Terça-feira, 8 de Março de 2011
Dia Internacional da Mulher por Raul Iturra

 

 

 

Nota resumo do texto pelo autor

 

http://www.youtube.com/watch?v=8kAILLMJK04

A Cavalgada das Valquírias - Richard Wagner - FEMUSC 2010

 

Não há dia especial para render tributo a una mulher. É um facto quotidiano: dela nascemos, com ela amamos, a ela respeitamos até o fim dos nossos dias. É a ideia que pretendo transferir em este texto, a falta de legislação para as mulheres, e as famosas, sobre as que escrevi en outros textos: Sofia da Melo Brayner e Agustina Bessa Luis, em Portugal, como Gabriela Mistral, Violeta Parra, Isabel Allende Sónia Montecinos, no Chile, Marcela Serrano no México, entre outras, com vidas narradas por mim, em textos separados. Como as cientistas e de obras de arte, como Marie Curie em radium, com Prémio Nobel, e Camille Claudel em escultura, obra roubada pelo seu amante August Rodin. O meu argumento neste texto é a procura dos textos que fazem às senhoras, iguais a todo o resto do mundo. Como a mulher que amamos e a que nos oferece filhos ou, já em idade avançada, trata de nós. São o mar que consola as nossas lágrimas, tristezas e alegrias e tratam de nós, um oceano sem fundo…

 

 

 

Acordei com essa ideia de hoje ser o Dia Internacional da Mulher, e enviei mensagens a todas as senhoras que estimo, as minhas amigas íntimas, e que estou certo ser amigo íntimo delas. Várias responderam com essa doçura que esperamos sempre de uma fêmea [1]. Esse ser humano que não é apenas para fazer e ter filhos; não é unicamente um mecanismo reprodutor. Corri à procura de textos meus, e encontrei vários. O que gostei mais, foi esse livro editado em 2000, o título definia tudo [2]. O amor não é um simples desejo erótico, bem como a amizade entre um macho e uma fêmea, nem sempre é desejo: é apenas um carinho simples, um acompanhamento, uma colaboração que pode ou não, passar a ser amor com desejo. Mas, nos tempos que correm, como tenho escrito noutro texto [3], amar e desejar é amplo e ambíguo. Perguntei a uma das minhas lindas amigas e disse-me, neste dia tão especial, que a mulher em Portugal [4] teve que lutar desesperadamente pelos seus direitos de igualdade. Essa igualdade definida por Thomas Jefferson [5] e pelo Abade Emmanuel Sieyés [6], o primeiro, para a Independência das Colónias Inglesas na América do Norte, o segundo, para a França de 1789: "Todos nascemos livres e iguais". No caso de França, foi o Abade quem apresentou à Assembleia Constituinte o texto designado Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Mas, a minha amiga esqueceu um facto bem mais importante: quer Jefferson, quer Sieyés escreveram para os homens, nos tempos de mulher fêmea e não Senhora. Não é por acaso que tenho dado esta volta pela História.

 

 




publicado por Luis Moreira às 15:00
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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011
Esperança de mãe, de Luís Moreira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pietá, de Michelangelo ( Miguel Ângelo) di Ludovico Buonarroti. É a mais bela obra que alguma vez vi. E, já  visitei, os mais famosos museus do mundo, extasiado perante obras primas de todos os tempos e de todas as correntes artísticas. Tive sorte desta vez, porque estava acompanhado por um professor de história que passa as férias em Portugal, em Serpa e em Mértola a trabalhar em arqueologia e que, perante a minha evidente comoção, me segredou. " o corpo de Jesus ainda está quente..."

Claro que percebi tudo. É mesmo essa emoção que aquela obra nos transmite, foi "criada" no exacto momento em que Cristo dá o último suspiro. O seu corpo ainda está quente e sua mãe ainda tem esperança que a vida não o abandone.

Tinha visto e sentido esta mesma emoção muitos anos antes, num pobre casebre, uma mãe protegia o filho ainda e sempre...

Coitado de mim, saiu-me isto:

 

 

 

Era

talvez a vida

que a mosca importuna

trazia

quando rápida ao acenar do lenço

da pobre mãe que sofria

fugia..

e eu

já estivera com ele

naquela posição

só que me animava a vida

que ele não tinha agora no caixão

 

Tão hirto e tão frio!

 

PS: poema escrito aos 16 anos quando um amigo meu morreu. Esta é a imagem da mãe que me atormentou por tanto tempo.



publicado por Luis Moreira às 08:00
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
Eclipse - Maria Teresa Horta

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

 

Quem Conta Um Conto...

Maria Teresa Horta  Eclipse

No dia em que a mãe saiu de casa, vestida de shantung escarla­te e casaquinho cintado cor de marfim, levando consigo duas malas de cabedal depois de ter largado as chaves em cima da cama por fazer, cobertores revolvidos puxados para trás, deixando ver o len­çol de baixo ainda com a marca leve do seu longo corpo de porce­lana branca, houve um ciclone que derrubou a vida de todos.

