Quinta-feira, 23 de Junho de 2011
S. João - Marcos Cruz
 
Marcos Cruz  S. João
 
(Adão Cruz)
 
 
João estava são, mas não tencionava ir ao S. João. Era uma contradição quase evidente, pois, no Porto, só não vai ao S. João quem estiver em má fase, morto ou doente. Mas João tinha uma explicação assaz convincente: o seu cão, pouco paciente, não lhe daria paz em noite tão exigente. Uma solução era deixar o cão na vizinha, mas esta, tripeira dos quatro costados, queria também ir à festa, e sozinha, sem atrelados. O que fazer, então? Das tripas coração? Talvez não. Afinal, o S. João não valia tanto, para o João, como aquele espanto de animal. No entanto, mais do que ninguém, estava o dono seguro de que quem troca o pão, mole ou duro, e a sardinha na brasa por passar, com o cão, em casa, um serão distinto, sem um grãozinho na asa, não sabe o que perde, pois como isso não há nada, nem o chouriço, o vinho, verde ou tinto, a martelo, nem a própria martelada. Bailarico popular é o S. João, e só ficam a ganhar os que lá vão. Foi já resignado à desdita que o João, acabrunhado, teve súbita visita de uma cantora de fado. Ainda ela lhe dizia que viera de Lisboa rever uma velha amiga mas não a tinha encontrado, logo o João, animado, deu corda à imaginação, pensando se não seria a sumida rapariga a sua vizinha do lado. Era mesmo, pois então, e foi em tom de cantiga que o bom do João propôs à querida fadista condição oportunista para lhe dar guarida até ao regresso da amiga: tomar-lhe conta do cão. Ela ficou convencida e, pronto, missão cumprida, lá foi ele, feliz da vida, cumprir também a tradição.

 

 



publicado por Augusta Clara às 19:00
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Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
O sofá de pedra - por Marcos Cruz
 
A história que vos vou contar podia sair-me das mãos numa rajada, mas eu não nasci para ir directo aos assuntos. Percebi isso quando perdi a virgindade. Foi estranho. Os meus amigos tinham-me pressionado tanto a invadir a minha namorada que, na hora h, parecia que o meu pénis ia às finanças. Claro que ejaculei precocemente. O que vale é que não culpei o acto em si, culpei-o em mim, isto é, compreendi que sem sol não se faz praia, que cada prazer pede o seu clima. Com essa namorada, porém, o destino estava escrito. Como Deus, quando fecha uma porta, abre uma janela, o mesmo destino quis que, antes de conhecer a minha terceira namorada (e não a segunda porque à segunda nem as mamas lhe apalpei, apesar de ter andado dois meses com ela), eu descobrisse um sítio mágico, hoje dir-se-ia um spot, numa zona rochosa da praia de Cabedelo, para lá do Hotel Casa Branca, quem vem do Porto. Era um calhau talhado pela bravura do mar em forma de sofá ou chaise longue, um presente romântico do grande arquitecto para a minha pequena pessoa, como a lembrar-me de que nem tudo estava perdido. Reconheci logo ali um potencial extraordinário. E, assim que pude, numa noite cravejada de estrelas, levei lá a rapariga que, entretanto, me entrara pelos olhos. A conversa, a brisa costeira, a aura de altar impossível, com um véu lunar a sair-nos dos pés, na incerteza da água, para um horizonte também ele indefinido, mistificaram o beijo que acabaríamos por dar, certos de que haveria de ser o primeiro de muitos, como foi, e certos de que haveríamos de ser os últimos um do outro, como não fomos, nem sequer naquele sofá.
Se é verdade que os casos de amor deixam sempre marca, a rocha ergonómica nunca se viu beliscada - também, quem é que ia beliscar uma rocha… - na sua infalibilidade como acendalha da mais crepitante das ilusões. Pelo tempo fora, tive ali a boca de cena perfeita para o ritual iniciático da paixão, uma espécie de zona (pouco) franca entre o divã e o confessionário, onde me encontrava sempre com cada nova mais-que-tudo, como num casting mútuo, de olhos apontados ao filme mais estrelado, a passar desde o princípio das noites na tela infinita. Um dia, ao cabo de muitos anos, dei-me conta de que a marginal de Gaia estava a ser substancialmente alterada, para que o usufruto de toda a linha de praia ganhasse qualidade, quer na perspectiva de quem passa, de carro ou a pé, pois a proposta era melhorar as estradas e construir um percurso pedonal de madeira até Espinho, quer na de quem fica, uma vez que iria ser ampliada a oferta de bares e esplanadas. Eu, claro que afastei essas promessas como quem abre as cortinas do quarto à espera de que o dia não esteja chuvoso e fui, disparado, procurar o calhau, mas, depois de umas voltas para trás e para a frente, não vislumbrei sequer o meu ponto de referência, que era uma curva, uma curva que já era, pelos vistos. Fiz uma espécie de varrimento emocional, que é como quem diz um apelo à memória afectiva para vestir a pele de detective, e corri as áreas rochosas, saltando de pedra em pedra, sem, contudo, descortinar o paradeiro do sofá. Se, por um lado, se me afigurava impossível, criminoso até, alguém ter removido dali o ex-libris costeiro do Grande Porto, por outro eu era obrigado a reconhecer que mais ninguém, além de mim, lhe atribuía esse estatuto, donde a minha frustração tinha uma raiz essencialmente egoísta. Voltei lá depois disso, em ocasiões dispersas, só para confirmar o desaparecimento, e ainda hoje, devo confessar, há um cantinho de mim que não se dá por convencido. Mas é mera teimosia. Afinal, a mulher com quem vivo, o amor da minha vida, nunca se sentou naquele sofá. Foi a primeira e única, como se, fechando a porta dos enganos, Deus me tivesse aberto, enfim, a janela da verdade. Por isso, acho que está na hora de pôr uma pedra sobre o assunto.   


