escuto e respondo. Lorenza fala com um ritmo que se parece com uma música vivaz, mas ao mesmo tempo contida. Sinto meu pé nas suas mãos e ainda que suspenso, me parece que ele repouse nas mãos de Lorenza. Os calos, as unhas, os dedos, a sola do pé, o peito do pé, as veias, os nervos, os músculos, de todas as partes recebo uma transmissão de alegria benéfica. A sensação é tal que já sei aonde estou, para onde vou ou se em verdade estou em algum lugar. Como que pairando no ar que se amplia e se alarga, como se não fose senão um olhar perdido, vejo formas voláteis que me acompanham no meu voar sem metas. Mas, de repente caio de meu vôo. Estou de novo deitado no pequeno leito do sub-solo da “Casa de Saúde”.

 

Quando Lorenza impregna meu pé direito, como fizera igualmente com aquele esquerdo, de um creme deslizante, sinto que suas mãos, ainda que fixadas nos pés, trazem a volúpia de uma carícia por todo o meu corpo. E quase esqueço definitivamente onde estou.

 

 



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Terça-feira, 5 de Julho de 2011
Um Novo Coração 43 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 43

 

 

 

Arco, 13ª jornada, 22/02/05

 

 

 

A enfermeira-chefe me entrega o exame do Raios X torácicos, parte importante de meu processo de reabilitação cardíaca. O atestado de radiologia diz a meu respeito:

 

"RX torácico  -  Tendência a incremento do vazamento pléurico-basal Sn descrito, com o atual perfil superior do mesmo projetado em inter-espaço costal no axilar posterior. Invariável o quadro restante.”

 

Leio e releio o resultado do exame. Naturalmente me recordo também da fisionomia do dr. Pozzan durante o nosso encontro e de sua conversação tranquila e cordial por toda a realização do exame. Porém, lendo as palavras do atestado, não consigo ligá-las à atmosfera do meu encontro com o dr. Pozzan. Me parece ler nos termos do atestado a realidade de uma atmosfera muito mais tensa de quanto não aquela conhecida durante a minha permanência no ambulatório de radiologia. Será que sofro nesse momento daquele mesmo problema, caro leitor, de que já tomamos conhecimento com referência a uma absoluta dificuldade existente entre médico e paciente quanto à prática de uma linguagem comum às duas partes? Leio e releio o atestado, e não vejo o dr. Pozzan nele, mas sim uma minha certa inquietude. Mas eu não sei até que ponto o líquido que se formou no meu inter-espaço costal justamente no axilar superior signifique algo de sério ou não. Como se trata de uma coisa minha, somente minha, eu a vejo mais como uma ameaça de dimensão que não sei medir, do que de um elogio à minha eugenia. Sinto assim e tão claramente que já me parece que o certo frio que me toma diante da neblina de Arco, que continua fortemente, não é um efeito do inverno externo, mas alguma coisa que se refere a um mal que perpassa pelo meu axilar posterior. Veja, caro leitor, em que situação complicada me encontro. Gostaria que você viesse comigo pelos corredores da “Casa de Saúde”, sabendo da inexatidão de tudo por que passo nesse momento. Tudo por culpa da linguagem que aqui usamos, em verdade não somente aqui, mas em todos os ambulatórios do mundo. Porém, o que verdadeiramente me interessa, e você que de certo já aprendeu a conhecer-me sabe disso, o que me interessa de verdade nesse momento é conseguir compreender o melhor possível os termos do meu atestado radiológico. Mas se eu entendia outra coisa quando conversava com o dr. Pozzan no exame, como posso dominar o significado mais concreto do que ele acabou por escrever no atestado? Não me é possível, principalmente porque, estando agora sozinho comigo mesmo, eu tendo àquela linguagem da consolação que cada paciente carrega consigo mesmo.



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Segunda-feira, 4 de Julho de 2011
Um Novo Coração 42 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 42

 

 

Arco, 12ª jornada, 21/02/05

 

 

Quanto mais se aproxima o dia de minha alta, mais me parece que passo por uma modificação de sensibilidade para com as coisas e pessoas em geral. Não é uma sensibilização patológica, disso me acerto com critério, mas dela se aproxima. A melancolia que circunda então meus pensamentos não atinge a natureza da depressão, sendo mais uma melancolia que eu chamaria de cultural, quase literária. Em certos momentos, passeando pelas dependências da “Casa de Saúde”, em meio à gente serenamente rumorosa, sentando-me no salão do bar na contemplação de alguma coisa que se assemelha ao vivo quotidiano em geral, fechando-me no meu quarto deixado livre pelo perambular constante de Roberto, diante da janela que olha para fora onde as vinhas continuam verdes e os campos se alargam nas alturas, vejo a paisagem invernal com uma reação que me entristece e me deixa absolutamente só comigo mesmo.

 

Ainda que sobressaltado pelos tantos sentimentos que tendem a confinar-me em reduzidos espaços pessoais, recobro ânimo e me lembro do dinamismo dos exames que me esperam hoje, desde as 7 da manhã, antes de descer para o café, com a ida ao serviço de radiologia para a realização de um RX torácico; depois, mas antes do almoço, o exercício respiratório no andar subterrâneo, mais aquele de Ginásio-cárdio, de tarde, no terceiro andar. Subo até o setor de radiologia e me encontro com o dr. Pozzan que logo me convida a liberar-me o tórax e sentar-me, passando a auscultar-me longamente. O dr. Pozzan, enquanto realiza o seu trabalho, conversa comigo e, nos intervalos dos respiros longos, me pergunta principalmente sobre o futebol brasileiro. Depois de muitas trocas de idéias, ele também quer ler meus trabalhos sobre o futebol. O exame se prolonga, mas chega em determinado momento ao fim. O dr. Pozzan me diz que poderei recolher os resultados dos mesmo amanhã com a enfermeira-chefe de cardiologia.

 

Desço as escadas e logo me encontro no salão do bar. Dali vejo a neblina que começa a recobrir a paisagem do jardim e estender-se pelas ruas, praças e jardins de Arco. A atmosfera invernal contemplada por detrás dos vidros das janelas me induz a cobrir-me melhor e sair para andar no inverno de Arco. Pego o meu capote, me cubro, reforçando a proteção que já me dá a minha roupa de ginástica azul-marinho, tomo igualmente de um boné de lã que uso pouco, caminho pelos corredores na direção da portaria e saio.

 

O inverno hoje se mostra mais intenso em Arco. Um colorido cinzento recobre tudo, fazendo com que as casas tomem um tom mais austero em comparação com o habitual. As ruas estão quase desertas, são poucas as pessoas que por elas passam. Caminho pela cidade que conhecia até então só de longe, da perspectiva da “Casa de Saúde”. Não será, talvez, este o melhor dia para explorá-la e procurar conhecê-la. Mas caminho pelas ruas que saem da “Casa de Saúde” e se abrem em grandes meandros, costeando os montes que modelam a cidade. Começo a ver tudo com mais nitidez. Encontro-me num encruzamento de ruas, estradas, avenidas, com uma praça larga que se descortina ao longe. Hesito se tomar a estrada que sobe para a parte alta ou se continuar no plano, seguindo uma grande avenida. Opto por essa última e me encontro numa espécie de boulevard, com os dois lados cobertos de grandes construções. À direita, indo na direção da praça ainda distante, estão muitos e grande hoteis, restaurantes, bares. Caminho lentamente admirando todas os edifícios e procurando conhecer, mais por simples curiosidade, sem especulações pragmáticas, os preços dos restaurantes e dos bares. Me perco lendo a lista dos pratos locais e procurando imaginá-los. Faço isso sem sofrer alterações quanto à minha indiferença matutina pela comida. Depois de caminhar pela avenida muito arborizada, assim tanto que nem mesmo o inverno destruiu de todo o vigor das folhas e a presença do verde na paisagem urbana, chego diante da praça. Antes eu a queria ver, agora que a vejo, não a exploro, mas desvio para a esquerda, na direção do centro da cidade. Então posso admirar completamente a força arquitetônica de Arco. Seus edifícios são fortes e consistentes, construções feitas para resistir ao tempo. O estilo predominante é o neo-clássico, porém numa versão muito autônoma, mais ligado à leveza das formas e das linhas, que à monumentalidade. Tudo tende a uma certa elegância formal, como que criada para satisfazer àqueles que chegam a Arco para gozar o esplendor das coisas, mas sem sentir-se sufocar pelas mesmas. A atmosfera corresponde ao predomínio de uma linha cultural austro-húngara, com testemunhos da presença da aristocracia do Império. Os monumentos citadinos, bem como o tom geral da arquitetura, tanto daquela dos edifícios públicos, quanto das casas privadas, são muitas vezes comprovantes físicas dessa presença.

