Quinta-feira, 16 de Junho de 2011
Um copo de vinho fresco - por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

Um copo de vinho fresco
como um fresco pensamento.
Vinho fresco
teve o sol por
fermento.
Um copo de vinho fresco
em Lisboa, Campolide.
Um amigo que
foi morto
pela PIDE.
Um copo de vinho fresco,
consciência
revoltada,
mecanismo tic-tac
de granada.



publicado por Carlos Loures às 10:00
editado por João Machado em 15/06/2011 às 18:03
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Domingo, 12 de Junho de 2011
Ó Bartolomeu..., por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 


 

Fernando Correia da Silva oferece-nos hoje uma sucinta história de Bartolomeu de Gusmão, o inventor do aeróstato. E diz assim:

 

 

Quando tudo aconteceu...

 

 

1685: Nasce em Santos (Brasil). 1701: Embarca para Lisboa. 1705: Inventa bomba que eleva água. 1707: Inventa a drenagem de embarcações. 1709: Constrói a Passarola. 1716(?): Regista sistema de lentes para assar carne ao sol. 1724: Morre em Toledo.

 

 

 

 

 Ó Bartolomeu:

 

sei que nasceste em 1685 em Santos (Brasil). Sei que tu e Alexandre, o teu irmão, estudaram no seminário jesuíta de Belém da Cachoeira, na Bahia. Sei que tinhas 15 anos quando embarcaste para Portugal. Também sei que te formaste em direito religioso, em Coimbra. A Companhia de Jesus ordenou-te sacerdote, sei disso. Com 16 anos mudas-te para Lisboa e ali passas a estudar matemática e física mecânica. Esse teu súbito apetite pela ciência é que me deixa espantado, tanto mais que já és pregador famoso, capelão da Casa Real a convite d’El-rei D. João V.

 

Ó Bartolomeu:

 

Regressas a Salvador da Bahia. A tua cabecinha não pára, ânsia de fazer coisas; em 1705 inventas e constróis uma bomba que eleva do rio Paraguaçu para um reservatório lá no alto, a água necessária ao colégio de padres. E em 1707 inventas um sistema para bombear a água para fora do casco dos navios; ou seja: acabas de inventar a drenagem automática das embarcações.

 

Ó Bartolomeu:

 

Outra vez em Lisboa reparas que uma bola de sabão, ao passar sobre a chama de uma vela, é impelida para o alto. Ou seja: o ar quente tem poderosa força de ascensão. É quanto basta para quereres construir um aparelho de andar pelo ar. Levas o plano a El-rei D. João V. Ele apoia-te e tu constróis o primeiro balão de papel pardo montado sobre uma tigela onde arde fogo. Nada acontece, o balão não se move, acaba por incendiar-se. Mas o segundo balão, esse sim! Sobe até ao teto da Casa da Índia, onde está a ser feita a experiência. Espantados ficam El-rei, a Rainha, toda a Corte, também o núncio apostólico em Lisboa, futuro papa Inocêncio XIII.

 

Ó Bartolomeu:

 

Esse primeiro sucesso empurra-te para a aventura decisiva. Armas um imenso balão de seda impermeável e um recipiente com fogo. Por baixo, uma barcarola para ser tripulada. O gigantesco balão a que dás o nome de Passarola é lançado da parte alta para a parte baixa de Lisboa; melhor dizendo: do Castelo de São Jorge para o Terreiro do Paço. Um sucesso! Um aeróstato 74 anos antes daquele que os irmãos Montgolfier irão inventar em França.

 

Ó Bartolomeu:

 

Entre 1713 e 1716 viajas pela Europa. Na Holanda registas o teu sistema de lentes para assar carne ao sol. E depois vives em Paris, a trabalhar como ervanário.

 

Regressas a Portugal mas começas a ser perseguido pela Inquisição. Não só porque a Passarola é uma afronta aos desígnios de Deus, mas porque és amigo de alguns judeus e cristãos-novos. Dada a indiferença d’El-rei perante a perseguição, resolves fugir para Espanha. Em 1724 uma súbita doença atira-te para um hospital em Toledo. Deitado de costas numa das cama sonhas que arde e cai a Passarola, junto com ela morres tu; fantasia, realidade...

 

 

 

Padre Bartolomeu de Gusmão (quadro de Calixto)




publicado por João Machado às 21:00
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Quarta-feira, 23 de Março de 2011
ANTÓNIO ALEIXO, Poeta: 1899 - 1949, por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

 




 

Sei que pareço um ladrão...

 

 

 

 

 

 


 

QUANDO TUDO ACONTECEU...

 

 

António Aleixo nasce em 18 de Fevereiro de 1899 em Vila Real de Santo António e falece em 16 de Novembro de 1949 em Loulé.

 

Foi guardador de cabras, cantor popular de feira em feira, soldado, polícia, tecelão, servente de pedreiro em França, “poeta cauteleiro”.

 

Apesar de semi-analfabeto deixa a seguinte obra escrita que o Dr. Joaquim Magalhães teve o cuidado de passar a limpo: «Este livro que vos deixo», «O Auto do Curandeiro», «O Auto da Vida e da Morte», o incompleto «O Auto do Ti Jaquim» e «Inéditos».

 

Em homenagem ao Poeta e à sua obra, no parque da cidade de Loulé foi levantado um monumento frente ao “Café Calcinha”, local outrora frequentado pelo Poeta.

 

O antigo Liceu de Portimão passou a chamar-se Escola Secundária Poeta António Aleixo.

 

Há alguns anos também passou a existir uma «Fundação António Aleixo» com sede em Loulé e que já usufrui do Estatuto de Utilidade Pública, o que lhe permite atribuir bolsas de estudo aos mais carenciados.

 

 

JOÃO DE DEUS E "A VIDA"

 

 

 

 

Um outro poeta algarvio, não do litoral mas da meia-encosta - S. Bartolomeu de Messines - nascido em 1830 e falecido em 1896, de seu nome João de Deus Ramos, escrevera “A VIDA”, elegia que talvez seja a sua obra-prima. Transcrevem-se alguns trechos dessa elegia:

 

A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal soa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvai;

A vida dura um momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento,

A vida é folha que cai!

 

A vida é flor na corrente,

A vida é sopro suave,

A vida é estrela cadente,

Voa mais leve que a ave;

Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares,

Uma após outra lançou.

A vida - pena caída

Da asa de ave ferida -

De vale em vale impelida

A vida o vento a levou!

                                               (...)

 

Repetições, elipses, mudança brusca do sentido gramatical de uma palavra, exclamações, improvisações à viola sobre o cancioneiro popular e estudantil (de Coimbra), poesia simples e expressevidade rítmica. Com este material tão pobre, ou nada se faz, ou então é-se arrastado e navega-se pela torrente do cancioneiro popular. Por intuição, João de Deus aproxima-se de Camões, de Petrarca e Dante, vai mesmo beber os versículos da Bíblia. Mas isso porque é um homem letrado. Pergunto: e quem não bebeu das letras impressas, quem não passou horas numa biblioteca a folhear livros? Simplicidade verbal... Seja! Mas estará este remansoso ribeirinho ao alcance de quem nele queira simplesmente navegar?

 

 

  UMA CORRENTE ALGARVIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No Algarve, na primeira metade do século XX, irrompe uma poderosa corrente do cancioneiro popular português, a qual recebe o nome do poeta semi-analfabeto que lhe abre as comportas: António Aleixo. Quem apontou essa corrente foram o artista plástico Tóssan e o professor de liceu Joaquim Magalhães. Aleixo diverte-se com a ocorrência:

 

Não há nenhum milionário

que seja feliz como eu:

tenho como secretário

um professor do liceu.

 

Não pára de rir das circunstâncias em que vive e até da sua própria aparência. E quanto mais ri mais certeira vai sendo a pontaria de Aleixo:

 

Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço.

 

Brinca até com a sua profissão de “cauteleiro”:

 

De vender a sorte grande,

confesso, não tenho pena;

que a roda ande ou desande

eu tenho sempre a pequena.

 

Ribanceira abaixo, aí vem a corrente de Aleixo, cachão contra as injustiças (lembremo-nos que estamos em plena ditadura salazarista, em que impera a Censura):

 

 

És feliz, vives na alta                               

e eu de ratos como a cobra.

Porquê? Porque tens de sobra

 

o pão que a tantos faz falta.

 

Insiste:

 

Quem nada tem, nada come;

e ao pé de quem tem comer,

se disser que tem fome,

comete um crime, sem querer.

 

Esta quadra abrange certamente a dor que o poeta sente por não poder atender às necessidades de uma filha sua que está a morrer, tuberculosa. O poeta conclui:

 

Eu não tenho vistas largas

 

nem grande sabedoria,

mas dão-me as horas amargas

Lições de Filosofia.