publicado por Carlos Loures às 21:00
editado por João Machado em 16/06/2011 às 11:44
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Sábado, 26 de Fevereiro de 2011
Do Vazio

 

 

 

 

 

 

 

Marcos Cruz

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

 

 

 

António era um bife. Mal passado, passava mal. Mas tinha a resistência suficiente para lutar contra os que o queriam passar bem, pois sabia que “uma vez bem passado, bem passado para sempre”. Passava mal no presente, mais precisamente, já que o seu passado fora até bem passado, ou, como todos os passados, bem e mal passado. Em parte, era com isso que ele se passava: se, por um lado, “uma vez bem passado, bem passado para sempre” e, por outro, o seu passado havia sido bem e mal passado, ou seja, em parte, bem passado, porque não estaria ele bem passado no presente? Talvez, sem o ter presente, estivesse.

 

Mas então por que razão passava mal? Era uma problema pesado, difícil de ultrapassar, e por isso António pediu ajuda. Foi ter com um bife que, por haver passado muito e (aparentemente) passar bem sem estar bem passado, talvez o pudesse fazer passar melhor no futuro, passando-lhe uma receita, ou algo assim, que o dispensasse de ser bem passado para deixar de passar mal. Era o melhor presente possível e, à beirinha do Natal, António passava o tempo todo, incluindo todo o tempo passado com o outro bife, a pedi-lo. Porém, passado pouco tempo, e vendo que António o havia passado mal a ansiar pelo momento de o passar a passar bem sem estar bem passado, o outro bife explicou-lhe que esse não era pedido que ele pudesse fazer a não ser a si próprio, pois nem ele, o outro bife, e muito menos o Pai Natal o poderiam satisfazer.

 

Completamente passado, aqui já não interessa se bem se mal, António deixou o outro bife com um cortante “passar bem” e foi para casa pensar que passaria a mais desconsolada consoada da sua mal passada existência. Só, e descompassado com a ideia de que mais vale só que mal acompanhado, jantou um bife bem passado e passou o resto da noite a dormir, passando a linha do Natal sem se aperceber. Ao acordar, olhou para a árvore luzente que, apesar de tudo, havia comprado e percebeu que alguma coisa se tinha passado, pois no lugar do passado estava lá um presente. Entusiasmado, correu a abri-lo. Era uma bifana.

 

Dormia como um anjo por nascer, mas já se constatava que era uma bela bifana, daquelas que fazem qualquer bife, mesmo o mais indefinidamente passado, como António, ultrapassar-se. A incredulidade guiou-o, qual sonâmbulo, até à casa de banho, onde passou água pelos olhos. Foi então que, confrontado com o espelho, viu que não se via. O seu tempo, dizia-lhe a superfície das imagens avessas - e que ali estampava também a do Natal - tinha passado. António deixara de ser um bife para passar a ser nada, como acontece com todos os bifes. E não lhe restava sequer o consolo de, enquanto nada, pensar que quando fora um bife o havia sido mal passado, já que passara à história com essa incerteza. Resignado, decidiu aprender com o passado e viver plenamente a espécie de segundo nascimento que lhe fora concedida. Outrora recém-nado, hoje recém-nada. Nesse preciso momento, a bifana acordou.

