Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011
Mas um dia vai mudar... - Baptista Bastos e O Mundo À Minha Procura - Ruben A.
coordenação de Augusta Clara de Matos
Hoje Falamos de...Ruben A.

BAPTISTA-BASTOS

Baptista Bastos

Mas um dia vai mudar...

 

Anteontem, fazia um frio medonho. Cumpri as rotinas: comprei os

jornais, três, fui à pastelaria e sentei-me na mesa habitual, junto à vitrina maior. Estava embaciada e o interior do estabelecimento cheirava a café como lhe cumpre. Os clientes do costume e o ambiente de concerto falhado. O correio  trouxera-me um livro de Ruben A., Um Adeus aos Deuses, editado pela devoção atenta de Liberto Cruz, chancela da Assírio & Alvim, e prefácio de Rosado Fernandes. Gostava muito do Ruben: do seu inesgotável talento para interpretar as coisas da vida, do júbilo esfuziante com que se movia, como andava, rápido, ziguezagueante, sorriso prazenteiro, transeunte sempre apressado.

Entrava na Redacção do Diário Popular, cumprimentava de fugida, sentava-se, invariavelmente, nas mesas de três jornalistas: Jacinto Baptista, José de Freitas e na minha. Por minutos. Não tinha tempo para obscuros devaneios. "Tudo na mesma. Mas um dia  vai mudar. Não sei é quando." Três frases que resumiam analogias procuradas, desejos discretos, o pulsar agitado de um coração em permanente alvoroço.

 

Salazar detestava-o, tanto quanto ao estilo de que se servia para dizer o mundo. Despediu-o. "Este homem  é destrambelhado." Não percebia a grandeza do funcionário. Tal como Marcelo Caetano injuriara Raul Brandão e o Húmus, num texto vergonhoso por ignorante e sórdido. Os tiranos execram aqueles que escapam às suas esquadrias. Ruben, sobre ser um prosador incomum, um romancista, um memorialista e um cronista de primeiríssima água, especializara-se em D. Pedro V, sua paixão de embalar.

"Tudo na mesma. Mas um dia vai mudar. Não sei é quando." Na pastelaria de bairro, sentado na segunda-feira de todas as decepções, recordo o amigo que batalhou contra as superstições da época, utilizando o adjectivo como modo de tomar partido e as espantosas criatividade e imaginação para se proteger da infâmia do tempo. Um Adeus aos Deuses  é um livro único e, simultaneamente, a comovida expressão de quem ambiciona fugir para os seus mitos a fim de se refugiar das violências da realidade.

A música que Ruben A. possuía era-lhe própria  e  sistema de exclusividade. A sensibilidade ilimitada de um criador extraordinário, cujo estilo é o particular panteísmo de quem quer ter a lua junto de si.

Na manhã de segunda-feira, no after day  acabrunhado que nos impingem como novidade e festa manifesta-se, pegajosa e escorregadia, a nefasta tristeza de um dia que se continua a outros dias glaucos e viscosos. Revejo-o, saltitante, sorridente, célere a entrar na Redacção. Vai ali e vem já. Entrega o original e corre para a a saída. Ruben A. A recordação de épocas felizes, porque alagadas de esperança, sobrevém a todas as nefastas melancolias.

 

"Tudo na mesma. Mas um dia vai mudar. Não sei é quando."

Ruben A. O Mundo À Minha Procura

 

 

Onde estava o amor? Ela? Toquei ao de leve na viela do Sobreirinho. Aproximei-me da casa, um monte de fantasmas expeliu saudades de outrora. Parei uma nesga. Senti as per­nas tremerem. Um outro eu permanecera ali todos estes anos desde que tinha deixado o Porto. Reconheci-me. Abracei-me. Eu ficara puro à espera do amor. Disse-me a mim que Ela tinha casado. O quê! Sim, foi há quase dois anos, na Prima­vera, quando se casa no Porto. Ia tão bonita de noiva.

O mundo fugira-me naquele momento. As casas tornaram--se baças, os jardins secos, queimados vivos, os seres petrifi­cados, as almas em busca de um norte que eu não sabia onde pairava. Por ali eu entrara, dali eu saíra. Ainda sofria. A pele arrepiada, as portas fechadas, janelas corridas, silêncio de um momento a sós em que o espírito parece Deus. Como era pos­sível Ela ter casado? Não esperara por mim! Surgia, no encon­tro das coisas da vida, uma certeza de que há pessoas que não esperam por outras. Têm mais pressa. Como poderia falar com Ela?l Sentia-me ludibriado pelo destino. Ela fora habi­tar um cemitério que eu não sabia onde situar. Talvez na peri­feria, debruçado sobre a paisagem, como todos os cemitérios que querem as almas bem ricas de horizontes. E quem seria o guarda daquele corpo? Um mundo rodava, o livro virava a primeira grande página, a contagem para a frente trazia cica­trizes que precisavam de muita habilidade no disfarce. Mais ainda: as operações de beleza eram estéreis nos casos senti­mentais. Como é que Ela podia ter casado?

