Sexta-feira, 8 de Julho de 2011
8- UMA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA E PRESIDENCIAL: CHILE – por Raúl Iturra

 

 

Fez um pacto com os Estados Unidos, para limpar ao Chile do comunismo. Decretou a famosa Lei Maldita, baniu aos seus eleitores PC, os enviara ao exílio ao arquipélago de Juan Fernández, mas vários barcos foram afundados no meio do mar, matando cidadãos chilenos as decenas. Outros, foram despojados do seu cargo, como o Senador Pablo Neruda, quem teve que fugir do país para salvar a vida e foi recebido na Itália pela consulesa e Prémio Nobel de Literatura Gabriela Mistral, que lhe outorgara as credenciais de que carecia na fuga precipitada. 

 

 

 

 

 

Os seus apoiantes retiraram a sua simpatia e acabou o seu governo, apenas dedicado a matar e governar com os seus rivais, o Partido Conservador. O seu governo passou sem gloria, mas com muita pena. O mulherengo Presidente tinha uma mulher linda, que nunca quis desempenhar o papel de Primeira Dama, e vivia sempre entre os negócio de La Serena, D, Rosa Markman de Gonzáles Videla, sempre calma, tranquila e longe do seu marido. Não merecia o trato que recebia dentro da família: A mulher que o traidor traiu imensas vezes.

 

 

 

Videla na Revista Condorito, 1950

 

 

 

Os Estados Unidos, após dois anos de mandato, fizeram um convénio com González, para limpar o jardim de trás. Foi assim como todo partido de esquerda ficou banida e o Partido Radical, desprestigiado. Acabou por ser um Conservador, La Serena era toda dele e não soube governar. Apenas sabia trair:. Foi o primeiro em se apresentar a ditadura chilena, quando esta quis organizar um Conselho de Estado com os antigos Presidentes. Foi o primeiro em chegar, entro mudo e saiu calado, por causa de ser o único dos quatro vivos, a aparecer. O ditador não gostou e nunca mais foi convidado. 

 

Foi o motivo que o poço traído fica-se descontente e o pró nazi Carlos Ibáñez del Campo, reformado do Exército como General en Chefe e a esconder as suas ideias nazis, organizou o seu próprio partido, o PAL, ou Partido Agrário Laborista, apresentou a sua candidatura e fez campanha, acompanhado sempre pela Senadora Maria dela Cruz, quem fazia os discursos, porque o General não sabia falar. Convidou ao Engenheiro para ser membro do seu comité de campanha e, a seguir, para ser membro do seu Gabinete. Mas o Engenheiro, quem me levava sempre as manifestações, sabia quem era quem e agradecei mas não aceitou. Símbolo do PAL era uma vassoura, para limpar as formas de governar o país.

 

Maria de la Cruz Toledo, nascida em 1912, María de la Cruz Toledo (Chimbarongo, 18 de septiembre de 1912 - Santiago, 1 de septiembre de 1995) fue una política chilena.

 

Fue la fundadora del segundo partido feminino do Chile: el Partido Femenino de Chile (1946-1954). Fue una política ibañista y simpatizante justicialista, oradora de fuste, participó en la campaña presidencial de 1952 de Carlos Ibáñez del Campo.

 

Tuvo un programa, María de la Cruz habla, en la radio Nuevo Mundo hasta 1978. En 1953 se presentó como candidata del Ibañismo para ocupar el cupo que había quedado vacante, dejada por Ibáñez al ser elegido presidente, en la senaduría por Santiago. Fue electa con 107.585 votos sobre un total de 210.802, convirtiéndose en la primera senadora chilena. El mismo año fue inhabilitada discutiblemente por el Senado en votación de21 a favor y 16 en contra.

 

Carlos Ibáñez del Campo (Linares, 3 de Novembro de 1877Santiago do Chile, em 28 de Abril de 1960) foi um político chileno, presidente de seu país por dois mandatos. O primeiro, ente 1927-1931; o segundo, este de que falamos, entre 1952 e 1958. O seu programa era acabar com as formas oligárquicas de governar e apoiar-se no povo para obter essa promessa de pão e abrigo. Quando desfilávamos para o Presidente, todos levávamos um pão, denominado marraqueta, para mostrar que tínhamos fome. Governou nos tempos em que as arcas do Estado estavam vazias e muitos oligarcas o apoiaram, por ser conveniente.



publicado por João Machado às 14:00
link do post | comentar

Quarta-feira, 6 de Julho de 2011
6 - UMA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA E PRESIDENCIAL: CHILE – por Raúl Iturra

 

Como todo Presidente de um país em construção permanente, sendo Don Arturo um deles, teve as suas gafes. A base das suas candidaturas era a segurança social. Foi assim como ganhou o seu primeiro posto no Congresso: foi candidato a Deputado aos seus 28 anos – os livros se enganam e dizem outra idade, mas o Engenheiro e eu, amigos de família, sabíamos pela parte mais difícil do Chile, a terra do nitrato, com minas fechadas por causa da Primeira Grande Guerra, quando os alemães kaiserianos, pelas atrocidades cometidas, todas as portas foram fechadas, como as do caliche – chilenada para o nitrato de sódio, o partido Comunista com Juan Emílio Recabarren foi criado e acontecera a Matança das Minas de Nitrato de Santa Maria de Iquique, onde os grevistas, como canta Neruda esta história, foram assassinados, mais de mil homens com as suas mulheres e filhos. Todo por ordem do Presidente da Republica, compincha dos alemães, o aristocrata Pedro Montt, os dos, essa glória do Chile. Foi assim que nasceu o Partido Socialista, que passou a comunista com Recabarren, partido do cantor do assassínio de Santa Maria, Norte do Chile, Pablo Neruda, o nosso amigo mas não correligionário. Alesandri não teve medo e, apesar de já ser da aristocracia, concorreu e ganhou com mais do 60 % dos votos, ou assim dizia ele.

 

Mas…, sempre há uma dúvida entre os homens públicos. Alessandri, esse denominado Leão de Tarapacá por ter conquistado o sítio do eterno Deputado do Norte, Arturo del Río, Socialista, Trás una disputada e violenta eleição Alessandri triunfou, a partir do qual ganhou o ápodo de León de Tarapacá, devido ao seu carisma, a sua popularidade entre o povo e a grade ênfase dos seus discursos seus discursos, no meio de greves e matanças de operários, tinha por base a segurança social, pela qual sempre lutou. Não era estranho: era um homem político. Iniciou a sua vida política en 1897, integrando-se ao Partido Liberal, assumindo como deputado por Curicó, onde seria reeleito por quase vinte anos mais. Mas a sua luta pelo seguro obreiro, o levara, na sua fúria, a matar estudantes rebeldes que tinham procurado refúgio nas escadas do prédio do seguro obreiro. Grande contradição!

