Quinta-feira, 16 de Junho de 2011
A Comunicação Social e a Democracia – III - O Vida Ribatejana suspendeu a publicação, por João Machado

Este texto já tinha aparecido no nosso blogue há vários meses. Apresentamo-lo novamente para chamar a atenção para o problema da comunicação social regional e local, tão condicionada no nosso país. Entretanto, em Vila Franca de Xira apareceu o quinzenário Voz Ribatejana, que tenta substituir o Vida Ribatejana.

 

 

 

 

 

Há alguns dias alguém me avisou de que o Vida Ribatejana já não aparecerá na próxima semana. Na segunda-feira confirmei o facto junto de várias pessoas. A empresa proprietária, a CCS -  Cultura e Comunicação Social, Lda., pediu a declaração do estado de insolvência.

 

O Vida Ribatejana é (espero que continue a sê-lo) um semanário de Vila Franca de Xira. Fundado em 1917, por Fausto Nunes Dias, é sem dúvida o jornal mais conhecido do Ribatejo. Ainda não há muito tempo, reportando-nos à imprensa local, era um dos jornais mais lidos no Distrito de Lisboa. Ultimamente já não era (não sei se alguma vez o foi) o de maior tiragem (da ficha técnica constam 10000 exemplares), ou o mais lido, por várias razões, a começar pela financeira. Foi perdendo muita publicidade, o que possivelmente precipitou a situação actual. Outro problema que agravou a situação do jornal foi a redução da comparticipação do Estado no porte pago.

 

Do que não há dúvida é que o Vida Ribatejana prestava um serviço muito relevante à comunidade, a começar pela cidade de Vila Franca de Xira, e também ao concelho e às zonas vizinhas. Não se limitava às notícias puramente locais; por vezes tratava temas de interesse nacional.

 

Uma cidade como Vila Franca de Xira, de tamanho médio (cerca de 20000 habitantes), que continua a ser um centro administrativo importante e um centro de atracção para as zonas vizinhas, requer a existência de órgãos de comunicação social, incluindo, claro, jornais. O encerramento do Vida Ribatejana é um golpe importante para a cidade e para a região. O processo de insolvência terminará provavelmente pela venda em hasta pública dos títulos possuídos pela CCS, o Vida Ribatejana e o Notícias de Alverca. A continuação pelo menos do primeiro é essencial.

 

Remato reproduzindo alguns dos títulos principais do último número, o 4612, de 29 de Setembro.

 

  • Lucros das empresas do concelho de Vila Franca caíram 60 milhões de euros em 2009.

 

  • Feira (de Outubro) arranca na sexta e vai renovar-se em 2011.Vila Franca investe 2 milhões no novo Pavilhão do Cevadeiro.

 

  • SAC (Serviço de Atendimento Complementar) da Póvoa de Santa Iria deve reabrir já em Outubro.

 

  • Imposto sobre imóveis para 2011. Câmara mantém taxas mas a CDU queria ligeira descida.

 

  • Alhandra – Água com muito sal inviabiliza captação junto às piscinas.

 

  • Salvador Marques (teatro centenário de Alhandra) com biblioteca e sala de teatro já tem programa funcional.

 

  • Câmara de Benavente protesta, Naer desmente aproximação de zonas habitadas. Temperatura elevadas e mudança das pistas do novo aeroporto “ameaçam” Santo Estêvão.

 

  • Plataforma logística inaugurada na quarta-feira. Fiege investe 11 milhões em Azambuja.

 

O Vida Ribatejana nº 4612 incluiu também um interessante artigo de opinião do economista Eugénio Rosa, ligado à CGTP, intitulado Preço de energia em Portugal é muito superior à média da União Europeia. E também continha um caderno de desporto, outro sobre a Feira de Outubro de 2010, e outro sobre touros. E ainda um roteiro sobre lazer e uma secção Olho Vivo, humorístico e de crítica. Era obviamente um jornal muito informativo.

 

Espero que recomece em breve.

