Domingo, 24 de Abril de 2011
DEDICATÓRIAS – Livros dedicados por prosadores brasileiros / 3, por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 

 

 

PARTE  III – Romancistas, novelistas, contistas, cronistas

 

                   Diogo Mainardi, famoso no Brasil pelas suas atuações na principal rede do sistema nacional de  televisão, é um dos mais ativos nomes do novo romance brasileiro. Residente estável em Veneza, como acontece igualmente comigo, Mainardi já possui uma ampla obra narrativa publicada, obra esta de fortes características expressionistas, mas ao mesmo tempo de insólita capacidade de síntese expressiva. Dele tenho os volumes: Malthus, uma novela, capa de Carlos Matuk, Companhia das Letras, São Paulo, 1989 ; “A Silvio Castro,     no nosso primeiro encontro  “ai sportivi”     Diogo Mainardi“; Arquipélago, romance, capa de Carlos Matuk, Companhia da Letras, São Paulo, 1992:

 

                                                        “Ao amigo itinerante

 

                                                                  Diogo Mainardi”

 

O romancista paulista João Silvério é o autor de uma prosa de ficção que vasculha nos tempos e se alarga sempre, numa linguagem exuberante, de fortes conteúdos narrativos. Assim acontece com os dois romances do escritor, com dedicatórias: O livro do avesso, capa de Carlos Clémen, editora Ars Poetica, São Paulo, 1992 – “Para o Sílvio Castro,     esse meu avesso    passado a limpo.    Abraço e admiração    do    João Silvério Trevisan       SP / 93”, e aquele outro romance, possivelmente a sua obra-prima, Ana em Veneza, capa de Carlos Clémen, foto de Christiano Junior, desenho da Parte I de  Tom Maia, Editora Best Seller, São Paulo, 1994; com a seguinte dedicatória  autógrafa:

 

                                                        “ Ao Sílvio,

o resultado de

uma viagem que

termina em Veneza.

Abraço e gratidão,

 

J  S  Trevisan

 

São Paulo, 25/ 02/95“

 

                   No romancista gaúcho, José Clemente Pozenato, docente universitário e ensaísta, encontramos uma outra linha do romance brasileiro moderno, aquela próxima da ficção ligada ao “policial”, reinterpretando a máxima teórica que afirma ser todo tipo de romance uma forma narrativa derivada ou devedora do dito “romance policial”. Diga-se de passagem que tal gênero foi sempre pouco cultivado no Brasil, o que dá a determinados romances de Pozenato uma fisionomia de forte novidade. Neste espírito está o seu grande sucesso também de público, O Caso do Martelo, capa de Leonardo Menna Barreto Gomes, 4ª. ed., Mercado Aberto, Porto Alegre, 1991, no qual o romancista me diz:

 

                                                                  “Para Silvio Castro,

no dia da vitória do

Juventude contra o Vitória,

com belo papo (somos “papos”,

não?”) sobre futebol,

 

José Clemente Pozenato

 

Caxias do Sul, 24/8/97“

 

Esta feliz linha da narrativa de Pozenato continua com um outro seu best-seller, o romance ligado a fato realmente acontecido, O Caso do Loteamento Cladestino, 4ª. ed., ilustração de José Flávio Teixeira, Edições FTD, São Paulo, 1994:

 

                                                                 “Para Sílvio Castro,

estas cenas de

uma Caxias “multicultural”,

com o abraço amigo do

 

José Clemente Pozenato

24/8/97”

 

Com os romances de Pozenato, Caxias do Sul entra definitivamente no mapa literário brasileiro, tudo devido também à variedade de técnicas dos mesmos. Assim, o romancista policial se faz narrador da memória e da história coletiva em A Cocanha, capa de Marco Cena sobre “Descrição da Coconha” (gravura pintada a mão, 1606),  Mercado Aberto, Porto Alegre, 2000: no qual o autor me dedica com as seguintes palavras – “Para o amigo    Silvio  Castro      a homenagem    do   José Clemente Pozenato     Caxias do Sul, 31/07/2001”.

 

   Adolfo Boos Júnior é um outro significativo representante da nova prosa-de-ficção brasileira. O seu romance que tenho em mãos, com dedicatória, é um ótimo exemplo como um autor moderno pode usar a matéria histórica sem necessariamente cair nas características do romance histórico. O romance é Um largo, sete memórias (e mais uma, coletiva, inquisitorial, contraditória e, muitas vezes, peratubadora), capa de Éthel Jane Scliar, Editora da Univ. Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1997, no qual o Autor me diz: “ Para   Silvio Castro   cordialmente      Boos      25.11.97.”

 

                   Uma surpreendente estréia no romance foi a de Nilma Gonçalves Lacerda, com Manual de tapeçaria, ,2ª. ed. revista pela autora, capa de bordado de Antônia Zulma Diniz, Ângela, Marilu, Martha e Sávio Dumont, sobre desenho de Demóstenes Vargas, foto de Rui Faquini, Revan Editora, Rio de Janeiro, 2001, que me traz a seguinte dedicatória:

 

                                                        “ Para Sílvio

professor de tanto tempo,

amigo desde o início,

com amizade e admiração,

 

Nilma “

 

                   Um capitulo muito particular e importante da moderna prosa narrativa brasileira é o conto. Os contistas  sempre ocuparam uma posição saliente no quadro geral da literatura nacional. Basta pensar no mestre do gênero que foi Machado de Assis, não somente importante para a história curta no Brasil, mas de importância igualmente reconhecida no  plano internacional, no mesmo nível de Checov e Maupassant. Porém, com  a renovação da linguagem narrativa começada por Adelino Magalhães, autor de contos os mais exemplares,  surgiu, a partir do início da segunda metade do século XX um grande grupo de criadores no gênero. Começando por Guimarães Rosa e prosseguindo por muitos outros nomes. A posterior geração de contistas brasileiros continua uma tal tradição. Dentre esses autores, tenho em mãos, com correspondentes dedicatórias, livros de contos de Caio Porfírio Carneiro, Roberto Reis, Luiza Lobo, Jorge Viveiros de Castro, Geraldo Edson de Andrade, Salim Miguel, Guido Wilmar Sassi. De Guido Wilmar Sassi, Amigo velho, 2ª. ed. revista, capa de Mário Rőhnelt, Editora Movimento, Porto Alegre, 1981: “Ao   Prof. Dott.     Sílvio Castro    Guido Wilmar Sassi    nov. - 81“.

 

De Salim Miguel, igualmente editor da revista Ficção, o volume Velhice e outros contos, 2ª. ed. revista, capa de Vicente M. da Silva com desenho de Edgar Koetz, edição Fundação Catarinense de Cultura, Florianópolis, 1981: “Ao Sílvio Castro,    com o abraço do Salim Miguel,    Florianópolis, 81“.

 

De Geraldo Edson de Andrade, O dia em que Tyrone Power esteve em Natal, capa de Fernando Casás, Editora Retour,  Rio de Janeiro, 1983: “Para Silvio Castro,    com o meu apreço e     admiração     Geraldo Edson de Andrade    Rio, set. 85“.

 

De Jorge Viveiros de Castro, De todas as únicas maneiras, capa de Tatiana de Lamare, Diadorim Editora, Rio de Janeiro, 1993: “p/ Silvio  (quase parente);    estas primeiras letras. 1 abraço,    Jorge“.

 

De Luiza Lobo, Vôo livre, capa de Luiz Falcão, Ediora Cátedra, Rio de Janeiro, 1982: “Para Silvio Castro   da Autora   Rio 13.9.82“.

 

De Roberto Reis, A dor da bruxa – e outras fábulas, capa de José Lima, Edit. Cátedra, Rio de Janeiro, 1972:

 

“Para Silvio Castro,

esperando que ao final

da travessia por estas

“fábulas estórias, em

dolorosa viagem, se

depare com a bruxa “–

Com a lembrança

                                                       do

                                                                             Roberto Reis

                                                                                     Rio, set. / 72“.

 

De Caio Porfírio Carneiro é o volume de contos, O Casarão, capa de Luz e Silva, Edit. do Escritor, São Paulo 1974; que me traz a seguinte dedicatória autógrafa:

 

 “Ao amigo

Silvio Castro,

a homenagem e

         o abraço do

 

         Caio Porfírio Carneiro

 

                  S. P. 8/11/76“

 

Do mesmo autor é o romance, em edição italiana, Sale verde della terra (tit. orig., O Sal da Terra), versão italiana de P. Giuseppe Valsania, i.l.a. Palma Renzo Manzzone editore, Palermo, 1971: “Ao amigo    Silvio Castro,    com a homenagem    do  Caio Porfírio Carneiro”.

 

                   De Santa Catarina parte o romancista Miro Morais, com a sua narrativa, próxima do tipo policial, mas alargada à analise existencial, Cândido assassino,FCC Edições, Florianópolis, 1983: com a seguinte dedicatória: “Ao     Dr. Silvio Castro     o meu grande abraço    amigo   Miro    2/1983”.

 

                   No muito variado cenário da moderna literatura brasileira, como já afirmado nesta série, a crônica ocupa uma posição muito particular. Isto devido às linhas autônomas assumidas pelo gênero, modificando a antiga retórica do setor para assumir toda uma nova e brilhante veste. Dentre os grandes cronistas modernos do Brasil, Sérgio Porto ocupa uma posição muito especial, seja quando o ortônimo Sérgio Porto se apresenta ao seu grande público, seja quando o mesmo vem substituído pelo hererônimo felicíssimo, Stanislaw Ponte Preta, pródigo de humour e de ironia. De Stanilaw Ponte Preta é o popularíssimo volume de crônicas, Primo Altamirando e Elas,capa e vinhetas de Jaguar, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1962, com a seguinte dedicatória:

 

                                                                  “Para o

                                                                  Silvio Castro

                                                                  Atenciosamente

 

                                                                                     Stanislaw

 

                                                                                     Rio /62”

 

                   Fernando Sabino é outro grande nome da crônica literária brasileira, porém muito diverso de Sérgio Porto e, mais ainda, do sarcástico Stanislaw Ponte Preta. A crônica de Fernando Sabino, mantendo a linha de expressão que vai além do real, sem o falsificar, própria do gênero muito brasileiro, mostra aos nossos olhos essa mesma realidade como se fosse nossa. Além de atento observador da realidade nacional, Sabino é um intelectual cosmopolita. Assim o vemos nas famosas páginas de A Cidade Vazia – crônicas de Nova Iorque, 3ª. ed., capa de Renato Vianna, Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1961; das quais tenho um volume com a seguinte dedicatória:

 

                                                                  “Ao Silvio Castro,

cordial homenagem do

 

Fernando Sabino

 

8/61“

 

                   Concluo esta parte do meu trabalho com dois livros partidos de Brasília. O primeiro deles é o livro de crõnicas muito especial de Zita de Andrade Lima, Pássaros embriagados, Thesaurus Editora, Brasília, 1997, que me traz a seguinte dedicatória:

 

                                                        Ao professor Silvio Castro,

                                                        brasiliano que leva a

                                                        cultura e o povo do Brasil

                                                        para a terra de Dante,

                                                        cordialmente,

 

                                                                  Zita de Andrade Lima

                                                                                              Brasl, set.,97”

 

O outro volume é a seleção de crônicas e contos (mais uma vez juntando muito coerentemente os dois gêneros literários) de 4 organizadores: Jacinto, Nilce Coutinho, Ronaldo Cagiano, Claudia Barbosa, O Prazer da leitura, capa e ilustrações de Eduardo Coutinho, Thesaurus Editora, Brasília, 1997. Um dos organizadores do volume, Ronaldo Cagiano, me o oferece com a dedicatória:

