Sábado, 9 de Julho de 2011
Mistérios de Lisboa - Último episódio: Figuras de Cartão - por Manuela Degerine

 

 (Conclusão)

 

 

João foi criado pelo padre Dinis e por uma freira que diz ser irmã do padre. Tem catorze anos quando descobre que a mãe, cuja existência ele ignorava, é a condessa de Santa Bárbara, que o marido sequestra e maltrata; mais adiante revelam-lhe os amores contrariados da mãe. O avô mandara matá-lo logo que nascesse, porém o padre Dinis convenceu Come-Facas a vender o recém-nascido por quarenta peças. Quinze anos mais tarde, quando João descobre o passado familiar, este Come-Facas volta a aparecer, chama-se Alberto de Magalhães, é rico, elegante e misterioso, há quem o diga filho de D. João VI; corresponde a Rodolphe d'Os Mistérios de Paris e, como ele, mostra-se tão à-vontade na ralé como na aristocracia. Luta com D. Martinho de Almeida por defender a honra da condessa de Santa Bárbara, revela-se um homem superior e complementar do padre Dinis. O padre também acumula identidades múltiplas, sendo o cigano que compra a criança e o Sebastião de Melo que aparece nos salões da aristocracia, entre outras máscaras e mistérios; virá a descobrir-se filho de um frade que, como por acaso, participa com ele na regeneração ante mortem do conde de Santa Bárbara. Quando este morre, a condessa, como Fleur-de-Marie, como Georgina, recolhe-se num convento; os conventos eram a providência dos romancistas. Muito a propósito, pois o rapaz é pobre, Alberto de Magalhães faz a Pedro da Silva, João até aos quinze anos, o dom de quarenta contos de réis, cujos rendimentos permitem enviar o jovem para um colégio francês, não sem antes o padre Dinis prevenir, a mulher das suas primeiras afeições há-de salvá-lo ou perdê-lo (página 299).

 

Surpreende-se o leitor. Parece que o padre adivinha... Não adivinha, não senhor: a alternativa é retórica, neste romance as mulheres são fatais e, por consequência, caso se apaixone por uma mulher, Pedro da Silva está perdido. Outra convenção ficcional. Ângela – basta este exemplo – foi a desgraça do amante e do marido.

 

Quando esta mulher entra enfim no convento, onde se espera que não faça mais vítimas, encontra Adelaide, a qual narra a história de outra freira, Francisca Valadares. E o primeiro volume conclui-se quando Ângela e Adelaide descobrem que o padre Dinis é o homem fatal (ah...) pelo qual Francisca Valadares morreu de amor.

- É ele... Donde conheces este homem? 

 

No filme de Raul Ruíz vemos um leitmotiv, o teatro de brinquedo no qual João ensaia as peripécias com pequenas figuras. São isto na verdade as personagens de Mistérios de Lisboa: seres de cartão. Por exemplo, o conde de Santa Bárbara que, durante quinze anos, torturou a mulher, brutal, grosseiro, monstruoso, parte para a guerra no exército de D. Miguel mas logo regressa, fingindo-se doente, com saudades da criada, mas de súbito adoece, arrepende-se das vilanias e morre compungido. O leitor que, antes, se esforçava por acreditar naquele demónio, os terrores  da condessa com o punhal sobre o coração (página 47), o que eu tenho sofrido há doze anos, (página 63), os ódios sanguinários do meu carcereiro (página 66), pois, saturado, o leitor já não acompanha a transmutação do diabo em anjo.

 

Neste romance não há povo; há criados. Explorados, de certa maneira, só os filhos segundos da aristocracia, que os pais se recusam a dotar, obrigando as raparigas a entrar no convento; e, se os morgadios tivessem sido abolidos a tempo, Ângela ter-se-ia casado com o homem que amava – não havia Mistérios de Lisboa e ficava Raul Ruiz sem argumento. Bernardo, um ex-criado que socorre, correndo riscos, a condessa de Santa Bárbara, quando é recompensado pelo patrão, que antes o ameaçava, não tira proveito da herança. A esmola avultada que recebeu despendeu-a em missas gerais por alma de seu amo (página 278). Bom servo! Em Mistérios de Lisboa não há miséria nem revolta pois em breve o céu recompensará as vítimas devotas. O que são as perseguições aqui em baixo nestes três dias de peregrinação? (página 75), inquire retoricamente o padre Dinis. E Ângela, que aprendeu a lição, recomenda ao filho (página 296): Fita os olhos no céu, meu filho.

 

Caminha sempre, elevando-te para lá. Isto aqui é um dia... Neste romance há diálogos sobre o amor de Deus longos como uma espera no Centro de Saúde da Penha de França (extensão Seguros). Por exemplo. Ou sobre o amor de mãe, este amor tão santo, este reflexo da ternura de Maria Santíssima, é o vínculo que prende as delícias dos anjos com as raras alegrias da terra (página 95). Outro exemplo. A heroína do primeiro volume é um anjo neste mundo extraviado e o leitor acompanha-lhe o percurso deste tanque de lágrimas até à antecâmara do céu. Diálogo entre Ângela e o Padre Dinis (página 246):

 

- Esperanças!

- No reinado dos que sofrem. Há muito que amar fora do mundo. Verá o que é a tranquilidade do amor de Deus. Quer entrar em um convento?

- Ah! sim, um convento, a minha ambição mais querida... um convento, meu bom amigo...

 

Assumo a responsabilidade de saltar por cima do segundo e do terceiro volumes dos Mistérios de Lisboa. Passo directamente aos outros livros de Camilo Castelo Branco. A vida é curta e vastas as bibliotecas.



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por João Machado em 05/07/2011 às 18:26
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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011
Mistérios de Lisboa - Segundo episódio: O pacto de verosimilhança - por Manuela Degerine

 (Continuação)

 

 

Na primeira imagem do filme de Raul Ruiz vemos subir um cenário com o Aqueduto das Águas Livres. Lisboa é exactamente isto na obra de Camilo Castelo Branco: um cenário de papel. Não encontramos um nome, Lapa, Chiado, Rua Augusta, nem colinas nem varinas, nada que nos situe em Lisboa; apenas quintas e conventos.

E, na página 251 do volume I, na rara vez em que o narrador descreve um espaço, logo nos afoga o prazer na dúvida. Cito: Os primeiros raios do sol de Agosto douravam o castelo de Palmela. O céu límpido, o Tejo azulado, e o murmúrio matinal da natureza encantavam a alma naquele recolhimento íntimo, remanso providencial de suavíssima tristeza.

 

Que pensa o leitor? Primeiro grande mistério. A heroína encontra-se no Beato, vai de Lisboa a Santarém para perdoar as violências ao marido... No que me toca, duvido bastante que, mesmo sem prédios, mesmo com um céu límpido, seja possível; mas, se algum leitor me puder explicar como é que, do Beato António, se vê o castelo de Palmela à beira-Tejo, se põe um olho no Tejo e o outro em Palmela, por favor, não me prolongue a inquietude.

 

Camilo Castelo Branco publicou Mistérios de Lisboa n'O Nacional de 4 de Março de 1853 a 31 de Janeiro de 1855, isto é, dez anos depois do estrondo d'Os Mistérios de Paris. O que havia de raiva social na obra de Eugène Sue aparece aqui transmutado em esperança no além. Trata-se de praticar um resto de surf na onda descendente, aproveitando o título como chamariz e reciclando uma ou outra figura que, dez anos antes, já parecia estereotipada a Almeida Garrett.

 

A vida atribulada de Camilo Castelo Branco poderá decerto explicar algumas bizarrias do romance – das quais aliás o autor tem consciência. A narração começa com um capítulo intitulado Prevenções onde, como num prefácio, um narrador na primeira pessoa do singular afasta a responsabilidade:

Este romance não é meu filho, nem meu afilhado.

 

Se eu me visse assaltado pela tentação de escrever a vida oculta de Lisboa, não era capaz de alinhavar dois capítulos com jeito (página 5).

 

Por conseguinte, garante este primeiro narrador, o texto foi-lhe enviado do Rio de Janeiro e não é romance mas um diário de sofrimentos, verídico, autêntico e justificado (página 6). Aliás quem lho enviou também não é ainda o narrador da história mas apenas um anfitrião que em terras brasileiras acolheu aquele homem, uma figura singular (página 7) que ao morrer, em forma de agradecimento, lhe deixou as memórias: dê-se ao trabalho de ler, em horas de ócio, esses cadernos de papel que por lá estão, e poderá então dizer que o seu hóspede, silencioso em vida, conversou muito consigo do túmulo (página 14).

