Quarta-feira, 29 de Junho de 2011
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - XXVI, por Raúl Iturra

(Continuação)

 

Este texto não precisa de comentários, excepto dizer que é retirado da realidade social, que segue as águas do moinho da procura da liberdade do homem. Mas, como já comentei, essa liberdade é a subordinação à lei que  nos governa e define cada passo que damos na nossa vida e dá nomes às pessoas conforme o seu comportamento. A capacidade de raciocinar, de pensar e decidir, é o que traz a liberdade ao ser humano. O problema é que liberdade… O texto, como todos os outros denominados sagrados que referi, remete a actividade humana para uma metáfora que não vive entre nós, que radica na mente do ser humano e que dita leis por meio de pessoas como Moisés, Elias, Jesus, hierarquias pontifícias, formas de acreditar e que, no fim dos finais, é parte da cultura ou formas de comportamento adequadas às conveniências da nossa individualidade. O que é adequado à nossa pessoa, é viver sem pecado, quer dizer, sermos capazes de fixar um último bem, uma auto-estima que, em metáfora, está definida como a procura de Deus, muito embora a divindade não esteja definida em parte nenhuma. É aí que Freud e os seus seguidores foram capazes de ver as dificuldades da vida, para além da metáfora e entrar dentro de cronologias e contextos genealógicos, orientados por uma libido erótica que leva à reprodução. Ideia que o texto que comento não refere, antes pelo contrário, retira da materialidade da vida o que a ilusão de sermos pais tinha colocado: factos históricos, com provas complementares para demonstrar a sua verdade.

 

 

 



publicado por João Machado às 14:00
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Sábado, 25 de Junho de 2011
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - XXII, por Raúl Iturra

(Continuação)

 

É fascinante aplicar o saber de Freud, Klein e Bion ao entendimento de um ser humano que, nos seus curtos anos, é considerado um pecador. As análises revelam a possibilidade, a realidade diria eu, de seres que, desde a sua existência dentro do líquido amniótico pensam, sentem, têm emoções, choram, decidem. Aprendem a optar, a ter autonomia. Sobre esta temática, a melhor análise é o texto Inveja e Gratidão de Klein, base das ideias de disciplina religiosa de Bion no seu Attention and Interpretation, debate que define o comportamento como ideias partilhadas, em harmonia ou em desencontro, por muitos, uma religião como o autor denomina, sem entrar pela teologia, pelo Direito canónico ou a catequese, procura como John Locke[1] no Tratado sobre a Tolerância baseado nas suas observações de crianças e sobre teologia, que era o seu domínio[2], com recurso ao estudo de crianças em clínica.

 

Não é o caso de Bion nem o de Freud ou o de Klein, entre outros. Sim, usam os elementos da teoria cultural, cuja lógica da cultura é a religião, mas a definição é diferente. Enquanto os Locke, o William of Ockam, os Henry Bergson, passando pelos economistas Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, Marquis de Condorcet, François Quesnay, Adam Smith, James Mill, Alfred Marshall, Lord John Maynard Keynes, até o Socialista David Ricardo em 1823, procuram um saber do real com base numa religião orientada pela divindade, pelo totem que colabora com o lucro e ajuda a guardar a mais-valia retirada ao operariado dos seus povos, como analiso no meu livro A Dádiva, essa grande mentira social. A mais-valia na reciprocidade, Afrontamento, Porto, 2003. Bem longe do caso, claro está, de Émile Durkheim e Marcel Mauss, fundadores do Marxismo-leninismo francês e colaboradores da Revolução Soviética. Freud, por seu lado, define religião como foi dito e, no entanto, baseia-se na mesma para entender a mente e a procura da felicidade na interacção social que Bion define em 1970 como “um pensamento de modelos de seres humanos, criaturas de intencionalidade que transcende as necessidades físicas imediatas e permite actos pessoais de compensação como a meta emocional e cognitiva que procura o ser humano, para acrescentar que usa a notação 0 para indicar a realidade última, representada por termos como realidade última, verdade absoluta, a deidade, o infinito, a coisa – em – si”[3]. Esta deidade não é ritual nem faz milagres, é apenas um conceito que indica que entre todos os seres humanos, há uma procura de saber para fazer – contrário a Aquino em 1275, ou Averröes, dois Séculos antes entre os Muçulmanos, que já tinham tudo definido pela cultura revelada e o denominado Direito natural, estes intelectuais estabelecem um diálogo com uma mente em branco, e denominam divindade a procura do fazer a seguir ao entendimento dos factos. Não é em vão que Freud, num dos seus textos – revisto por ele em francês – Psychopatologie de la vie quotidienne[4], analise a masculinidade de Moisés e a sua capacidade de ditar e de obrigar a cumprir as leis. Ou o comentário de Melanie Klein de ser indiferente a religião e filosofia, mas nada oposta a análises que permitem um posicionamento esquizoide, como já referi.