 

                                                                  “Ao mestre

                                                                           Silvio Castro,

                                                                  com o afetuoso abraço

                                                                  do

                                                                           R. Cagiano

 

                                                                                     20 – Set.97”

 



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Sexta-feira, 22 de Abril de 2011
DEDICATÓRIAS - Livros dedicatos por prosadores brasileiros/2, por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 



PARTE II – Romancistas, novelistas, contistas

 

O aparecimento de Nelida Piñon foi uma revolução para o moderno romance brasileiro, bem como para a mais diretamente questão da escritura literária feminina. Depois da reveladora presença de Clarice Lispector, que contribuira em maneira essencial para a renovação do gênero narrativa, agora a autora de A Casa da Paixão chegava com novas e substanciais contribuições. Sempre acompanhei a carreira literária de Nelida, os seus constantes livros e a sua brilhante atividade como intelectual da modernidade. Assim, dei a mais merecida ênfase ao evento que viu Nelida Piñon feita o primeiro presidente-mulher da Academia Brasileira de Letras, duplicando assim o anterior evento histórico que vira eleita a primeira escritora, Rachel de Queirós (cf. S. Castro, “Nelida Piñon, a primeira“, JL-Jornal de Letras, Lisboa, 29-01-19970). Na parte da análise-crítica, possivelmente, foi meu o primeiro artigo-crítico sobre o seu romance de estréia, num texto publicado no suplemento literário do Jornal do Comércio, do Rio, o mesmo da coluna fixa de crítica literária de Eduardo Portella, isto no domingo de 20-03-1961. Desse Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, capa de Eddie Moyna, Edições G. R. D., Rio de Janeiro, 1961, tenho a seguinte dedicatória da autora-amiga querida:

 

“Ao meu querido Silvio,

amizade muito querida de forma dupla.

Da

Nelida

Rio, 13/fev./61“

 

Depois susseguiram-se os muitos romances e livros de contos. Desses tenho em mãos os volumes:Madeira feita cruz, capa de Ivan Carneiro, Edições G. R. D., Rio de Janeiro, 1963, no qual leio, “Ao meu querido Silvio,     a amizade e o carinho     de sempre     Nelida    Rio 1965“; Do romance Fundador, um dos marcos maiores de sua obra, a dedicatória me diz:

 

“Silvio querido,

êste  FUNDADOR – resumo

de minha alma – para você    sempre tão próximo

de mim,

da sua

Nelida“

 

Do magnífico volume de contos, Tempo das Frutas, capa de Luís Jasmin, José Álvaro editor, Rio de Janeiro, 1966, conservo a seguinte dedicatória sempre amiga: “Ao Silvio querido,    a amizade e o cari-    nho de sempre   de sua   Nelida    17-9-66“.

 

De outro marcante romance da brilhante carreira literária de Nelida Piñon, Tebas do meu coração, capa de Bea Feitler, José Olympio Editor, Rio de Janeiro, 1974, tenho a seguinte dedicatória:

 

“Ao meu querido Sílvio,

o carinho e a ami-

zade muito antiga

da sua

Nelida Piñon

Rio, 4 - 07 - 74“

 

Em A Doce canção de Caetana, Editora Guanabara, Rio de Janeiro, 1987, está a dedicatória:  “Ao querido Silvio    Castro, sempre amigo,   aqui seguem este Caetana   e seus funâmbulos e   o abraço saudoso de    Nelida Piñon    Rio, 25-8-95“

 

                  Muito frequente é o caso de romancistas igualmente poetas, realizando-se desta maneira o alargamento de um processo de exaltação da força da linguagem que esses escritores dão aos seus correspondentes processos de linguagem. Comigo tenho agora quatro exemplos de poetas que alargam as próprias expressões na prosa criadora: Antônio Olinto, Carlos Nejar, Walmir Ayala e Domício Proença Filho. Já encontramos todos os quatro na anterior etapa dos poetas; agora os veremos em outras vestes.

 

                   Antônio Olinto sempre se fizera conhecer e estimar pelos seus livros de poemas, assim como com aqueles de crítica literária. Porém, em 1969, surge um novo, inédito Antônio Olinto. Neste ano, quando publica o seu famoso romance A Casa da Água, nascia para a moderna literatura brasileira um novo grande romancista. Este primeiro romance teve logo várias edições e foi traduzido em diversas línguas, renovando em forma insólita a temática “África“ na prosa-de-ficção de língua portuguesa. Outros romances escreveu em seguida Olinto. Desses tenho em mãos: Copacabana, Editora Lisa, São Paulo, 1975:   “ Para Sylvio   e   Anna Rosa,   neste encontro londrino,    com o abraço amigo do    Antonio Olinto     Londres, 19 ‘ 6 ‘1981”;

 

O Rei de Keto, desenho de capa e ilustrações de Caribé, Edit. Nórdica, Rio de Janeiro, 1980:  “Para   Silvio e Anna Rosa,   este rei que inventei;  e curti ao longo de    uma vivência africana,   com o abraço do     Antonio Olinto     Londres, 12 – 6 - 85“; Sangue na Floresta, Nórdica, Rio de Janeiro, 1992: “Para   Silvio e  Anna Rosa,    este meu romance da paixão pela Amazônia -   com a amizade   constante do   Antonio Olinto, Rio -   5-9-1999“.

 

Concluindo quanto aos volumes de Antônio Olinto que conservo com dedicatória, a edição inglesa de A Casa da Água, inicialmente publicada em 1970: Antônio Olinto,  The Water House, trad. de Dorothy Heapy, Panafrica Library, Londres, 1982; com a seguinte dedicatória:

 

“Para

Silvio e Anna Rosa,

aí vai o menino do

sonho novo –

com meu abraço

Antonio Olinto

Londres – 18-3-82”

 

Os romances de Carlos Nejar projetam no plano surreal a grande liberdade de falas que exercita nos seus poemas. Ainda que inteiramente coerente com a natureza da prosa, agora as suas páginas e as suas estórias atingem o real através de uma como transfiguração do mesmo real. De Nejar tenho em mãos, com dedicatórias autógrafas os volumes: Um certo Jaques Netan, capa: bico de pena de Iberê Camargo, com arte final da capa de Silvia Heleno Colombero, edição Grupo Aché, Guarulhos (SP), 1991; com a seguinte dedicatória:

 

“Para o estimado amigo

e admirável escritor

Prof. Sílvio Castro

este primeiro romance,

na forma original

(depois teve a edição

um pouco mais ampliada

da Record, 1991) – com a

lembrança fraterna do

Carlos Nejar

“Paiol da Aurora” –

Guaraparí, 22/8/99“

 

O Túnel Perfeito, capa de Ana Luísa Escorel, ed. Relume Dumará, Rio de Janeiro, 1994: “Para o escritor e Amigo    Sílvio Castro – com a homenagem fraterna  do  Carlos Nejar, “Paio da Aurora” – 22.8.99”; Carlos Nejar, Carta aos loucos, Record, Rio de Janeiro, 1998; em que me diz:  “Para os amigos, Prof.a     Ana Rosa e ao escritor Sílvio     Castro – com   admiração fiel -   o abraço do Carlos  Nejar.   “Paiol da Aurora” – 22/8/99“

 

                   Walmir Ayala conserva na sua prosa-de-ficção a linha da constante romântica que caracteriza a sua produção lírica. Nascem assim as estórias mais reais numa linguagem de constante encantamento. Dele tenho em mãos dois volumes com dedicatórias: À Beira do Corpo, 2ª. ed., capa de Jane Maia, Editora Nórdica, Rio de Janeiro, 1979:  “Para Sílvio Castro    lembrança do    Walmir Ayala     Rio 11-9-80” Walmir Ayala, A Nova Terra, Record, Rio de Janeiro, 1980; com a dedicatória que segue: “Ao Silvio Castro    com amizade do  Walmir    Rio   21.3.80”

 

                   Domício Proença Filho, como romancista, alcançou grande sucesso e projeção, não somente nacional, com um seu romance parafrástico do D. Casmurro, de Machado de Assis. A versatilidade da escritura de Domício encontra igualmente amplo campo de expressão no seu livro, Breves estórias de Vera Cruz das Almas, Fractal Editora, Rio de Janeiro, 1991, do qual tenho um exemplar que me traz a seguinte dedicatória: “Ao Sílvio,   com o abraço    carregado da amizade do   Domício    Rio, 02/02/92“.



publicado por João Machado às 21:00
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Evento da Literatura Brasileira - A propósito da polémica entre Sílvio Castro e Carlos Loures

Este post do Manuel Simões já tinha saído no Estrolabio, a 6 de Dezembro de 2010. Reproduzimo-lo hoje, dia do descobrimento do Brasil, pelo seu interesse, ao abordar uma questão tão importante, a propósito de uma polémica que decorreu na altura entre o Sílvio Castro e o Carlos Loures, aqui no nosso blogue.

 

 

 

 

 

 

 

Manuel Simões

 

Por circunstâncias várias, um escritor pode pertencer a duas literaturas, sendo, por vezes, até difícil determinar a qual está mais directamente ligado. O método para essa determinação costuma ter em conta três factores: a nacionalidade, a língua que veiculou a escrita e o tema privilegiado no acto de criação literária. É por isso que Gil Vicente e Francisco Manuel de Melo, por exemplo, constam dos manuaiis de literatura espanhola, porque ambos escreveram em castelhano, mas confesso que a primeira vez que constatei esse facto, tido como incontroverso, a minha perplexidade foi espontânea, como se a literatura espanhola se quisesse “apoderar” de dois autores portugueses. Não já pela língua, como é óbvio, mas pelos temas e aspectos culturais específicos, o Padre António Vieira (Lisboa, 1608-Bahia, 1697) é simultaneamente um escritor português e brasileiro: percebe-se nos escritos do jesuíta uma afinidade com as coisas e os seres brasileiros ao ponto de ele próprio se considerar “mazombo”, isto é, filho do Brasil mas de pais europeus (neste caso, portugueses).

 

Ora é por estas razões que não me repugna aceitar, seguindo até a historiografia literária, a “Carta” de Pero Vaz de Caminha não só como o acto de nascimento do Brasil – não obstante lhe tenha chamado “Terra de Vera Cruz “ – mas como o primeiro documento e monumento da literatura brasileira, porque nela confluem todos os temas que os escritores brasileiros usarão como traços distintivos: o mito do bom selvagem, a literatura indianista que se lhe seguiu, a feminilidade inocente e sedutora, mais tarde largamente recuperada e ressemantizada por muitos poetas e prosadores.

 

Isto não invalida a aceitação de que o primeiro e verdadeiro literato do Brasil colónia  tenha sido o Padre José de Anchieta, nascido em Tenerife (Canárias), chegado ao Brasil em 1553, co-fundador de S. Paulo, gramático da língua tupi, poeta lírico e dramaturgo segundo o modelo de Gil Vicente, através de autos que utilizou com a finalidade de converter os índios ao cristianismo.