 



publicado por João Machado às 15:00
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011
A Comunicação Social e a Democracia – II - Le Monde está à venda, por João Machado

 

 

 


 

 

No New York Times do dia 14 do corrente mês de Junho saiu uma notícia informando que Nicolas Sarkozy, Presidente da República Francesa, convocou para o Palácio do Eliseu Éric Fottorino, editor de Le Monde, para lhe exprimir a sua preocupação por um grupo de três personalidades próximas do Partido Socialista de França se proporem comprar o jornal. Noutra notícia, saída no Finantial Times de 11 de Junho, refere-se que Fottorino terá dito que Sarkozy ameaçou reter apoios estatais ao jornal se se consumasse aquela entrada no capital do jornal de três adversários políticos seus.

 

A precária situação financeira do prestigioso Le Monde obrigou os actuais  proprietários a procurar novos investidores, na medida em que já em Julho próximo terão dificuldade em fazer pagamentos. Para além do grupo das três personalidades de esquerda muito moderada (um apoiou a anterior candidata do partido Socialista às presidenciais Ségolène Royal, outro Dominique Strauss-Kahn, actual líder do FMI, e o terceiro navega nas mesmas águas), perfila-se a France Telecom em conjunto com o Nouvel Observateur como outro candidato. O grupo espanhol Prisa (que já detém acções de Le Monde) também parece ter manifestado interesse, assim como suíços e italianos. A intervenção de Sarkozy poderá ter tido um peso considerável na decisão final, que deverá estar pronta no próximo dia 28 de Junho.

 

Para Le Monde é hora de grande incerteza. Os seus mais de 200 jornalistas e a sociedade de leitores têm tido um grande peso na sua orientação e na defesa da sua independência editorial. Dominam parte significativa do capital e os jornalistas detêm poderes estatutários que lhes permitem influenciar a escolha das chefias. Obviamente que estes poderes vão estar em causa neste processo, apesar das promessas de várias quadrantes no sentido da manutenção da independência editorial, pedra angular do óptimo trabalho desenvolvido pelo jornal desde 1944, quando foi fundado por Hubert Beuve-Méry, a pedido do General De Gaulle.

 

Nicolas Sarkozy parece deter uma influência crescente na comunicação social francesa, contando com amigos seus à frente de vários jornais influentes, como o Figaro. O Finantial Times, na notícia acima citada, diz ter conseguido uma alteração legislativa que lhe permite nomear o director da televisão pública. A intervenção do poder na comunicação social em França não é propriamente um fenómeno novo, mas não será exagero interrogarmo-nos se, neste caso de Le Monde, não estaremos perante uma tentativa de aproveitar a sua precária situação financeira para domesticar um jornal incómodo, não só para Sarkozy, mas para os poderes em geral.

 

Não posso concluir sem fazer uma rápida conclusão com o caso TVI/PT em Portugal. É claro que é preciso desde logo fazer o reparo de que há uma grande diferença entre a qualidade jornalística de Le Monde e a da TVI. Contudo parece estabelecido que também neste caso ocorreu uma tentativa de calar uma voz contrária, apesar dos veementes desmentidos. Põe-se aqui uma grande questão: até quando os jornalistas e a comunicação social em geral conseguirão suportar estas investidas?  É um erro pensar que estas provêem apenas de alguns políticos mal formados ou pouco avisados. 

 

(Este texto já tinha saído no nosso blogue em Junho de 2010. Dado o assunto que aborda, VerbArte achou valer a pena publicá-lo novamente)



publicado por João Machado às 15:00
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Terça-feira, 14 de Junho de 2011
A Comunicação Social e a Democracia - por João Machado

 

 

 

 

 

 

 

É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

 

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.

 

A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

 

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

 

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.

 



publicado por Augusta Clara às 15:00
editado por João Machado às 17:10
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
O testamento de Maurice Allais, por Júlio Marques Mota

Sobranceiramente ignorado  pelos meios de comunicação social, sem dúvida por causa das suas teses contra a doutrina neoliberal dominante, Maurice Allais  tornava efectiva  a cortesia e recusava todas as entrevistas. E ainda vivo uma  só entrevista e um só texto foram publicados, respectivamente  em  Fakir e em Marianne2. Aqui a publicação do texto publicado por  Marianne 2.

