Quinta-feira, 14 de Julho de 2011
Fête Nat – por Manuela Degerine

Em França o dia 14 de Julho é um feriado e acabou. Acabou de facto o ano de trabalho e muitos aproveitam o feriado como ponte, acrescentando mais três dias às férias. Sabe bem. Os franceses têm seis semanas de férias mais os bem-aventurados RTT (Redução do Tempo de Trabalho), isto é, os dias recuperados pela passagem de trinta e nove a trinta e cinco horas de trabalho semanal os quais, por muitas empresas preferirem manter o ritmo de trabalho anterior, são acrescentados às férias. Os patrões odeiam as trinta e cinco horas (e Martine Aubry que as inventou), porém a França mantem, graças a elas, uma produtividade superior a outros países, cuja semana e cujo ano de trabalho são mais longos. Se quem não é feliz a trabalhar – isto é: a maioria – puder sê-lo fora do emprego, regressa menos frustrado, mais repousado e trabalha por isso melhor; ao contrário do que se pensa em Portugal, não importa o tempo passado no emprego, mas unicamente o que nele se produz. Com um ritmo escolar de, mais ou menos, seis semanas de aulas seguidos de duas de férias, entre Setembro e Julho, em três zonas geográficas com datas de férias sucessivas, mais os RTT e as seis semanas dos trabalhadores, a indústria do turismo jubila e representa muitos empregos, já que os franceses repartem as férias por cinco períodos, férias na neve, férias na praia, férias na montanha, circuitos de bicicleta, férias a caminhar perto ou longe de casa... Embora também dediquem muito tempo a causas, associações, instituições e, mais do que os portugueses, façam eles próprios as obras em casa; não é por acaso que em português se emprega a palavra "bricolage". Tudo isto contribui para uma arte de bem viver gaulesa.


Nos primeiros dias de Julho há na rádio e na televisão um ambiente de fim de ano com retrospectivas das notícias que marcaram a temporada. Paris esvazia-se durante um mês. (Até ao feriado de 15 de Agosto: outra ponte.) É a época de Paris-Praia, em que se pode circular a pé ou de bicicleta com o máximo de prazer, pois quase não há carros e, por consequência, o ar, o ruído e o stress descem a um nível tolerável. Dá para fazer longas caminhadas pela capital. (Evitando os museus, cheios de turistas.)


Tradicionalmente o dia 14 de Julho era marcado por dois eventos que víamos no telejornal: o desfile militar e o piquenique nos jardins do Eliseu. Este era o evento mundano mais popular, para o qual eram convidadas as figuras do ano. Os campeões disto ou daquilo. Os desportistas com medalhas. Os actores, escritores e artistas da ribalta. Os cientistas que haviam recebido um prémio ou feito uma descoberta. Os melhores alunos no bac (exame no fim do liceu). Et caetera. Toda a gente via a reportagem da "Garden Party" para saber quem havia sido convidado. No ano passado Sarkozy aboliu-a com o pretexto de fazer economias, como se os franceses devessem economizar no orgulho... Ficámos sem razões para ver o telejornal no dia 14 de Julho.


No desfile militar participam a Legião Estrangeira, a "Gendarmerie Nationale", o batalhão de XPTO regressado do Afeganistão, os tanques ou aviões do catálogo de vendas. Et caetera. A atracção mais popular costuma ser o ballet aéreo dos aviões de guerra. As personalidades instalam-se na tribuna do Presidente da República, há outras tribunas para convidados e o povo arruma-se pelos Campos Elíseos abaixo. Todas as famílias levam, uma vez na vida, as crianças ao desfile do 14 de Julho, para verem passar as fardas, os tanques, os aviões...


Organizam-se paralelamente, sem a glória do telejornal, sessões solenes de entrega de medalhas. Em 2002 organizei, com dois colegas do liceu de Colombes, onde então dava aulas, uma viagem à Polónia, para os alunos verem os campos de concentração de Auschswitz, Birkenau e Maidenek. Fomos parcialmente financiados por uma associação de filhos de deportados cujo presidente recebeu naquele ano uma medalha de mérito e, por isso, no dia 14 de Julho de 2002, fui convidada a levar os alunos à cerimónia. Eu pretendia ir apenas à entrega da medalha, após o desfile, porém o presidente da associação, um homem admirável de muitos pontos de vista mas capaz de tais estratagemas, ao qual tinham sido atribuídos numerosos lugares numa tribuna, declarou que fôramos convidados para o piquenique no Eliseu; por curiosidade, mordi o anzol e, não só fui ao desfile, mas até levei várias alunas. Encontrámo-nos portanto sentadas na tribuna a ver desfilar tanques de guerra. (Bem feito.) A seguir assistimos à entrega das medalhas: o cidadão, o polícia, o bombeiro que salvou vidas, o cão-polícia que salvou outras vidas... Durante várias horas. (Não lamento: aqueles heróis mereciam a homenagem.)


Para além do feriado e das cerimónias oficiais, o dia 14 de Julho perdeu o conteúdo histórico. Claro que toda a gente aprendeu na escola a tomada da Bastilha, sabe que a Revolução Francesa faz parte do que somos, não só em França mas no resto da Europa, liberdade, igualdade, fraternidade, sem ignorar que nesta revolução houve excessos dos quais ninguém se pode orgulhar: a decapitação de tantos milhares de pessoas, a destruição do património artístico... Também ninguém ouve na "Marseillaise" um hino revolucionário – mas será que na "Portuguesa" os nossos compatriotas ouvem uma exortação à guerra contra os ingleses? Os símbolos gastam-se.


Antigamente havia os bailes – e os namoros – do 14 de Julho. Agora a câmara de Paris organiza espectáculos que, com a participação dos turistas, acabam por juntar bastante público. E perduram os fogos de artifício do 14 de Julho.


Quando evoco esta data lembro-me do nome irónico que, no filme "Coup de Torchon" de Bertrand Tavernier, cuja acção decorre na África colonial, é dado a um criado negro por, se bem me lembro, nascer no dia 14 de Julho: Fête Nat (a abreviação de "Fête Nationale"). Este dia comemora uma revolução que proclamou iguais, pela primeira vez, os homens franceses mas deixou por declarar não só os direitos dos outros povos mas até a igualdade da mulher francesa – que  só obteve o direito de voto em 1944.


Em França, como em Portugal, a esquerda tem desprezado este património simbólico: a consciência de pertencer a uma comunidade. Que não é apenas um orgulho militar com o qual não nos identificamos ou, em Portugal, o derrisório orgulho de pertencer a uma selecção de futebol. Ser português – ser francês – é maior do que isto. Compete a cada um de nós defini-lo de maneira concreta. E por que não investirmos com novos sentidos estas datas simbólicas?

 



publicado por João Machado às 12:00
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Sábado, 9 de Julho de 2011
Mistérios de Lisboa - Último episódio: Figuras de Cartão - por Manuela Degerine

 

 (Conclusão)

 

 

João foi criado pelo padre Dinis e por uma freira que diz ser irmã do padre. Tem catorze anos quando descobre que a mãe, cuja existência ele ignorava, é a condessa de Santa Bárbara, que o marido sequestra e maltrata; mais adiante revelam-lhe os amores contrariados da mãe. O avô mandara matá-lo logo que nascesse, porém o padre Dinis convenceu Come-Facas a vender o recém-nascido por quarenta peças. Quinze anos mais tarde, quando João descobre o passado familiar, este Come-Facas volta a aparecer, chama-se Alberto de Magalhães, é rico, elegante e misterioso, há quem o diga filho de D. João VI; corresponde a Rodolphe d'Os Mistérios de Paris e, como ele, mostra-se tão à-vontade na ralé como na aristocracia. Luta com D. Martinho de Almeida por defender a honra da condessa de Santa Bárbara, revela-se um homem superior e complementar do padre Dinis. O padre também acumula identidades múltiplas, sendo o cigano que compra a criança e o Sebastião de Melo que aparece nos salões da aristocracia, entre outras máscaras e mistérios; virá a descobrir-se filho de um frade que, como por acaso, participa com ele na regeneração ante mortem do conde de Santa Bárbara. Quando este morre, a condessa, como Fleur-de-Marie, como Georgina, recolhe-se num convento; os conventos eram a providência dos romancistas. Muito a propósito, pois o rapaz é pobre, Alberto de Magalhães faz a Pedro da Silva, João até aos quinze anos, o dom de quarenta contos de réis, cujos rendimentos permitem enviar o jovem para um colégio francês, não sem antes o padre Dinis prevenir, a mulher das suas primeiras afeições há-de salvá-lo ou perdê-lo (página 299).

 

Surpreende-se o leitor. Parece que o padre adivinha... Não adivinha, não senhor: a alternativa é retórica, neste romance as mulheres são fatais e, por consequência, caso se apaixone por uma mulher, Pedro da Silva está perdido. Outra convenção ficcional. Ângela – basta este exemplo – foi a desgraça do amante e do marido.

 

Quando esta mulher entra enfim no convento, onde se espera que não faça mais vítimas, encontra Adelaide, a qual narra a história de outra freira, Francisca Valadares. E o primeiro volume conclui-se quando Ângela e Adelaide descobrem que o padre Dinis é o homem fatal (ah...) pelo qual Francisca Valadares morreu de amor.

