Quinta-feira, 7 de Julho de 2011
Depois do inverno serei a primavera - Ethel Feldman
Ethel Feldman  Depois do inverno serei a primavera
(Adão Cruz)
 
não andei de camelo
banhei-me no mar Egeu
e fui tida como turca

Ao verbo respondi
com um sorriso
desconcertado
devolveu-me outro

em Londres, calei a fala
em Bodrum, inventei o silêncio
dona e senhora
da palavra esquecida
nunca pronunciada

mora no silêncio
a resposta
generosa e compassiva
entre turcos e ingleses
balbuciei a existência
dei-te um beijo
em pensamento

depois do Inverno
serei a Primavera




publicado por Augusta Clara às 18:00
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Quarta-feira, 22 de Junho de 2011
Se eu adormecer - Ethel Feldman

Ethel Feldman

 

 

se eu adormecer
no teu corpo
deixa-me estar
até que eu saiba ouvir
o som longe da brisa
que vem do mar
quando meu corpo 
se perder no teu 
abraça-o até que ele 
saiba despertar 
noutro lugar 
beija agora 
meus lábios 
sem descanso 
enquanto falamos




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Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
Tens um nome tão bonito! - Ethel Feldman

 

Ethel Feldman  Tens um nome tão bonito!

 
Quando ele navegou nela,
naufragou o medo,
salvou a esperança
de boa vizinhança.
Na manhã seguinte,
o sol descobriu a manhã

no baixo-ventre dela

 



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Sábado, 11 de Junho de 2011
Como o sol de cada manhã - Ethel Feldman

 

 

Ethel Feldman 

 

 

 

 

 

 

com o sol de cada manhã,
beijo teu beijo até anoitecer
e se o rouxinol cantar
direi a ele que esse beijo
é só nosso até o amanhecer

na tua boca molhada
beijo a vontade de liberdade



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Domingo, 22 de Maio de 2011
Deixa que o rio se estreite - Ethel Feldman

 

Ethel Feldman  Deixa que o rio se estreite

 

(ilustração de José Magalhães)

 

Deixa que o rio se estreite. Conta-me tudo, sem pressa. Conta-me o resto. As casas decimais estão sempre a fugir.esquece a vírgula,  coloca outro zero. as contas nunca se acertam. Deixa-me agora descansar nesse teu estar. Devagar, estar em ti. No cheiro que adormece preguiçoso em teu corpo, Deixa-me estar entre a vontade e o desejo de continuar a estar. Deixa-me agora, que durmo  em silêncio enquanto me esqueço...




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Terça-feira, 17 de Maio de 2011
Brisa de Oeste e Ventos de Norte - Ethel Feldman

Ethel Feldman

 

(ilustração de João Serrano)

 

 

Brisa de Oeste

 

Deixa-me voltar atrás. Prometeste-me a brisa de oeste.

Abriste a janela. Deixaste entrar o vento e com ele o resto.

Prometeste-me a maresia, odor ausente.

Salgado. 

 
Tuas mãos pintaram a cor... no meu corpo febril.
Prometeste-me a brisa, abriste a janela … vento de oeste, maresia perdida.
Tuas mãos azuis no meu corpo vermelho. 
 
Devolve-me o branco antes que eu aconteça!

 
Ventos de Norte
Quando o nosso olhar
vazio, procurar o tempo
serei a tua noite quente

estarei contigo na despedida
no despertar, entre o que sou.

 





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Sábado, 14 de Maio de 2011
Sem Tempo - Ethel Feldman

Ethel Feldman  Sem Tempo

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

 

 

tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida

fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

amor que agora sinto
um dia, tão longe, pó
no corpo, lembrança


 

 

 

 



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Terça-feira, 10 de Maio de 2011
Benjamin - Ethel Feldman

 

Ethel Feldman  Benjamin

 

Na partida, Benjamin avisou-me que teríamos de fazer uma paragem. Perguntei onde e porquê, mas Benjamin pediu-me paciência.

- Há coisas que não se explicam, Hannah...

O nosso destino era vago:  alcançarmos o Extremo Oriente. Vi homens baixos, vi outros tão altos que mal lhes reconheci o contorno da cabeça. Dormi debaixo de árvores gigantes que me abrigaram nas noites chuvosas. Sem pressa, deixei que o corpo se adaptasse ao calor húmido da floresta e ao ar rarefeito das montanhas. Acompanhei o sol, e a noite foi sendo sempre noite no meu corpo viajante. Alguns dos nossos companheiros ficaram em Goa, outros seguiram caminho para oeste. Eu e Benjamin, continuámos a caminhar para leste.