É o inferno, imaginou Laura. A tempestade com o seu estrépito parecia vir das entranhas da terra, de onde também partia o bafo escaldante e um fumo denso, mais névoa ou negrume de cobrir o sol, num imenso breu ou estivesse cega e fosse preciso encontrar a saída do escritório, tacteando à volta, recorrendo ao instinto e à memória:

Nas paredes maiores estão as estantes até ao tecto, com as suas prateleiras compridas de madeira encerada, por onde ganhara o hábito de passar os dedos numa espécie de carícia breve, a supor as histórias dos romances que lhe eram proibidos, assim como as palavras dos poemas degustados com lentidão estremecida, perturbando-se se o primo mais velho lhe ia espreitar sobre o ombro, com o seu hálito quente, levando-a tropeçar nos versos. Mais adiante estava a mesa de canto D. Maria, com a floreira de rosas-damascenas, a moldura trabalhada de casquinha, o cinzeiro e a caixa da Vista Alegre, e do outro lado o relógio de pé alto, pêndulo de pre­cisão a trabalhar o tempo, numa regular monotonia entorpecedora.

Mas, aquela manhã chegara embrulhada em negror, que num rapidíssimo galgar se espalhara, acre como o enxofre, num lastro de tragédia, e o jogo de faz de conta da menina acabou por se transfigurar numa espécie de ficção assustadora.

A precipitá-la no abismo.

Assustada, ela estremeceu e tapou inutilmente os olhos de um azul líquido feito de lágrimas retidas, no instante em que a desor­dem começou a tomar conta de tudo à sua roda: primeiro foram as jarras dos gladíolos, as canetas, o tinteiro, os cadernos de capa de oleado e os livros do pai, que se soltaram, os discos, as gravuras, o lustre de cristal de Veneza, as figuras de biscuit voando como se tivessem asas; e em seguida as cadeiras, os candeeiros, as mesas, a secretária, e mesmo o seu banquinho de madeira com assento de palha entrançada, onde estivera subida à janela a espiar a mãe, que sem olhar para trás percorreu no seu passo dançante o curto caminho das pedras até à cancela de ferro entreaberta e alcançou a rua, cabelos louros ondulando nos ombros, um pequeno chapéu de fel­tro vermelho posto de lado.

Mais valia que ela tivesse morrido —, desejara malévola, vin­gativa, tornando a repetir numa zanga revolvida; — Mais valia que ela tivesse morrido —, choro oculto pelo novelo do seu fio de voz.— Isso não se diz da própria mãe —, repreendera-a a avó, a fitá-la com severidade. Sem rebuço ela insistiu, hostil, dando força aos senti­mentos ruins, impiedosa e fraca. E no entanto, era como se conti­nuasse na sua obsessiva vigia voyeurista, pela porta entreaberta do quarto onde ela se arranjava, agitada, esvoaçando meio-despida, o robe a adejar como uma asa, mostrando-lhe as pernas longas e esguias.

"Como uma garça", lembrava-se de ter pensado, ao vê-la a hesi­tar entre o saia-e-casaco verde água que lhe realçava a pele alva de loura, e o vestido de shantung escarlate com o qual acabaria por sair, tendo como testemunha a filha, que por trás das vidraças lhe seguiu fascinada o andar dolente, tentando fixar-lhe para sempre a silhueta esquiva. Durante anos Laura acompanhara-lhe a indiferença, doendo-lhe o desinteresse aliviado, a alegria inconsequente, a imprevisíbilidade dos seus actos, alternando entre a ardência e a frieza, o entusiasmo e o desprendimento. Não se admirou, portanto, ao aper­ceber-se de que ela se vestia para partir, nem ao escutar o som dos saltos dos seus sapatos no mármore do patamar que dava para o jar­dim de gerânios, antecedendo a rua; limitou-se a subir para o banco junto da janela, de onde a observou a afastar-se.

Pequeno chapéu de feltro vermelho a escorregar nas ondas do cabelo lustroso, detido apenas pelos ganchos invisíveis e a travessinha de tartaruga a aflorar-lhe a orelha de concha rosada. Alheia aos ventos uivantes que a sua fuga desencadeara.

Laura atirou-se para o chão no momento em que os objectos começaram por erguer-se em torno dela com enganadores vagares de levitação, para logo treparem no ar gelado, rodopiando perigo­samente, levados pela vertigem de um vento incontrolável, que no seu desatino ora os atirava para longe, ora os trazia até si e os devo­rava, desmesurado e punidor, usando a vergasta do medo. E ela escutou esse medo, o peitinho ferido por uma dor revolvida e absurda, os lábios secos, descorados e mordidos pela lâmina dos dentes. Imóvel, como se um sortilégio a prendesse e em simultâneo a invadisse pela devassa de menina culpabilizada, desamada e esquecida por falta de merecimento.

Ou de culpa merecida.

Tal como se sentira na obscuridade do corredor, a espreitar, pela fresta da porta, a mãe que fazia as malas: no fundo os soutiens de renda e as calcinhas de cetim, as camisas de noite e em seguida as meias de vidro, as blusas, os vestidos de seda e tafetá, e num canto o volume encadernado de "Madame Bovary", como se fosse uma bíblia. O cofre das jóias, os boiões dos cremes, o rouge, os frascos de perfume com essências de lobélia, de narciso e de nardo, iam na outra mala, que ela fechou pensativa e pálida. A caixa do pó de arroz e a cigarreira de prata, guardou-as na carteira de verniz encar­nado, igual aos dos sapatos de salto alto muito fino, idênticos aos das actrizes que copiava, seguindo-as nas páginas das revistas e no écran dos cinemas.