 

Ah, o bonito baile dos hipócritas! Ignorado enquanto vivo por todos os jornalistas económicos sem excepção, boicotado pelas cadeias de televisão enquanto que actualmente é honrado por aqueles mesmos que negavam a sua existência e olhavam  para outro lado sempre que eles publicavam um texto. Porque, recordam  estes embalsamadores à Macintosh, é mesmo assim o nosso único prémio Nobel de economia… Um economista brilhante e livre, reconhece Os Ecos que muito pouco dele se   lembraram  nas suas suas colunas! O liberal e socialista, nota Le   Figaro  como para justificar que o diário conservador lhe  tenha suprimido a sua única tribuna nos anos 90. La Voix du Nord considera Maurice Allais   um pensamento único (sim,  mas era necessário acrescentar contra O pensamento único).

Ironia da história, a morte de Maurice Allais  coincide com um momento da história económica que valida mais do que nunca as suas previsões. A guerra das moedas mostra que das três grandes zonas da economia mundial (América, Ásia, Europa)  a Europa é a  única incapaz de utilizar o seu mercado para proteger a sua moeda. Os Estados Unidos acabam de adoptar um dispositivo proteccionista para forçar a China a cessar o seu dumping monetário. Quanto à China, sabe-se e desde há  muito tempo que a sua adesão à OMC não a impediu de pisar aos seus  pés todos os princípios do comércio livre. De imediato,  a ideia proteccionista começa, ainda que timidamente, a alargar  a sua área de influência. A última convenção internacional do PS é já disso testemunho. Eis-nos pois perante o  que teria feito sorrir Maurice Allais  que fulminava frequentemente o liberalismo ingénuo dos socialistas.

 

 

 



publicado por João Machado às 23:00
editado por Luis Moreira às 22:02
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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011
EXPRESSO & AVANTE! dois espelhos do mundo - César Príncipe

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

 

 

Lançamento do livro de César Príncipe

 

 

 

EXPRESSO & AVANTE!

dois espelhos do mundo

 

 

 

Do prefácio: “… o autor traça linhas de comparação/colisão de Jornalismo de Sistema e de Contra-Sistema. Os textos em que se busca a prova de vida desta tese incidem sobre exemplares do Expresso e do Avante!. Os números de observatório poderiam ser outros, já que todos transportam o código originário, o selo de compromisso. Os conteúdos são hierarquizados segundo uma Agenda de Interesses. Os balizamentos doutrinários ressaltam, por mais que se encene isenção. A declaração de imparcialidade é um truque estilístico do persuasor para vender o seu produto, para nos capturar nas redes ou circularidades sistémicas/anti-sistémicas. As compulsações conduziram-nos, página a página, imagem a imagem, a um discurso organizado para nos atrair/alistar

 

 

O Expresso e o Avante! cumprem os seus papéis de reguladores do Espaço Público, com os meios que lhes foi possível ou permitido mobilizar nos campos de influência, no raio económico-social de cobertura. As vantagens sistémicas pendem para o Expresso: capacidade instalada, virtuosismo gráfico, cabaz de suplementos, publicidade selectiva, fontes do poder, audiência alargada. O Avante! é folheado em bastiões ideológicos e frentes de protesto. Exprime um idioma contracorrente na Babélia Mediática. No trânsito histórico, Expresso e Avante! têm protagonizado um conceito-paradigma de comunicação social, antes e depois do 25 de Abril, com a respectiva carteira de intenções e o correspondente contrato social: o Expresso (1973), na perspectiva de uma República da Iniciativa Privada; o Avante! (1931), na perspectiva de uma República da Iniciativa Pública. Daí que, no “antigo regime”, o Expresso, embora sujeito a Exame Prévio, fosse tolerado: representava uma diferença evolutiva da situação, enquanto o Avante! teve de ser produzido e distribuído na clandestinidade.

 

 

A História prossegue. O Expresso e o Avante! persistem, no séc. XXI, a doutrinação.  O Expresso, como produto convicto de mercado, busca a sustentabilidade na componente comercial. O Avante!, como oferta de ruptura, não aceita condicionamentos publicitários. Merecem, cada um na sua margem, que nos debrucemos sobre as suas orientações e práticas. São dois intérpretes com plena noção dos seus papéis instru(mentais). São duas fábricas de leitores e de eleitores. De “leitura obrigatória” para não perdermos o pé nas encruzilhadas do mundo. São dois grandes e irreconciliáveis portugueses. O Expresso assinala 38 anos, o Avante! celebra 80. A melhor prenda de aniversário, numa Sociedade do Conhecimento sem tabus, seria que ninguém lesse o Expresso sem ler o Avante! e ninguém lesse o Avante! sem ler o Expresso. A literacia mediática alcançaria uma “coroa de glória” ou uma síntese democrática. Movidos por um espírito de Cidadania da Informação - convidamos os “prezados leitores” para um verdadeiro “Prós e Contras”. Martela o “marketing” que “ler jornais é saber mais”. Saber escrever também não seria dom menor. Saber ler também não seria má ideia.