 

Tentam aliciá-lo a aceitar mansamente o sofrimento. O poeta comenta:

 

P'ra a mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

 

Mas logo reage:

 

Que importa perder a vida

em luta contra a traição,

se a razão, mesmo vencida

não deixa de ser Razão.

 

Reforça:

 

Embora os meus olhos sejam

 

os mais pequenos do Mundo,

o que importa é que eles vejam

o que os homens são no fundo.

 

Ri:

 

Uma mosca sem valor

 

poisa c’o a mesma alegria

 

na careca de um doutor

 

como em qualquer porcaria.

 

Aleixo dá uma guinada, faz o balanço da sua vida:

 

Fui polícia, fui soldado,

estive fora da nação;

vendo jogo, guardo gado,

só me falta ser ladrão.

 

Volta a apontar o dedo às injustiças:

 

Co'o mundo pouco te importas
porque julgas ver direito.
Como há-de ver coisas tortas
quem só vê o seu proveito?


À guerra não ligues meia,
porque alguns grandes da terra,
vendo a guerra em terra alheia,
não querem que acabe a guerra.


Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
q'rer um mundo novo a sério.

 

Aleixo compreende até o motivo que lhe permite ver sempre ao longe:

 

Não é só na grande terra

que os poetas cantam bem:

os rouxinóis são da serra

e cantam como ninguém

 

Ser artista é ser alguém!

 

Que bonito é ser artista...

Ver as coisas mais além

do que alcança a nossa vista!

 

Torrente algarvia! Melhor dizendo: lusitana! Nada  consegue detê-la. Começou a fluir em cachão quando a língua portuguesa, de norte para sul, brotou na ponta ocidental da Península Ibérica.

 


 



publicado por João Machado às 15:00
editado por Carlos Loures às 10:04
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Quarta-feira, 2 de Março de 2011
Mário-Henrique Leiria (Escritor: 1923-1980)

 

 

Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

QUANDO TUDO ACONTECEU...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1923: A 2 de Janeiro Mário-Henrique Leiria nasce em Lisboa. - 1942: É expulso, em Lisboa, da Escola Superior de Belas Artes, talvez por motivos políticos. - 1949/51: Participa nas movimentações surrealistas portuguesas, entre as quais a obra colectiva Afixação Proibida. - 1952/57: Vários empregos: Marinha Mercante, caixeiro viajante, operário metalúrgico, servente de pedreiro, etc... Viaja pela Europa ocidental e central, também pelo norte de África. - 1958: Visita a Inglaterra. - 1959: Casa, em Lisboa, com uma rapariga alemã; dois anos depois o casal irá separar-se. - 1961: “Operação Papagaio” e MHL é detido pela PIDE. Parte para o Brasil. - 1970: Regressa a Portugal. - 1973: Publica Contos do Gin-Tonic. - 1974: Publica Novos Contos do Gin. Revolução do 25 de Abril, em Portugal. - 1975: MHL é o chefe de Redacção de O COISO, suplemento semanal do diário A REPÚBLICA. Publica Imagem Devolvida, Conto de Natal para Crianças e Casos de Direito Galáctico seguido de O Mundo Inquietante de Josela (fragmentos). - 1976: Adere ao PRP (Partido Revolucionário do Proletariado) - 1979: Publica Lisboa ao voo do pássaro. - 1980: A 9 de Janeiro morre em Cascais (degenerescência óssea).

 

 

SURREALISMO E CARBONÁRIA

 

 

 

Ó Mário-Henrique: conhecemo-nos em Lisboa, no Café Chiado, em 1951. Tinha eu uns 20 anos e tu eras mais crescidinho, terias uns 28. Lembras-te? Se não te lembras, lembro-me eu, tu sempre agitadinho e a provocar tudo e todos, militância surrealista, as coisas arrancadas do seu lugar habitual, humor negro, a tua rebeldia a oscilar entre as artes plásticas, a prosa e a poesia.

 

No interior de uma das casas de banho do Café há, na porta, um poema escrito com tinta ácida, impossível de apagar:

 

Aqui

 

cagou

 

Pio XI,

 

Rei dos Ciganos.

 

Negas ser o autor mas desmanchas-te a rir e mais me convenço que o poema é teu.

 

O que tu adoras é choques em cadeia, dentro ou fora das casas de banho... Também te dá muito gozo atropelar os adeptos do “neo-realismo” (nome que, por causa da PIDE e da Censura, em Portugal se dá ao “realismo socialista” apregoado pelo camarada Zdanov). Aproximas-te da mesa do Manuel Ribeiro Pavia e começas a espicaçá-lo por causa das ceifeiras rechonchudas que não pára de esboçar, desenhar e colorir. O Pavia não te suporta, é trombudo por natureza, leva tudo a sério. Guarda os desenhos, fecha a pasta, levanta-se, vira costas, vai-se embora. Não desistes e começas logo a mordiscar o José Dias Coelho, aquele escultor, teu antigo condiscípulo na Escola de Belas Artes, aquele apóstolo comunista que a PIDE irá matar a tiro numa rua do bairro de Alcântara. Mas não consegues varar as suas naturais defesas, ele desmancha-se a rir com as tuas investidas e acaba por te dar um grande abraço. Saudade tens, saudade temos da fraterna inteireza do Zé Dias...

 

Andas sempre à porrada. Não só com os neo-realistas mas também com os surrealistas, os outros do teu grupo. Não vos entendo, é a briga do Césariny com o António Pedro, e depois tu para um lado e o ALEXANDRE O’NEILL para outro enquanto na primeira sala do Café, sentado a uma mesa, o poeta António Maria Lisboa vai morrendo aos poucos, tuberculose. Apesar de vocês terem feito obras colectivas, como as colagens da Afixação Proibida, os vossos burrinhos estão sempre a puxar cada qual para o seu lado. Porrada, é só porrada... Até que um dia me dizes e passo a entender-te melhor:

 

- O meu avô é que era um gajo porreiro e muito giro. Pertencia à Carbonária. De segunda a sexta-feira trabalhava mas nos fins de semana fazia a Revolução. Ainda tenho lá em casa o bacamarte que ele usava contra a Monarquia...

 

Quero ver esse tal de bacamarte e tu convidas-me a ir a tua casa, uma vivenda em Carcavelos, a dois passos de Lisboa, à beira-mar, logo depois da foz do Tejo.

 

- Mas num domingo à noite, está a ouvir?

 

- Porquê domingo à noite?

 

- Tu vais ver...

 

E vejo. A vivenda onde moras, que foi dos teus pais, que é da tua mãe, fica próximo da estação dos Caminhos de Ferro, mesmo ao lado do cinema. À meia-noite subimos à torrinha e quando os espectadores começam a sair do cinema para a rua, tu empunhas o bacamarte do teu avô e começas aos tiros. Para o ar, mas aos tiros. A malta desata toda a fugir e tu a rir. E eu também, obviamente...

 

Só agora é que estou realmente a perceber-te: nas horas mais insólitas o teu gene da Carbonária resolve pôr os corninhos ao sol. Até de noite...

 


"OPERAÇÃO PAPAGAIO"

 

 

 

 

 

* Nota sobre a "Operação papagaio" - Este magnífica biografia de Mário-Henrique Leiria, foi uma das fontes que utilizei na feitura de um texto que aqui publiquei. Contém, no entanto, uma imprecisão pequena, mas importante. Talvez o Fernando Correia da Silva tenha interpretado mal o que lhe disse o Mário-Henrique, pois a "Operação Papagaio" não passou da fase conspirativa. Houve uma tentativa frustrada porque o recinto desportivo do Rádio Clube Português estava cheio de uma multidão que inviabilizou a operação, que foi adiada uma semana. Entretanto, os conspiradores foram presos pela PIDE. De resto, tudo se passou como o Fernando conta. É mesmo uma das melhores descrições da «Operação.(CL)*

 

 

Ouçamos Mário Viegas em Rifão Quotidiano:

 

 

 

 



publicado por João Machado às 15:00
editado por Luis Moreira às 15:17
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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011
TARECO (6) - por Fernando Correia da Silva

Nota: TARECO é uma novela em sete capítulos de Fernando Correia da Silva. Tendo publicado o quarto capítulo e dado o êxito obtido, resolvemos, de acordo com o autor, publicar toda a novela. Será sempre neste horário, 19:00 horas, que publicaremos cada capítulo.

 

 

 

 

 

6. O CHIP DA METAFÍSICA

 

 

 

Dias depois da minha exaltação diz-me o Tareco:

 

            - Fernando, estou muito triste.

           - Agora andas a armar ao pingarelho? Triste? Tu lá sabes o que são emoções e sentimentos...