Havia outras verdades que eu não entendia. O azul do céu?! Chegara tarde às coisas, aos seres, às cores. Quando quis levantar voo, fui agarrado por uma força brutal que me pros­trou inerte no sangue daquele mundo que lá longe ria de mim. Cheguei a casa da Tia Teodora e tirei a roupa da mala, arru­mei a tralha a uma banda, e no esbracejar ia sendo novamente inundado por bagas sucessivas, enormes, de Amor. — No meu quarto, isolado, vendo as correntes de alta tensão eu afogava o requeimado vivo. Abri a janela, olhei para o muro que me viu cair, horas certas em que E. C. passava. Lá ia empurrando o carrinho com o cão à trela. Inglesa segura, bem penteada, sem desalinhes, inglesa de peito escondido como manda a regra puritana. Ela, casada? Sim, meu filho da Mãe, casou-se para arrumar o fim da guerra. E a quem tinha de pedir autoriza­ção? Não era a mim, pedaço de asno a fazer cortesias, pateta das luminárias a representar de bobo no palanque de Cascais. Ela estava de perfil, quase silenciosa, ouviam-se palavras de viés, de quase amor. Com quem? E a noite de núpcias? E eu não assisti! Chiava atolado de lassidão, uma baba de gozo por um triz azarou a vista, marrei forte, virei a cabeça para os fundos e os olhos pousaram no Campo Alegre. Não esfranga­lhara a virgindade, menos a dela. Casada?! E eu de alegria lorpa, ah, ah, ah, ah, risotas de quem salta de casota, mor­daça na dentaça, ah, ah, ah, pistoleiro de matar, pantomineiro gargalhando a frio. Espinhela caída, debruçado, turvo, oftál­mico, eu agarrava o destino na sequência de uma razão que agora me pertencia. Tinha perdido o comboio, aquele com­boio jamais voltaria ao ponto de partida, entrara numa via única, a toda a brida, nem o cheiro eu lhe podia olfatar. Mexi os pés, cavalo de mim próprio, manco, só me sobrava um novo par de solas, boas ferraduras que aguentassem o terreno onde esperneava de saudades.

(Ruben A. é o primeiro a contar da direita)

 

Ia eu ali passar quanto tempo? Que importava isso, as con­tagens desgrudam-se quando os sentimentos atarracham o nosso humo. O dia da boda! Um dia em que não fui convi­dado, pois o rifão bate certo, e quando seria o baptizado? De quem? Caluda, juízo. Poderia ser parecido comigo, teria sido tão fácil, tão humano, um esperma a passear no Campo Ale­gre, distraído dava entrada onde alguém distraído o esperava. Ah! E era bom. Sim, cabeça, tronco e membros, a geografia humana para amaciar com os dedos, às vezes marotos de ter­nura, quase com tiques nas formas mais salientes, tímidos ao galgar nas divisórias do corpo para os membros; é preciso ter cuidado. E Ela esquecera-se de mim? E eu esquecera-me com a Mafalda, verdade que custava caro na contabilidade severa que às noites eu fazia.

Entrava num Porto amedrontado de mim. Uma cidade no fumo das fábricas, nos cestos das padeiras, em bafos de rufo de tambor, eléctricos que se ouvem no outro mundo. — Porto cem vezes corrigido de fonemas, Porto que vira Belzebu com­prar homens como quem merca em Norte de África, a cidade estava sem novidades, estava, simplesmente, com bolo-rei da Oliveira, no Natal, amêndoas torradas do Costa da Foz, logo na abertura das Páscoas, castanhas a saírem do saco, quentes e boas, quentes e boas, panos secos nas bermas dos armazéns, cheiros fétidos de sarjetas empestadas, sol que não entrava na Rua de Cedofeita, burgo honesto como se de amor não tra­tasse. Ela aonde? Com casa, mesa e roupa lavada! E na manhã depois da noite? Onde estaria eu? Comandante destronado, ministro despedido, marechal sem exército, esgalgado na voz de ordem, nem para a frente nem para trás. O remédio? Haverá remédio para o desengonçado da sarna do Amor? Onde está? Sim, a casa dela fora ali ao pé de mim, ainda estava ao pé, não de mim, separada por um tabique e com alguém que eu não conhecia, «Sim senhor, tem a bondade, faz favor de entrar.» — «Não demoro nada.» «Também era o que faltava.» «Como é que se fazem os filhos?»

Olhei de frente, as lições, os compêndios, manuais que os falhanços agrupavam na minha biblioteca, universidades, sabedorias de quê? Se fosse capaz, ia puxá-la por um gasganete, voltava-me e dizia: «O cavalheiro faz favor de se retirar, deve estar enganado, isto não lhe pertence, deve ser outro número de casa.» «Perdão.» «Para estes casos não há perdão.»

 

«Mas eu casei-me enquanto o senhor andava a viajar lá pelas Alemanhas, depois a jogar bridge em Cascais, esqueceu--se.» Não sabia responder. «E o senhor sabe muito bem que está noivo.» Só de muletas eu podia arrancar do parapeito da janela. Virado ao avesso, esfrangalhado. «Entretanto, eu casei.» Ah, Ah, Ah, um intervalo que me custou caro. «Ela também casou, casámos. Está a perceber, e aqui o senhor não tem mais nada que fazer. Case também para ver como é. Anjinhos e música, presentes e bolo, piteireiros e fotografias, filhoses com sabor erótico, e à noite, tirado o vestido de cauda, ver.» «O senhor está a cometer um crime, fazzzz.» As palavras no nicho de uma igreja deserta enfriavam-me a alma. Ele tinha razão, há pessoas que erradas de nascença têm razão. E ele casara. Ela ainda continuava virgem, estava a sair do Colégio da Boavista, lá no alto da rua, cinco horas da tarde, acabou a aula, o último recreio foi às quatro, o lanche à espera, e eu a aguentar o 31 a dar mais carambolas e a levar-me o milho que a Tia Teodora emprestadava às escondidas. Qual bilhar, qual tacho! «Ó pá, tenho de apanhar o 4 que vai para a Fonte da Moura. Já.» «Este gajo está doido, dá-te as pressas, a pe­quena é mesmo boa, ela espera-te? Faz sofrer, elas gostam que a gente diga e não faça, no fundo todas gostam da mesma coisa. Vê lá, se precisares de ajuda...» Poucas falas, as mulhe­res na minha vida foram sempre de poucas falas, vocabulário restrito, seguro, limitado, sem indemnizações, estolas de passeio, alcavalas postas por mim, um dez por cento de não-te-rales.

