Quarta-feira, 2 de Março de 2011
Mouros e celtas - por Carlos Loures

José Pedro Machado, meu amigo e grande filólogo de que já vos tenho falado, legou-nos dois importantes livros sobre a influência do árabe na língua portuguesa «Vocabulário Português de Origem Árabe» (1991) e «Ensaios Arábico-Portugueses» (1997). Por eles, podemo-nos aperceber da grande quantidade de vocábulos que, do árabe, foram emprestados ao português. Muitos são palavras de uso comum e quotidiano: alarido, alarde, albufeira, alcaide, aldrabão, alface, alfândega, algazarra, alicate, alpergata, alvoroço, argola, armazém, arsenal, baldio, bazar, bolota, cabide, chafariz, cifra, debalde, divã, enxaqueca, enxovia, falua, fateixa, fato, forro, fulano, garrafa, gazela, jarra, javali, lacrau, laranja, marfim, matraca, múmia, nora, oxalá, quintal, recife, sucata, tagarela, tarefa, tremoço, xadrez, zagaia… São milhares, incluindo muitas centenas de topónimos

 

Da arquitectura árabe pouco nos ficou, sabendo-se que os conquistadores destruíam os monumentos dos vencidos e, desse modo, as mesquitas eram transformadas em igrejas (acontecendo também o inverso), pois nem árabes nem cristãos tinham nesse dramáticos tempos o conceito da conservação do património. Consumada a Reconquista, tudo o que era muçulmano foi destruído, reconvertido, porém, apesar dessa destruição, muito se tem avançado no estudo dos vestígios da presença  árabe, nomeadamente no Campo Arqueológico de Mértola, superiormente dirigido pelo Professor Cláudio Torres.

 

Na literatura, existem numerosos legados. O poeta e ensaísta Adalberto Alves, director do Centro de Estudos Luso-Árabes, de Silves, no seu livro «O Meu Coração é Árabe», estuda essa influência da cultura e da literatura árabes no nosso território. Com este livro obteve um prestigiado prémio internacional , o Prémio Sharjah 2008 para a Cultura Árabe, outorgado pela UNESCO. Em 2009 publicou outro magnífico estudo – “As sandálias do Mestre”, sobre a influência do Islão na formação de Portugal.

 

Não faltam exemplos da forte influência que os árabes, nos séculos que aqui estiveram, nos legaram. Eis um poema de Ibn Ammar (1031- 1084), nascido em Silves, que transcrevo de “O Meu Coração Também é Árabe”:

 

Este poema é para ti, Como um jardim que a brisa visitou

 

Sobre o qual repousar o orvalho da noite

Até que o ataviou de flores.

Do teu nome fiz-lhe uma veste de ouro.

Com o teu louvor derramei o melhor almíscar

Quem me suplantará? Se o teu apoio é sândalo

Eu o quereria no fogo do meu génio

Quando as brasas estavam ainda a arder.

O orgulho no amor – temei-o – é a sua vergonha

Mas o prazer – aproveitai-o -   é o seu ardor.

Não peças à paixão que te dê domínio

Prefere ser escravo, nas suas mãos é que és livre!

Vós me dissestes: o amor prejudicou-te.

Eu respondi. Quem me dera me tivesse feito mal.

È que o meu coração escolheu doença para o corpo

Como forma própria de o adornar.

Deixai, pois, fazer a sua escolha

E não me critiqueis por estar emagrecido:

Não está a excelência de uma adaga

Precisamente na finura do seu gume?

Troçaste porque me deixou minha amada?

Quanto fim de mês oculta o crescente que vai vir!

Julgais que o fogo do esquecimento me consolara

Ou que um profundo sono chegará depois?

Mas ó coração, guerreiro da dor, se não sofresses mais

Quem te acudiria o socorro das lágrimas.

 

  

Onde pretendo chegar? A várias conclusões, mas principalmente a uma - depois de vos ter, já por diversas ocasiões, falado da esplendorosa cultura galega, coisa que tenciono continuar a fazer, falo-vos agora da grandeza da cultura árabe – pré-islâmica e islâmica. Nós não somos nem galegos, nem mouros, mas devemos a galegos e a mouros muito do que somos. E também aos judeus. Quanto os filhos de Moisés, que chegaram a constituir uma parte importante da nossa população, enriqueceram a nossa cultura e a nossa ciência e quanto do seu sangue circula nas veias de tantos de nós! E a herança celta, tão visível no Minho e em Trás-os-Montes? Somos um interface de culturas. E não pára.

 

Não pára, porque o fluxo de emigrantes extra-comunitários: cabo-verdianos, ucranianos, brasileiros, é mais um factor de enriquecimento do nosso património cultural (para não falar do património genético). Compensam, em termos demográficos, o défice que as novas concepções da estrutura familiar impõe.

 

Somos pessoas, em suma. Nenhuma cultura parte do zero ou se alimenta do vácuo. A nossa resulta de um intrincado tapete, de um mosaico onde se misturam e cruzam influências culturais, heranças, empréstimos linguísticos. Como sociedade aberta que somos e fomos nos momentos cruciais da nossa História, como na época dos Descobrimentos, a nossa cultura é enriquecida com o passado e com o que, no presente, nos trazem os milhares de imigrantes. Não temos que nos envergonhar de nenhuma dessas heranças nem com os contributos actuais. Só temos de nos envergonhar quando somos estúpidos ao ponto de ter vergonha.

 

 

 

Ouvimos aquí uma das «Cantigas de Santa María», do rei Afonso X de Leão e Castela (1252-1284) que, como sabemos utilizou na sua poesia o idioma galego-português. Este rei, embora tenha participado activamente na guerra da Reconquista, conservou na sua corte numerosos artistas, nomeadamente músicos mouros, dando assim um exemplo de tolerância para com os vencidos. Esta cantiga fala dos alarifes mudéjares, ou seja dos arquitectos e artífices mouros. Mudéjares eram os mouros aos quais foi permitido continuar a viver entre nós, mediante o pagamento de um tributo. Muitos deles eram artistas, cientistas, médicos… Afonso X, o Sábio, dedicou esta cantiga a esses artistas e artífices que embelezavam com a sua arte igrejas e palácios dos cristãos vencedores.

 

 



publicado por Carlos Loures às 22:00
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Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010
Esta noite podemos contar
com uma canção romântica à uma hora - cantada pelo Bing Crosby; às duas, mais um texto dos dez mais lidos (o nono classificado) - que nos fala dos momentos-chave na evolução do galego-português e às três uma pergunta baseada numa afirmação do Luiz Pacheco - A televisão é para estúpidos?

Agora, podemos contar com mais uma aparição de um sapo - já perceberam porquê?


publicado por Carlos Loures às 00:30
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Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010
Evento – Quatro momentos–chave do galego-português
 Carlos Loures


Da forma atrabiliária que já denunciei, fui ziguezagueando pelos temas que dizem respeito ao idioma galego-português. Não esquecendo que o objectivo destes textos é o de determinar o momento chave de uma dada literatura. Em jeito de quem apanha pedaços dispersos, eu diria que houve três momentos chave na história do galego-português. Refiro-me à língua falada desde a Alta Idade Média nos territórios da antiga província romana da Gallaecia, uma variante neolatina ou, como diz com maior rigor científico Carvalho Calero, uma forma primitiva do romance hispânico ocidental. Forma que veio a resultar no galego-português (ou galaico-português).