 

 

 



publicado por João Machado às 14:00
link do post | comentar

Domingo, 3 de Julho de 2011
3 - UMA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA E PRESIDENCIAL: CHILE - por Raúl Iturra

(Continuação)

 

O'Higgins foi nomeado Director Supremo e, em 12 de Fevereiro de 1818, primeiro aniversário da Batalha de Chacabuco, declara formalmente a independência do Chile, que se confirmaria com a vitória do exército chileno na Batalha de Maipú, em 5 de abril do mesmo ano. Assinou a Acta da Independência do Chile a 2 de Fevereiro de 1818. Sob seu governo realizaram-se diversas obras de infra-estrutura, organizou-se a Esquadra Libertadora que se dirige até o Peru, realizou-se a captura da cidade de Valdivia,que ainda se encontrava nas mãos dos  espanhóis, por parte do almirante Thomas Cochrane e se promulgam duas cartas fundamentais, a Constituição
de 1818 e a Constituição de 1822; O'Higgins, porém, ganha a antipatia do povo devido ao seu autoritarismo, suas tentativas de se manter no poder indefinidamente e a ordem de morte, por influência da Lógia Lautarina, a Carrera e a Manuel Rodrigues. Para evitar uma guerra civil, O'Higgins renuncia em 28 de Janeiro de 1823, e em Julho do mesmo ano se exila no Peru.

 

Foi assim que começou uma República, autónoma, independente, nunca vencida nem invadia por ninguém. Países da fronteira norte, Peru e Bolívia, tentaram duas vezes atacar, mas foram, derrotados e perderam território: O Peru, Arica e Tarapacá; Bolívia, Antofagasta, a sua única saída ao mar, sob a soberania da República Democrata do Chile. O Peru tinha perdido até a capital, Lima, a cidades dos vireis, mas foi todo devolvido, excepto Tacna, devolvida após plebiscito organizado pelo Presidente Arturo Alessandri Palma, nos anos 20 do Século Passado. O Tratado de Ancón, que finalizara a guerra entre Chile e Peru, estabelecia que Tacna y Arica estariam em posse do

Chile pelo prazo de dez años, até um plebiscito determinara o seu  destino. Após várias arbitragens, o Presidente Alessandri, em 1920 acabou com o problema. O plebiscito que convocara, optou por devolver Tacna ao Peru, enquanto as outras províncias ficavam sob a soberania chilena até o dia de hoje. Quem quer roubar, acaba por
ser roubado. As minas de nitrato que esses países cobiçavam, A história mais simpática, foi a da D. Paula Jaraquemada. Paula Jaraquemada Alquizar ( Santiago junio de 1768 - † falleció el 7 de septiembre de 1851). Hija de Domingo de Jaraquemada y Cecilia de Alquizar, fue uno de los personajes femeninos más importantes en la lucha por la independencia de Chile.

 

En cuanto tuvo noticia de la batalla de Cancha Rayada, ocurrida el 19 de marzo de 1818, organizó a los peones de su hacienda de Paine (Maipo) y los envió bajo el mando de su propio hijo para que se pusieran al servicio del general José de San Martín, al que también proporcionó caballos, alimentos y pertrechos. Transformó su hacienda en un hospital para los soldados heridos en el combate, y el general San Martín instaló allí el cuartel general de los patriotas en retirada.

 

Doña Paula era conocida por su carácter decidido y altivo. En una ocasión, tiempo después de que las tropas independentistas abandonaran su hacienda, un pelotón realista incursionó en su propiedad en busca de alimentos, solicitándole las llaves de la bodega. Como se negase, el oficial al mando amenazó con dispararle, y doña Paula se acercó a los fusiles, desafiando a los soldados a que lo hicieran. Sorprendido, el oficial no dio la orden, pero amenazó con quemar la casa. Doña Paula arrojó un brasero a los pies de los soldados, diciéndoles: "¡Allí tenéis fuego!". Los realistas abandonaron la hacienda estupefactos.

 

O movimento de Independência do Chile entre os anos de 1817 e 1818, liderado por Bernardo O'Higgins, libertou o país da dominação secular espanhola, porém colocou o novo país na órbita do imperialismo inglês, uma vez que, a partir da década de 20 as oligarquias conservadoras assumiram o controlo político do país, apoiada pela Igreja Católica, preservando portanto os privilégios da elite criolla. Nesse sentido, a vida económica do país continuou a basear-se no latifúndio agrário e pecuária na região sul e na exploração mineral na região norte.

 

 

 (Continua)

 



publicado por Carlos Loures às 14:00
link do post | comentar

Sábado, 2 de Julho de 2011
2 - UMA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA E PRESIDENCIAL: CHILE - por Raúl Iturra

(Continuação) 

 

Em 12 de Fevereiro de 1817, San Martín e O'Higgins tomaram Santiago. O'Higgins foi aclamado Ditador Supremo. Exactamente um ano depois, foi proclamada a independência.·

As batalhas contra os espanhóis, no entanto, só terminaram em Abril de 1818, na Batalha de Maipú, quando os dois generais, San Martín e O'Higgins, se encontraram e se confraternizaram no chamado "Abraço de Maipú". El Acta de Independencia de Chile es  el documento mediante el cual Chile declaró solemnemente su independencia de la monarquía española. Fue redactada en enero de 1818 y aprobada por el Director Supremo Bernardo O'Higgins el 2 de febrero del mismo año, en la ciudad de Talca, aunque fue datada en Concepción a 1 de enero de 1818.[1] [2] La ceremonia de jura de la independencia se realizó el 12 de febrero del mismo año, fecha del primer aniversario de la Batalla de Chacabuco.