Benjamin acordou cedo. Retirou da mochila um pião rendado, em prata.
- O que é isso, Ben?
- É a encomenda que tenho de entregar...
Já tinha esquecido. Há tantos meses a viajar, só agora dei conta que o meu amigo limpava a peça todas as manhãs.

Lembro-me do pião que o meu pai me deu, num passe de mágica rodopiava, ganhava velocidade. Da pequena peça de madeira só vislumbrava o tempo que voava. Uma bruma fina envolvia o brinquedo que parecia imóvel, centrado em si mesmo. Depois, cansado, cambaleava como se estivesse bêbado, acabando por cair tombado de lado.

Memórias que o tempo roubou e tu, Benjamin acabas de me devolver.
- Ben, lembras do dreidel*?
- Em cada face uma letra do alfabeto hebraico: Nun, Gimmel, Heh and Shin...
- "Nes Gadol Hayah Sham" ("Um grande Milagre Aconteceu")...

Benjamin é meu amigo infância. Na escola aprendemos a ler, cantámos as letras do alfabeto hebraico, uma a uma a formarem palavras encantadas. Na escola, cantou comigo no Pessah* - Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot? (Porque esta noite não é em nada igual a todas as outras noites?).

- Lembras, Ben? Hailala hazé...

Depois da escola primária, mudei de cidade, cresci longe de Ben. O yiddish foi sendo esquecido e do hebraico só sei escrever o meu nome: הַנְנַה
Um pequeno pião de prata lembrou-me criança.
- Isto é um pião estranho, Ben...
Benjamin sorriu.
- Nem tudo que parece é, Hannah.

Continuámos a viajar, agora junto ao mar. Em cada aldeia, um novo peixe. Nossa pele mudou de cor. Meu corpo salgou no corpo de Benjamin. Semente de um novo amor.
- Por onde me levas, Ben?
Silencioso, Benjamin calava meus lábios na sua boca sempre entreaberta.
À  noite casavamos as nossas vontades. De manhã, ríamos delas.
- Para onde vamos, Ben?
- Sempre a oriente, Hannah...
Quando o corpo está apaixonado pede o corpo do amado. Sem ele, parece morrer. Com ele encontra a morte, feliz, num breve e longo instante.

O dia encontrava a noite. A noite amanhecia. Benjamin, todas as manhãs, delicadamente limpava o pião de prata. Quinze minutos diários, focados na renda fina.
- Que pião é esse, Ben?
- Em breve, Hannah, vais saber. Quando a hora for hora...
Benjamin nunca teve pressa com nada. Quando dança, rodopia, sempre centrado no eixo. Quando pára, tomba devagar.

Um longo abraço marcou o reencontro com Leo, nosso companheiro de viagem.
- Como vieste aqui parar, se seguiste para ocidente? - perguntei
- Fiz um desvio e outro, pelo caminho. Perdi-me, encontrei-me. Entre um e outro, parei...
Os meus amigos sempre foram assim. Entre o sim e o não … existem.

Com Leo, fomos ficando na aldeia à beira-mar. De madrugada, acordavam e partiam com os pescadores. À tarde, regressavam com o jantar. Cansado Ben, salgava meu corpo, lentamente.

- Está na hora de partir, Hannah...
- Quando?
- Amanhã. Não leves nada contigo, a não ser a roupa que trazes vestida. Uma mochila leve, com um pequeno agasalho...
- Mas o que faço com o resto?
- Dá a quem precisa, Hannah. Alivia o peso. Não precisas de mais nada, senão do teu corpo leve.
Contrariada, deixei minha mala de viagem. Nela, meus sapatos novos, livros e roupas usadas. Enrolei meu diário velho no casaco que guardei na mochila.
- Hannah, o que viveste está desenhado no teu corpo...
- Tenho medo de esquecer, Ben.
Nessa noite, adormecemos abraçados. Senti seu coração, ritmado com o meu. Um ar morno, manso, viajou entre as nossas bocas.
Antes do sol nascer, despedimo-nos de Leo. Um abraço prolongado, silencioso, marcou o nosso adeus.