 


 

 



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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011
Certidão de Óbidos

 

 

 

 

 

 

 

Marcos Cruz



Tenho uma amiga que não sabe de onde veio, ou de quem veio, mais precisamente. Veio ter comigo assim, de repente, do nada, como terá vindo ter com ela mesma. Depois de algumas conversas, e percebendo que, embora perdidos na encruzilhada de sentidos que a vida nos aponta, ambos vivíamos em nós mesmos, e por isso nos entendíamos, confidenciou-me que o segredo da sua génese lhe fora sonegado desde que mostrou curiosidade sobre ele. Fê-lo, claro, porque faltavam cartas na mesa. Desorientada, naturalmente, disparou em todos os sentidos, como uma mãe que procura um filho desaparecido, tocando nos ombros de cada oportunidade, à espera de que ela se vire e a cara lhe sorria. Desenvolveu a fé. Falhou, falhou, falhou.

Foi aprendendo, por razões de sobrevivência tão intimamente ligadas a quem tem algo de fundamental para encontrar, mesmo não sabendo o que seja ou não tendo pistas sobre onde esteja, a retirar de cada falhanço a ilação certa, o aspecto bom. Reverteu em amor o que para quase todos seria medo e ódio, uma vida amarga, um mar de espinhos. Como a roda de um carro, ou talvez de uma bicicleta, dada a sua propensão, de raiz dedutível, para as coisas mais transparentes, menos engenhosas, foi acima e abaixo, ao oito e ao oitenta, e entre ambos chegou a deixar de rodar, por uns tempos. Ou seja, tentou tudo. O aconselhável e o impensável, o sensato e o louco, a diluição no colectivo e o radicalismo individual. E os tons do meio, tantos quantos pôde, até hoje, coleccionar. Quando, numa dessas vagas, deu comigo, era como se quase não lhe faltassem peças do puzzle mas não soubesse onde as pousar, como se não tivesse chão. Propus-lhe um uso incerto do meu, algures entre a realidade e a fantasia, um meio conto. Parecia decidida a ficar, a permanecer, mas acabou por deixar o meio conto a meio, não sem antes se fazer valer da experiência acumulada na sua busca pessoal para me desbloquear uma veia criativa, uma via construtiva, e acender mais uma luz no sentido da minha vida, ironia de um destino que ela, então, não reconhecia como tal, ou não reconhecia de todo. Foi para casa, para Óbidos, a terra onde nasceu. Ter-se-ão passado dois meses.

Hoje recebi uma carta dela. Lá dentro, li que não lhe importava já outro sentido na vida do que estar bem e em paz, e sorrir, com dignidade, esteja onde estiver, faça o que fizer, seja qual for o desafio que lhe aparecer pela frente. A questão terá deixado de ser descobrir o sentido da existência para passar a ser existir em todos os sentidos. Nos dela e nos dos outros, como existe, de facto, no meu. Pensando nisto, aliás, perguntei-me se o verdadeiro sentido da vida dela, por paradoxal e até algo triste que enganadoramente se afigure, não seria ajudar os outros a encontrar o sentido da vida deles. Varrendo com uma mão os pensamentos e já quase a guardar, com a outra, o envelope, estremeci de surpresa quando, ao passar os olhos pelo remetente, li: Rua do Cemitério. Então, não me perguntem porquê, tive a certeza de que a minha amiga estava bem, como que renascida. Aquela carta era uma certidão de nascimento. E, pelo que não deixa de ser outra ironia do destino, uma certidão de Óbidos.



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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011
Química

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcos Cruz

 

(Ilust. Manel Cruz)

 

 

Olha o Falso! Então, Falso? Há que tempos! Tás fixe? Olha, esta é a Foca, uma amiga minha. Que cena, pá! Tás bem? Fogo, olha, a gente vem dali, tá lá assim uma cena mesmo indescritível, um electro meio marado, misturado com não sei o quê… Ó pá, nem é rock nem é aquele pop pop, sabes? E o gajo mistura maaal, Falso! A sério, não tás a ver! Eu e a Foca já nos távamos a passar. [faz uma festa no peito de Falso como se lhe estivesse a limpar o pó e volta à carga] E tu? Tás aqui, quê, a fumar um cacete? [Falso não fala, só sorri, meio envergonhado] Iá… Ó pá, mas tás fixe? Que cena, já não te via há bué! [Foca, essa, está prestes a deixar cair o sorriso] Este gajo [virada para Foca] é que é o guitarrista dos Phones! Eu tenho de te mostrar Phones, estes gajos são muito fora! Mesmo! [este “Mesmo!” é dito com os olhos em brilho, toda ela parece uma espinha de deslumbramento a rebentar] E… e já têm cenas novas? [hesita na pergunta porque se apercebe, finalmente, de que os amigos de Falso estão com cara de sopa azeda] Ah, desculpem lá: eu sou a Cláudia. Ela é a Foca. [eles ruminam, em jeito de anuência] [fica um silêncio agreste] Pois é, Falso… Vê lá se dizes alguma coisa! Ainda tens o meu telemóvel? [Falso faz sinal de que sim] Tens qual? O 91? [ele repete o sinal] Ah, é que eu agora também tenho um 93, se calhar dá-te mais jeito [Falso faz sinal de que não] Iá, então olha, a gente vai bazar! Bute aí, Foca? [Foca arrota, nervosa] Xau, pessoal! [elas afastam-se, com o estilo possível; eles certificam-se disso] [por fim, Falso fala] Ó Brito, faz esse!