 

El acta original, que tenía unas frases manuscritas agregadas por O'Higgins, se habría dañado en el Palacio de la Independencia.[3] En 1832, bajo el gobierno del presidente José Joaquín Prieto, se sacó una copia esmerada y se envió al Perú para que fuera firmada por O'Higgins, y luego por sus ministros de Estado de entonces, Miguel Zañartu, Hipólito de Villegas y José Ignacio Zenteno, que aún vivían en Chile.[1]

 

 

Fonte que tenho usado :Barros Arana, Diego (1890). Historia General de Chile. Santiago de Chile: Imprenta Cervantes. Tomo XII.

 

Esta última acta se conservaba en el Palacio de La Moneda hasta el golpe de Estado de 1973 durante el
cual se habría quemado.

 

Conteúdo da Acta:

 

El Director Supremo del Estado La fuerza ha sido la razón suprema que por mas de trescientos años ha mantenido al Nuevo Mundo en la necesidad de venerar como un dogma la usurpación de sus derechos y de buscar en ella misma el origen de sus más grandes deberes. Era preciso que algún día llegase el término de esta violenta sumisión; pero, entretanto, era imposible anticiparla: la resistencia del débil contra el fuerte imprime un carácter sacrílego a sus pretensiones y no hace más que desacreditar la justicia en que se fundan. Estaba reservado al siglo 19 el oír a la América reclamar sus derechos sin ser delincuente y mostrar que el período de su sufrimiento no podía durar más que el de su debilidad(a).

 

Dada en el Palacio Directorial de Concepción a 1 de enero de 1818, firmada de nuestra mano, signada con el de la nación, y refrendada por nuestros ministros y secretarios de Estado, en los departamentos de Gobierno, Hacienda y Guerra Proclamación de la Independencia de Chile Fonte: Biblioteca do Congresso Nacional (2005). «Acta de la Independencia de Chile». Consultado el 2007.

 

(Continua)

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 14:00
editado por João Machado às 13:23
link do post | comentar

Sexta-feira, 1 de Julho de 2011
1 - UMA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA E PRESIDENCIAL: CHILE - por Raúl Iturra

 

Hino Nacional do Chile

 

.
Independência do Chile

É conhecido e mais do que sabido, que o Chile era uma colónia da coroa de Espanha. Como país colonial, o título do Mandatário era o de Governador. Não era eleito pelo povo, era designado pelo Rei ou Rainha, como no caso do Chile, com uma cabeça coroada feminina Isabel II, apenas uma pequena que jogava a ser Rainha. O seu Pai, Fernando VII, da família Borbón, tinha sido retirado do governo e levado em prisão régia a Baiona, pelo Imperador desses tempos, Napoleão Bonaparte.

 

Fernando VII foi rei de Espanha em 17 de Março de 1808 aquando da abdicação forçada do pai, Carlos IV de Borbón. Príncipe das Astúrias, procurou o apoio de Napoleão para preservar os seus direitos ao trono, que calculava estarem ameaçados por Godoy. Mergulhou a Espanha na anarquia e guerra civil pois, se em Março de 1808 a rebelião de Aranjuez fez dele rei, as tropas de Napoleão, comandadas por Murat, ocuparam Madrid e o Imperador mandou que a família real fosse para Bayonne, obteve a abdicação de Carlos IV, obrigou Fernando
a assinar a sua própria abdicação e prendeu-o no confortável castelo de Valençay até Dezembro de 1813.

 

Quando caiu Napoleão, os Bourbons voltaram ao poder em França e em Espanha. Fernando VII, autoritário e teimoso, concedeu, contrariado, uma constituição liberal. Em segredo, convocou uma Santa Aliança dos monarcas europeus para expulsar os liberais da Assembleia das Cortes.

 

Durante a sua ausência do poder, as colónias baixo o poder da coroa de Espanha, tinham-se emancipado e o Monarca as quis recuperar, mas fracassou na sua tentativa e tornou pobre de terras e servos, a governar apenas o seu Estado em 1822.

 

Entre eles, os chilenos, que passou a ser República a 18 de Setembro de 1810,, com congresso bicameral e um Director Supremo, o libertador do Chile, Bernardo O’Higgins que, por paradoxa, era filho do representante do monarca espanhol, Ambrósio O´Higgins, Vice-rei com sede em Lima, como narro mais em baixo. Mas, antes, o Governador do Chile Mateo de Toro e Zambrano, Conde da Conquista, convocou uma reunião ou Cabido dos notáveis da colónia e disse: não há Rei, não tenho poder para governar e entregou o bastão do poder aos criollos e espanhóis da colónia. Foi eleito Presidente de esta inesperada República, para entregar o poder em 1811 ao aristocrata chileno, José Miguel Carrera, que governara o país até o dia em que os espanhóis tornaram as suas antigas terras e reconquistaram o seu poder. Mas, o sabor de República e de Independência ficou no paladar dos espanhóis que ai moravam e nos criollos, que significa descendentes de espanhóis nascido no Chile, o sabor das ideias e palavras República e Independência que era o que Chile queria Por esses azares do destino, apresentou-se para servir à Pátria o filho do vice-rei, foi aceite, nomeado brigadeiro, entrou no exército dos libertadores e a Independência começou. Foram anos de luta. O corpo libertador marchou em massa para a primeira República libertada da Espanha, Argentina, e entre O´Higgins e  o Director da República, José de San Martín, formou-se um impressionante exército para atacar ao da reconquista, comandados por Mariano Osório, baixo o Governo de Marcó del Pont  que fugiu a correr quando reparou que a recuperação das colónias estava perdida.


Francisco Casimiro Marcó del Pont Ángel Díaz y Méndez (Vigo, Espanha, 1777Luján, Argentina, 1819) foi um militar espanhol e governador da Coroa Espanhola no Chile. É uma das figuras fundamentais da independência do Chile, já que foi o último espanhol a presidir o governo colonial do Chile com o título de Governador entre 1815 e 1817, quando foi deposto pelas forças patriotas que entraram em Santiago logo após a Batalha de Chacabuco. A Batalha de Chacabuco foi uma batalha decisiva da independência do Chile, na qual combateram o exército dos andes e o exército espanhol. Ocorreu em 12 de fevereiro de 1817 na fazenda de Chacabuco, redondezas de Santiago. San Martín dividiu seu exército em duas partes. A primeira, sob o comando do general O'Higgins, deveria enfrentar directamente as forças reais, enquanto a segunda, comandada pelo general Soler, deveria mover-se pelo flanco esquerdo. Infelizmente as forças de Soler sofreram vários atrasos ao longo do dia, deixando Bernardo O'Higgins sozinho na fronte tomando as atitudes decisivas. O'Higgins ordenou que um general avançasse e atacasse a linha da infantaria real, que acabou por render-se, permitindo o avanço da cavalaria patriótica. As forças reais correram em direcção a uma fazenda, enquanto isso San Martín avançava com suas forças pelo flanco. Sua chegada transformou a retirada dos realistas numa completa derrota. Tiveram colaboração e apoio de todas as pessoas que ansiavam a independência. Fonte: (em espanhol) Documento de Bartolomé Mitre detalhando a batalha 