 

Enquanto caminho e admiro a força serena da cidade, contemplo seus montes e o castelo no alto do mais imponente. O frio do inverno, quase que esquecido no divagar, de improviso se faz notar. Então retomo a estrada que leva à “Casa de Saúde”, na qual reentro como se fosse a minha meta.



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Domingo, 3 de Julho de 2011
Um Novo Coração 41 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 41

 

 

Arco, 11ª jornada, 20/02/05

 

Não só de medicina conversamos, o dr. Citton e eu. Entre mil assuntos, falamos muito de futebol. O dr. Citton jogou professionalmente pela esquadra da sua cidade e me disse que essa atividade o ajudou muito a manter-se no período de estudos na Faculdade de Medicina de Pádua. Jogava com o número 9, centro-avante. Não quis jamais entrar em detalhes sobre a sua carreira, sobre os incidentes sofridos, sobre as vitórias conquistadas. Mas compreendi de seus silêncios que ele teve muitas satisfações nas muitas partidas jogadas pelos campos trentinos, vênetos, lombardos, emilianos. Muitas vezes contei-lhes das minhas práticas esportivas e ele sempre insistia em saber mais. Principalmente gostava de ver-me responder a suas curiosidades sobre a história do futebol internacional. Mais curioso ainda ficou quando lhe falei de um artigo escrito para uma revista de Milão, em novembro de 1983, pouco depois da vitória da Itália sobre o Brasill, em 1982, na Copa do Mundo da Espanha. Obrigou-me a prometer que lhe daria uma cópia do artigo. Então, numa das telefonemas diárias de Anna Rosa, pedi-lhe que fizesse uma cópia do artigo com o scanner no meu escritório e que me enviasse tudo para o meu email, coisa que ela logo fez. Agora, enquanto almoçamos, saboreando um perú assado com compota de maçã, o dr. Citton e eu lemos o artigo que me chegou e que leva o título - “Duas grandes escolas do futebol mundial”:

 

“A partida de Barcelona entre Brasil e Itália no Campeonato do mundo de futebol de 1982, além de ser história, já se fez lenda. Porém, não é o unico caso nesse sentido nos diversos encontros disputados entre as duas nações. Já no campeonato de 1938 na França, brasileiros e italianos se encontraram numa partida memorável, história para muitos, também lenda para alguns. Eram duas grandes seleções. A Itália, campeã do mundo, depois do triunfo romano de 1934; o Brasil, já famoso pela grande técnica de campeões como Leônidas, que muitos especialistas colocam ainda como o centro-avante ideal de uma formação internacional de todos os tempos; Domingos da Guia, que eu colocaria como “libero” ideal de qualquer formação que devesse encantar o espectador pela perfeição do estilo e pureza de meios agonísticos; Valdemar de Brito, Tim, Perácio, Patesco, Romeu Pelliciari.

 

Na semi-final jogada em Marselha, uma verdadeira final, como quase sempre acontece quando brasileiros e italianos se encontram antes de uma concreta final de campeonato, se defrontavam duas grandes escolas do futebol internacional. Como previsto, era uma partida disputada em todas as zonas do campo, com mudanças de ações que provocavam um constante “suspense” na torcida que enchia o estádio de Marselha. Uma luta concentrava a atenção de todos de modo particular, o duelo entre Meazza e Domingos. Este encantava o estádio pela elegância como defendia e pela perfeição dos lances de recomposição de ataque da seleção brasileira; Meazza era como sempre aquele gênio ofensivo, capaz de inventar e encontrar o gol de qualquer posição e a qualquer momento. Contra a prepotência de um, a serenidade olímpica do outro. Ao lado de Meazza trabalhava  o apoio constante e racional de Silvio Piola. Domingos e companheiros se opunham com insuspeitada tranquilidade aos constantes assédios dos campeões do mundo e já muitos brasileiros sonhavam com a conquista do direito de disputar as finaisem Paris. Entretanto, Meazza lutava sempre com todos os recursos, obstinado contra a barreira que era Domingos da Guia. E usava todo o seu gênio futebolístico para superar a barreira. Muitos dos recursos de Meazza se dirigiam mais a demolir o espírito olímpico de Domingos que verdadeiramente tocar a bola. E assim foi por mais de uma hora. Até que em determinado momento, surpreso, o estádio assistia a um gesto quase impossível. Domingos da Guia que, em plena área brasileira, atingia com um ponta-pé sem bola o centro-avante italiano. Penalti, e a Itália bate o Brasil, 2 a1, conquistando o direito de ir até Paris para coroar-se bi-campeã do mundo.

 

Em 1950, no campeonato jogado no Maracanã, a crise da seleção italiana depois da tragédia de Superga com a morte dos campeões do Turim, não permitiu que a “Azzurra” pudesse encontrar a grande seleção brasileira de Bauer, Danilo, Zizinho, Ademir, Jair. Como acontecerá igualmente, por outras razões, na Suécia e no Chile, quando finalmente o futebol do Brasil – aquele de Pelé, Garrincha, Gilmar, Zagalo, Didi, Djalma e Nilton Santos – encontra o reconhecimento tristemente perdido naquele 1950, quando Guiggia marcou o segundo gol da vitória absurda do Uruguai diante de 200.000 brasileiros abismados. Porém, em 1970, no México, os encontros lendários entre Itália e Brasil assinalam um novo episódio. Então foi uma verdadeira final de campeonato mundial de futebol. A Itália de Facchetti, Mazzola, Rivera, De Sisti, Dominghini, Riva, vinha da épica vitória sobre a Alemanha Ocidental na semi-final do certame. Ainda que esgotados pelo esforço sobre-humano daquela que foi mais uma luta que uma simples partida de futebol, os “azzurri” se batem ao máximo contra a seleção de grande futebol – talvez a mais madura da história da seleção do Brasil – com um Carlos Alberto, Clodoaldo, Jairzinho, Gerson, Tostão, Rivelino, Pelé. Enquanto foi possível combater contra a fatiga acumulada, Boninsegna soube empatar o gol de Jairzinho. Porém, depois, com o passar dos minutos, o Brasil conquistou definitivamente a Copa Jules Rimet. Era definitivamente campeão mundial e era a definitiva consagração da escola brasileira de futebol, futebol que desde a vitória na Suécia via-se representado no campeonato italiano com campeões como Mazzola (Altafini para os italianos), Dino Sani, Dino da Costa, Vinicius. Sérgio Clerici, Jair da Costa, Sormani, Chinesinho, Amarildo. Hoje a partida de Paolo Rossi em Barcelona já se fez memória simbólica de duas grandes  escolas de futebol. Duas escolas representativas – ao lado daquelas do Uruguai, da Inglaterra, da Alemanha Ocidental, da Hungria – de uma possível síntese estilística da  história do futebol internacional. Todavia, o que é quase certo é que uma das tantas razões da derrota do escrete do Brasil na Espanha pode ser encontrada na falta de uma mentalidade histórica dos técnicos e dirigentes do futebol brasileiro que se esqueceram,  então, que a Itália é sempre uma das grandes escolas do futebol mundial. Uma única ainda que bela compensação para aquela derrota se encontra na atual presença de dez jogadores  brasileiros no campeonato italiano. Zico, Falcão, Toninho Cerezo, Edinho, Dirceu, Batista, Pedrinho, Luvanor, Juary e Elói – uns com maior intensidade, outros com menos rigor – representam dignamente a escola brasileira. Mas, também no Brasil se vive e se estima a força do futebol italiano, na simpatia esportiva por figuras de craques como Zoff, Cabrini,Tardelli, Paolo Rossi, Bruno Conti, Antognoni, Causio. Para demonstração de tal fato, basta que eu me recorde do espisódio que vivi um dia, logo depois do campeonato da Espanha, com meu sobrinho Rodrigo, jovem promessa de goleiro do time do jardim-de-infância do Colégio Santa Marcelina do Rio. Depois de um meu tiro muito fraco que lhe passou por debaixo da barriga: - Éee… Waldir Peres!… E ele, com cara de choro: - Eu não sou Waldir Peres… Eu sou Zoff.