 

 

 



publicado por João Machado às 14:00
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2011
LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - XXI, por Raúl Iturra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

http://www.youtube.com/watch?v=NZnugRzs0xU

Antonio Mascagni Cavalleria Rusticana

 

 

 


 

Sétima Lição

O PEQUENO PECADOR...

 

 

Olhos felizes, sorrisos brilhantes. Silêncio no beijo. Respeito na carícia. Uma mão doce a percorrer o corpo. Suavidade, ternura, sedução. Silêncio: uma criança está a ser projectada. O imaginário de dois, transferido a um entre momentos de sedução, brinca e pensa: como é que será, os teus olhos, a minha boca, o teu andar? A felicidade prometida no Jardim do Éden, a felicidade que nasce nesse primeiro encontro? Quando um corpo chama o nosso, faz sentir a nossa pele rizada, a querer correr dentro da outra uma e outra, e outra vez, com doçura, com respeito, com a alma a brilhar[1]. A paixão. O amor. O presente dos novos, o futuro dos velhos. A lembrança dessa outra pessoa que nos faz sentir a alma quente e terna, a cabeça perdida, ideias que iluminam e aquecem a tarde de um Domingo de Inverno. O Jardim de Éden. O paraíso antes, durante e depois do tema que nos leva a estas ideias: a glória de sermos pais... um dia, em breve. Já: « À partir du moment où on est deux (couple), on est déjà trois, même si l’enfant n’est pas encore pensé consciemment. Il y a toujours dans le désir d’avoir un enfant un besoin personnel à assouvir»[2]. A paixão da afectividade faz-nos sentir a urgência de nos projectarmos e eternizarmos dentro de um outro ser humano, porque o nosso amor é tão grande, que dois não são suficientes para poderem guardá-lo. Eis o motivo desta frase e de todo o texto que citei no início da lição quarta.

 

A afectividade apaixonada, conceito pouco usado entre os analistas que procuram uma outra parte do texto citado, para podermos começar no Jardim do Éden, desencadeou o motivo do título desta lição. A realidade contextualiza o amor, trava a paixão e faz andar pela vida como se o cuidado de olhar nos olhos do outro pudesse perder-se ao entrar um terceiro na relação a dois. Um terceiro desejado pelo par, parte de si próprios, plenitude dos laços de ternura com espaço afectivo para o cobiçar para nós e guardá-lo dos outros, sentimentos mútuos de paixão materializados num novo ser, que passa a ser querido, mas dentro de uma grandiosidade que apenas García Márquez é capaz de descrever para um sentimento amoroso. Como o amor que descreve à Mama Grande, sem romance, sem a primeira sedução que muda para outras hierarquias: “Poco antes de las once, la muchedumbre delirante que se asfixiaba al sol, contenida por una elite imperturbable de guerreros uniformados de dormanes guarnecidos y espumosos morriones, lanzó un poderoso rugido de júbilo. Dignos, solemnes en sus sacovelas y chisteras, el presidente de la república y sus ministros; las comisiones del parlamento, la corte suprema de justicia, el consejo de estado, los partidos tradicionales y el clero, y los representantes de la banca, el comercio y la industria, hicieron su aparición por la esquina de la telegrafia. Calvo y rechoncho, el anciano y enfermo presidente de la república desfiló frente a los ojos atónitos de las muchedumbres que lo habian investido sin conocerlo y que solo ahora podian dar un testimonio verídico de su existencia. Entre los arzobispos extenuados por la gravedad de su ministerio y los militares de robusto tórax acorazado de insignias, el primer magistrado transpiraba el hálito inconfundible del poder…la mama Grande estaba entonces demasiado embebida en su eternidad de formaldehido para darse cuenta de la magnitud de su grandeza…estaban asistiendo al nacimiento de una nueva grandeza. Ahora podía el Sumo Pontífice subir al cielo en cuerpo y alma…”[3].