 

Julgo por isso radical a argumentação de Carlos Loures, segundo a qual “antes de haver estado brasileiro não existe literatura brasileira”. E lembro os casos, entre outros, de Ambrósio Fernandes Leitão, funcionário da Coroa no Brasil, com os seus “Diálogos das Grandezas do Brasil”, de Cláudio Manuel da Costa ou de Gregório de Matos, mestiço, filho de pai português e de mãe bahiana. Tomás António Gonzaga (1744-1810), que viveu entre Portugal e o Brasil, pertence, por direito, quanto a mim, às duas literaturas. E algumas vezes se fez a ponte entre as duas culturas, como no caso do mulato Domingos Caldas Barbosa (1740-1800) que difunde em Lisboa as ternas “modinhas”, talvez ligadas  às origens do fado.

Carlos Loures tem razão quando se refere aos casos de Angola, Moçambique ou Cabo Verde. Devo lembrar, todavia, que por muitos anos, mesmo depois da independência, as literaturas destes países foram designadas genericamente por “Literaturas africanas de expressão portuguesa”, “Literaturas africanas de língua oficial portuguesa” ou até “Literaturas africanas lusófonas”, não ousando a crítica conceder-lhes a “carta de alforria”. Manuel Ferreira, a quem devemos os fundamentos destas literaturas, ainda em 1986 lhes atribuía o título genérico, dividindo internamente o seu trabalho pelos vários países mas sem conceder autonomia às novas literaturas.



publicado por João Machado às 15:00
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Quinta-feira, 21 de Abril de 2011
dedicatórias - livros dedicados por prosadores brasileiros/1, por Sílvio Castro

 

 

 

 

 

 


Sílvio  Castro

 

PARTE I – Romancistas, novelistas, contistas

 

                       Concluída a apresentação de livros de poetas, logo em seguida pude verificar que, por razões puramente de excesso de volumes nas minhas estantes, muitos escondidos em segunda fila, deixei de catalogar muitos deles presentes, mas escondidos. Tenho grande receio que o mesmo acontecerá quanto aos prosadores, com os quais começo agora a tratar. No momento em que pude verificar esses meus acidentes de trabalho, logo me acudiu que outra circunstância me impedia de dar uma relação completa das dedicatórias que recebi e mantenho afetuosamente em meu poder. Isto é, me acudiu que muitos livros de autores brasileiros contemporâneos autografados, eu praticamente os perdi quando, na transferência de minha vida do Rio para Veneza, deixei em minha casa carioca centenas de volumes, isso ainda que tenha trazido na viagem intercontinental algumas outras centenas deles. Os que ali ficavam, eu tinha a certeza que um dia os teria de novo na minha posse. Mas, o tempo passou, e os muitos volumes voaram... Porém, uma coisa me interessa em declarar publicamente e por escrito: livro a mim dedicado nunca foi vendido às livrarias dos usados!

 

                        Chegado a tais conclusões, começo a tratar de um novo capítulo duma minha possível auto- biografia inesperada, mas encontrada na revelação das dedicatórias. Um novo capítulo que será tão amplo como o primeiro, o da Poesia. E que, como este, revelará ângulos fascinantes, para mim, de tantos encontros com meus amigos e colegas escritores. Começo.

 

                        Antes de tudo devo esclarecer o método que emprego para a presente exposição. Sendo a prosa campo fertilícissimo de gêneros literários, me vejo obrigado a expor as minhas dedicatórias sempre sob o conceito de Prosa. Porém, neste largo conceito, na impossibilidade factual de dividir tal repertório estritamente pelos diversos gêneros, ao contrário de quanto ao início eu pensara em fazer, simplifico a questão. Desta maneira, não farei uma exposição subordinada, por exemplo, ao conceito de prosa-de-ficção dissociado daquele de uma prosa que se exprime através da crônica ou da forma teatral. E ainda, no conceito de prosa-de-ficção – conceito que em verdade pode ser atualmente muito contestado, em favor de um outro mais direto e geral, “narrativa” -, eu não separo aqui os diversos gêneros romance, novela, conto. Para os autores que os praticam todos, junto igualmente todos eles, declarando, como é óbvio, o respectivo gênero. Para concluir: na exposição dos livros de Prosa naturalmente tomo em consideração aquele outro espaço de grande dimensão, como se poderá verificar com as citações que logo chegarão, do Ensaio, da Crítica, da História, das Memórias.

 

                       Em uma outra oportunidade, quando certamente chegarei a dar configuração definitiva, e possivelmente sob a forma de um volume, a esta minha aventura analítica, então procurarei colocar numa ordem igualmente definitiva todos os dados e conceituações que aqui ainda vão em forma discutível.

 

                        Dito e havido, podemos começar.

 

                       E começo com uma oferta muito especial. Trata-se de um autor que já figura estavelmente no quadro que define a literatura brasileira moderna: Adelino de Magalhães. O grande ficcionista fluminense, pioneiro da mais revolucionária prosa-narrativa brasileira do século XX, aquele que abre as estradas para os grandes narradores – romancistas e contistas – do Modernismo, aquele que antes de 1922 já havia desvendado os mistérios de uma escritura absolutamente inovadora, eu ainda o conheço ativo no início de minhas atividades literárias na Cidade Maravilhosa. Então, naqueles vivos anos da década de 50, eu muitas vezes o via descer, com o fascinante bondinho, de sua casa no bairro alto de Santa Teresa e dirigir-se com seu porte longilíneo, firme, na direção da Livraria São José, no centro da cidade. Ali em tantas oportunidades o encontrei e timidamente dele me aproximei. Porém, a minha timidez logo achou um equilíbrio na humaníssima gentileza que caracterizava o grande escritor.

 

                       Quando depois de partido para a Itália, retorno pela primeira ao Brasil, em 1965, passando como sempre pela Livraria São José, recebo das mãos de meu caro amigo, o livreiro Carlos Ribeiro, um elegantíssimo volume, a mim endereçado. Tratava-se de uma edição de luxo, encardenada, feita em papel bíblia: Adelino Magalhães, Obra Completa – organizada com a assistência do autor - (estudo crítico de Eugênio Gomes; reportagem biográfica, cronologia e bibliografia de Xavier Placer; posfácios críticos de Murilo Araújo e Andrade Muricy), Editora Aguilar, Rio de Janeiro, 1963. Na página de rosto do volume, Adelino de Magalhães me fazia a seguinte dedicatória autógrafa:

 

“A Sílvio Castro, com

muita simpatia of

Adelino Magalhães

31 – Ag. - 1965“

 

                         Ao entregar-me o volume, o incansável Carlos Ribeiro me dizia , em voz comovida: “É uma grande honra, uma oferta como essa“.

 

                         Alguns anos depois eu seria presenteado com uma outra edição Aguilar. A mesma elegância, a mesma riqueza gráfica, a mesma nobreza de apresentação. Tratava-se de: Josué Montello, Romance e Novelas, 3 vv., ( Vol. I, com uma magnífica introdução do mesmo Josué Montello, “Confissões de um romancista“, seguida por uma “Cronologia de Josué Montello“, de Yvonne Montello; Vol. III, “Bibliografia geral de Josué Montello“), Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1986.

 

                        Josué Montello que, além de um grande romancista, foi igualmente um elegante ensaísta, representou sempre uma presença especial na minha vida literária. Com ele tive oportunidade de trocar idéias e opiniões por longos anos. Ele fez parte, juntamente com Afrânio Coutinho, Adonias Filho e Emanuel de Moraes Filho da banca do meu concurso de Livre-docente em Literatura Brasileira, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1976). Josué Montello sempre me demonstrou uma grande e compensadora amizade. A sua dedicatória, na página de rosto do Vol. I de seus Romances e Novelas, assim diz:

 

“Ao meu caro Silvio Castro, a

quem muito devo como compreensão de minha obra,

esta afetuosa lembrança do seu velho

admirador

Josué Montello
1990“

                         Do mesmo Josué Montello tenho um volume de uma sua edição anterior, aquela do grande romance que são Os tambores de São Luís, capa e ilustrações de Poty, José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1975, com a dedicatória na qual o autor me declara, com a sua elegante caligrafia miúda:

 

                                                           “Ao Silvio Castro, lembrança sempre

 amiga de seu admirador e

colega

                            Josué Montello

                                              1976”

 

                         Agora vou tratar de Jorge Amado. O romancista baiano foi desde a minha juventude uma presença junto a mim. O gráu de participação de Jorge com os jovens escritores foi sempre uma sua característica marcante. Por isso mesmo, ele me dá grande visibilidade cultural quando me indica à UBE da Guanabara, entidade que estava preparando o grande encontro de escritores brasileiros no Rio de Janeiro em 1960, para ser o enviado da mesma UBE ao Sul do Brasil, com a missão de encontrar os governadores dos 4 Estados sulistas e reinvidicar junto a eles ajudas para a participação das respectivas representações estaduais no grande evento carioca. A mesma predisposição o leva a aceitar meu convite para representar o Anuário da Literatura Brasileira na Bahia e para escrever o texto das atividades baianas relativas a 1960 para o número do ALB-61 sob o pseudônino de Daniel de Oliveira. Assim como para participar, com conferências e encontros com os estudantes, nas minhas atividades da Universidade de Padova. Quando esta lhe concedeu o título de Doctor Honoris Causa, em Letras, no ano de 1962, ele me demonstrou grande apreço e gratidão. No ano da saída da tradução italiana de meu romance Memoriale del Paradiso, em 1991, Jorge Amado escreveu um profundo artigo analítico, publicado na Bahia e no Rio de Janeiro. Porém, ainda que eu tenha sempre escrito sobre todas as fases da obra narrativa de Jorge Amado, desde os romances de grande empenho ideológico, até aqueles outros de uma nova predisposição à valorização da retórica inovadora da prosa narrativa brasileira moderna, mas sempre atento aos problemas sociais, tenho em mãos somente um de seus romances, mas numa versão italiana, o já clássico Jubiabá, (2ª. ed. na col. Nuovi Coralli, 1981), trad. ital. de  Dario Puccini ed Elio Califano, Ed. Einaudi, Turim, 1981. Jorge escreve como dedicatória do volume:

 

                                                 “Para

Anna Rosa e

Silvio,

amigos queridos,

o abraço do velho

 

Jorge Amado

 

Udine, jan., 1984“

 

                     Tenho, entretanto e para confirmar como esses episódios se confundam com as peripécias de nossas respectivas vidas, do meu grande amigo e companheiro dois outro livros traduzidos para outras línguas – um é o inaugural O País do Carnaval, em tradução francesa, o mesmo livro que revelara, em 1931, um jovem e brilhante romancista baiano ao Brasil, revelação devida ao pionerismo editorial do poeta Augusto Frederico Schmidt, que logo depois saberá descobrir um outro grande nome do romance brasileiro, Graciliano Ramos; o outro é o precioso livro, esse já de memórias, Navegação de Cabotagem, em tradução italiana. No primeiro volume,  Jorge Amado, Le Pays du Carnaval, trad. de Alice Raillard, ed. Gallimard, Paris, 1990, tenho a seguinte dedicatória:

 

“Para Silvio Castro,

este velho livro,

com um abraço de

seu velho amigo

 

Jorge Amado

Paris  1990  junho”

 

                       Em Jorge Amado, Navigazione di Cabotaggio (Appunti per un libro di memorie che non scriverò mais, trad, de Iruba Bajini, ed. Garzanti, Milão, 1994, ele me diz:

 

“Para Sílvio Castro,

querido amigo,

escritor de minha

admiração,

afetuosamente

 

Jorge Amado

 

1995  Dezembro”

 

                        Naturalmente nos vem imediatamente o impulso de associar Zélia Gattai quando tratamos de Jorge Amado. Assim como eles sempre estiveram juntos na vida, assim a recordação da obra da esposa do romancista nos acode. Da valiosa obra memorialística de Zélia Gattai, bem como de suas experiências narrativas, tenho testemunhos em mãos. Começandopelo essencial Anarquistas, graças a Deus, Círculo de Leitores, Lisboa, 1983; com a seguinte dedicatória: “Para   Silvio de Castro   estes   Anarquistas, graças a Deus, com    o abraço amigo   da    Zélia     Lisboa, janeiro de 1984”. Na página de rosto de um outro seu livro de memórias, Jardim de Inverno, 5ª. ed., Editora Record, Rio de Janeiro, 1989, leio a seguinte dedicatória: “Para     Silvio Castro, com    a velha amizade    da Zélia Gattai     Bari, 22 de maio 1990”.  E ainda o romance Crônica de uma Namorada, 3ª. ed., Editora Record, Rio de Janeiro, 1995: “Para   Ana Rosa e   Sylvio Castro, o   velho carinho e um beijo    da Zélia Gattai    Pádova, 9 de maio de1996”.