Muito basicamente, descrevi, com a ajuda do Professor Villares, o momento da separação das duas partes irmãs, em que começou a deriva histórica e consequentemente a linguística. Deste período medieval há, quanto a mim, um  primeiro evento assinalável -  quando, no século XII, a poesia lírica produzida e escrita em galego-português, ultrapassando as suas fronteiras geográficas, chegava a Leão e Castela – as «Cantigas de Santa Maria», do rei Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português.

Depois da separação política enquanto a agressão aculturante do castelhano começava o seu trabalho, a Sul do Minho a língua comum construía-se, enriquecia-se - Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões, para referir só alguns nomes, tiveram na criação da língua e na sua fixação em monumentos literários. E neste segundo ciclo da língua,  há um segundo momento crucial  quando Portugal, virando costas à Europa,  se aventurou mar fora. Foi mercê dessa decisão e da política de navegações sonhada por D. Henrique e levada a cabo por D. João II, que começou a grandeza da língua, hoje falada por 240 milhões de pessoas em nove nações, sendo que a projecção demográfica para 2050 prevê que 350 milhões a falem.

Porém, ao longo de seis séculos de domínio estrangeiro, o galego fora  invadido por castelhanismos, inquinado foneticamente e não só.  Na Galiza o idioma parecia perdido. Mas não – no século XIX, com o Rexurdimento de Rosalía, Murguia, Pondal e tantos outros, a língua e a cultura galegas começaram a recuperar a sua identidade usurpada. Este renascer do amor pelo idioma, quando o galego estava já remetido à condição de dialecto rural do castelhano é, na minha opinião, o terceiro momento-chave na história da cultura galega.

Diria que estamos a viver um quarto momento-chave. Os filólogos portugueses e galegos (Manuel Rodrigues Lapa, Ricardo Carvalho Calero e muitos outros)   criaram condições para que se pensasse na reintegração do galego na família da lusofonia. Do ponto de vista da ciência linguística não parece existir dúvida de que português e galego nasceram de uma mesma matriz. Podemos chamar por isso galego-português ao idioma que, sob duas formas dialectais, falamos lá e aqui. Reintegrar o galego no português ou o português no galego (chamo de novo a atenção para o excelente trabalho de Carlos Durão – “Síntese do reintegracionismo contemporâneo” – trabalho de grande envergadura, é uma das mais claras exposições sobre este tema que me tem sido dado ler). Mas que fique bem claro que quando se fala de reintegrar, não se fala de Portugal anexar politicamente a Galiza, mas sim do regresso do seu idioma à família a que nunca deixou de pertencer.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010
Evento – em que momento o galego – português se tornou um idioma universal?
Carlos Loures

Serpenteando, avançando, recuando, tenho estado a recapitular temas  da língua e da literatura galego-portuguesa que já aqui  tinha abordado e que me parece oportuno recordar. Continuo hoje essa tarefa, há dias iniciada e respeitando o espírito da iniciativa lançada pelo Professor Sílvio Castro, queria referir-me ao evento que, na minha opinião, terá sido decisivo para a expansão da nossa língua – o momento chave que terá desencadeado essa expansão.

Vimos ontem como a criação de um reino independente a Sul do Rio Minho e a manutenção a Norte dos laços com o reino de Leão e Castela, teve por base especificidades das regiões bracarense e lucense que vinham já do período do domínio romano e que remetem para diferenças existentes desde então entre as regiões bracarense e lucense em que a Galécia se dividia. E, como Ramon Villares disse na sua “Historia de Galicia”, teve também como motivo uma certa «incapacidade da nobreza galega para se constituir em reino próprio desde os primeiros momentos da reconquista»;.

A região lucense ligada à Europa pelo Caminho de Santiago, iria desenvolver um conjunto de traços específicos que, embora inserindo-se de forma periférica na monarquia castelhano-leonesa e vítima de um processo de aculturação, lhe permitiriam conservar a sua identidade ao longo da história até aos nossos dias. Os portugueses voltaram-se para o mar e compreenderam que só dali lhes poderia vir a possibilidade de expansão. Assim, se tivesse de definir esse momento chave para o idioma que, em nove nações e em numerosas colónias de emigrantes espalhados por todo o planeta, é  falado por cerca de 240 milhões de pessoas, não hesitaria – o momento é aquele em que, voltando as costas à Europa, Portugal se lançou na aventura dos Descobrimentos. Sem esse impulso, outros estados teriam achado as terras a que chegaram as nossas armadas e o português seria um idioma com uma difusão idêntica à do neerlandês. E. sem a projecção que o conjunto de nações onde a nossa língua é falada, sem a grandeza esmagadora do Brasil e o potencial de Angola e Moçambique, a Galiza não se sentiria atraída por regressar às suas raízes históricas e linguísticas – a aculturação castelhana teria sido ainda mais demolidora.

Mas para os patriotas galegos o idioma comum, que nasceu na Galiza e que os portugueses conservaram, protegeram e espalharam pelo Mundo, representa a recuperação da identidade nacional. Se perdem o idioma e adoptam o castrapo, a Nação Galega deixará de existir. Porque, o castrapo é um híbrido, filho do galego, mas geneticamente manipulado e com um exoesqueleto de sintaxe castelhana, morfologicamente eivado de castelhanismos e foneticamente espanholizado – em suma, é um híbrido e, como sabemos, os híbridos, na sua maior parte, não se reproduzem. Do castrapo, passar-se-á ao castelhano.
Elias Torres, Professor da Universidade de Santiago de Compostela e presidente da Associação Internacional de Lusitanistas, numa entrevista ao Portal Galego da Língua, usava como metáfora uma situação de um conto de Álvaro Cunqueiro: «a Galiza está sentada sobre um tesouro e nom o sabe». Esse tesouro a que o Professor se refere é, obviamente. a língua galego-portuguesa, que, segundo projecções baseadas na evolução demográfica dos oito Estados e nove nações que têm o idioma como língua oficial, deverão totalizar 350 milhões de habitantes em 2050.
A adesão da Galiza à CPLP é muito importante. Sem a Galiza  a nossa língua é como um caudaloso rio privado da nascente. Não esqueçamos nunca que foi do fio de água que brotou das terras galegas que nasceu um idioma que hoje é um vasto  oceano banhando todos os continentes.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010
Evento – o momento histórico em que a deriva do galego-português começou
Carlos Loures

Prossigo a recapitulação do que antes disse sobre as questões históricas, literárias e, evidentemente, linguísticas ligadas ao idioma galego-português. Estou a fazê-lo, convenhamos, de uma forma um pouco errática – à medida que vou consultando o que escrevi e essa leitura me vai sugerindo estas notas. Acabo de saber que o Professor Ariel Castro se vai debruçar sobre este tema. Será um valioso contributo. E muito gostaria de que os amigos galegos interviessem activamente neste painel sobre um tema tão importante. Vamos lá a mais um apontamento

Simplificando, digamos que há na Galiza, além dos que defendem a reintegração do galego na área da lusofonia (não percam o ensaio de Carlos Durão -"Síntese do reintegracionismo contemporâneo"), há os que são pelo acentuar da castelhanização do galego e outros ainda que pugnam por uma via autónoma, ligada à fala popular distanciada do português por oito séculos de deriva. Há também quem defenda uma versão mais radical, ainda que, em parte, apoiada na palavra do Professor Ricardo Carvalho Calero e cientificamente verdadeira. Digo em parte, porque o Professor sempre defendeu a integração do galego no universo da lusofonia – a tal tese radical é a de que o nosso idioma comum se devia chamar galego e não português. Tentando avaliar se esta corrente de opinião é minimamente válida (porque não devemos reagir contra tudo aquilo de que discordamos numa apreciação superficial), pedi reforços ao professor Ramon Villares e à sua «Historia de Galicia», um livrinho de bolso editado em castelhano, que em Agosto de 1988 me foi oferecido por um professor da Universidade de Santiago de Compostela.