— Mais valia que ela tivesse morrido! — pensou, quando ela entrou no carro e partiu, sem sequer acenar a despedir-se. — Mais valia que ela tivesse morrido! — teimou com afinco, sabendo quan­to esse desejo lhe era interdito, mas não se arrependendo dele.

E foi nesse momento que Laura escutou pela primeira vez o rugido do temporal que irrompeu implacável,

a sacudi-la, tomando-a e enregelando-a, chegando-se a ela, a envolvê-la e a empurrá-la, ansiando por guindá-la até ao tecto e dai às nuvens, de onde a sol­taria no espaço. Ao sentir-se atraída para o centro de onde provinha a voragem insondável, enrolou-se sobre si própria, tentando passar despercebida, culpando-se já do que estava a acontecer, desmerecedora de felicidade e sossego; mas desconhecendo o sig­nificado dessas palavras estranhas, diante das quais, contudo, se sentia incerta e insegura. Face oposta da obstinação destemida da mãe, da sedutora segurança do seu andar elegante, atenta em não ondear as ancas estreitas, desagradada ao sentir o pequeno chapéu de feltro a oscilar nos cabelos dourados, só então dando conta de ter-se esquecido de o prender com os pregos de pérolas e granadas que, na pressa de fugir, largara no tampo da cómoda.

Da janela de onde a vigiava, a filha viu-a hesitar um tudo nada, como se fosse virar-se ou mesmo voltar atrás, para logo se arrepender e com um ligeiro encolher de ombros continuar até ao carro preto estacionado rente ao passeio. E Laura distinguiu uma mão masculina, forte e tisnada, abrindo a porta para ela entrar, tanto o pulso moreno com o relógio de ouro a contrastarem com o punho alvo da camisa.

Instante esse que entreabriu a guarda da menina, oferecendo o seu flanco à lâmina da espada, fio de lápis-lazúli a desenhar nela uma incisão muito fina, fissura que a tornará vulnerável. Tão vulne­rável que, apesar de longe, a mãe estremeceu num pressentimento ruim, para logo mudar a expressão transtornada do rosto em riso leviano, por demais ciente de não gostarem os homens de mulheres melancólicas, de mulheres tristes. E atirou para trás os caracóis sol­tos, contente de o ter seguido na aventura. Cansada da inexistência árdua, menos bibelot do que aristocrata, vaticinada a um destino rasgado pelo brilho das grandes histórias de desespero e amor clan­destino; um dia ansiosa pela banalidade de Emma Bovary e no seguinte a preferir o drama de Anna Karenina.

Acabando por recusar a abnegação e escolher a fatalidade.

Hipóteses que Laura inventava enquanto se apercebia do defla­grar da tensão do final da manhã, entretanto transformada em ven­daval implacável; poderoso e veloz como uma águia e tal como ela, cruel e carnívoro, garras em riste para a pegar pela cintura de friso da sua magreza e a levar consigo. Mas, ela instintivamente esqui­vou-se, saltou do banco e rastejou a esconder-se entre o sofá de veludo e a parede, e aí se enrolou como fazem os bichos, a cara protegida pelo ninho dos braços, a cabeça apoiada nos joelhos de ossos salientes e miúdos a cheirarem ao verdete e ao ferro da esca­da de caracol de serventia às traseiras.

Escadas que balançavam um tudo nada no ar, degraus oscilan­tes onde então se refugiara, sentada ao início da tarde, entontecida e acuada, a aguardar que se acalmasse a violência da tarde.

- Estás a arder em febre! — afligira-se a avó ao encontrá-la, pondo-lhe a mão muito leve e esguia e fresca na testa escaldante, a empurrá-la de volta à amenidade da sombra, onde a deitou na sua cama a cheirar a madressilva, manta leve a acalmar-lhe os calafrios e a secar-lhe os suores. Mal se afastou julgando-a calma e ador­mecida, a menina correu meio despida e descalça, sabendo como encontrar o trilho do odor materno, que a guiou resvalando de man­sinho até ao quarto dos pais, onde ficou a tremer do lado de fora da porta, espionando pela estreita frincha os movimentos nervosos da mãe a preparar-se para abandonar a casa, que depois de ela

sair a tormenta varreria, tão feroz como um animal predador escapado da selva.

- Mais valia que ela tivesse morrido! — pensara, consciente da heresia, do desaforo, mas igualmente da chaga aberta no senti­mento, num encantamento que já não queria para si. Um dia ouvi­ra dizer que "mãe é mãe, mesmo se for uma silva"... Mas ela recu­sava a silva, o silvo, a ortiga, o espinho. Na verdade, mais do queo tornado, Laura temia o espinho, pois não havia salvação se o espi­nho ficasse cravado na alma, sem antídoto para o veneno daninho. Recuando diante dos picos aguçados dos cactos, ou dos picos afia­dos das rocas das histórias de fadas más e madrastas desalmadas, a quem nenhuma menina escapava. Rasura a intrometer-se na feli­cidade que o abandono destrói sem piedade de nenhuma espécie. Desconhecendo qualquer frescor capaz de atenuar a mágua que a secura afiava, numa solidão sem apaziguamento.