 

 

Carecemos de um Plano Nacional de Leitura dos Média.”



publicado por Augusta Clara às 14:00
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Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011
Comunicação social e democracia – VI - a separação de poderes, base essencial da democracia e do progresso, está a ser posta em causa.

 

João Machado

 

 

 

Há alguns anos atrás, em Inglaterra, um repórter do News of the World foi condenado a uma pena de prisão por, de modo ilegal, ter conseguido aceder a mensagens guardadas no voicemail de um telemóvel. Também foi condenado o detective privado contratado para a execução desta tarefa suja. O Observer do domingo passado, dia 9 de Janeiro, recorda estes factos, mas informa que parece que não se tratou de um caso isolado, ao contrário do que se procurou fazer crer na altura. Existem outras queixas sobre violação de privacidade, eventualmente cometidas por parte do News of the World. Mais: terão ocorrido pressões e mesmos subornos no sentido de as autoridades policiais travarem as investigações relativas a estas queixas, de modo a que não chegassem a tribunal. Outro editor do jornal terá sido suspenso após alegações de cumplicidade em acções de espionagem telefónica, que inclusive terão atingido a família real.

 

Andy Coulson, que na altura em que ocorreu o caso acima referido era editor do News of the World, foi entretanto demitido alegadamente por razões puramente contabilísticas. Actualmente é director de comunicação em Downing Street, depois de ter trabalhado na campanha eleitoral de David Cameron, primeiro-ministro britânico. Este defende energicamente o seu colaborador. Sem dúvida que há que não cair em paranóias persecutórias (uma leitura atenta do Observer deixa claro que a sua posição é de que devem ser evitadas, veja-se o que escreve Henry Porter), mas a cautela requer também que se separem claramente as águas. Nomeadamente quanto à questão do alargamento do império de comunicação social de Rupert Murdoch, proprietário do News of  the World (através da News International e da News Corp), que agora se prepara para adquirir a totalidade do capital da BSkyB, de transmissão por satélite (já detém 39 %). O Observer faz notar que os procedimentos necessários para travar as investigações relativas às queixas contra o jornal só foram possíveis com o envolvimento da poderosa organização que o controla a um nível superior, e requer que  este assunto seja esclarecido antes de ser permitida a tomada da BSkyB pelo império Murdoch. E refere também que o assunto tem de ser levado à Comissão da Competitividade.

 

Recorde-se a este respeito o que se passa noutras paragens: a situação que hoje em dia se vive em Itália resulta em grande parte da promiscuidade existente entre a comunicação social e o poder político. Recorde-se também o que ainda recentemente se passou com Le Monde, com as pressões feitas ao mais alto nível para influenciar a escolha dos novos accionistas. E que métodos ainda mais primitivos estão a ser usados noutros lados. O nosso amigo Júlio Marques Mota publicou no nosso blogue, no passado dia 8 de Janeiro, um post sobre a perigosa situação que se vive na Hungria, onde estão a ser impostas graves restrições à comunicação social, para a impedir de transmitir notícias consideradas hostis pelas forças políticas agora no poder. Entre nós são vários os casos em que se fala de pressões do poder político, e não só, sobre os jornais, rádio e televisão. A propósito do chamado caso Wikileaks, especula-se sobre as penalidades que vão ser infligidas aos mentores da divulgação de documentos, a maioria (para não dizer a totalidade) dos quais devia ter sido divulgada logo na altura em que foram produzidos. Não se ouvem referências a represálias, nem mesmo a simples censuras, aos responsáveis pelos abusos trazidos ao conhecimento do público.