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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011
A Escrita, por Marcos Cruz. Ilustração de Adão Cruz.

 

 

 

 

Marcos Cruz

Uns dias bem, outros mal. Quão mentiroso é o horizonte! Quão aliciante e persuasivo se nos mostra naqueles dias, quão angustiante e negro se nos revela nestes. 

A paz é das montanhas e dos vales, dos medos e dos amores, ela habita toda a forma. Para ser minha também, falta que eu com ela aprenda essa adaptabilidade, essa renúncia infinita. Sentir, eis a questão. Sentir tudo. 

Abrir o peito às flores e às balas, deixar que o destino penetre a carne e a queime de toda a sensação, permitir que o corpo seja o altar onde a dor e o prazer juram e geram amor eterno. Fazer a parte que me compete, usar bem o meu testemunho, abrir caminho para quem vem depois. Viver no paradoxo como se fosse chão firme, que o é, afinal.

Escrever, o acto de escrever, uma das infinitas formas de sentir, tem sido para mim um claro exemplo disso: escrevo quando sinto que preciso, quando a alma se agita e quer que lhe conte histórias, quando estou por baixo; se assim não for, vivo. 

Escrever é, pois, para mim, uma forma de legitimação daquilo que procuro: viver. Como se esse grande propósito, assumido na sua plenitude, carecesse de sentido. Como se a vida, ela própria, não tivesse sentido. Se não tem, para que vivê-la? Mas, lá está, escrever é, para mim, a renda da casa. 

Deus deu-me esta moradia, este corpo animado, esta oscilação perpétua, com uma ordem própria que não domino mas, passo a passo, vou descobrindo nas coisas, nas vagas dos mares, nas fases da lua, no intangível jogo de espelhos que é o mundo, do poço mais fundo ao abismo do céu.

Passo dias de sonho, vivendo. Vou ao sabor dos passos que são e não são meus, num ritmo etéreo mas não aéreo, uma espécie de batida silenciosa. Os meus pés falam com o chão, conversam ora eu ora tu, demoram-se em passeios tão verbais quanto sexuais - e, em ambos os casos, fecundos. Acham que eles se preocupam com o destino? Nada. 

Ocupam o tempo até que alguém por eles, há quem diga que eu, decida interromper o coito. Coitado de mim: mais e mais culpa. Aonde quer que vá, o que quer que escave, encontro sempre culpa. Nos dias bons, agradeço-a como um cão lambe o dono por um novo osso, consciente de que atrás dele mais vida se abre, mais água corre entre o fulgor e o desespero; nos maus, ajoelho-me perante ela, todo rendição e revolta, resistindo a entregar-lhe a minha ausência de sentido, como quem resiste a deixar um filho seu em porta alheia.

Pois é. É que também passo dias de pesadelo, sonhando. A coincidência, e aparente contradição, entre sonho e pesadelo, entre viver e escrever, entre dia e noite, atesta e ela própria espelha o tal jogo de espelhos que é a existência, pelo menos a minha. Os espelhos, os que socialmente se convencionaram como tal, os que registaram a patente dessa condição, mostram a nossa imagem invertida, mas na vida tudo é nosso, tudo nos diz respeito, tudo e nada, a verdade e a mentira. Daí que o inverso de mim seja eu também. Daí que os dias bons sejam maus também, e vice-versa. Daí que escrever seja também viver. E daí, talvez, eu escrever. 

Não fora essa consciência e dificilmente o faria, porque não gosto de ir pelos meus dedos, não acredito neles enquanto entidade destacada do todo. Para mim, o cérebro de cada um é como um neurónio do universo: sozinho nada faz, tem de chocar, tem de criar faísca, ir na corrente. Só que, se me é mais fácil, por assim dizer, libertar o cérebro quando ando na rua, quando nado, quando medito, quando como, enfim, quando não me atenho a um ofício mental, sinto extrema dificuldade em consegui-lo quando escrevo. 