- É ele... Donde conheces este homem? 

 

No filme de Raul Ruíz vemos um leitmotiv, o teatro de brinquedo no qual João ensaia as peripécias com pequenas figuras. São isto na verdade as personagens de Mistérios de Lisboa: seres de cartão. Por exemplo, o conde de Santa Bárbara que, durante quinze anos, torturou a mulher, brutal, grosseiro, monstruoso, parte para a guerra no exército de D. Miguel mas logo regressa, fingindo-se doente, com saudades da criada, mas de súbito adoece, arrepende-se das vilanias e morre compungido. O leitor que, antes, se esforçava por acreditar naquele demónio, os terrores  da condessa com o punhal sobre o coração (página 47), o que eu tenho sofrido há doze anos, (página 63), os ódios sanguinários do meu carcereiro (página 66), pois, saturado, o leitor já não acompanha a transmutação do diabo em anjo.

 

Neste romance não há povo; há criados. Explorados, de certa maneira, só os filhos segundos da aristocracia, que os pais se recusam a dotar, obrigando as raparigas a entrar no convento; e, se os morgadios tivessem sido abolidos a tempo, Ângela ter-se-ia casado com o homem que amava – não havia Mistérios de Lisboa e ficava Raul Ruiz sem argumento. Bernardo, um ex-criado que socorre, correndo riscos, a condessa de Santa Bárbara, quando é recompensado pelo patrão, que antes o ameaçava, não tira proveito da herança. A esmola avultada que recebeu despendeu-a em missas gerais por alma de seu amo (página 278). Bom servo! Em Mistérios de Lisboa não há miséria nem revolta pois em breve o céu recompensará as vítimas devotas. O que são as perseguições aqui em baixo nestes três dias de peregrinação? (página 75), inquire retoricamente o padre Dinis. E Ângela, que aprendeu a lição, recomenda ao filho (página 296): Fita os olhos no céu, meu filho.

 

Caminha sempre, elevando-te para lá. Isto aqui é um dia... Neste romance há diálogos sobre o amor de Deus longos como uma espera no Centro de Saúde da Penha de França (extensão Seguros). Por exemplo. Ou sobre o amor de mãe, este amor tão santo, este reflexo da ternura de Maria Santíssima, é o vínculo que prende as delícias dos anjos com as raras alegrias da terra (página 95). Outro exemplo. A heroína do primeiro volume é um anjo neste mundo extraviado e o leitor acompanha-lhe o percurso deste tanque de lágrimas até à antecâmara do céu. Diálogo entre Ângela e o Padre Dinis (página 246):

 

- Esperanças!

- No reinado dos que sofrem. Há muito que amar fora do mundo. Verá o que é a tranquilidade do amor de Deus. Quer entrar em um convento?

- Ah! sim, um convento, a minha ambição mais querida... um convento, meu bom amigo...

 

Assumo a responsabilidade de saltar por cima do segundo e do terceiro volumes dos Mistérios de Lisboa. Passo directamente aos outros livros de Camilo Castelo Branco. A vida é curta e vastas as bibliotecas.



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por João Machado em 05/07/2011 às 18:26
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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011
Mistérios de Lisboa - Segundo episódio: O pacto de verosimilhança - por Manuela Degerine

 (Continuação)

 

 

Na primeira imagem do filme de Raul Ruiz vemos subir um cenário com o Aqueduto das Águas Livres. Lisboa é exactamente isto na obra de Camilo Castelo Branco: um cenário de papel. Não encontramos um nome, Lapa, Chiado, Rua Augusta, nem colinas nem varinas, nada que nos situe em Lisboa; apenas quintas e conventos.

E, na página 251 do volume I, na rara vez em que o narrador descreve um espaço, logo nos afoga o prazer na dúvida. Cito: Os primeiros raios do sol de Agosto douravam o castelo de Palmela. O céu límpido, o Tejo azulado, e o murmúrio matinal da natureza encantavam a alma naquele recolhimento íntimo, remanso providencial de suavíssima tristeza.

 

Que pensa o leitor? Primeiro grande mistério. A heroína encontra-se no Beato, vai de Lisboa a Santarém para perdoar as violências ao marido... No que me toca, duvido bastante que, mesmo sem prédios, mesmo com um céu límpido, seja possível; mas, se algum leitor me puder explicar como é que, do Beato António, se vê o castelo de Palmela à beira-Tejo, se põe um olho no Tejo e o outro em Palmela, por favor, não me prolongue a inquietude.

 

Camilo Castelo Branco publicou Mistérios de Lisboa n'O Nacional de 4 de Março de 1853 a 31 de Janeiro de 1855, isto é, dez anos depois do estrondo d'Os Mistérios de Paris. O que havia de raiva social na obra de Eugène Sue aparece aqui transmutado em esperança no além. Trata-se de praticar um resto de surf na onda descendente, aproveitando o título como chamariz e reciclando uma ou outra figura que, dez anos antes, já parecia estereotipada a Almeida Garrett.

 

A vida atribulada de Camilo Castelo Branco poderá decerto explicar algumas bizarrias do romance – das quais aliás o autor tem consciência. A narração começa com um capítulo intitulado Prevenções onde, como num prefácio, um narrador na primeira pessoa do singular afasta a responsabilidade:

Este romance não é meu filho, nem meu afilhado.

 

Se eu me visse assaltado pela tentação de escrever a vida oculta de Lisboa, não era capaz de alinhavar dois capítulos com jeito (página 5).

 

Por conseguinte, garante este primeiro narrador, o texto foi-lhe enviado do Rio de Janeiro e não é romance mas um diário de sofrimentos, verídico, autêntico e justificado (página 6). Aliás quem lho enviou também não é ainda o narrador da história mas apenas um anfitrião que em terras brasileiras acolheu aquele homem, uma figura singular (página 7) que ao morrer, em forma de agradecimento, lhe deixou as memórias: dê-se ao trabalho de ler, em horas de ócio, esses cadernos de papel que por lá estão, e poderá então dizer que o seu hóspede, silencioso em vida, conversou muito consigo do túmulo (página 14).

 

Por conseguinte, embora apresentada por um romancista, não vão ler uma história ficcional. Este subterfúgio narrativo foi, ao longo do século XVIII, de Diderot a Restif de la Bretonne, não só uma das ferramentas mais usadas no reforço da verosimilhança, mas também uma estratégia para desresponsabilizar o autor. Após este prefácio fictivo, o eu chama-se João porém, mais adiante, a mãe muda-lhe o nome e ele passa a ser Pedro da Silva. O responsável pelas incoerências e inverosimilhanças do texto é portanto Pedro da Silva – defunto. E esta morte é a maior garantia de veracidade: lemos as últimas palavras de um condenado. Mentir para quê?...

Vemo-nos forçados a aceitar o pacto de verosimilhança.

 

 

(Conclusão no próximo número.)

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por João Machado em 05/07/2011 às 18:24
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Quinta-feira, 7 de Julho de 2011
Mistérios de Lisboa - I Episódio - A Mãe de todos os mistérios - por Manuela Degerine

Descobri Os Mistérios de Paris de Eugène Sue quando, aos dezassete anos, li Viagens na Minha Terra – que contêm afinal tudo. Publicado no Journal des Débats de Junho de 1842 a Dezembro de 1843, foi o primeiro grande sucesso popular com centenas de milhar de leitores pelo mundo, ouvido por analfabetos, comentado por ministros, o antepassado glorioso dos folhetins radiofónicos e das telenovelas. E neste momento ainda representam Os Mistérios de Paris no teatro de verdura do Bosque de Boulogne... Almeida Garrett escreve Viagens na Minha Terra quando a misteriomania atinge o ponto culminante e é compreensível o tom com se refere às três personagens principais: Fleur-de-Marie, Chourineur e Rodolphe (este, ao mesmo tempo, herói dos tugúrios e grão-duque de Gérolstein).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não pode ser clássica, está visto, a tal descrição. – Seja romântica. – Também não pode ser. – Por que não? – É pôr-lhe lá um Chourineur a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e homem, quando encontrar uma Fleur-de-Marie para dizer e fazer pieguices com uma roseirinha pequenina, bonitinha, que morreu, coitadinha! E um príncipe alemão encoberto, forte no sôco britânico, imenso em libras esterlinas, profundo em gíria de cegos e ladrões... E aí fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar à mais pintada e da moda neste século elegante, delicado, verdadeiro, natural!

 

Notamos em Almeida Garrett uma ironia não isenta de admiração. O escritor sabe que, não obstante o constrangimento da moda, a verosímilhança acabará por vencer, por isso cita a frase de Boileau: Rien n'est beau que le vrai. (Só a verdade é bela.) E descreve, diz ele, o café como o viu.