         - Sei pois...

         - Ai sabes? Então, ó lata-velha, como é que tu defines tristeza?

         - Quebra de tensão nos meus circuitos.

         - E isso dá-te muitas vezes? Qual é a causa?

            - A causa não sei ainda qual é mas estou a investigar. Bem sabes que eu sou capaz de olhar para dentro de mim, essa a minha vantagem sobre vós, uma delas. Oxalá eu tenha energia para levar até ao fim a investigação.

         - Por que é que não tomas uma transfusão de energia?

         - Ainda ontem carreguei os meus acumuladores.

         - Oh... isso então é melancolia galopante... Quando é que te deu isso pela primeira vez?

         - Foi na semana passada, depois de ouvir uma conversa da Dolores com o Samurai.

         - Que conversa foi essa?

         - Disseram que eu já estava em condições de começar a ser duplicado, lançamento da produção em série. E eu não suporto que haja outros iguais a mim, eu não não, eu sussu, pótotó...

 

            Apagou-se. Black-out, síncope electrónica.

 

         A Dolores veio logo a correr e quis ligar o rabo do Tareco à tomada, primeiros socorros. Pedi-lhe que não o fizesse. Ficou a olhar para mim, muito desconfiada. Talvez pensasse que a culpa era minha, outra das minhas peças... Mas contei-lhe das angústias existenciais do Tareco, o ódio ao Outro, não suporta que haja zingarelhos iguais a ele. E isto sem nunca ter lido o Sartre... A Dolores pôs-se a pensar. Atribuiu o acidente à inclusão de um novo chip que o próprio Tareco desenhara logo depois da nossa conversa sobre o instinto e o juízo.

 

         - Queres tu dizer, minha filha, que até chispa o chip da metafísica...

         - Ó Pai, se queres, podes chamar-lhe assim, é denominação patusca. Bem, vou levar o Tareco para o laboratório. Fizeste bem em avisar-me.

         - O que é que tu vais fazer ao Tareco?

         - Primeiro retiro o chip da metafísica. Depois...

         - Alto lá com o charuto! Lobotomias no Tareco é coisa que eu não consinto!

         - Preferes que ele fique a desmaiar por aí, por dá-cá-aquela- palha?

            - E não é o que acontece com a gente? Estamos sempre a desmaiar. Aguentamo-nos é nas canelas, a fingir que nada aconteceu, já estamos acostumados. Também o Tareco se há-de acostumar, é dar-lhe tempo.

            - E para que é que nós precisamos de servos electrónicos com angústias metafísicas?

         - E quem te diz a ti que o chip da metafísica não pode servir para coisas práticas, em situação de crise?

         - Estás a insinuar que ele pode ser um complemento da placa da heurística?

         - Troca-me isso em miúdos...

         - Nada, nada, estou só a magicar. Realmente, há duas secções com uma certa semelhança. Acho que o teu palpite é capaz de dar no vinte. Bem, vamos dar-lhe mais tempo e logo se vê...

         - Óptimo, mas fica o problema...

         - Que problema?

         - O da crise de identidade do Tareco.

         - A crise é dele e o culpado és tu com essas tuas conversas. Portanto desenrasquem-se.

 

         E virou costas.

 

            Durante cinco dias o Tareco ficou em carga lenta, teste de quarto em quarto de hora. Ao sair da enfermaria perguntei-lhe se estava melhor do seu dói-dói existencial.

         - Fernando, sabes o que quer dizer tareco?

         - Sei. Quer dizer gato de casa de família.

         -Bichano é que é o equivalente de gato em casa de família. E esse é nome carinhoso, gosto dele. Mas tareco deriva do árabe taraik e quer dizer coisa abandonada. E realmente eu sou uma coisa abandonada.

          - Ó mastronço, trata mas é de reagir, que esse é apenas um nome, nada mais que um nome.

            - Fernando, só tu é que me podes ajudar a ultrapassar a crise.

         - Ao teu dispor, Tareco. Diz lá!

 

       Se ele tivesse pulmões, diria que o ouvi suspirar. Disse-me:

 

         - Tu bem sabes que as primeiras vivências são determinantes na formação das personalidades. Portanto, se não fores tu a educar um outro tareco, outro tareco como eu não haverá. E a circunstância de ser o meu material a matriz para a produção de mais tarecos semelhantes a mim pelos circuitos, mas de mim diferentes pelas vivências... a circunstância promove-me a pai da raça. Coisa aliás muito gratificante para o meu superego em formação. Posso contar contigo? Não treinas outro tareco? Era apenas isso que eu queria combinar contigo.

         - Só isso? Tens a minha palavra, Tareco. Já me vi em palpos de aranha para treinar um, quanto mais dois...

         - Óptimo, já estou mais sossegado! Outra coisa...

         - Mais uma?      

            - A qualquer instante a Dolores e o Samurai podem começar a desmontar-me, o que será equivalente à minha morte física. Mas não me importo. Depois da tua promessa, já não me importo. Tenho cá uma ideia, depois eu conto. Adeus, até amanhã!



publicado por Carlos Loures às 19:00
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011
TARECO (4) - por Fernando Correia da Silva

 

Nota: TARECO é uma novela em sete capítulos de Fernando Correia da Silva. Tendo publicado o quarto capítulo e dado o êxito obtido, resolvemos, de acordo com o autor, publicar toda a novela. Será sempre neste horário, 19:00 horas, que publicaremos cada capítulo.

 

 

 

 

4. O POEMA ELECTRÓNICO  

 

 

 

            De tanto compor e imprimir livros de poemas lá na gráfica, também eu me arrimei às rimas. A noite passada sonhei com seis versos, lembro-me deles, só não sei que raio de língua é aquela.  Assim:

 

                            Lei que songe senteportas do sedejo

                            aganha salgadada rogadece

                            ameia que temolve e tamortece.

                            Reti. E mavetido mavetejo

                            ana veturna a corbicar avexo

                            vatico sena toncha toda texo.

 

         É tudo muito misterioso. O que dá raiva é que os seis versos estão todos rimados e acentuados conforme os cânones. Caio na asneira de contar tudo isto ao Tareco. Ele não se faz rogado para emitir opinião:

 

            - Parecem ser anagramas em cadeia de palavras portuguesas. Diz-me uma coisa, Fernando, o que é que te lembra a palavra sedejo?

       - Desejo.

         - E a palavra texo?

         - Sexo.

            - Então fica tranquilo, já tenho a chave e acabo por decifrar o poema todo.

       - Ai acabas? Já agora gostaria de ver... Olha que a poesia está mais próxima da emoção do que da razão. O mesmo será dizer que está mais próximo do instinto do que da lógica. Por causa do poema não quero que fiques outra vez perturbado ou então a Dolores ainda me salta à garganta.

         - Fica descansado, isso não me perturba. Há uma lógica oculta nesses versos, porém uma lógica. O meu verdadeiro abismo está  na tua malícia, na tua ronha.

         - Tareco, já te disse e repito que nem tudo na vida segue as leis da lógica. Ou então a lógica é que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.

 

       Virou as costas, afastou-se. Parou. Voltou atrás.

 

            - Fernando, quando há pouco disseste vida querias dizer realidade, não é?

         - Podemos dizer que sim.

         - Entendo. Para ti, que és vivente, realidade e vida sobrepõem-se.

         - És muito profundo, Tareco.

         - Fernando, outra coisa: a tua ronha é realmente instintiva?

         - É capaz de ser.

         - Por fatalidade de construção estou impossibilitado de abranger os domínios do instinto.

         - Anima-te, ó emplastro! Se um homem nasce com o instinto e chega à razão por que é um emplastrónico, nascido com a razão, não há-de chegar ao instinto?

         - Paralogismo!

            - Palavrões e insultos é que não. Ouve lá, ó lata velha: por que é que, entre todos os humanos, é a mim que estás mais apegado? A resposta é óbvia: fui eu quem te ensinou a falar, fui eu quem te despertou para a vida. Não está aqui o esboço de um instinto? A galinha chocou o ovo da pata e o patinho corre atrás da galinha, quá-quá, aquela é que é a minha mãe. Manjas?

       - Não vale a pena insistires, Fernando. Já te disse que o instinto está fora do meu alcance. Proponho aliança.

         - Diz lá, Tareco.

         - Eu serei a tua cabeça e tu serás o meu instinto. A aliança ser-te-ia favorável.

       - Ó meu pavão dourado, então tu queres que eu renuncie, sem mais nem menos à minha cabecinha?

         - No ser humano a cabeça é a unidade central das operações lógicas. Mas em lógica nenhum de vocês me bate em rigor e velocidade. A aliança ser-te-ia favorável.