Já muito pensei sobre isto, claro. O que é, aliás, mais um paradoxo, porque ao pensar estou a instrumentalizar o cérebro. Mas também já muito meditei sobre isto. Pensar e meditar são, no meu modo de sentir actual, coisas mais ou menos tão diferentes como viver e escrever. O pensar tem o seu teatro na roda mental, requer um departamento para existir, recolhe-se do que não lhe convém. O meditar absorve tudo, mesmo o pensar, até que este desapareça espontaneamente por defesa própria. 

O processo de escrita tem-mo mostrado, desde os dias em que fincava os olhos na folha branca e como que a inquiria, tentando extorquir-lhe uma mancha, um palmo de cadastro, para que nele pudesse lavrar, e ela, com a candura dos inocentes, me devolvia o olhar, sem mais em sua companhia que a frustração de ser nada o meu reflexo, de estar trancada a minha alma. De então para cá o que mudou foi a mudança, a alma ela própria de mim e de tudo; foi então o mundo, toda a vida, toda a escrita. 

Foi o sentir a dita frustração e começar a amá-la como o fio de sentido que me estava destinado puxar, o pedaço de vazio que me era levado à boca. Foi a noção de que o meu caminho se desenhava, afinal, na sombra do que eu havia desenhado para si mesmo, no inverso da imaginação, da conjectura, do pensamento, do sonho. Comecei a perceber que, em vez de escrever, o meu destino era ser escrito. E que melhor paradoxo? Li no destino que o tinha de escrever.

Mais do que me confrontar com a responsabilidade de palmilhar rumo a Deus, isso contribuiu decisivamente para que pousasse em mim próprio, como uma semente que inicia a sua aventura na fertilidade macia de um terreno que sempre a desejou. Continuei a passar uns dias bem, outros mal, mas a minha consciência do bem e do mal mudou desde que os enquadrei como dores e prazeres de crescimento, como mensagens provenientes da raiz que entrara por mim adentro com a firmeza etérea da luz matinal. Nem sempre as leio com a devida serenidade. Às vezes a sensação é tão intensa que me convoca inteiro, qual bombeiro apanhado na teia do fogo, vitimado pela violência das chamas. Mas mesmo dessas mortes saio vivo, com uma sensação de integridade mais ampla, como se o que deixei na batalha não me pertencesse.

Pode, compreendo, este caminho parecer inclemente a quem me viu e quem me vê. Posso dar a ideia de me ter tornado num egoísta insensível, num puro sangue que, apontado à sua própria loucura, esquece a poeira que levanta. A verdade, porém, tanto quanto a minha lucidez a sabe agora decifrar, é que me leio cada vez mais como a um livro, confiando ao abismo da liberdade a memória de cada página que viro, testemunhando a expansão da consciência por cada nova página em que mergulho. Se me perguntarem com que direito, assumirei não saber verbalizá-lo melhor do que deixando vir à luz estas linhas tortas, na fé sincera de que o contemplarão. Se assim for, a minha gratidão não caberá em nada, pois brilhará no meu íntimo a certeza de que o amor também se escreve.


 



publicado por João Machado às 16:00
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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010
Frincha

 

 

 

 

 

FRINCHA

Marcos Cruz. Ilustração de Manel Cruz.

Há uma frincha que dá lá para fora, mas eu continuo aqui, sentado. Pergunto-me se vale a pena levantar-me e dar dois passos até à porta só para espreitar pela frincha. Concluo logo que vale, mas não a pena. Vale outra coisa. Vale um depois melhor, talvez, quem sabe? Mas a dúvida, por enquanto, é suficiente para me manter quieto, inquieto, no lugar. Ponho-me então a ver se crio, se distraio a mente da preguiça do corpo. A única coisa que concedo mexer são os dedos das mãos – e a boca de vez em quando. Mas nunca as suíças. Isso nunca. É, para mim, uma espécie de desígnio sagrado. Desde que tomei consciência de mim enquanto ser diferenciado não tive a mais pequena dúvida quanto à necessidade ética de manter toda a vida as suíças imóveis, contra ventos e marés. Conclusão: nunca descanso. Há alturas em que até tenho vontade de jogar à lerpa. Mas, pronto, voltando atrás: mexo um dedo, mexo outro, mexo os dois juntos, relaciono-os e, de repente, acho que já fiz demais. Não sei por que sou tão ansioso. Um dedo, coisa linda. Outro dedo, coisa linda. “O que é que fizeste para o comer, Saia?”. Pois, já vi que nada. Esta minha mulher passa o tempo todo a babar-se, não faz nenhum. Eu ainda mexo os dedos, mas ela... tem hoje uma entrevista, tem. No meio disto tudo, quem nos faz as compras, quem nos lava a roupa, quem nos limpa a casa, ou seja, quem vive por nós... é o Fó. O Fó, que eu já não via desde amanhã às 18.00, é uma alma rara, um rapaz como qualquer outro. Neste momento, por acaso, até me está a irritar, porque se pôs a pregar um bocado de madeira por cima da frincha que dá lá para fora. Vou ter de me levantar, dar-lhe um soco, sair de casa, comprar o jornal, enfim, arriscar mais uma vez o compromisso de honra que tenho com as minhas suíças.


publicado por João Machado às 08:00
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Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010
...