 

 

 

 

Os Mistérios de Paris é uma obra precursora do romance realista. A violência das instituições, a miséria e a linguagem do povo ascendiam pela primeira vez ao estatuto de tema literário, eram lidos e debatidos por toda a sociedade – e amplificavam de modo espectacular as teorias socialistas. Ainda hoje os especialistas debatem se Os Mistérios de Paris terão contribuído para a Revolução de 1848 ou se o sucesso da obra pode ser explicado pelo ambiente social que antecedeu esta revolução; é provável que tanto uma hipótese como a outra seja verdadeira. O folhetim foi acompanhado e prolongado por canções e imagens populares, foi repetidamente adaptado ao teatro, teve (vinte anos mais tarde) um descendente ilustre, Os Miseráveis de Victor Hugo – e deu à luz uma ninhada de pequenos mistérios. Mistérios de Londres. Mistérios de Nápoles. Mistérios de Munique. E... Mistérios de Lisboa.

 

Que eu nunca tinha lido. A desgraça póstuma de Camilo Castelo Branco é que as heroínas dele nos são hoje tão estranhas como as de um clássico chinês... (Os leitores dir-me-ão que Georgina e Joaninha não parecem mais familiares – e têm razão. Mas Viagens na Minha Terra oferece, para além da Menina dos Rouxinóis, muitas pontas por onde ainda lhe pegamos.) Ora no precedente 1° de Janeiro, dia de imprudências e megalomanias, dei-me como tarefa para 2011 a leitura das obras de Camilo Castelo Branco – e comecei logo a ler uma tradução francesa das memórias de Winston Churchill, Mes Jeunes Années, quase setecentas páginas.

 

Seguiram-se diversos outros livros. Só em Maio me lembrei de Camilo Castelo Branco. Reli, com cautela, Novelas do Minho, que mais de uma vez havia lido, não comecei mal, ainda gostei da linguagem, da ironia, do sarcasmo, como se costuma dizer a propósito de Camilo – confirmo. No dia 19 de Maio o canal Arte transmitiu as seis horas do folhetim de Raul Ruiz, Mystères de Lisbonne. Vi o filme. E – agora ou nunca – lancei mãos à obra comprando os três volumes de Mistérios de Lisboa (ed. A. M. Pereira, Lisboa, 1969). Acabo de concluir a leitura do primeiro tomo.

 

 (Continua)



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por João Machado em 09/07/2011 às 18:37
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Terça-feira, 5 de Julho de 2011
Ecrã efémero – por Manuela Degerine

 

Costumo ler os jornais quase integralmente. Leio os artigos que me interessam porque me interessam e leio os

outros pela linguagem ou por conterem uma faceta da política, da sociedade, da actualidade que não deixa de me interessar. Quando a leitura não acompanha o ritmo de compra, mais os jornais e revistas que, de uma ou de outra maneira, me vêm parar às mãos, Expresso, Diário de Notícias, Visão, Le Monde, Libération, Nouvel Observateur, recorto o que não leio de imediato e vou constituindo dossiers cuja leitura intercala com a de livros, resultando dos movimentos desta pilha eu ler, por vezes, com cinco anos de atraso, algum artigo ou crónica – o que aliás, ao contrário do que se pode imaginar, não raro contribui para o prazer do texto. Alegrias que doravante efémeras... Das quais pretendo abusar enquantohouver jornais impressos em papel.

 

Acabo agora de ler, com apenas dois meses de atraso, um artigo de Pierre Assouline publicado no jornal Le Monde no dia 24 de Abril de 2011: La mémoire vide des temps informatisés (A memória vazia dos tempos informatizados). Há em França um Instituto dos Textos e Manuscritos Modernos (ITEM) que criou e tem desenvolvido a genética textual, uma disciplina que estuda os rascunhos, cadernos, provas, projectos, correspondências, sucessivas versões, todo o material acumulado na criação de uma obra.

 

Pierre-MarcBlasi, director do ITEM, dá o alarme pois, desde que os escritores se servem de computadores, desapareceram estes documentos. Os autores modificam o texto no ecrã, correspondem por via electrónica, arrumam os diários como os projectos em pastas informáticas, perdem-nos numa pen ou, quando mudam de computador, abandonam o que parece inútil. Podíamos todavia pensar que uma parte será preservada. A verdade é que, se ainda hoje lemos no papiro e no pergaminho, em contrapartida os raros documentos legados há trinta anos aos arquivos em suporte electrónico não podem ser estudados por ter desaparecido o material para os ler. A validade média de uma pen ou de um disco rígido não ultrapassa os cinco anos, além situa-se um futuro tecnológico que os tornará obsoletos e portanto inexistentes.

 

Com os arquivos deixados pelos séculos XIX e XX há trabalho para gerações de especialistas. Mas nisto reside o alarme do director do ITEM: Tornamos o futuro órfão de nós. Um futuro com avós, com bisavós, com o século XVIII – nós não faremos parte desta genealogia. Ou, quando muito: de uma maneira menos complexa.

 

Este artigo fez-me reflectir já que, como os outros escritores da minha geração, também tenho escrito os romances no ecrã – da primeira à última palavra. A Difel não fez provas dos meus três primeiros romances; e eu devolvi à editora as dos seguintes sem tirar fotocópias. Enviei cartas até por volta do ano de 2002 mas, logo que tive endereço electrónico, cessei a correspondência manuscrita ou impressa em papel; e o correio electrónico não é, enviado com outros meios, o que teríamos escrito no papel: a forma, o fundo e o suporte são indissociáveis.

 

Agora a minha única escrita com caneta é o diário e, claro, os blocos nos quais vou registando o que vejo, museus, inscrições, graffiti, o que oiço, conversas, pérolas da rádio, que mais tarde, não raras vezes, serve de ponto de partida ou de passagem para a escrita.

 

Quando li o artigo de Pierre Assouline, a minha primeira reacção foi: universitários a meterem o nariz na génese dos meus textos? Era o que faltava! Não saio de casa nua... Depois lembrei-me que o romance cuja escrita concluo, que tem 251 páginas, já teve cerca de 350. Haverá portanto uma parte que o leitor não lê mas, para mim, de certa maneira, lá continua, aquilo que no cinema ou na fotografia se designa com o termo francês hors-champ. Aquelas cem páginas não são indispensáveis para contar aquela história mas permitiram-me conhecer as personagens para além do romance e por conseguinte, de certa maneira, embora não façam parte dele, pertencem-lhe.

 

Em contrapartida, desde que comecei a escrever esta crónica, suprimi um parágrafo na introdução, no qual me tinha deleitado, de maneira inútil, sobre a leitura dos jornais. Se houvesse feito um rascunho no papel, este parágrafo talvez lá estivesse, recuperável ainda que riscado; eu copiei-o para outra pasta e, logo que conclua a crónica, suprimo-o. Para quê guardar documentos insignificantes?

 

Antigamente, quando os escritores se serviam de papel, tinta e músculos, o texto era muito pensado antes de escrito. Em 2011 as obras continuam a ser pensadas mas o acto de escrever tornou-se tão rápido que a frase acompanha o ritmo do pensamento. Há por consequência uma fase de produção do texto que antes se fazia
mentalmente e agora se faz visualmente. O que seria de nós – e de quem estuda a genética dos textos – se guardássemos rigorosamente tudo?

 

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por Luis Moreira às 12:32
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Sábado, 2 de Julho de 2011
É permitido violar as mentirosas - por Manuela Degerine

 

 

Primeiro foi o delírio do concluio. Dominique Strauss-Kahn evocara na última entrevista ao jornal Libération a possibilidade de lhe apontarem algum assédio sexual. Logo metade dos franceses berraram: maquinação! Jack Lang, ex-ministro da Cultura e da Educação, o mais cintilante membro da esquerda caviar, escandaliza-se na televisão: il n'y a pas mort d'homme! (Ou seja: não há drama nenhum!) Indignação pública. Jack Lang fez marcha atrás, quisera dizer que, se não havia homicídio, DSK não devia ser preso. Houve uma manifestação para protestar contra o machismo dos políticos.

 

Todos, na rádio, na televisão, nas famílias, à mesa, no padeiro, ao telefone, na bicha do supermercado, falavam de DSK. Surgiu o embaraço: mamã, o que é uma felação? O humorista François Morel socorreu as famílias com a história do Ursão que queria comer a gazela preta.

 

Sucederam-se a caução, a residência vigiada de DSK, a descoberta da pólvora: o candidato socialista à presidência da república, presidente da câmara numa cidade com bairros problemáticos, é um socialista milionário. Grande debate nacional. O milionário que abusa de uma pobre imigrante. O director do FMI que agride a criada de quarto. O branco que viola a negra. O judeu que não respeita a muçulmana. O velho que estupra uma jovem. And so on.

 

Entretanto numerosos socialistas se declaram candidatos à presidência da república. François Morel faz uma crónica na qual avisa que, quanto aos socialistas, especialistas da derrota improvável, todo o desespero é ainda possível.

 

E agora, outro sismo. Afinal a vítima de DSK terá mentido quando emigrou para os USA e terá até cumplicidade com um traficante de droga. Mais uma vez: o delírio. Por aquela mulher ter mentido antes e depois de ser violada, é como se o acto de DSK não tivesse a menor gravidade. São de imediato entrevistados os amigos de DSK, Jack Lang fala do regresso de DSK, da eleição de DSK... DSK é o novo Edmond Dantès (herói de O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas).

 

Pergunta um auditor perplexo da rádio France-Inter: Então é permitido violar as mentirosas?...