 

Afastei-me da janela aberta, encandeado o olhar. A carta de Mafalda devia chegar no amanhã. E eu ia casar? O quê? Ali no Porto? Ter filhos ao lado dela, perto dela, dormir, tro­car, virar na cama, tufos, ziguezagues de cortesias, tumba! Com os dentes desmanchava febra a febra, uma riqueza... A carta de Mafalda vinha de um outro mundo. Aguentava firme, aba­lava as estruturas de betão armado, sismos poderosos, vagas que de Leixões subiam os molhes, inundações na Ribeira de Miragaia, um escorrer sangue, caudal de escabeche, e eu vivo no terramoto, vivo, chusma de sensações comigo, alturas de magirus, estátuas dentro de mim, descerrando as lápides do Amor nas encruzilhadas de terras do Minho, com minha avó — A Velha Máquina — de Fafe à Trofa e de Trofa a Fafe, pão-de-ló de Felgueiras, o melhor, lamber o papel, comer os beijinhos em Vila do Conde, e as broas de ovo em Viana, parar à entrada da ponte do rio Cávado e dar dez tostões ao ceguinho, enquanto o velho Daimler metia água no bucho para as rectas da Póvoa, com Sezé Resende atento aos furos. Ela não me roubara nada, nem a larica dos dias feriados. Mas seria possível olhá-la, de frente, com a coragem de quem não tem coragem. E eu! E nós!, um de nós que não mais existiria, no cemitério talvez com datas na campa, flores em Novembro quando todos no Porto vão a Agromonte lembrar os que lá estão, dia dos mortos, dia em que não se morre, não há enter­ros, estão proibidos, no dia seguinte avisa-se o cangalheiro, e enterros bons só no Porto, com fanfarras, dirigidos superior­mente pelo comendador Santos da Silva, essas montadas nos altares, símbolos. Ah, ah, ah, ah, no funeral de Belzebu, na Igreja da Trindade, música para aquele diabo, esqueceram-se das maldades, mas um dos mais sabidos, à saída do enterro, mandou deitar foguetes, cada estoiro, aviso para levar-lhe a alma para os Infernos, podia haver uma distracção e...

Amanhã com a carta de minha noiva, Mafalda prometera escrever todos os dias! Sim, voltava a Coimbra, rapidamente, postumamente, um giro sem graça, possidónio às vésperas tar­dias de um casamento, daí a quantos meses? Talvez seis, a con­tagem era minha, o resto agenda de calendário para satisfazer as repartições públicas. Ali, eu, de boca aberta para mim, eu ia viver com missa aos domingos e dias santificados. Podia ir vê-la, quem sabe a hora, de escondidas, os corpos conhecem--se como os bichos, se eu estivesse presente ao pé dela, daí a pouco um mexer de nada agitava o livro de missa, voltava-se para trás, e eu ali, distraído, sem bulir nas folhas, Ela parara enquanto o padre deitava os santos óleos, estava estremunhada já ao meio-dia, quis certificar-se melhor, e voltou de novo a cabeça. Sim, não fora ilusão, era mesmo eu. Estava a guarda­da, ao pé, como era isso possível?! E o mundo, todo passado a ferro, sem tugir, via uma bezerra morrendo ao longe, jul­gava que Ela deixara cair qualquer coisa, talvez o véu. Sim, era fácil, eu no domingo saber da missa, saber onde Ela vivia. E, como quem não quer a coisa, ao jantar perguntava à Tia Teodora, discreto a deixar o lamiré. A Tia desfiava o rosário, contava-me tudo, e naturalmente ainda acrescentaria: — E está bem bonita, fez-lhe bem casar. Também estas meninas se não casam... Sim, vive na Foz. Era. isto que eu queria apanhar, uma palavra com um mundo lá dentro, podia esperar. Entretanto receberia várias cartas da Mafalda, carta de Meu Querido Amor, Meu Adorado Querido, Meu Amor Adorado, cartas que me encostavam à cruz, pregavam de alfinetes. Fazer de faquir, tar­tamudear as veias, laquear as palavras. Não, hoje não escrevo. Cheguei bem. se chegasse mal, os jornais contariam. Cheguei mesmo muito bem, muitíssimo bem, nunca devia ter partido, nem  os amores de Verão na Parada me prendiam, amores esti­vais, de aperta-mão, amores de beijos longos por trás das barracas junto à babugem, amores de pouco significado, amores para daí a pouco   passarem, com a abertura das aulas, distracções para aprender, sempre nas aulas. Allons enfants de la Patrie le jour de gloire est-arrivé — tirava da mala os cosméticos, os fanados de indumentária. O que interessava na vida? Sabia lá. Precisava de comprar atacadores, ir às Carmelitas e ao Bolhão, descer até à Praça, passar frente à casa do Lino num adeus ao meu Tio João, companheiro na caça à galinhola que todos os anos pousava na mata do Campo Alegre.

 

 

 

(in O Mundo À Minha Procura III, Assírio & Alvim)

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publicado por Augusta Clara às 14:00
editado por Luis Moreira em 04/02/2011 às 00:05
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Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011
Luta armada contra a ditadura (8) – por Carlos Loures

(Continuação)

No Porto, permaneceram fiéis à Ditadura, elementos do Regimento de Infantaria 18, do Regimento de Cavalaria 9 e o Regimento de Artilharia 5 , instalado em Gaia, na Serra do Pilar. A GNR declarou-se neutral, declarando-se disposta a garantir o policiamento das ruas da cidade. Informadas do que se passava, as forças fiéis ao Governo, mais numerosas e dispondo de mais meios, iam, mesmo antes de receber reforços, preparando o cerco. Logo às primeiras horas de sedição, houve esporádicas trocas de tiros nas Ruas de Barros Lima e Montebelo (actual Avenida de Fernão de Magalhães); no Marquês de Pombal; na Praça dos Poveiros e no Largo do Padrão. Porém, os 12 feridos do primeiro dia de revolta atestam a brandura dos primeiros confrontos. Na madrugada do dia 3, a artilharia da Serra do Pilar entrou em acção. Dois obuses atingiram, na Rua de Gonçalo Cristóvão o quartel de Sapadores Bombeiros.