Não vou recuar tanto no tempo como seria possível. Jorge Castro, num amável comentário a um texto anterior sobre este tema, sugere que a irmandade galego-portuguesa poderá ter raízes ancestrais, localizadas para lá da última grande glaciação (Teoria da Continuidade Paleolítica). É uma possibilidade cuja exploração deixo para quem saiba, mas que, a ser provada, nos daria conta de uma afinidade que não deve e não pode ser destruída; muito menos pela gula hegemónica de um estado artificial como o estado espanhol. Mas não iremos tão longe. Vamos só recuar até à época em que o condado de Portucale e o da Gallaeciae seguiram caminhos diferentes. Este é o evento histórico determinante da deriva do idioma.

Quando, em 1065, morreu Fernando I de Leão e Castela, reino de que os dois condados eram vassalos, o seu território foi dividido entre os filhos, ficando D. García com a Galiza, um território que se estendia até ao Mondego, pois Fernando I, o Magno, conquistara aos Mouros Lamego (1057), Viseu (1058) e Coimbra (1064) território que o conde governou entre 1065 e 1070. Deposto D. García e levado preso a Leão, a Galiza ficou transformada numa província de Leão, dirigida por sucessivos condes. Assim, em 1090 foi enviado para a Galiza como conde Raimundo de Borgonha, casado com D. Urraca, uma das filhas de Afonso VI. No ano seguinte, o condado portucalense foi entregue a Henrique de Borgonha, casado com a irmã de Urraca, D. Teresa. Quando Raimundo morreu, em 1107, verificou-se uma profunda crise política em que a nobreza galega participou activamente, tanto a laica ( Pedro Froilaz, conde de Traba), como a eclesiástica (D. Gelmírez. Uma parte desta nobreza aliou-se a D. Urraca, ligando-se à ideia imperial leonesa, enquanto outro grupo defendeu os direitos de Alfonso Raimúndez, filho de Urraca, que em 1109 foi proclamado rei da Galiza. Porém Alfonso Raimúndez, transformou-se, mercê da sua posição na linha dinástica, em Afonso VII de Castela e Leão, proclamando-se Imperator totius Hispaniae. De certo modo, foi o último rei da Galiza, pois, com ele, integrou-se na monarquia leonesa a nobreza galega mais rebelde, representada pela estirpe dos Traba.

O que nos diz respeito sabemos nós bem – Afonso Henriques, primo direito do autoproclamado imperador, queria um reino só para ele, venceu sua mãe, D. Teresa que alinhara com a nobreza galega, prestando vassalagem ao sobrinho, na batalha (ou escaramuça; ou torneio) de São Mamede, em 1128, e proclamou unilateralmente uma independência que só em 1143, pelo Tratado de Zamora, seria reconhecida pelo rei de Leão. Como José Mattoso salienta e Ramón Villares cita, a independência de Portugal não pressupõe qualquer reacção anti-galega, pois entre os que apoiaram o nosso Afonso I estavam famílias galegas, entre as quais a dos Traba, que procurava em Portugal o êxito que na Galiza lhes era negado.

Resumindo – a formação de Portugal obedeceu a causas complexas que remetem para diferenças existentes desde a época romana entre as regiões bracarense e lucense, que constituíam a Galécia. E como Villares sublinha, correspondeu também à «incapacidade da nobreza galega para se constituir em reino próprio desde os primeiros momentos da reconquista»; a expansão territorial portuguesa, seria feita a partir da parte meridional da Gallaecia, enquanto que a região lucense, mais recolhida sobre si mesma, inserida perifericamente na monarquia castelhana, mas ligada à Europa pelo cordão umbilical do Caminho de Santiago, iria desenvolver um conjunto de traços específicos que lhe permitiriam conservar a sua identidade ao longo da história até aos nossos dias.

Amanhã, continuamos esta reflexão.


publicado por Carlos Loures às 12:00
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Domingo, 14 de Novembro de 2010
Sempre Galiza! - coordenação Pedro Godinho: Síntese do reintegracionismo contemporâneo (7), por Carlos Durão

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (7)

por Carlos Durão


(continuação)

A “oficialização” da normativa ortográfica

Os manuais Gallego 1/2/3 foram publicados pelo Secretariado de Publicacións da Universidade de Santiago entre 1971 e 1974 sob a direção de C. García, com X.L. Couceiro, Guillermo Rojo e Antonio Santamarina, ajudados por Mª C. Ríos, I. Leis e L.F. Pensado, com a colaboração de Ramón Lorenzo; na p. 82 do derradeiro diz-se claramente que foi adotada uma posição “separatista” face ao português, que Klaus Bochmann chama “antilusismo decidido” (1986, 91: 25); ao explicar a génese do livro diz C. García: “Parece que nas Normas académicas [do 1970] hai unha tendencia lusizante [...] E, o que aínda é máis grave, as Normas neste senso tenden a favorecé-la desaparición dunha forma xenuinamente galega” (1971, 32: 133). Anos mais tarde, este homem, que presidia o departamento de "Filoloxía" românica da USC, declarou que para ele é tão estrangeiro o português de Lisboa como o chinês (1991: 257-259). Nisto ia bem acompanhado: Avelino Abuín de Tembra atribuía a Gonzalo Torrente Ballester o asserto “A un galego cóstalle tanto traballo aprende-lo portugués como o chino” (1983.1984: 85).

Em 1975 inclui-se na administração o "galego autonómico": Decreto 1433/1975, de 30 de Mayo, de incorporación de las lenguas nativas a los programas de E.G.B. y Educación Preescolar.

Em 1976-77 o ILG convoca encontros/seminários semanais sobre normativa. Entre os que tiveram mais peso na formulação das normas isolacionistas estavam Constantino García, Antón Santamarina, F. Fernández Rei, A. Torres Queiruga, X.L. Méndez Ferrín, Bernardino Graña, X. Alonso Montero; participaram nalgumas sessões: R. Carvalho Calero, F. Fernández del Riego, Ramón Piñeiro, Carlos Casares, Ramón Lorenzo, S. García-Bodaño, Alfredo Conde, Guillermo Rojo, Ricardo Palmás; o resultado foram as “Bases prá unificación das Normas lingüísticas do galego. Resume dos seminarios celebrados na Universidade de Santiago de Compostela desde decembro de 1976 a xuño de 1977” (1977.1980).

1977-78 é o período constituinte ou de "transición democrática" espanhola.

Em 1978 sai à luz a “Constitución española” (27 dezembro; BOE do 29); art. 3o 1.: “El castellano es la lengua española oficial del Estado. Todos los españoles tienen el deber de conocerla y el derecho de usarla./ 2. Las demás lenguas españolas serán también oficiales en las respectivas Comunidades Autónomas de acuerdo con sus Estatutos”.