Antes, Ben afagou de novo o pião. Desta vez, enrolou-o cuidadosamente num longo pano de linho branco. Deu voltas e voltas, até que o pião deixasse de ser a peça de prata rendada e não fosse mais que uma trouxa de pano. Em seguida, guardou-o na sua velha mochila.
- É esta a tua única bagagem, querido?
- Sim, Hannah...
Sei quando Ben não quer falar. Aprendi com ele a gostar de cada intervalo pausado, dar espaço a todos ruídos, encontrar o som do vento, identificar o canto diferenciado de cada pássaro, ou simplesmente ouvir o som mudo do silêncio que se alonga no outro.

Caminhámos calados, passo a passo, entre aldeias. Caminhámos de mãos dadas, sem nunca nos tocarmos. Ben seguia ao meu lado, tranquilo. Uma paz estranha tomou conta de mim.
Poucas semanas antes, soube do falecimento da minha avó. Meu coração ficou pequeno. Apertado, encontrou a dor. Chorei de mansinho, junto com a noite - toda a noite. De manhã entreguei ao mar a saudade que sinto dela. Desembocou no oceano, espalhou-se por todos os mares, encontrou outras águas, doces e salgadas, irrigou o campo, semeou a terra. Até já, avó.

O sol disse adeus antes do anoitecer.
- Vamos descansar. Ainda temos umas horas de caminho.
Ben sentou-se em cima de um pedaço de pedra. Eu sentei-me no chão, junto a ele. Com a cabeça em seu colo adormeci.
- Acorda, Hannah. Temos de seguir...
Em que instante mudamos? Uma dor estranha aparece no peito, como uma flor que desabrocha, a mesma que nos acolhe quando nascemos. Quantas vezes mudamos, antes de morrermos?

Quanto mais rápido rodopia o pião, mais imóvel parece ao nosso olhar.
- Ben, para onde nos levas? - perguntou meu coração baixinho. Uma nova flor desabrochava em meu peito.
- Para um lugar sem nome, que te acolhe sem nada te perguntar. - respondeu-me, sem falar.
Já passava da meia-noite quando chegámos a esse lugar, que nada pergunta, nem quer saber. Onde a lua nasce e volta a nascer, todas as noites. Dia após dia.

Não me lembro se vi alguém. A aldeia é pequena. O chão de terra batida, vermelho. As casas pequenas, brancas. Em todas, chega-se à sala depois de descermos três degraus. Parece que nunca saímos do mesmo lugar. Como o pião, veloz. Imóvel.

Benjamin entrou em três casas. De cada uma trouxe uma coisa. Na primeira, um cobertor, na segunda duas tigelas de arroz, na terceira ervas para o chá. Convidou-me a entrar na quarta casa da vila.
- Descansa agora, Hannah. Vou ter de sair.

Quieta, vi Benjamin abrir a mochila, e tirar a trouxa branca de linho. Antes de sair, abraçou-me carinhosamente. Calou meus anseios em seus lábios. Doce, cantou baixinho, Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot...
- Até já, pequena Hannah...

Cansada, adormeci sem nada questionar. Meu corpo colava ao colchão de algodão. Um tapete vermelho, cobria o chão do ar fresco da noite. No ar, o cheiro da madrugada. Meu corpo cansado, fugia da dor anunciada. Não me lembro da cor do céu. Sei das estrelas a dançar de par em par. Não me lembro de nada até aquela manhã, quando acordei quase sem ar. Uma flor nascia no ventre, teimava em desabrochar. Com medo, eu não permitia.
Saí de casa, apressada.

- Ben, qual foi a casa que te abrigou nesta noite que não regressaste ao corpo da mulher amada?
Como resposta, um silêncio profundo pesou no meu corpo.
- Ben! - perguntei sem descanso, numa terra que nada questionava, sequer se importava em saber a resposta.

Uma nuvem branca, saía da chaminé da casa que nos deu de comer: a casa do meio.
Corri, sem pensar. Em algum lugar do meu ser, eu sabia a resposta. Essa que adivinhei desde o primeiro dia da nossa viagem. Alcançar o extremo oriente, era o nosso destino.

Onde fica o extremo do nada? Caminhámos, sem destino sabendo dele, desde que partimos. Onde fica a chegada, se não existe o fim? Se nada existe, explica-me esta dor que dilareça o meu peito, Ben!