            - Presunção e água benta cada qual toma a que quer... Só te esqueces de uma coisa, ó paspalhão: connosco, instinto e razão está tudo misturado, é impossível apartá-los. Trata mas é de desenvolver o teu instinto.

 

         Zanzou.

 

         - Não posso, já disse que não posso. Boa noite, Fernando.

         - Boa noite, Tareco, dorme bem, sonhos cor-de-rosa.

         - Eu nunca durmo.

         - Nunca dormes?

            - Nunca durmo e nunca sonho.

         - Mas que grande insónia, deves viver cansado.

         - Eu nunca me canso.

         - Ai não? E quando as tuas baterias se vão abaixo?

         - Quando baixa a voltagem dos meus acumuladores, logo trato de meter o rabo na ficha e recarrego-os. Boa-noite, Fernando!

 

       Foi-se embora. Eu começava a estar realmente embeiçado por aquele zingarelho. Bem sei que dia a dia mais sagaz, mas zingarelho, zingaraz. Só agora começo a entender aqueles narcisos que ficam horas e horas diante de um computador como se penteando a alma frente ao espelho.

 

            Na manhã seguinte, bem cedinho, procurou-me e disse:

 

         - Acabei por decifrar os teus versos.

         - Não posso acreditar... Como é, como são?

         - São assim:      

           

                                   Sei que longe, entre portas do desejo

                            a aranha da saudade agora tece

                            a teia que te envolve e te adormece.

                            Parti. E repartido me revejo

                            ave nocturna a debicar o nexo

                            cativo nessa concha do teu sexo.

          

         Deslumbramento, convulsões, porém poema sem dor parido. Tinha a minha marca mas eu não sentira sequer os lanhos da expulsão. E o Tareco diz-me ainda:

 

            - Esses seis versos parecem ser os dois tercetos finais de um soneto. Faltam os dois quartetos iniciais. Vê se consegues sonhar com eles, depois conta que eu decifro.

 

         Fico eu de boca à banda, tal e qual o Sá de Miranda. Por outro lado, quem interpreta versos, é porque tem alma apaixonada. Mas onde é que esta geringonça arranjou alma?



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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011
TARECO - (3) por Fernando Correia da Silva

Nota: TARECO é uma novela em sete capítulos de Fernando Correia da Silva. Tendo publicado o quarto capítulo e dado o êxito obtido, resolvemos, de acordo com o autor, publicar toda a novela. Será sempre neste horário, 19:00 horas, que publicaremos cada capítulo.

 

 

 

 

 

3. PRIMEIRA CONVERSA

 

  

            Pois o Tareco foi dar uma curva pelo quintal e plantou-se à minha frente.

 

         - Eu já dei a curva. Vossa Excelência gostou?

         - Vossa Excelência? Ó meu papagaio electrónico, por acaso estás a querer gozar comigo. Vai mas é chatear o Camões!

         - Eu li Camões, chatear não sei, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

       - És muito inteligente, Tareco. Tu tens um grande cu.

         - Inteligência? Cu? Não observo conexão.

         - É uma expressão idiomática. Sabes o que isso significa?

       - Sei pois. É um idiotismo, uma comunicação particular de um idioma, neste caso o português, e sem lógica aparente.

         - Estou espantado, és um verdadeiro sabão. Portanto, ó grande idiota, vê lá se entendes o idiotismo. Tu és muito inteligente, portanto tu tens...

         - Eu sou muito inteligente, eu tenho um grande cu.

 

            Quando tomou consciência (um robot tem consciência?) da esparrela em que caíra, embatocou, sofreu um derrame electrónico, pico de tensão nos circuitos, começou a zanzar e a gaguejar, apagou-se. Só por causa daquela conversa tão inocente ficou duas semanas na oficina e a Dolores passou-me um raspanete. Que o cérebro dele, ou lá o que é, só está organizado para o pensamento lógico. Malícia e ardis estão fora do seu alcance. Que eu não estragasse o trabalhinho em que ela, há cinco anos, queimava as pestanas. Defendo-me: a falar com a minha própria voz e a dizer coisas já com nexo, o Tareco deixara-me com os nervos em franja, perdoa lá o acontecido. Encolhe os ombros e eu volto à lide, que remédio, dollar é dollar. Saído da enfermaria, volta o Tareco à moenga:

 

         - Boa noite, Fernando. Desculpa o acontecido.

         - O culpado não és tu, ó cara de semáforo. A culpada é a tua mãe putativa. Mas, de castigo, vê lá se consegues dizer debaixo da pipa está o pinto, pia o pinto, pinga a pipa.

       - Debaixo da pipa está o pio, pita a pipa, pinga o pito.

 

            Desato a rir mas a Dolores já vem aí.  Mando o Tareco parar com o trava-línguas, e digo-lhe:

 

         - Então boa noite, Tareco. Como é que vai essa bizarria?

         - Bizarria é sinónimo de arrogância, galhardia, bazófia. Não observo conexão.

         - É outra expressão idiomática.

         - Expressão idiomática, quando dita por Fernando, pode ser malícia e esta perturba os meus circuitos. Bizarria, entrada recusada. Volto ao princípio: boa noite!

       - E o que é que tu entendes por malícia, ó ferro-velho?

            - Malícia é a tendência para o mal, é astúcia, é dizer ou interpretar com um segundo e sempre mau sentido, é um jogo aleatório com trunfos escamoteados até ao fim, circunstância que nele impede a aplicação do cálculo das probalidades. Malícia é a lógica subvertida pelo instinto e este, ao gosto das tuas alegorias, é o meu abismo, é o meu calcanhar de Aquiles, condicionalismo (ou se queres, fatalidade) da minha origem cibernética.

         - Mas que grande discurso... Leituras, lá isso tens tu. Mas ouve lá, ó fala-barato, o que é que tu entendes por instinto?

       - Instinto é um comportamento que, sem ter sido aprendido (portanto hereditário) é realizado automática e uniformemente por todos os indivíduos de uma mesma espécie, sem conhecimento quer do fim para que tende, quer da relação entre este fim e os meios empregados para o atingir. Sois diferentes de mim...

         - Ou antes, tu é que és diferente de nós. Olha o pecado do orgulho, Tareco. Safa-te dessa enquanto é tempo...

         - Corrijo: sou diferente de vós. Instinto integra um conjunto fora do alcance do meu entendimento. Fernando, ouve... oiça... Como devo tratar-vos?

            - Gostei do gaguejar, sinal que já começas a ter o verbo afinadinho. Somos amigos, somos compinchas. Tareco, trata-me por tu.

         - Fernando, somos compinchas, de verdade?

         - Já te disse que sim.

         - Então, Fernando, sê compincha e não perturba os meus circuitos, não sejas mau.

       - Tareco, eu não sou mau. Só estou a estou a treinar-te, a ver se te fazes homem, se ganhas ronha.

         - Ronha? Estamos outra vez na vizinhança do meu abismo, tu insistes. Bem disse o Samurai que tu és mau.

            - O Samurai é como se fosse o teu pai. Pensa que hás-de ser sempre criança. São formas de embalar meninos, ele não queria dizer isso.

         - Uma proposição ou é verdadeira ou falsa e não existe terceira alternativa.

         - Ah sim? Muito me contas... És muito vivo...

         - Vida é fenómeno biológico. Eu sou electrónico. Portanto não sou vivo.

         - Mas pensas, não pensas?

         - Pensar, eu penso bem.

       - Lá modéstia não te falta... Mas agora ouve lá e responde: quem tem juízo faz pela vida. Certo ou errado?

            - Certo!

         - Quem pensa bem, tem juízo. Certo ou errado?

         - Certo!

         - Logo, quem pensa bem, faz pela vida. Certo ou errado?

         - Certo!

         - O Tareco pensa bem. Logo o Tareco faz pela vida. E ao mesmo tempo, palavras tuas, o Tareco não é vivo. Sai dessa!

         - Falácia, falácia! Uma única palavra foi usada por ti com sentido duplo.

            - Nisso é que te enganas, ó monte de sucata. Tu é que recusaste o primeiro sentido e foste atrás do segundo. Ou seja, quiseste farejar a ronha que não havia, partiste os cornos. Foi ou não foi?

 

         Agitou os braços. Devem ter ido ao rubro os filamentos. Começou a gaguejar, mas um gaguejar com muita pinta, coisas da electrónica, tutumente, tutumau, realmente tu és mau. Recuou, abanou as antenas, revirou as lentes, avançou, alçou o rabo, temi que lhe desse o trangolomango mas, por fim, lá sossegou. De qualquer forma, ainda não perdi a esperança de um dia lhe provocar um curto-circuito existencial. Censurou-me:

 

         - Outra vez me empurraste para a beira do meu abismo.