 

Em França parece que sim.   



publicado por Carlos Loures às 16:00
editado por João Machado às 13:34
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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011
Elogio simples da bicicleta - por Manuela Degerine

 

 

Durante dez anos fui para o trabalho de bicicleta – tal como milhares de outros parisienses. No Verão como no Inverno: a felicidade do corpo em movimento, da presença directa no mundo, da mudança de perspectiva... Recordemos Alexandre O’Neill:

 

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico

pelo caminho que a seu tempo se desdobra

reolhando os beirais – eu que era teórico

do ar livre – e revendo o passarame à obra.

(Elogio barroco da bicicleta)

 

Quando acaso em Lisboa falo disto, alguns não acreditam e os outros contestam:

 

- Com tanto frio e chuva?!

 

Ora bem... O frio e a chuva não incomodam mais os ciclistas do que os peões e, que eu saiba, pouca gente se confina em casa por chover ou fazer frio. Acima dos zero graus, logo que pedalamos, entra em funcionamento o nosso sistema pessoal de aquecimento. É verdade que, abaixo dos zero graus, sentimos frio na cara; no passado mês de Dezembro, em Paris, após uma hora de pedalagem, eu tinha a cara entorpecida. No entanto, sobretudo em Lisboa, estas temperaturas são raras. E a chuva, ao contrário do que se pensa, também não representa inconveniente terrível, embora exija prudência, por diminuir a visibilidade e tornar o piso escorregadio. Mas é um perigo raro. Durante vários anos, registei as molhas apanhadas na ida, entre a casa e o liceu, do dia 1 de Setembro, quando começavam as aulas, ao dia 5 de Julho, quando começavam as férias: o máximo foram dez. Claro que, cada ano, chovia mais – porém não exactamente no momento em que eu pedalava. Nas raras vezes em que chegava ao liceu molhada: sacudia o blusão, mudava de calças (tinha sempre outras no cacifo) e, ao fim de cinco minutos, encontrava-me tão operacional como qualquer colega que fosse de carro. No fim de contas, como Alexandre O’Neill, com ou sem chuva: prefiro a prática à teoria do ar livre.

 

Em Portugal é o excesso de calor que, algumas vezes, me impede de circular de bicicleta; contudo, de manhã cedo ou ao fim da tarde, mesmo no Verão, é sempre possível pedalar. O meu problema em Lisboa é que não me sinto segura quando desço (ou subo) a Almirante Reis... Parece-me perigoso. Vejo os automóveis a passarem por mim: demasiado perto e demasiado depressa. Não são raros os que, por excesso de drogas ou velocidade, se lançam para cima de uma árvore ou de um painel publicitário. E um até pela estação do metro abaixo... Isto mais a linha do eléctrico, os buracos no alcatrão, as tampas disto ou daquilo desniveladas... Qual a esperança de vida de um ciclista nesta avenida? Vejo contudo, com admiração, bastantes que a sobem e descem...

 

Muita gente argumenta que Lisboa, com as encostas e escadinhas, não é uma cidade para a bicicleta. Concordo que não é fácil subir a rua de Angola; embora veja um ou outro ciclista fazê-lo. (Eu, nos metros que me parecem mais inclinados: caminho.) No entanto a maioria dos percursos lisboetas é fácil e pode ser quotidiana ou ocasionalmente percorrida de bicicleta – com resultados positivos não só na saúde dos ciclistas mas até dos restantes lisboetas: a bicicleta não polui.

 

A bicicleta torna-nos mais belos, mais fortes e, por conseguinte, mais bem dispostos. Representa uma terapia contra a obesidade, a diabetes, todos os males decorrentes dos nossos excessos alimentares – e não custa nada à segurança social. Devia ser recomendada pelo médico de família... E, ao contrário do automóvel, não nos separa dos outros; a solidão não é outra calamidade nas cidades?

 

A bicicleta é o meio de transporte de amanhã. No entanto hoje, sobretudo em Lisboa, continua um tempo de automóveis. Que invadem os passeios, envenenam os ares, atropelam os peões e custam muito caro na manutenção de ruas e construção de infra-estruturas. Recordemos o túnel do Marquês de Pombal. Por exemplo. (Claro que o automóvel é necessário; absurda é a sua utilização, quando não indispensável.) A câmara de Lisboa tem por isso feito o esforço muito apreciável de criar ciclovias. Existe uma do Cais do Sodré à Torre de Belém que facilita – e aumenta – a frequentação, não apenas da beira-Tejo, mas daquela parte da cidade. Eu ao CCB, ao Museu do Oriente, ao Museu da Arte Antiga, aos pastéis de Belém, vou de bicicleta; e, mesmo quando saio sem projectos, por haver a ciclovia, descaio para aquele lado da cidade. Temos outra ciclovia de Entrecampos ao Campo Grande. E um eixo Monsanto/Expo.

 

A distribuição das ciclovias mostra uma certa imagem da bicicleta: o lazer. É preciso começar por aqui. Todas as cidades europeias começaram pela bicicleta do domingo antes de passarem à bicicleta da vida quotidiana; mas não ponhamos de lado outra função da bicicleta: a de meio de transporte quotidiano. O preço da gasolina sobe? Experimentem fazer a totalidade ou parte dos trajectos de bicicleta. Em Paris, em Berlim, não faltam homens a pedalar com fato, gravata e pasta; e não deixam por isso se apresentar tão impecáveis como os outros. Claro que, se há encostas no trajecto, mais vale tomarem um duche... As melhores empresas põem à disposição dos empregados algumas cabines: custam-lhes mais barato do que os lugares de estacionamento e, ao mesmo tempo, estas empresas beneficiam da energia e boa disposição dos trabalhadores.

 

Não são poucos os ciclistas que vejo nas ruas de Lisboa; e mais seriam eles, se houvesse segurança. Por isso devem ser criados percursos que atravessem a cidade: por exemplo, um eixo Norte-Sul que ligue a ciclovia da beira-Tejo com a de Entrecampos.

 

Em Paris a tendência é, até agora, com frequência, a criação de falsas ciclovias: desenham no alcatrão uma bicicleta que não serve para nada. Em Lisboa há poucas ciclovias – mas são magníficas. Se há ciclovia, há segurança: tanto as crianças como os ciclistas pouco experientes podem pedalar à vontade.

 

Para além de contribuir para a nossa qualidade de vida, a bicicleta é igualmente um objecto estético e poético. Vinícius de Moraes chama centauresas às ciclistas. (Balada das meninas de bicicleta). A bicicleta transforma-nos não só em centauros mas igualmente em pégasos: dá-nos asas. Seja qual for a nossa idade, podemos seguir a injunção do poeta: Bicicletai, meninada.

Bicicletemos, então...



publicado por Carlos Loures às 11:00
editado por Luis Moreira às 00:11
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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011
Jean-Léon Gérôme - por Manuela Degerine


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Concluíram-se esta semana em Paris duas grandes retrospectivas que atraíram multidões: a obra de Claude Monet. E, facto mais surpreendente, a obra de Jean-Léon Gérôme.

 

Este pintor especializou-se na chamada pintura de história e as suas imagens da Antiguidade continuam mundialmente conhecidas por o cinema as ter reproduzido: a morte de César, o combate de gladiadores, o cristãos lançados às feras... Pela nitidez da imagem, pelo rigor arqueológico, pelo sentido da encenação e do movimento, valores cinematográficos, Gérome atraiu – e mesmo formou – o olhar dos realizadores, de Enrico Guazzoni (1913) a Ridley Scott. E dos espectadores...

 

Enquanto vivo, Jean-Léon Gérôme foi dos artistas mais cotados, teve todas as honras, sucessos e poderes hierárquicos no mundo da pintura – e soube tirar partido económico disto. Casado com a filha de um editor, o proprietário da empresa Goupil, Gérôme não inventou a reprodução mas deu-lhe projecção mundial. Claro que lhe interessava vender ao duque de Aumale, à família do Imperador ou a milionários americanos mas, negociada uma obra, restavam-lhe ainda os produtos derivados... Não menos lucrativos. Assim, por exemplo, vende o óleo sobre tela dos gladiadores (Pollice  Verso, 1859; que agora pertence à colecção do Phoenix Art Museum) e depois, pelo mundo inteiro, a quem que não pode comprar originais, isto é, à maioria, vende milhares de cópias, da mais barata à mais onerosa: postais, gravuras, fotografias, bronzes com as mesmas figuras. Gérôme beneficiou de um sucesso opulento enquanto os impressionistas morriam de fome; talvez também por isto tenha mais tarde suscitado tão imenso desdém.

 

Gérôme manteve a exigência de nitidez na imagem e a fascinação de um além, que tanto se podia situar no tempo, a Antiguidade ou a cena bíblica, como no espaço (viajou pelo Egipto e Palestina, pintou – no atelier – cenas de rua) ou até no imaginário (alegorias como Tanagra ou a Verdade a sair do poço), por conseguinte rejeitou o que considerava vazio, trivialidade ou inacabado na pintura que passou a ser designada como Impressionismo. Simetricamente os impressionistas e posteriores vanguardas, a partir do momento em que se tornaram estética dominante, troçaram da sua pintura, negando-lhe todo o valor, qualificando o pintor como pompier, "bombeiro", por verem capacetes metálicos nas cenas de circo.