- Mais valia que ela tivesse morrido... — confessará Laura mis­turando a ânsia com a reza, ajoelhada na capela do colégio do Sagrado Coração de Jesus, terço de madre-pérola esquecido na mãozinha suada, sob a vigilância severa das madres atentas ao cumprimento da disciplina, ao ensino do catecismo, à orações diá­rias das alunas deuniforme azul-cobalto. E ela por ali ficava quan­to podia, como se apesar de tudo esperasse um milagre no qual
nunca acreditara, porque ao deixar de crer, passara a dedicar-se com empenho a disfarçar a pequena assassina que nela tomara o seu lugar.

- A tua mãe é maluca —, irão dizer-lhe mais tarde, mas ela nunca virá a entender, se as pessoas achavam que a sua mãe era louca ou a acusavam de leviana e adúltera. Lembra-la-á, isso sim, cintilando à medida que ia cedendo para acabar seguindo o trilho da paixão, deixando atrás de si um imenso rasto de desmorona­mento, como se depois da tormenta uma onda gigantesca rolasse ávida, a arrecadar o que encontrara de mais precioso.

E rolando sobre si mesmo o furacão não se acalmava, sibilante e desvairado, a construir o casulo à sua volta, e nele a menina-larva, ínfima, menor. Angustiada ao ficar diante do eterno enten­dimento que fizera das duas: a mãe, um pássaro colorido e emplu­mado, e ela, uma mosca que a tempestade assassinaria de bom grado; sem comparação possível no comparável uma da outra, "tu minha ilharga e pensamento escuso, no temor e no júbilo, tu meu afago mesmo se não me afagas, tu meu outro eu e idêntico lado"... Dividindo-se Laura entre o encantamento e o desprezo, demasiado pequena para tão desmesurada tarefa e intenso julgamento ou desa­tino camuflado de perda.

"Tu minha perda, tu minha pedra".

Olhos secos e fechados tentando olhar por trás das pálpebras de pétala descida, ou por entre os dedos peganhentos de vómito, de saliva e ranho. Não, não havia mais lágrimas para ela chorar, nem socorro que podesse aguardar, embora sem esperança ou ape­sar do seu avesso. Abandonada e inquieta, desarticulada, fugaz e igualmente feroz.

A ignorar as vozes.

A avó encontrou-a de borco e desacordada no chão do escritório, com a lividez da morte, a boca entreaberta num soluço calado, as mãos emaranhadas uma na outra por cima da cabeça, num inexpli­cável e misterioso gesto de defesa.

E depois de voltar a si, continuou ausente e muda, alheada, olhar azul-hortense fito no absoluto nada.

- Inconsciente... — diagnosticou o pai que era médico, e estava interessado em que ela fosse considerada vítima do abandono materno, exasperado de nela reconhecer traços da mulher que o abandonara. — Sai daqui menina, que me fazes lembrar a tua mãe! - repeli-la-á mais tarde, ao vê-la aproximar-se em busca de cari­nho, como os animais.

- Catatónica, quem sabe... — acrescentou evasivo, à cebeceira da filha para quem nem olhava.

No entanto, ela levantou-se pela calada da noite, as tranças des­manchadas ao longo das costas, olheiras a ensombrarem-lhe o rosto, insistindo em dissimular o corpo débil que, com acinte, cola­va à escuridade através da qual passava com jeito de assaltante, tentando disfarçar o sopro que era a sua respiração mínima, e ilu­dir o roçagar dos pés nus, deslizando silenciosos no soalho encera­do. De braços estendidos para a frente como se fosse sonâmbula, mas afinal cuidadosa, andar aplicado, temerosa de que o negrume onde mergulhara iludisse a percepção que o seu corpo possuía dos poços, dos precipícios, das quedas de água, das armadilhas que as trevas sempre guardaram no fundo limoso e lodoso das cisternas.

Pelas palmas de ambas as mãos juntas e abertas em leque per­passou um levíssimo tremor de apreensão, de quem pretende trans­portar, preservando, o pouco que resta de si, delicado e frágil. E à medida que ia fluindo, Laura curvava-se mais e mais um tanto, na protecção do que levava unido ao peito, na concavidade tépida cria­da pelo gesto imóvel que os dedos sustinham, sem brechas, sem esquinas, nem aspereza de nenhuma espécie: um pequeno coração rubro a pulsar sobressaltado. Idêntico a uma rosa de sangue.

Tremeluzindo na cerração do eclipse.

 

Maria Teresa Horta

 

Lisboa, 2 de Março de 2008

 

(in O Prazer da Leitura, Teorema)

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 14:00
editado por Luis Moreira às 01:48
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Domingo, 9 de Janeiro de 2011
Mãe - por Adão Cruz

 

 

 

Texto e ilustração por Adão Cruz

 

 

 

 


 

Tento fechar os olhos com força para ver no escuro a luz dos teus dedos e das rosas e o afago e a carícia e o olhar que a vida não tem.

 

Tento à luz deste vento carregado de todos os espaços e luzes não ter olhos de ouvir outra voz e de ver o som da água no reino da sede e dos musgos.

 

Talvez eu sinta ainda o tojo agreste da encosta do outeiro tão longe tão distante tão verdadeiro como o cristal dos teus olhos.

 

Talvez quem sabe eu sinta ainda a verdade-mentira do sopro de Deus aos predadores da razão.

 

Na fluidez desta manhã quero sentir o silêncio de tudo a liberdade das pálpebras cerradas sofrendo-sonhando tempos de nuvens densas de amor sem voz e sem face.