 

 

 



publicado por João Machado às 14:00
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Terça-feira, 15 de Março de 2011
Confiança por Raul Iturra

 

 

 

Tal como a criança que dorme confiantemente em paz, há imensos factos da vida que nos fazem rir e estarmos em paz connosco e com os outros. Estou certo de que os meus amigos se interessam pela minha saúde. Estou mais do que confiante que a mulher que amo, é uma pessoa fiel porque faz tudo por mim. Confiante na paciência dos que pretendem ler os meus textos. Escrevo a palavra pretendem, não como insulto, mas como reconhecimento que é impossível ler tantos ensaios que eu envio. Não há tempo, entendo.

 

Vasculho algumas ideias com o objectivo de provocar o debate que, infelizmente, raríssimas vezes acontece. Assim, como é possível avançar no saber, como nos ensina o método dialéctico de pensar, se não temos contraditores a quem devemos responder? Estou convicto que se eu escrevo um texto com uma tese, que se baseia numa hipótese, a proposta pode estar enganada e é assim que esperamos ser corrigidos. Mas, sem contradição, podemos pensar que não há engano na nossa proposta. John Stewart Mill, no texto de 1848: Principles of political Economy, reeditado também em 1998 pela Clarendon Press da Oxford Univerity Press, debate as ideias dedutivas e indutivas. A lógica indutiva parte do que se vê e prova, remetendo-nos para teses que provam o que acontece na vida real, formulando, assim, um paradigma de ideias que orienta o nosso pensamento; as ideias dedutivas, servem para retirar do nosso pensamento hipóteses que se aplicam à realidade, compatibilizando assim um esquema lógico que Karl Marx, de imediato, usou para as suas hipóteses materialistas históricas, expressas nos seus textos filosóficos.

 

Confiança, enfim, e coragem são provenientes da convicção no nosso próprio valor. Não é minha intenção salientar o que penso saber e duvidar do que não sei. Apenas é a confiança que deposito em vós para que, uma vez por outra, apareça um comentário de um cientista para debater comigo uma ideia.

 

Agradeço essa confiança depositada em mim, por alguns dos que debatem as minhas ideias.

 

Foi, aliás, essa confiança que me levou a escrever estas linhas e a esperança de que mais alguém, um dia, queira debater comigo….

 

Quase que peço o impossível: a história da filosofia, ou das ideias que fizeram avançar (ou retroceder) o mundo, não rendem lucro. As pessoas estão mais preocupadas em pagar as contas no final do mês, enquanto outras estão focadas na obtenção de bens materiais.

 

 

 

 




publicado por Luis Moreira às 00:05
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Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010
Porque é que as pessoas gostam (ou não) da história do Menino Jesus.