 

Esta exposição do Museu de Orsay foi a primeira desde a morte de Jean-Léon Gérôme em 1904. Passou-se entretanto mais de um século... E o próprio Claude Monet já em 1926, quando faleceu, fazia figura de comendador perante as vanguardas – mesmo com Nymphéas, a fascinante obra, quase abstracta, que legou ao Estado. Por consequência agora, tendo inevitavelmente visto imagens impressionistas reproduzidas até à saturação em canecas e caixas de chocolate, numa época que quase aboliu a pintura e se compraz, há cem anos, em instalações mais ou menos inventivas, podemos observar a pintura de Gérôme com outros olhos. Em primeiro lugar, as cenas da Bíblia ou da Antiguidade interessam-nos pelo que representam no imaginário do século XIX e pela influência que vieram a ter no cinema; também é interessante verificar como Gérôme consegue, com frequência, inventar um ponto de vista novo em temas tão exaustos como – por exemplo – a Crucifixação (1867): os últimos espectadores desaparecem na primeira curva do caminho pedregoso que desce na direcção de Jerusalém. E, no cimo do monte, projectadas no chão, vemos a sombra de três cruzes...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gérôme é mais do que um pintor académico. Descobrimos  na exposição retratos de figuras contemporâneas: por exemplo do arquitecto da ópera de Paris – Charles Garnier – ou da actriz Sarah Bernardt. Ou imagens que se ligam com o imaginário decadente, simbolista e expressionista do fim-de-século: Cabeça feminina enfeitada com cornos (1853) mostra uma bela e enigmática rapariga; A Verdade a sair do poço (1896) é alegorizada através de uma figura feminina cujo rosto exprime o horror. Gêrome foi igualmente exímio nos jogos de espelho, as obras que contêm outras obras, assim como nas metamorfoses e passarelas entre criação e realidade: um trabalho que ainda nos fascina. Após Pigmalião e Galateia (1890) continua a aprofundar este trabalho. Vejamos o caso da escultura Tanagra... Tanagra é o local onde no século XIX os arqueólogos encontraram graciosas figuras gregas que agora vemos nos museus e que, como muitas outras escultura da Antiguidade, conservam vestígios de policromia. Ora Gêrôme representou alegoricamente este espaço arqueológico através de uma figura feminina nua e sentada num bloco de argila – fazendo portanto parte dele – no qual começam a surgir as tais estatuetas. E Tanagra mostra ao espectador uma destas esculturas (inventada pelo artista). Mas Gérôme também pintou um auto-retrato no qual vemos o artista no atelier acabando o polimento desta escultura com, ao lado da obra, a rapariga que serviu de modelo (O Trabalho do Mármore, 1895). E, noutro quadro, Sculpturae vitam insufflat pictura (1893), representa um atelier onde, na Grécia antiga, se fabricam e vendem as figuras de Tanagra: não só uma rapariga – alegoria da pintura – pinta exemplares da figura de Tanagra por ele inventada, mas até a própria escultura Tanagra aparece exposta no balcão... para ser vendida. Não se pode dizer que os auto-retratos de Gerôme sejam convencionais. Em La fin de la séance (1886) volta a representar-se no atelier de escultura, no momento em que acaba de concluir o trabalho do dia: para a argila não secar, a modelo, ainda nua, com um gesto gracioso, cobre a obra de panos húmidos enquanto, de cócoras, o artista lava o material... A minúcia e dinâmica da representação contém afinal uma grande modernidade, impondo Gérôme como antepassado desta arte plástica ainda por inventar: a banda desenhada.

 

Decorrido um século após a anátema de Gérôme, deixamos de opor este artista aos impressionistas e podemos devolver-lhe o lugar que teve no imaginário e criatividade do século XIX. Reconhecemos Gérôme e Monet como antepassados: sem um ou sem o outro não seríamos os mesmos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por João Machado às 23:55
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Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011
Artexto - texto de Manuela Degerine, quadro de Adão Cruz

 

 

 

 

 

 

 

 

Poema Vermelho

 

 

Vermelho é o sol.

Vermelhas são as papoulas no quadro de Claude Monet e na tijela onde, todas as manhãs, bebo o chá. (Escolho às vezes chá vermelho.)

Vermelhas são as bocas.

Vermelhos são – às vezes – os narizes, vermelhas podem tornar-se as mãos...

Vermelhas são a febre, a cólera, o prazer e a vergonha.

Vermelha e verde é a bandeira portuguesa.

Vermelho é o sangue.

Vermelha é muitas vezes a terra.

Vermelho é o Mar.

Vermelho é o nariz do palhaço.

Vermelho é o último: o lanterna vermelha.

O Vermelho e o Preto é um romance.

Vermelho é Rackham, o pirata de Hergé, no título francês: Le Trésor de Rackham le Rouge; em português foi traduzido por  Rackham o Terrível. O vermelho é portanto terrível.

Vermelho é o Capuchinho. (O lobo é preto.)

Vermelho é o inferno. Vermelhos são os anjos do fogo: os bombeiros. (Que muitas vezes são bombeiras – os anjos têm sexo e o inferno tem anjos.)

Vermelhas são (na praia) as peles mas as caras são pálidas.

Vermelha é a vinha no Outono.

Vermelhos são os frutos: romãs, cerejas, groselhas, morangos, framboesas... (O sabor e o perfume das palavras vermelhas!)

Vermelha é a salada de beterraba.

Vermelho é o pau brasil.

Vermelhas são as figuras nos vasos gregos.

Vermelho é o stop, vermelho o sinal (a proibição é vermelha). Vermelha é a caneta da professora...

Vermelho o botão, vermelha a luz, vermelho o telefone...Vermelha a situação, antes de chegar a negra. Vermelhas são as estradas portuguesas.

Vermelhos são os Correios de Portugal.

Vermelho é o vinho.

Vermelha é a carne nos supermercados: vermelho é o sangue-de-boi.

Vermelho é o ouriço Strongylocentrotus franciscanus.

Vermelho é o peixe do aquário.

Vermelha é a joaninha.

Vermelha é a cochonilha.

Vermelhos são os telhados em Lisboa (em Paris são cinzentos).

Vermelha é a cíclica flor feminina.

Vermelhas são as brasas: o renascer.

Vermelho é o fogo que arde sem se ver: vermelha a paixão.

Vermelho é o rubi.

Vermelho é o carmim.

(Vermelhas são as minhas luvas, vermelhas as minhas botas.)

Vermelho é o pintassilgo.

Vermelho é o luxo: o tapete vermelho.

Vermelho-púrpura são os generais, os patrícios, os cardeais, os imperadores...

Vermelho é o goles heráldico. (Vem do francês gueules.)

Vermelha é a Cruz, vermelho é o laço.

Vermelha é a água quente.

Vermelha era a revolução. (Há-as agora de outras cores.)

Vermelho era o Exército, Vermelhos eram os Coros do Exército. Vermelha é ainda a Praça.

Vermelho era O Livro, vermelhos os guardas de Mao Tsé-Tung...

Vermelho é o cravo.

Vermelho é Abril em 1974.

(Vermelha é a transgressão: pisamos um risco vermelho.)

Vermelho é o verbo.

 

Nota Bene: Os vermelhos não são encarnados – embora possam igualmente sê-lo. A festa do Avante é vermelha mas a do Colete é encarnada – tal como a do Benfica. (O alerta, o feijão e a águia também são encarnados.)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





publicado por João Machado às 08:00
editado por Luis Moreira em 16/01/2011 às 02:22
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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010
VerbArte - Mas o que tem o Menino Jesus a ver com isto?



Manuela Degerine

Somos uma sociedade que, embora em crise, não deixa de consumir; e que, através do consumo, aprisiona. Viver tornou-se, para tanta gente, um círculo vicioso: trabalhar para comprar para deitar no lixo para voltar a comprar... até à morte. Exaltante? Dito assim, não parece. E, no entanto... A sociedade do espectáculo esvazia as cabeças para depois – ou ao mesmo tempo – lá lançar a publicidade. Um responsável de televisão francesa, Patrick Le Lay, explicava isto em 2004: o objectivo é criar no espectador uma disponibilidade cerebral susceptível de ser vendida à Coca-cola.

Devo dizer que represento um caso bicudo para os publicitários. Não me recordo da última vez que fiz uma compra impulsiva. No lixo só ponho lixo; respeito os três R: reduzir, reciclar e reutilizar. Escolho os alimentos em função do gosto, da qualidade, da quantidade, da proveniência (portuguesa, francesa, europeia...) e do preço; posso trazer a marca mas nunca pela marca, procuro certo tipo de farinha, tal qualidade de ovos, cacau com determinados aromas... E leio todas as etiquetas. Quanto à roupa, também sou capaz de optar por marcas, embora quase sempre me afaste delas, por me parecerem um uniforme fácil e vulgar; gosto de me sentir distinta na aparência. Comprar é para mim uma tarefa, como pôr roupa a lavar na máquina – não é uma forma de expressão. E, para concluir, o tempo parece-me demasiado curto e precioso e aprazível para o vender – isto é: trabalhar – mais do que o indispensável; por conseguinte, para preservar esta liberdade, aos precedentes acrescento outro ingrediente do bem comprar: penso mais duas vezes. (Não é hoje que as televisões poderão vender o espaço vazio do meu cérebro.)