 

Quero dormir esse rosto engelhado de luz a palha centeia do teu regaço as tuas mãos brancas de seda enrugada.

 

Quero ser o perfume das rosas que te iludem e ainda prendes entre os dedos...mãe!



publicado por João Machado às 23:55
editado por Luis Moreira às 22:22
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Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010
Noctívagos, insones & afins:HISTÓRIAS CONTADAS POR CRIANÇAS – O QUE ELAS NOS QUEREM DIZER - I
Clara Castilho

Não se pode escrever com a caneta e com a mão, mas com ideia e com imaginação”

(João dos Santos)

Na Instituição onde trabalho – Casa da Praia – dá-se grande importância às actividades de livre expressão, como forma de fazer emergir os sentires, as experiências, os saberes e as motivações das crianças, ligando-as a outras formas de expressão (desenhada, dramatizada, gravada ou escrita).

Inicialmente reflexo de simples relatos ou descrição elementar de situações, as histórias das crianças vão-se tornando, progressivamente, mais complexas e criativas. Valorizadas através do seu registo, transformando as “histórias” ditas em escritas a criança apercebe-se que aquele registo tem um significado.

A imaginação de histórias pelas crianças surge, assim, de uma forma natural, permitindo a projecção de conflitos, medos e fantasias.

Eis um exemplo:

A. foi um menino que nos chegou com 8 anos. Não conseguia ficar sentado numa cadeira, atirava-se para trás, gritando frases desconexas. Não vou contar toda a sua história. Mas ele, da mãe só se lembrava que tinha ao cabelo amarelo, mas desculpava-a dizendo: “ ela não me abandonou num sítio qualquer, foi à porta do meu avô”. Foi todo um trabalho de “reconstrução” que chegou a bom termo. A. foi capaz de imaginar as seguintes histórias:



As aventuras do galo Chico



I - “A CAPOEIRA”



Eu e o meu tio resolvemos fazer uma capoeira para um galo uma galinha cocós. O galo é o Chico e a galinha é a Chica. Foi o meu tio que lhes deu os nomes.

Fomos buscar palettes à montanha. As palettes eram muito pesadas e tivemos que as trazer às costas. Eu tirei os pregos e os dois pregámos as tábuas.

A capoeira ficou pronta e bem segura. Metemos rede à volta e até pusemos palhinha para os ovos.

Mas a galinha desapareceu. Ou foi morta pelo gato, ou deu-lhe um ataque, não sei o que se terá passado !

Agora o galo não quer ir para a capoeira. Anda sempre por lá, sobe para o pé da rola, esgaravata na areia a fazer “cá cá cá” e não entra na capoeira nem por nada !

II - “O CHICO FOI PAI !”

O galo Chico tem uma nova mulher. É uma cocó e demos-lhe o nome de Chica da Silva.

A Chica da Silva é mais pequenina que o Chico e não tem penas às cores. É toda branca. Ela é mais ajuizada do que o Chico, não faz disparates como ele.

O Chico e a Chica foram pais na 4ª feira. Eram 4 ovos, mas só nasceu um pintainho. Era amarelinho, tinha poucas penas e piava muito – “pi, pi, pi”.

Mas o pintainho só durou uma noite. De manhã, quando nós nos levantámos, estava todo mortinho.

Agora, a Chica já não tem um filhinho para tomar conta. Anda por lá, normalmente, sempre atrás do galo Chico, como fazia antes de ter ovos para chocar.

III - “O CHICO IA ARDENDO !”

No fim de semana, o Chico portou-se mal outra vez...

Levou a galinha para dentro de casa e a galinha desatou a pôs ovos em cima da minha cama.

O problema é que ela não pôs só ovos, também fez cocó no edredon...

Quando o meu tio viu aquilo, passou-se dos carretos... Deixou fugir a galinha, mas apanhou o Chico. Meteu-lhe gasolina no pescoço e disse-lhe:

- Agora é que vais arder, agora é que vais arder... E vais mesmo para a panela !

Só que, mais uma vez, o Chico escapou. O meu tio nem teve tempo de acender o isqueiro... O Chico fugiu para debaixo da mesa e conseguiu pisgar-se lá para fora !

Durante o resto do dia, escondeu-se tão bem, que ninguém lhe pôs a vista em cima. Só voltou a aparecer quando o meu tio já estava mais calmo.

Chico é mesmo um galo muito esperto...

A – 11 anos

A.cresceu, fez um curso profissional, fomos tendo visitas e notícias. Até que um dia fui confrontada, numa reunião na comunidade, com a informação da sua morte. A. conduzia camiões entre Portugal e o estrangeiro. Tinha uma namorada, projectos. Um deles era comprar uma moto. O que fez. E que o levou à morte. Aqui bem perto de minha casa. Alguém de sua família marca o acontecimento com coroas de flores. Sistematicamente, e sem desistência.

Investimos tanto em tantas crianças e nem sempre conseguimos com que tenham sucesso pessoal e social … E este menino, depois homem, ficou pelo caminho de uma forma tão abrupta. Todos os dias os lindos olhos azuis de A. me olham, de dentro da minha memória, vindos do tempo em que ele já conseguia sorrir e fazer-nos rir com as histórias do galo Chico.