 

Creio não ser exagerado dizer que temo estarmos perante um perigoso retrocesso neste capítulo. É verdade que a análise que o Observer nos apresenta sobre esta situação faz-nos concluir que na Grã-Bretanha ainda se conseguem debater certos assuntos. Simplesmente, há que perguntar: até quando? Será que a maioria das pessoas se apercebem da gravidade desta situação? Ou só uma minoria sente que se está perante uma maneira mais sofisticada de se obter aquilo que antes se impunha através da censura e de um controle feroz?

 

Há que fazer notar que a análise crítica do Observer se estende a todos os participantes nos factos narrados, não poupando colegas de profissão, sem entraves motivados por problemas corporativos. Não creio que, por detrás dessa análise, haja qualquer ideia de prejudicar um competidor, na medida em que se tratam de universos muito diferentes. De qualquer modo, nunca é demais relembrar a necessidade de separar a comunicação social dos estados totalitários, dos grandes grupos económicos que sobrepõem a tudo, incluindo o poder político, das igrejas que desconhecem a separação entre o temporal e o espiritual, etc.. A comunicação social é um poder que tem de servir a todos, e não a interesses particulares.



publicado por João Machado às 16:00
editado por Luis Moreira às 18:04
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Domingo, 12 de Dezembro de 2010
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Pensamento único: a ameaça do novo dogmatismo


Ignácio Ramonet

Aprisionados. Nas democracias actuais, cada vez mais cidadãos livres se sentem aprisionados, presos por um tipo de doutrina envolvente que, insensivelmente paralisa todos os espíritos rebeldes, inibindo-os, perturbando-os, paralisando-os e acabando por suprimi-los.

Depois da queda do muro de Berlim, a derrocada dos regimes comunistas e a desmoralização do socialismo, a arrogância, a soberba e a insolência deste novo Evangelho atingiu um tal nível que pode-se, sem exagero, qualificar este furor ideológico de moderno dogmatismo.

O que é o pensamento único? Tradução em termos ideológicos com pretensão universal das vantagens de um conjunto de forças económicas, estas, em particular, do capital internacional. Ela foi formulada e definida desde 1944, por ocasião dos acordos de Bretton-Woods. Os seus arautos principais são as grandes instituições económicas e monetárias - Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização de Cooperação do Desenvolvimento Económico, Acordo Geral sobre Tarifas Alfandegárias e Comércio, Comissão Europeia, Banco da França, etc. - que, através dos seus financiamentos, recrutam ao serviço das suas ideias, através de todo o mundo, inúmeros centros de pesquisas, universidades, fundações que, por sua vez, elaboram e divulgam os ensinamentos.

Este discurso anónimo é retomado e reproduzido pelos principais órgãos de informação económica, e nomeadamente pelas "bíblias" dos investidores e dos representantes das bolsas de valores - The Wall Street Journal, Financial Times, The Economist, Far Eastern Economic Review, os Echos, Agência Reuter, etc. -, pertencentes, quase sempre, aos grandes grupos industriais e financeiros. Em todos os lugares, faculdades de ciências económicas, jornalistas, ensaístas, homens políticos, e outros, retomam os novos ensinamentos destas novas tábuas da lei e, por intermédio dos veículos de comunicação de massa, os repetem até a náusea. Sabendo de forma pertinente que, nas nossas sociedades de mídia, a repetição vale pela demonstração.

O primeiro princípio do pensamento único é tão forte que um marxista distraído não o recusaria: o económico prevalece sobre o político. Fundando-se em tal princípio, por exemplo, um instrumento tão importante quanto o Banco da França tornou-se, sem oposição, independente em 1994 e, de alguma maneira, "colocado ao abrigo dos credos políticos". "O Banco da França é independente, apolítico e imparcial" afirma o seu expoente máximo, M. Jean-Claude Trichet, que entretanto acrescenta: "nós pregamos a redução dos déficits públicos" e "nós perseguimos uma estratégia de moeda estável". Como se estes dois objectivos não fossem essencialmente políticos! É em nome do "realismo" e do "pragmatismo" - que M. Alain Minc se expressa da maneira seguinte: "O capitalismo não pode afundar, pois ele é o estado natural da sociedade. A democracia não é o estado natural da sociedade. O mercado sim". A economia é alçada à posição de comando. Uma economia desligada dos obstáculos do social, cujo peso por decorrência seria a causa da recessão e da crise.