As forças governamentais, depois de algumas horas de desorganização, passaram a ser constituídas por uma parte reduzida do Regimento de Infantaria 18,, que tinha como comandante o coronel Raul Peres, o Regimento de Cavalaria 8 e o Regimento de Artilharia 5, este aquartelado na  Serra do Pilar. Na tarde do dia 3 de Fevereiro, sob o comando do coronel  João Carlos Craveiro Lopes, chefe do estado-maior da Região Militar e governador militar da cidade,  concentraram-se no quartel da Serra do Pilar e abriram fogo de artilharia contra os revoltosos. Na própria manhã de 3 de Fevereiro, o Ministro da Guerra, coronel Passos e Sousa, saiu de Lisboa num comboio com destino a Vila Nova de Gaia, onde chegou ao fim da tarde. Assumiu o comando das forças governamentais até então comandadas pelo coronel Craveiro Lopes.

Durante essa primeira manhã da sedição, chegaram aos revoltosos reforços vindos de Valença. Desembarcaram na estação da Boavista, na Avenida da França, e marchando pela Carvalhosa, Cedofeita, Clérigos, Praça da Liberdade,  Rua de 31 de Janeiro, atingiram a Batalha, onde se juntaram às forças rebeldes. O cerco ia-se apertando, no entanto. O navio "Infante de Sagres" aportou a Leixões com reforços. Em Valbom, tropas governamentais tinham atravessado o rio e dirigiam-se a marcha forçada para o centro do Porto. Os combates tornavam-se, de hora para hora, mais renhidos. Violentos tiroteios ouviam-se perto da Batalha, no Bonfim, em Santo André (Poveiros), Padrão, Campo de 24 de Agosto, Rua do Duque de Loulé, Fontainhas, S. Lázaro… No dia 4 de Fevereiro, e nos dias imediatos, juntaram-se aos revoltosos do Porto forças vindas de Penafiel, Póvoa do Varzim, Póvoa do Varzim, Famalicão, Guimarães, Valença, Vila Real, Régua e Lamego. Vinda de Amarante chegou mais artilharia, a qual foi posicionada perto de Monte Pedral. A artilharia da Figueira da Foz foi detida na Pampilhosa quando se dirigia para o Porto. Começaram a chegar notícias de adesão de diversas unidades: Viana do Castelo, Figueira da Foz e Faro, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António. No entanto, a notícia mais esperada, a da adesão da guarnição de Lisboa não chegava e esses levantamentos locais foram jugulados rapidamente.



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por Luis Moreira às 12:26
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Sábado, 18 de Dezembro de 2010
...

A paz num abrir e fechar de olhos (Era assim quando, há uns anos)


Marcos Cruz





Há um antes e um depois do respirar fundo assim que se chega ao cais de embarque para a Afurada. Podem o dia ou a noite, dependendo dos casos, ter sido cansativos, frustrantes ou até deprimentes, que ali, massajada pelo bater de asas das pombas, pela bricolage sonora das tainhas nas águas marginais (como elas), pela placidez distante da povoação em frente e pela milagrosa frescura de toda aquela velhice, uma pessoa esvazia-se de tudo. Sobretudo de si.

Lá vem então um dos barcos. São dois, o Flor do Douro e o Flor do Gás. Partem de quarto em quarto de hora, para cá e para lá. E não se cansam. A história repete-se, mas as histórias dentro dela e deles tem sempre um dia mais, um gesto novo. As margens são como braços que nos restituem a idade em que do sossego ao espanto, e do espanto ao sossego, vai um abrir e fechar de olhos. É esse o tempo que dura a travessia.

Casimiro Manuel, Cristiana Marlene, Jesus valei-nos, O Predador, Ricardo Filipe. Atracadas de um lado e do outro, as casquitas de noz têm nos nomes a única raiz, que os cabos também desprendem. Apetece fazê-lo de cada vez que ali se está, suspenso da brisa e de todos os clichés que, simbolizados no pôr-do-sol, essa incorrigível instituição do romantismo, nunca perdem o encanto. Naquele leito, o lodo é um fait divers, não mais que o mau princípio onde a vontade desenha a possibilidade dos sonhos.

Mas fiquemo-nos pelas flores, a do Douro e a do Gás. É uma forma de, atravessando o rio, mantermos os pés na terra. Bandeira de Portugal como cauda de cão feliz, lá vão e vêm uma e outra, envoltas no cheiro dos nomes que lhe deu a dona, D. Maria de Lurdes, setenta anos de vida sofrida, trinta e tal de dona das lanchas. E dos lanches, alegria dos reformados, muitos deles pescadores que ali se sentam para bater trunfos na mesa, beber uns copos e, se a maré estiver de feição, tirar peixes a rios antigos.

A paz revê-se nisso, superior à perturbação dos prédios feios que vão espreitando no cima da encosta, por sobre a dita Afurada de casas francas e relações firmes. O rio propaga o som das sandálias que lhe marcam o ritmo e entra-nos na boca como a saliva do apetite, feito desejo de nos descozinharmos. A crueza acena dali. Crua e cruel, por se mostrar tão nossa e ser dos outros. A Afurada é esse espelho. Cortando o rio de sol a sol, o Flor do Douro e o Flor do Gás são vozes únicas em defesa da travessia. Um euro para cá, um euro para lá. Se euros maiores lhe cortarem o pio, respirar fundo nunca vai ser a mesma coisa.


publicado por Carlos Loures às 23:55
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Sábado, 4 de Dezembro de 2010
Coisas do Porto - Quinta dos Três Castelos, onde viveu minha mãe.