 

Por conseguinte, embora apresentada por um romancista, não vão ler uma história ficcional. Este subterfúgio narrativo foi, ao longo do século XVIII, de Diderot a Restif de la Bretonne, não só uma das ferramentas mais usadas no reforço da verosimilhança, mas também uma estratégia para desresponsabilizar o autor. Após este prefácio fictivo, o eu chama-se João porém, mais adiante, a mãe muda-lhe o nome e ele passa a ser Pedro da Silva. O responsável pelas incoerências e inverosimilhanças do texto é portanto Pedro da Silva – defunto. E esta morte é a maior garantia de veracidade: lemos as últimas palavras de um condenado. Mentir para quê?...

Vemo-nos forçados a aceitar o pacto de verosimilhança.

 

 

(Conclusão no próximo número.)

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por João Machado em 05/07/2011 às 18:24
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Quinta-feira, 7 de Julho de 2011
Mistérios de Lisboa - I Episódio - A Mãe de todos os mistérios - por Manuela Degerine

Descobri Os Mistérios de Paris de Eugène Sue quando, aos dezassete anos, li Viagens na Minha Terra – que contêm afinal tudo. Publicado no Journal des Débats de Junho de 1842 a Dezembro de 1843, foi o primeiro grande sucesso popular com centenas de milhar de leitores pelo mundo, ouvido por analfabetos, comentado por ministros, o antepassado glorioso dos folhetins radiofónicos e das telenovelas. E neste momento ainda representam Os Mistérios de Paris no teatro de verdura do Bosque de Boulogne... Almeida Garrett escreve Viagens na Minha Terra quando a misteriomania atinge o ponto culminante e é compreensível o tom com se refere às três personagens principais: Fleur-de-Marie, Chourineur e Rodolphe (este, ao mesmo tempo, herói dos tugúrios e grão-duque de Gérolstein).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não pode ser clássica, está visto, a tal descrição. – Seja romântica. – Também não pode ser. – Por que não? – É pôr-lhe lá um Chourineur a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e homem, quando encontrar uma Fleur-de-Marie para dizer e fazer pieguices com uma roseirinha pequenina, bonitinha, que morreu, coitadinha! E um príncipe alemão encoberto, forte no sôco britânico, imenso em libras esterlinas, profundo em gíria de cegos e ladrões... E aí fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar à mais pintada e da moda neste século elegante, delicado, verdadeiro, natural!

 

Notamos em Almeida Garrett uma ironia não isenta de admiração. O escritor sabe que, não obstante o constrangimento da moda, a verosímilhança acabará por vencer, por isso cita a frase de Boileau: Rien n'est beau que le vrai. (Só a verdade é bela.) E descreve, diz ele, o café como o viu.

 

 

 

 

Os Mistérios de Paris é uma obra precursora do romance realista. A violência das instituições, a miséria e a linguagem do povo ascendiam pela primeira vez ao estatuto de tema literário, eram lidos e debatidos por toda a sociedade – e amplificavam de modo espectacular as teorias socialistas. Ainda hoje os especialistas debatem se Os Mistérios de Paris terão contribuído para a Revolução de 1848 ou se o sucesso da obra pode ser explicado pelo ambiente social que antecedeu esta revolução; é provável que tanto uma hipótese como a outra seja verdadeira. O folhetim foi acompanhado e prolongado por canções e imagens populares, foi repetidamente adaptado ao teatro, teve (vinte anos mais tarde) um descendente ilustre, Os Miseráveis de Victor Hugo – e deu à luz uma ninhada de pequenos mistérios. Mistérios de Londres. Mistérios de Nápoles. Mistérios de Munique. E... Mistérios de Lisboa.

 

Que eu nunca tinha lido. A desgraça póstuma de Camilo Castelo Branco é que as heroínas dele nos são hoje tão estranhas como as de um clássico chinês... (Os leitores dir-me-ão que Georgina e Joaninha não parecem mais familiares – e têm razão. Mas Viagens na Minha Terra oferece, para além da Menina dos Rouxinóis, muitas pontas por onde ainda lhe pegamos.) Ora no precedente 1° de Janeiro, dia de imprudências e megalomanias, dei-me como tarefa para 2011 a leitura das obras de Camilo Castelo Branco – e comecei logo a ler uma tradução francesa das memórias de Winston Churchill, Mes Jeunes Années, quase setecentas páginas.

 

Seguiram-se diversos outros livros. Só em Maio me lembrei de Camilo Castelo Branco. Reli, com cautela, Novelas do Minho, que mais de uma vez havia lido, não comecei mal, ainda gostei da linguagem, da ironia, do sarcasmo, como se costuma dizer a propósito de Camilo – confirmo. No dia 19 de Maio o canal Arte transmitiu as seis horas do folhetim de Raul Ruiz, Mystères de Lisbonne. Vi o filme. E – agora ou nunca – lancei mãos à obra comprando os três volumes de Mistérios de Lisboa (ed. A. M. Pereira, Lisboa, 1969). Acabo de concluir a leitura do primeiro tomo.

 

 (Continua)



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por João Machado em 09/07/2011 às 18:37
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Terça-feira, 5 de Julho de 2011
Ecrã efémero – por Manuela Degerine

 

Costumo ler os jornais quase integralmente. Leio os artigos que me interessam porque me interessam e leio os

outros pela linguagem ou por conterem uma faceta da política, da sociedade, da actualidade que não deixa de me interessar. Quando a leitura não acompanha o ritmo de compra, mais os jornais e revistas que, de uma ou de outra maneira, me vêm parar às mãos, Expresso, Diário de Notícias, Visão, Le Monde, Libération, Nouvel Observateur, recorto o que não leio de imediato e vou constituindo dossiers cuja leitura intercala com a de livros, resultando dos movimentos desta pilha eu ler, por vezes, com cinco anos de atraso, algum artigo ou crónica – o que aliás, ao contrário do que se pode imaginar, não raro contribui para o prazer do texto. Alegrias que doravante efémeras... Das quais pretendo abusar enquantohouver jornais impressos em papel.

 

Acabo agora de ler, com apenas dois meses de atraso, um artigo de Pierre Assouline publicado no jornal Le Monde no dia 24 de Abril de 2011: La mémoire vide des temps informatisés (A memória vazia dos tempos informatizados). Há em França um Instituto dos Textos e Manuscritos Modernos (ITEM) que criou e tem desenvolvido a genética textual, uma disciplina que estuda os rascunhos, cadernos, provas, projectos, correspondências, sucessivas versões, todo o material acumulado na criação de uma obra.

 

Pierre-MarcBlasi, director do ITEM, dá o alarme pois, desde que os escritores se servem de computadores, desapareceram estes documentos. Os autores modificam o texto no ecrã, correspondem por via electrónica, arrumam os diários como os projectos em pastas informáticas, perdem-nos numa pen ou, quando mudam de computador, abandonam o que parece inútil. Podíamos todavia pensar que uma parte será preservada. A verdade é que, se ainda hoje lemos no papiro e no pergaminho, em contrapartida os raros documentos legados há trinta anos aos arquivos em suporte electrónico não podem ser estudados por ter desaparecido o material para os ler. A validade média de uma pen ou de um disco rígido não ultrapassa os cinco anos, além situa-se um futuro tecnológico que os tornará obsoletos e portanto inexistentes.

 

Com os arquivos deixados pelos séculos XIX e XX há trabalho para gerações de especialistas. Mas nisto reside o alarme do director do ITEM: Tornamos o futuro órfão de nós. Um futuro com avós, com bisavós, com o século XVIII – nós não faremos parte desta genealogia. Ou, quando muito: de uma maneira menos complexa.

 

Este artigo fez-me reflectir já que, como os outros escritores da minha geração, também tenho escrito os romances no ecrã – da primeira à última palavra. A Difel não fez provas dos meus três primeiros romances; e eu devolvi à editora as dos seguintes sem tirar fotocópias. Enviei cartas até por volta do ano de 2002 mas, logo que tive endereço electrónico, cessei a correspondência manuscrita ou impressa em papel; e o correio electrónico não é, enviado com outros meios, o que teríamos escrito no papel: a forma, o fundo e o suporte são indissociáveis.

 

Agora a minha única escrita com caneta é o diário e, claro, os blocos nos quais vou registando o que vejo, museus, inscrições, graffiti, o que oiço, conversas, pérolas da rádio, que mais tarde, não raras vezes, serve de ponto de partida ou de passagem para a escrita.

 

Quando li o artigo de Pierre Assouline, a minha primeira reacção foi: universitários a meterem o nariz na génese dos meus textos? Era o que faltava! Não saio de casa nua... Depois lembrei-me que o romance cuja escrita concluo, que tem 251 páginas, já teve cerca de 350. Haverá portanto uma parte que o leitor não lê mas, para mim, de certa maneira, lá continua, aquilo que no cinema ou na fotografia se designa com o termo francês hors-champ. Aquelas cem páginas não são indispensáveis para contar aquela história mas permitiram-me conhecer as personagens para além do romance e por conseguinte, de certa maneira, embora não façam parte dele, pertencem-lhe.