 

                         A mesma intensidade das minhas relações de amizade com Jorge Amado, as tenho igualmente com outro grande nome da moderna literatura brasileira, Guimarães Rosa, apenas num espaço de tempo mais curto, pela morte prematura do grande autor de Saganara. O momento mais intenso desses relacionamentos, nós o temos nos anos 1961 e 1962, quando exercito uma minha colaboração com o Departamento Cultural do Itamaraty, no Ministério dos Negócios Estrangeiros ainda estabelecido no Rio. O Embaixador Guimarães Rosa dirigia então o Departamento das Fronteiras, ficando o seu escritório muito próximo do meu. Assim, nos momentos de pausa de nossos respectivos trabalhos, Guimarães Rosa me telefonava para um habitual bate-papo. Então principalmente ele falava, o que me era conveniente, porque recebia assim preciosas informações e recordações do grande escritor. Mais tarde, quando Guimarães Rosa teve em mãos um exemplar do meu primeiro romance, Raiz Antiga, ele não se cansava de demonstrar a grande admiração literária que sentia pela parte do Epílogo do meu texto. Com Guimarães Rosa na presidência, e mais Antônio Cândido, em 1963 completei com minha participação a delegação oficial do Brasil ao Encontro Internacional das Literaturas Latino-americanas, em Genoa. Do grande romancista me ocupei em diversas oportunidades, em livros, em jornais e em revistas literárias, dada a importância que sempre identifiquei na sua obra revolucionária. Dele tenho em mãos: Corpo de Baile, novelas, capa de Poty, 2ª. ed., José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1960, com a seguinte dedicatória:

 

                                                        “Para

                                                                  Silvio Castro,

                                                                  com a melhor simpatia

                                                                  e cordial aprêço,

 

                                                                           Guimarães Rosa

 

                                                                                     Rio, 28.XI.60”

 

                    Adonias Filho, como sempre tenho o prazer de repetir, foi o primeiro contáto do adolescente Sílvio Castro com os grandes nomes da literatura brasileira. Foi numa tarde de dia de semana, quando meu pai chegou à nossa casa de Vila Isabel acompanhado pelo seu companheiro da redação de A Vanguarda, o também escritor, crítico famoso, Adonias Filho. Na companhia, vinha também o amigo de Adonias, Eustáquio Duarte, escritor e cientista, um dos mais eruditos brasileiros da época, hoje praticamente esquecido. A partir de então, gozei sempre da amizade do autor de Memórias de Lázaro, e dela me servi para compreender melhor o ambiente literário, não só aquele do Rio de Janeiro. Com o passar do tempo, o romance de Adonias Filho fez-se um dos mais altos produtos da literatura brasileira moderna. Dele tenho em mão três volumes: Corpo Vivo, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1962; O Forte, Edit. Civ. Brasileira, Rio de Janeiro, 1965; As Velhas, Civ. Brasileira, Rio de Janeiro, 1975. Com o volume de Corpo Vivo, Adonias Filho me gratifica com a seguinte dedicatória autógrafa:

 

                                                        “ A Silvio Castro,

                                                        com o bom abraço

                                                        de seu amigo,

 

                                                                           Adonias

 

                                                                 .  junho 1962”

 

                          No volume  do denso romance O Forte, ele me comunica:

 

                                               “ a Sílvio Castro,

                                                        com o velho abraço do

                                                        seu amigo e companheiro,

 

                                                                  Adonias Filho

 

                                                                           Gb.  out.1965”

 

                          Finalmente, com as estranhas histórias de As Velhas ele me renova a sua amizade:

 

                                               “As Velhas para

                                                        Silvio Castro, com

                                               aquele abraço antigo do seu

                                               seu amigo e companheiro,

 

                                                                  Adonias Filho

                                     

Rio. agosto,

1975”



publicado por João Machado às 21:00
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2011
Evento - um jogo muito sério. Literatura Brasileira, por Sílvio Castro.

 

O nosso colaborador Sílvio Castro que, aqui nos lançou o repto de revelarmos quais os dez livros do Século XX que mais nos tinham impressionado, lança-nos um outro desafio – Evento. Diz. «Trata-se de um jogo, sério, muito sério, que os amigos do Estrolabio de todos os Países de Expressão Portuguesa poderão enviar, exaltando um evento de uma das Literaturas dos 9 Países de Expressão Portuguesa. O conceito de evento é o mais amplo possível: pode referir-se a uma data, a uma obra, a um episódio, a um movimento etc, etc.»


E, dando o exemplo, envia-nos já três textos - um relacionado com a literatura brasileira, outro com a portuguesa, um terceiro com a angolana. Publicamos já amanhã o que se refere á literatura brasileira.


Portanto, a ideia é – colaboradores e leitores mandarem-nos textos que exaltem um evento relativo a uma das nove literaturas de língua portuguesa. Pode repetir-se literaturas já referidas. Por exemplo, quem entender que o evento mais relevante para a literatura brasileira não foi o apontado por Sílvio Castro, deve fazer um texto sobre o «seu» evento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O documento evidentemente real, a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita de 22 de abril a 1º de maio de 1500, enviada logo no dia seguinte a Lisboa, ao destinatário venturoso, D. Manuel, mais que um documento é um marco crucial para duas realidades ainda virtuais, a cultura e a literatura do Brasil, que imediatamente depois e a partir do evento fazem-se reais.

 

 

 



publicado por João Machado às 21:00
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Quarta-feira, 9 de Março de 2011
“Memórias do Cárcere”, memórias de um tempo maldito – Carlos Loures

 

 

 

Graciliano Ramos( 27/10/1892 —20/03/1953)  foi um dos maiores escritores brasileiros do Século XX. Em 1936 publicou  Angústia e em 1938  Vidas Secas.  Das viagens a países europeus, resultou Viagem (1945). No mesmo ano publicou Infância, relato autobiográfico. Em 1953 seria publicado postumamente Memórias do Cárcere.

 

Em 1960, salvo erro, comprei os quatro volumes de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, por 180 escudos (conservo o preço escrito a lápis

no anterrosto do primeiro volume). É uma segunda edição da obra autobiográfica do grande escritor brasileiro, da Editora José Olympio, do Rio de Janeiro, datada de 1954. Acabada a primeira leitura,  encomendei

a robusta encadernação que permite que, cinquenta anos decorridos a obra, tantas vezes lida, continue em muito bom estado.

 

A narrativa de Graciliano começa explicando por que, dez anos após a ocorrência dos factos, se resolveu a contá-los, confiando apenas na memória, pois não conservava notas. Com a grande honestidade intelectual que o caracterizava, esclarece também que não foi o DIP, a políicia política, que o impediu, pois durante a ditadura do Estado Novo nunca houve censura prévia, embora se tenham feito autos-de-fé com algumas obras. E dadas as explicações que lhe pareceram necessárias, inicia o relato, recuando a 1936 quando, funcionário da instrução pública em Alagoas, começou a receber misteriosos telefonemas com veladas ameaças.

 

Em 1935 houvera a Intentona Comunista e Getúlio Vargas aproveitara essa conspiração para espalhar o pânico e capitalizar o temor dos privilegiados. Em 30 de Setembro de 1937, quando faltava pouco para as eleições presidenciais marcadas para Janeiro de 1938, denunciou a existência de um suposto novo plano comunista para tomada do poderem e desencadeou a sua «revolução» filofascista. Foi neste período em que se cozinhava o golpe getulista que Graciliano foi preso.

 

É uma obra que nos permite compreender os motivos que conduziram ao golpe de 1937, quando numa declaração à Nação, Getúlio Vargas diz que «Atendendo ao estado de apreensão criado no País pela infiltração comunista, que se torna dia a dia mais extensa e mais profunda, exigindo remédios, de carácter radical e permanente»;. Graciliano foi , tal como tantos outros, preso, acusado de um  eventual envolvimento político, exagerado depois do pânico insuflado com a chamada Intentona Comunista, de 1935. A acusação formal nunca chegou a ser feita, mas Graciliano é demitido e preso. No Recife é, com outros 115 presos políticos, embarcado no navio «Manaus» com destino ao Rio. Passa pelo Pavilhão dos Primários da Casa de Detenção, pela Colónia Correcional de Dois Rios (na Ilha Grande), regressa à Casa de Detenção ... É libertado em Janeiro de 1937.  Memórias do Cárcere são o testemunho desses atormentados dez meses de prisão.

 

Graciliano Ramos, fala no seu dia-a-dia de prisioneiro, das celas insalubres, da comida repugnante, da boçalidade dos carcereiros... Mas refere também outro tipo de acontecimentos - torturas infligidas a presos e a entrega pela polícia brasileira à Gestapo de Olga Benário Prestes (Munique, 12 de Fevereiro de 1908 — Bernburg, 23 de Abril de 1942), a jovem alemã, de origem judaica, companheira do líder comunista Luís Carlos Prestes. Viria a ser executada pelos nazis.  A ditadura de Getúlio Vargas e do sinistro coronel Filinto Müller, semeava terror entre os antifascistas. O relato de Graciliano é um dos mais impressivos libelos contra o curioso prestígio que o getulismo obteve em alguns círculos políiticos e intelectuais. Dentro e fora do Brasil.

 

É uma obra apaixonante que Graciliano não terminou, pois falta um último capítulo – internado no princípio de 1953, morreria em 20 de Março de 1953, vitimado por um cancro pulmonar.

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011
L'èpica de la impotència. Notes arran de l'edició catalana de "Vides seques" de Graciliano Ramos

 

Aquest espai, dedicat a tots els amics d'Estrolabio i, de manera molt especial, als que segueixen el nostre bloc des de les terres de parla catalana. Aquí parlarem de cultura lusòfona i de cultura catalana, i de les qüestions i els problemes que ens afecten als uns i als altres.

 

En acabar l'any 2010 ha arribat a les llibreries la versió catalana de Vidas Sêcas (Vides seques), de Graciliano Ramos, en una traducció del poeta català Josep Domènech Ponsatí, editada per Adesiara, Barcelona.