 



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Sábado, 2 de Julho de 2011
Um Novo Coração 40 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

 

  Capítulo 40

 

 

 

Arco, 10ª jornada, 19/02/05

 

 

 

Subo pelas escadas para o 3º andar e dali para a mansarda onde, nesta tarde de névoa fria quase apenas pressentida fora, vou participar de uma sessão coletiva de psicologia aplicada.

 

Entro no grande espaço que já conheço e ali encontro muitos pacientes, principalmente companheiros meus de cardiopatia. O ambiente é movimentado e cordial. Vê-se que a maioria daqueles que ali estão se sentem bem na perspectiva da sessão. Para mim é a primeira vez e, como sempre acontece comigo, vim até ela mais para ter uma idéia de como a “Casa de Saúde” utiliza a psicologia para os seus tratamentos de recuperação. Em verdade trago ainda hoje, quando aqui estou, o mesmo sentimento de descrença de possibilidades para a clínica psicológica, principalmente se de grupo. Por isso, e não só por isso, me alheio logo do grupo e me sento numa cadeira bem debaixo de um ângulo muito fechado do teto da mansarda, mas não tão fechado que não me permita de ver tudo e a tudo assistir com atenção.

 

A jovem psicóloga toma assento diante de todos numa mesa onde estão vários aparelhos que ela começa a acionar, depois de ter dado as instruções básicas ao auditório. Suas recomendações são muito claras, bem como a exposição que faz do que será feito por ela durante a sessão terapeutica. Antes de mais nada, recomenda a todos muita concentração à sua voz e a quanto diz, bem como encarece por uma total submissão, por uma passividade assumida diante da experiência. Liga um gravador que logo propaga um pezzo monocórdio e infinito, lento, lentíssimo. Sob a doce pressão melódica a psicóloga enuncia uma série de conceitos que, mais que conceitos, são divagações com propósitos hipnóticos. E em verdade, apenas passados alguns minutos, os pacientes distribuidos nas cadeiras que enchem o espaço da mansarda como que se deixam cair num relaxamento total e numa absoluta ausência pessoal. Eu, sentado no meu ângulo fechado, vejo o rosto jovem e sério da psicóloga. Ela, de vez em quando, dirije o seu olhar na minha direção, para logo depois disperdê-lo entre os rostos relaxados num quase sono. Ela continua a falar, sintonizada na monotonia do fundo musical, enquanto eu não deixo de fixá-la, como que alerta às possíveis variações do tom de sua voz. Mas ela pouco varia, mantendo o tom hipnótico que adormece os seus felizes pacientes.

 

Na hora do jantar, na nossa mesa 58, pergunto ao dr. Citton se ele vê uma possibilidade clínica para a prática psicológica. Ele, muito cordialmente, me diz que não tem a respeito uma idéia definitiva, porém acredita que a muitas pessoas, principalmente para as mais simples, uma terapia estritamente psicológica possa ser útil.

 

Então, como prometera ontem, o dr. Citton me dá uma garrafa de vinho trentino, que sua mulher trouxera a seu pedido. Tudo porque, no almoço de ontem, finalmente eu trazia a permissão médica para tomar um copo de vinho a cada refeição. Logo pedi à camareira que trouxe um “quartino” de vinho tinto. Como consequência de meu episódio médico, eram dois meses, praticamente, que eu não provava o vinho. Meu paladar, não somente pelas peripecias médicas, muito sofrera por tal abstenção. Quando, muito feliz, eu enchi o copo com o tinto de grande intensidade colorística e de forte perfume logo pressentido, apenas tomado o primeiro gole lento, meu paladar doente se exaltou numa rebelião sem fim. O vinho era péssimo, duro, ácido, intragável. Chamei a camareira, mas ela me disse que não tinham outros.

 

 

O dr. Citton, apenas vista a minha desilusão, me disse que no dia seguinte me faria chegar uma boa garrafa de tinto, um Marzemino.

 

 

Agora provo o presente do meu amigo. Encho, sem encher, o meu copo. Fixo o vermelho brilhante pleno de reflexos emanados pelo líquido movimentado, odoro o perfume que dele se livra nas minhas narinas, aproximo o copo à boca e banho meu paladar com uma pequena quantidade do líquido vivo. Meu paladar não se sente mais doente, mas se rejubila pelo abocado redondo e consolador.

 

 

Em todo o corpo sinto uma alegria que vem do vinho e, com ela, acrescento alguma coisa mais à minha recuperação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Sexta-feira, 1 de Julho de 2011
Um Novo Coração 39 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 39

 

 

Arco, 9ª jornada, 18/02/05

 

À mesa converso com o dr. Citton sobre questões relacionadas com os médicos e a medicina. Ele mais que responder-me, escuta as minhas divagações, mas no seu predominante silêncio encontro os pressupostos de um diálogo tranquilo e sincero.

 

Procuro provocar o meu amigo médico falando-lhe da idéia que se tem de uma grande separação entre médico e paciente. Nesse encontro, o paciente quase sempre tem pouca oportunidade de expressão, quase não fala, quase não consegue comunicar diretamente os seus males ou supostos tais. O médico fala sempre, tem sempre a última palavra. Não seria mais útil para ambos que o médico escutasse mais o que lhe pode comunicar o paciente ou, mais ainda, se esse não o sabe fazer, operar com ele uma fala que lhe possa permitir de dizer o que não sabe ou não pode exprimir?

 

A relação do homem com a medicina e com o médico foi sempre viciada de ambiguidade. Por culpa das duas partes, certamente. O médico muitas vezes se limita a diagnosticar com imediata auto-suficiência, principalmente se o estado do doente não é grave. Ou, senão, o faz para não expor-se a uma contestação de sua sabedoria professional. Pode-se chegar, com atitudes semelhantes, até mesmo a uma espécie de indiferença pela bondade do diagnóstico feito e, talvez mais ainda, da terapia prescrita. Dessa última tira a maior parte dos pacientes os seus motivos de dúvidas quanto à eficacia do tratamento que recebe. Como consequência, nos sujeitos mais sensíveis nesses casos se forjam os contestadores globais da medicinaem geral. Quando tal fato acontece, se retorna às raizes de um relacionamento que se perde no tempo e que viu formas fortes de proclamação da ineficácia dos médicos e da medicina. Tal fenômeno gerou no tempo, conforme os momentos de maior ou menor carência de meios assistenciais, o apelo do doente aos mais diversos tipos de cura, tipos esses que sempre fizeram regredir a potencialidade da terapia médica enquanto tal, gerando sempre mais dores, males, mortes.

 

Pergunto ao dr. Citton, por que os homens duvidam dos médicos? Será porque simplesmente duvidam dos próprios males ou porque não encontram sempre consolações? Possivelmente será por razões mais complexas, e o digo rememorando que até mesmo Petrarca escreveu um Invectiva contra medicum.