 

Em contrapartida, desde que comecei a escrever esta crónica, suprimi um parágrafo na introdução, no qual me tinha deleitado, de maneira inútil, sobre a leitura dos jornais. Se houvesse feito um rascunho no papel, este parágrafo talvez lá estivesse, recuperável ainda que riscado; eu copiei-o para outra pasta e, logo que conclua a crónica, suprimo-o. Para quê guardar documentos insignificantes?

 

Antigamente, quando os escritores se serviam de papel, tinta e músculos, o texto era muito pensado antes de escrito. Em 2011 as obras continuam a ser pensadas mas o acto de escrever tornou-se tão rápido que a frase acompanha o ritmo do pensamento. Há por consequência uma fase de produção do texto que antes se fazia
mentalmente e agora se faz visualmente. O que seria de nós – e de quem estuda a genética dos textos – se guardássemos rigorosamente tudo?

 

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
editado por Luis Moreira às 12:32
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Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
Carta a um escritor, por António Gomes Marques

 

 

 

 

 


Há pessoas que escrevem livros, de imediato publicados, que não necessitam de publicidade e, logo à partida, têm a garantia de venda de milhares de exemplares. Há escritores, uns bons e outros excelentes, que se vêem e desejam para encontrar editor e cujas obras, quando editadas, se vão arrastando ao longo do tempo numa venda lenta e que, muito de vez em quando, lá esgotam a edição. O fenómeno não é apenas português. Claro que também acontece que estes escritores, se têm a sorte de as livrarias lhes darem visibilidade, conseguem passar a ser conhecidos e, naturalmente, a ser procurados; no entanto, com raríssimas excepções, o número de exemplares de cada edição dificilmente ultrapassa os 3000 exemplares. Mas são estes escritores que merecem que deles falemos, que gritemos ao Mundo: «Olhem para aquele livro, leiam-no, discutam-no, pensam-no!»

 

É dum desses escritores que vos quero falar. Não é conhecido do público, não atingiu ainda a excelência e poderá nunca a atingir se não o lermos e, assim, o levarmos a desistir.

 

Foi no dia 26 de Novembro de 2007 que o António Norberto Cunha me procurou trazendo um livro debaixo do braço, o que nada teria de extraordinário não fosse ele o autor. Tratava-se de «O Triângulo de Dezembro e outras ficções», livro de contos, livro que estendeu para mim, dizendo: «É para ti!» Com alguma emoção, abri de imediato para lhe pedir a dedicatória, da qual o Norberto não se tinha esquecido e que não resisto a transcrever:

 

A

 

António Gomes Marques

 

velho companheiro de per-

 

cursos e ideais e grande

 

amigo, com um frater-

 

nal abraço.

 

26/11/07

 

Norberto Cunha

 

Dois ou três dias depois iniciei a sua leitura, finda a qual me coloquei frente ao computador, não resistindo a escrever o texto que abaixo vos deixo (e que continuava inédito), texto esse que vos dirá a razão por que não podia deixar de o produzir, e a que chamei:

 

CARTA A UM ESCRITOR

 

Meu Caro Norberto

 

 

Já são passados mais de 2 anos sobre a resposta que me deste à inevitável pergunta que se faz a um amigo que não vemos há algum tempo: «Tenho desfrutado da companhia dos netos e do prazer da escrita». Perguntei-te de seguida o que tens escrito, pensando eu que me irias falar da «nossa» Filosofia que tanto tem ocupado as nossas vidas e tu, confesso, voltaste a surpreender-me: «Tenho escrito uns contos, pensando mesmo em publicar um livro».

 

Um livro, óptimo, e logo de contos, que eu sempre considerei o mais difícil na ficção. E foi este o tema que se seguiu na nossa conversa. Perguntaste-me então se eu estaria na disposição de ler alguns e, depois, dar a minha opinião. Claro que a resposta teria de ser sim.

 

 

Fui um leitor atento, mas demasiado exigente. Acredita que foi por amizade, dado temer que não passasses de mais um ficcionista no meio de muitos, o que para um amigo meu seria pouco. Tinhas escolhido a via mais difícil para fazer literatura – escrever contos. Mas, na verdade, pode ser-se muito bom contista sem atingir a mestria de um Anton Tchekhov, o melhor de todos na minha modesta opinião.

 

 

Vi, de imediato, que tinhas cuidado com a narração e que sabes perfeitamente que a literatura tem de ser construtiva e não demonstrativa, mas deixei para o futuro uma apreciação mais definitiva sobre a tua qualidade de contista. Foi, mais ou menos, o que te disse depois de lidos os 3 contos que me enviaste, havendo um deles que não me agradou, embora te tivesse dito que deverias pegar nas suas personagens, construir-lhes uma vida, sem preocupações do número de páginas para, assim, ganhares experiência para vires a ser o ficcionista que estavas a pretender ser.

 

Mais tarde, disseste-me que o livro estava pronto e que gostarias que eu fizesse, naturalmente com outros, a sua apresentação pública. Convite honroso que não pude aceitar por, nas datas prováveis, não estar no país. Foi pena não ter podido testemunhar este momento importante da tua vida, igualmente importante para os amigos!

 

Entretanto, chegou-me o livro, «O Triângulo de Dezembro e outras ficções», generosamente oferecido por ti, cuja leitura iniciei cheio de curiosidade uns dias mais tarde, logo que terminadas outras leituras (não consigo ler um só livro de cada vez).

 

Nos contos gosto, naturalmente, de histórias curtas que sejam capazes de sintetizar um romance em meia dúzia de páginas, ou menos, que me falem de pessoas vivas, verosímeis, que levam a nossa imaginação a procurar a solução do mistério que o autor tão bem nos sabe apresentar. Por isso, gosto dos contos de Manuel da Fonseca, do Carver, da Flannnery O’Connor, do Juan Rulfo, do Italo Calvino, como também de Ilya Ehrenburg (esqueçamos um pouco o seu estalinismo), do Guy de Maupassant, da «Servidão e Grandeza dos Franceses », de Aragon, do Miguel Torga e de muitos, muitos outros, sem esquecer o maior – Anton Tchekhov.

 

E gosto dos teus contos, perfeitamente enquadrados quase todos eles na minha concepção do que é um conto. Apareceram-me como narrados de dentro do universo que procuras retratar, sentindo-se muitas vezes a tua adesão ao mundo que mostras, numa linguagem simples para o leitor, bem mais difícil para o autor. Mostras dominar já bastante bem, para além da linguagem, a técnica do conto, a criação do mistério a partir de uma realidade que o leitor pode (deve) conhecer.

 

Por fim, não posso deixar de referir que continuaste a surpreender-me. Falo do conto «A Bandeira Moçárabe», que tomo como homenagem à terra que te viu nascer, Faro, conto esse prenhe de erudição.

 

Poderias ter escolhido a época pré-histórica ou a época romana, bem assinaladas por traços bem materiais; optaste pela época da ocupação islâmica, iniciada no séc. VIII, mostrando um conhecimento profundo do viver quotidiano da época que retratas e que resulta numa lição erudita que me encantou. Bem hajas!

 

E pronto, meu caro António Norberto, esta carta já vai longa e é tempo de a terminar.

 

Abraça-te com a amizade de sempre o

 

António



publicado por João Machado às 15:00
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Terça-feira, 22 de Março de 2011
Um caso, por Carlos Mesquita

 

 

 

 

 


 

 

Chamemos-lhe Carlos, nascido em Vinhais, que é verdade.

 

Parece-me que o conheço desde sempre, mas parte contou-me ele; como ser filho do barbeiro da terra e ir à escola de almoço composto de pão com banha. Somos da mesma idade, da mesma região, cruzámos vidas na Lisboa para onde emigrámos; eu trazido pelo meu pai ele pelos irmãos mais velhos. Num ano dos oitentas que não recordo, fui buscá-lo a uma grande empresa para chefiar o meu fabrico, tinha sido colega do meu sócio que lhe conhecia as aptidões. Sabia fazer, sabia ensinar, um chefe (líder como agora se diz).