Adeus 

Marcos Cruz. Ilustração de Manel Cruz.

Se levas nas tuas asas
o fio da minha paz
não voes para lá das brasas
onde arde este corpo frio
que jaz

Deixa-o ao menos ser alma
enquanto acaba de arder
e bate as asas com calma
para que não lhe custe tanto
morrer.




publicado por João Machado às 23:55
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Domingo, 26 de Dezembro de 2010
...




Paz 

Marcos Cruz. Ilustração de Manel Cruz











Hiberno, 48 anos, tivera uma vida inteira para se habituar ao ciclo: dois dias radiante, um na mó de baixo. Era sempre assim. E ele, de facto, já não se importava. Na verdade, até lhe sabia bem poder planear a vida com a antecedência que quisesse. Bastava fazer contas aos dias. Só que um dia, sem contar, Hiberno percebeu que a sua vida tinha os dias contados. Triste, num dia em que era suposto estar contente, decidiu contar a sua vida. Era barbeiro, rapava pêlos todos os dias. Ou melhor, dois dias sim, um dia não, porque, pelo sim pelo não, preferia respeitar o ciclo. Cortava o que crescia, como na vida, antes de ser contada. Contava isto quando, de repente, contente, num dia em que era suposto estar triste, decidiu cortar a sua vida. Conta-se que ela voltou a crescer, mas sem Hiberno. Esse, diz quem lhe sente a falta, hibernou.


publicado por João Machado às 08:00
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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010
Zorba
Marcos Cruz

O Zorba era um cão fabuloso, nunca fazia nada à espera do osso. Eu até podia acabar aqui este texto e “postá-lo” mesmo assim, que ele não se chateava. Às vezes ficava horas nos degraus da sala a ver-me ver televisão. Era maior do que eu. Em tudo. Eu prendia-me a uma realidade. A dele incluía-me. Um dia, sem que nada o fizesse prever, pediu-me o divórcio.

Não deu razões, mas bastou-me olhar para ele para ver que era coisa séria. Assinei os papéis sem pestanejar, mas cá por dentro estava como se o meu cão, o Zorba, me tivesse pedido o divórcio. Chorei dias e dias. Lágrimas, por acaso, não. Demorei anos a ultrapassar a dor de não o ter ali, comigo, a sublinhar o nada, que era o que eu fazia. A consciência de que, finalmente, estava pronto a amar de novo só me chegou há coisa de uma hora, quando dei com a Rela, que é a cadela da vizinha, a espreitar pela janela cá para dentro, vendo-me a ver televisão. Abri-lhe a porta, claro, e adoptei-a. Minutos depois, quem me aparece à janela? O Zorba! Estava a chegar de Marrocos, aonde foi engolir uns ovos de haxixe para vender cá, e vinha à procura dela, da Rela. Iam-se casar. Combinaram ali, na minha casa, porque ele queria que ela visse a estupidez de vida que ele teve durante tanto tempo, e também porque estava a dar o Herman. Eu senti um misto de tristeza e felicidade. Tristeza porque ficava sem pau nem bola. Felicidade porque já tinha quem partilhasse a minha tristeza: a vizinha.


(Ilustração de Manel Cruz)




publicado por Carlos Loures às 19:00
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Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010
Dia do Porto: Engraxadores de rua no Porto são espécie em vias de extinção
Foto: Maria Monteiro
















Marcos Cruz

Não vão muitos anos, a Praça da Liberdade no Porto exibia um brilho próprio, único, e não era apenas o dos sapatos de quem não prescindia da sua engraxadela. Era o que lhe emprestavam os próprios engraxadores, tripeiros retintos, línguas soltas, peças típicas de um 'puzzle' hoje a desfazer-se

"Estado civil: mouro!", antecipou, em passo apressado, um habitué da Praça da Liberdade, quando José Almeida, engraxador surdo-mudo, mostrava à reportagem do DN o seu bilhete de identidade, substituto possível da voz sumida. Em breve, não será a única. O barulho das escovas, dos panos e, sobretudo, das apimentadas cavaqueiras dos abrilhantadores de sapatos, autênticas bandeiras do mais retinto espírito tripeiro, corre sério risco - não de ir para o olho da rua, que aí já ele está há alguns anos - de desaparecer de uma vez por todas do quotidiano público do Porto.