Em 1979 publica-se o “Decreto de Bilingüismo”, Real Decreto 1981/1979, 20 julho; BOE 199 e 200, de 21 agosto; Decreto 43/1979, de 21 setembro, da Junta pré-autonómica, que cria a “Comisión de Lingüística”, presidida por Carvalho Calero; “Acuerdo de la Comisión Mixta Xunta da Galicia-M.E.C.”, de 29 setembro 1979, pelo que se cria a “Subcomisión de Programación y Textos”, presidida por A. Santamarina e da que fazia parte C. Casares.

Em 1979-80 elabora-se o Estatuto de Autonomia, que sai em 1981: Ley Orgánica 1/1981, de 6 de abril, del Estatuto de Autonomía para Galicia, cujo artigo 5o 1. diz: “La lengua propia de Galicia es el gallego. 2. Los idiomas gallego y castellano son oficiales en Galicia y todos tienen el derecho de conocerlos y usarlos”. É a chamada “lingua de seu” ou “galego autoidentificado” (na altura era muito utilizado pela direita galega o termo “autoidentificación”, com certos ressaibos de pureza étnica e/ou de Estado policial).

(continua)


publicado por estrolabio às 10:00
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Sábado, 13 de Novembro de 2010
Sempre Galiza! - coordenação Pedro Godinho: Síntese do reintegracionismo contemporâneo (6), por Carlos Durão

Síntese do reintegracionismo contemporâneo (6)

por Carlos Durão


(continuação)

O mencionado Grupo de Trabalho Galego de Londres foi fundado em 1970 e estava integrado por Teresa Barro, Xavier Toubes, Carlos Durão, Manuel Fernández-Gasalla e Fernando Pérez-Barreiro Nolla (não confundir com o hodierno http://www.grupotraballogalego.uk.net/; andando o tempo, aquela agrupação cindiu-se amistosamente num novo GTGL (2a, 3a e 4a etapas, sem alguns dos membros originais, e com outros novos, como Ricardo Palmás) e mais um Seminário de Estudos Galegos de Londres (em colaboração com a Comissão Cultural do Centro Galego de Londres, a Peña Cultural Española e a Inner London Education Authority (ILEA), no Hammersmith & North Kensington Adult Education Institute, do Greater London Council): vide C. Durão, "O Seminário de Estudos Galegos em Londres", ANT, no 262, 31 janeiro 1985, p. 19; posteriormente alguns membros deste GTGL participaram episodicamente em atividades da ASPG e IF e publicaram algumas considerações sobre o reintegracionismo, mas sem se decidirem a dar o passo de adotá-lo).

O GTGL publicava um Boletim quasi-bimestral para os mestres rurais se familiarizarem com aquela primeira Lei do Ensino. A sua seção de correspondência estava aberta não só aos mestres, mas também a qualquer pessoa interessada nos problemas do idioma galego, como os professores portugueses Agostinho da Silva e Rodrigues Lapa, e o escritor e pedagogo galego Ben-Cho-Shey.  Incluía um suplemento com material escolar.  Nos suplementos aos nos 7 e 8 (fevereiro e abril do 1972), o Boletim levava textos portugueses, com algumas instruções para facilitar a sua leitura.  No no 9 (Natal) fazia-se um primeiro intento de adaptar textos de Castelão à ortografia comum (de que foram precursoras as “semi-adaptações” do português António Sérgio em Seara Nova, no 333, p. 325, 1933; vide "Sobre a ortografía galega: unha iniciativa", C. Durão, Grial, no 53, 1976, pp. 361-4).

Publicou um Plano Pedagógico (1971, 32: 202-10), redação coletiva do Grupo, no que dizia: “o galego non é lingua minoritaria. É -aínda- a lingua da maioría do pobo galego, a de Portugal, Brasil, Angola, Mozambique e outros pobos de África e Asia” (1971, 32: 203); e ainda: “unha técnica pedagóxica que semella protexer as linguas vernáculas pode ser, en realidade, o instrumento de unha política que ten decidido eliminalas” (1971, 32: 206). O Grupo era bem consciente deste perigo, e no seu Boletim (1971, 4: 3) dedicou-lhe ao manual Gallego 1, do Instituto de la Lengua Gallega (fundado no 1971, presidido por Constantino García González, o inventor do "galego autonómico"), uma pequena crítica na que várias vezes notava o seu caráter autoritário, e a “policía rigurosa” que Constantino García propusera no seu inapresentável artigo “Orixen e problemas do método de galego” (1971, 32: 132).

(continua)


publicado por estrolabio às 10:00
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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010
Manifesto galego defende a restituição de Olivença a Portugal
Recuperamos este documento publicado pelo Grupo dos Amigos de Olivença, pois nele se reúnem duas causas que nos são caras - a questão de Olivença e a da língua e cultura galego-portuguesa:

Os problemas ibéricos são três, no que respeita a problemas internos: A remodelação do estado espanhol, reavendo-se Gibraltar. A integração do estado português, pela reintegração de Albuquerque e Olivença, e a anexação da Galiza. A Aliança Ibérica, como defesa do comum solo espiritual, invadido culturalmente pela França, e dividido territorialmente pela política da Inglaterra.»

Do mesmo modo que do lado de cá do Rio Minho vai despertando a consciência nacional sobre o problema fronteiriço de Olivença, também do lado de lá se vão ouvindo algumas vozes em defesa dos direitos portugueses sobre os 750 Km² que a Espanha mantém ilegalmente ocupados.



As duas margens do território Galaico-Português, acidentalmente separadas pela história, pelo menos até ao momento, começam a estar irmanadas num ideal comum - a reincorporação de Olivença nas fronteiras do Estado Português, a que se junta um outro ideal desejado por um crescente número de galegos: a reintegração da Galiza num Estado Lusófono, processo ansiado, por uns, numa perspectiva essencialmente cultural e linguística e idealizado, por outros, na plenitude da sua dimensão política e territorial.


 É claro, o apoio expresso pelos nacionalistas galegos à restituição de Olivença a Portugal. Do «Manifesto Nacionalista Galaico-Português», datado de 2005, transcrevemos do artigo 3º:


«Não somos contra a Espanha ou contra Castela, embora seja a elas que reivindicamos a nossa identidade e o respeito que lhe devem, incluindo, sendo caso disso, a devolução de Olivença, conforme estipulam os convénios internacionais. De resto, achamos necessário que as nações da Península, dentro do respeito mútuo, superem velhas desconfianças e visem antes a ideia de um maior conhecimento e de uma colaboração interpeninsular.»


No final do passado mês de Setembro, pondo em paralelo a situação da Galiza e de Olivença, Ângelo Brea, Secretário das Irmandades da Fala da Galiza e Portugal, afirmou, no âmbito do II Congresso Internacional da Literatura Lusófona, realizado em Santiago de Compostela, esta frase lapidar:

«A Galiza é uma imensa Olivença perdida para o Castelhano, quando quer ser lusófona.» Bieito Seivane Tápia, um dos mais acérrimos defensores do reintegracionismo galego, ousou defender os direitos portugueses sobre Olivença, fazendo publicar, a 4 de Maio do ano passado, no periódico de Ourense, La Región, um artigo redigido na sua língua materna, mas com a ortografia em Português. Não só desafiou as autoridades castelhanas que recorrem a todos os métodos para eliminar os opositores ao pretenso estado unitário espanhol, como expressou a sua determinação na defesa da língua galaico-portuguesa, alvo da mais bárbara repressão perpetrada pela Junta da Galiza a soldo das autoridades de Madrid no sentido de sujeitar a escrita do galego às normas ortográficas castelhanas, com vista a extirpar, no futuro, a identidade do verdadeiro povo irmão de Além-Minho.