Já adivinharam... Vem tudo isto a propósito do Natal. Na infância da minha mãe havia filhós, um presépio e o Menino Jesus; porém a minha geração já se confrontou com um Natal importado. Lembro-me de olhar para o pinheiro com desencanto: não o achava nada parecido com os dos livros. A neve, as renas, os abetos e o Pai Natal começavam a descer à península ibérica, acabaram por se tornar tão familiares que as crianças já não notam o sotaque – agora é asiático – e, associados ao particularismo lusitano do décimo terceiro mês, projectaram o último trimestre do ano para os píncaros do absurdo: os lisboetas entram no stress de Natal desde o mês de Setembro.

Não é o meu caso. Não ofereço nem recebo prendas de Natal. (Gosto de oferecer, gosto de receber mas não em datas fixas; a surpresa e a motivação fazem parte da prenda.) Não me sinto obrigada a encorajar a economia chinesa – que é de onde vêm os contentores. Nem a aumentar o lixo de Natal – que é onde tudo se conclui.

Sim, dirão muitos leitores, mas a festa?... O Natal é a festa da família. Pensemos então a festa de uma maneira mais criativa – há tantas – do que o simples acto de comprar. Uma festa que passe por viver, sentir, fazer, descobrir – e não apenas por ter. Somos demasiado refinados para nos contentarmos com um monte de prendas embrulhadas. Somos exigentes, queremos melhor. E... livres do pesadelo das compras de Natal, sobra-nos tempo para uma festa verdadeira. Ou para uma aventura comum. É mais simples do que parece, todos podemos experimentar e não corremos grande risco; expostas as razões, feitas as propostas, encontramos, na maior parte dos casos, entre os familiares, uma adesão espontânea. (Simples bom senso.) Transformamos as horas que vivemos numa prenda: perene.


publicado por Carlos Loures às 16:00
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Domingo, 5 de Dezembro de 2010
Semana do Ensino - Duas profissões
Manuela Degerine

A Educação Nacional francesa fez de mim, nos primeiros quinze anos, uma professora feliz. O objectivo era a aquisição de conhecimentos, a descoberta e desenvolvimento das potencialidades de cada aluno; eu participava nesta tarefa através do português e da cultura dos países lusófonos. Dei aulas em mais de dez escolas diferentes pois como, em cada uma, não havia um número suficiente de alunos para o horário completo, trabalhava no mínimo em duas cada ano; uma delas era o liceu de Colombes.

No decénio e meio passado no liceu de Colombes fui – repito – uma professora feliz. Gostava dos alunos, gostava dos colegas, gostava da escola, gostava de ir de bicicleta para o trabalho... Podia ter-me candidatado ao ensino superior mas nada me interessava mais do que trabalhar com aqueles jovens. Não tinha a sensação de vender o meu tempo; não havia fronteira entre o trabalho e a vida. Era professora vinte e quatro horas por dia. O que lia, sonhava, descobria, a rádio, a música, os filmes, os museus, as viagens, os encontros, as conversas – tudo ia parar, de uma ou de outra maneira, à sala de aula. Lembro-me de acordar, a meio da noite, para acrescentar um texto ou um pormenor a uma aula... Lembro-me de turmas que entravam neste jogo: eu apresentava um poema de D. Francisco Manuel de Melo avisando, se for difícil, não há problema – passamos a outra coisa. Eles provavam que não era difícil, reclamavam mais D. Francisco Manuel de Melo. Eu levava um pedaço d'O Fidalgo Aprendiz. Eles queriam mais...

É um exemplo, podia dar trinta. No mínimo. A inteligência, a adesão, a curiosidade, a cumplicidade dos alunos permitiram-me descobrir e inventar durante quinze anos. Nunca enviei uma queixa aos pais através da caderneta – não foi necessário. Orgulho-me de ter conseguido motivar dezenas de alunos desmotivados. Orgulho-me de, ainda hoje, os alunos de Colombes – e muitos de outra escolas – me continuarem a escrever. Ah, que bom era aprender português!

E que bom era ser professora...

Passados quinze anos, por razões de gestão do pessoal, mudei de zona; e entretanto também mudou a gestão de recursos (ou da falta deles) na Educação Nacional. Encontrei-me no liceu de Sartrouville... Descobri outra profissão. Turmas de trinta e cinco, trinta e sete adolescentes. Alunos hostis. A administração: salve-se quem puder. Passei a ser insultada todos os dias. Passei a receber ameaças dos alunos e – pior – dos pais dos alunos. Não todos, claro, uma minoria; suficientes para tornarem esta profissão perigosa. Pelo stress. Pela violência. Pela perda de tempo, isto é, de vida. (Quem vende tempo é sempre enganado.) O objectivo, seja qual for o parlapatéu dos programas, tornou-se apenas este: ocupar o máximo de jovens durante o máximo de tempo com o mínimo de meios. Pouco importam os verdadeiros resultados; todos passam nos exames, basta baixar as exigências. E todos os anos – ou quase – elas baixam... Em tais circunstâncias convém usar a demagogia e não pedir esforços. Tornei-me uma professora demasiado exigente por propor textos do Mário de Carvalho. Por conseguinte... arrumei a literatura na estante. Esta escola pretende ser lúdica – para quem? Não creio que os alunos se divirtam; e os professores ainda menos. Todos perdem tempo. Todos se sentem perdidos.

Não é o que digo?... Outra profissão.


publicado por Carlos Loures às 21:00
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Sábado, 4 de Dezembro de 2010
Há quanto tempo a não via?
Manuela Degerine


As rádios e televisões francesas não falam de outra coisa: chegou a neve. Dezasseis graus negativos em Orleães, aldeias sem electricidade, a circulação interrompida, os camionistas encalhados, náufragos da neve, na metáfora radiofónica, alguns voos e Eurostar suprimidos, cidades com transportes paralisados, múltiplas estratégias de substituição – uma das quais é circular de bicicleta. Os pneus para a neve esgotados, as botas para a neve vendidas. As crianças radiantes por não haver escola. As crianças felizes por brincarem na neve. Os grandes debates: o sal nas estradas, a arquitectura ecológica, o pico do consumo de energia temido, atingido e, por fim, não ultrapassado graças ao civismo dos habitantes da Bretanha que apagaram as luzes inúteis, adiaram as lavagens de roupa e desceram dois graus no aquecimento das casas. Uf... A descoberta, nas aldeias sem electricidade, de outro modo de vida: a botija de água quente, a conversa junto da lareira, o deitar às nove da noite... Como no tempo dos nossos avós. As entrevistas nas Galeries Lafayette, permanecer elegante no frio, não às fibras termolactil, sim às camisolas de cachemira... O abrigo dos sem-abrigo.

Assisto a tudo com uma estranheza crescente, não só porque passei o ano em Lisboa, onde o calor me sinistrou durante três meses, mas também porque em Paris francamente... As temperaturas diurnas andam à volta dos zero graus o que, com meias e luvas de lã, duas camisolas e um blusão de penas, se vive muito agradavelmente. Tenho caminhado por ruas e parques sem me sentir refrigerada. Diversas vezes, durante percursos de bicicleta, caíam farrapos de neve; achei muito bonito. As casas, os transportes, todos os edifícios públicos e privados são aquecidos – excessivamente. Demasiado branca e pura para se tornar banal, não podemos contudo dizer que seja aqui novidade; no entanto quem vê o telejornal fica com a impressão de, na história climática da França, ter agora caído neve pela primeira vez. Parece que estamos no Rio de Janeiro.

Ou em Lisboa. Ontem, saturada de branco, rumo à RTPi... Portugal é verde no Inverno. E qual não é o meu espanto? O país estava todo virado para a Serra da Estrela. Mais neve, mais estradas interrompidas, mais autocarros imobilizados. Mais blablá refrigerado. Na verdade... Em Portugal ainda compreendo: pouco frequente na maior parte do território, constitui uma informação, entre o pavor – carros virados – e o estético e o lúdico. As imagens são de facto bonitas e, para a maioria dos portugueses, evocam viagens à montanha, a dos dois mil menos sete, a única, a da Estrela; no mínimo: a descoberta do sku durante uma viagem escolar. Lembro-me que, na primeira vez, teria uns cinco anos, provei a neve: na minha imaginação a Serra de Estrela era o cume dos gelados de coco. Achei um tanto insípido. Comecei a compreender que as estrelas cobertas com gelado são reais na imaginação. Já não é pouco. A realidade da neve? Essa conhecem-na os habitantes das serras, esta e outras, no Centro e no Norte do país pois, no mínimo, desde o tempo dos Montes Hermínios, mais ano, menos ano, se confrontam com o frio e as escorregadelas. Por estranho que pareça a alguns, muito antes de as reportagens os descobrirem a eles, já os habitantes das serras conheciam a neve e sabiam o que fazer quando ela cai; até sabiam, como na Serra da Lousã, tirar proveito económico da neve que, desde o século XVIII, era recolhida perto do Coentral e encaminhada para Lisboa por conta de Julião Pereira de Castro – para fazer gelados.