A casa tinha a porta aberta. Três degraus levam o visitante à sala. Cheira ao ar manso, morno da boca de Ben. O vento entra e faz rodar um pião de prata rendada. O pião espalha pelo ar, um pó branco, fino, formando uma nuvem branca, por toda a sala. A mesma que vi sair da chaminé.
Aspiro o ar.  “Nes Gadol Hayah Sham”

- Ben! - meus olhos choram, meu corpo treme entre a alegria e a tristeza, canto:


Esperei-te em silêncio,
num recanto qualquer
da minha existência
Esperei sem descanso

tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida
fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

Divino é o pó
em que tornas ao mundo
na terra, no ar, nos oceanos
Multiplicas-te em todos
em cada um

Esperei-te em silêncio
num recanto qualquer
No meu corpo salgado

Estás em tudo e em todos
Eterno é o teu descanso
Até sempre, Benjamin.



* Dreidel - (Yiddish; sevivon em hebraico) é um pequeno pião quadrado comumente dados as crianças durante Hanukkah (festa que dura oito dias e comemora a reedificacão do templo de Jerusalem feita por Judas Macabeu).

* Pessach -  também conhecida como Páscoa judaica celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Shemot (Êxodo).
Ethel Feldman



publicado por Augusta Clara às 19:00
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
Rotina - Ethel Feldman

Ethel Feldman  Rotina

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

Adriano chegou ontem mais cedo. Fiquei perturbada com a mudança. A rotina era chegar sempre mais tarde. Nunca conseguíamos jantar antes das nove e meia. Teimosa colocava a mesa sempre às oito - esperança vã.

 
Ainda não são sete da noite e Adriano já está em casa.
 
- Aconteceu alguma coisa?
 
- Não - responde-me, sorridente.
 
Meu coração dispara. Se ele está assim é porque aconteceu mesmo alguma coisa e não me quer contar. Disfarço o medo.
 
- Tens fome? Ainda não tenho jantar feito. Sempre chegas tarde. Logo hoje que me atraso, tu adiantas-te...
 
- Querida, está tudo bem. Queres ir jantar fora?
 
Meu corpo treme de raiva. Como pode ele convidar-me assim do nada. Nunca o fez em mais de uma decada de casamento. Nem antes, quando namorávamos.
 
- Queres jantar fora, amor?
 
- Adriano, por favor, diz-me. O que se passa?
 
Franze o sobrolho, começa a ficar zangado. Vira-me as costas. Vai para o quarto e regressa de pijama.
 
- Faltam-te as pantufas, não vês que estás descalço?
 
Sem responder, senta-se em frente à televisão. Devagar despe a camisa, em seguida as calças. Sem expressão pergunta-me:
 
- O que falta agora?
 
Fujo para a cozinha. Assim nem às dez jantamos!
 
É sempre a mesma coisa. Detesto a rotina.



publicado por Augusta Clara às 19:00
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Sábado, 23 de Abril de 2011
Os dez livros do século XX, por Ethel Feldman

 

Arrepiei-me com o pedido. De alguma forma lembrei-me criança:

 

-  Gostas mais de quem?

 

E eu sem saber o que responder, sorria. E os filmes, e a música, a comida, os quadros...

 

- Gostas mais de óleo ou pastel?

 

 

 

 

Porque não sei o suficiente, os livros são aqueles que me desenham, desenhando os outros. Só assim atrevo-me a fazer uma lista. Assim o que partilho aqui, porque não quero sentir-me aparte, é pura emoção.

 

Em criança, com o grande Monteiro Lobato aprendi que era possível possível viajar com o 'faz de conta' do Sítio do Picapau Amarelo(1)

 

Segue a lista que me lembro enquanto crescia:

 

Henry Miller - Trópico de Câncer (2)

 

Kafka - Metamorfose (3)

 

Camus - Estrangeiro (4)

 

Lawrence Durrell - Quarteto de Alexandria (5).

 

Graciliano Ramos - Vidas Secas (6)

 

Gabriel Garcia Marques - Cem anos de solidão (7)

 

Kenzaburo Oé - Dias Tranquilos (8)

 

Sándor Márai - As velas ardem até ao fim (9)

 

Não posso deixar passar em omisso o livro do meu pai:

 

                                      Fernando Correia da Silva - Matacães (10)

 

___________________________________________________



publicado por João Machado às 21:00
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Sexta-feira, 22 de Abril de 2011
Brasil, meu Brasil brasileiro por Ethel Fedman
Brasil, meu Brasil brasileiro
 