 

A minha empresa crescia, entrava equipamento, admitia-se pessoal. A triagem era feita por mim. Apareceu-me um jovem do Cacém que dizia ter experiência no ofício, ter andado por maus caminhos e querer deixar o Casal Ventoso. Para isso precisava de trabalhar, ter uma oportunidade. Chamei o Carlos e na presença do candidato disse-lhe que o tipo dizia ter muita vontade mas tinha de se ver se ele prestava, com igual frieza o Carlos pôs cara de chefe e interrogou-o sobre onde tinha trabalhado, com que equipamentos, e com quem, explicou-lhe que ali era para bulir no duro. Depois do interrogatório e das respostas, o Carlos sentenciou que se eu estivesse de acordo podia entrar no dia seguinte à experiência, uma hora antes dos outros para conversar com ele. Combinado, o jovem saiu muito agradecido. Eu só disse; - o meu sócio ainda me vai lixar a cabeça. Era um pensamento e saiu voz. O Carlos respondeu – não se preocupe eu trato do puto. O meu sócio não teve coragem de me dizer nada, embora me tenham dito que ele se queixava de ter um sócio maluco que empregou um toxicodependente. O Carlos adoptou-o, disse-me que ele era bom e sabia da arte, tinha só aquele problemazinho mas ele tratava do assunto. Passou a fazer um desvio para o levar a casa, não fosse ele “enganar-se no comboio e ir para Campolide em vez de para o Cacém” (a empresa era junto da estação de Queluz) e de vez em quando dizia-me que era preciso arranjar umas horas para ele fazer, e assim esquecer as companhias. A mãe do jovem passou a telefonar regularmente para o Carlos, dizia-lhe que o pai já há muito tinha desistido do filho, que ele o considerava o maior amigo; contava em casa que os verdadeiros amigos estavam no trabalho e não no Casal Ventoso. Mais tarde esse novo empregado já estabilizado na empresa pediu-me uns dias para ir fazer uma desintoxicação a Coimbra, obviamente concedi-lhos. Quando voltou perguntei-lhe como tinha corrido, disse-me apenas e triste, – foi muito difícil. Fiquei com a ideia de ter sido um fiasco. Pouco depois feriu-se numa mão num calcador da máquina e “foi para o seguro”. Nunca mais o vimos, soubemos que durante a baixa voltou ao Casal Ventoso, onde finou com uma overdose. A mãe fez um último telefonema a agradecer tudo o que tínhamos feito, o Carlos lamentava-se: - Mesquita se o puto não se tem aleijado nós ainda o safávamos. Não sei.

 

O Carlos foi para outra empresa, deram-lhe uma quota. Não lhe disseram que estavam falidos; veio a arcar com as responsabilidades da insolvência, os sócios foram saindo, restou um que se reformou e desapareceu.

 

Criou outra empresa, pequena. Tenho-lhe dado algum trabalho, do pouco que tenho para a sua dimensão. Hoje de manhã visitei-o estava ao telefone dizendo que só vendia as máquinas em conjunto, espera pagar as dívidas com esse dinheiro, não há trabalho. Com a idade que tem resta-lhe a reforma antecipada, acabou. Mais um.

 



publicado por João Machado às 15:00
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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011
Certidão de Óbidos

 

 

 

 

 

 

 

Marcos Cruz



Tenho uma amiga que não sabe de onde veio, ou de quem veio, mais precisamente. Veio ter comigo assim, de repente, do nada, como terá vindo ter com ela mesma. Depois de algumas conversas, e percebendo que, embora perdidos na encruzilhada de sentidos que a vida nos aponta, ambos vivíamos em nós mesmos, e por isso nos entendíamos, confidenciou-me que o segredo da sua génese lhe fora sonegado desde que mostrou curiosidade sobre ele. Fê-lo, claro, porque faltavam cartas na mesa. Desorientada, naturalmente, disparou em todos os sentidos, como uma mãe que procura um filho desaparecido, tocando nos ombros de cada oportunidade, à espera de que ela se vire e a cara lhe sorria. Desenvolveu a fé. Falhou, falhou, falhou.

Foi aprendendo, por razões de sobrevivência tão intimamente ligadas a quem tem algo de fundamental para encontrar, mesmo não sabendo o que seja ou não tendo pistas sobre onde esteja, a retirar de cada falhanço a ilação certa, o aspecto bom. Reverteu em amor o que para quase todos seria medo e ódio, uma vida amarga, um mar de espinhos. Como a roda de um carro, ou talvez de uma bicicleta, dada a sua propensão, de raiz dedutível, para as coisas mais transparentes, menos engenhosas, foi acima e abaixo, ao oito e ao oitenta, e entre ambos chegou a deixar de rodar, por uns tempos. Ou seja, tentou tudo. O aconselhável e o impensável, o sensato e o louco, a diluição no colectivo e o radicalismo individual. E os tons do meio, tantos quantos pôde, até hoje, coleccionar. Quando, numa dessas vagas, deu comigo, era como se quase não lhe faltassem peças do puzzle mas não soubesse onde as pousar, como se não tivesse chão. Propus-lhe um uso incerto do meu, algures entre a realidade e a fantasia, um meio conto. Parecia decidida a ficar, a permanecer, mas acabou por deixar o meio conto a meio, não sem antes se fazer valer da experiência acumulada na sua busca pessoal para me desbloquear uma veia criativa, uma via construtiva, e acender mais uma luz no sentido da minha vida, ironia de um destino que ela, então, não reconhecia como tal, ou não reconhecia de todo. Foi para casa, para Óbidos, a terra onde nasceu. Ter-se-ão passado dois meses.

Hoje recebi uma carta dela. Lá dentro, li que não lhe importava já outro sentido na vida do que estar bem e em paz, e sorrir, com dignidade, esteja onde estiver, faça o que fizer, seja qual for o desafio que lhe aparecer pela frente. A questão terá deixado de ser descobrir o sentido da existência para passar a ser existir em todos os sentidos. Nos dela e nos dos outros, como existe, de facto, no meu. Pensando nisto, aliás, perguntei-me se o verdadeiro sentido da vida dela, por paradoxal e até algo triste que enganadoramente se afigure, não seria ajudar os outros a encontrar o sentido da vida deles. Varrendo com uma mão os pensamentos e já quase a guardar, com a outra, o envelope, estremeci de surpresa quando, ao passar os olhos pelo remetente, li: Rua do Cemitério. Então, não me perguntem porquê, tive a certeza de que a minha amiga estava bem, como que renascida. Aquela carta era uma certidão de nascimento. E, pelo que não deixa de ser outra ironia do destino, uma certidão de Óbidos.



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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011
Um regresso à montanha mágica

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

A mesma sala assume dimensões diversas consoante a apreciamos na infância ou na idade adulta – às crianças as coisas parecem sempre maiores, por razões óbvias de diferença de escala. Quantas desilusões temos ao regressar em adultos a locais «grandiosos» da nossa infância e os encontramos pequenos, acanhados, insignificantes… Tinha os meus quinze ou dezasseis anos quando li «Montanha Mágica», de Thomas Mann. Li-o numas férias de Verão na Biblioteca Nacional que funcionava ainda no velho edifício do Largo da Biblioteca, junto à Rua Vítor Córdon, pegado com a Escola Superior de Belas Artes.


Fiquei maravilhado e não descansei enquanto não arranjei dinheiro para o comprar e poder ler quantas vezes quisesse. Tal foi a pedrada, que, no meu círculo de amigos, durante semanas, quando eu abria a boca, havia quem dissesse - «Lá vamos nós apanhar com a montanha…». E, quase sempre era verdade. Transformou-se, para mim, num paradigma da arte de bem escrever. E fiz campanha por Mann, com a mesma convicção com que, depois, lutei por Humberto Delgado. Os amigos foram lendo e, arranjei adeptos, embora houvesse uma facção que entendia que o livro não era assim tão bom (ninguém se atreveu a dizer que era chato) – nem enredo tinha, diziam os mais viciados na efabulação cinéfila – o que, em parte, até é verdade.


O grupo, que naquele Verão vegetava entre as praias da Linha ou da Caparica e os cafés da Baixa, esteve durante algum tempo dividido entre os amantes da montanha e os seus detractores. Até que, com o fim das férias, chegou outra mania qualquer e o Thomas Mann foi arquivado. O livro que comprara com tanta dificuldade e que circulava por todas aquelas mãos e locais, foi ficando gasto e desapareceu. Perdi-lhe o rasto, tal como quase vinte anos mais tarde me aconteceu com o «Couraçado Potenkin». O filme do Eisenstein foi sendo emprestado a amigos de amigos de amigos e sumiu-se numa espécie de triângulo das Bermudas. Mas, não saiamos da «Montanha Mágica».

Durante aquelas semanas Lisboa passou a ser Hamburgo, a Caparica onde me deslocava diariamente no ferry que partia do Cais do Sodré transmutou-se na cidadezinha dos Alpes suíços. Eu, obviamente, era Hans Castorp, preocupado com a transcendência que aflora à superfície de coisas aparentemente simples, com a guerra cuja eclosão, ainda antes do atentado de Sarajevo, se adivinhava iminente… Não vos vou contar a história passada na sua maior parte em Davos, no microcosmos de um sanatório povoado por médicos, enfermeiros e tuberculosos. Uma imagem de um mundo doente naquele ano de 1912. E a omnipresença da montanha, que vemos na fotografia.