Neste momento, são seis os resistentes de uma profissão outrora fundamental à mecânica da Baixa. Futebol, política, sexo, era aquele o palco principal dos temas quentes, abordados com um humor típico, imbatível, de quem sabe que, para alguém cair em graxa, vale a pena ser engraçado. Na rua, nas bancas interiores ou nos cafés das redondezas, o cliente vinha, lia o jornal, dava o seu "bitaite" e, enquanto o profissional puxava o lustro ao calçado, ele puxava o lustro ao profissional. Uma partilha que não raro reverberava nos transeuntes.

"Às vezes, a cidade parece vazia." A frase, deslocada, é de hoje, vertida pelo olhar nostálgico de Eduardo Marques, 12 anos de praça, o suficiente para criticar as obras de requalificação a que a autarquia de Rui Rio a sujeitou. "Ficou feia. O jardim dava-lhe outra graça, as pessoas estacionavam ali, passeavam, vinham engraxar. Este passeio enorme, agora, é para quê? Perdeu-se o movimento que isto tinha", diz, secundado por Maria José Rodrigues, florista, coisa rara naquele amplo cenário de pedra: "Olhe, daqui a pouco passa aí a polícia e multa tudo. Há clientes que vão a correr só com um sapato para tirar o carro, que eles não perdoam."


O discurso inevitável aparece pela boca de José Ferreira. "Diziam mal do Salazar, mas, no tempo dele, a gente trabalhava a valer. Hoje falamos de política. E quê? Vivemos pior!" O engraxador reconhece que a culpa não cabe só à política, até porque "a malta nova prefere andar de sapatilhas" e, além disso, a sociedade não tem os costumes de antigamente. "Os ardinas acabaram, os cauteleiros para lá caminham. É assim...", parece resignar-se, até novo surto de indignação. "Não custava nada à câmara montar aqui umas barraquinhas. Assim, quando chovesse, já podíamos trabalhar. Estamos dispostos a pagar um aluguer pequeno", adianta, qual porta-voz de uma solução acordada.

A verdade é que, sendo este o sentimento geral, a proposta não resulta de nenhum plenário. Afinal, mesmo unidos no declínio, os engraxadores da praça não se solidarizam. "Alguns clientes vêm aqui e, se eu não estiver, vão embora. Os outros sentem um bocadinho de inveja, mas eu acho que não têm de levar a mal. Isto é como ir ao barbeiro", alega Marques, o mais solicitado. "Eu com aqueles gajos quero pouco paleio", diz José Ferreira. "Juntei-me aqui com este meu colega, o Zé [José Gesto, 60 anos], devido à amizade antiga que temos. Falamos os dois e chega."

Armando Monteiro, por sua vez, juntou-se a Marques, mas é como se cada um estivesse sozinho. Nem sombra de relação. Conversas ficam para os clientes, que se vão fidelizando a este ou àquele. Ironicamente, o elo de ligação entre todos é o único que não pode falar: José Almeida, surdo-mudo, de quem ninguém ali diz mal, mesmo sendo "mouro". Infelizmente para ele, está longe de ser um mouro de trabalho.



publicado por CRomualdo às 13:00
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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010
Roma


Marcos Cruz

Passava horas ao espelho. Revia-se nele. Eram ambos incrivelmente superficiais. O reflexo da sua imagem pouco lhe importava, era mesmo pelo espelho que ficava ali, horas e horas, para desespero da namorada, que o tinha como o maior narcisista à superfície da terra. Dizia-lho vezes sem conta, mas ele não se aborrecia. Gostava de ouvir a palavra superfície, fazia-lhe lembrar o espelho. Ela, no seu profundo desespero, procurava mostrar-lhe que havia outros espelhos. "A lua, por exemplo, é um espelho do amor". Ele não fazia caso. Dizia "pois" e continuava a perscrutar a magnífica superficialidade daquele objecto pendurado acima do lavatório. Daí saltava, às vezes, para a televisão, quando dava futebol, mas depressa perdia o interesse no jogo e focava o olhar no ecrã, fazendo análises comparativas entre este e o espelho, que saía sempre vencedor. O mesmo se passava com as janelas, os pratos, as ruas ou o corpo da namorada. Eram subperfícies, cópias imperfeitas do espelho, esse sim a verdadeira expressão formal de Deus. Um dia, ao ter este raciocínio, sentiu-se profundo. Ficou doente. Feliz mas preocupada, a namorada levou-o a um médico, depois a outro, a outro e a outro. Nenhum lhe soube dizer qual era o problema. "Mas ele anda estranho, opaco, senhor doutor! Parece um fantasma, uma sombra do que era", insistia ela, já sem sequer esperar pela resposta. Não tardou muito a que os papéis se invertessem: ela a estudar o espelho e ele a estudá-la a ela. Foi assim durante anos, precisamente os mesmos que ele passara a olhar o espelho. Até que, enjoado de olhar para eles, o espelho se partiu. Cristalizados, ela e ele olharam-se como nunca antes e nunca depois. Num mundo sem espelho, lua ou futebol, foi amor à primeira vista.