Brasil, meu Brasil brasileiro

Confundo a nossa mudança para Fortaleza com o golpe de 1964. A memória agarra os diálogos quase silenciosos dos meus pais.
- O Fernando queimou os livros na banheira...
Na cozinha, Nair colava os ouvidos à porta. O coração disparava e perguntava onde estava a festa da semana passada.
O Júlio tinha sido preso. Outros seguiram o mesmo destino. O silêncio forçado calava no coração a esperança do povo.
Meu pai abraçou-nos na despedida. Num DKW saía de São Paulo para Fortaleza. Nós seguiríamos depois. Beijou minha mãe, abraçou a baiana e pediu a ela que tomasse conta de nós.
Não sei quantos dias depois recebemos um postal. Uma fotografia de um clube a beira-mar. Uma seta desenhada, sugeria nossa futura casa.
A memória fez-me o favor de quase apagar a viagem de avião de São Paulo para Fortaleza. Na chegada meu pai, sempre bem disposto, sempre um pouco louco abraçava-nos. Uma casa em frente ao mar, sem forro no tecto, num bairro de pescadores.
Antes da escola, um banho de mar. No regresso das aulas, uma corrida para praia puxar a rede junto com os pescadores.
O Carequinha franzino, sorria envergonhado. Menino poeta, sabia de cor a canção do peixe enredado.
Nas noites mornas, ao redor da mesa, com uma cachaça por companheira, meu pai gravava as canções dos homens do mar. O gravador portátil era uma invenção nova. A cachaça abraçava o calor que o corpo pedia.
Um dia choveu. O povo na rua tirou a roupa, molhou o corpo. A terra sedenta bebeu toda água.
A morte vai apagando a vida. Na terra o suor de uma colheita perdida.
- Filhos já pari vinte… Será que o teu Maria, vai vingar?
Nas ruas os porcos comem as promissórias vencidas. Matar o bicho, dar de comer a fome.
Depois do peixe enredado o sol se despede. Nunca se atrasa. Nunca se antecipa. Os membros endurecidos anunciam o fim do dia. É hora de amar.
   

<iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/bKRr2zKxKXs" frameborder="0" allowfullscreen></iframe>


 

 

 
         
 

 



publicado por Luis Moreira às 23:00
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
Maresia - Ethel Feldman

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

Ethel Feldman  Maresia

 
Vem de oeste o vento
maresia
doce vontade de continuar

Ama sem nunca acabar de amar
Invade o corpo sem pressa
Intervalo que prolonga a vida.

Vem de oeste o vento
tudo traz sem nada ter
momento desperto - vazio



 



publicado por Augusta Clara às 19:00
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2011
Augusto - Ethel Feldman

Quem conta um conto...

 

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

 

 

 

Ethel Feldman  Augusto

 

Augusto acordou com um peso estranho na cabeça. A noite tinha corrido sem tempo medido – escura. Melancólica. Nauseado  levou  a mão à boca  numa tentativa frustrada para conter as tripas revoltas. Limpas as vísceras, resta um cheiro desobediente que invade toda existência.  Se conseguisse lembrar como é a primavera talvez aliviasse este presente fétido. Há momentos em que a memória inventa o passado, traindo a verdade do sofrimento. Como inventar a dignidade se ela fugiu sem avisar da partida?

 

Augusto forra o colchão com os últimos lençóis limpos. Um branco fingido veste a cama. Algumas nódoas fazem prova das noites descuidadas. Mesmo que tingisse de preto não conseguiria disfarçar o passado. E preto, nem pensar! Passaria a noite acordado com um medo de morte. Na mesa de cabeceira improvisada repousa um cinzeiro imundo. Nenhum candeeiro resistiu às quedas diárias. No tecto uma lâmpada mal ilumina o chão gasto, disfarçando a poeira acumulada de anos. Um móvel de estilo rococó, encontrado no lixo, arruma o que resta da vida deste homem cansado.

 

Em pé recorda as noites felizes vividas naqueles lençóis. Uma lágrima tímida dança em seu rosto. Quem inventou que a felicidade não magoa? Assim são as tempestades, furacões, terramotos, tsunamis. Belos quadros recheados de dor.

 

Deitado quer sonhar, ocupar o tempo que resta entre hoje e amanhã.
Augusto lembra-se do rio que banhava o terreno da casa dos pais. Nem sempre acolhia o obstáculo. Às vezes sem força dividia-se em dois. Tantas vezes Augusto fugiu da dor que dividiu-se em pedaços cada vez mais fracos. De costas encontra o tecto. De bruços encontra o cheiro das penas de um travesseiro antigo.
Longe vai o tempo das caminhadas em Sintra. Qual era o caminho que o distanciava do abismo? Fosse ele qual fosse Augusto o desprezou.