 

Outra questão que discuto com o meu amigo, sem chegar a uma invectiva, é sobre a complexidade da linguagem médica, em geral absolutamente desconhecida pelo paciente. O médico não abandona jamais a sua comunicação técnica. Por que, quando o paciente tem perda de sangue pelo nariz, lhe fala sempre de “epistaxe” e não de perda de sangue pelo nariz? Falando de rins, fígado, intestino, diz dos “órgãos emunatores”? A um paciente particularmente crítico parece que o doutor procure dar à linguagem falada a mesma impossibilidade de compreensão imediata que se encontra nas suas receitas escritas por mérito de uma caligrafia indecifrável…

 

Em verdade, esse paciente super-crítico não sonha outro sonho senão aquele que o possa levar a um mago absoluto, capaz de suavizar qualquer dor que o atormenta. O sonho do paciente é uma forma de magia, com a qual retornaria sempre a uma vida feita somente de bem-estar físico. Quando ele assim se sente, o apreço que tem pelo seu médico é de quase idolatria. O dr. Citton ri gostosamente e me repete  ah! como eu gostaria que todos os meus pacientes me idolatrassem!…

 

Acabado o jantar, como acontece todos os dias, depois de cada refeição, o dr. Citton e eu saímos do restaurante, na direção do bar, onde tomamos um café. Depois eu me dirijo como sempre para as poltronas que estão no fundo do salão, com a televisão ligada e as muitas pessoas, homens e mulheres, pacientes e parentes conversando animadamente, como num salão-social de um clube. Enquanto eu me sento, preparando o meu celular para receber a mensagem diária de Anna Rosa, o dr. Citton sobe para o seu quarto, pois é a partir dali que fala ao telefone com a sua mulher.

 

O meu celular finalmente estrila. Falar com minha mulher é como transformar o ambiente da “Casa de Saúde”, trazer para aqui certezas que se encontram lá fora e que agora caminham por fios invisíveis para chegar até os meus ouvidos, meus sentidos, meus nervos então como que asserenados.

 

Desligo o celular e fico por alguns minutos sentado no salão pleno de vozes que escuto indistintamente. Assim também para com a televisão. Meu olhar passa por tudo isso e eu sinto que esta noite será mais calma. Depois, quase sem querer, me levanto e vou tomar o elevador. Chego ao 2º andar e vou para o meu quarto. Roberto certamente estará ainda no salão, com a sua mulher e amigos. Eu acendo a televisão, sintonizo um filme que já vi, vou para o banheiro onde lavo os dentes, me contemplo no espelho, penteio os cabelos, volto para o quarto, fecho a janela e as cortinas, me deito na minha cama ainda com a cabeceira levantada, me distendo diante da televisão e do filme que já vi.

 

Os enfermeiros, como todos os dias, passaram para ver se eu tinha alguma necessidade, arrumaram as coisas várias, deixando sobre a minha mesinha próxima à cama as pílulas para a noite. Engulo religiosamente as pílulas e tomo os outros remédios que me servem. Estou, ou dentro em pouco estarei, pronto para passar a noite insone. Apago a televisão, me levanto, e me dirijo à minha sala de leitura, onde ficarei por horas. Comigo levo o romance de Charles Morgan, Lord Sparkenbroke, leitura quase terminada. Pelas horas noturnas caminho com Piers Tenniel no bosque de seu palácio, no qual ele vive a mágica relação com Mary e, depois, ainda com ele vou até Florença, volto para Londres, comparticipo de sua intensa pesquisa sentimental. São já as três da madrugada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Quinta-feira, 30 de Junho de 2011
Um Novo Coração 38 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 38

 

 

PENSO que este seja o melhor momento para interromper por um pouco a narração feita até aqui e dirigir-me mais diretamente ao leitor que me acompanha nesta aventura de conhecimentos incontidos. Assim o faço para estabelecer com ele uma ligação ainda mais profunda, se tal coisa nessas alturas ainda fosse possível, de quanto por todas estas páginas temos descoberto, contando-lhe então de um episódio distante nos anos, aqueles da minha juventude, mas que pensando bem me parece como o precedente direto do estado das coisas que juntos estamos procurando desvendar sobre “a doença mortal”. O conto que agora começa pode ser tomado como se toma o conhecimento vago, generalizado, mas que nem por isso deixa de revelar-se concreto e real, quase como um indispensável complemento daquele outro, o conhecimento final, resultado da matéria cruel de revelações que desnudam sentimentos e coisas.

 

Se por acaso, nesse ponto, uns ou outros murmurassem que não compreendem do porquê de tal suspensão, quando a narrativa se processava coerentemente, como podem atestar pelo simples fato de terem chegado nela até aqui, muito gratamente lhes respondo que o faço na procura insone do ritmo narrativo ideal, o qual sonho de alcançar assim agindo.

 

Começo o interlúdio narrativo.

 

 

TUDO ACONTECEU numa quinta-feira de novembro de 1955: a data exata, agora não a sei recuperar, ainda que tenha a certeza que era uma quinta-feira. Certamente era na metade do mês, porque faltavam ainda alguns dias, mais de uma semana, para o dia 26, quando eu completaria meus vinte e quatro anos com um aniversário sem festas. E também porque naquela quinta-feira eu participava de um dos últimos atos previstos pelo calendário das atividades da Faculdade Nacional de Direito no seu ano-acadêmico de 1955.

 

Naquela tarde de novembro cheguei à Faculdade na rua Moncorvo Filho vindo do centro da cidade. Caminhara da Avenida Rio Branco até a Praça da República e me lembro que, enquanto caminhava pelas ruas entre carros, ônibus, bondes, não lhes dava maior atenção. Caminhava em passos lestos, seguros, mas com uma desatenção quase total em relação às coisas que me circundavam, ainda que essas fossem, como eram – disso tomo consciência agora, quando as rememoro – ruidosas, quase caóticas.

 

Eu caminhava absorto em alguma coisa indefinida quando superei a Praça da República, tomei a Moncorvo Filho e entrei, como fazia todos os dias desde 1953, certamente na Faculdade, subi as escadas de mármore que do andar-térreo vão para o primeiro-andar e ali entrei no grande, iluminado Salão Nobre. A conferência programada estava por começar naquela quinta-feira de novembro, com a máxima puntualidade, às 18 horas.

 

Aquele novembro já mostrava as cores e as luzes do verão que ainda devia chegar.

 

Entrei no Salão Nobre e procurei um lugar nas cadeiras dos fundos e ali me sentei. O Salão estava repleto de estudantes e enquanto eu percorria com os olhos todo o espaço via José Roberto, Thiago, Waldir, Venâncio, Bolivar, Pierre, Luiz Fernando, Mário Cesar. Leila, Maria de Lourdes, Nadyr, Esther, Manuela, Esterzinha. Mas, como já acontecera na caminhada do Centro até a rua Moncorvo Filho, eu sabia que eles estavam ali, mas como se vistos à distância, apartados da atenção que eu imaginava dar àqueles rostos e fatos. Nessa sensação não-dolorosa de ausência, tenho em mente apenas a consciência de uma queda, a minha.

 

Recuperei os sentidos encontrando-me deitado na cama de meu quarto, na minha casa da rua Pereira Nunes, 385. O que acontecera entre a rua Moncorvo Filho e a rua Pereira Nunes?

 

Abro os olhos e vejo meu pai, minha mãe, meus irmãos, minhas primas. Todos eles me olhavam como que espantados. Sorri para eles, principalmente para minha mãe que chorava; sorri como se lhes perguntasse por que aquele espanto geral. Eu lhes sorria, mas me parecia que não acreditassem no meu sorriso.

 



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Quarta-feira, 29 de Junho de 2011
Um Novo Coração 37 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 37

 

 

Arco, 8ª jornada, 17/02/05

 

Hoje é o dia do meu primeiro exercício com o treadmill, a máquina da esteira rolante. Já às 8,15 eu estava sentado à minha mesa, a de número 58, e me preparava para o café da manhã. Depois de ter tomado a minha laranjada, comido várias frutas e bebido o café, saí do restaurante sem ter visto o dr. Citton que geralmente desce para o café-da-manhã um pouco mais tarde.