 

(Continua)



publicado por Carlos Loures às 14:00
link do post | comentar

Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010
História breve da República do Chile - 1
(Retirado do capítulo 4 do meu livro "O crescimento das crianças")

As crianças crescem há medida que a memória social impinge a memória individual, isto é, a criança é o resultado do saber acumulado cronologicamente no tempo. No tempo em que a criança vive e no que os ancestrais andaram a viver, perto ou longe do tempo da criança. O saber é contínuo, embora conjuntural nas suas mudanças. O processo educativo que resulta da interacção de um mesmo povo, através da História, ou com outros povos através, também, da História, é o que faz o que eu sou.

A racionalidade da criança, indivíduo com uma epistemologia acumulada, é diferente da racionalidade cognitiva do adulto. O entendimento é diferente. As várias gerações que vivem dentro do mesmo tempo, têm experiências diversificadas, quer pelo ciclo, quer pelo tempo que a pessoa leva na História do seu ser social. Experiências que são emotivas, mas orientadas pela razão, porque a criança observa para calcular, e calcula.

Comparar três povos de diferentes línguas e experiências, não é simples, mas é um desafio interessante para quem trabalha os dados do quotidiano. Um quotidiano, para mim, muito prolongado pois os Picunche conheço-os de sempre, os de Vilatuxe faz trinta e seis anos, e os de Vila Ruiva, vinte e dois. Somos poucos a estudar a criança como entidade humana que entende e aprende e não é um problema a resolver. Os adultos procuram que a criança seja adulta em pequena, como Ariés tão claramente diz (1964) e Lahire (1993) e Pierre Bourdieu (1993) estudam. Como Eugène O’Neill (1956) faz no Longa viagem do dia á noite, onde a criança aparece no corpo e comportamento de cada adulto. Porque a interacção do lar, acaba por ter atalhos de adulto, atalhos de criança, atalhos da emotividade, atalhos da razão.

Atalhos, que são a realidade que vivemos. A criança não tem atalhos de adulto para o adulto, tem sempre comportamentos irreflectidos e espontâneos, que os pedopsiquiatras gostam de estudar. E que a população do quotidiano gosta de beijar. Até que uma criança a crescer, rejeita tanto apalpar. Uma criança a crescer, pode, para prazer do adulto, imitar comportamentos. Como aquela que conheci de perto e que pedia ao seu avô para fazer um cavalheiro, e ele cruzava as pernas, uma por sobre o joelho da outra, as mãos agarradas por sobre o joelho livre, mirava em frente e a serio. Até se cansar. Uma maneira de atrair a atenção do avô e dos adultos. Se depois não comia, era o grito, não a sedução. A sedução acaba aí onde começa a ideia de que é o adulto quem sabe, quem manda, quem disciplina, quem grita e pune, atitude, para esse adulto, equivalente a ensinar. Desconhecendo que corrigir com paciência, é ensinar; que deixar fazer, é ensinar; que mandar ler, é ensinar até privar a criança de brincar com os seus pares, é ensinar. Marcado estou pela minha reflexão sobre o processo de aprendizagem, retirado da minha experiência na análise de grupos domésticos e da sua interacção. E é, precisamente aí que vejo o que é a heterogeneidade da vida da criança. Resultado que o seu professor desconhece e que Luís Souta (1995), Telmo Caria (1997) e Ricardo Vieira (1997) estudaram, tal como Henrique Luís Costa Gomes de Araújo (1998), variando, no entanto, de classe social.

Estas referências, são para ajudar a referir o que pretendemos saber: o crescimento das crianças de forma espontânea, etnográfica - a criança que é. Pequenada da qual tomamos conta até ela tomar conta de nós e nos apercebermos que afinal calcula, como o demostra Filipe Reis (1989-1991-1997), nas suas pesquisas efectuadas na Beira Alta. Cálculo, resultado da vida quotidiana que a pequenada tem, longe dos adultos. Ou com adultos, quando é ritual. Porque a pequenada, como todo o ser, tem uma vida diferenciada entre vários assuntos que bem sabe distinguir.


A- Victoria

Entre os Picunche, os pequenos são queridos e cuidados. Como toda a criança mapudungum do Chili pré hispânico. Gabriela Mistral , poetisa chilena, que ganhou o prémio Nobel de 1945, reclamava-se índia do Norte do Chile – onde ainda habitam os Aimara, escreveu: Piececitos de niño, azulosos de frio, como os vem e no os cubrem, Dios mío (1922), num dos vários poemas dedicados aos mais novos. Gabriela Mistral, foi professora primária do pequeno Pablo Neruda ( nascido em Parral, a 12 de julho de 1904), que cresceu e nunca mais se lembrou de ser pequeno. Como era na vida real. Histórias que Victoria nunca estudou porque em casa não sabiam e porque na escola não sabiam e porque na sua infância Neruda estava banido e Mistral ignorada. E porque Victoria e os seus congéneres estudam os mitos que a educação oficial quer ensinar, a macro história e a fisiologia sem desenhos. Ou com o livro cosido nos sítios perigosos, os do corpo. Victoria aprendeu em casa todo o perigo da vida, nas disputas da mãe e do pai, disputas a que não tinha direito a aceder, porque não as entendia. Mas a tradição Picunche tomava conta dela (os irmãos, tios e primos)

Com Alexandra, sua amiga, brincava aos animais, às bonecas, às corridas de cavalos até ao trabalhar da terra. Victoria amava e era amada. O período turbulento em que cresceu, ignorou-o, como todo o ser que queira ter um mínimo de paz pessoal, e dar essa paz aos descendentes. Cada casa de vizinho, era a sua casa, na qual podia entrar sem bater à porta. Brincadeira reiterada era tecer no tear, trabalho Picunche que persiste ao longo dos séculos (não é pois de estranhar, tal como eu observei, que muitas pequenas colaborem com as mães nos trabalhos de preparação e transformação das lãs); tal como as escondidas ou ao capelão, de nome luche (macaca em português), partilhadas na rua ou na escola. Infância e adolescência percorridas com a calma que a proximidade da mãe traz. E com os namoros falados, entre elas, sob a forma de recados. Espontaneamente, a imitar os adultos na sua expressão de carinho e de amor pelos outros.