Torturado leva a mão a cabeça. É aí que dói. Nesta ferida que não pára de abrir. Entretido Augusto pesquisa cada saliência. Um líquido desconhecido molha seus dedos. Em  criança bastava o leite para alimentar a fome. Depois aprendeu a ler e saciou a curiosidade de outras vidas. Foi temperando o pensamento de condimentos sofisticados.

Talvez o corpo estivesse expulsando o excesso. Esperança de uma nova vida – que seja drenado o pântano. Augusto procura seu canivete – presente da mulher que o amou um dia. Leva devagar, com cuidado a lâmina à ferida. Sem hesitar vai abrindo a cabeça como se construísse um caminho. Doía mas Augusto não sofria, tal era a esperança de um ser renovado. O sangue banhou a cama. Majestoso, partiu sem dizer adeus.

 




publicado por Augusta Clara às 19:00
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Terça-feira, 29 de Março de 2011
Qual é a cor do mar de agora? - Ethel Feldman

Quem conta um conto...

 

(ilustração de Adão Cruz)

 

Ethel Feldman  Qual é a cor do mar de agora?

 

 

Vila Celeste, 11 de Maio de 2000


Um panfleto circulou pelas ruas chamando o povo. Rezava assim a publicidade:

Não perca o  "Primeiro Desfile Primavera/Verão das Trabalhadoras de Sexo


Da aldeia meia dúzia de jovens, meia centena de velhos. Mais de um milhar de estrangeiros curiosos. Maria envergonhada escondia a mão direita nervosa. A  velha espiava pelos binóculos do falecido. Seu José na esquina lambia os beiços. No palco, uma bandeira esvoaçava ao som do refrão:

Somos putas, somos putas
a mais velha profissão
Somos putas, porque não?

 
Ninoca,  trabalhadora da ONG distribuia sorrisos. Com uma embalagem na mão esquerda, gritava:

- Sexo é bom com camisinha! Verdes, amarelas, azuis com sabor a hortelã...
Nenhum partido polí­tico compareceu. Nem para apoiar ou censurar. Nestes eventos os polí­ticos perdem-se. Um ou outro ousou aparecer disfarçado de povo.

Com um sorriso desavergonhado, Oncinha anunciou:
 
- Povo Celestino! Esta é uma data histórica para todas nós, mulheres.  Aqui nesta vila com o nome da nossa padroeira, inauguramos o nosso primeiro desfile.Uma roupa democrática que não escraviza gordas, ou magras e não escolhe idade. A estudante, a senhora casada e até a viúva enlutada pode vestir. Uma roupa que atende a ricos e pobres.

Entre santos e pecadores, o sexo comercial foi legalizado, contra a vontade da igreja pela voz de Régio.

Em Novembro desse ano, Dario resolve moralizar  os costumes e toma o poder com Régio.
Anuncia novos impostos. Joga golfe todos os dias. Num campo verde de mentira, feito a dor que a gente sente.
Brutti, sporchi e cattivi e o povo unido jamais será vencido!

Nosso povo virou plástico. Ao menor sinal de fogo - derrete!
Um ginásio a cada esquina. No bar, tofu e aguardente. Em cada semáforo um oriental falsificado que faz Tai-Chi. Na mão direita envergam uma bandeira vermelha.

Queimaram os filmes e do mar só resta o som. Desde então o céu mudou de cor - cinzento. No horizonte ergueu-se um muro a esconder o infinito.

Deus segreda todos os dias qual a cor do mar de outrora. Não sabe qual a cor dele agora.

 



publicado por Augusta Clara às 19:00
editado por João Machado em 15/04/2011 às 12:55
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Segunda-feira, 28 de Março de 2011
Doce é o momento quando me esqueço, de Ethel Feldman

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Doce é o momento quando me esqueço

Floresce o campo na Primavera

Abunda a neve no cimo da montanha

Canta o rouxinol no bosque

E o dia cede lugar à noite gentilmente

 

Como o poema que nasce em cada estrofe

Morrendo abro caminho à vida



publicado por João Machado às 10:00
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EDITORIAL
AUTORES
Adão Cruz

Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Antunes

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Moreira de Sá

Fernando Pereira Marques

Hélder Costa

João Machado

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Moreira

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Maria Inês Aguiar

Paulo Melo Lopes

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Raúl Iturra

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