 

No grande salão do bar as pessoas conversavam, liam os jornais ou se preparavam para os diversos exames médicos marcados para aquele dia. Os pacientes com problemas motores em geral tomavam a direção da piscina numa dependência externa, outros se preparavam para os exercícios nos ambulatórios que estão aqui no 1º andar. O ambulatório nº 1 acolhe o setor de ortopedia, mais o dermatológico e o neurológico; o 2 hospeda a logopedia; o 3, o servício dietológico. Ao lado dos ambulatórios está o salão do ginásio B, destinada preferencialmente aos pacientes com problemas motores. Passeio indiferentemente diante deles, abro a porta principal do salão B, admiro por momentos os aparelhos expostos. Saio para começar a endereçar-me ao sub-solo, à procura de meus já costumeiros exercícios respiratórios. Pela primeira vez ali encontro o meu companheiro de quarto, Roberto, que logo se revela exímio no exercício das bolinhas.

 

Agora, passadas as primeiras horas da manhã, estou de novo no 3º andar, no ginásio A, para o meu primeiro exercício no treadmill. Depois de tirada a pressão, começo o meu exercício. Subo nos tapetes e começo a caminhar com passos acelerados, seguindo em harmonia o ritmo da máquina. Com essa não acontece como com a bicicleta, porque eu sempre fui um grande caminhador. Até mesmo o ritmo acelerado da máquina não me cria problema, pois tenho um passo seguro e constante na corrida virtual. Então, me rejubilo comigo mesmo pelo muito que pratiquei de esporte, em particular o futebol, com o qual criei pernas de boa consistência, fortes e resistentes, prontas a muitas reações credoras de um bom sistema de reflexos condicionados. Caminhando sobre o tapete que rola sem cessar, mudo os passos, alterno pernas e pés, movimento em sincronia os braços, e levanto com boa técnica o peito, juntamente com a cabeça. Meus olhos acompanham a marcha, mas não renunciam a admirar a paisagem que penetra no salão pelas janelas de vidros claros. Quanto mais passa o tempo, mais me entusiasmo com a minha marcha. Estou inteiramente nela, me sinto transportado nos movimentos e corro, corro, como se em disputa de uma maratona. São muitos os quilômetros que devo superar e logo reconheço que estou correndo por Veneza, numa maratona muito especial que me empenha ao máximo. Corro por Veneza, por calles campos pontes. Devo cobrir um grande itinerário que parte da entrada na Praça Roma e contorna a figura de peixe da cidade que  conheço tanto, para retornar depois de muito tempo na mesma Praça Roma. Começo e corro. Corro. Deixo o ponto de partida e vou na direção do gótico da Basílica dei Frari, aonde logo chego passando pela Scuola di San Rocco, rica de quadros de Tintoretto. Viro à direita na direção do Campo Santa Margherita, onde estão a igreja e a “scuola” dos Carmini; sigo para a estrada que me leva à igreja de São Sebastião. Sei que ali se encontram alguns dos Veroneses entre os mais belos, principalmente na decoração do teto, mas não posso parar. Corro, corro sempre. Entro no Zattere, com o grande canal da Giudecca, pelo qual passam barcos e mais barcos que seguem a minha corrida pela grande extensão do Zattere até a Punta della Salute. Devo virá-la e tenho apenas segundos de contemplação para a ilha de San Giorgio em meio às águas da laguna e defronte à Praça San Marco. Virando em velocidade a Punta della Salute vejo de longe a fachada frontal do Palácio Ducal, mas logo a perco de vista, porque já estou passando pela igreja della Salute e me estou encaminhando para a ponte da Accademia. Por ruas interiores, chego diante da ponte; o museu da Accademia está à minha esquerda e sei que ali posso ver todos os grandes artistas venezianos, principalmente o meu predileto Giorgione e a maravilha da “Tempesta”. Voltarei depois da maratona para revê-los a todos:  Giorgione, os Bellinis, Veronese, Tiziano, Tintoretto, Tiepolo (Gianbatista), Carpaccio. Subo pela ponte da Accademia, a sempre inacabada, e dela contemplo na corrida a beleza esguia do Canal Grande. Desço os muitos degraus e corro na direção do Campo Santo Stefano, nele entro pegando seu lado direito, aquele do Conservatório Benedetto Marcello, de onde parecem vir acordes do adagio de Albinoni. Percorro o Campo cincundado pelos grandes palácios

 

                                               A luz rarefeita da tarde

                                               transporta os palácios

                                               góticos clássicos neo-clássicos

                                               brancos / vermelhospálidos / rosas

                                               / rosados / rosas

                                               / brancos

                                               além da luz.

 

                                               O espaço ilimitado da luz

                                               une os extremos

                                               que vão de mim a mim mesmo.

 

Não, nem um momento para a contemplação gozosa; pego a calle que me conduzirá ao Campo San Maurizio que abre as estradas na direção da Praça São Marco. Vou pela rua XXII Marzo, enquanto a percorro recordo que essa, juntamente com a “via Garibaldi”, no bairro de Castelo, onde estou por chegar, somente elas levam a denominação de “via” em Veneza. Agora passo mais uma ponte que me mostra a igreja barroca de San Moisé. Dali me preparo para entrar na Praça São Marco. Nela entro, sem parar, mas indo da Ala Napoleônica sempre à frente, de encontro com a beleza bizantina da fachada da Basílica de San Marco. Quanto mais me aproximo dela, mais sei que devo desviar logo que toco a sua Torre externa, entrando na Piazzeta, com o Palácio Ducal, de um lado, e a Biblioteca Marciana, do outro. Vejo tudo, mas passo, passo o mais rápido que me é concedido pelo cansaço que começa a tomar as minhas pernas, porque estou correndo a minha maratona de Veneza. Já virei à esquerda do Palácio, encaminhando-me para a ponte que olha lá dentro no rio, entre o Palácio Ducal e as Prisões dei Piombi, as mesmas onde esteve também Casanova, para a direção da Ponte dei Sospiri, que une alada os dois edifícios. Mais que ver tudo isto e as outras coisas, rememoro. E penetro na meta que divide os dois tempos da minha corrida, a longa e magnífica Riva degli Schiavoni. Estou indo por ela, bela, longa, larga, sempre viva de gente e de luzes. Logo me aparece a igreja della Pietà, uma das três construídas por Palladio em Veneza, morada da música de Vivaldi e dele escuto os cálidos movimentos de seu “Inverno” enquanto corro por Veneza nessa fria tarde do fevereiro de 2005. Embalado pela música vivaldiana, continuo pela longa Riva, passo diante do palácio que hospedou Petrarca por quase um ano e, de relance, como que o vejo ao receber a surpreendente visita de Boccaccio, ao qual oferece um manuscrito do Canzoniere. Mais que ver, ainda que vendo, rememoro tudo, mas sinto que aqui na Riva degli Schiavoni, que estou por superar definitivamente para entrar na zona do Arsenale e assim penetrar nas calli estreitas de Castelo, diante da parte final da minha mágica corrida, a minha cabeça começa a divagar, como que desejosa de perder-se no cáos das coisas maravilhosas. Insisto, mas o faço mais com a força dos músculos que com meu entendimento. Estou por acabar a grande fatiga, e sou um maratonista que não sabe certamente da entidade de suas forças, mas que continua a correr, porque deve chegar à ponte de Rialto e ultrapassá-la e, depois dela, tomar a definitiva reta final. Corro corro e eis Rialto

 

                                                           Subo a escada nas águas

                                                            subo a escada no tempo

                                                             subo a escada nas águas

                                                              no tempo das águas e

                                                               desço a escada dos tempos

                                                                das águas que voltam no

                                                                 tempo de escada e pé.