Victoria, como vários outros, iam à catequese, ritualmente faziam a primeira comunhão e a confirmação. E a missa obrigatória aos Domingos. Doutrina que aprendeu, incutiu e foi a base da vida do seu crescimento, até à morte da sua mãe, ocorrida quando tinha vinte e dois anos de idade. Depois foi levada pelos primos Cárcamo, para a casa da cidade de Talca, onde tinha morado aquando dos estudos secundário e superiores. Victoria foi um raro exemplo Picunche: foi uma das poucas pessoas do sítio, que estudou para fazer o seu futuro. Como criança, teve apoios solícitos de todos os irmãos, que juntaram a sua emotividade em torno da mais nova. Pequena que assim criada, acaba por ser doce e serena, e estar em paz consigo própria, donde em paz com os demais. A sua geração cresceu a observar que havia adultos que desapareciam e adultos que não falavam. E cresceu a aprender nos textos que por cima de qualquer outro valor, estava o do bem comum. Porque todos eram iguais. Uma contradição que entendeu no real.

No entanto, foi capaz de ser igual com todos os seus, da sua classe e do seu povo. Disciplinada para os estudos, disciplina que aprendeu do trabalho da mãe e dos horários de trabalho dos irmãos mais velhos.

Entendida no campo, que percorreu metro a metro nas propriedades da família. Namoros, nenhum, por medo que os homens fossem iguais ao seu pai ou ao seu cunhado. A história oral Picunche coloca a mulher em segundo lugar e com o papel social de ter filhos, criar, lavar, alimentar e tratar do pai deles. Victoria foi capaz de guardar a afectividade para todos, que se soubesse, sem ninguém em particular. Victoria é resultado do seu tempo. Um tempo conturbado ao nível global, calmo ao nível local, definido ao nível íntimo.

Solitário, no emocional. No emocional pessoal. Porque há o costume de namorar, pololear como aí é dito. E Victoria estudava. O estudo retirava-a do conjunto de assuntos de que não queria ouvir falar. A rapariga que eu conheci, era amável, é amável; era atenciosa, é atenciosa; era divertida, e é. A rir, a festejar, a gostar de ir aos rodeios ou festas onde os homens correm a cavalo, empurram os animais novos, fazem-nos suar para, assim, perderem o pelo da pele nova, ficarem mais mansos, mais domesticados, subjugados aos homens. Assunto já não tão divertido e, no entanto, parte da festa do rodeio. Victoria via, ouvia e calava, mas festejava com os que corriam. Uma corrida masculina, que achou sempre injusta. Porque é que o masculino e o feminino não são iguais? Porque é que as mulheres têm de se subordinar aos homens? Sempre? Teorizava como José e Jesus eram subordinados à Nossa Senhora. O mito hispânico a funcionar. Porque o mito Picunche só coloca a mulher shamã, essa que sabe mais, por cima das outras pessoas, o universo feminino é sempre inferior. O tempo de Victoria, esses anos setenta, oitenta e noventa, anos em que masculino e feminino trabalhavam igualmente, com ordenados que permitiam a independência de todos. Anos que aumentaram o trabalho da mulher. Público e doméstico Em consequência, a possibilidade de uma proximidade emotiva simples, de transferência amorosa, fraterna e leal não estava facilitada.

Aos vinte e cinco anos, já a mulher era casada ou com filhos. Ou tinha uma profissão. Nos seus vinte e cinco anos de idade, guarda o tempo para a sua profissão e trabalho. Da pequena reguila a correr pelas ruas, passa a ser a mulher noiva que todos consultam e respeitam, a quem confiam os seus pequenos, caso seja preciso, e comentam os seus assuntos que ela ouve com a sabedoria que o quotidiano lhe dá. Quinhentos anos antes, teria sido já uma mulher mãe, ao pé das outras mulheres mães do mesmo cacique ou chefe de família. Quinhentos anos depois, é a católica consultada e conhecedora das casas, das pessoas e das coisas. Com os costumes Picunche perto dela, que aceita sem perguntar e trata sem hierarquizar. No restaurante de Alexandra, onde comíamos, ela ia à cozinha para tratar da minha comida, assim como nas pesquisas em arquivos, silenciosamente, com o tempo, construiu matematicamente a genealogia que orientou a minha escrita. São assim hoje todas as mulheres Picunche - inquilinas, proprietárias ou tecedeiras? Diria que bem longe disso. A sua geração vestia o que a televisão exibia, penteava-se como os artistas, seduzia os rapazes que gostavam da brincadeira. É notável ver como no sítio de três mil habitantes dispersos, que constituem Pencahue, o passeio é ir ao largo municipal e namorar aos abraços, em público. A descendência nova, esfrega-se, beija-se, fuma e namora ao mesmo tempo, senta-se nos bancos do largo, elas no colo deles, as conversas são sobre as outras pessoas; a chegada a casa é tarde e em silêncio, ouvidos surdos ao que os pais possam dizer. É um esplendor na relva universal e público, com intimidades e abortos não permitidos por lei, como com bebés não permitidos, embora criados pelos pais. Uma alta percentagem de raparigas, acabam como empregadas domésticas na cidade de Talca, ou vão engrossar a fila de habitantes da Capital da República, Santiago. Enquanto eles, servem de motoristas, mecânicos, empregados de supermercados.

E eles e elas, de prostitutos nocturnos na vizinha cidade, nos sítios privados que pagam os ricos, para se divertirem com jovens do seu mesmo sexo, ao proprietário do local em importâncias que dava para uma família pobre viver vários meses. A população urbana do sítio de Pencahue, é consumidora de drogas, de álcool, de divertimentos que não permitem ao eu falar com um eu. Depois de falar com vários, apercebo-me que o que se procura, rapidamente, pelo meio mais curto possível, é dinheiro. Num País que ficou sem trabalho para uma larga percentagem da população oriunda de fora dos centros urbanos interessantes para os investidores, Pencahue, essa terra Picunche, com os traços Picunche feitos europeus nos hábitos e sem meios para os materializar, oferece uma indústria de madeiras, e duas em Talca: para manufacturar porcinos, e uma fundição, a da família Cruz; trabalho de jornaleiro no campo e cuidados paternos e domésticos até tarde na vida, deram origem a correntes migratórias. A maior parte da população que não vive do campo, recebe salários de empregos estatais. Pencahue é o sitio que incrementa anualmente o internacional Produto Geográfico Bruto, de 3% sustido, porque não há força de trabalho ocupada e autónoma.