Não se pode escrever com a caneta e com a mão, mas com ideia e com imaginação” (João dos Santos)



publicado por Carlos Loures às 02:00
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Domingo, 26 de Setembro de 2010
Noctívagos, insones & afins - Se eu não me sentisse confuso de como fui feito
Raúl Iturra

...o que um filho diria a um pai que se importa com ele, toma conta e é feliz…por ter um pai por perto….e não compra o filho e vai-se embora….ensaio de etnopsicologia da infância…

À minha descendência


Feito

Porque de certeza não foi o espírito que me criou. Faz já dez anos. Não foi o espírito que entrou no corpo da minha mãe e depositou aí o meu corpo. Diz a minha mãe que foi ela quem me trouxe ao mundo. Que me pôs neste mundo. Que me deu à luz. Que entregou o meu corpo à família e ao pai. E aos vizinhos. Que me viram no dia do baptismo. Diz a mãe que me levou-me no seu ventre durante cumprido tempo. Diz a mãe. A mãe sempre diz todo o que ela sofreu comigo dentro. Diz que sofreu por ter que acordar à noite para me amamentar. Diz a mãe que teve de mudar as minhas fraldas milhares de vezes quando era pequeno e não sabia usar penico. Diz a mãe.



O pai não fala. Ouve o lê o jornal, ou mexe as mãos como tesouras para arranjar os papéis do seu trabalho. O pai trabalha no Concelho ou numa escola ou escreve livros ou faz contas para pagar ordenados. Em tanto assunto mexe que eu não entendo o que faz. Tanta coisa faz, que nem tempo tem para comentar. Trabalha num sítio qualquer. Ainda não é claro e certo para mim, o que o pai faz. Ele nunca fala em casa e a mãe só fala dele ao preparar as comidas, do que ele gosta, do que ele prefere, do que ele detesta e de como ele vai-se zangar se não está tudo pronto, a horas e bem temperado. E engole caladamente, a olhar os seus papéis. Ou a recortar. Nem sei o que faz o pai. Inveja tenho do Zé e a Maria, que falam à mesa e os pais discutem o trabalho, a casa, os estudos deles. Eu, tenho essa sorte. Só sei que o pai não me teve no seu corpo nem me amamentou, nem mudou as minhas fraldas. Nunca olhou para mim, embora pedisse cumprimentos. Beijo não queria, os homens não se beijam, dizia ele. Diz a mãe, essa que me come com beijos, diz a mãe que o pai olhava e me acarinhava quando eu era pequeno, quando já tinha um ano ou dois. E que brincava à bola comigo. Diz que eu teimava pegar a bola com a mão, o pai teimava a pegar com o pé. Nunca consegui aprender, ao que se parece, e o pai disse-me maricas, nunca mais jogou comigo e eu entrei pelo mundo da fantasia a inventar os meus próprios jogos. Jogos nos quais o pai sempre aparecia. O que fazia o pai? O que fez para ser o meu pai? Porquê existe esse homem que eu quero, é o que chamo pai? Sempre espero por ele, com carinho, com temor, nunca sei se anda feliz ou zangado. A mãe é a que sabe: ou abre a boca para estabelecer uma eterna falhada conversa, ou come em silêncio para não interromper os trabalhos do pai.



Pai



Pai. Uma palavra esquisita. Não é como a palavra mãe. Mãe faz sentido. Por acaso, não andou no seu ventre, comigo? Por acaso, não me teve no seu colo quando sugava o seu peito? Por acaso, não me cantava canções de embalar ao me amamentar? Por acaso, até com raiva pelo cansaço do trabalho, não mudava as minhas fraldas? A palavra que digo, não fora retirada das suas? Não é, porém, a minha língua, uma linguagem materna? Emotiva? Amorosa? Palavras que me aparecem sempre com carinho e eu aponto-as, anoto-as, para as não esquecer mais. É a mãe a que me fez. Até ao ponto de eu entender as pessoas que vinham a casa. Casa na qual a mãe sempre estava, contava os jogos que eu fazia. E os trabalhos da escola. O bem ia a minha vida escolar. Mesmo que não tivesse notas famosas. A mãe dava-me confiança. Fazia de mim uma pessoa. Que não tinha medo de falar com as pessoas amigas. Excepto, quando estava também o pai. E os seus amigos. Que iam falando e bebendo enquanto debatiam. De coisas. De coisas que eu não entendia. E eu, sei lá, se ele não punia a mãe nessas noites, porque ele arfava e ela gemia. Quando estava com os copos. Coisa estranha. Desde bem pequeno, eu ouvia esses ais! Às noites, ou na sesta aos domingos, quando o pai mandava entrar a mãe para o quarto. Esses dias que apenas ele arfava e ela não gemia. Ele ficava a dormir, e ela saía do quarto para os afazeres de casa. E, às tantas, a sua barriga ia alargando, crescendo, e outro bebé nascia. Como é que ele era feito? Na catequese e no Natal, falavam sempre do nascimento. Do menino que a gente punha no presépio. E até presentes tínhamos para festejar esse nascimento. Nascimento acontecido pelo anjo que anunciou a essa mãe que o espírito ia entrar nela. Criancinha assim nascido, diziam eles, na minha idade mais adulta. Será que o arfar do pai suga o espírito anunciado pelos anjos e outro bebé entra no corpo da mãe, que no seu ventre dá forma aos olhos, às mãos, aos pés, ao corpo todo? E tão pequeninos que são quando nascem! Como se ainda não estivesse todo feito. Deve ser por isso que o levam à Igreja, para pôr óleos na sua testa a escorregarem até ter o tamanho para poder brincar comigo. Esses meus irmãos que iam aparecendo aos meus quatro, aos meus cinco anos, ou antes. Mas, de antes não lembro. Todos, de certeza, filhos do espírito que faz crianças. Como dizem em casa. Como diz o pai que dizem outros povos do mundo. Em outros continentes. Sei lá. Se é a mesma história, então é o espírito mais uma vez que voa entre pai e mãe.