 

A maratona está chegando ao seu fim; posso conseguir chegar ao fim e ultrapassá-lo com minha força viva. Agora basta superar o Campo San Polo – já o fiz – passar pelo Palazzo Bernardo, seguir na direção do Campo San Giacomo dell’Orio, ultrapassar mais duas pontes, chegar pela retomada do Canal Grande até o prado do Jardim Papadopoli. Atrás dele está a meta final. Cheguei.

 

Cheguei; mas somente eu cheguei. Contra quem corri?

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Terça-feira, 28 de Junho de 2011
Um Novo Coração 36 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 36

 

Arco, 7ª jornada, 16/02/05

 

Chegou-me o novo companheiro de quarto, como previsto. Ele se chama Roberto, simplesmente Roberto, pois assim logo me diz que queria ser chamado. Trata-se de um homem ainda jovem, de pouco mais de quarenta anos, comerciante e originário de Rovereto. Muito cordial, desde o primeiro momento procurou estabelecer uma relação aberta comigo, pedindo que eu lhe indicasse como deveria comportar-se como segundo ocupante do quarto. Ao seu lado está sempre a sua mulher, ativa em preparar todas as coisas indispensáveis à recuperação do marido. Ela trouxe uma bandeja de diversos doces, fazendo uma como festa de inauguração. Insistiram muito comigo, convidando-me a participar com eles da festa, mas eu não posso dar-me ao luxo de comer doces nesses tempos de constantes verificações do grau de minha glicemia. Mas conversamos muito, estabelecendo um relacionamento muito cordial que se prolongou pelos dias adiante e em todas as horas de nossa coabitação momentânea. Ao contrário de Costa, Roberto circula muito pela “Casa de Saúde” e durante as visitas da mulher, preferem estar com outros amigos no grande salão do bar.

 

Assim transcorriam as minhas horas diárias com um novo ritmo sereno. Meus exercícios respiratórios continuavam com progressos vistosos. Já começava a movimentar as três bolinhas com relativa facilidade, todas as três, levando-as como previsto pela regra geral, e simultaneamente,em alto. E assim sentia melhorar a cada dia a minha respiração.

 

Os exames de recuperação se alargavam. Passei a frequentar não somente os instrumentos do sub-solo, mas igualmente a palestra do terceiro andar. Neste andar estão  colocados os mais diversos serviços da “Casa de Saúde” e, caminhando pelos seus corredores, lendo as placas nas portas sempre fechadas de cada setor ou serviço, podia imaginar o que existiria por detrás delas. Além do ginásio de ginástica, local de reabilitação para todos os tipos de internados, tanto os cardiopáticos, quanto os com problemas motores, vejo o de exames de eletrocardiograma, de holter, aquele outro para provas de esforço, um mais para atividades cardiológicas de relax, um maior para atividades respiratórias especiais e, subindo uma escadinha de encontro ao teto, numa mansarda ampla, o espaço de técnicas de relax e de encontros com os especialistas em psicologia. Nesse mesmo andar estão vários consultórios médicos de diagnóstica, ecocardiografia, de testes ergométricos, de respirometria e de hemo-análises. Naturalmente a minha recuperação não exigia o uso de todos eles… Completam o andar os ambulatórios 4 e 5. No 4 estão os serviços de angiologia, psicologia, radiologia; no 5, o cirúrgico, o otorrino, o de urologia e o psiquiátrico.

 

Agora, caro amigo leitor, venha comigo, porque devemos voltar para o setor de ginástica. Quero que você veja diretamente o que ali aconteceu comigo em vários e movimentados momentos.

 

Começo pela bicicleta. Nunca andei de bicicleta e naturalmente nunca tive uma. Cresci convivendo com esta e outras carências de objetos convencionalmente comuns ao crescimento de toda criança de classe média. Quanto à falta de bicicleta, essa não me provocou jamais particulares complexos de inferioridade em confronto com os meus amigos e colegas ciclistas. O mesmo não posso dizer do fato de não ter aprendido a nadar.

 

Devo às muitas bolas de futebol que tive a capacidade de não sentir-me inferior pelas ausências de outros recursos de jogos. Com a bola e com a prática do futebol pude vencer todas as minhas possíveis faltas de brinquedos ou de objetos de várias naturezas. Já aos meus sete anos ela era a minha companheira de todos os dias. Houve um período em que joquei por mais de 5, 6 horas diárias, nas ruas principalmente, mas também em campos de verdade.

 

Como nunca andei de bicicleta, quando comecei o meu exercício de recuperação no setor A, encontrei dificuldades até mesmo para colocar bem os pés nos pedais. Mas logo aprendi como fazer e comecei os exercício na cyclette, a bicicleta fixa. Eu devia pedalar por vinte minutos, com intervalo no décimo. Antes de começar o exercício, a enfermeira me mediu a pressão, tendo sido a mesma retomada no intervalo e no final do mesmo. No início, as minhas pedaladas eram lentas; porém, conquistada a consciência da melhor técnica, logo melhorei e assumi um ritmo bom, mantido até o final da minha corrida ideal. Eu corria parado, mas era como se corresse de verdade, pela primeira vez. Quando a enfermeira tomou a minha pressão, inicialmente essa era de 13/9, em conformidade com a minha habitual. Corri por dez minutos e os quilômetros hipotéticos vinham superados com tranquilidade. Era como se eu tivesse sempre andado de bicicleta. Terminado a primeira etapa, nova tomada da pressão, com resultado igual ao da partida. Corri mais, corri tranquilo, pedalando estático na sala, mas como que subindo pelas colinas de Arco, respirando o ar bom que de perto vinha das muitas plantações e jardins; de longe, das águas do lago de Garda. Terminada a corrida, desci da bicicleta, a enfermeira verificou de novo a pressão, 13/9. Revesti-me com a minha bela roupa de ginástica azul-marinho e, muito satisfeito, saí do ginásio com intenções de descer até o bar do andar-térreo. Desci pelas escadas muito contente comigo mesmo.

 

 

 



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Segunda-feira, 27 de Junho de 2011
Um Novo Coração 35 - Sílvio Castro

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 35

 

 

Arco, 6ª jornada, 15/02/05

 

Ainda que tenha usufruido do meu quarto por todo um dia inteiramente para mim, na espera certa da chegada de um novo internado, passei como sempre grande parte da noite no meu habitual posto de leitura, aquele dos encontros dos muitos notívagos em busca dos benefícios de uma xícara de camomila. Ali, somente eu permanecia por tempo inderteminado, noite a dentro, preso pela leitura e isso causava, por parte não somente dos pacientes notívagos, mas igualmente dos enfermeiros empenhados na assistência noturna, muitas manifestações de curiosidade, em geral tendentes à simpatia.

 