Contrário à doutrina espalhada nos últimos 24 anos, a plena ocupação ou o pleno emprego é baixo, os postos de trabalho escassos e os sítios para trabalhar, longínquos. Como as indústrias de processamento de madeira de Constituição, o porto marítimo do mesmo sitio, e a transferência para os sítios de trabalho, em carros ou carrinhas partilhadas. É desta forma que o País tem incrementado as riquezas dos centros urbanos centrais, quer dizer, de Santiago e de cidades de lazer, como Viña del Mar. Pencahue é pobre, porque o país é pobre. Um ordenado de jornaleiro acaba por ser de mil pesos (moeda nacional) por dia, o equivalente a 1.50€ por dia. O salário mínimo mensal é de 40000 pesos (15.000€), sem imposições.

As famílias precisam habitar sob o mesmo teto para compartir o que ganha, porque a política de preços é alta. Um quilo de pão, três ou quatro unidades, é de quase 500 pesos. É por isso que a população vive de chá e pão, ou sopa de abóbora, a penca que dá nome a Pencahue. Um lugar de trabalhadores manuais, obrigatoriamente formados na escola e no secundário até à idade de 15 anos. Escolas dependentes das municipalidades, que podem conceder bolsas, caso o Ministério da Educação assim o estimar conveniente.

O alegar de que nós é que amamos, é uma ironia minha, retirada da realidade de um País que dava emprego no exército à maior parte da população, e à que não dava, expulsava-a, obrigando-a a sair do país, fazendo-a desaparecer, no limite matava culpando vizinhos inocentes. O que antigamente foi a saída para muitos homens, o exército, é hoje obrigatório para homens e mulheres. Muitos dos quais têm feito parte da guarda pessoal de famílias determinadas, como essa que se apropriara do vale de Pencahue, da antiga Hacienda Quepo e Los Almendros e Lo Figueroa. Terras todas entregues, ao longo de 18 anos, a familiares do ex-proprietário do Chile, o Ditador que era dessa zona. O exército conta com 300.000 mil efectivos, dentro de uma população de 12 milhões de habitantes no País, com 60% de menores de 18 anos.

Uma população nova, sem futuro. Muitos dos efectivos, habitam na área de Talca, Regimento de triste memória por ter servido de prisão a um grande número de pessoas. Regimento que bem conheço por dentro. O amor é resultado da política económica. Ainda que em Antropologia exista um debate sobre o assunto, e se pense que não há relação entre economia e afectividade, Dalton (1971), Polanyi (1957), e, mais recentemente, Humphrey e Hugh-Jones (1992), que recorrem à etnografia de sítios nativos, como se nesses sítios não houvesse também um capital que manda. Como é demonstrado pelas guerras africanas de hoje como na Guiné-Bissau, Zaire, Ruanda ou Sudão, por exemplo, ou no Peru, na Indonésia, no Iraque, entre outros paises. Ainda que quem é hoje, guarda os valores da memória social dos ancestrais, como tenho debatido, mas tem novos elementos que lhe permite transformar essas memórias que, embora guardadas, ficam para um momento de melhor estabilidade.

Não vi em Pencahue lar nenhum que fosse calmo no seu interior. Excepto o das pessoas das áreas rurais. A concorrência nas grandes cidades é grande, é ilegítima, é à Henry de Montchretienne (1616), que no século XVII, já advertia no seu Traitée d’ Economie Politique, ser o capital para lutas entre pessoas (irmãos que matam irmãos, amigos que matam amigos). É verdade que tenho escolhido Victoria como elo, porque na sua família há zangas e mágoas provenientes não só de problemas emotivos. Clodomiro o pai, chegava a casa bêbado e sem dinheiro, motivo que levou a mãe à separação. A economia acabava por assentar nela e em Rebeca, a irmã mais velha, que também expulsou o seu homem, por causa do dinheiro compartido com outra. E é entre mulheres que a casa anda. E é entre mulheres que os afectos andam. Para um País em transição, onde nunca se sabe se haverá mais perturbações.

Sim, nós é que amamos, mas assim. Sim, é o que eu sou, mas assim. Eis que Victoria escolhe o seu caminho, deixa o lar, estuda, trabalha, mora fora da casa doméstica. Como a maior parte do povo faz. Como vi, trinta e três anos antes, em sítios de bairros de lata. Como não me deixaram ver, no dia que fui oficialmente convidado a voltar ao Chile, levando-me pela estrada de circunvalação da capital, a pobreza da cidade. Período em que sempre, estrategicamente, alguém tomou conta das minhas conferências, para que eu não falasse do que pudesse ser pouco conveniente ao sistema. Ou que eu não quis ouvir. Como não oiço agora que escrevo o que sou, e persisto em escrever o que sou. A passagem pelo campo de concentração, que Victoria nunca viu e do qual eu nunca falei. Como o tempo na Galiza antiga e que deixou marcas que sararam. Como as do Chile, que um dia talvez, venham a melhorar. Como aos poucos, melhoram.