 

Aquesta obra capdavantera de la literatura brasilera, publicada en 1938, és un títol cabdal d'una narrativa que, si la volguéssim singularitzar amb una categoria pròpia, podríem molt bé anomenar l'"èpica de la impotència". La peripècia de Fabiano, heroi sense grandesa èpica i tanmateix tan pregonament arrelat en l'essència de dignitat de la vida humana, és el paradigma de l'existència de milers de milions d'éssers humans que han poblat la Terra al llarg dels segles, lluitant contra l'adversitat del paisatge, del clima, de l'eixutesa de la terra erma o improductiva, de la misèria, i també de l'opressió, de la injústicia, dels privilegis dels poderosos que no només els han negat el dret a gaudir de tota aspiració humana, sinó també el dret a formar part de la història. Carn de canó, força de treball, tota la riquesa, tot el poder, tota la grandesa que en la història passada o present ens enlluerna s'ha construït amb la força de treball dels desposseïts de tot, dels menystinguts i els ignorats que no han entrat mai en la història.

 

La novel·la de Graciliano Ramos va coincidir en el temps amb una altra de las grans obres de l'èpica de la impotència, The Grapes of Wrath, de John Steinbeck, publicada el 1939, que em sembla una de les grans novel·les del segle XX. Al capítol 3, Steinbeck construeix una metàfora d'aquesta èpica de la impotència amb la descripció dels esforços d'una tortuga que, arrossegant la feixuga càrrega amb què l'ha dotada la naturalesa, intenta salvar el desnivell rost que separa els camps d'ordi del ferm de la carretera. Formant part de la munió de petits animalons invisibles entre els sembrats (in the shade under the grass the insects moved, ants and ant lions to set traps for them, grasshoppers to jump into the air and flick their yellow wings for a second, sow bugs like little armadillos, plodding restlessly on many tender feet) la petita tortuga intenta remuntar el marge que la separa de la carretera. L'animal lluita contra el terreny, contra la gravetat i contra la pròpia naturalesa:

 

"...the hill, which was the highway embankment, reared up ahead of him. For a moment he stopped, his head held high. He blinked and looked up and down. At last he started to climb the embankment. Front clawed feet reached forward but did not touch. The hind feet kicked his shell along, and it scraped on the grass, and on the gravel. As the embankment grew steeper and steeper, the more frantic were the efforts of the land turtle. Pushing hind legs strained and slipped, boosting the shell along, and the horny head protruded as far as the neck could stretch.[...] The back legs went to work, straining like elephant legs, and the shell tipped to an angle so that the front legs could not reach the level cement plain. But higher and higher the hind legs boosted it, until at last the center of balance was reached,  the front tipped down, the front legs scratched at the pavement, ad it was up."

 

Quan la tortuga assoleix la carretera, el conductor d'un camió –amo i senyor de la carretera– la veu i fa una maniobra forçada per aixafar-la (...the driver saw the turtle and swerved to hit it). La tortuga, empesa per la roda del camió, és llançada fora de la carretera, novament a la pols dels sembrats, al nivell inferior que amb tant d'esforç havia provat de superar:

 

"... Lying on its back, the turtle was tight in its shell for a long time. But at last its legs waved in the air, reaching for something to pull it over. Its front foot caught a piece of quartz and little by little the shell pulled over and flopped upright. [...] The turtle entered a dust road and jerked itself along, drawing a wavy shallow trench in the dust with its shell. The old humorous eyes looked ahead, and the horny beak opened a little. His yellow toe nails slipped a fraction in the dust."

 

A cada nou intent, un nou fracàs, i amb cada nou fracàs, la lluita recomença, amb una cadència cíclica i sense fi. Així, en un camí d'objectius impossibles, es consumeix la vida dels personatges de Steinbeck, i així es consuma la peripècia de Fabiano i la seva família en la novel·la de Graciliano Ramos. Aquestes "vides seques" que omplen les pàgines del que he anomenat l'èpica de la impotència són el paradigma de la vida de tants éssers humans, no ja de la història passada, sinó del nostre món actual.

 

Si les nostres "reconstruccions" del passat, de les quals ens sentim sovint tant cofois i orgullosos i que tant alimenten la vanitat de les nostres societats, obrissin les seves portes a tots els protagonistes silenciats, oblidats, expulsats de la història –com la tortuga de Steinbeck–, tota la grandesa de les nostres èpiques miserables quedaria en no res, com les bombolles de sabó que, en esclatar, desapareixen. I si això és així en relació amb el passat, què direm del present? Què en restarà, de l'estat del benestar, si la realitat en què vivim instal·lats s'eixampla per donar cabuda a tots els éssers humans, per fer realitat per a tothom sense excepció l'acompliment d'aquests drets humans amb què tan sovint ens omplim la boca? No ja els dret a l'habitatge, a l'educació, a la sanitat, al lleure..., sinó el dret encara molt més elemental a la supervivència.

 

Al Brasil, aquella terra immensa en un trosset de la qual Graciliano Ramos construeix –amb sensibilitat d'educador i coherència de militant de la igualtat entre els homes– la peripècia vital de Fabiano, la nova presidenta, Dilma Roussef, es planteja com a objectiu –així ho diu– acabar amb la pobresa. És fàcil caure en la temptació de dir que es planteja un objectiu impossible, però no és cert. Moltes de les mil cares de la pobresa –al Brasil i arreu– es poden eliminar. Perquè la pobresa no és condició natural de ningú, sinó càrrega social i arbitraria, i això vol dir que és fruit de la injustícia, la desigualtat, l'abús de poder, la usurpació dels béns i de les fonts de riquesa... I, si és cert que volem proveir-nos d'una societat de drets, la lluita contra aquests mals, que es poden identificar tan inequívocament, ha de ser possible.

 

No sé la difusió que aquesta traducció de Vidas seques tindrà entre els lectors catalans. Però, vull convidar-los a llegir-la. No hi trobaran herois, ni sants, ni màrtirs, ni glòries nacionals, ni l'èpica de l'astúcia o de la força, temes als quals estem tan avesats i que han omplert tantes i tantes pàgines de ficció literària. Hi trobaran –a més de la qualitat de l'escriptura– una narració honesta, compromesa, que apel·la, sense demagògies, a la consciència, a la dimensió social i ètica del lector, amb el simple testimoni d'aquestes vides seques en una terra –i una societat– hostil. Personatges damnats, itinerants, condemnats a un exili sense fi, mancats de grandesa, protagonistes d'una èpica que no té cabuda en els llibres d'història, l'èpica de la impotència.

 

 

Josep A. Vidal



publicado por Josep Anton Vidal às 10:00
editado por Luis Moreira em 16/01/2011 às 23:19
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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010
Receita do ano novo, por Carlos Drummond de Andrade

   Faltam dois dias  e alguns minutos para 
o Ano Novo. Para se irem preparando leiam este poema que nos foi enviado pela Augusta Clara e pelo Manuel Simões.
Receita de ano novo 
 


Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade
(1902 - 1987)


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
 






publicado por João Machado às 23:55
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Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010
O Amor Natural, de Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade vem ao Terreiro da Lusofonia

trazendo "O amor natural"
Manuel Simões e Carlos Loures
O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.
Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.

Só em 1992, cinco anos depois da morte do Autor, é que se publicaram os poemas e logo nesse ano saiu uma edição holandesa e outra portuguesa. Estava desfeito o temor do poeta sobre o modo como os brasileiros teriam recebido o livro (Prémio Jabuti para o melhor livro do ano) e, de resto, é surpreendente que o Drummond irreverente e anticonformista tivesse tido receio de transgredir os códigos culturais dos leitores e as convenções sociais pequeno-burguesas de que ele tantas vezes escarneceu na sua obra.
Nos quarenta poemas da colectânea, todos dedicados ao tema de Eros, o leito parece substituir Itabira (onde nasceu o poeta) para se tornar o lugar onde o amor exerce o seu poder para reconstituir a perdida unidade do Homem.
De O Amor Natural transcreve-se aqui o poema de abertura:
Amor – pois que é palavra essencial
Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?


Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
(Recolha e texto de abertura de Manuel Simões)


publicado por João Machado às 16:00
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Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010
Evento - Uma "redescoberta" da literatura africana no Brasil
Adelto Gonçalves (*)

I
A Editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) colocou no mercado uma nova coleção, Poetas de Moçambique, em que apresenta antologias dos maiores poetas modernos de língua portuguesa e origem moçambicana. Segundo a editora, os autores escolhidos estabeleceram freqüentemente diálogo com a literatura brasileira, especialmente com as obras de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Cecília Meireles (1901-1964), Vinicius de Moraes (1913-1980) e Manuel Bandeira (1886-1968). Os primeiros volumes são dedicados a José Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997).

Craveirinha, primeiro autor africano galardoado com o Prêmio Camões, em 1991, é um dos nomes fundamentais da literatura moçambicana. Filho de pai algarvio e mãe ronga, é dono de uma obra concisa, que cobre cinco livros publicados em vida e duas coletâneas póstumas, além de dezenas de poemas espalhados em periódicos e antologias. Este livro reúne os principais poemas do autor com nota biobibliográfica de Emílio Maciel.

Já Rui Knopfli produziu uma encorpada e original obra literária durante o período colonial. Seus poemas selecionados estabelecem diálogo com as principais tradições clássicas e modernas da poesia. O livro traz posfácio com texto crítico e nota biobibliográfica de Roberto Said.

Ao mesmo tempo, a Ateliê Editorial, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), acaba de lançar Portanto... Pepetela, organizado por Rita Chaves e Tania Macêdo, professoras de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP). O angolano Pepetela, nascido Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, ganhador do Prêmio Camões de 1997, é talvez o mais importante romancista de seu país. Com apresentação do moçambicano Mia Couto, o livro reúne 38 artigos e ensaios de estudiosos da obra de Pepetela.

Nada mais alvissareiro do que essa "redescoberta" da literatura africana de expressão portuguesa. Mas desses três autores, apenas José Craveirinha é resultado da mistura do sangue português com africano. O que se espera é que esse interesse não se restrinja apenas a autores lusodescendentes, mas seja aberto a todos os africanos que fazem literatura em Língua Portuguesa.

II
Nada contra Pepetela, Agualusa, Mia Couto ou Luandino Vieira, nomes hoje incontestáveis no panorama da literatura africana de expressão portuguesa. O que se estranha é por que só descendentes de portugueses que nasceram em terras africanas têm largo espaço nos veículos de comunicação de Portugal e nas universidades de Portugal e do Brasil.

Basta ver que o livro Portanto... Pepetela traz, ao final, uma lista de 56 teses de doutorado e dissertações de mestrado defendidas em universidades brasileiras sobre a obra de Pepetela. Um exagero, evidentemente, porque há muitos outros autores africanos de expressão portuguesa que poderiam ser estudados. E não o são. Não se quer acreditar que seja por racismo, pois o que se espera é que esse tipo de comportamento seja algo já superado, sem razão de existir neste começo de século XXI.

Talvez seja ainda a "saudade do império colonial perdido", como disse Patrick Chabal, professor de Estudos Africanos do King?s College, de Londres, para se citar aqui um nome isento destas questiúnculas lusófonas, que impeça os acadêmicos e editores portugueses de enxergar que a lusofonia é uma falácia - que não vai chegar a lugar nenhum - enquanto eles não aceitarem a verdadeira dimensão da língua portuguesa para além da Europa.

Em outras palavras: Pepetela, Agualusa, Mia Couto e Luandino Vieira fazem parte da última geração de lusodescendentes que, nascidos na África, praticam uma literatura com vivência africana. Dentro de 20 ou 30 anos, quando provavelmente já não estiverem mais neste mundo, quem irá representar a Literatura Africana de expressão portuguesa senão os autóctones ou um ou outro miscigenado?