Como preito de homenagem, transcrevemos aqui o seu texto, escrito em Galego tal qual se fala, mas com a ortografia portuguesa, conforme defendem, hoje, os reintegracionistas, que têm entre as suas aspirações a sujeição do Galego ao nosso famigerado Acordo Ortográfico e a inclusão da Galiza na Comunidade de Estados de Língua Portuguesa, à qual deve pertencer, de pleno direito, o Território de Olivença:

«É de justiça histórica lembrar algumha vez o caso de Olivença, a notável vila do Alentejo, hoje inclusa administrativamente na provincia de Badajoz.

Foi conquistada aos mouros por don Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal; e já no Tratado de Alcanizes, assinado entre Portugal e Espanha no ano 1297, era reconhecida a soberania portuguesa sobre essa cidade.

Porém, um mal dia de 1801, os exércitos espanhóis açulados polas pressões francesas atacarom Portugal: foi umha curta guerra conhecida como Guerra das Laranjas. Apesar de que nela mais umha vez Portugal preservou a sua integridade territorial, houvo umha excepçom: a entranhável vila alentejana de Olivença, que passou à posse espanhola.

Até hoje, em contra de todo e qualquer direito internacional e das próprias (e repetidas) promessas dos governos espanhóis (já formuladas no Congresso de Viena de 1815), Olivença nom foi devolta a Portugal. E se ainda ali nom se perdeu a nossa língua e cultura comúns, tem sido mercê dos esforços generosos de minorias que, agrupadas em associações culturais, tenhem conseguido pressionar até fazer que nas escolas de Olivença o nosso idioma se estude, ainda que seja só como segunda língua.

É bom lembrar isto embora seja só para reflectir sobre a pouca coerência dos sucessivos governos espanhóis que, umha e outra vez, reivindicam os seus direitos sobre Gibraltar utilizando os mesmos argumentos que preferem ignorar quando é a cidade de Olivença e os legítimos direitos de Portugal os que estám em causa.»

O facto de existirem galegos a defender os direitos portugueses sobre Olivença, deve merecer a reflexão dos portugueses de Aquém-Minho que, nas últimas décadas, tão frouxos se têm mostrado na defesa dos seus interesses e na afirmação dos seus direitos. Se a Galiza se assemelha a uma grande Olivença ainda irredenta para a galaico-portugalidade, a minagem de todas as nossas estruturas, por interesses e maquiavélicos planos castelhanos, deve deixar-nos bem alerta para a crescente oliventização de todo o nosso país. E, então, talvez Olivença tenha sido apenas um primeiro passo de um projecto mais vasto de uma península onde só há lugar para os fatídicos desígnios dos pérfidos poderes de Madrid e onde Portugal seja apenas ténue lembrança de uma «ilógica realidade histórica» que acidentalmente existiu durante mais de oito séculos.

(in Grupo dos Amigos de Olivença)


publicado por Carlos Loures às 09:03
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Sábado, 30 de Outubro de 2010
Carvalho Calero, na tradição galega da Linguística românica
Carlos Durão

Passados 20 anos da morte de Ricardo Carvalho Calero, e 100 do seu nascimento, continua na
Galiza o silenciamento da sua pessoalidade e da sua obra, tanto por parte das instituições como
daqueles inteletuais, de “direitas” ou de “esquerdas”, que decidiram seguir a política autonómica
isoladora do galego, a mesma do Estado Espanhol. É por isso que as associações reintegracionistas
galegas estão a celebrar o Ano Carvalho Calero com diversas atividades, culturais, pedagógicas,
lúdicas, que promovem a sua obra linguística e lembram a sua vida devotada à comunidade cívica
galega.

Lembremos brevemente alguns pontos da sua biografia. Nado em Ferrol no 1910, fez ali os seus
primeiros estudos, e ali realizou as suas primeiras atividades culturais e políticas galegas. Fez em
Santiago de Compostela estudos universitários, de Filosofia e Direito, relacionando-se com outros
estudantes do Seminário de Estudos Galegos e do Grupo “Nós”, nos anos da ditadura de Primo de
Rivera, e participando no movimento de resistência universitária.

Terminados os estudos de Direito (e posteriormente os de Filosofia), foi co-fundador do Partido
Galeguista e elaborou, com outros, o Anteprojeto do Estatuto de Autonomia da Galiza, que era
republicano e federal, e que foi plebiscitado e aprovado pouco antes da insurreição militar
espanhola que provocou a chamada guerra civil.

R. Carvalho Calero estava em Madri nessas datas, porque ali se apresentara a um concurso de
catedrático de liceu. Fiel à República, incorporou-se como miliciano ao seu Exército, participando
na defesa de Madri, e combatendo posteriormente noutras frentes. No final da guerra foi preso e no
1941 libertado sob vigilância, só lhe sendo permitido dedicar-se ao ensino privado.

No após-guerra desenvolveu, precariamente, o seu labor docente, de investigação e de criação
galega, no ensaio, no romance e no teatro. Desde o 1950 colaborou nos trabalhos da Editorial
Galaxia. E desde meados dos anos 60 foi professor de Língua e Literatura Galegas na Universidade
de Santiago, conseguindo essa Cadeira no 1972.

Quando se instauraram na Galiza as instituições autonómicas, no remate da ditadura, foi-lhe
encarregada a parte principal na Comissão que elaborou as Normas Ortográficas do Idioma Galego.
A sua formação linguística inclinou-o à recuperação da ortografia galega histórica, coincidente com
a normal nos países lusófonos, mas outros componentes da comissão discordaram diametralmente,
advogando por uma ortografia que não criasse problemas para o ensino do espanhol, isto é: uma
ortografia espanhola, junto com uma conceição da língua como sendo só espanhola e independente
da portuguesa.

Carvalho Calero demitiu-se, e a comissão foi dissolvida. Desde então, a sua posição dita
“reintegracionista” enfrentou-o aos funcionários ditos “isolacionistas”, que detinham o poder
autonómico. Mas o seu prestígio foi em aumento entre os estudantes universitários, como também
entre as associações culturais galegas que iriam conformando o campo reintegracionista: por isso
foi marginado na sua Cadeira e, na sua reforma, foi-lhe vedada qualquer participação linguística nos
meios “oficiais”.

No 1982 foram enfim impostas por Decreto umas novas Normas Ortográficas (“Morfolóxicas”),
ainda hoje vigentes, que consolidaram a satelização da nossa língua pelo castelhano, e o seu
conseguinte afastamento do português.

Sem renunciar nunca aos seus princípios, Carvalho Calero desenvolveu um intenso labor cultural,
arrequentando as novas gerações independentes do oficialismo, pelas que foi repetidamente
homenageado, ao tempo que foi postergado e odiado pelas autoridades. E continuou a sua obra de
criação e ensaio, consequente com os seus princípios continuadores da tradição galego-portuguesa.

Mas é hora de deixar que nos elucidem as palavras do nosso grande homem, ilustre máximo vulto
representante do movimento reintegracionista, ao lado de Guerra da Cal e Rodrigues Lapa, seus
amigos e colaboradores. Pela sua atualidade, as citas merecem certa extensão. Deixo as grafias
originais das diferentes datas de publicação.