Com as Victorias que sabem comportar-se, porque viveram um sistema durante estes vinte e cinco anos. Uma Victoria que, como tantos outros, prefere ignorar para viver em paz. Porque o que eles são, são dignos de saber ignorar, de não ouvir, de não ver, de calar. De ver, ouvir e calar. Como na Galiza necessariamente já não é. Foi. Mas foi esquecido. No Chile, é ignorado. Entre os Picunche, é outro tipo de assuntos, mais pessoais, que os envolve, e nos quais se deixam envolver localmente para se afastarem da sociedade global, que ainda não mudou como se quer e se luta para mudar como mudara, tão rapidamente, a Galiza que é, hoje em dia, a Holanda da Península Ibérica. Orientada pela sociedade global. Ideias que debaterei noutro poste


publicado por Carlos Loures às 23:55
link do post | comentar

Segunda-feira, 14 de Junho de 2010
Os nossos ancestrais, amavam?
Raúl Iturra


Queira o leitor lembrar, que ando a tentar entender o contexto da produção das crianças que cresceram. E que essa produção, não é o resultado de apenas a transferência de saber entre adultos e filhos de uma casa. Para entender esta pergunta, estudei as vidas de três raparigas de diversos continentes, nos anos 90 do Século XX: Victoria, do clã Picunche do povo Mapuche do Chile, Pilar, de Lodeitón, Paroquia de Vilatuxe, Pontevedra, Galiza, e Anabela, da aldeia de Vila Ruiva, Concelho de Nelas, Portugal. Analisei os seus pensamentos e os da sua família. De Pilar tenho já falado. De Victoria, apenas mencionado em outro ensaio, como é o caso de Anabela. Hoje vou introduzir Victoria, do clã Picunche do concelho ou municipalidade de Pencahue, que limita com a cidade de Talca, capital da Província denominada Maule.

Os Picunche eram denominados Promaucaes pelos conquistadores, no século XVI. Na altura que os Castelhanos foram ao país frio, o chile dos Quechua, esse habitantes da hoje República do Peru, esse inimigos imbatíveis, impossíveis de conquistar nas guerras índias (Villalobos,Sergio e tal.


1974; Lizana, 1909; Ovalle, 1646 Pedro de Valdivia, 1545-1542). Os purum auca, os inimigos imbatíveis para os habitantes do norte do sul do hoje Continente americano. Os que dançam, para os Castelhanos, os que se divertem, para quem fez uma enganada tradução mapudungun das palavras.

Puru, feliz para os Mapuche e para os que Mapuche têm querido entender. Para os Mapuche, Picunche, as pessoas do Norte, donde che é pessoa, e Picun, Norte. Habitantes do Norte. Do Norte do rio Choapa, que separa os lugares nos quais viviam (ver mapa das etnias). Até Valdivia entregar as terras dos nativos, aos invasores, como relata ao Imperador Carlos V, nas suas cartas citadas. Eram sessenta as famílias invasoras. Terras asaltadas, beliscadas de volta, com raiva, com lanças, com flecha e arco, perdidas e tornadas a recuperar pela compra, séculos mais tarde. Picunche que teciam, teciam a lã dos guanacos locais da Cordilheira de Los Andes, das lamas e vicunhas importadas pelos prévios invasores Inca. Tinham uma horta em cada grupo consanguíneo de lares contíguos, ou rucas, feitas de madeira e barro. Madeira não elaborada, fibra de madeira, ramas de uma árvore, plantas de junco ou coligue entretecido e enchido com lama ou barro, a quincha, como o material é ainda denominado e usado por grande parte da população do país. Antigamente, pelos Pehuenche, os Huilliche, os Picunche, os Mapuche, as várias famílias dos Rauco. Os habitantes não parentes, as vezes inimigos outras aliados, conforme for a continência dos tempos. Por engano, eram denominados Araucanos pelos Castelhanos (SilvaPereira,1998;Bengoa,1985;Villalobos,1974). Cultivavam que hoje ainda cultivam: milho, feijão verde, cabaços ou pencas, donde Pencahue, ají, a quente guinda ou piri-piri; a batata que salvou a Europa e a fez crescer demograficamente e em proteínas, e mani ou amendoim. E outras plantas não conhecidas entre nos, nos verdes vales regados pelos canais de aguas tiradas aos rios circundantes, o branco Claro, e o navegável Maule.

Espantados os Castelhanos de ver um homem com tanta mulher, até seis ou sete, e tanto filho. Varias Crónicas sobre o Chile, relatam a fertilidade das terras, a fertilidade das pessoas, a fertilidade do imaginário que adjudica um deus ou espírito a cada fenómeno natural, a cada animal, a cada pessoa. Até hoje, com nomes mortos na memória, mas vivos na dos Mapuche (ver Silva Pereira, 1998). Mapuche e Picunche compartiam os mesmos deuses, a mesma cosmogonia. Que os Castelhanos apagaram rapidamente nas Doutrinas ou Reduções para as quais transferiram esses habitantes.

Habitantes que, em breve, se misturaram com os Castelhanos e outros da Espanha, que aí chegaram. Desde 1666 em frente, é possível ver nos arquivos da Paróquia de Pencahue, esse arquivo que tive a sorte de encontrar, os nascimentos de Yndios, espanhóis, escravos, mulatos e mestizos, muito mestiço, uma percentagem crescente de mestiços ao longo do tempo, filhos de mãe índia e sem pai conhecido, ou casado com a mãe. È no século XVIII, a Encomenda ( Eyzaguirre, 1963) ou entrega de índios à custodia espanhola, de esses ignorantes que nem sabem nem podem cultivar por serem preguiçosos, dizem os espanhóis. A Encomenda acabada e os nativos, denominados mais em frente na cronologia da História, inquilinos, começam a aparecer no arquivo de matrimónios por mim descoberto, combinações reprodutivas de espanhol com mestiço, índio com mestiço e eventual espanhol. É só em 1829 como refiro mais em frente, que aparece o primeiro chileno, até serem todos chilenos, desde esse decreto da já República do Chile. Excepto, os não nascidos no Chile. Ou os que mantêm o jus sanguinis ou direito a nacionalidade pelo lugar original de nascimento da ascendência. Em uma terra, onde prima o jus solis ou direito à nacionalidade por ter nascido dentro das fronteiras do novo Estado ou nova República, que começara a existir, material e simbolicamente desde 1810, apesar de passar a ser um país livre, por direito de guerra, desde 1818.