Eva Cruz

 Havia em Vila Nova de Gaia duas quintas com nomes parecidos, a Quinta do Castelo que pertencera aos pais de Almeida Garrett, onde o poeta passou a viver a partir dos cinco anos, e a Quinta dos Três Castelos que pertencia a Bernardo Soares de Almeida, irmão de Virgolino.
Perto do apeadeiro de Coimbrões, junto à linha férrea, mandou Bernardo Soares de Almeida construir, em 1907, ao gosto revivalista do início do século XX, uma muralha de cimento com três castelos e torreões que servia de mirante aos felizes proprietários para verem passar o cavalo de ferro ou o pássaro sem asas. Esta muralha acastelada e de contos de fada encerrava uma casa que Bernardo Soares de Almeida reconstruíra ao sabor dos tempos românticos. Todo o interior da quinta era de grande imponência e harmonia. Do lado poente havia um portão de ferro de lindíssimo gradeamento que dava para uma alameda empedrada de xistos maravilhosos, bordejada por frondosas japoneiras, e o jardim era adornado por árvores e plantas raras. No alto da alameda erguia-se a casa grande e elegante, servida de uma escadaria de acesso, tudo ao gosto romântico da época. Perto da escadaria havia um lago e um repuxo com um menino a deitar água pela boca. Mais um pequeno mirante escondia o depósito da água. Sob a estátua escreveram a data da construção.
Nas traseiras da casa, o portão de cima dava para um espaço agrícola pertencente ao mesmo dono, que se chamava a Quinta da Lavoura.
Na cave do casarão, uma adega enorme com lagar granítico honrava os alicerces da Quinta dos Três Castelos. Hoje, resta um descampado onde se ergue uma escola com esse nome e aí resistem à morte dois dos três castelos, quase esboroados.

Diz Hélder Pacheco que agora já ninguém liga ou nem repara, mas nos tempos áureos da Quinta, a visão da fortaleza cinzenta, impante e bem tratada, era espécie de cartão-de-visita requintado da Vila Nova.


(Ilust. Adão Cruz)


publicado por Carlos Loures às 19:30
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Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010
Coisas do Porto

Eva Cruz

A minha mãe morreu com 101 anos. Teria hoje 103 se fosse viva.
Viveu de recordações. Mesmo muito velhinha contava, cantava, fazia rimas e versos e numa semi-lucidez foi feliz e fez os outros felizes até ao fim.
Nas suas recordações, o Porto, onde viveu a sua mocidade, estava sempre vivo.
Retirei de um livro que escrevi sobre a sua vida e que não é nada mais nada menos do que um baú de recordações que tive a coragem de abrir, este texto:
Aurora passou toda a mocidade na Quinta dos Três Castelos.
» Foram os tempos mais lindos da minha vida. Tive uma novice como ninguém. À noite recebíamos senhoras e senhores da alta roda do Porto. Até um senhor francês, Monsieur Valladier, mais tarde professor da tua mãe. Vinha todas as noites ensinar francês à minha prima. Íamos também ao cinema e ao teatro Sá da Bandeira, antes Príncipe Real. Os meus tios nunca saíam connosco. Acompanhavam-nos o meu primo e a esposa. Vi o Amor de Perdição, as cartas de Simão e Teresa lançadas ao mar por Mariana. A minha prima Laurindinha até chorou. Adeus! À luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão!.
Na rua Trinta e Um de Janeiro havia, antes de eu estar no Porto, o teatro Baquet que
ardeu por completo. Um dia, contavam os meus tios, estavam preparados uns amigos, pais e filha, para irem ao teatro. A menina mostrou-se indisposta e foi uma desmancha-prazeres. Naquela noite, apesar da insistência dos pais, ficaram em casa, e nessa mesma noite deu-se uma das maiores tragédias da cidade do Porto. O teatro Baquet ardeu por completo e lá morreu muita gente queimada. Quando ao outro dia se soube a notícia, os pais beijaram a filha, de contentes. Vê lá tu, ela assim salvou a vida aos três. A criança adivinhou a tragédia que se ia dar.
* És muito tolinha, avó, a menina não adivinhou nada, calhou assim, avó, calhou assim.
» Há coisas que ninguém sabe explicar.
* E tu sabes, avó?
» Não sei tudo mas há coisas que tu não sabes e eu sei. Está mas é caladinho e não digas a ninguém que vais daqui!
O teatro Baquet, na Rua Trinta e Um de Janeiro foi construído em meados do século XIX e passados vinte anos, um terrível incêndio reduziu-o, realmente, a cinzas e destroços. Morreram cerca de duas centenas de pessoas.
O incêndio começou no palco. Uma bambolina foi incendiada por uma gambiarra. Um actor ainda gritou para cortarem uma corda da bambolina mas a desorientação foi tal que o incêndio alastrou e tomou proporções desastrosas. No alvoroço, os espectadores correram para as portas de saída que, por azar, eram de abrir para dentro. No desespero esmagaram-se uns contra os outros. Foram dadas ordens para desligar o gás, como medida de segurança, mas o escuro aumentou o pânico e só o clarão sinistro do incêndio passou a iluminar aquele inferno. Foi um tal horror que pôs de luto a cidade inteira, e durante gerações o Porto não esqueceu a tragédia do incêndio do teatro Baquet. Aurora lembra-se de uns versos que correram na época, mas lamentava não os saber de cor, ela que tanto gostava de rimas e a propósito de tudo ou nada rimava.
Na verdade, entre os muitos textos escritos nos jornais da época, alguns poemas do jornal Charivari mostram o sentimento público perante tal tragédia:
É triste a nossa tarefa
N’este momento de lucto
Também pagamos tributo
Á mágoa que vai lá fora.
Não póde ter nossa penna
Zombeteiras ironias
Perante as magoas sombrias
D´uma cidade que chora.

Envolve a cidade inteira
Da morte o manto funerio.
As vallas do cemiterio
Abrem-se tôrvas, hiantes.
Sente-se um vento de morte
Estranho, frio, gelado,
Sobre o montão desolado
Das ruinas fumegantes.

Ha pranto nos nossos olhos
Tristeza infinda na alma
E tão cedo não se acalma
A magoa que nos invade.

Tamanha dôr e pavor
Nos punge n’este momento
Que em ondas de sentimento
Choramos com a cidade.