Nesses últimos dias me tenho também concentrado num tipo especial de leitura, a de best-sellers, parte por curiosidade em relação a autores seguidos de grande publicidade no mercado literário internacional, mas igualmente em razão de uma pessoal especulação teórica sobre o fenômeno “best-seller”. Li então, com tenacidade, The Rhinemann Exchange, de Robert Ludlum, e Archangel, do inglês Robert Harris. Antes de tudo, caro leitor, lhe quero expor as razões de minha atual particular atenção para esse específico fenômeno da produção literária. Desejo chegar ao máximo de sinceridade na minha exposição, não somente quanto às minhas elaborações teóricas sobre o tema, mas igualmente em relação às ressonâncias mais íntimas que o mesmo possa criar em mim. Começo por aqui e logo confesso um pouco de vergonha pelo que sinto, pois se trata de algo que se aproxima da inveja. Uma sutil inveja do sucesso que o escritor de best-sellers conquista, e não somente de público, mas também econômico. Esse sentimento eu o vivo, mas igualmente não o vivo, pois se trata de um sentimento muito vago, absolutamente indeterminado, que pouco tem a que ver com a minha atividade de escritor. Porém, quando me lanço nas tramas de uma possível teoria do “best-seller”, de certa maneira retomo a certeza de que no fundo o tal sentimento me interessa. Caro e paciente leitor, vou tentar transmitir-lhe uma certa síntese dessas minhas elaborações teóricas. Deixo de fora delas, porque de menor interesse nesse momento de diálogo entre nós, as questões que se referem à potência de uma campanha publicitária sobre um texto, campanha apoiada em grandes somas de dinheiro e em refinadas técnicas de convencimento publicitário. Tais elementos integrados numa cadeia internacional de grandes editores, conjugados com a propaganda maciça em jornais, revistas, televisão e em outros veículos de comunicação de massa, levam naturalmente um texto a uma aceitação quase apriorística, com a construção de um público capaz de absorver acriticamente tais informações. Em geral, o texto “best-seller” é um resultado igualmente de fórmulas mais que artístico-literários, de natureza diretamente editoriais. Isto é, os grandes editores internacionais, depois de uma longa experiência produtiva, conseguiram codificar aquilo que poderemos chamar de “normas editoriais para a realização de um romance best-seller”. Porém, amigo leitor, nem tudo é dessa especial natureza “no reino da Dinamarca”… Existem igualmente best-sellers com qualidades criativas artístico-literárias. Por exemplo, só para citar dois, Il nome della rosa, de Umberto Eco, e Memorial do convento, de José Saramago. Para mim, o que permite a romances como esses dois apresentarem concretamente uma diversa face do fenômeno best-seller, nós o podemos identificar naquilo que chamo “matéria alta”, de que são feitos os mesmos. A “matéria alta” são aqueles elementos culturais, geralmente ligados à história, que dão um tom extraordinário às estórias tão diversas do escritor italiano e do romancista português.

 

No almoço conversei longamente a respeito com o Dr. Citton e dado o interesse demonstrado por ele sobre a minha teoria do best-seller, prometi-lhe que no jantar lhe traria um texto meu já publicado numa revista literária da Suíça de língua italiana e no qual, ainda que finalizado diretamente à análise da obra de José Saramago, eu me servia igualmente do exemplo de Umberto Eco para tratar do assunto. No jantar, preocupado de não fazer perder o apetite ao meu amigo comensal, lí para ele somente uma passagem do ensaio, justamente aquela referida ao primeiro romance de Eco:

 

“Umberto Eco obteve com Il nome della rosa um sucesso internacional de dimensão incomum, transformando-se o seu romance num dos maiores best-sellers dos nossos tempos. Inicialmente, poderia parecer absurdo que tal categoria venha aplicada a um livro como esse tão complexo, resultado de uma rara erudição, produto mais ligado ao campo filológico que àquele do romance. Porém, os milhões de exemplares vendidos nas edições das mais diferentes línguas fazem dele um autêntico, ainda que surpreendente, por essas e outras razões, fenômeno da recepção por parte do público.

 

Como consequência da “matéria alta” de que é feito Il nome della rosa – um romance ligado ao passado, à história de Ordens religiosas e da Igreja da Idade-média, à cultura cristã-medieval – o leitor de Eco se sente enobrecido pela leitura do romance, não somente porque ligado ao sistema cultural típico da tradição humanística ocidental, mas porque o mesmo comunica a quem o lê um sentimento de participação com a cultura do cristianismo – com os seus mistérios, dogmas, rituais – que muitas vezes, ainda que conhecimento ao ponto de transformar-se em pura memória, principalmente nos principais países católicos, se exprime num quase esquecimento. Um texto como este de Eco possui o poder mágico de chegar a un tal “quase esquecimento” e de trazê-lo de novo ao nível da memória participante. Assim, o leitor revitalizado pela magia dos mistérios medievais das tópicas de uma cultura estável do maravilhoso confronto da própria língua com o sentido mágico do latim litúrgico e teologal, da subconsciente poesia contida na retomada dos topônimos que figuram uma geografia fantástica, ainda que real, de toda uma complexidade de provocações “nobres” e “altas”, este leitor se entrega inteiramente à leitura e se multiplica quase automaticamente em milhares e milhares de novos leitores.”

 

Os romances de Ludlum e Robert Harris pouco têm dessas provocações. Em verdade, eles são feitos de outras, evidentes e muitas vezes atraentes, porém certamente menos “nobres” e “altas”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Domingo, 26 de Junho de 2011
Um Novo Coração 34 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 34

 

 

 

Arco, 5ª Jornada, 14/02/05

 

 

 

Todos os dias desço para as refeições, porém os dietistas da “Casa de Saúde” já nos primeiros momentos de minha internação me prepararam uma espécie de decálogo pessoal para a minha alimentação. Como em geral acontece com os decálogos, esse era principalmente restritivo e o pouco que concedia ao meu epicurismo praticamente não podia ser notado, afogado que era nas vagas das restrições. Em verdade, não é que eu sofresse demasiado com a coisa, pois desde há muito eu vivia um período de quase indiferença pelos prazeres ligados ao paladar. Nesses meus dois últimos meses, almoçava e jantava com uma participação próxima ao espírito estóico. Comia sim, me empenhava em não ficar enfraquecido, mas o fazia sem exaltar-me, mesmo quando me encontrava por acaso diante de alguma especialidade culinária antes a mim grata. Porém, ainda que assim acontecesse por todo aquele já longo período que vinha do começo de janeiro, diante da mesa para o paciente em tratamento, acontecia que me sentia como que ofendido pela restrição visual relacionada ao objetivo plano quantitativo e, em consequência, com mais complicadas reações quanto à maior ou menor adesão à qualidade gustativa dos pratos com os quais em geral me confrontava quase que com desgosto. No fundo se tratava da repetição de um velho comportamento: eu sempre comi moderadamente, ainda que desde sempre frequentador assíduo de restaurantes. No entanto, de modo particular em casa, quando diante de mim aparecia servida uma refeição de quantidade visivelmente pequena, então eu passava a reagir com um sentimento de ofensa sofrida, como se tivesse fatalmente necessidade de pratos fartos. Assim acontecia quase sempre também à mesa da “Casa de Saúde”.

 

Tudo isso eu via como uma culpa daquela espécie de decálogo alimentar que logo criaram para mim. A causa das restrições com os quais esse sistema se justificava partia de uma predisposição pós-operatória à intolerância glucídica que, segundo os exames quotidianos, eu apresentava. Para não aumentar minha taxa glicêmica e, em consequência, para evitar, entre outros males possíveis, que eu aumentasse de peso, nasceram as regras ideais para meu comportamento à mesa, regras que se traduziam principalmente em limitações e restrições. Caro leitor, agora leiamos juntos todas essas regras e então também você verá que eu tenho razão em lamentar-me. Ei-las, numa possível sintese:

 

EXCLUIR o consumo de açúcar, mel, marmelada, chocolate. Para adoçar, “Aspartame”: uma compressa adoça como uma colherzinha de açúcar.

 

PÃES, MASSA E PRODUTOS DE FORNO: preferir pão não saboroso e massa integral (as fibras diminuem a absorção dos carboidratos), numa quantidade de 60/80 gr. de massa no almoço e 30 gr. no jantar. A massa deve ser acompanhada por molhos simples, de tomate ou de verduras diversas, completadas com uma colherzinha de queijo parmesão. Quanto ao pão: 3 pães pequenos por dia (50 gr. no café-da-manhã; 30/40 gr. no almoço e no jantar). Evitar biscoitos e brioches, ricos em gorduras saturadas. Evitar igualmente os cornflakes, porque se apresentam com um índice de açúcar elevado.

  

LEGUMES: limitar o consumo de batatas e cenouras (sempre o famoso índice glicêmico elevado…) Ocasionalmente, 100 gr. de batatas podem substituir 30 gr. de pão insípido. Recomedado o consumo diário de uma quantidade abundante de verdura crua e/ou cozida, seja no almoço, seja no jantar. Leguminosas como feijão, petit-pois, lentilhas, frescos ou congelados (150 gr.) ou secos (40 gr.) podem substituir ou completar os pratos de massas. Quanto às frutas, sempre aquelas frescas da época. Evitar uva, figos, caquí, bananas, frutas em conserva. Quantidade aconselhada: 2-3 porções diárias correspondentes a 150-200 gr.