Legalmente, desde 1833, data da Constituição denominada primeira.
É desta combinação de sangues, que os ancestrais de Victoria, aparecem. Como a sua genealogia diz. Em uma época que os matrimónios eram rituais celebrados conforme o estatuto social das pessoas. Tempo em que os pais só o eram, se for da mesma raça ou etnia. Entre Picunche, a união é patriarcal, o longo ou chefe da família, mora com as suas mulheres de idades diversas, na mesma ruca ou rucas perto umas das outras, onde vão morando os filhos mais crescidos, que tomam mulher e têm filhos. E todos em conjunto, vão trabalhando a terras férteis, em família no sistema de mingaco, ou reciprocidade consanguínea sistemática, para trabalhos pesados que precisavam muitas pessoas. Trabalho e festas eram combinados, com comida e chicha ou álcool de milho ou maíz fermentado. As rucas, todas juntas dentro da mesma área ou lov em mapudungum, facilitava o trabalho da família extensa que eles constituíam, patriarcal e de filiação patrilineal: as mulheres saíam dos seus lares e famílias para passarem ao sítio de rucas ou casario do cacique ou chefe do grupo doméstico alargado. É assim que começa a família de Victoria, até onde foi possível traçar a sua origem nos ditos arquivos paroquiais. Originais da Doutrina de Rauquen, paróquia já em 1699. Em consequência, Doutrina Encomendada, para custódia de índios e terras, a uma família espanhola, os Parot. Rauquen, casario Picunche onde morou a última Cacique da denominada monarquia Picunche, essa Doña Ana, que em 1665 organiza um malon ou ataque por surpresa, á Vila de San Agustin de Talca ou Tralca, trovão em português. A derradeira Cacique ou chefe política Picunche. A derradeira, porque o casario Picunche, de propriedade nativa, passa a categoria de Doutrina, a Paroquia depois e a Encomenda e Hacienda dos espanhóis. É pelos anos de 1700 que o espanhol encomendado de Rauquen, casado com Pascuala Allende, faz o primeiro filho, o primeiro mestiço, na pessoa de Tránsito Cerpa, inquilina de Rauquen, filho fora do matrimónio, criado por ela, que casa com Fortunato Arredondo Cerpa, com Juana Maria González Zapata, filha, neta e bisneta de nativos do dito Rauquen, inquilinos todos já da dita hacienda de espanhóis (ver Genealogia 1). É das novas Haciendas de Rauquen, Libún e outras como Quepo, Las 200, Toconay, Corinto, Carrizal, sítios desconhecidos pelo leitor e que é possível ver em mapa anexo (Mapa 1). Nas quais as mulheres, de oficio cortadoras de folha, tecedoras e cultivadoras de terra dos proprietários. Vivem ou com o seu grupo, ou com o homem com o qual fazem filhos e deles esses homens, preocupam-se. Vivem, ou casam, ora com outros nativos, ora com os depois inquilinos, ou com espanhóis que fazem crianças com elas e cujos nomes dão aos pequenos, enquanto as pequenas só guardam o nome de baptismo. A ancestralidade de Victoria, pelo lado materno, é de origem Picunche, como é possível apreciar em tipos corpóreos, em costumes e crenças. A avó, mãe da mãe de Victoria, é neta de nativa e espanhol não casados, como é possível apreciar da genealogia. Porque no século XVIII, os nativos são seres não pessoas. Entidades desconhecidas ainda a acreditarem no deus Pillán, que traz malefício aos que fazem mal a eles próprios. Um roga pragas Pillán, usado até o dia de hoje, para as pessoas se defenderem de pragas rogadas a eles. Que, no caso dos Picunche, eram os invasores que tinham tirado terras e hierarquias. A hierarquia Picunche é muito simples: o cacique ou pater famílias de um grupo consanguíneo extenso; e shamanes ou gestores das divindades heterogéneas que governavam pessoas, as suas condições, e as sua pertenças. Mais do que chefias ou estratos, são estatutos sociais adquiridos pela capacidade ou poder de lidar na coordenação de actividades e habilidades. O cacique, coordena actividades reprodutivas; o shaman, habilidades existentes ou restauradas, caso houver incapacidade temporal, e orientadores de espíritos. Até o dia de hoje. Uma cosmogonia que permeia os ditados das crenças católicas, pregadas em homilias e catequeses pouco entendidas a causa da língua, da experiência histórica, e dos símbolos, como tão directa e simplesmente, é dito por Gomes da Silva (1989). Eu acrescentava, pela luta de memórias acumuladas cronologicamente, sincretisadas na aceitação do Outro no Eu. Como a Historia Colonial demonstra.

Villalobos, Sérgio,1974 Eyzaguirre, Jaime, 1963: História de Chile, Zig-Zag, Santiago de Chile
Lizana, Elias, 1909: Apuntes para la historia de Guacarcahue, Imprenta y Encuadernación, Santiago, Chile.
Ovalle, Alonso de, (1646) 1969: Hiftórica relación del Reyno de Chile, Instituto de Literatura Chilena, Santiago, Chile
Silva Pereira, Luís Cirilo da, 2000: Médico, Xamã ou Ervanária, ISPA, Lisboa.
Valdivia, Pedro de, (1542-1545), 1991: Cartas de Don Pedro de Valdivia, que tratan del descubrimiento y conquista de la Nueva Extremadura, Editorial Andrés Bello, Santiago, Chile.
Villalobos, Sergio; Silva, Osvaldo; Silva, Fernando; Estelle, Patrício, 1974: História de Chile, Editorial Universitária, Santiago, Chile


publicado por Carlos Loures às 15:00
link do post | comentar


EDITORIAL
AUTORES
Adão Cruz

Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Antunes

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Moreira de Sá

Fernando Pereira Marques

Hélder Costa

João Machado

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Moreira

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Maria Inês Aguiar

Paulo Melo Lopes

Paulo Rato

Pedro Godinho

Raúl Iturra

Rui de Oliveira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Contacte-nos
estrolabio(at)gmail.com
últ. comentários
Eu fiz uma descoberta que eu gostaria de compartil...
I recebeu um empréstimo em um notável credores, ho...
Eu fiz uma descoberta que eu gostaria de compartil...
Eu fiz uma descoberta que eu gostaria de compartil...
Recebi um empréstimo de um credores excepcionais, ...
Para a sua atençãoMais preocupação por seus proble...
Carlos Loures a Anália já aqui disse tudo. Ter em ...
Caro Carlos Loures, Obrigada pela sua resposta. Es...
Agradeço o seu depoimento. Só agora respondo porqu...
Tanto quanto soube recentemente, foi o próprio Car...
pesquisar neste blog
 
posts recentes

8- UMA REPÚBLICA DEMOCRÁT...

6 - UMA REPÚBLICA DEMOCRÁ...

3 - UMA REPÚBLICA DEMOCRÁ...

2 - UMA REPÚBLICA DEMOCRÁ...

1 - UMA REPÚBLICA DEMOCRÁ...

História breve da Repúbli...

Os nossos ancestrais, ama...

arquivos

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

tags

todas as tags


sugestão: revista arqa #84/85
links