“Umha língua tam ameaçada como o galego nom pode sobreviver senom apoiando-se nas demais
formas do sistema, quer dizer, reintegrando-se no complexo luso-galaico do qual geneticamente
forma parte [...] O galego ou é galego-português ou é galego-castelam [...] Umha concórdia
ortográfica, quando menos, e umha inteligência na opçom das formas lingüísticas que integrariam,
sem prejuízo das peculiaridades do galego, o veículo geral de comunicaçom, seriam
indispensáveis./ Deste jeito, seríamos o que somos, voltaríamos a ser o que fomos: o romance mais
ocidental, nom esnaquizado em dous anacos isolados, senom reintegrado numha unidade
sistemática que nom exclui a autonomia normativa” [...] “Alguns demagogos querem manter este
estado de alienaçom, e rejeitam como artificiosas as formas restauradas. Comovedora homenagem
de ignorância ou fanatismo ao mito do galego popular, se nom se trata de uma maquiavélica
manobra encaminhada a fazer impossível a supervivência do galego” (1)

“Com diversos matizes, o reintegracionismo propugna a rectificaçom da deriva anómala do galego
para o iberorrománico central, cujo arquetipo é o castelhano, e a recuperaçom da órbita natural do
sistema” (2)

“Algumas pessoas desinformadas tendem a apresentar-me como um inovador, como um
revolucionário polo que se refere ao conceito da nossa língua, mas as minhas opiniões, expressadas
naturalmente conforme aos meus próprios parâmetros pessoais, são sem embargo aquelas opiniões,
aqueles critérios que tradicionalmente se professam dentro do galeguismo. Uma doutrina
revolucionária é, por exemplo, a de que o Galego é uma língua que deve ser considerada
absolutamente independente dentro das Línguas da Românica. Isso sim pode ser considerado
inovador, ainda que com um tipo de revolução completamente contrário à realidade da experiência
histórica [...] eu realmente não creio que se me pode considerar um dos pais do reintegracionismo.
Mais bem sou um dos filhos, por que o reintegracionismo nasce cientificamente com o Romanismo,
e politicamente com o Galeguismo. [...] a mim correspondeu-me, como a outros colegas e
correligionários, precisar consoante as circunstâncias do meu tempo, uma doutrina que explicita ou
implicitamente era a doutrina geral do Romanismo e os propugnadores do Galeguismo professavam
desde que surgiram à luz. [...] O reintegracionismo, portanto, não é outra cousa que aquela doutrina
que quer devolver a sua própria natureza ao Galego.”
“[...] todo o mundo sabe que eu professo em matéria de Política Linguística as ideias tradicionais, as
ideias de Castelão, e como essas ideias são contrárias às ideias que reinam no mundo oficial, no
aspecto cultural, pois, não tenho muito predicamento, ao parecer, dentro dessas esferas.
Consideram-me como um herege, como um cismático, ou como um corruptor da mocidade, e se me
exclui positivamente dos organismos oficiais. Isto é evidente, ainda que tamém é certo que entre as
pessoas que formam parte desse “holding” cultural que hoje nos governa há gentes que conservam
um respeito pessoal para mim, alguns mesmo um afecto pessoal, mas é verdade que se me
considera um obstáculo para o desenvolvimento duma determinada Política Linguística e se me
exclui decididamente em geral do mundo cientificoliterário que está servido por pessoas afectas às
ideias reinantes, que são mais bem isolacionistas do que reintegracionistas [...]” (3)
“É certo que en determinadas reunións de lingüistas, por exemplo a celebrada en Tréveris, à que
non asistin, houvo duas ou tres persoas que se permitiron combater asañadamente os meus pontos
de vista. En realidade eles son os orixinais. Eu sigo a tradizón, eles son os revolucionários.”(4) “Eu
neste aspecto son absolutamente ortodoxo. Os heterodoxos son os que discrepan desta tradizón
galeguista na que eu estou plenamente incorporado” (5)
“Entón constitui ao meu xuízo unha cegueira dos políticos que nos governan, induzidos por
estudiosos ou técnicos que non posuen a necesária amplitude de espírito para ver o galego cunha
conceizón diacrónica, tratar de esmagar a estas persoas, a este grupo que propugna a reintegrazón
do galego dentro do sistema ibero-románico occidental; grupo que se ten acreditado como
numeroso, como responsável e como ben informado [...] Non me parece correcta a actitude da
Administrazón negando, por exemplo, a sua proteczón económica a empresas culturais importantes,
polo feito de que a expresón formal ortográfica dos solicitantes deses apoios estexa orientada à
reintegrazón do galego ao seio do sistema galego-portugués. En realidade, eses médios económicos
[...] son [...] subvenzóns, son bens, cuxo proprietário é o povo galego. E os reintegracionistas, a
verdade, cremo-nos parte dese povo galego, e nos parez unha actitude abusiva, absolutamente anticonstitucional, aquela que nos priva de disfrutar dunha proteczón económica que nos parece ser un
ben ao que devemos ter acceso todos os galegos” (6)

Mais sobre atividades do Ano Carvalho Calero http://www.carvalhocalero2010.net/ (Está prevista
para o dia 30 a inauguração dum monumento a R. Carvalho Calero na Alameda de Santiago de
Compostela)

Notas:


(1) “Sobre a nossa língua”, em Problemas da Língua Galega, Sá da Costa Editora, 1981, pp. 19-21,
conferência no Clube Lingüístico da Crunha, 7 fevereiro 1979
(2) “O português na Galiza”, em Letras galegas, Agal, pp. 24-25, 1984 (texto de 1983)
(3) “Entrevista com o professor Dr Ricardo Carvalho Calero”, por Ramom Reimunde, revista O
Ensino, nos 18-22, 1987, Homenagem ao professor Carvalho Calero, pp. 14-17
(4) em “Conversas en Compostela con Carballo Calero”, M.A. Fernán-Vello/F. Pillado Mayor, Eds.
Sotelo Blanco, 1986, p. 178
(5) ibid., p. 233
(6) ibid., p. 239-240
Algumas obras de R. Carvalho Calero: poética: Pretérito Imperfeito (1980); Futuro Condicional
(1982); Cantigas de Amigo e Outros Poemas (1986); Reticências... (1990).
ensaio: Sobre língua e literatura galega (1971); Estudos Rosalianos: aspectos da vida e obra de
Rosalia de Castro (1979); e Libros e Autores Galegos I (1979); Problemas da Língua Galega
(1981); Livros e Autores Galegos II (1982); Da Fala e da Escrita (1983); Letras Galegas (1984);
Escritos sobre Castelao (1989); Estudos e Ensaios sobre Literatura Galega (1989); Do Galego e da
Galiza (1990)
obra dramática e narrativa: A Sombra de Orfeu, Farsa das Zocas, A Árbore e Auto do Prisioneiro
(1971); Teatro Completo (1982); A Gente da Barreira e Outras Histórias (1982), Narrativa
Completa (1984); Scórpio (1987)
R. Carvalho Calero era membro ordinário da «Academia das Ciências de Lisboa», membro de
honra da «Associação Galega da Língua» (A.Ga.L), da «Associação de Escritores em Língua
Galega» (A.E.L.G.), das «Irmandades da Fala», e da “Real Academia Galega” (onde, com o seu
colega Jenaro Marinhas, manteve precariamente a dignidade da tradição da linguística românica)


publicado por Carlos Loures às 21:00
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Ricardo Carvalho Calero - Estamos no Ano Carvalho Calero
[Publicado em 6/10/2010 no PGL – Portal Galego da Língua www.pglingua.org ]

http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=2876:estamos-no-ano-carvalho-calero&catid=3:opiniom&Itemid=80&Itemid=36

Por José Paz Rodrigues (*)

(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.