(ilust. Adão Cruz)



publicado por Carlos Loures às 19:30
editado por João Machado em 14/04/2011 às 00:17
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Teixaira de Pascoaes e Eugénio de Andrade - Dois poetas, um fotógrafo e a cidade


Diz Teixeira de Pascoaes:Porto da minha infância!

A primeira impressão que me causaste

Tenho-a, cheia de espanto, na memória,

Cheia de bruma e de granito!

É uma impressão de inverno,

Sombra cinzenta, enorme, donde irrompe

Alto cipreste empedernido,

No meio de sepulcros habitados.
Diz Eugénio de Andrade:

Meti-me por setembro fora, a caminho do fulgor das maçãs, deixando para trás os bruscos golfos da tristeza e uma luz de neve quebrada de vidraça em vidraça.
Contemplava a cidade das pontes pela última vez, envolvida por lençóis encardidos e uma névoa que subia do rio para lhe morder o coração de pedra.
Era um burgo pobre, sujo, reles até - mas gostaria tanto de lhe pôr um diadema na cabeça.

Eugénio de Andrade, Memória Doutro Rio, Porto, Limiar, 1978.

Foto de José Magalhães


publicado por CRomualdo às 09:00
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Sábado, 27 de Novembro de 2010
A abertura do campeonato da Europa em 2004 no Estádio do Dragão

Carlos Godinho

A candidatura de Portugal ao 2004 começou em 1998 e teve decisão em Outubro de 1999. A competição começou em Junho de 2004, no Estádio do Dragão, no Porto. Foram portanto, entre candidatura e início da competição, cerca de seis anos de trabalho intenso. De organização e de criação de meios para que a equipa estivesse em perfeitas condições na prova e se possível vencê-la. Estava um dia fantástico de sol quando saímos do hotel e nos dirigimos para o estádio. A cidade estava eufórica, não só com o início da prova mas também pelo facto de se sentir que a Selecção Nacional entraria com o pé direito no seu primeiro jogo, que seria também, em princípio, o último realizado na cidade. Fui eu próprio que na altura da candidatura fiz o desenho de calendário e limitei-me a copiar o que tinha dado resultado em 1991 quando vencemos o Mundial Sub/20, ou seja, o primeiro jogo no Porto, e os restantes em Lisboa, desta vez porém sem esquecer Alvalade.

Nas janelas e por toda a cidade viam-se milhares de bandeiras nacionais que ansiavam pela primeira vitória, contra a Grécia.

O jogo começou mal, com a equipa nervosa, sentindo o peso das responsabilidades e no final os gregos levaram a melhor e venceram.

Desespero, e até choro, nas cabines. Ambiente gelado e desanimado que durou cerca de uma hora até sairmos para o hotel para jantar, antes de regressarmos a Lisboa de avião.

Ao jantar nem uma palavra tentando antecipar-se o que nos esperaria à saída do Porto e à chegada a Lisboa, esperando-se um ambiente hostil à porta do hotel na hora do regresso à capital. Não tomámos grandes medidas de segurança porque sentimos que apesar de tudo, todos se comportaram devidamente e deram o seu melhor.

Eis senão, quando saímos do hotel, uma pequena multidão, aglomerando-se no local onde a polícia o permitiu, começou a gritar “Portugal”, “Portugal”, sem parar, e notoriamente comovidos, acreditando que seria possível dar a volta à situação. Jamais esquecerei esse momento e estou certo, que todos na comitiva sentiram que o primeiro passo para a mudança estava dado. Se as pessoas anónimas que ali estavam acreditavam, só nos restava um caminho, segui-los. O resto da história é conhecido, mas aquela posição, num momento em que seria fácil hostilizar a equipa, dando sequência aliás a posições anteriormente assumidas por alguns dirigentes portistas, foi o tónico que originou a motivação para se superar o que veio a seguir. Aos adeptos da Selecção Nacional da Cidade do Porto, devemos uma parte importante do caminho (quase) vitorioso do Euro 2004.


publicado por Carlos Loures às 11:00
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Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010
Despedimo-nos do Porto
Aqui se encerra o dia do Porto no Estrolabio, um dia construído, em equipa, por tripeiros, mouros e gente de outras paragens. Nas diferentes perspectivas que por aqui passaram esteve, como elo comum, o afecto pela cidade, mesmo quando esse afecto nos chega tocado pela incomodidade, quando não pelo desgosto por vê-la afastar-se de tudo o que para ela desejamos. Mas as cidades transformam-se, arruinam-se e reergueem-se, reinventam-se e permanecem. E o Porto não será excepção.

E eu, com o meu exemplar distanciamento de portuense, digo-vos que esta é a mais bela cidade do mundo.




publicado por CRomualdo às 23:59
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Dicionário de portuense: Poça p'ro nevoeiro!
Não mudes de assunto, não desconverses.


(Recolhido por Alfredo Mendes, em Porto Naçom de Falares, Âncora Editora, 2010)


publicado por CRomualdo às 23:30
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Dia do Porto: Caçador de magnólias

Carla Romualdo

Apresento-me: sou um caçador de magnólias. Não de qualquer magnólia que se me apresente, atenção. Interessa-me unicamente a magnólia branca, mais invulgar, mais frágil, um erro genético. A magnólia rosa, cujo suave tom acetinado constitui o cenário ideal para fotos de casamento, aborrece-me.

Conheço bem o território de caça. Sei que há dois exemplares, um ligeiramente mais tímido, outro mais confiante, frente à igreja dos Congregados, a dar guarida à estátua do Ardina. A rua de Sá da Bandeira recebeu recentemente uns quantos jovens que este ano dão flor pela primeira vez. Sítios insólitos, como o pátio do ACP, em Gonçalo Cristóvão, também albergam por vezes esplêndidos indivíduos, de grande maturidade e porte digno. Mas costuma ser no largo 1º de Dezembro (que serve de esconderijo à grande maravilha barroca da cidade, a igreja de Santa Clara) que se encontra uma assinalável concentração de especímenes.