Confuso



Confuso ando eu. Com tanto rabisco que me entra pela cabeça dentro. Mal saio de casa, as explicações mudam. Os putos meus amigos andam sempre a olhar para as raparigas. Eu, com certa timidez o digo, também. Porque será que quando olho para elas ferve-me o sangue e o meu pénis fica mais crescido? Ficamos, os meus amigos e eu, com desejos da beijar. Especialmente essa rapariga que tem muito cabelo, onde gosto os meus dedos enredar. E passar as mãos pelas bochechas. E, mal posso, arranco um beijo. Ou cutuco as sua mamas crescidinhas. Não são grandes como as da sua mãe, ou da minha. São mamas pequenas que as minhas mãos agarram quando ela fica perto de mim. E ela até sorri! Não se zanga. Gosto de cheirar o odor do seu corpo. Mais ainda, quando fazemos ginástica. E ela sua, e eu também. E diz que suo bem, gosta do cheiro do meu corpo! Por isso, não deixo que em casa me mandem tomar banho. Guardo o cheiro para ela, a minha rapariga. Que me faz ferver o sangue sei lá porquê, nem como esse sangue ferve. Diz a rir o meu amigo João, que ando enamorado. Enamorado eu? Enamorar, se entendo bem o que a televisão mostra, são duas pessoas que estão juntas numa cama. Ele salta por cima dela e mexe o seu corpo. Ela agarra-o com as suas mãos, e passa as suas unhas pelas costas do homem que está com ela. E mais não posso ver, os lençóis tapam os corpos, os pais tiram-me do aparelho ou mandam-me ir para a cama. E na cama jogo com o meu corpo. Corpo que ferve por ter tocado no da minha amiga, por ter espreitado o que os pais proíbem que eu veja, o que torna a minha mente mais curiosa. Estes dez anos são uma pura complicação: nem para trás, nem para frente…essa idade que o sangue começa a fabricar sumos internos que, enquanto durmo, saem e eu acordo molhado…



Sorte a minha, essa de ter confiança no João, mais velho, com mais dois anos de idade. Esse que me conta que ele e os seus dois outros amigos brincam com a sua pila até sentir que do corpo sai um leite que salta à uma grande distância dos seus corpos. Leite que escondem num papel ou num lenço. Por vezes vão juntos à casa de banho e mexem neles próprios a brincar a quem lança o leite mais longe. Talvez, quando eu tiver a idade deles, possa acompanhá-los, digo. E o João diz que nem por isso, que eu, nem aí. Que é apenas para os mais velhos. Que eu não ia saber empurrar esse amigo que gostava de agarrar a pila deles e lhes dar beijos. Não percebi. Ainda não percebo. Queria perguntar à mãe, mas a mãe não tem pila, como ia entender? Será que o pai tem? E se falar com ele? Mas, como lhe digo? Não sei as palavras. Na escola ensinam biologia e dizem que vamos ficar lentos e perdidos quando chegar ao quê? Ah! diz o livro, à puberdade. Vamos ficar lentos, desabafados, meios parvos, sem balanço. E nada mais diz a professora que nos ensina. Essa que fala em grupo aparte com as raparigas, e oiço à distância, a palavra sangue mensal. Sangue nos seus corpos? Qual o motivo? Coitadas. Ao que parece, nós damos leite, elas, sangue. Quando, porquê, para quê? Os putos do Quinto e Sexto ano básico, têm aulas para encontrar palavras. Palavras que eles traduzem para palavras usadas para factos já vividos. Pelo menos, diz o João, aprendem a usarem o preservativo. O quê? Raios me partam, esses adultos pensam que eu sou um anjinho. Perigoso. Será que já estou na idade de anunciar às mulheres que vai aparecer o espírito e vão ter filhos?



Ai! Se eu não estiver confuso, para que serve o meu corpo. Se eu tiver palavras. Mas esses grandes pensam que eu não penso nem sinto. Que me coloco ao lado deles por puro carinho, sem repararem que junto o meu corpo ao de outro que me conheça intimamente, porque sinto prazer no meu. Como gosto de dar beijos a rapazes e raparigas que gosto e gostam de mim! Beijos a fazerem o meu coração saltitar. Como o outro dia, quando fiquei a olhar para essa minha rapariga no fundo dos seus olhos, e a minha mão esticou-se para a tocar, sem outra intenção que sentir o calor da sua. Peguei numa flor que crescia à beira do caminho e dei-lha. Ela deu-me um beijo na cara. Cara que não lavei para guardar o suave sentir desses lábios, tão diferentes dos da minha mãe. Desde esse dia, já nem quero que a mãe me beije. É um beijo tão diferente. Ai! Se eu soubesse para o que sirvo, como arde o meu sangue, se esses grandalhões entendessem o que eu sinto sem palavras. E sofro por sentir e não ter quem me ajude. Tudo se passa por eu ter a idade que tenho, um puto pequeno. Útil só para estudar e fazer o que mandam em casa. Ou ler livros de trabalho de escola, ou ver televisão às tardes. Ou ver histórias no cinema, que eu gosto, como a de Colombo. Aventuras da História, essas que não me explicam a História do meu corpo. Que começa cedo nas nossas vidas. Bem mais cedo do que os pais gostariam de aceitar. Que os professores, aceitam. Que os Padres e o raio dos que denominam o seu saber Direito Canónico, dizem: até à puberdade, toda criança é um ser inocente para ser orientado a viver com os outros.