Portanto, o futuro da Língua Portuguesa na África vai depender dos naturais desses países por onde os portugueses criaram raízes - e também daquelas regiões que, hoje, sofrem com a opressão de vizinhos que não falam português. É o caso da Casamansa, província do Sul do Senegal, que ainda aspira livrar-se da opressão de Dakar para se tornar um país independente e membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Será que em Casamansa não há um único poeta ou escritor que escreva em português? Ou somos nós que não queremos vê-los?



Como diz o escritor moçambicano João Craveirinha, por mais que se assumam "lusófonos", os escritores de tez escura serão sempre os "outros", os outsiders, os ex-colonizados. Entre esses, além de João Craveirinha, pode-se citar de uma enfiada Paulina Chiziane, Ungulani ba Ka Kossa, Nelson Saúte, Noémia de Sousa, Kalungano, Luís Bernardo Honwana e Suleimane Cassamo, de Moçambique; Adriano Mixinge, João Melo, Ondjaki, Victor Kajibanga, Uanhenga Xitu, Ana Paula Tavares, Luís Kandjimbo, de Angola; José Luís Hopffer Almada e Germano Almeida, de Cabo Verde; Abdulai Sila, Hélder Proença (?-2009) e Odete Semedo, da Guiné-Bissau; Alda do Espírito Santo e Tomás Medeiros, de São Tomé Príncipe. E muitos outros.

O que é preciso dizer - e quase ninguém o faz - é que persistir nessa visão preconceituosa é um erro, que equivale a dar um tiro no próprio pé, pois recusar-se a reconhecer que o futuro da Língua Portuguesa na África depende dos naturais daqueles países é condená-la ao desaparecimento. E olhem que quem escreve isto é um brasileiro de primeira geração, de pai português de Paços de Ferreira, Norte de Portugal, e de avós maternos açorianos.

III
Embora o desconhecimento no Brasil acerca dos assuntos africanos seja abissal, não se pode deixar de reconhecer que foi graças aos literatos brasileiros que a Língua Portuguesa continuou viva nas décadas de 1950, 60 e 70 na África de expressão portuguesa, especialmente entre aquela camada mais culta, que gostava de ler Jorge Amado (1912-2001), Érico Veríssimo (1905-1975), Guimarães Rosa (1908-1967) e outros tantos.
Rui Knopfli mesmo é um poeta fortemente influenciado pela literatura brasileira, além de suas grandes ligações com a poesia portuguesa moderna. De africano, só carrega o fato de ter nascido em Inhambane. Trata-se de um fino poeta, cuja poesia está entre o que de melhor se escreveu em Língua Portuguesa no século XX, mas que, ao contrário de Pepetela que permaneceu em Angola e lutou contra o colonialismo, deixou Moçambique tão logo o país se separou de Portugal. Jamais se assumiu "moçambicano" no anterior e muito menos no atual contexto africano e sociopolítico do pós-independência. Assumiu-se, sim, como um português de Moçambique agastado com os "pretos" da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) que queriam ser iguais aos "brancos".

A visão que Knopfli tinha da África era eurocêntrica, de um colono que pertencia a uma elite colonial intelectual que, provavelmente, sonhava com um Moçambique semelhante à Rodésia ou à África do Sul sem apartheid, mas com os chamados "brancos" a mandar nos "pretos", ou seja, "cada macaco no seu galho", para se repetir aqui uma expressão politicamente nada correta que se ouve ainda neste Brasil de racismo disfarçado. A lusitanidade européia de Knopfli sempre falou mais alto.

Quem conhece a vida moçambicana pré-independência sabe muito bem que Knopfli atacara a arte banta do escultor Alberto Chissano e do pintor Malangatana em termos depreciativos, como a dizer que eles nunca poderiam ascender a artistas plenos em razão de sua origem "primitiva", tal como os "bons selvagens" de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que seriam congenitamente limitados. Isto está na Revista Tempo, de Lourenço Marques (hoje Maputo), dos anos 1970-1971. Quem duvidar que consulte na Biblioteca Nacional de Lisboa a coleção da revista. Mas é claro que isto ninguém gosta de lembrar.

Como se sabe, na África os conceitos não são os mesmos vigentes no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa em relação ao ser e estar africano. Até porque na África os "nativos" não foram exterminados como os ameríndios nas Américas. E, como continuam a sê-lo no Brasil em pleno século XXI. Para se ter um exemplo desse holocausto, basta ver que os traços indígenas hoje são pouco perceptíveis no brasileiro médio, exceto talvez no homem do Centro-Oeste e do Amazonas, ao contrário do que se pode constatar no Chile, no Paraguai, na Bolívia, no Equador e até na antigamente tão conservadora Argentina. Basta ver o que fazem, nos dias de hoje, certos fazendeiros e seus capangas com os caiowás, em Mato Grosso do Sul, sem que as autoridades tomem qualquer providência mais efetiva.

Na África, os autóctones continuam a ser maioria esmagadora e isso tem um peso enorme na consciência dos africanos, mesmo em meio a crises econômicas. Até mesmo porque eles estavam num estágio de desenvolvimento superior ao dos indígenas americanos, o que obrigou a chamada colonização portuguesa a restringir-se a vilas e destacamentos litorâneos. Até mesmo para "atravessar" o comércio da escravatura, os portugueses dependiam de nações africanas que traziam subjugados seus inimigos para comercializá-los nas praias. Com isso, a ocupação européia, de um modo geral, nunca conseguiu apagar no homem africano o grande sentimento de pertença ao legado banto.

Como tudo isso são águas e ressentimentos passados, o que importa hoje é preservar a Língua de Camões também na África. E essa preservação passa por um apoio mais decisivo em favor da divulgação e estudo da literatura de expressão portuguesa que é hoje praticada por africanos de todos os matizes de pele, indistintamente.
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PORTANTO... PEPETELA, de Rita Chaves e Tania Macêdo (organizadoras). São Paulo: Ateliê Editorial/Fapesp, 2009, 389 págs., R$ 47,00.
ANTOLOGIA POÉTICA, de José Craveirinha. Organizadora: Ana Mafalda Leite. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 198 págs., R$ 38,00.
ANTOLOGIA POÉTICA, de Rui Knopfli. Organizador: Eugénio Lisboa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 206 págs., R$ 38,00.
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(*)Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br



publicado por Carlos Loures às 20:00
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010
Réplica à carta aberta de Carlos Loures sempre sobre a Carta de Caminha
Sílvio Castro 
                                                                                
Prezado amigo Carlos Loures, agora sim começo a reconhecer a tua habitual fala, feita de ponderações; apoiada em convincente e jamais deslocada erudição; expressiva demonstração de moderna mentalidade literária. Mas, infelizmente, (me parece...) nem tudo ainda é ouro!...

Quando falo de lugar comum na tua primeira intervenção não transcuro a certeza que todo o conceito de lugar comum pode se transformar em metáfora redentora e de clara força criativa. Como é próprio de um escritor moderno, como sabes ser, tanto em prosa, quanto em poesia. No mesmo sentido considero determinados adjetivos. Sabemos que em geral o adjetivo tem a consistência passageira próprio do leve tempo de uma rosa, a não ser que esta mesma rosa não seja um “nome” e de consequência o adjetivo não possua a consistente força nominal. Assim está para os meus citados “aberrantes”, “anacronísticos”.
A historiografia literária não é uma ciência exata, certo, mas funciona cientificamente na melhor direção da posse de consciência cultural por parte de um povo.
O Brasil existe enquanto complexa realidade desde 1512, quando o cartógrafo veneziano Marini realiza o seu mapa-mundo e dá às novas terras que Caminha já revelara o nome “Brasil” (o mapa original de Marini encontra-se atualmente no Museu do Itamaraty, Rio de Janeiro).
Quando o luso-brasileiro Duarte Coelho, titular da grande Capitania de Pernambuco, escreve ao Rei de Portugal despertando-o para a realidade brasileira, já então ele sabia que o Brasil existia. E que todo o resto era uma fugaz, ainda que dolorosa, situação política, não somente para os brasileiros, como ele, mas igualmente para os portugueses, como ele.
A Carta de Caminha, o primeiro Evento da literatura brasileira, já exprime tudo isso. Esta é a razão pela qual o estudioso paulista Leonardo Arroyo, na sua edição do texto do grande Escrivão, afirmava:

“Mais do que um documento histórico essa Carta de Pero Vaz de Caminha é uma profecia e um instrumento de fé. Por isso deve andar nas mãos do povo“.

A minha posição metodológica quanto à história da literatura brasileira, caríssimo Carlos, não é patriotismo, mas a certeza da força de todos esses valores históricos. Por isso, não duvido que Tomás Antônio Gonzaga seja um poeta brasileiro; bem como não meteria jamais em dúvidas que Gonçalves Crespo pertence à literatura portuguesa.

Eu, para concluir, meu caro amigo, sou tão patriota que de pátrias tenho três, como traduzo num dos meus poemas de Gira Mu(o)ndo (Ed. Galo Branco, RJ, 2007):

Unidade terciária


                                   1.
                                   Não me chamo Raimundo
                                   Raimondo
                                   nem Edmundo;
                                   como certa unidade
                                   fora de qualquer idade
                                   por 1 terço
                                   sou brasileiro,
                                   português por um outro,
                                   italiano na comple
                                   mentaridade.
                                   Os meus 3 terços me levam
                                   a fora
                                   em busca
                                   do sentimento do mundo.

                                   2.
                                   O brasileiro encontra o seu mundo
                                   inteiro e terciário
                                   num constante frêmito vital;
                                   tudo lhe parece inédito
                                   ainda que saiba
                                   que muita descoberta
                                   é um édito
                                   repetidamente lido.

                                   3.
                                   Mar e terra a vista
                                   a bordo da nave insone
                                   conduz no sentimento
                                   do mundo
                                   o ondoso terço
                                   português;
                                   ele sabe que o infinito
                                   está atrás do olhar
                                   que descobre  com naufrágios
                                   a certeza de finisterra.