Porque me fiz caçador de magnólias? A pergunta deveria ser: porque não o somos todos? Encontrá-las transformou-se numa missão da qual quase se poderia dizer que depende a sobrevivência da espécie. Da nossa espécie. Localizo-as, tomo uns quantos apontamentos que poderão ser sobre a tonalidade, o perfume, ou o desenho particular que as pétalas mortas traçam sobre o solo, e caço-as.

Como caço? Bem, creio que da mesma forma que todos os outros o fazem, mas, enfim, posso explicar. Coloco-me ao lado do tronco, sob a ramagem, aspiro o perfume subtilmente adocicado, olho o céu através dos ramos, depois afasto-me um pouco para contemplar o indivíduo na sua totalidade. Não há luz alguma no mundo que se assemelhe à que irrompe das magnólias. Tão doce, tão pungente. A flor da magnólia branca é um poema. Um milagre a pairar sobre o asfalto. As magnólias acendem-se ao sol, amadurecem, e quanto mais ao sol se dão mais curta será a sua já tão curta vida. 

Nada é tão fugaz quanto o esplendor das magnólias. Por isso necessitam dos seus caçadores, de quem atente ao triunfo do primeiro botão, e escute o secreto rumor da sua seiva, e aguarde com constância o fim do Inverno para recebê-las. Em poucos dias principiarão as pétalas a tombar, num voo cego em direcção ao solo, anunciando um novo ciclo de vida, oculto no obscuro coração da terra. Será então o momento de os caçadores recolherem. Mas agora é o tempo da caça e não posso esperar mais.


publicado por CRomualdo às 23:00
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Dicionário de Portuense: Andar de cu tremido
Andar de automóvel.


(Recolhido por Alfredo Mendes, em Porto Naçom de Falares, Âncora Editora, 2010)


publicado por CRomualdo às 22:30
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Dia do Porto: Um retrato do Porto durante a Patuleia
Carlos Loures

Violando os preceitos democráticos consagrados na Carta Constitucional, Costa Cabral vencera as eleições de 1845 cometendo fraudes das mais diversas, desde as “chapeladas” à atemorização de adversários e à compra de votos. Por isso governava num mar de protestos. Os miguelistas, vencidos na Guerra Civil, capitalizaram o descontentamento popular e, particularmente a Norte, eclodiram  levatamentos populares.

Foi o caso da revolta da Maria da Fonte (por se ter proibido o enterramento de mortos nas igrejas) em Março de 1846. Ainda o eco deste levantamento popular não se extinguira quando o marechal Saldanha, com a cumplicidade da rainha D. Maria II, desencadeou o golpe de Estado de 6 de Outubro de 1846 que ficou conhecido por a «Emboscada». Sabendo-se no Porto do golpe saldanhista que eclodira em Lisboa, Passos José, presidente do Município, mandou os sinos das igrejas tocar a rebate, mobilizou a população e garantiu o apoio de algumas unidades da Guarda Municipal e do Exército.

O Duque de Terceira, enviado ao Porto para tentar reverter a situação, quase foi linchado pelo povo em fúria.. Divididos pelos dois campos os carismáticos generais da guerra civil de 1832-34, guerra foi inevitável. O Porto, liderado pela sua Junta onde, entre outras personalidades, se integrava Teixeira de Vasconcelos, bateu-se contra os Cabrais e formou um corpo militar de milhares de homens dispostos a invadir o Sul. Coisa de que foram impedidos por uma esquadra britânica que os aprisionou. Tropas espanholas invadiram Portugal, atravessando o rio Minho e ocupando Valença. Uma poderosa força naval da Quádrupla Aliança (Portugal, França, Espanha e Grã-Bretanha) obrigou a Junta a render-se. Em 24 de Junho de 1847 foi assinada a Convenção de Gramido.

É uma síntese muito rarefeita de dados capitais, mas que pretende traçar o quadro da luta que se travava entre setembristas, os que lutavam por uma situação mais democrática e cartistas, os que privilegiavam a aristocracia e a alta burguesia. Embora com o aproveitamento dos miguelistas a Junta do Porto pautava o seu  omportamento pelo espírito da Revolução de Setembro de 1836, mais liberal e democrático. É neste quadro que se desenvolve o romance "O Prato de Arroz Doce", de António Teixeira de Vasconcelos.

Aspecto da cidade do Porto na época em que ocorreu o episódio da Patuleia (1846-47)



Tinha lido “Um Prato de Arroz Doce”  era ainda criança. Era um livro de minha mãe, lembro-me da encadernação em tela branca, cansada (como dizem os alfarrabistas). Gostei muito. Voltei a lê-lo em 1990, pois numa colecção dirigida pelo meu amigo António Reis – “Testemunhos Contemporâneos” o livro foi incluído e prefaciado pelo nosso colaborador, e também meu amigo, Fernando Pereira Marques. Leitura rápida, profissional, digamos. Voltei há dias a lê-lo para escrever este texto. A minha opinião é diferente da que formulei aos sete anos.

O romance é pobre, assentando num modelo que o Romantismo usou até à exaustão – os amores entre um jovem, heróico, sem mácula e sem o tempero de anti-heroísmo que humanizou as personagens romanescas de um século mais tarde. Outro paradigma romântico (porque só lhe podemos chamar cliché 150 depois!) é a figura feminina, D. Rosa, pura, angélica, só virtudes. Depois há toda a panóplia de personagens complementares – por exemplo,  Ana, a pérfida irmã de Rosa, armando uma intriga venenosa. E por aí fora. O costume. Não me irei deter a descrever o entrecho.

O costume, mas só nos romances vulgares. Camilo talvez ainda escrevendo por jornais nesta altura iria dentro de pouco tempo irromper na LIteratura Portuguesa. escrevendo de uma forma que era tudo menos vulgar. Mas Camilo é uma comparação desleal para qualquer outro novelista, pois era (e é) o romancista português por antonomásia.