(ilust. Manel Cruz)




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Domingo, 14 de Novembro de 2010
Dedo

Marcos Cruz

Um dos meus últimos posts falava de querer e poder, de eu não saber o que quero mas querer saber, qualquer coisa assim, estúpida e inconsequente como muitas das outras que aqui despejo. Inútil, como todas. Hoje, e para se ver como estúpidas e inconsequentes são as conclusões que tiramos, sinto que não quero saber o que quero e que essa é a razão de eu querer, por exemplo, escrever. Eu sinto, não sei. Ou será que só sei o que sinto? Se é, eu sinto, portanto sei, que só eu sei o que sinto. E, nesse sentido, minto se disser que sinto que querer é poder. Mas também quero dizer que amanhã quero poder sentir tanto que querer é poder como hoje sinto que poder é não querer. Porquê? Porque mudo. Sem querer ou por querer. Ou por crer. Vá-se lá saber.

(ilustração  porm. Adão Cruz)





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Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010
Química
Marcos Cruz

Olha o Falso! Então, Falso? Há que tempos! Tás fixe? Olha, esta é a Foca, uma amiga minha. Que cena, pá! Tás bem? Fogo, olha, a gente vem dali, tá lá assim uma cena mesmo indescritível, um electro meio marado, misturado com não sei o quê… Ó pá, nem é rock nem é aquele pop pop, sabes? E o gajo mistura maaal, Falso! A sério, não tás a ver! Eu e a Foca já nos távamos a passar. [faz uma festa no peito de Falso como se lhe estivesse a limpar o pó e volta à carga] E tu? Tás aqui, quê, a fumar um cacete? [Falso não fala, só sorri, meio envergonhado] Iá… Ó pá, mas tás fixe? Que cena, já não te via há bué! [Foca, essa, está prestes a deixar cair o sorriso] Este gajo [virada para Foca] é que é o guitarrista dos Phones! Eu tenho de te mostrar Phones, estes gajos são muito fora! Mesmo! [este “Mesmo!” é dito com os olhos em brilho, toda ela parece uma espinha de deslumbramento a rebentar] E… e já têm cenas novas? [hesita na pergunta porque se apercebe, finalmente, de que os amigos de Falso estão com cara de sopa azeda] Ah, desculpem lá: eu sou a Cláudia. Ela é a Foca. [eles ruminam, em jeito de anuência] [fica um silêncio agreste] Pois é, Falso… Vê lá se dizes alguma coisa! Ainda tens o meu telemóvel? [Falso faz sinal de que sim] Tens qual? O 91? [ele repete o sinal] Ah, é que eu agora também tenho um 93, se calhar dá-te mais jeito [Falso faz sinal de que não] Iá, então olha, a gente vai bazar! Bute aí, Foca? [Foca arrota, nervosa] Xau, pessoal! [elas afastam-se, com o estilo possível; eles certificam-se disso] [por fim, Falso fala] Ó Brito, faz esse!

(Ilust. Manel Cruz)


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Terça-feira, 26 de Outubro de 2010
Disparate
Marcos Cruz

Ao acordar dizia sempre um disparate. Dizia depois outro, sempre que tinha de o explicar: dizia que limpava o espírito, como beber um copo de água limpava o corpo. Era uma questão de saneamento. Básicos, ambos, o saneamento e a questão.

Por outro lado, havia nisto uma possibilidade de sapiência que a fazia hesitar em chamar-lhe estúpido, embora se pudesse sempre defender com o argumento de que chamar-lhe estúpido era o disparate dela. Mas ele não ia nisso, primeiro porque chamar estúpido a um indivíduo que sempre que acorda diz um disparate não é necessariamente um disparate; depois porque, se o fosse, seria um disparate estúpido, já que, com tantos disparates para dizer, não faria sentido escolher um disparate tão pouco disparatado.



Aliás, não faz sentido escolher um disparate. Aliás, um disparate não faz sentido. Enfim, o argumento que ela poderia usar para se defender de lhe ter chamado estúpido, caso viesse a descobrir que afinal a estupidez era mesmo sapiência, parecia-lhe, a ele, um disparate. Por isso é que, naquela manhã, em vez de dizer um disparate, ele lhe chamou estúpida.



(Ilust. de Manel Cruz)


publicado por Carlos Loures às 16:30
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