                                   4.
                                   O terço de italiano é ele
                                   e os dois distinto outros:
                                   viaja no mundo
                                   ainda quando não
                                   sai de Veneza Gênoa Florença
                                   Milão –
                                   nelas encontra horizontes
                                   pintados de azuis amarelos vermelhos
                                   tintoretos
                                    visíveis até mesmo onde
                                   ainda não chegou.


publicado por Carlos Loures às 17:00
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010
Evento da Literatura Brasileira - A propósito da polémica entre Sílvio Castro e Carlos Loures
Manuel Simões

Por circunstâncias várias, um escritor pode pertencer a duas literaturas, sendo, por vezes, até difícil determinar a qual está mais directamente ligado. O método para essa determinação costuma ter em conta três factores: a nacionalidade, a língua que veiculou a escrita e o tema privilegiado no acto de criação literária. É por isso que Gil Vicente e Francisco Manuel de Melo, por exemplo, constam dos manuaiis de literatura espanhola, porque ambos escreveram em castelhano, mas confesso que a primeira vez que constatei esse facto, tido como incontroverso, a minha perplexidade foi espontânea, como se a literatura espanhola se quisesse “apoderar” de dois autores portugueses. Não já pela língua, como é óbvio, mas pelos temas e aspectos culturais específicos, o Padre António Vieira (Lisboa, 1608-Bahia, 1697) é simultaneamente um escritor português e brasileiro: percebe-se nos escritos do jesuíta uma afinidade com as coisas e os seres brasileiros ao ponto de ele próprio se considerar “mazombo”, isto é, filho do Brasil mas de pais europeus (neste caso, portugueses).
Ora é por estas razões que não me repugna aceitar, seguindo até a historiografia literária, a “Carta” de Pero Vaz de Caminha não só como o acto de nascimento do Brasil – não obstante lhe tenha chamado “Terra de Vera Cruz “ – mas como o primeiro documento e monumento da literatura brasileira, porque nela confluem todos os temas que os escritores brasileiros usarão como traços distintivos: o mito do bom selvagem, a literatura indianista que se lhe seguiu, a feminilidade inocente e sedutora, mais tarde largamente recuperada e ressemantizada por muitos poetas e prosadores.
Isto não invalida a aceitação de que o primeiro e verdadeiro literato do Brasil colónia  tenha sido o Padre José de Anchieta, nascido em Tenerife (Canárias), chegado ao Brasil em 1553, co-fundador de S. Paulo, gramático da língua tupi, poeta lírico e dramaturgo segundo o modelo de Gil Vicente, através de autos que utilizou com a finalidade de converter os índios ao cristianismo.
Julgo por isso radical a argumentação de Carlos Loures, segundo a qual “antes de haver estado brasileiro não existe literatura brasileira”. E lembro os casos, entre outros, de Ambrósio Fernandes Leitão, funcionário da Coroa no Brasil, com os seus “Diálogos das Grandezas do Brasil”, de Cláudio Manuel da Costa ou de Gregório de Matos, mestiço, filho de pai português e de mãe bahiana. Tomás António Gonzaga (1744-1810), que viveu entre Portugal e o Brasil, pertence, por direito, quanto a mim, às duas literaturas. E algumas vezes se fez a ponte entre as duas culturas, como no caso do mulato Domingos CaldasBarbosa (1740-1800) qu difunde em Lisboa as ternas “modinhas”, talvez ligadas  às origens do fado.
Carlos Loures tem razão quando se refere aos casos de Angola, Moçambique ou Cabo Verde, Devo lembrar, todavia, que por muitos anos, mesmo depois da independência, as literaturas destes países foram designadas genericamente por “Literaturas africanas de expressão portuguesa”, “Literaturas africanas de língua oficial portuguesa” ou até “Literaturas africanas lusófonas”, não ousando a crítica conceder-lhes a “carta de alforria”. Manuel Ferreira, a quem devemos os fundamentos destas literaturas, ainda em 1986 lhes atribuía o título genérico, dividindo internamente o seu trabalho pelos vários países mas sem conceder autonomia às novas literaturas.


publicado por Carlos Loures às 17:00
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Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010
Carta aberta ao Professor Sílvio Castro
Carlos Loures


Sílvio Castro, meu prezadíssimo amigo, retribuo com os devidos juros os elogios que me fazes e que antecedem a tua patriótica indignação – considero-te um grande escritor, um probo intelectual e sei que és um excelso professor. Nada do que digo a seguir deve ser interpretado de outra forma que não seja a de prosseguir um diálogo entre amigos que divergem num pormenor, mas que sabem que estão de acordo em muitas coisas importantes. Conhecemo-nos há muitos anos e as nossas relações, as profissionais e as de amizade, sempre se pautaram por uma grande frontalidade. Não vamos abrir excepções.

Devias saber que nada me incomoda usar lugares-comuns sempre que acho que podem substituir formas mais elaboradas, mas menos claras. O lugar-comum é como a praça pública – aberto a todos. Tampouco me assustam adjectivos tais como «aberrante», «anacronístico» , como aqui dizemos, para mim vêm de carrinho. Usar anacronismos é precisamente um dos meus hábitos, num tempo em que a ditadura do “politicamente correcto” vai transformando em anacronismos valores, que constituíam suportes da vida em sociedade. Guio-me pelos juízos que das coisas faço. Como se costuma dizer, não sou de modas. Do que está na moda escolho o que me interessa e deito fora o que não me agrada. É pecha antiga que com a idade se vai agravando.

A moderna historiografia literária, tal como a antiga, como melhor do que eu sabes, não é uma ciência exacta, e o que agora é fixado como correcto está sujeito a no futuro ser considerado anacronismo, lugar-comum, quando não mesmo dislate. As Letras, as Humanidades são disciplinas que abordam o íntimo do ser humano e, se forem autênticas, não registam evoluções – Homero é tão pertinente quanto Saramago. A literatura ensina-nos que a natureza humana é igual á de há milhares de anos. Mudam as mentalidades? Mudam. Chamar-lhe evolução já não concordo, pois dá ideia de que seguem um padrão científico e que se vão aperfeiçoando. A natureza humana é imutável, pelo menos até que a engenharia genética a manipule e modifique. Correntes literárias, história da literatura, tudo o que a relaciona o homem como ser social – está sujeito à mudança e às tais modas a que sou indiferente. Estar ou não estar up-to-date seja no que for não me preocupa.

Entrando na questão que estamos a debater, não estou a depreciar os valores do patriotismo brasileiro, tão respeitáveis quanto os de qualquer outra nação. Não há nesta apreciação eurocentrismos ou europeísmos culturais. Aliás, com sete séculos de diferença, a independência de Portugal e a do Brasil têm similitudes – Afonso Henriques pertencia à nobreza leonesa e quis criar um reino independente. Pedro I, era o indigitado rei de Portugal, mas sonhou um Império vasto como um planeta. Patriotas, Afonso e Pedro? Acho que não – ambiciosos, diria antes. Eles e os que os acompanharam. E não considero a ambição um crime.. As épocas são diferentes e a ambição manifestou-se de forma diferente. A brutalidade dos barões medievais foi substituída pelo empolamento que o Romantismo induziu em toda a sociedade. E aí, meu caro Sílvio, és tu quem está a ser anacrónico e a deixar que o patriotismo interfira no raciocínio – os nobres que romperam com o reino de Leão ou Pedro, rompendo com Portugal, foram patriotas? Quanto a mim, não. Foram oportunistas. Ou, mitigando, podemos dizer que tiveram o sentido da oportunidade.

Os leoneses que criaram Portugal e os portugueses que criaram o Brasil não podiam ser patriotas de pátrias inexistentes. Nem eram oprimidos – queria bem saber Afonso dos que no seu condado viviam como animais ou estava preocupado Pedro com índios a ser exterminados ou com os negros que eram como mercadoria importados de África? Nem Afonso mudou a estrutura feudal do seu condado, nem Pedro deu liberdade aos escravos. Curioso que país «libertado do jugo colonial» quis manter os territórios que herdara do colonizador – deveria ter dado a liberdade ao Uruguai. Mas não. Prosseguiu a luta que os «portugueses opressores» tinham iniciado. Onde fica a coerência?

Quando digo que antes de haver estado brasileiro não existe literatura brasileira, quero dizer que antes da independência não existe Brasil. E aplico o mesmo critério a Portugal – não naturalizo as “Cantigas de Santa Maria”, embora faça parte da proto-história da nossa literatura (tal como da vossa). A língua portuguesa foi saindo do seu berço novilatino e iniciou uma deriva que passando por Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, António Vieira, chegaria ao belo idioma que hoje temos em nove nações (contando com a Galiza, a nação sem estado, a irmã com que há um milénio começámos a viagem). E tudo isto, de Afonso X a Rubem Fonseca, é nosso, é comum. Essa é a realidade.

Os patriotismos exacerbados são anacrónicos, são lugares-comuns e cheios de poeira que nos chegam, não da Idade Média ou da época dos Descobrimentos, mas sim desse mal - cheiroso século XIX, em que se forjaram impérios, romantismos anti-higiénicos que vieram a desembocar, já no desgraçado século XX em fascismos, nazismos, em estados - novos podres de velhos, em holocaustos… Deu-nos óperas bonitas, grandes romances, filósofos e poetas; o marxismo inventou-se e o capitalismo forjou-se ao ritmo do resfolegar da máquina a vapor. A ambição imperial tomou conta das cabeças. Napoleão não acabou em Waterloo, prolongou-se na sofreguidão de prussianos, russos, sérvios, austríacos, castelhanos que, sem espaço para criar o «seu» império, subjugaram vizinhos. O europeísmo cultural dominou as cabeças dos próceres da “libertações” americanas. A Europa de que diziam querer libertar-se, dominou-os, esteve em todos os seus actos. Na sua maioria, os «libertadores» eram europeus ou crioulos europeizados.
Queres anacronismos, meu caro Sílvio Castro? Tenta ler com olhos estrangeiros estes versos:

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas/ De um povo heróico o brado retumbante,/E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,/Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade/Conseguimos conquistar com braço forte,/Em teu seio, ó Liberdade,/Desafia o nosso peito a própria morte

É bonito, acredito que os corações brasileiros bombeiem lágrimas para os olhos patrióticos ao evocar o “Eu fico!”, tal como nós aqui lacrimejamos quando gritamos “Contra os canhões, marchar, marchar!” – mas é tudo romantismo e literatice novecentista – Nem no Brasil com a independência raiou o sol da liberdade, nem os portugueses marcharam contra os canhões britânicos que dos navios da sua armada se preparavam para bombardear Lisboa e Porto, se o seu humilhante ultimato não fosse aceite. No Brasil a escravatura continuou até à lei Áurea de 1888; aqui fizemos uma subscrição que deu para comprar uma pequena canhoneira e lá aceitámos o ultimato. Cada um foi à sua vida. As coisas são como são.

Segundo se diz nesse dia do “Eu fico”, o imperador estava com uma diarreia dos demónios, pouco adequada aos cânones românticos. Mas tal pormenor não ficaria bem nos versos empolados do Joaquim Osório Duque Estrada. Do nosso Afonso I não há notícia de distúrbios intestinais. Mas outros haveria.
A independência portuguesa foi uma questão familiar. Não existia por parte dos súbditos um impulso patriótico. Duvido que depois da independência alguma coisa de importante para eles tenha mudado. No Brasil, sete séculos após, as coisas não foram muito diferentes – escravos e índios terão visto as suas condições de vida melhorar?

Em Angola, em Moçambique, foi diferente. As independências foram conquistadas através de guerras contra a potência colonizadora, prolongando-se depois em terríveis guerras civis – antes das independências havia já uma literatura, escritores que, fazendo parte do património comum da lusofonia, não se inserem na literatura portuguesa. Em Cabo Verde, com circunstâncias históricas diferentes, há uma literatura que antecede a independência, sem que seja necessário anexar escritores portugueses que ali escreveram – Manuel Ferreira, com Hora di Bai e Morabeza, romances sobre Cabo Verde, foi um escritor português. Cabo Verde tem uma excelente literatura feita por cabo-verdianos – não necessita de empréstimos.

O que a historiografia literária afirma, interessa-me como informação, mas não como dogma. Guio-me pelos meus anacronismos e lugares-comuns e para mim Tomás António Gonzaga é um português, um portuense, subversivo na opinião do Santo Ofício, mas português – tão português como Bocage, seu companheiro árcade. Quanto ao Frei Caneca. está bem, meu caro Sílvio, fica lá com o Joaquim da Silva Rabelo, depois Frei Joaquim do Amor Divino. Acho que o Joaquim da Silva Rabelo era brasileiro, um dos primeiros. Esteve implicado na Revolução Pernambucana (1817) e na Confederação do Equador (1824) de cariz republicano contra o imperador. Aqui está um bom brasileiro, não um dos parasitas que acompanhavam Pedro I, sonhando o Brasil como um local de libertação e não como um pesadelo para escravos e indígenas.