O romance histórico, como era entendido em meados do século XIX (o livro foi editado em folhetins em O Comércio do Porto e depois, 1862, sob a forma de livro) não misturava história com ficção. Havia o cuidado explícito de não misturar os dois ingredientes – Teixeira de Vasconcelos foi intercalando as peripécias romanescas com pedaços de história por ele vivida na primeira pessoa. E quem foi este homem?

Oriundo de uma aristocrática família do Norte, António Augusto Teixeira de Vasconcelos nasceu no Porto em 1816 e em 1833, foi, com apenas 17 anos, envolvido na Guerra Civil que, desde 1832 ensombrava o País. O Governo de D. Miguel nomeou-o capitão do regimento de milícias de Penafiel. No ano seguinte, em 1834, a Convenção de Évora Monte, consagrava a vitória liberal e punha termo ao conflito.

Teixeira de Vasconcelos aderiu às ideias liberais e quando em 6 de Outubro de 1846 o marechal Saldanha desencadeou o golpe de Estado (com a cumplicidade de D. Maria II) e o Porto se revolta, o nosso homem faria parte da Junta governativa que se constituiu na «Cidade da Virgem», como lhe chamavam os tripeiros da época ( e também a «Cidade eterna»). E assumiu responsabilidades militares, comandando o Batalhão Nacional de Paredes, e posteriormente entrando como adido no estado-maior de Sá da Bandeira. Quando em Junho de 1847 se pôs termo à guerra civil da Patuleia, Teixeira de Vasconcelos estava entre os signatários da Convenção do Gramido.

A ponte pênsil a que se faz alusão no romance.

 Com esta breve resenha quero demonstrar que quem escreveu o romance «O Prato de Arroz Doce», viveu por dentro os acontecimentos que serviram de pano de fundo à trama ficcionística. Eu diria mesmo que a ficção, pobre e estereotipada, foi um pretexto para explanar as ideias políticas do autor. Em 8 de Julho de 1875, vivendo em Lisboa (na rua da Paz, nº 7) quando saíra uma nova edição do romance, ofereceu-a ao Marquês de Sá da Bandeira, subscrevendo-se como «amigo fiel e obrigadíssimo criado». Na realidade, como documento histórico o livro é muito importante.



Imagem da segunda metade do século XIX. Em primeiro plano, o edifício onde desde 1825 funcionou numa das «boticas dos arcos a filial do Banco de Lisboa. Trata-se da única parte edificada sobrevivente do antigo Convento de S. Domingos (1239-1832), virado para o largo a que deu nome (Largo de S. Domingos). Ao fundo um troço e cruzamento da rua de Mouzinho da Silveira e rua de S. João.

 No livro espelha-se o ambiente vivido na cidade e no País. Uma burguesia e uma aristocracia divididas por ideias políticas, mas unidas por interesses de classe, usando quase sempre de fair play no tratamento dado aos inimigos. Na mesma família havia setembristas e cartistas. O povo levava as coisas mais a sério, ou seja, um homem do povo, campónio ou operário fabril, odiava o inimigo e não raro fazia “justiça” por conta própria. Porque no fundo a guerra era entre os ricos. Esses senhoritos podiam dar-se ao luxo de ter ideias.

O povo era arrebanhado como carne para canhão e, se tinha oportunidade, fazia o gosto ao dedo. Aliás, Patuleia porquê – a facção miguelista vencida era constituída maioritariamente por gente do povo, gente descalça, de “pata-ao-léu”. Daqui se formaria o vocábulo Patuleia.

Pelo seu conhecimento profundo do que foi a Patuleia vivida pelas gentes do Porto, o testemunho dado por António Teixeira de Vasconcelos em «O Prato de Arroz Doce» ultrapassa a sua condição de romance folhetinesco e vulgar, sendo um dos grandes documentos testemunhais existentes ao dispor de quem esteja interessado na história da resistência setembrista da cidade do Porto durante o episódio da Patuleia.

 


publicado por Carlos Loures às 22:00
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Dicionário de portuense: Arreganhar a tacha
Rir, mostrar os dentes.


(Recolhido por Alfredo Mendes, em Porto Naçom de Falares, Âncora Editora, 2010)


publicado por CRomualdo às 21:30
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Dicionário de Portuense: Arreganhar a tacha
Rir, mostrar os dentes.


(Recolhido por Alfredo Mendes, em Porto Naçom de Falares, Âncora Editora, 2010)


publicado por CRomualdo às 21:30
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Dia do Porto: O Porto de todos
Fernando Moreira de Sá


Quando o Carlos Loures me avisou deste dia dedicado ao Porto comecei a pensar: qual é o meu Porto?

Será o da Ribeira com as águas do Douro em luta com as do Atlântico num bailado estranho ora para nascente ora para a foz? Será o dos jardins do Palácio de Cristal onde as almas perdidas espreitam ora para a Arrábida ora para a D. Luís?

Pode ser o Porto da Foz com a sua classe dita alta habitando aquelas casas magníficas ou o do Bairro do Aleixo com aquele colorido típico de urbe massificada e vidas enganadas? Depois temos o Porto de Santa Catarina, dos Clérigos, da Boavista, de Paranhos, do velho Marquês com os jogadores de sueca e bisca lambida sem esquecer as Antas onde atinge o patamar da glória. Será este Porto?

Não mas também. O meu Porto ignora a circunvalação e vai, por aí fora, por Matosinhos e Leça, sem esquecer Lavra e virando rapidamente para Moreira, a Maia, Vermoim, Águas Santas, Pedrouços, Ermesinde e Rio Tinto e não satisfeito passa de um pulo para Gaia. É esse o meu Porto e não aquele das falsas fronteiras administrativas impostas pelo Homem contra a natureza e a verdadeira realidade.

É esse o meu Porto, o nosso Porto, sempre Leal e Invicto. Meu, muito meu.




publicado por CRomualdo às 21:00
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