Como? senhor leitor . Se não junto palavras com sentimentos ninguém pensa que eu também penso. Nem sabe que eu também sinto. Nem constroem uma conversa de casa para, docemente falar dos meus sentimentos. Essas conversas que tenho da rapariga, às vezes, do João outras, do meu irmão tantas, da senhora que toma conta de nós, quando a mãe deve estar ausente. E que eu espreito pelo espelho quando ela muda de roupa. E no espelho, se reflectem essas grandes mamas que detesto, tão pouco semelhantes às da rapariga dos meus amores…e desejos…



Nota: aula proferida aos meus discentes de Etnopsicologia da Infância, disfarçadas com palavra elípticas, porque esses adultos não tinham o hábito de falar publicamente destes temas, até a segunda o terceira aula ao perceber que não me escandalizava, bem ao contrário, ensinava-lhes como tratar as suas crianças. Ideias retiradas dos cadernos de trabalho etnográfico dos sítios pesquisados por mim, especialmente das notas escritas no Diário de Yarín Contardo, Pencahue, Chile; do Diário do Joel Ferreira, Vila Ruiva, Portugal, e de Pilar Medela, Vilatuxe, Galiza, diários que guardo comigo e outros tantos, que falta espaço.





Conclusão

Faz anos que estudo crianças. Elas ensinaram-me nos seus jogos e brincadeiras, nas suas confidências, nos seus sonhos, no seu agir quando eu, observador feito sombra, olhava para elas, sem ser visto. Quando aprendi a ver, ouvir e calar e a assistir à catequese que pouco diz, e às aulas que não falam dos assuntos que a estas crianças, acontecem. Muito se fala delas e do trabalho por jornadas, e do seu corpo mercadoria a ser vendida, pelas teias da pornografia. Quando aprendi a ouvir os pais que de tudo falavam, excepto do sentir erótico e emotivo das crianças. Conversas úteis para se falar enquanto os filhos são ainda novos e devem aprender a usar o seu corpo, mas raramente como seres autónomos e individuais, que desenvolve o corpo acompanhado pelo pensamento. Premissa horrorosamente cartesiana que todo investigador qualitativo, detesta. Investigador que também foi criança e lembra a sua infância. Adultos que sabe retirar dos factos, as lembranças, sem fazer da troca de opiniões, mais uma pesquisa, mais outro assunto, que confronta os adultos nos direitos humanos dos mais novos. Como Mozart soube fazer na sua ópera Apollo e Hyacinthus no seu Salzburgo de 1776, aos 11 anos de idade. Metaforicamente, há muitos Wolfangs que imaginam o amor, o carinho e a paixão, com a epistemologia que este rapaz soube fazer apesar das contrariedades do seu pai e dos encarregados da música na Corte do Cardeal Príncipe Colloredo, o seu patrão, mandado a boa parte quando o ofendeu, mostrando, ao se vergar para cumprimentar o público, as partes de trás do seu corpo. Facto que as crianças hoje fazem porque os adultos são, metaforicamente também, Colloredos que não percebem que a pequenada não é adulta de sentimentos que não identifica e desabafa com raiva contra os seus adultos. Ou fica a dar voltas ao seu pensamento fantasioso o que é que será o que sente quando sente o seu sangue ferver e os seus genitais, humedecer. Por um homem ou por uma mulher. Um Ego por um Outro que, já cedo, começa a retirar do seu lar, ao preparar para viver no social. Que entra no Século XXI com os mesmos princípios sobre a infância, debatidos já no Século de Rousseau e de Freud. Não doenças, mas formas naturais de agir que o adulto não sabe aceitar ao conceber sua criação, como pequeno que não sabe. Inocente do mais importante saber que todo ser humano, de toda cultura, desde a infância, adquire.

E com estas palavras, síntese do meu novo livro a aparecer em breve, deixo ao senhor leitor pensar e meditar no Verão. Para responder. Todo autor gosta do debate. Este autor, é fervoroso crente que, do debate, nasce o desenvolvimento do saber. Fervoroso em acreditar que não há tema tabu, excepto ideias que a vida social proíbe, diferentes em cada caso e grupo, esses temas que o social proíbe e que, em benefício da infância, é o nosso dever desabafar para conhecer o que os mais novos devem aprender desde a mais terna infância.

Este é, enfim o objectivo científico do que tenho andado a trabalhar com um grupo largo de investigadores pela Europa, África e América Latina: Antropologia da Educação, que defino como a procura da epistemologia da criança por baixo do que o adulto quer definir para as crianças, das aparências do que se vê, o entendimento das ideais da miudagem no processo educativo, processo de ensino e aprendizagem dentro da normal interacção social.


publicado por Carlos Loures às 02:00
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