A Carta de Pero Vaz de Caminha primeiro documento literário do Brasil? Seguindo esse critério, poderíamos dizer que a “Geografia” de Estrabão, um grego contemporâneo de Cristo ao serviço de Roma, ao descrever a Lusitânia e os lusitanos criou o primeiro monumento da literatura portuguesa .- pela sua dimensão geográfica e em particular pela antropológica pode ser considerada, pelo menos na versão latina, como um primeiro evento da nossa literatura, mais de um milénio antes de a Nação existir.

E ainda não foi desta vez que posso publicar o texto jubilatório sobre a magnífica literatura brasileira.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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Terça-feira, 30 de Novembro de 2010
Porque não estou de acordo com Carlos Loures no seu texto: “Evento da Literatura Brasileira ‘ qual o momento chave?”
Sílvio Castro

Estou em total desacordo com o meu caríssimo amigo Carlos Loures, do qual conheço desde há muito o empenho cultural e a consciência civil de um verdadeiro progressista, a grande erudição, a sensibilidade na criação literária. Mas, mesmo assim, não posso deixar passar despercebida a tomada de posição que ele erege com a sua conhecida sensibilidade e tato, quando elabora os raciocínios básicos da contestação ao meu texto sobre A Carta de Pero Vaz de Caminha como Evento primeiro e substancial na história da literatura brasileira.

Estamos no dia 1º. de maio de 1500 e a “Carta” está por embarcar no dia seguinte para Lisboa, levada por Gaspar de Lemos para o Rei Venturoso, D. Manuel. Mas o Brasil ainda não existe concretamente, e muito menos a sua literatura. Certo. Então, porque considerar e eleger o texto do magnífico Escrivão português como primeiro produto da literatura brasileira? Simplesmente porque a moderna historiografia literária, ao contrário da tradição positivista, não considera a história política como sua referência essencial para a análise da história literária. Mas, ao contrário, reinvendica cientificamente a sua condição de ciência autônoma, e portanto livre de eleger para suas deduções metodológicas as mais inovadoras teses e com ela criar uma nova dialética cultural. Assim agindo, a moderna historiografia literária supera os defeitos das sedimentações medíocres de um saber histórico passado, e se opõe à repetição de lugares-comuns. Dizer que as literaturas nacionais dos países nascidos do fenômeno da colonização, em particular, aqueles das Américas, podem ser consideradas autônomas somente depois de suas respectivas independência política é um pensamento vazio e anacronístico. Quando alguém, mesmo com todas as qualidades que todos reconhecemos em Carlos Loures, afirma um tal aberrante lugar-comum, não nos resta senão pensar que uma escolaridade fortemente tradicionalista fixa para sempre os maiores lugares-comuns. No caso da questão inexistente, por todos os seus defeitos, da origem da literatura brasileira fixada depois do 7 de setembro de 1822, tudo isso se deve à grande difusão de diversos manuais de história da literatura brasileira, tanto em Portugal, quanto mesmo no Brasil. Mas, depois de tudo, o que realmente vale para os fins do melhor conhecimento da história da literatura é o seu direito de, não ignorando absolutamente a dimensão diacrônica do fenômeno histórico, iluminá-lo maiormente com uma eficaz e coerente tese baseada na sincronia. Daí, entre outras, a tese de que a Carta de Pero de Caminha é o Evento inicial da literatura brasileira porque nela se representa pela primeira vez aquela dimensão que depois será uma constante da criação literária brasileira, a força do território. Território enquanto dimensão geográfica, mas igualmente enquanto dimensão antropológica. Bem como porque o mágico texto desde logo traduz-se lexicalmente apoiado nas conotações típicas da realidade nova, suas cores, vibracidade, dinamicidade, humanidade. O escrivão, vindo da aberta cidade do Porto, saindo da foz do Douro para encontrar o mar-oceano, não é mais aquele “eu” inicial, mas um “outro” nascente dele mesmo.

Quando os liberais de 1820, vitoriosos e ativos no Poder, espantam o mundo ao reiterar a valência de uma radical política colonialista de Portugal e, com isso, desprezando, quanto ao Brasil, a grande conquista da diplomacia joanina que chegara ao Reino Unido, esses liberais já então atuam o defeito que vem de longe e ainda hoje muitas vezes vige, a do predomínio do pensamento ligado aos valores de um cego “europeísmo cultural”. Ao contrário de quanto escreve Carlos Loures, a Independência do Brasil então desencadeia não da parte dos nobres parasitas, mas de patriotas brasileiros da dimensão de José Bonifácio e de Frei Caneca. Mas muito antes disso, o sentimento brasileiro já encontrara inovadoras traduções em poetas como Gregório de Matos, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga.

Carlos Loures naturalmente não tem nada a ver com aqueles liberais de 1820. As possíveis raízes de seu pensamento político eu as vejo num verdadeiro revolucionário como Herculano, prosseguindo por Oliveira Martins. Carlos Loures – e disso eu sempre soube e admirei – é um verdadeiro intelectual, partecipante e sempre responsável quanto ao seu tempo. Assim ele é, reafirmo. Mas, no seu testemunho sobre a origem da literatura brasileira infelizmente afloram muitas das qualidades predominantemente negativas do “europeísmo cultural”. Eu quase não acredito que seja ele mesmo aquele que escreveu: “Na minha opinião, tudo o que se escreveu no Brasil até a independência do território, pertence ao acervo da Literatura Portuguesa”. Não, tenho a certeza, não é ele.Mas, sim, Cândido de Figueireido!


publicado por Carlos Loures às 19:30
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Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010
Evento da Literatura Brasileira – qual o momento-chave?
Carlos Loures

O Professor Sílvio Castro, nosso colaborador, autor deste repto, meu querido amigo e grande especialista na LIteratura Brasileira (e na Portuguesa), afirma que o primeiro evento da literatura do seu país é a Carta de Pero Vaz de Caminha para D. Manuel I. Não concordo, mas sinto-me um pouco como quem estivesse junto de Einstein a contestar a sua Teoria da Relatividade. A idade entre as muitas coisas más que acarreta, trouxe consigo este descaramento de poder discutir Medicina com os médicos, Jardinagem com os jardineiros e, como agora acontece, História da Literatura Brasileira com um Professor Catedrático da Universidade de Pádua.

Que Santo António de Lisboa (e de Pádua) nos valha!

Há anos atrás, com os Professores Sílvio Castro e Manuel Simões, fui a Alcobaça tratar de um assunto editorial na Biblioteca do Mosteiro. Projectava-se na casa uma grande História das Literaturas de Língua Portuguesa e aproveitámos o passeio para trocar impressões sobre o ambicioso projecto. Chegámos ao destino e fomos almoçar, pois faltava muito tempo para a hora que combinara no Mosteiro. Tínhamos pelo caminho vindo a debater questões de carácter geral e quando nos sentámos à mesa começámos a falar da Literatura Brasileira. E surgiu esta questão – quando se pode começar a falar de LIteratura Brasileira?, Sílvio Castro apresentou esta tese que expõe no texto – A carta de Pero Vaz de Caminha - eu discordei e Manuel Simões, lembrou que havia diversas teses sobre o assunto. Mas chegou a comida e a questão foi esquecida ou, pelo menos, ultrapassada por um assunto mais importante.

Acrescente-se que Sílvio Castro dirigiu o volume consagrado à História da Literatura Brasileira, organizada de acordo com aquilo que ele pensava e pensa. A minha divergência era pessoal – o Carlos Loures não estava de acordo; o director editorial não se meteu num assunto que só dizia respeito ao responsável pelo volume. Aliás, a tese de Sílvio Castro é a mais aceite, não só no Brasil, como internacionalmente. Por exemplo, a Professora italiana Luciana Stegagno Picchio (1920-2008), grande especialista nas Literaturas de Língua Portuguesa corroborava-a totalmente.

Por que não estou de acordo? Vou dizê-lo sucintamente, guardando pormenores para mais tarde - parece-me que considerar a carta de Pero Vaz de Caminha como primeiro monumento literário brasileiro, constitui uma relação demasiado apegada ao território, à circunstância histórica, já que o objectivo da carta, a que hoje chamaríamos relatório, foi apenas o de informar o monarca das características específicas da terra achada por Pedro Álvares Cabral. Na minha opinião, tudo o que se escreveu no Brasil até à independência do território, pertence ao acervo da Literatura Portuguesa – Não havia brasileiros – ou melhor, os brasileiros genuínos eram os índios a quem os portugueses iam paulatinamente despojando do território, matando, fosse de “morte matada”, fosse pelas epidemias que espalharam, destruindo, exterminando. E foi assim até à independência – que não foi conquistada, mas fruto do oportunismo de cortesãos que durante o tempo em que João VI esteve no Rio, se habituaram a benesses e mordomias que o regresso da Corte a Lisboa lhes ia retirar, reduzindo alguns à sua dimensão anterior à fuga para o Brasil - simples funcionários, cortesãos sem importância, em alguns casos.

Uma história que não me canso de contar – Há anos atrás, num debate realizado no Centro Nacional de Cultura, um interveniente brasileiro defendia a sua tese em termos de nós, brasileiros, oprimidos, vós, portugueses, opressores. Aí pela terceira vez que ele usou esta oratória maniqueísta, o Professor Eduardo Lourenço (que dirigia o colóquio) pediu-lhe amavelmente que declinasse o nome. O que o jovem fez. Tinha um apelido português. Então, sorrindo, Eduardo Lourenço, disse-lhe mais ou menos isto – «os opressores foram os seus antepassados; não os meus que nunca sairam de Portugal. Foram os que colonizaram o Brasil, e não os que cá ficaram, quem matou, oprimiu, aculturou, violou… E esses foram também os primeiros brasileiros.»

Todos sabemos que as pátrias se forjam com mitos. A batalha de São Mamede que 1128 marca para muitos o nascimento de Portugal, não terá passado de um mero torneio ou de uma escaramuça, segundo outros. A Conquista de Lisboa aos Mouros, em que se descrevem actos de heroísmo como o de Martim Moniz, terá sido negociada e nada de heróico terá tido. O Brasil não escapa a esta regra, tanto mais que a independência se verifica em pleno movimento do Romantismo. O Brasil criou os seus mitos, como todas as nações.

Os brasileiros têm todo o direito de, por exemplo, considerar toda a literatura de língua portuguesa ou galego-portuguesa, Afonso X, os trovadores, Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões… todo o património literário do dealbar da lusofonia, como proto-história da sua Literatura nacional. Essa proto-história pode ser invocada pelo Brasil, por Timor-Leste, Angola ou Moçambique. Considerar Literatura Brasileira o que foi produzido antes de o Brasil existir como nação e muito antes de ser um Estado, para mim não faz sentido.

Não faz sentido, nem o Brasil necessita de nacionalizar literaturas estrangeiras. A partir do século XIX criou uma literatura própria. Em 1922, com o grito Modernista, iluminou toda o espaço literário coberto pelo idioma. E chegou hoje a um patamar de excelência. Nisto, o meu caríssimo Sílvio Castro e eu estamos de acordo. A divergência não é quanto ao ponto de chegada, mas sim quanto ao big bang. E, antes que alguém se antecipe, digo já: é um pormenor bizantino, este que levanto – tenha sido em 1500, com Pero Vaz de Caminha e com a sua carta a D. Manuel, ou em 1836, com a Niterói - Revista Brasiliense”, de Gonçalves de Magalhães, a literatura brasileira, é o que é – bela, pujante e única.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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