Ao longo do tempo fui, instintivamente, evitando reler a obra que, em 1924, terá motivado a atribuição do Nobel a Mann. Há semanas, num alfarrabista que funciona no Palácio da Independência, apareceu-me pela frente o feiticeiro livro da minha adolescência. Por três euros, recuperei esses dias quentes de há décadas atrás, nas centenas de páginas abrigadas pela capa amarela e verde, concebida pelo Bernardo Marques, na edição da colecção «Dois Mundos» dos Livros do Brasil. Li-o mais uma vez, agora com os olhos auxiliados por óculos e com a cabeça com menos cabelo, mas atafulhada de saberes e de experiências (a maior parte deles inúteis) de cuja existência, aos dezasseis anos nem sequer suspeitava. E não é que o velho se emocionou dando razão ao garoto? 

É, de facto um livro admirável, uma lição de bem escrever, de efabular sem um fio ficcional muito definido (a tal falta de enredo que os gandulos detectaram). Só notei uma falha que in illo tempore me escapou – a tradução brasileira, embora revista para a norma portuguesa, não me parece de grande qualidade. Feliz de quem saiba alemão e possa aceder ao verbo do velho Thomas sem intermediários – directamente do produtor ao consumidor!

Sei que nos anos oitenta se fez um filme alemão em que, entre outros, entravam o Rod Steiger e o Charles Aznavour. Julgo que se fez também uma série televisiva. Não vi nem um nem outra e parece que fiz bem. Há coisas com que não se brinca.

Nada direi sobre a história, o enredo, o entrecho. É muito volátil e quase irrelevante, pois as grandes linhas de força da obra de Mann são as eternas preocupações do ser humano – o amor, o temor e a consciência da inevitabilidade da morte, a insustentável leveza da humanidade que transportamos em nós, sempre pronta a regredir ao dealbar dessa humanidade. E, também, o carácter subjectivo que o espaço e o tempo assumem; tão diferentes que, em geral, as mesmas coisas são vistas por um adolescente e por ancião. E tão iguais, como me aconteceu com a imperecível beleza da «Montanha Mágica». O jovem e o velho estão de acordo num aspecto – Mann, na sua «Montanha Mágica», ensina-nos que um ser humano transporta em si toda a simples complexidade do Universo.



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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011
Química

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marcos Cruz

 

(Ilust. Manel Cruz)

 

 

Olha o Falso! Então, Falso? Há que tempos! Tás fixe? Olha, esta é a Foca, uma amiga minha. Que cena, pá! Tás bem? Fogo, olha, a gente vem dali, tá lá assim uma cena mesmo indescritível, um electro meio marado, misturado com não sei o quê… Ó pá, nem é rock nem é aquele pop pop, sabes? E o gajo mistura maaal, Falso! A sério, não tás a ver! Eu e a Foca já nos távamos a passar. [faz uma festa no peito de Falso como se lhe estivesse a limpar o pó e volta à carga] E tu? Tás aqui, quê, a fumar um cacete? [Falso não fala, só sorri, meio envergonhado] Iá… Ó pá, mas tás fixe? Que cena, já não te via há bué! [Foca, essa, está prestes a deixar cair o sorriso] Este gajo [virada para Foca] é que é o guitarrista dos Phones! Eu tenho de te mostrar Phones, estes gajos são muito fora! Mesmo! [este “Mesmo!” é dito com os olhos em brilho, toda ela parece uma espinha de deslumbramento a rebentar] E… e já têm cenas novas? [hesita na pergunta porque se apercebe, finalmente, de que os amigos de Falso estão com cara de sopa azeda] Ah, desculpem lá: eu sou a Cláudia. Ela é a Foca. [eles ruminam, em jeito de anuência] [fica um silêncio agreste] Pois é, Falso… Vê lá se dizes alguma coisa! Ainda tens o meu telemóvel? [Falso faz sinal de que sim] Tens qual? O 91? [ele repete o sinal] Ah, é que eu agora também tenho um 93, se calhar dá-te mais jeito [Falso faz sinal de que não] Iá, então olha, a gente vai bazar! Bute aí, Foca? [Foca arrota, nervosa] Xau, pessoal! [elas afastam-se, com o estilo possível; eles certificam-se disso] [por fim, Falso fala] Ó Brito, faz esse!




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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011
A ingenuidade que me assalta, ou o Ramadão que deveria haver em cada um de nós

 


 

 

 

 

 

 

 

José Magalhães


Começou em Agosto, a onze, e terminou em nove de Setembro o mês sagrado do Islão.

Para nós, os que não somos Muçulmanos, o jejum alimentar é a parte mais visível do Ramadão. Durante este mês, os crentes não podem comer nem beber, entre outras coisas, entre o nascer e o pôr do sol, com honrosas excepções.

É um dos pilares do Islão, e serão cerca de dezasseis, as horas diárias de jejum.

Há porém uma parte escondida neste jejum, da qual nós, os que não somos Muçulmanos, não falamos.

Mas não são os fiéis que a escondem, somos nós que não a queremos ouvir. Talvez que não nos convenha.

É que o jejum não se limita a ser físico. Também é espiritual, e este implica não mentir, não prejudicar o próximo, não caluniar e ser mais piedoso, durante todo o mês sagrado.

Bem que poderíamos aprender um pouco com eles. E aqui começa a minha eterna ingenuidade. Esta coisa de fazer jejum espiritual, só nos faria bem. Só nos elevaria, colocando-nos num patamar superior.

Já imaginaram o que seria o nosso mundo, com as pessoas de um modo geral e os políticos em especial (vejam o caso actual desta aprovação do Orçamento para 2011), a não mentirem durante um mês em cada ano?

Já imaginaram o que seria o nosso mundo com as pessoas de um modo geral a não prejudicarem os outros, nem que fosse só durante um mês em cada ano?

Já imaginaram o que seria o nosso mundo sem calúnias, nem que fossem só trinta os dias em cada ano em que isso acontecia?

E por fim, já imaginaram o que seria o nosso mundo com gente mais piedosa, mesmo que essa piedade elevada ao rubro só se verificasse durante o mês do Ramadão?

Eu sei que todas as religiões, no fundo, têm (todas) a mesma base, reclamam para si todas essas coisas, da piedade, da não mentira, e do não prejudicar seja quem for, durante todo o ano, mas na verdade, a não ser em pequenos redutos ortodoxos, ninguém as cumpre, ninguém liga a mínima importância a essas regras, e, pelo que se sabe, na religião Muçulmana, pelo menos durante este mês, são milhões os que se esforçam para que tal aconteça.



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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011
A Escrita, por Marcos Cruz. Ilustração de Adão Cruz.

 

 

 

 

Marcos Cruz

Uns dias bem, outros mal. Quão mentiroso é o horizonte! Quão aliciante e persuasivo se nos mostra naqueles dias, quão angustiante e negro se nos revela nestes. 

A paz é das montanhas e dos vales, dos medos e dos amores, ela habita toda a forma. Para ser minha também, falta que eu com ela aprenda essa adaptabilidade, essa renúncia infinita. Sentir, eis a questão. Sentir tudo. 

Abrir o peito às flores e às balas, deixar que o destino penetre a carne e a queime de toda a sensação, permitir que o corpo seja o altar onde a dor e o prazer juram e geram amor eterno. Fazer a parte que me compete, usar bem o meu testemunho, abrir caminho para quem vem depois. Viver no paradoxo como se fosse chão firme, que o é, afinal.

Escrever, o acto de escrever, uma das infinitas formas de sentir, tem sido para mim um claro exemplo disso: escrevo quando sinto que preciso, quando a alma se agita e quer que lhe conte histórias, quando estou por baixo; se assim não for, vivo. 

Escrever é, pois, para mim, uma forma de legitimação daquilo que procuro: viver. Como se esse grande propósito, assumido na sua plenitude, carecesse de sentido. Como se a vida, ela própria, não tivesse sentido. Se não tem, para que vivê-la? Mas, lá está, escrever é, para mim, a renda da casa. 

Deus deu-me esta moradia, este corpo animado, esta oscilação perpétua, com uma ordem própria que não domino mas, passo a passo, vou descobrindo nas coisas, nas vagas dos mares, nas fases da lua, no intangível jogo de espelhos que é o mundo, do poço mais fundo ao abismo do céu.

Passo dias de sonho, vivendo. Vou ao sabor dos passos que são e não são meus, num ritmo etéreo mas não aéreo, uma espécie de batida silenciosa. Os meus pés falam com o chão, conversam ora eu ora tu, demoram-se em passeios tão verbais quanto sexuais - e, em ambos os casos, fecundos. Acham que eles se preocupam com o destino? Nada. 