Os outros conceitos-chaves do pensamento único são conhecidos: o mercado, ídolo onde "a mão invisível corrige as asperezas e as deseconomias do capitalismo" e particularmente os mercados financeiros, onde "os sinais orientam e determinam, o movimento geral da economia"; a concorrência e a competitividade, que "estimulam e dinamizam as empresas levando-as a uma permanente e benéfica modernização"; o livre-comércio sem barreiras, "factor de desenvolvimento ininterrupto do comércio e das sociedades", também a mundialização da produção manufactureira e os fluxos financeiros; a divisão internacional do trabalho que "modera as reivindicações sindicais e baixam os custos salariais"; a moeda forte, "factor de estabilidade"; a desregulamentação; a privatização; a liberalização, etc. Sempre "menos Estado", uma arbitragem constante a favor dos lucros do capital em detrimento dos custos do trabalho. E uma indiferença no tocante ao custo ecológico.

A repetição constante, em todas as mídias, deste catecismo por quase todos os homens políticos, tanto de direita quanto de esquerda, confere-lhe uma tal força de intimidação que abafa qualquer tentativa de reflexão livre, e dificulta a resistência contra esse novo obscurantismo.

Poder-se-ia quase considerar que os 17,4 milhões de desempregados europeus, o desastre urbano, a precarização geral, a corrupção, as periferias violentas, o desastre ecológico, o retorno dos racismos, os integralismos e os extremismos religiosos, a massa de excluídos são apenas miragens, resultado de delírios, fortemente discordantes do melhor dos mundos que se edifica para nossas consciências anestesiadas, o pensamento único.

(Traduzido por Jaerson Lucas Bezerra - Publicado no original em francês no Le Monde Diplomatique, Janeiro de 1995)



publicado por Carlos Loures às 16:00
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010
VerbArte - A Comunicação Social e a Democracia



Jean Jaurès (1859-1914), líder socialista francês.


João Machado


Escrevi este post no início do Estrolábio. Embora tenham decorrido apenas pouco mais de seis meses, o problema da liberdade de expressão está desde então ainda mais agravado. Veja-se o que se está a passar com o Wikileaks. Não conheço os mentores desse projecto, não sei quem são. Mas sei que o que têm feito é da maior importância para a liberdade e a democracia. Ajudará com certeza a compreender e a interpretar muitos dos acontecimentos recentes, que tanto nos têm afectado. E porá à vista de todas algumas das mãos invisíveis que estiveram por detrás desses acontecimentos. Acima acrescentamos um fotografia de Jean Jaurès, líder socialista, defensor de Dreyfus e pacifista, que foi assassinado por um nacionalista fanático.

É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.

A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.


publicado por Carlos Loures às 16:00
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Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010
Notas soltas - por Carlos Godinho
Somos pequenos


Um jornal desportivo de ontem, iniciou a sua crónica sobre o Torneio de Apuramento para o Campeonato da Europa Sub/17, para o qual Portugal se qualificou, com o seguinte título: "Nada escapa ao Manchester...", e no sub-título: "Portugal apurou-se para a ronda de elite sob olhar atento de um dos maiores clubes da Europa". Num texto de mais de mil caracteres talvez cerca de 20% sejam referentes ao jogo propriamente dito, o resto são palavras sobre as qualidades e o trabalho de "scouting" do clube inglês. Até o destaque a Gonçalo Paciência, mais pela presença na bancada, do seu pai e de Vitor Baía, do que pelos seus atributos, parece deslocado, e nem uma palavra surge de realce para o trabalho colectivo da equipa. Aliás, veja-se como termina a crónica: "Atenção, pois, ao Manchester nada escapa. Nem mesmo o apuramento de Portugal para a ronda de elite". Espero ansiosamente pelo desenvolvimento do trabalho da Selecção Nacional "Sub/17" nestes meses que medeiam até ao Torneio de Elite, sobretudo para ir tomando nota das observações do Manchester, não vá o clube inglês ir falhando algo. Convém sempre estar atento para eventualmente se comunicar a Sir Alex qualquer deslize dos seus representantes...