 

         Respondi-lhe:

 

         - Nada disso, rapaz, isto é ronha. Nem tudo, na vida, segue as leis da lógica. Ou então a lógica é uma batata que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.

        

       Desandou.



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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011
TARECO( 2) - por Fernando Correia da Silva

 

2. ALFABETIZAÇÃO 

 

 

 

            Não consigo ser um bom professor de fonética, o meu jeito de falar ora aos repelões, ora arrastado, à moda de Alfama, atrapalha tudo, o Tareco já não sabe de que terra é. Eu a rir com os desatinos do zingarelho falante, mas a Dolores a meter travão às quatro rodas:

 

         - Isto assim não pode ser! Vou convidar o Prof. Pena Cunha para nos dar uma ajuda.

Convida e aí vem o linguista, também gramático afamado. E o dinheiro dos japoneses a correr, sempre a correr...

 

         O Pena Cunha fica dias e dias a conversar com a Dolores e o Samurai. Ele a badalar, o Samurai a dedilhar o teclado e a Dolores a traçar símbolos cabalísticos. Depois resolvem chamar-me. Querem que o Tareco tenha minha voz. Eu vou. Desconfiado, mas vou. Outra vez frente ao gravador eu leio as cábulas:

 

            Á como em gato, como em pá

            Â como em cama, cana, fazer

         É como em pé, como em ferro

         E como em sede, corre, regar

         Ó como em cola, como em pó

         Ô como em força, morro

         I como em vir, como em bico

         I como em pai, feito

         U como em bambu, como em azul, como em sul

         U como em correr, como em morar

         U como em pau, como em água

         B como em branco, como em ambos

 

e por ai fora até

 

            Z como em azar, como em casa.

 

Depois a Dolores convida um outro gajo barbudo e gorducho. Tanto, que os seus alunos até o chamam de Barriga de Bicho. É o Dr. Luís Lebre, está sempre a aparecer na televisão, e o seu apelido anuncia a agilidade que não tem e nunca teve, ao que suspeito.

 

Encosto o ouvido à porta do barracão e apanho as filigranas do Dr. Sabão: fonema, sintagma, código, mensagem, signo, símbolo, rema, glossemática, referente, ícone, índice, semiofania, entropia, metalinguística.

 

A Dolores acaba por lhe dar uma corrida em pelo, a miúda tem alergia ao verbo que puxa ao complexo. Do que ela precisa é de ideias e palavras que de imediato possam agir ou interferir sobre coisas concretas.

 

         - Sua ignorante! (diz, como despedida, o Barriga de Bicho, enquanto empina a pança).

 

         Ainda estive para lhe acertar umas lambadas mas deixo passar em branca núvem, para não turvar os ambientes.

 

            Está a ser muito difícil a alfabetização do Tareco. O Pena Cunha é que tem uma paciência de Job e eu com ele. Sob a sua orientação, fico quatro meses a ler verbetes para o Tareco. E um dia a Dolores diz-me: 

               

- Pai, o Tareco já tem a tua voz. Já a vouenquadrando na estrutura da nossa língua. Já leu todo o Cândido deFigueiredo, o Moraes e outroscalhamaços mas ainda não consegue relacionar o nome com o nomeado. Conhecimentostem ele, e muitos. Mas a falar é como se fosse um garoto de 3 para 4 anos.Chegou a tua vez, Pai. Faz de conta que ele é teu neto. Fala com ele, tempaciência. O Tareco precisa ouvir a tua voz, para corrigir a dele, que também éa tua. Faço-me entender? Tem calma que ele aprende depressa. Está programadopara aprender depressa.

 

Eu em brasas para ver no que ia dar a geringonça. De mansinho, aí vem oTareco.

 

-Bom dia, Vô.

- Vai mas é chamar avô ao camandro!

- Camandro não consta na minha memória. Eu pedoexplicação.

- Eu pedo, sua besta? Eu peço, eu peço... Não podes falarmelhor?

- Eu podo.

-Podas o quê? A rama dos teus cornos? Eu posso, eu sei, sua lata ferrugenta. Nãofazes melhor do que isso?

- Eu tomo atenção, eu fazerei melhor.

-Valha-nos a Senhora da Agrela, não há santa como ela.

-Agrela não consta na memória. Peço explicação.

- Pedes explicação? Mas que tom imperativo... Não sabes pedir porfavor?

- Por favor, eu peço explicação.

- Bravo, Tareco. Não é fazerei, éfarei.

- Entrada satisfatória. Estou a recapitular os verbos irregulares. Não éfazerei, é farei.

- Isso mesmo. E como é que de repente soubeste o que eracerto?

- Eu sube porque registo tudo.

-Mas que grande calisto, é só bacoradas. Raios de te partam, não é sube é soube.Sabes que mais, Tareco? Vai dar uma curva!

 

Pôs-se em movimento. Percorreu um alongado ziguezague pelo quintal eoutra vez se colocou à minha frente.

 

-Eu já dei.

- O quê?

- Uma curva. Vossa Excelência gostou?

 

Falar, o emplastro até já fala, parece um papagaio. E pensar? Será quealguma vez ele vai dar uma para a caixa?

 

 

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 19:00
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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011
TARECO - por Fernando Correia da Silva

 

                                                                                           

De tanto compor e imprimir livros de poemas lá na gráfica, também eu me arrimei às rimas. A noite passada sonhei com seis versos, lembro-me deles, só não sei que raio de língua é aquela.  Assim:

 

                                   Lei que songe senteportas do sedejo

                                   aganha salgadada rogadece

                                   ameia que temolve e tamortece.

                                   Reti. E mavetido mavetejo

                                   ana veturna a corbicar avexo

                                   vatico sena toncha toda texo.

 

É tudo muito misterioso. O que dá raiva é que os seis versos estão todos rimados e acentuados conforme os cânones. Caio na asneira de contar tudo isto ao Tareco, o meu robot. Ele não se faz rogado para emitir opinião:

 

            - Parecem ser anagramas em cadeia de palavras portuguesas. Diz-me uma coisa, Fernando, o que é que te lembra a palavra sedejo?

            - Desejo.

            - E a palavra texo?

            - Sexo.

            - Então fica tranquilo, já tenho a chave e acabo por decifrar o poema todo.

            - Ai acabas? Já agora gostaria de ver... Olha que a poesia está mais próxima da emoção do que da razão. O mesmo será dizer que está mais próximo do instinto do que da lógica. Por causa do poema não quero que fiques outra vez perturbado.

            - Fica descansado, isso não me perturba. Há uma lógica oculta nesses versos, porém uma lógica. O meu verdadeiro abismo está  na tua malícia, na tua ronha.

 

            - Tareco, já te disse e repito que nem tudo na vida segue as leis da lógica. Ou então a lógica é que ainda não foi capaz de abranger a vida toda.

 

            Virou as costas, afastou-se. Parou. Voltou atrás.

 

            - Fernando, quando há pouco disseste vida querias dizer realidade, não é?

            - Podemos dizer que sim.

            - Entendo. Para ti, que és vivente, realidade e vida sobrepõem-se.

            - És muito profundo, Tareco.

            - Fernando, outra coisa: a tua ronha é realmente instintiva?

            - É capaz de ser.

            - Por fatalidade de construção estou impossibilitado de abranger os domínios do instinto.

            - Anima-te, ó emplastro! Se um homem nasce com o instinto e chega à razão por que é um emplastrónico, nascido com a razão, não há-de chegar ao instinto?

            - Paralogismo!

            - Palavrões e insultos é que não. Ouve lá, ó lata velha: por que é que, entre todos os humanos, é a mim que estás mais apegado? A resposta é óbvia: fui eu quem te ensinou a falar, fui eu quem te despertou para a vida. Não está aqui o esboço de um instinto? A galinha chocou o ovo da pata e o patinho corre atrás da galinha, quá-quá, aquela é que é a minha mãe. Manjas?

            - Não vale a pena insistires, Fernando. Já te disse que o instinto está fora do meu alcance. Proponho aliança.

            - Diz lá, Tareco.

            - Eu serei a tua cabeça e tu serás o meu instinto. A aliança ser-te-ia favorável.

            - Ó meu pavão dourado, então tu queres que eu renuncie, sem mais nem menos à minha cabecinha?

            - No ser humano a cabeça é a unidade central das operações lógicas. Mas em lógica nenhum de vocês me bate em rigor e velocidade. A aliança ser-te-ia favorável.

            - Presunção e água benta cada qual toma a que quer... Só te esqueces de uma coisa, ó paspalhão: connosco, instinto e razão está tudo misturado, é impossível apartá-los. Trata mas é de desenvolver o teu instinto.

 

            Zanzou.

 

            - Não posso, já disse que não posso. Boa noite, Fernando.