Ocupam o tempo até que alguém por eles, há quem diga que eu, decida interromper o coito. Coitado de mim: mais e mais culpa. Aonde quer que vá, o que quer que escave, encontro sempre culpa. Nos dias bons, agradeço-a como um cão lambe o dono por um novo osso, consciente de que atrás dele mais vida se abre, mais água corre entre o fulgor e o desespero; nos maus, ajoelho-me perante ela, todo rendição e revolta, resistindo a entregar-lhe a minha ausência de sentido, como quem resiste a deixar um filho seu em porta alheia.

Pois é. É que também passo dias de pesadelo, sonhando. A coincidência, e aparente contradição, entre sonho e pesadelo, entre viver e escrever, entre dia e noite, atesta e ela própria espelha o tal jogo de espelhos que é a existência, pelo menos a minha. Os espelhos, os que socialmente se convencionaram como tal, os que registaram a patente dessa condição, mostram a nossa imagem invertida, mas na vida tudo é nosso, tudo nos diz respeito, tudo e nada, a verdade e a mentira. Daí que o inverso de mim seja eu também. Daí que os dias bons sejam maus também, e vice-versa. Daí que escrever seja também viver. E daí, talvez, eu escrever. 

Não fora essa consciência e dificilmente o faria, porque não gosto de ir pelos meus dedos, não acredito neles enquanto entidade destacada do todo. Para mim, o cérebro de cada um é como um neurónio do universo: sozinho nada faz, tem de chocar, tem de criar faísca, ir na corrente. Só que, se me é mais fácil, por assim dizer, libertar o cérebro quando ando na rua, quando nado, quando medito, quando como, enfim, quando não me atenho a um ofício mental, sinto extrema dificuldade em consegui-lo quando escrevo. 

Já muito pensei sobre isto, claro. O que é, aliás, mais um paradoxo, porque ao pensar estou a instrumentalizar o cérebro. Mas também já muito meditei sobre isto. Pensar e meditar são, no meu modo de sentir actual, coisas mais ou menos tão diferentes como viver e escrever. O pensar tem o seu teatro na roda mental, requer um departamento para existir, recolhe-se do que não lhe convém. O meditar absorve tudo, mesmo o pensar, até que este desapareça espontaneamente por defesa própria. 

O processo de escrita tem-mo mostrado, desde os dias em que fincava os olhos na folha branca e como que a inquiria, tentando extorquir-lhe uma mancha, um palmo de cadastro, para que nele pudesse lavrar, e ela, com a candura dos inocentes, me devolvia o olhar, sem mais em sua companhia que a frustração de ser nada o meu reflexo, de estar trancada a minha alma. De então para cá o que mudou foi a mudança, a alma ela própria de mim e de tudo; foi então o mundo, toda a vida, toda a escrita. 

Foi o sentir a dita frustração e começar a amá-la como o fio de sentido que me estava destinado puxar, o pedaço de vazio que me era levado à boca. Foi a noção de que o meu caminho se desenhava, afinal, na sombra do que eu havia desenhado para si mesmo, no inverso da imaginação, da conjectura, do pensamento, do sonho. Comecei a perceber que, em vez de escrever, o meu destino era ser escrito. E que melhor paradoxo? Li no destino que o tinha de escrever.

Mais do que me confrontar com a responsabilidade de palmilhar rumo a Deus, isso contribuiu decisivamente para que pousasse em mim próprio, como uma semente que inicia a sua aventura na fertilidade macia de um terreno que sempre a desejou. Continuei a passar uns dias bem, outros mal, mas a minha consciência do bem e do mal mudou desde que os enquadrei como dores e prazeres de crescimento, como mensagens provenientes da raiz que entrara por mim adentro com a firmeza etérea da luz matinal. Nem sempre as leio com a devida serenidade. Às vezes a sensação é tão intensa que me convoca inteiro, qual bombeiro apanhado na teia do fogo, vitimado pela violência das chamas. Mas mesmo dessas mortes saio vivo, com uma sensação de integridade mais ampla, como se o que deixei na batalha não me pertencesse.

Pode, compreendo, este caminho parecer inclemente a quem me viu e quem me vê. Posso dar a ideia de me ter tornado num egoísta insensível, num puro sangue que, apontado à sua própria loucura, esquece a poeira que levanta. A verdade, porém, tanto quanto a minha lucidez a sabe agora decifrar, é que me leio cada vez mais como a um livro, confiando ao abismo da liberdade a memória de cada página que viro, testemunhando a expansão da consciência por cada nova página em que mergulho. Se me perguntarem com que direito, assumirei não saber verbalizá-lo melhor do que deixando vir à luz estas linhas tortas, na fé sincera de que o contemplarão. Se assim for, a minha gratidão não caberá em nada, pois brilhará no meu íntimo a certeza de que o amor também se escreve.


 



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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011
Um livro que eu li. Um desafio à leitura.

 

 

 

 

 

 

 

 

João Machado

 

Somerset Maugham e Maquiavel – alguns comentários à roda de um livro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Julgo que nos anos quarenta, William Somerset Maugham (1874-1965) escreveu um romance com Maquiavel (1469-1527) como personagem central, inspirado na peça que este escreveu, La Mandragola. Partindo do enredo da peça, Somerset Maugham por seu turno tece um enredo, em que Maquiavel tem um papel central, o do pretendente a sedutor, mas dá à história um tom humorístico, pondo o cínico e experimentado florentino a ser ultrapassado na recta final de um modo divertidíssimo, por outro candidato, muito mais jovem. Este romance que, vocês têm de ler se ainda não o fizeram, foi traduzido para português por Erico Veríssimo, em 1948. Em Portugal saiu na colecção Miniatura, em data que não consigo precisar. Também não consegui descobrir o título em inglês (terá sido Then and Now? Este romance foi publicado em 1946, e nunca o encontrei).

 

Somerset Maugham foi um autor extremamente prolífico, que escreveu peças de teatro, romances (os mais famosos foram Of Human Bondage e The Razor’s Edge), e contos. Nesta última modalidade foi um mestre, e deixou centenas deles, alguns deles muito famosos como The Lunch. Teve colaborações em jornais, revistas, etc. Foi sem dúvida um escritor de grande talento, que dominava as melhores técnicas da sua arte. Muito observador e perspicaz, chegou trabalhar com os Serviços Secretos do seu país, tendo escrito Ashenden, com base nesta experiência. Como curiosidade, já li uma referência sobre a influência que este trabalho terá tido sobre Ian Fleming, o criador de James Bond. Mas alguns opinam que Somerset Maugham, culto e talentoso como era, no seu trabalho não foi um escritor original, inspirando-se por vezes na obra de outros autores, como Dickens e Wilde.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De qualquer modo, este romance, Maquiavel e a Dama, é extremamente agradável e lê-se com grande facilidade. Um aspecto de grande interesse é a reconstituição do ambiente e da vida da época que o autor nos oferece, acompanhada de elementos históricos importantíssimos, nos quais o enredo se encaixa facilmente. Consegue-se ter uma imagem de Maquiavel muito verosímil, dando-lhe uma faceta humana, sem de modo nenhum o querer transformar num bom rapaz (que ele realmente nunca deve ter sido). A propósito, recordo-lhes que La Mandragola é tida como uma das melhores comédias escritas no século XVI, e que o ensaísta inglês Macaulay (1827) chegou a opinar que Maquiavel, se se tivesse dedicado ao teatro, poderia ter sido um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. Terá exagerado, na medida em que Maquiavel fez outras incursões no teatro, que não foram tão felizes. Mas ele dedicou-se foi à política. Ainda, a propósito, para os que gostam, descubram o que o historiador inglês Lorde Acton (1834-1902) escreveu sobre Maquiavel, na introdução a uma edição de Il Principe, de 1891, da Clarendon Press, Oxford.

 

É preciso lembrar que Maquiavel foi o primeiro pensador que analisou a política e os fenómenos sociais, sem se apoiar na ética ou na jurisprudência. Foi contra os princípios aristotélicos dominantes na altura em que viveu, segundo os quais a política era uma mera extensão da ética. Acho que o Somerset Maugham, de um modo afável e divertido, nos dá neste romance uma ideia muito razoável do homem e da época.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Sempre Galiza! – Um conto triste, de Daniel Castelão

coordenação de Pedro Godinho

 

 

 

Castelão havia de ser aqui convocado. Até porque foi a Daniel Castelão que fomos buscar a inspiração para o nome desta secção “Sempre Galiza!”, descaradamente copiado da sua importante obra Sempre em Galiza em que liga literatura, política e galeguismo.


Um homem de pensamento livre e nome marcante do nacionalismo galego, bateu-se pelas suas ideias e conheceu o exílio. Castelão é um dos “bons e generosos”:

 

Artista - desenho, caricatura, pintura – e escritor. É um dos seus contos, do livro Cousas (1926), que aqui transcrevemos hoje. Voltaremos a Castelão.

 

 

Vou contarvos un conto triste

 

Vou contarvos un conto triste.