Desporto é sempre onde e quando o quisermos




Onde, quando e sempre que o quisermos. Nem é preciso muito, uma tabela, ou uma baliza, quase sempre uma bola, alguns amigos, e já está. É este o caso junto ao mosteiro de Qinghai, na China, onde alguns religiosos de divertem com um improvisado jogo de basquetebol. E segundo consta Deus não protestou pelo interregno nas orações em favor da prática desportiva saudável e pura.


Língua de Camões


O Dínamo de Zabreg obrigou os seus profissionais a estudarem o croata. Em qualquer dos países para os quais os nossos profissionais se transferem acontece o mesmo. Nunca vi nenhum português a falar a sua língua, por exemplo, na Liga Inglesa. Ronaldo faz um esforço para falar em castelhano, o que está correcto. Ainda há bem pouco tempo vi Paulo Machado a pronunciar-se, no site do seu clube, num francês fluente, demonstrando assim respeito pelo país que o recebe. Em Portugal o que vemos? Semana após semana, na televisão e na rádio ouvimos os profissionais estrangeiros a trabalharem em Portugal, alguns com uns anos de presença entre nós, a falarem nas suas próprias línguas. Não deveria também de haver algum esforço no sentido de os obrigar a falar português? Eu acho que sim. Ou então, em alternativa, não os entrevistar até que dominassem a nossa língua, ou pelo menos que demonstrassem fazer um esforço nesse sentido. Não há muito tempo, na rádio, ouvi Valdemar Duarte a protestar, com razão, pelo facto do ex-treinador da Naval falar em francês, a sua língua, e o repórter a fazer um esforço para o compreender e traduzir. Imagine-se a situação, ao contrário, em França. Deixavam-no a falar sozinho.

(in Todos Somos Portugal)



publicado por Carlos Loures às 11:00
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Sábado, 4 de Setembro de 2010
A comunicação social e a democracia
João Machado


É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.



A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.
_______________________

Ouçam e vejam, de novo, esta troca de insultos, em directo, na TVI:
O bastonário da ordem dos advogados Marinho Pinto acusa Manuela Moura Guedes de ser uma péssima jornalista.




publicado por Carlos Loures às 03:00
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Domingo, 11 de Julho de 2010
Apresentando Marcos Cruz
Temos o prazer de vos vir apresentar um novo colaborador – Marcos Cruz. Com ele, somos agora 24, ou seja o Estrolabio, enquanto não entrar mais ninguém, passa a ser a “Casa dos Vinte e Quatro”. Vamos lá apresentar este nosso amigo:


Marcos Gomes Coelho Pinho da Cruz, nasceu em 7 de Outubro de 1972, no Porto. Licenciado em Comunicação Social pela Escola Superior de Jornalismo da Universidade do Porto. O seu trabalho final versou sobre o tema“A secção de Cultura na perspectiva dos editores – Jornais portugueses de informação geral”, aprovada com 15 valores É jornalista profissional. Até Abril de 2009, exerceu funções de crítico de Música e Cinema na redacção do Porto do Diário de Notícias, colaborando também no suplemento DN Gente. Os seus serviços foram dispensados, num processo de despedimento colectivo que envolveu mais de 120 profissionais,

Participou em júris de festivais de cinema (Fantasporto, Cinanima, Curtas Vila do Conde, Luso-Brasileiro da Feira e Ovar Vídeo) e em júris de selecção de projectos musicais (Serralves em Festa), de argumentos para filme (Novos Talentos FNAC).

Fundador e colaborador de diversas revistas culturais - Op, Camaleão, Hei, Plastic. Tem participado em debates, conferências e outros eventos de natureza cultural e artística.


publicado por Carlos Loures às 13:30
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Domingo, 9 de Maio de 2010
Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República – 1
Carlos Leça da Veiga


O que leio e ouço na comunicação social; a censura só mudou de traje!

Na realidade, no viver cultural, social e político português, são de sobra os escritos estritamente políticos vindos à luz do dia que, quase sem excepção, não passam de meras caixas de ressonância dos vários directórios partidários ou, pressente-se, têm o visto favorável dos grupos económicos decisores.