É muito difícil para mim entender que se tenha tanto no esquecimento uma pessoa que sempre trabalhou durante décadas e décadas polo idioma galego e pola Galiza. D. Ricardo Carvalho Calero, que tivem a sorte de conhecer e tratar, há tempo que tinha que receber na Nossa Terra a homenagem que bem merece polo seu grande labor e amor pola Galiza. Académico que foi da RAG desde o ano 1958, em que entrou como tal com o seu discurso de ingresso sobre o tema: “Contribuiçom ao estudo das fontes literárias de Rosalia”, é ainda muito mais difícil compreender como esta instituiçom nom tenha decidido, como deveria ser, que se lhe dedicasse este ano a festividade das Letras Galegas.

Precisamente neste ano de 2010 cumprem-se os cem anos do seu nascimento e os vinte do seu passamento. D. Ricardo, que era como carinhosamente o tratávamos os seus discípulos e amigos, tinha nascido em Ferrol em 30 de outubro de 1910, falecendo em Compostela, onde morava, no dia 25 de março de 1990. Ademais da sua grande bondade e amor pola Terra, eu quero salientar as suas múltiplas virtudes como intelectual e polígrafo, cultivador de poesia, teatro, romance e ensaio literário, filológico ou sociolinguístico, além de brilhante orador. De verbo tam cálido, que era um prazer escuitá-lo ou tê-lo como interlocutor.

Em 1926 terminou o bacharelato e matriculou-se na Universidade de Compostela, onde estudou Direito e Filosofia e Letras, que terminou respetivamente em 1931 e 1936. Foi membro ativo do Seminário de Estudos Galegos (SEG), no qual ingressou em abril de 1927, chegando a exercer no mesmo de secretário-geral. Em 1931 será co-fundador do Partido Galeguista e elaborará com Luis Tobio o primeiro ante-projeto do Estatuto de Autonomia para a Galiza. A guerra do 36 surpreendeu-no em Madrid, onde se incorpora ao exército republicano. Ao final da mesma, em 1939, é julgado e condenado a doze anos de cárcere. No ano de 1941 regressa a Ferrol em liberdade controlada, dedicando-se ao ensino privado, ao nom lhe ser permitida a inscriçom para exercer no público.

Anos depois, em 1950, deslocará-se para trabalhar em Lugo, onde exercerá como professor e diretor do Colégio “Fingoi”. Um colégio modelo do ponto de vista pedagógico, ao pôr em prática os métodos e estratégias didáticas próprios da ILE de Giner e Cossio, fomentando nos alunos o amor polo teatro, a investigaçom do próprio entorno e todas as artes. Um dos seus docentes deste centro educativo foi o atual presidente da RAG, o que tanta fobia lhe tem a D. Ricardo, tam inexplicável que mesmo chegou a dizer recentemente uma autêntica barbaridade: “que antes que Carvalho há vinte para dedicar-lhes as Letras Galegas”.



Em 1955 doutora-se na Universidade Complutense com prémio extraordinário. Em 1972 ganha a primeira cátedra de Linguística e Literatura Galega da universidade compostelana, exercendo na mesma antes de professor interino de Galego. Em 1979 preside à Comissom Linguística da Conselharia de Cultura da Junta da Galiza, sendo conselheiro Alejandrino Fernández Barreiro. Esta comissom era a encarregada de elaborar uma normativa de concórdia para a nossa língua. Este seu trabalho foi deitado abaixo mais tarde, em 1982, polo famoso decreto Filgueira, que ainda padecemos hoje, sem ter em conta para nada as alternativas linguísticas equilibradas que propunha a comissom presidida por D. Ricardo. A finais dos anos setenta adere ao reintegracionismo linguístico.

Entre os muitos livros ensaísticos que publicou, quero destacar a História da Literatura Galega Contemporânea (1963), a Gramática Elemental do Galego Comum (1966), Problemas da Língua Galega (1981), Da fala e da escrita (1983), Letras Galegas (1984), Do Galego e da Galiza (1990) e Umha voz na Galiza (1992). Da sua obra de criaçom literária, bastante extensa também, brilha com luz própria o seu estupendo romance Scórpio (1989). Assim mesmo merecem ser destacados os seus livros Vieiros (1931), A gente da Barreira (1951), Saltério de Fingoi (1961), Pretérito imperfeito (1980), Futuro incondicional (1982), Teatro completo (1982), Cantigas de amigo e outros poemas (1986) e Reticências (1990).

Para conhecer o seu pensamento som também interessantes as leituras dos livros de conversas sustidas com ele por Carme Blanco, Pilhado Maior e Salinas Portugal, e o livro biográfico de Monteiro Santalha, Carvalho Calero e a sua obra. A Fundaçom “Meendinho”, da qual me honro fazer parte do seu conselho, está organizando uma campanha para levantar em Compostela um busto de D. Ricardo, agradecendo todo o tipo de contributos de pessoas particulares e das diferentes instituições públicas e privadas.

Na revista O Ensino, a cujo conselho de redaçom pertencim, como secretário, D. Ricardo, de forma premonitória chegou a dizer em 1987: “Todo o mundo sabe que eu professo em matéria lingüística as ideias tradicionais, as ideias de Castelao, e como estas ideias som contrárias às ideias que reinam no mundo oficial, no aspecto cultural, pois, nom tenho muito predicamento, ao parecer, dentro dessas esferas. Consideram-me como um herege, como um cismático, ou como um corruptor da mocidade e se me exclui positivamente dos organismos oficiais”.

Infelizmente, para descrédito das instituições oficiais, com a RAG à cabeça, a infâmia continua neste ano que tinha que ser o seu, e que por dignidade mereceria. Contudo, no ano de 1996, em acordo plenário, o Parlamento da Galiza nomeia-o por unanimidade Filho Ilustre da Galiza, ao mesmo tempo que instala a sua imensa biblioteca pessoal num local do próprio Parlamento. Tema este também muito silenciado. Merece tal tratamento, por parte do mundo oficial, este nosso intelectual coerente e honesto?


publicado por Carlos Loures às 18:00
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Leitura dum poema de Carvalho Calero por Pim Patinho na homenagem da Fundaçom Artábria no XVII aniversário da sua morte.
Ferrol, 1916

Cinco duros pagávamos de aluguer.
Era um terceiro andar, bem folgado.
Pola parte de atrás dava para o Campinho,
e por diante para a rua de Sam Francisco.
(...)
Ainda vivia minha mãe
e todos os meus irmaos viviam,
e em frente trabalhava o senhor Pedro o tanoeiro,
e a grande tenda de efeitos navais mantinha o seu trafego.
(...)
Via o mar da minha fiestra,
e chegavam cornetas da marinha.
E baixava os degraus duas vezes ao dia para ir à escola,
e duas vezes subia-os de volta.
(...)
As mulheres entom usavam capa e corsé,
e íamos à aldeia em coche de cavalos,
e a rua estava ateigada de pregons de sardinhas
e de ingleses que vendiam Bíblias.
(...)
Todo isto fica tam longe
que a duro podo ainda lembrá-lo.
Esquecia-o dentro de pouco
se nom escrevesse estes versos.
In 'Avalon', Futuro Condicional (1961-1980). Eds. do Castro, 1982.




publicado por Carlos Loures às 08:30
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Ricardo Carvalho Calero por ele mesmo


publicado por Carlos Loures às 03:00
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Ricardo Carvalho Calero recordado pela escritora María Xosé Queizán
Damos início a uma série de textos sobre a obra e a figura de Ricardo Carvalho Calero -  cujo centenário se comemora hoje e ao qual consagraremos por inteiro a nossa edição.