Interrogo-me há uma semana sobre o papel desta glaciação mediática, deste carnaval branco, deste furor invernal, esquecidos a crise, o terrorismo, o Irão e o tráfico de droga. (Já nem falo do desemprego.) Trata-se de informar, de variar, de divertir, de preencher um vazio, de instalar um ambiente pré-natalício? Jingle bells?... Sem dúvida um pouco disto tudo.




publicado por Carlos Loures às 16:30
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010
Viver a rádio
Manuela Degerine

Não, estou a falar de outra coisa, rádio não é o que se ouve no carro, um sushi de 3 T, taças, tempo e trânsito; não é a rádio portuguesa. Em Portugal não consigo encontrar nada melhor do que as Antenas 1 e 2 – duas estações que, por razões distintas, não me satisfazem.

A Antena 1 é a rádio dos engarrafamentos: de manhã e à tarde. Os directores de programas não ouvem rádio, sem dúvida, por isso arrumaram-na no armazém das antiguidades, pensando que os portugueses também não ouvem, excepto quando se encontram presos no trânsito. Parece-lhes que ninguém ouvirá rádio por gosto e ainda menos por vício, mas apenas quando não tenha outra opção ou pior... outra maneira de matar o tempo. Por conseguinte, durante estas horas, as dos engarrafamentos, a rádio dá o melhor que tem e, entremeados com os 3 T, que se repetem, obsessivos, há uma ou outra crónica – que dura dois minutos. Lugares Comuns, às 9, O Senhor Comendador, às 19 horas. Por exemplo. Ou o Portugalex. E um ou outro debate, cortado, evidentemente, pelo estado do trânsito. Ou pela temperatura nas Penhas Douradas. (Não perceberam que os dez milhões portugueses se estão nas tintas para a interrupção da estrada entre Mosteiro e Vila Facaia. Ou para os menos dois graus nos píncaros da Serra da Estrela.) E o debate pode ser sobre futebol (à segunda-feira) ou, mais frequente, ser substituído por um desafio de futebol – claro. Esta rádio é apenas uma maneira de esvaziar as cabeças. É uma lavagem de cérebro. É na verdade uma forma de matar tempo. Fora destes momentos privilegiados de quase nada, a Antena 1 transforma-se em nada ao quadrado e, das dez à uma, das duas às seis, aos domingo e feriados, impõe os 3 T entremeados com música anglo-saxónica: na Antena 1 a cantiga não corre o risco de ser uma arma. Durante estas horas de máxima letargia, de acefalia comatosa, de Alzheimer radiofónico, quem abre e fecha as torneiras dos 3 T e da música é uma ou outra senhora que fica tristinha quando vê passar uma nuvem. As senhoras alternam com uma voz masculina (omitamos o nome), a qual despeja música quase sem comentários, nem sequer sobre o calor, tão bom para quem está de férias; devo-lhe contudo as mais belas pérolas da minha colecção. (Obrigada!) Por exemplo: numa tarde em que lançava uma entrevista (dois minutos) a propósito da edição do texto autobiográfico que inspirou o romance de José Saramago, este senhor terá ouvido ou lido mal, talvez lhe fizessem uma gralha, se calhar, de propósito (deve ser uma tentação para quem o rodeia) – e o título do romance de José Saramago metamorfoseou-se em Levantado do Balcão.

Com uma rádio destas, os portugueses que, ao contrário do que pensam os directores de programas, não são parvos – sim, os portugueses vivos e curiosos e maliciosos, que querem aprender, crescer, rir, informar-se, sonhar, ser estimulados – deixaram, claro, de ouvir rádio. (Não querem matar o tempo; preferem vivê-lo.) E têm razão: esta rádio é uma perda de cérebro. Por isso, quando me irrito com a rádio portuguesa, encontro uma uniforme indiferença; há muitos anos que os meus interlocutores não sabem o que é isto... Mesmo no carro, eles ouvem música.

Resta a Antena 2. Que tem, uma ou outra vez, bons programas. O maior defeito da Antena 2 é que não fala. Ou fala pouco E eu gosto de palavras. Quero uma rádio que fale comigo. Por isso, entre o futebol (Antena 1) e a ópera checa (Antena 2), não escolho: desligo o aparelho. Prefiro pensar em silêncio. Prefiro ler (se for possível). Prefiro ouvir um CD. Ou, na maior parte das vezes, ouvir a rádio France-Culture – ah, sim: graças à Internet. Ou, nos momentos em que, mesmo vivendo em Lisboa, sinto saudades de Portugal, oiço a rádio Amália; a qual, ao menos, transmite música portuguesa.

Ao invés do que pensam os directores de programa, a rádio pode ser ouvida fora dos engarrafamentos. Se tiver uma rádio de qualidade, ligo-a logo que me levanto, oiço rádio enquanto tomo o pequeno almoço, oiço rádio no duche, oiço rádio à hora do almoço, oiço rádio enquanto janto, oiço rádio antes de me deitar... Oiço três horas quotidianas de rádio. E, se tiver uma rádio que me apaixone, me prenda, me cative – oiço ainda mais rádio.

Nos outros países, em França, na Inglaterra, por exemplo, a rádio continua viva, criadora, enriquecedora – e necessária. Fala-se de rádio nos jantares entre amigos. Em Portugal, quando protesto contra a nulidade da rádio, fitam-me com perplexidade. Rádio? Não sei, não oiço. Não admira. No entanto há tanta gente que gostaria de ouvir uma rádio inteligente... Os desempregados. Os que trabalham em casa. Os que sofrem de insónias. Os que ouviriam rádio no emprego, se... Os escritores que fazem uma pausa... E muitos outros. São milhões de perdidos auditores. Ou de auditores insatisfeitos. Ou de auditores descontentes.

Um serviço público?... Eu diria antes: um desmazelo público. E aquilo que menos me agrada na rádio portuguesa é, na verdade, a imagem de mim que parecem ter aqueles que a fazem. Não, obrigada!


publicado por Carlos Loures às 16:30
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Domingo, 14 de Novembro de 2010
Fotopoemas - O caminho
Texto de Manuela Degerine e
Fotografia de José Magalhães


Estou a escrever de memória. A fotografia de José Magalhães ficou na minha caixa do correio – em casa. E neste momento encontro-me numa estação do caminho de ferro: vou a Versailles. Vou a Versailles porque vi a fotografia de José Magalhães. Não tentei resistir: vou a Versailles.

Até há cerca de um ano, o parque de Versailles era, não propriamente o meu quintal, mas algo de muito familiar. Logo que inventava três horas livres, pegava na bicicleta, apanhava o comboio e, vinte minutos mais tarde, saía na estação de Versailles. Rue du maréchal Foch, boulevard de la Reine... chegava ao parque. Atravessava, sem parar, a Petite Venise, uma Veneza ínfima, na verdade, ponto de encontro dos turistas, por ter parques de estacionamento, um restaurante, vários quiosques, aluguer de barcos, bicicletas e Segway... Um espaço onde cheirava a crepes e café. Eu buscava outros odores. No outono e inverno, os cogumelos, a terra húmida, as folhas caídas, no fim da primavera, as flores de tília, uma ou outra vez, a relva recém-cortada e, em todas as estações, a bosta de cavalo: o parque é vigiado por polícia montada e alguns trabalhos florestais são realizados com cavalos.

Prosseguia à beira do Canal na direcção da Ferradura (Fer à Cheval). Lembro-me de, há dois ou três anos, a água do Canal ter gelado e haver, neste sítio, uma perseguição de cisnes: um namoro com patinagem aparatosa por cima do gelo. Fer à Cheval tem, no cimo das escadas, o Trianon. Eu continuava na direcção da Estrela (Étoile), desdenhava a pradaria à direita, torcia o pescoço à esquerda para avistar, muito ao fundo, quase minúsculo, no outro extremo do Canal, o palácio. Subira até chegar à Étoile – há pequenas encostas – e descia depois na direcção da Ménagerie, o espaço onde viviam os animais exóticos... e que agora serve de residência ao Presidente da República. Antes de chegar à Ménagerie, os ciclistas encontram duas opções: os que se poupam cortam pela beira do Canal, enquanto os mais desportistas sobem uma encosta, passam por detrás de um dos braços do Canal e, do outro lado, descem – vertiginosa e ludicamente – a simétrica encosta. Eu, cela va sans dire, pedalava encosta acima. Como a Ménagerie se tornou uma das residências, digamos, de campo, do Presidente de República, encontram-se nesta zona, distribuídos pelos caminhos e alamedas que a rodeiam, vários carros de polícia, cujos ocupantes matam o tédio mirando... as ciclistas; ao fim de algum tempo, eu já os conhecia, cumprimentava-os ao pedalar. E, claro, lançava-me encosta abaixo, pelo lado direito, prevenindo-me de algum preguiçoso que, depois de cortar pela beira do Canal, se atravessasse à minha frente. Não queria travar mas chegar o mais longe possível antes da primeira pedalada, uma distância muito variável, consoante o vento, favorável, contrário, lateral, forte, fraco... Seguia na direcção do Lago de Apolo, passava à frente dele, muito devagar, de pescoço torcido à direita, para admirar o palácio, seus lagos, estátuas, arbustos e turistas. (Há muitos anos, durante uma formação em Versailles, na hora do almoço, enquanto os colegas se fechavam numa pizaria, caminhei por ali, vendo um grupo de crianças a brincar dentro do lago, completamente gelado, enquanto caíam pesados farrapos de neve.) No Inverno as estátuas são embaladas numa tela esverdeada que as protege das intempéries. E as torna não menos belas... Dali à Petite Venise, o meu ponto de partida, é um instante. Completava assim a primeira volta: que não durara menos de quarenta e cinco minutos. Geralmente percorria mais duas vezes o perímetro do Canal. No entanto, nas épocas em que o terreno se encontrava mais enxuto, não olvidemos que Versailles foi construído num pântano, substituía uma das voltas pela excursão através do parque, que tem rebanhos de ovelhas, prados com vacas e cavalos, campos de milho, bosques, alamedas conduzindo à Horta do Rei ou à Aldeia da Rainha... E caminhos como este.