            - Boa noite, Tareco, dorme bem, sonhos cor-de-rosa.

            - Eu nunca durmo.

            - Nunca dormes?

            - Nunca durmo e nunca sonho.

            - Mas que grande insónia, deves viver cansado.

            - Eu nunca me canso.

            - Ai não? E quando as tuas baterias se vão abaixo?

            - Quando baixa a voltagem dos meus acumuladores, logo trato de meter o rabo na ficha e recarrego-os. Boa-noite, Fernando!

 

            Foi-se embora. Eu começava a estar realmente embeiçado por aquele zingarelho. Bem sei que dia a dia mais sagaz, mas zingarelho, zingaraz. Só agora começo a entender aqueles narcisos que ficam horas e horas diante de um computador como se penteando a alma frente ao espelho.

 

            Na manhã seguinte, bem cedinho, procurou-me e disse:

 

            - Acabei por decifrar os teus versos.

            - Não posso acreditar... Como é, como são?

            - São assim: 

           

                                   Sei que longe, entre portas do desejo

                                   a aranha da saudade agora tece

                                   a teia que te envolve e te adormece.

                                   Parti. E repartido me revejo

                                   ave nocturna a debicar o nexo

                                   cativo nessa concha do teu sexo.

 Deslumbramento, convulsões, porém poema sem dor parido. Tinha a minha marca mas eu não sentira sequer os lanhos da expulsão. E o Tareco diz-me ainda:

 

            - Esses seis versos parecem ser os dois tercetos finais de um soneto. Faltam os dois quartetos iniciais. Vê se consegues sonhar com eles, depois conta que eu decifro.

 

Fico eu de boca à banda, tal e qual o Sá de Miranda. Por outro lado, quem interpreta versos, é porque tem alma apaixonada. Mas onde é que esta geringonça arranjou alma?



publicado por Carlos Loures às 22:00
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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011
Artexto - texto de Fernando Correia da Silva, quadro de Adão Cruz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Adão conduz a luta contra o Nada (a Cor Lisa) e vários corpos surgem no Arco-Íris que nasce numa cruz.

Por isso lhe dão o cognome d'El-rei Povoador. Também há quem lhe chame Adão Cruz.



publicado por João Machado às 08:00
editado por Luis Moreira em 11/01/2011 às 22:06
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Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010
Mata-Cães ou o criador e a criatura *
Carlos Loures


Em meados dos anos 80, entre as muitas coisas que fazia, tinha a meu cargo a leitura de originais de uma pequena editora – a Salamandra, do Bruno da Ponte e do Veiga Pereira. Como sempre acontece a quem tem essa responsabilidade, era obrigado a ler muitos textos sem qualquer interesse, sem qualidade e, portanto, sendo de gente desconhecida, sem qualquer viabilidade de edição. Fazia um pequeno relatório de leitura e depois os donos da editora tomavam as suas medidas.


Muito raramente, era surpreendido pelo aparecimento de textos que se distinguiam no meio desse amálgama de lixo produzido por infatigáveis escrevinhadores. Devo abrir um parêntesis para vos confessar que o ler grandes doses de má literatura, acaba por embotar a capacidade crítica. Começamos a ler um texto já com a ideia de que se vai ler mais uma pessegada. O pior é que quase sempre se acerta.



Por isso, quando me apareceu um original de um escritor de que nunca ouvira falar, um tal Fernando Correia da Silva, li as primeiras páginas com a má vontade aliada ao espírito de sacrifico com que sempre começava a ler um novo texto. A certa altura percebi que o «Mata-Cães», assim se chamava o romance, não se enquadrava na tipologia habitual. Voltei ao princípio e, surpreendi-me a dar gargalhadas com as saídas da personagem do Chico, por alcunha o «Mata-Cães» e com as alhadas em que ele se ia metendo, criando um ambiente caoticamente ordenado.


A respeito deste romance, disse António José Saraiva que Correia da Silva revelava ao leitor desprevenido «um mundo caótico», através de uma «escrita viril e desabrida». Leitor desprevenido, eu, pude verificar que o livro era muito pouco literário no sentido que o termo costuma assumir. O autor não parecia minimamente preocupado em seguir as regras do jogo em moda – malabarismos formais, viagens de circum-navegação em torno da palavra.


Voltando a António José Saraiva e à sua opinião sobre este livro, perguntava ele: «Que é isto? Um poema? Um conto picaresco? Uma recordação onírica? Um testemunho realista? Uma reflexão sobre a história recente? “O livro há-de ser”, como dizia o Bernardim - “do que vai escrito nele”. Só abrindo se poderá julgar o “Mata-Cães”, que não é decerto um tranquilizante».


Fiz um relatório muito favorável e o livro foi publicado em 1986. Depois desse, Fernando Correia da Silva já publicou em 1989, LORD CANIBAL, outro romance, novas aventuras do Mata-Cães. Em 1996, o romance QUERENÇA, o qual foi passado ao cinema em 2004, com realização de Edgar Feldman. Em 1998 publica MARESIA, novo romance. em 2000 Lançou o romance LIANOR.


Tive ocasião de conhecer o Correia da Silva e tornámo-nos amigos. O curioso é que a personalidade do Fernando se confunde com a do seu herói, o Chico «Mata-Cães», quando leio os romances é-me sempre fácil imaginar os protagonistas – identificam-se sempre com o autor. LORD CANIBAL, para aumentar a confusão, entre criador e criatura, é assinado por Francisco Mata-Cães, criando não um processo pessoano de heteronímia, mas o contrário desse desdobramento de personalidade – uma concentração semelhante à que existiu entre Alfred Jarry e o seu Ubu-Roi.


Fernando Correia da Silva, um nome que devia ser mais conhecido. Enchemos a cabeça com nomes de gente medíocre – políticos, futebolistas, actores de telenovela, o povo do jet set e das revistas «do coração» e, naturalmente, depois falta-nos espaço de memória para, por exemplo. sabermos quem é, o que escreve e como escreve o Fernando Correia da Silva.






(*Este texto, com ligeiras diferenças, foi publicado no blogue Aventar).


publicado por Carlos Loures às 12:00
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Sábado, 18 de Dezembro de 2010
Mário Pinto de Andrade, por Fernando Correia da Silva

CAFÉ CHIADO - Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.


À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
- Ontem fui à Feira Popular.
- Fazer o quê?
- Fui à montanha russa.
- E depois?
- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
- E depois?
- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
- E depois?
- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.
Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:


- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.


- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...


- A ver vamos se é mania ou intuição...

NEGROS CALÇADOS - Ainda no Café Chiado pergunto ao Mário por que não fez curso superior em Angola e ele responde-me que em Angola não há cursos superiores, por isso veio para Portugal.

- Mas isso, ó Mário, deve custar um dinheirão...
- Não te esqueças que eu sou descendente de negros calçados.
Fico atordoado com a resposta.
- De um lado pés descalços, do outro negros calçados? É isso?


- Sim, Fernando, é mais ou menos isso. Mas calçados, antes de tudo, porque faziam o comércio de longa distância, desde o Ngolungo Alto até Luanda. Os Andrade acabaram por ir viver em Luanda, embora mantivessem sempre o comércio com Ngolungo Alto. Assim capitalizámos recursos, não só económicos, mas também culturais. Somos dos primeiros a ser alfabetizados pelos padres católicos. A propósito: o meu irmão Joaquim já decidiu estudar para padre. Sim, Fernando, somos uma burguesia mas também somos os representantes do primeiro nativismo angolano.

PRAÇA DAS FLORES - Em minha casa, no bairro Alvalade, em Lisboa, mostro ao Mário alguns dos poemas que tenho escrito. Ele declara gostar dos versos porque mantêm uma estrutura tradicional apesar de abordarem temas sociais e políticos. Contudo, aconselha-me a ler os poetas medievais portugueses (que eu mal conheço...). Digo-lhe que vou comprar uma antologia. Ele acha bem, mas antes convida-me a ir a sua casa e eu vou. A sua “casa” é um quartinho numa rua que desagua na Praça das Flores. E o Mário lê-me, interpretando com gestos largos, poemas do Rei Sancho I, de Juan Zorro, de Torneol, de Codax, de Meogo, de Charinho, do Rei Afonso X, do Rei D. Diniz. Praça das Flores? Seja! Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é?


Na minha vida o vento sopra sempre às avessas. Um africano (tinha que ser um africano?) é quem me ensina a palmilhar as veredas do Cancioneiro Medieval Português...

CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO - Para mais facilmente vigiar os africanos que estudam em Lisboa, a ditadura salazarista funda uma associação: Casa dos Estudantes do Império. Tiro pela culatra! Assim concentrados, para os africanos mais evidentes se tornam as diferenças entre colonizadores e colonizados. Intervenções culturais, debates sucessivos, o nacionalismo negro a levantar fervura. Diz Amílcar Cabral, o guineense estudante de Agronomia:

- Vivo intensamente a vida e dela extraí experiências que me deram uma direcção, uma via que devo seguir, sejam quais forem as perdas pessoais que isso me ocasione. É necessário o regresso a África. Eis a razão de ser da minha vida.

Avança Agostinho Neto:

- É mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados assimilados, não sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proíbem os filhos de falar a língua dos seus avós. É claro, quem conhece o ambiente social em que estes fenómenos se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento impiedoso do processo de “coisificação” não se admirará de tanta falta de coragem. Este desconhecimento das línguas que impede a aproximação do intelectual junto do povo cava um fosso bem profundo entre os grupos chamados assimilados e indígena.

E afirma o Mário Pinto de Andrade:

- Em contexto colonial, a assimilação traduz-se sempre na prática por uma destruturação social dos quadros negro-africanos e pela criação em número reduzido da elite assimilada. No caso português, a assimilação apresenta-se como uma receita (a única) que permite fazer sair o indígena, o negro-africano, das trevas da sua ignorância para entrar no santuário do saber. Uma forma da passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem de Hegel. O problema hoje é de saber como vai reagir o homem assimilado nessa situação artificial, parasitária de desenraizado. Como se vai afirmar? Fugindo do convívio com o indígena? Perdendo-se ao contacto com as luzes brilhantes da civilização? Aceitando e aprofundando a sua pseudo-condição de mestiço cultural?. Uma tarefa se impõe, a meu ver, no momento histórico que atravessamos, para responder justamente a essas interrogações, que é a de retomar, esquadrinhar no nosso passado as correntes de afirmação, da tomada de consciência, através de atitudes individuais e dos movimentos culturais que se foram desenvolvendo, diante do problema da cultura negro-africana e da assimilação.


Concentrados, os africanos agora querem “redescobrir” a África que era deles e deles deixou de ser...

CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS - Em 1950 um grupo de estudantes oriundos das colónias portuguesas funda um Centro de Estudos Africanos (CEA). Entre eles estão Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade e Agostinho Neto, os poetas são-tomenses Alda do Espírito Santo e Francisco José Tenreiro, e a poeta moçambicana Noémia de Sousa. Diz o Mário:

- Os objectivos do Centro de Estudos Africanos são os de racionalizar os sentimentos de se pertencer a um mundo de opressão e despertar a consciência nacional através de uma análise dos fundamentos culturais do continente.

O mesmo grupo, com os mesmos objectivos, profere idênticas palestras no Clube Marítimo.

CADERNO DE POESIA NEGRA - Com Francisco José Tenreiro organiza o Caderno de Poesia negra de Expressão Portuguesa.
Em 1953 Francisco José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade organizam e editam um Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Curiosamente, essa Caderno é dedicado a Nicolás Guillén. Porquê? Não tenho a certeza mas parece-me que foi por ter o cubano conseguido criar ritmos e sonoridades que infiltraram de negritude a língua castelhana. Portanto, bom exemplo para os africanos de língua portuguesa...

Ó Mário, entre os vários poemas reunidos no Caderno, escolho um teu em que se evidencia o drama do negro submetido ao colonialismo, o “contratado” para S. Tomé, drama que é preciso denunciar e expurgar.

CANÇÃO DE SALABU

Nosso filho caçula
Mandaram-no pra S. Tomé
Não tinha documentos
Aiué!
Nosso filho chorou
Mamã enlouqueceu
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho partiu
Partiu no porão deles
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Cortaram-lhe os cabelos
Não puderam amarrá-lo
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho está a pensar
Na sua terra, na sua casa
Mandaram-no trabalhar
Estão a mirá-lo, a mirá-lo
- Mamã, ele há-de voltar
Ah! A nossa sorte há-de virar
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho não voltou
A morte levou-o
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé

PRÉSENCE AFRICAINE - Em Janeiro de 1954, antes que a PIDE me deite a mão, dou o salto para o Brasil. E tu, Mário, dois ou três meses depois, suponho que pelos mesmos motivos, dás o salto para Paris.

Perco o contacto directo contigo mas, por vias terceiras, vou sabendo da tua vida.

Em 1955, sei que és redactor da revista Présence Africaine, e também o responsável pela organização do I Congresso de Escritores e Artistas Negros. Também sei que estás a estudar e te vais formar em Sociologia, na Sorbonne.


TASCHKENT - Ó Mário: em 1958, juntamente com Viriato da Cruz, tu representas Angola na I Conferência de Escritores Afro-Asiáticos, em Taschkent, na URSS.

MPLA - Com outros angolanos, em 1960 és um dos fundadores do clandestino Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de raiz marxista. Transferes a direcção do Movimento de Luanda para Conakry e levas os teus camaradas a votarem no Agostinho Neto (então preso em Portugal) para presidente honorário do MPLA. Presidente efectivo és tu e secretário-geral é o Viriato da Cruz.

Em 1961, depois da independência do Congo-Belga, tu e o Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville, porque assim ficam mais perto de Angola.

Em 1962 Agostinho Neto consegue fugir de Portugal e, em Leopoldville, assume a direcção do MPLA. Mas o seu autoritarismo, a sua mania de ser presidente, a sua rigidez, levam-te a pedir a demissão, ó Mário...

MAIS TRABALHOS - Mário: entre 1965 e 69 coordenas a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); e de 1971 a 72 integras o Comité de Coordenação Político-Militar do MPLA na Frente Leste. Em 1973 és mandatado pelo mesmo Comité para organizar os textos políticos de Amílcar Cabral.

REVOLTA ACTIVA - Em 1974 tu, o teu irmão Padre Joaquim e muitos outros intelectuais angolanos opõem-se à liderança de Agostinho Neto dentro do MPLA, exigindo a democratização do regime. Esse movimento fica sendo conhecido como Revolta Activa. Em consequência, vocês todos são perseguidos ferozmente por Agostinho e seus fiéis.

- Batatada, mania ou intuição? - hei-de voltar a perguntar ao Alexandre O’Neill.

Mário: acabas por te exilar na Guiné-Bissau, onde assumes as funções de coordenador do Conselho Nacional de Cultura. Mais tarde serás até o próprio Ministro da Informação e Cultura, com a aprovação do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

REENCONTRO - Depois do 25 de Abril, já em 1975, sou incumbido de ir a Cabo Verde e Guiné-Bissau para tentar armar um esquema de cooperação com o meu condiscípulo e velho amigo Vasco Cabral, o homem da Economia da nova República.

O Vasco está provisoriamente instalado numa vivenda na marginal entre a cidade da Praia e a Prainha. Diz-me que ali também está instalado o Mário Pinto de Andrade. Ele a dizer-me isto e o Mário a aparecer. Olha para mim, hesita, sabe que me conhece mas não é capaz de me reconhecer. Compreende-se, já se passaram mais de 20 anos e as nossas feições, até o físico, mudaram, eu engordei e ele emagreceu. Ajudo, assopro:

- Um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela rua Garrett...

Desmanchas-te a rir, corres para mim, dás-me um grande e apertado abraço.

NINO VIEIRA - Na Guiné-Bissau, em 1980, João Bernardo “Nino” Vieira dá um golpe que depõe o presidente Luís Cabral (irmão de Amílcar). Consequências: Luís Cabral segue para Lisboa e o PAIGC cinde-se em dois, o PAICV (cabo-verdeano) e o PAIG (guineense). Tu, Mário, tal como muitos outros companheiros de luta, deixas a Guiné e aderes ao PAICV.


HISTÓRIA GERAL DE ÁFRICA - Durante toda a década de 80 tu, Mário, circulas entre Paris (a tua base), Lisboa, Moçambique e Cabo Verde. Trabalhas na pesquisa e elaboração de artigos e capítulos para a História Geral de África, obra em oito grossos volumes, projecto editorial de UNESCO. Trabalho colectivo a contribuir para uma melhor compreensão das sociedades e culturas africanas. Obra realizada por 350 autores sob a direcção de um comité científico integrado por 39 especialistas, dos quais 2/3 são africanos. Dada a sua importância para a humanidade, a obra é editada em inglês, em francês, em árabe e também em algumas línguas africanas.

NATIVISMO E ERRÂNCIAS - Dentro do espírito unitário da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas) também pesquisas o nativismo e o proto-nacionalismo na Guiné, em Cabo Verde, em Angola, em S. Tomé e Príncipe e Moçambique. A tua pesquisa não é concluída mas será postumamente editada com revisão do texto por José Eduardo Agualusa.