A pouco de casar, doña Micaela comenzou a facer camisirías; mais a súa ilusión abateuse de súpeto e con bágoas nos ollos meteu nun frasco de augardente o froito merado dos seus amores.


Doña Micaela escribeu nun papeliño: “Adolfo, 12 de maio de 1887″. Pegou o papeliño no frasco e, dispois de bicalo tristemente, gardouno no armario das sabáns de liño.


Non vos riades, porque o conto é triste.


Aínda non decorreran catro meses e doña Micaela comenzou a traballar novamente nas camisirías. A boa fidalga regalábase cavilando no herdeiro que xa estaba en camiño do mundo, e por segunda vez doña Micaela ollou murchas as súas ilusións de nai, e con fonda tristura meteu en augardente o novo froito dos seus amores.


Doña Micaela escribeu: “Rosa, 7 de xaneiro de 1888″. Pegou o papeliño no frasco e moi amargurada gardouno no armario das sabáns de liño.


Non vos riades, porque o conto é triste.


A probe señora chorou tres veces máis e meteu en outros tantos frascos de augardente un “Pedro”, un “Ramón” e unha “Alicia”.

 


 

Non vos riades.


A boa fidalga decatouse de que non aloumiñaría endexamais un fillo verdadeiro e cos seus grandes azos maternals adicou a vida enteira ó coidado garimoso dos frascos de augardente. Triste vida!


Non; non vos riades, porque o caso é triste.


Cando unha fanada ilusión cumplía anos doña Micaela remudáballe o augardente. Tódolos días bicaba os frascos e arrombaba os laciños de seda que cinguían as vincas dos frascos de “Rosa” e de “Alicia”.


A boa fidalga chegou a vella e tiña criadas de tanto ben que andaban coas chaves dos armarios e gobernaban a casa.


Un día chegou diante de doña Micaela unha das criadas. Viña tan cortada que non podía falar; mais a probe muller tirou consigo no chan e pouco a pouco foi confesando antre saloucos:


- Perdón, miña ama! A¡, qué desgracia, señora! 0 señorito “Adolfo” caeume das mans e rompeuse.


E no intre doña Micaela esmoreceuse para sempre.



publicado por Pedro Godinho às 09:00
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Domingo, 23 de Janeiro de 2011
O Ponto de Vista das Gaivotas - Ana Teresa Pereira

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

 

 

Quem Conta Um Conto...de Cinema

 

 

Antes de lerem este conto da escritora madeirense de prosa encantatória, deliciem-se com estes sons:

 

http://nataliajuskiewicz.com/

 

 

 

Ana Teresa Pereira  O Ponto de Vista das Gaivotas

 

 

Segundo Orson Welles, «o que conta é a poesia».

 

Lembro-me dessa frase a propósito de um filme pouco conhecido de Alfred Hitchcock: Nightmare de 1947.

 

Na filmografia do autor, o filme segue-se a Notorious e antecede The Paradine Case. Foi a única vez que ele di­rigiu Humphrey Bogart (no mesmo ano em que este pro­tagonizou Dead Reckoning, The Two Mrs Carrolls e Dark Passage).

 

Ao que parece, Hitchcock pensou primeiro em James Stewart. Mas, como ele próprio reconheceu, «James Stewart nunca faria o papel de assassino». Quanto a Ingrid Bergman não houve qualquer dúvida — Nightmare é um prolongamento da magia nocturna de Notorious...

 

O filme baseia-se num conto de Daphne du Maurier (Rebecca, The Birds). O argumento foi entregue a Ben Hecht, que escrevera o de Spellbound e o de Notorious, o que explica as referências psicanalíticas — o tema do du­plo, a atmosfera uterina (é como se estivéssemos debaixo de água o tempo todo).

 

No plano inicial há uma igreja e uma pequena multidão que esconde parcialmente os noivos que acabaram de sair. Destaca-se a figura de Alfred Hitchcock com uma máqui­na fotográfica encostada ao rosto.

 

O plano seguinte mostra-nos uma mão segurando a fotografia. O rosto sorridente de Bogart, a expressão melancólica de Ingrid Bergman com flores brancas no cabelo. A câmara recua um pouco e vemos a mulher que segura a foto. Nesse momento uma mão pousa no seu ombro e ela volta-se soltando um pequeno grito.

 

Estamos numa sala funda e apercebemo-nos vagamente do som do mar. Bogart diz que é tarde, que devem ir dormir. Ingrid murmura «Yes, it's very late...» Não há qualquer menção à fotografia ou ao medo visível no rosto dela.

 

E então vemos a casa do exterior. Está situada sobre os rochedos, mesmo junto ao mar. Tem uma estranha semelhança com a igreja que víramos no início (há também uma torre de pedra...). Ouvimos as ondas, o vento, os gritos das gaivotas — a música de Bernard Herrmann e os diálogos são uma pequena parte da banda sonora (a história é visual, uma sucessão de imagens, uma experiência interior, quase abstracta...). Há duas ou três luzes acesas. Apagam-se uma a uma. Depois acende-se uma luz na torre.

 

Sentimos que a protagonista (nunca saberemos o seu nome...) tem medo daquele lugar, como uma criança que acorda num quarto desconhecido. A atmosfera é inquietante — aproxima-se uma tempestade...

 

Quando vemos a casa há sempre nevoeiro (nevoeiro que existe  mesmo dentro da torre) e temos a impressão de estar a olhar para uma velha gravura (o que faz sentido porque o realizador utilizou uma maqueta em todas as cenas exteriores).

 

Há outra mulher na história — a governanta, a bruxa má presente em tantos filmes de Hitchcock. O que é es­tranho é que neste ele escolheu uma actriz pouco conhecida que se parece vagamente com Ingrid Bergman, de forma que quando as vemos de longe é fácil confundir uma com a outra.

 

Quando a protagonista diz ao marido que quer visitar a torre ele recusa. O único acesso é pelos rochedos, que são demasiado perigosos naquela altura do ano. Além disso, «there are only bats and ghosts...»

 

Como no conto do Barba Azul, a jovem espera que ele se ausente para explorar o local proibido.

 

É impossível esquecer a imagem de Ingrid Bergman nos rochedos, o vestido molhado, os cabelos revoltos pe­lo vento, tentando encontrar o caminho para o outro lado da casa. A espuma branca das ondas, os gritos das gaivo­tas. Mas quando chega à torre tudo parece imobilizar-se. Abre a porta e sobe lentamente as escadas (nas suas en­trevistas a Truffaut, Hitchcock diz que o filme era somen­te a história de alguém que sobe e desce umas escadas).

 

No quarto da torre há gravuras, livros, uma velha mesa de trabalho. Um homem encostado à janela fuma um ci­garro.

 

A jovem diz o nome do marido.

 

Quando o homem se volta, o rosto é o que conhecemos. E ao mesmo tempo é outro...

 

Bogart diz que é o irmão do dono da casa, mas acres­centa que é natural que ela os confunda porque «I’m wearing his clothes».

 

A partir desse momento é como se a personagem de In­grid Bergman também se desdobrasse. Em casa tem um ar adormecido, move-se como um autómato, responde com monossílabos às palavras do marido e da governanta.

 

Mas depois vemo-la, mais bonita do que nunca, cor­rendo pelas rochas (a ameaça de tempestade parece estar suspensa e há até um pouco de sol; o mar está calmo), apanhando flores brancas que crescem entre os rochedos e que irá dispor num velho jarrão no quarto da torre. Os longos beijos, as conversas sem importância, Bogart len­do em voz alta versos de Shakespeare

 

«For thy sweet love remember'd such wealth brings,

That then I scorn to change my state with kings»

 

ou páginas estranhas que se supõe terem sido escritas por ele.

 

Há uma noite em que a tempestade a impede de voltar Enrosca-se nos braços dele como numa concha, com medo da chuva e de algo de indizível que está do outro lado da parede.

 

Regressa ao amanhecer, uma figura leve, vestida de branco, com um casaco preto pelos ombros e pétalas nos cabelos (tudo é circular, voltamos à igreja, às flores no cabelo do dia do casamento...).

 

A luz da biblioteca está acesa. Um homem de roupão encontra-se sentado junto à lareira.

 

Durante alguns minutos falam de coisas absurdas, como se nada tivesse acontecido, depois ela diz que vai deixá-lo. Bogart sorri com indiferença: «You will never leave this place...» Com um gesto brusco puxa-a para si e beija-a na boca. Depois as suas mãos rodeiam-lhe o pescoço.

 

A tempestade aumenta lá fora, uma gaivota roça o vidro da janela...

 

O corpo da jovem caído no tapete junto à lareira. O homem passa as mãos pelo rosto, como se voltasse de muito longe.