As suas essência, mira e alcance – permito-mo dizê-lo – nada têm de feliz, bom grado terem a chancela de políticos ditos de nomeada ou, também, a de comentadores considerados de vulto, uns e outros, conhecidos como profissionais do ofício político com emprego destacado tanto no sector institucional público, nele incluso o partidário, como, também, no empresarial privado sem que neste deva esquecer-se e destacar-se, por entre tantos escribas em actividade, aquele grupo imensamente prolifero, o jornalístico, que – salvam-se as excepções honrosas – não prima por impor a sua necessária autonomia e, como assim, dada a sua responsabilidade pública, não é exemplo duma boa cidadania.

Uns e outros, tantos e todos com estatuto de notabilidade mas, salta à vista, com a necessária e manifesta subserviência ideológica, têm de viver – raríssimos não o farão – no resguardo duma mesma sombra de protecção, sombra que, a qualquer instante, poderá faltar-lhes caso as baias impostas por esse poder, o «poder invisível» apontado por Norberto Bobbio, reajam com desagrado bastante – um desagrado temível e terrível – a qualquer temática menos conforme as intenções fundamentais do «Grande Irmão». Quem quer que seja, dentre quantas figuras a comunicação social tenha promovido à categoria de notável, “muito democraticamente” será levada a sair de cena caso possa atribuir-se-lhe o azar dum qualquer deslize doutrinário, a infelicidade duma falha reverencial, o menosprezo por alguma figura cimeira, um panegírico menos encomiástico, uma explicação politica menos conseguida, uma qualquer pouco convincente, seja o que for, porém, quanto baste para, num mínimo, mesmo sem acinte, poder ofuscar, prejudicar ou obstar à manobra do sistema económico-politico reinante.

Acima de tudo exige-se aos fabricantes da opinião pública que nunca deixem de glorificar as virtudes do mercado, do seu fundamento neoliberal e dos seus valores sacrossantos.

A doutrina em curso – oficiosa como terá de ser – manda que todo o procedimento político, nele subentendido qualquer comentário ou opinião, para poder ser rotulado como responsável, credível e recomendável tem de ser realizado conforme os ditames pressupostos pelo tal poder invisível (mas que, como muitos o sabem, não custa a apontar-se) e deverá pautar-se, com obediência plena e com rigor muito cuidadoso, por coisas mínimas como sejam as de estar-se atento aos pressupostos mais recomendados para, de facto, sine qua non, conseguir subir-se na vida.

Entre esses pressuposto, há exemplos a não esquecer, seja na escrita, seja no discorrer e, como assim, torna-se fundamental a inclusão de algumas passagens que são chave decisiva para as bênçãos da situação política em curso. Assim, dentro esses exemplos, para além dum acendrado e bem demonstrado compromisso com discurso ianque do anti terrorismo – recorde-se o “acendrado patriotismo” tão citado nos tempos salazaristas – há outras certas frases absolutamente necessárias, dum escrúpulo respeitoso e que poderão ser, «na União Europeia tem de ser deste modo», «Bruxelas decide e bem», «conforme a civilização ocidental», «de acordo com a democracia representativa» «a administração norte-americana salvaguarda», «firmeza e prioridade no combate antiterrorista», «as virtudes excelsas do mercado», «o alcance histórico do tratado de Lisboa», «os grandes valores da democracia», «nada melhor que a flexisegurança», «bem vindo o tratado constitucional europeu», «a retoma económica não terá grande demora», «a crise económica em Portugal é um reflexo da internacional» e, amiúde, nunca esquecer de referir «os direitos humanos», em particular na sua mais recente interpretação ianque, Guantanamo inclusive.

Como convêm, como muito convêm, para conseguir revelar ter-se um situacionismo indefectível – sejam quais forem os seus próceres – nunca deixar de inquirir-se, sobre quem quer que seja, «se é dos nossos» ou elucidar «que é dos nossos», todo e qualquer que dê nas vistas para, se o não for, de imediato, passarem a encomendar-se e a ouvirem-se os desagrados indispensáveis. Com efeito, disso não deverá haver dúvidas e, também, não parece nada exagerado, é ter de reconhecer-se que, entre nós, nos tempos que correm, todo o poder está nas mãos da hipocrisia, uma coisa malsã alimentada às mãos cheias por obra dos maiorais da alienação política partidocrática, da subserviência aos ditames do exterior e da aculturação alienígena do que, no seu conjunto, são intermediários destacados!


publicado por Carlos Loures às 21:43
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