Dentro desse espírito, transcrevemos do Portal Galego da Língua,com a devida vénia, uma crónica da escritora María Xosé Queizán, na qual a autora de Despertar das amantes, destaca a importância de Carvalho Calero para a cultura galega, lamentando e denunciando o ostracismo a que foi condenado. 

Esta crónica foi colhida no semanário "A Nosa Terra", ao qual endereçamos também os nossos agradecimentos.
 
Começa Queizám a falar da casa natal de Carvalho, na parte velha de Ferrol. O prédio, em estado ruinoso, "pode servir como representaçom do desleixo das autoridades políticas e culturais galegas por esta figura exemplar do nosso pensamento e cultura", denuncia.  A seguir lembra as suas vivências pessoais e familiares com ele, narrando que, sendo ela criança, o vira em fotografia passeando com seu pai por Santiago de Compostela. Ambos, nascidos em 1910, eram "companheiros na faculdade de Direito, correligionários na FUE e colaboradores da revista RESOL".  Nom seria até 1962 que o conheceu pessoalmente. Foi em Lugo, e Carvalho "aledou-se ao abraçar a filha do seu perdido amigo". O relacionamento pessoal continuou ao se converter o ferrolano no primeiro crítico literário de Queizán, pois realizou a recensom do primeiro romance da escritora, A Orella no Buraco, em 1965. Mais tarde converteu-se "no meu querido professor" na matéria de Lingüística e Literatura Galega, cátedra que ganhou em 1972.  Nesta altura do artigo, Queizán só tem boas palavras para Carvalho Calero. "Pertenço à primeira promoçom da licenciatura de Galego-Português, grupo que mantemos o nosso agradecimento a tam insigne professor e somos conscientes, nom só do que significou o seu magistério, mas do imprescindível que foi a sua obra". Aliás, afirma que sem o trabalho investigador do professor, como a monumental História da Literatura Galega Contemporánea (1963), "nom seria possível instaurar tal licenciatura".  María Xosé Queizán finaliza o artigo para A Nosa Terra salientando que Carvalho Calero foi umha "pessoa séria, responsável, fiel aos seus princípios políticos, participa na criaçom do Partido Galeguista e na redaçom do Estatuto. Nom se concibe a cultura galega dos últimos 75 anos sem ele. Tampouco se entende a incúria em que o mantenhem".

(Na foto, casa onde Carvalho Calero nasceu, no Ferrol-Velho).


publicado por Carlos Loures às 01:30
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Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010
Ricardo Carvalho Calero - Amanhã dia 30 de Outubro, celebra-se o centenário de um dos maiores filólogos do nosso comum idioma.
Estrolabio dedica inteiramente a sua edição de amanhã à vida e à obra do  Professor  Ricardo Carvalho Calero. Assim, publicaremos uma série de textos, quer sobre a vida e obra do professor, quer sobre a unidade linguística constituída pelo galego-português, unidade que séculos de aculturação não conseguiram destruir.

Será uma edição especial da nossa secção bissemanal Sempre Galiza!



Porquê?

Carlos Loures

 Integrada no estado espanhol, a nação galega não pertence de jure ao espaço da lusofonia que abrange Portugal e algumas das suas ex-colónias onde o idioma português permaneceu como língua oficial. Entre os séculos IX e XV, a língua falada nos territórios da antiga província romana da Gallaecia, posteriormente dividida em condados e depois em duas nações, era uma variante neolatina – o galego-português (ou galaico-português). A poesia lírica produzida nesta região era escrita neste idioma que não só era utilizado pelos naturais, como, ultrapassando as suas fronteiras, chegava a Leão e Castela – as “Cantigas de Santa Maria”, obra do rei Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português. No século XII ocorreu a separação de Portugal da coroa leonesa.

A Galiza gozava também de alguma independência relativamente à gula castelhano-leonesa que se ia agudizando. Porém, no século XIV, a intervenção galega a favor de Pedro I de Castela contra Henrique Trastâmara, provocou, após a vitória deste último, o exílio de numerosos galegos em Portugal. Posteriormente, ao tomar posição por Joana, a Beltraneja contra Isabel I de Castela, a Galiza viu as suas instituições nacionais desmanteladas e a sua aristocracia novamente perseguida. De perda em perda, assinale-se que em 1601 o país era representado nas Cortes de Castela pela cidade leonesa de Zamora. Em suma: a Galiza deixara de existir, já não só enquanto estado, mas desaparecia também como nação.

No século XIX verificou-se um renascer do sentimento patriótico do povo galego. Foi nessa «revolução» político-literária que se inseriu a obra de Rosalía de Castro e de outros insignes escritores – talvez seja mesmo mais correcto afirmar que o galeguismo foi um produto do esforço desses intelectuais. Entre o século XV e os anos de Oitocentos, o idioma, nomeadamente a sua fonética, fora sendo invadido por castelhanismos. Foram os chamados «Anos Escuros». Com Rosalía e os seus Cantares Gallegos o farol do amor e do orgulho pátrios reacendeu-se – foi o «Rexurdimento». No século XX, o franquismo (embora Franco fosse galego) suprimiu todas as veleidades – a língua do Estado passou a ser o «espanhol» (deixando de se dizer «castelhano»). Por decisão política e à revelia da ciência linguística, o galego passou de idioma à categoria de dialecto rural.

Uma questão que se coloca desde há muito tempo - se português e galego são duas línguas diferentes ou duas formas dialectais da mesma língua? Carolina de Michaëlis respondeu afirmativamente e foi da opinião de que oi verdadeiro nome do idioma seria galego-português. Os reputados filólogos portugueses Lindley Cintra e Manuel Rodrigues Lapa, são da mesma opinião.

Na Galiza, as pessoas dividem-se entre «reintegracionistas» - os que preconizam a reintegração do galego no português-padrão - e numa outra corrente, os «antiintegracionistas» ou «isolacionistas», que defendem uma via autónoma, ligada à fala popular e distanciada do português de Portugal. O que, implicitamente, agrada mais a Madrid. Na realidade essa «fala popular», é o castrapo, um galego que há séculos é filtrado através do castelhano. Está tão invadido por castelhanismos que facilmente permite ser classificado como um dialecto do castelhano. Nas próximas horas daremos voz aos que nos garantem que o galego e o português são duas formas de falar a mesma língua. Entre essas vozes, destaca-se a do nosso homenageado, o Professor Ricardo Carvalho Calero.



publicado por Carlos Loures às 22:30
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Sábado, 16 de Outubro de 2010
Sempre Galiza!
Em breve Estrolabio iniciará uma rubrica bissemanal, a cargo de Pedro Godinho - Sempre Galiza! - dedicada à nação irmã, sua cultura e sua história - e à nossa língua comum. Deixamos aqui Leilía um grupo de pandereteiras galegas tradicionais, cantando «O Meu Amor».



publicado por Carlos Loures às 11:00
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EDITORIAL
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Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

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Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

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Fernando Correia da Silva

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