João dos Santos (1913-1987) **
 (texto enviado por Clara Castilho)
Há dias e há noites em que a solidão custa mais. A noite do Natal é uma daquelas em que as pessoas suportam mal o isolamento. De muitos ouvi contar ou li contadas, histórias tristes do Natal passado longe da família, na emigração, em viagem, na guerra ou no hospital. Também eu tenho uma história dessas para contar, mas a minha é só meia triste, porque o Menino Jesus me fez uma partida engraçada. Foi em 1946. No fim de 1945 tinha eu participado na famosa reunião de (Os 300 do Benformoso» para pedir «eleições livres). Já não era sem tempo! Por essa e por outras chamaram-me, e ao meu chefe Barahona Fernandes, ao gabinete de Sua Excelência, para nos comunicarem que o Senhor Fulano de Tal (que era eu), não só era demitido das suas funções oficiais, como ficava proibido de entrar naquele ou em qualquer outro hospital. Mestre Barahona indignou-se, teceu-me um exagerado elogio (sobre o que eu teria feito pelo Hospital) e declarou que não tomava conhecimento daquela proibição: «Enquanto eu for director, o Dr. João dos Santos entrará no meu serviço quando quiser!» ... «Toma», disse eu cá para mim, «escusavas de ouvir esta)) mas declarei logo ali, para evitar dissabores ao meu mestre e amigo que não entraria mais naquela casa.

Fui ter com o meu saudoso Mário ,de Castro para, sem ingenuidade, mover um processo ao ministro mas entretanto por simpática iniciativa do amigo Vitorino, comecei a tratar da minha ida (com ele) para França. No Natal de 1946 estava eu em Paris, desligado da família, trabalhando ainda como voluntário num hospital e num laboratório, porque lá não fazia mal, uma pessoa querer votar livremente. Jantei sozinho naquela noite ao balcão do Duponds Michel. Faço a fantasia de que comi vitela assada com meia de tinto, uma peça de fruta, um doce e um bom café. A verdade é que nessa época em França - a mais severa no «racionamento» desde o começo da guerra - as senhas de um mês de carne, davam somente para uma ou duas refeições, dinheiro para vinho não tinha, a fruta era rara e só distribuída a grávidas e crianças e não havia café nem açúcar! Admitamos que comi arenque fumado, feijões cozidos, pão de castanhas com milho e «café de cevada» temperado com umas gotas daquele soluto de sacarina, da garrafa que andava por cirna do balcão. Estava naturalmente triste, a pensar nas prendas que o Menino Jesus daria, aqui em Lisboa, aos meus filhos José e Paula.


Depois do jantar, entretive-me, sonhador e distante, a olhar vagamente para uns negros que se baloiçavam sobre as gâmbias esgalgadas, em volta daquela máquina infernal dos discas, num ritmo que se não quadrava de tildo o meu estado de espírito. Não havia outra companhia à disposição e não era minha intenção ir para a cama antes da meia-noite. A dada altura a sanfona parou e os negros todos olharam para mim, ao mesmo tempo que um deles se me dirigiu em palavras que não entendi à primeira. A segunda, ouvi que me dizia:

«Eh! camarada então não vem daí uma moedinha para a música?» Eu sabia que com aquele jantar se me tinham ido as notas todas, que tinha deixado sobre o balcão, como gorjeta, os restos do que tinha em moedas; mas, para não fazer figura de desmancha-prazeres meti a mão ao bolso do sobretudo com ar despachado. Estava lá a moeda necessária. Introduzi-a na máquina, com os requintes de precisão de um «habitué», carreguei num botão ao acaso e saiu uma música igual às outras. Confraternizei tão alegremente (quanto podia) com aqueles meus desconhecidos amigos e com eles fiquei até passar a hora sagrada.


Fui para casa a pensar que aquilo tinha sido uma graça do Menino Jesus, um presente do Natal que ele quando me viu naquela situação atrapalhada, me deixou escorregar lá de cima, para o bolso do meu sobretudo. Desde então, sempre que tenho dinheiro fresco, meto umas notas pequenas e umas moedas sortidas nas várias bolsas marsupiais da fatiota que me envolve ... Que isto de pedir prendas ao Menino Jesus, não é para se abusar...
_________


*Publicado no Jornal das Letras, Dez, 1980 e em “Ensaios de educação II”- Livros Horizonte, 1991 – p. 199-200.


**Psicamalista e Pedopsiquiatra, reformulador dos serviços de saúde mental infantil na década de 60 (ver www.casadapraia.org.pt)


O desenho ´foi feito por uma criança do Centro Doutor João Santos.


____________















publicado por Carlos Loures às 10:00
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