 

PRATOS FORTES: Variar entre carne magra, branca ou vermelha, peixes de todos os tipos, três ou quatro vezes por semana; ovos, duas vezes por semana, e mais bresaola, presunto ou speck magro, queijo (2 vezes por semana, porém lembrar-se que  não existem queijos magros!).  Para molhos complementares, permitido o azeite puro, sempre cru, não mais de 3 colheres diárias.  Não, absolutamente não! quanto a manteiga, margarina. Leite, 200 gr. pela manhã, com café ou chá, ou senão iogurte natural com 100 gr. de fruta fresca.

 

BEBIDAS: evitar refrigerantes de frutas, bebidas com gaz (senão, o c a s i o n a l m e n t e, escolher bebidas light   <caro leitor, não escrevo aqui os nomes dessas bebidas multinacionais para não alargar a prepotência publicitária das mesmas…>, aperitivos, licores). No caso de permissão do médico, é possível tomar um copo pequeno (120 ml) de vinho, no almoço e no jantar. Ah! meu amigo leitor, você logo vai ver que em determinado momento e isso na última semana de minha estada em Arco, certamente como  sinal de minha melhor recuperação, assumi tal velada hipótese e passei a tomar meu vinho tinto, superando uma dura e longa abstenção.

 

Depois de tudo isso, de todo esse quadro de acentuada desolação, a dietista que assinou o meu decálogo concluia a sua sentença dizendo:  se recomenda a manutenção do peso corpóreo ideal (kg 64)…

 

Só eu sei, porque desses eventos nada disse a ninguém antes de você, caro leitor amigo, como passei os dias da recuperação. Não era tanto porque não comia ou bebia como poderia desejar, mas pelo sentir que meu corpo se fazia cada dia mais leve, mais leve. Então, nas minhas muitas preocupações nas noites indormidas da “Casa de Saúde” me vinha a lembrança e a saudade de minha mãe. Ela, quando eu chegava depois de uma longa ausência, enquanto me abraçava e beijava, me contemplava de cima a baixo   Sílvio, como você emagreceu! você está muito magro, meu filho! precisa comer mais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Sábado, 25 de Junho de 2011
Um Novo Coração 33 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 33

 

 

Arco, 4ª jornada, 13/02/05

 

São já dois dias que divido a minha mesa do refeitório com um companheiro que me acompanhará por todo o período que aqui ficarei, e disso tive certeza quando ele mesmo me disse que iria ficar não somente quinze dias, como era o meu caso, mas bastante mais, pois deve seguir uma terapia de recuperação prevista em trinta dias, dos quais já cumprira cinco. O dr. Carlo Citton, assim se chama o meu companheiro de mesa, é um médico, ainda jovem, pois apenas superou de pouco os cinquenta anos, originário de Trento onde também exerce a sua profissão. Ele sofre de problemas motores, com perdas de segurança principalmente nos músculos dos quadris, com reflexos naqueles das pernas e na coluna vertebral. Por isso, no primeiro dia que nos vimos na hora do almoço, eu já estava sentado à nossa mesa, num ângulo fechado do salão. Institivamente eu escolhera a cadeira que se encontrava protegida quase de encontro com as paredes que formavam o ângulo, dali podendo admirar todo o movimento do ambiente, controlar as portas de entradas e saídas, verificar o ir-e-vir das servidoras que, de outra sala, traziam a carrocinha com os pratos que seriam servidos, as frutas, as gárrafas de água mineral e outras coisas mais. Desta maneira, eu deixara livre a cadeira que dava as costas a todos esses movimentos, com pequenos ângulos de visão somente possíveis no espaço limitado ocupado pelas duas mesas que obliquamente ladeavam a nossa. Ao ver chegar o meu companheiro apoiado em duas muletas, sorridente e imediatamente simpático, algo me envergonhei da posição a que inadivertidamente o condenara. O dr. Citton logo procurou liberarar-me desse repentino sentimento de culpa que me acometia e, me dizia,  muito pelo contrário, para mim essa é a melhor posição que eu poderia encontrar. Assim dizendo deixava com vagar e cuidado as duas muletas que eu prontamente recolhia e colocava atrás da minha cadeira, em pé, apoiadas contra as paredes angulares. Desde então começamos uma conversação quotidiana que se dilatava pelos mais diversos assuntos, pois o meu companheiro demonstrava desde logo grande capacidade de comunicação, com interesses os mais variados. Mais ainda, desde o primeiro almoço mostrou-se capaz de grande atenção sobre as coisas do outro e com muita simpatia sempre procurava serenamente fazê-las suas. Cedo descobrimos que, ainda que eu fosse mais avançado nos anos, tínhamos muitos interesses em comum, como você, caro leitor, terá ocasião de verificar nos contos desses dias que vivemos na “Casa de Saúde”.

 

Naquele primeiro dia almocei com mais gosto a comida um puco insípida que nos serviam, passando o tempo de uma hora, uma hora e meia, usado para estarmos à mesa, trocando idéias com meu novo amigo. Uma coisa tive claramente em mente desde que conheci o dr. Citton e sabendo que aqueles nossos encontros se repetiriam três vezes por dia: eu logo imaginei que com ele me interessava falar de medicina; não de doenças, das nossas doenças, dos nossos males, mas da medicina em geral. Misturando as nossas trocas de idéias com tantos outros assuntos, eu aproveitaria dessa feliz circunstância para esclarecer problemas e questões que sempre me interessaram e quase me levaram a fazer-me médico.

 

Acabado o almoço, não subi imediatamente para o meu quarto, mas fiquei no salão do bar, lendo os jornais do dia, observando de esguelha a televisão sempre acesa, mas principalmente atentando aos vários grupos que em diversas mesas, em geral de quatro ocupantes, jogavam baralho. Curioso, porque também gosto de jogar baralho, meu olhar passava de mesa a mesa, tentando captar os movimentos dos jogadores e as vitórias e as derrotas. Os jogos eu os conhecia e praticava todos: nas muitas mesas se jogava principalmente “scala quaranta” e “scopa con l’asso”. Também em alguns grupos de jogadores via-se uma ou outra partida de “briscola”, “tre sette” ou de “madrasso”. A maioria das mesas se dava à “scala quaranta”. Os jogadores são de diversas proveniências, mas as regras dos jogos os unem numa disputa que parece não mais acabar.

 

Quando subi para o 2° andar, depois de admirar de longe os jogos que se repetem todos os dias, entrando no meu quarto tive a surpresa de ver a cama de Umberto Costa livre. Ele tivera alta e saíra de manhã, sem que eu o visse, como acontecera quase sempre entre nós naqueles poucos dias da difícil convivência. Vendo o quarto como que vazio, completamente meu, tive uma agradável sensação. Descerrei a cortina, abri a janela e contemplei como se fosse minha todas as terras descortinadas que subiam verdes para as montanhas. Respirei o ar puro e vi de longe os proprietários verdadeiros que trabalhavam a terra, podando árvores, cuidando das vinhas. Ao lado do proprietário da vinha mais próxima um cachoro girava em torno com a mesma tranquilidade de seu patrão. Deixei a janela e sentei-me finalmente na poltrona diante da cama vazia e ali fiquei por longo tempo. Depois preparei meus livros na mesa comum, apaguei a televisão que eu não percebera acesa e, pela primeira vez, subi na minha cama para procurar repousar no silêncio daquelas horas meridianas. Tudo me satisfazia e tanto que, em determinado momento, senti quanto é difícil conviver em intimidade com desconhecidos e como eu me sentia bem estando sozinho. Um sentimento de culpa se formou em mim, pois eu reconhecia amar mais a solidão que uma solidariedade a nós imposta pela vida nos seus diversos e mais difíceis movimentos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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