 

Então damo-nos conta de que houve uma testemunha da cena. A governanta está encostada à porta com um ramo de flores brancas nos braços (e por instantes temos a impressão de que é Ingrid Bergman que se ergueu «de en­tre os mortos»). Ela entra na biblioteca e põe as flores nu­ma jarra.

 

Bogart passa pela governanta sem a ver. A câmara segue-o num longo travelling pelos corredores sombrios (é a primeira vez que vislumbramos as entranhas da casa).

 

Ele parece caminhar durante muito tempo até que abre a porta de uma divisão escura. Acende a luz e, afastando uma velha tapeçaria (que representa quatro figuras sem rosto), abre outra porta.

 

Então percebemos que está na torre.

 

E o filme termina com o vulto cansado de um homem que sobe a escada de caracol. Depois, a casa vista do ex­terior. As ondas. Um grande plano das flores brancas que crescem nos rochedos.

 

Truffaut tentou estabelecer um paralelo entre Nightmare e Rebecca. Alguns elementos são comuns — a casa iso­lada, a governanta e acima de tudo a atmosfera irreal, de conto de fadas. Se Rebecca é uma versão de Cinderela, Nightmare tem muito a ver com o Barba Azul e com a Be­la e o Monstro.

 

Hitchcock acrescentou: «Sim, é uma velha história, um conto de fadas, talvez... É acima de tudo, literalmente, um pesadelo.»

 

Mas um pesadelo de quem?

 

Porque nem sabemos claramente quantas personagens tem a história (seres sem alma que não se distinguem uns dos outros...). Se o final parece indicar que não existem dois irmãos mas sim um único homem (nunca o sabere­mos de facto), a parecença da governanta com Ingrid Bergman quase sugere que há uma única mulher...

 

Qual dos dois sonha?

 

E, se quatro personagens podem ser duas, talvez duas possam ser uma só.

 

Talvez só exista um sonhador na casa sobre os roche­dos, talvez só haja uma presença nos quartos abandona­dos, na torre de pedra batida pelas ondas. Qual deles...

 

Ou talvez não exista ninguém.

 

Um sonho sem sonhador.

 

Quase o vazio.

 

Uma simples maqueta.

 

O mar.

 

Gaivotas.

 

E as flores brancas que crescem entre os rochedos.

 

(in Contos de Ana Teresa Pereira, Relógio d’Água)

 

 

 


 




publicado por Augusta Clara às 14:00
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Sábado, 22 de Janeiro de 2011
O Jantar Chinês - Maria Ondina Braga

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

 

Quem Conta Um Conto..

Maria Ondina Braga  O Jantar Chinês

Não sei se os meus amigos já ouviram falar do Porto Interior de Macau. É como se fosse uma ou­tra cidade a balouçar no rio das Pérolas. Barcos pe­quenos e barcos grandes, ali, imensos, muito chegados uns aos outros, e as pessoas que lá vivem avançam de barco para barco como nós passeamos pelas ruas. Os barcos pequenos chamam-se sam-pans, que quer dizer três-tábuas, onde se abrigam famílias inteiras, e estão presos com varas de bam­bu enterradas na lama para que os ventos do tufão não os afundem. E os grandes, chamados juncos, são os que vão à pesca.

Ora bem, quando eu vivi em Macau, há mui­tos anos já, nos sam-pans amontoavam-se adultos e crianças quase uns por cima dos outros. E os juncos que, embora fossem barcos de pesca, serviam tam­bém de casa aos pescadores, eram conhecidos por fân-siuns, e tinham largueza.

Nesse tempo, no entanto, em Macau, todos os barcos navegavam à vela. Velas de pano remen­dado, cor de ferrugem, cor de lodo e até pretas. De qualquer modo, bonito ver essas velas desfraldadas que pareciam leques gigantes, rio fora, até ao meio do mar. Uma vista verdadeiramente extraordinária, sim, o Porto Interior, mas com um ar de velhice e de pobreza. Que nos dias de hoje é diferente. Hoje em lugar de velas, os barcos, têm máquinas a va­por.

Lembro-me de que me vieram lágrimas na primeira vez que visitei esse porto de abrigo.

Numa pequena embarcação, junto ao cais, uma velha muito velha, com um menino ao colo, chupava um comprido cachimbo de água. Subiam rolos de fumo de minúsculas chaminés de lata. Num junco, ao largo, salgava-se peixe. E então um barco-loja carregado de mercadorias: sapatos de pano, te­cidos, tachos, tigelas, bules para o chá, cestos de palha de arroz, chapéus de fibra de bambu. Barco, portanto, para fazer negócio. E para que a gente do rio não precisasse de ir à cidade comprar o que lhe fazia falta. Também outro barco, este, restaurante, a cheirar a banha de porco, a picantes e a fritos. E à proa um chinês gordo a mexer com um pau novelos de massa, que em chinês se diz min, e que fer­viam num caldeirão com chouriço-china. Era a sopa-de-fita, a sopa-de-longa-vida, que até continha miúdos de galinha ou de pato. Esse barco-restaurante movia-se igualmente entre os outros, servindo, de onde em onde, por sobre a amurada, uma tigela de canja. Ou arroz chau-chau. Ou um frasco de tau-fu-mui, a que os portugueses chamavam queijo chinês. E cartuchinhos de iau-ii, choco frito com piri-piri, ainda quente, e uma colherada de molho.

Foi então que descobri, aninhado à ré de um sam-pan, um menino a desenhar com um pincel fino os caracteres da sua língua. Entardecia. O sol poente punha na cabeça do rapazinho uma chama de ouro.

Atravessei, pois, uma prancha e, em seguida, vários barquinhos, até chegar perto dele. Atento ao trabalho, porém, ele não deu por mim. A água ma­rulhava à nossa volta, escura, limosa. Uma mulher, a dona do barco em que eu me quedara, perguntou-me:

- Que quer daqui?

Tinha uma cara larga, castanha, mal-humorada.

Mostrei-lhe uma moeda:

- Vende-me esse periquito?

Foi a primeira coisa que me lembrou. Recea­va que ela me mandasse embora e não queria, de modo algum, partir sem falar com o pequeno.

A verdade é que eu o conhecia do colégio. Pertencia à escola masculina, chamava-se Yu, que em português significa jade, uma pedra oriental muito preciosa e de cor verde.

A mulher abriu os lábios grossos num sor­riso:

- Com certeza!

Estendia a mão para o dinheiro. Escancarou depois a gaiola de vime, tirou o pássaro, entregou-mo.

O bichinho, assustado, tremia na palma da minha mão, sem tentar fugir.

Súbito, um barco, chocando com o nosso, fez-me desequilibrar. Abracei-me à mulher que ria. O passarinho, esvoaçando, foi pousar no ombro do rapaz, no barquinho ao lado.

E Yu viu-me.

- Sim-saml — gritou (sim-sam quer dizer «professora»).

E no seu português meio chinês, perguntou-me o que é que eu fazia ali.

- Vim ver-te! — respondi.

Yu mostrou os dentes todos num jeito de agrado.

- Oh, entre para a nossa casa! Para que com­prou a A-Mui o periquito? Eu podia dar-lhe um.

Começou a mostrar-me o barco. Ao centro, debaixo da cobertura de colmo em forma de túnel, o quarto dele e do avô. À proa, a cozinha, a capoei­ra com duas galinhas, uma gaiola de periquitos, um canário, o casinhoto do cão. À ré, o lugar onde ele estudava e onde recebia as visitas. O sam-pan inteiro não tinha mais de três metros. A mobília do quar­to de dormir era uma esteira no chão. Na sala das vi­sitas havia um banquinho de bambu onde Yu me convidou a sentar.

Entretanto a noite caíra. Yu apressou-se a acender o candeeiro de querosene e a ferver o chá. Falava sempre: que surpresa! O avô devia estar a chegar e ia gostar de me ver ali.

Enquanto a água aquecia, chamou o cão e obrigou-o a fazer habilidades diante de mim. De­pois, voltando ao periquito:

- Comprou-o caro, não? A-Mui só quer di­nheiro. Tem gaiola para ele? Posso fazer-lhe uma. Gosta de cana ou de fibra de palmeira?

- Como quiseres. Igual à tua, que é bonita. Eu pago-te.

- Ora, eu não sou como A-Mui...

Baixou a voz. A nosso lado, a vizinha, debru­çada do barco, lavava na água turva o arroz do jan­tar num cesto de palha fina.

O pequeno foi guardar a minha ave na gaio­la dele, para que não fugisse. Em seguida apurou o ouvido.

- Oiço a campainha do sam-lun-ché do avô.

Sam-lun-ché é um meio de transporte usado em Macau e puxado por um chinês numa bicicleta com três rodas.

Eram horas da ceia. Yu disse:

- Sim-sam, janta connosco, sim?



publicado por Augusta Clara às 14:00
editado por Luis Moreira às 01:51
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