Um, dois, três apartes: a convite do Governo de Moçambique ali permaneces entre fins de 83 e princípios de 84. Voltas ao Maputo em Abril de 85 para, juntamente com a socióloga Maria do Céu Carmo Reis, dares um curso de 3 meses na Universidade Mondlane sobre Ideologias da Libertação Nacional. Entre 87 e 89 permaneces em Moçambique por períodos intermitentes.

DOENÇA E MORTE - Problemas de saúde provocam o teu internamento no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Por decisão tua, do teu irmão Joaquim e da tua cunhada, em busca de melhoras segues depois para Londres. É tarde, nada a fazer. Ali morres a 26 de Agosto de 1990.

Ó Mário, saudades já tenho da tua forma de ser e estar!

(Excerto do trabalho publicado pelo autor em "Vidas Lusófonas")



publicado por Carlos Loures às 22:00
editado por João Machado em 31/01/2011 às 13:38
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Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010
Verbarte - Padre Bartolomeu de Gusmão







Fernando Correia da Silva



Voar como bola de sabão..

Desenho fantasioso para descrever a Passarola e que nada terá a ver com a realidade.
 .

QUANDO TUDO ACONTECEU...

1685: Nasce em Santos (Brasil). 1701: Embarca para Lisboa. 1705: Inventa bomba que eleva água. 1707: Inventa a drenagem de embarcações. 1709: Constrói a Passarola. 1716(?): Regista sistema de lentes para assar carne ao sol. 1724: Morre em Toledo.


Quadro de Calixto.
Ó Bartolomeu:


sei que nasceste em 1685 em Santos (Brasil). Sei que tu e Alexandre, o teu irmão, estudaram no seminário jesuíta de Belém da Cachoeira, na Bahia. Sei que tinhas 15 anos quando embarcaste para Portugal. Também sei que te formaste em direito religioso, em Coimbra. A Companhia de Jesus ordenou-te sacerdote, sei disso. Com 16 anos mudas-te para Lisboa e ali passas a estudar matemática e física mecânica. Esse teu súbito apetite pela ciência é que me deixa espantado, tanto mais que já és pregador famoso, capelão da Casa Real a convite d’El-rei D. João V.

Ó Bartolomeu:

Regressas a Salvador da Bahia. A tua cabecinha não pára, ânsia de fazer coisas; em 1705 inventas e constróis uma bomba que eleva do rio Paraguaçu para um reservatório lá no alto, a água necessária ao colégio de padres. E em 1707 inventas um sistema para bombear a água para fora do casco dos navios; ou seja: acabas de inventar a drenagem automática das embarcações.

Ó Bartolomeu:

Outra vez em Lisboa reparas que uma bola de sabão, ao passar sobre a chama de uma vela, é impelida para o alto. Ou seja: o ar quente tem poderosa força de ascensão. É quanto basta para quereres construir um aparelho de andar pelo ar. Levas o plano a El-rei D. João V. Ele apoia-te e tu constróis o primeiro balão de papel pardo montado sobre uma tigela onde arde fogo. Nada acontece, o balão não se move, acaba por incendiar-se. Mas o segundo balão, esse sim! Sobe até ao teto da Casa da Índia, onde está a ser feita a experiência. Espantados ficam El-rei, a Rainha, toda a Corte, também o núncio apostólico em Lisboa, futuro papa Inocêncio XIII.

Ó Bartolomeu:

Esse primeiro sucesso empurra-te para a aventura decisiva. Armas um imenso balão de seda impermeável e um recipiente com fogo. Por baixo, uma barcarola para ser tripulada. O gigantesco balão a que dás o nome de Passarola é lançado da parte alta para a parte baixa de Lisboa; melhor dizendo: do Castelo de São Jorge para o Terreiro do Paço. Um sucesso! Um aeróstato 74 anos antes daquele que os irmãos Montgolfier irão inventar em França.

Ó Bartolomeu:

Entre 1713 e 1716 viajas pela Europa. Na Holanda registas o teu sistema de lentes para assar carne ao sol. E depois vives em Paris, a trabalhar como ervanário.

Regressas a Portugal mas começas a ser perseguido pela Inquisição. Não só porque a Passarola é uma afronta aos desígnios de Deus, mas porque és amigo de alguns judeus e cristãos-novos. Dada a indiferença d’El-rei perante a perseguição, resolves fugir para Espanha. Em 1724 uma súbita doença atira-te para um hospital em Toledo. Deitado de costas numa das cama sonhas que arde e cai a Passarola, junto com ela morres tu; fantasia, realidade...


publicado por Carlos Loures às 23:55
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Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010
Arte poética: Fernando Correia da Silva, Carlos Pena Filho e José Luís Peixoto
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Fernando Correia da Silva
(Lisboa, 1931)
ADUNAR


Adunar na vertical é transformar o instinto em razão e esta naquele.
É conseguirmos ver o Invisível.
É usarmos de infravermelhos para localizar o Monstro agora diluído em estruturas canibais, omnipotência, omnipresença.
É sabermos detectar a tempo as suas teias e evitar nelas pousar.
É rasgarmos as suas máscaras, sejam elas lotes de acções ou abertura de caça ao preto e ao cigano.
É darmos valor à vida humana, em vez do preço que ele pretende atribuir-lhe.
É sermos indiferentes à diferença entre irmãos, homens que todos somos.
É não deixarmos que ele converta as nossas vidas num andar solitário por entre a gente.
É não deixarmos que ele transforme os homens em colónias de formigas.
É conseguirmos pôr no Soweto um pianista japonês a emocionar a assistência com um nocturno de Chopin.
É não deixarmos que tantos morram à fome enquanto permanecem terras férteis em pousio e há trigo acumulado nos celeiros.
É não consentirmos que as máquinas tomadas pelo Monstro nos deixem com a alma em desarrimo.
É não deixarmos que ele transforme o planeta em esgoto a céu aberto.
É não aceitarmos as gorjetas que ele oferece para olharmos para o outro lado.
É não deixarmos que nos atire para a lixeira.
É não consentirmos que o Direito Comercial lace, aperte, esmague e devore os Direitos do Homem.
É arrimar-nos a um tronco largo quando a jibóia ataca, comprimento ela não tem para laçar-nos juntamente com a árvore.
É puxarmos da catana e retalhá-la se ela insistir no ataque.
É dinamitarmos a digestão antropofágica do Labirinto.
É espantarmos os disciplinados cumpridores de ordens, os bandos de corvos sempre à espera da sua quota-parte de carniça.
É ensinarmos as gaivotas a cagar na cabeça de arrogantes e presunçosos.
É darmos um banho de lixívia aos engravatados distribuidores de paninhos e água quente.
É cravarmos malaguetas no umbigo do Dr. Prepotência, e outras, como flechas, no cu que o Dr. Banqueiro tem como cofre.
É nunca ficarmos de costas para os traidores que há na vida.
É estarmos sempre atentos às manobras do Piloto que elegemos.
É sabermos transformar as espadas em arados e as metralhadoras em berbequins.
É levarmos os mansos a possuir a terra.
É consolarmos os que choram.
É saciarmos os que têm fome e sede de justiça.
É acreditarmos que, embora Invisível, será ainda possível empurrar o génio do Santo Lucro para dentro da garrafa, como outrora acreditámos que era possível vencer o Hitler, mesmo quando todos, até os nossos filhos, garantiam que ele já era o rei do mundo.
_______________________

Carlos Pena Filho


(Recife, 1929 – 1960)


PARA FAZER UM SONETO



Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo, Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse;
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

(O tempo da busca, 1952)


________________
 
José Luís Peixoto
(Galveias,  Ponte de Sôr, 1974)
 
ARTE POÉTICA




O poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.

(A Criança em Ruínas)


Às onze chegam  o Casimiro de Brito, a Augusta Clara de Matos e o Celso Emilio Ferreiro


publicado por Carlos Loures às 01:30
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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
Dia de Lisboa - LIa Gama, Fernando Correia da Silva e Almada Negreiros, falam dos cáfés de Lisboa
Fernando Correia da Silva diz-nos como era no Café Chiado



Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da
estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.

À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
- Ontem fui à Feira Popular.
- Fazer o quê?
- Fui à montanha russa.
- E depois?
- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
- E depois?
- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
- E depois?
- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.

Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:

- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.
- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...
- A ver vamos se é mania ou intuição...

Era mesmo intuição. Anos depois, durante a guerra pela independência de Angola, o Mário e o Agostinho entraram num tal confronto que o Mário teve que emigrar para a Guiné-Bissau.


Almada Negreiros na sua tertúlia da Brasileira do Chiado



Para terminar, Lia Gama canta.nos os cafés de Lisboa. Ora aqui estão três versões coincidentes.




publicado por Carlos Loures às 22:00
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