Estou a escrever de memória, não tenho a certeza se a fotografia mostra árvores de folha caduca. (Lembro-me da hera subindo pelos troncos.) Creio todavia que há muitos ramos coloridos e outros já sem folhas. As cores dominantes são o verde e o ruivo com, aqui e além, pequenas manchas douradas. O ouro é da luz ou das folhas?... De ambas, decerto... (Espero não deformar a imagem.)

Em Portugal quase todos os bosques são constituídos por pinheiros e eucaliptos, tornando-se portanto, com a erva e os fetos, mais verdes no inverno do que no verão; pode contudo ser de um dos caminhos que percorri este ano através do Minho. No outono, em Versailles, também nos podemos – quase – perder através de túneis de ramos e folhas... Como este. No parque há faias, freixos, tílias, plátanos, aveleiras, carvalhos, castanheiros e numerosas outras variedades de folha verde na primavera e no verão, colorida de maneira patética e luminosa no outono e, no inverno, ainda colorida, embora de maneira subtil: à beira de todo o Canal, as tílias, podadas, expõem à luz uma fechada vermelha constituída pelos rebendos das futuras folhas. Neste tipo de floresta as minhas estações preferidas são o outono e o inverno.

Inúmeras vezes prolonguei o passeio à beira do Canal até ao momento em que, com o pôr do sol, o real e o imaginário se confundem. O lusco-fusco... Mas não mostrará esta fotografia um nascer do sol?... A vida citadina raras vezes nos proporciona a contemplação da alvorada. Claro que, sobretudo no Inverno, nos levantamos todos muito antes – porém raro assistimos ao espectáculo. Devo o nascer do sol, quantitativamente, a um espaço de tortura – o último liceu onde dei aulas. Várias vezes cada ano, juntas as necessárias condições, hora e estado do tempo, no instante em que atravessava o parque de estacionamento, muito comprido, vi, lá ao fundo, o vermelho jorrar através do céu. Momento de euforia antes do horror. Costumava dizer a outros condenados, único comum reconforto, este liceu tem três coisas boas, os colegas, o nascer do sol e... o Carnaval. Mas isto já é outra conversa... (Para além de ser passado.) E cheguei à estação de Versailles.


publicado por Carlos Loures às 22:30
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Terça-feira, 28 de Setembro de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
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Manuela Degerine


Capítulo CXXI

Epílogo

A mulher que via passar os comboios (conclusão)

- Interessa-me. E até os leitores fazem perguntas... A última vez que dei notícias, querias sair daquela varanda. Em Pontevedra… Nos dias seguintes andei atrás de ti no Caminho de Santiago. Caminhas mais depressa do que eu, perdi-te de vista à saída de Rio Tinto. E não te encontrei nos albergues… Dormiste onde?

- Não tens nada com isso.

- Imagino que em Caldas, depois talvez em Teo e, por fim, em Santiago, noutro albergue… Tiveste razão: o Seminário Menor não era acolhedor. Confesso que, ontem e hoje, me esqueci de ti. E agora não esperava encontrar-te.

- Não acredito.

- Demoras-te em Lisboa?

- Não deves ignorar que, com ou sem a tua ajuda, fiz ontem um encontro... E disponho, há duas horas, de um alojamento no teu bairro – um andar em muito mau estado mas, ainda assim, habitável. Gratuito. Tomo conta daquilo para evitar uma ocupação por outras gentes. Dá-me jeito: senão restavam-me aquelas arcadas.

- Não convém.

- Também me parece. Mas desconfio da coincidência, ainda mais da proximidade: um comboio pode esconder outro.

Faz uma careta.

- Estúpida metáfora ferroviária. É linguagem tua, não é? Traduzida do francês. Quero mudar de discurso. Quero construir as minhas frases todas. Preferia ver-me onde nunca hás-de pôr os pés: Riad, Las Vegas, Joanesburgo.

- Como é que sabes?!

Ela sorri pela primeira vez.

- Também sei algumas coisas.

- Tens projectos?

- Muitos.

- E quais são?...

- Em primeiro lugar: não voltar a ver-te. Nem a ti nem ao tal pintor. Embora ele, no fim de contas, até me entenda. Somos quase vizinhos... Outra coincidência? Acho que não. Odeio essa maneira de fingires que contas uma coisa, contando outra, bastante diferente. O pintor também não te quer ver nem pintada. Nisto somos aliados. O resto não te diz respeito. Acho preferível que, daqui em diante, não me fales. Caso contrário... Para me desembaraçar de ti, irei até à Nova Zelândia, se achar necessário: sei que a língua inglesa não te entusiasma.

- Não muito. Falas inglês?

- Melhor do que tu. Bem... Vou andando. Tenho muito para viver.

- Rita…

- Rita, não: Joana.

- Joana?!

- Joana, sim. Queres o bilhete de identidade?

- Joana, então. Não quero ser desmancha-prazeres mas… Na vida real todos têm um património genético e cultural, antepassados, hábitos familiares, uma história antiga, começada muito antes de nascerem, depois uma infância, uma adolescência, uma formação, amigos, namoros, experiências, desilusões, vacinas, cicatrizes, enfim: achas que podes nascer com quarenta anos?

- Trinta e sete anos e dez dias. Não te inquietes: tenho isso e muito mais.

- Tens?!

- Claro que sim. Menos a família e os amigos – por enquanto. Nem pais nem avós nem primos… Não me incomoda: é assim. E faço questão de preencher, na medida do possível, daqui em diante, a lacuna: não preciso de ti.

- Duvido. Fui eu que te inventei. Não me deixaste prosseguir…

- Mais valia: o desvelo dos autores com as personagens não me passou despercebido. Fizeste de mim uma leitora… Eu, se tiver dissabores, prefiro saber de onde vêm; e, quando errar, ao menos, aprenderei. Já não te pertenço.

Lança-me um olhar de desafio.

- Lembras-te do Pinoquio?

- Tu és adulta. E – por enquanto – uma criatura vazia. Aliás como tantas que aí andam: vai a avenida saturada de misérias. Ora eu não quero que, por tua causa, esta minha viagem Portugal-a-riba venha a simbolizar a marcha do nosso progresso social; porém, na melhor das hipóteses, cais na sociedade de consumo sem qualquer prevenção, achas-te com uma coca cola na mão esquerda e um hamburguer na mão direita. Foi para isso que te inventei?

Ela ri-se.

- Não te esqueças das batatas fritas. O problema agora é meu. Se me tornar obesa não te venho pedir contas, se não souber gerir o que me puseste na bolsa, não te venho pedir ajuda. Aliás… Não projecto descer a tua Almirante Reis até ao fim dos meus dias. Gostava de ter uma horta, numa aldeia de xisto, por exemplo, beber o leite das minhas ovelhas, comer o mel das minhas abelhas… Quando for possível. Adeus. Até nunca mais.

Deixo aqui de ser a narradora. Do tempo do Almeida Garrett a esta parte as heroínas evoluíram muito, nenhuma agora se acomodava com a história da Joaninha, com a de Georgina ainda menos, fosse numa obra genial, fosse para figurar, até ao fim dos tempos, nos programas dos liceus e universidades, fosse em que circunstâncias fosse... Hoje as figuras femininas não aceitam qualquer papel. E eu, com esta mania de inventar personagens rebeldes, sujeito-me agora às lógicas consequências. Evidentemente, aqui, nas Novas Viagens na Minha Terra, ao imaginar uma mulher que reivindica, junto do pintor, uma mudança de estatuto, autorizei os distúrbios dentro do meu próprio espaço ficcional. Paciência… Na próxima vez tentarei, antes da ruptura, chegar a um pacto. (A Agustina Bessa-Luís, com as suas santas, iluminadas e masoquistas, não passa por estes embaraços.)

Hoje em dia o autor (ou autora) encontra-se, não raras vezes, com o papel do Pai Tirano… E já aconteceu, mais de uma vez, surgir no meu romance, de supetão, vinda de outro texto, uma personagem cuja entrada, evidentemente, eu não previra. Não, não é fácil enfrentar tais situações mas acaba – afinal – por ser estimulante.

Ignoro como se conclui esta história. Agradeço aos leitores que me avisem se acaso, numa rua de Lisboa, reconhecerem a minha personagem ou se lerem algures as aventuras da mulher que via passar os comboios. (Reparei no instante da despedida que ela tem os olhos verdes.)


publicado por Carlos Loures às 10:00
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