Domingo, 19 de Junho de 2011
Sobre a China, sobre o estatuto do trabalho na Economia Global Fábricas "de suor e de sangue"

enviado por Julio Marques Mota

 

 

Sobre a China, sobre o estatuto do trabalho na Economia Global

Fábricas "de suor e de sangue"

Perguntámos porque é que a cidade, uma vez que ela mina as suas próprias regras, ainda se preocupa em aprovar regulamentos, como o pacote de benefícios para os trabalhadores com mais de dez anos. A resposta foi de que é mais uma forma que as autoridades têm para enganar a classe trabalhadora. Governo e patrões "usam as mesmas calças", como diz o ditado chinês, mas eles fingem agir separadamente. Os dirigentes da cidade também podem ter sido pressionados por funcionários nacionais, o All-China Federation of Trade Unions (ACFTU), ou mesmo pelas ONGs que cada vez mais monitorizam e protestam contra as condições abusivas nas fábricas. Mas com cerca de 90 por cento das empresas a serem de propriedade estrangeira e de investimento estrangeiro, um elemento-chave na manutenção do crescimento económico anual para cima de 10 por cento, as autoridades locais estão sob grande pressão para se manter quer o fluxo de dinheiro novo quer a satisfação dos seus proprietários. Como resultado, os regulamentos são comummente ignorados ao nível local. É por estas razões que a Foxconn, e as empresas similares, são conhecidas como empresas xuehan ou de "suor e sangue", o equivalente a "sweatshops".

 

Ainda assim, é considerado um dos melhores lugares para trabalhar, exigindo-se aí o nível de ensino médio, juntamente com boa saúde e com boa vista, um pouco de inglês, e algum curso técnico. Na empresa de produtos electrónicos ainda mais high-tech, a Huawei Technologies, os empregados são obrigados a ter um diploma universitário. Mas também as condições abusivas são comuns. Xu Mingda, professor de economia na Shenzhen Assotiation of Social Sciences, refere-se à "cultura do colchão", em que cada recém-chegado recebe um colchão, que é colocado sob um estrado. Os empregados podem dormir nele durante o tempo livre do almoço ou sempre que trabalhem até tarde e não podem ou não querem voltar para casa" (Inglês People's Daily Online, 5 de Julho de 2006). Apenas um mês antes de termos visitado a área, Hu Xinyu, um engenheiro de software, um atleta de vinte e cinco anos de idade, que tinha trabalhado na Huawei durante um ano, morreu de exaustão. A imprensa próxima do governo deu a conhecer o caso e "todos" falaram sobre o assunto na internet, trocando o seu conhecimento de experiências semelhantes e debatendo se o número excessivo de horas que ele trabalhou terá sido por culpa do empregado ou por culpa da empresa, e se tais práticas serão necessárias ao rápido crescimento das empresas chinesas. Outros casos semelhantes, entretanto, vão acontecendo e passam praticamente despercebidos. Esse fenómeno, conhecido como guolaosi, está a tornar-se generalizado e afecta intelectuais, profissionais e gestores, bem como os trabalhadores fabris (http://iso.china-labour.org.hk/, 17 de Agosto de 2006; Inglês People's Daily Online, 5 de Julho de 2006).

 

Mas as condições nessas enormes fábricas de produtos electrónicos estão longe de ser o pior na área de Shenzhen. No sector ocidental da cidade, onde a produção de roupas, brinquedos e bens de consumo similares é aí dominante, a situação é pior, geralmente, devido em parte à maior proporção de mulheres que aí trabalham. Em empresas de electrónica, os números são muito próximos e os trabalhadores podem até ser maioritariamente do sexo masculino. Nas fábricas de vestuário e nas fábricas de brinquedos, pelo contrário, muitas empresas especificam, em anúncios de oferta de emprego, que apenas querem mulheres trabalhadoras, pois consideram que estas têm uma "destreza" superior. Existem situações de sete mulheres para um homem. Vindas em grande parte de vilarejos isolados, onde a dominação dos homens é total, as jovens rurais são consideradas mais flexíveis e menos conscientes dos seus direitos do que os homens. Uma vez contratadas, estão sujeitas a uma extrema exploração, sob a forma de horas excessivas de trabalho, de trabalho duro e de fracas condições de vida, incluindo o assédio sexual, e até mesmo sujeitas a uma disciplina ainda mais rigorosa do que a da Foxconn e de fábricas semelhantes.

 

Fora das grandes empresas multinacionais, as condições podem ser menos restritivas, mas essa "liberdade relativa" existe frequentemente à custa de horas extraordinárias, salários mais baixos e menos segurança. Num conjunto de fábricas perto do nosso hotel, estão mais de vinte empresas, grandes e pequenas, a maioria de propriedade de investidores do continente, rodeadas de uma zona relvada — um refúgio de um verde agradável face à secura da área circundante. Em contraste com a Foxconn — onde um guarda veio cá fora da porta para nos avisar, com um ar bem ameaçador, para não tirarmos fotografias —, aqui conseguimos andar e falar livremente com os empregados.

 

Trabalhadores de uma loja de impressão que descansavam na relva antes do turno da noite disseram-nos que têm as mesmas horas diárias que os trabalhadores da Foxconn. Dois jovens da província de Hainan contaram-nos que trabalham desde as 9 da manhã até às 8 horas da noite, com uma pausa de uma hora para a refeição, deixando-os com fome e cansados. Um outro disse que trabalhava das oito horas ao meio-dia e, depois de uma hora para almoço, da uma às cinco, mas depois de um outro intervalo para o jantar, fazia horas extraordinárias das seis até às nove — um dia de trabalho de treze horas. Mas o que mais distingue estas fábricas menores é a falta de dias de folga. Apesar de se supor que nas fábricas não se trabalha mais de vinte e cinco dias por mês, os trabalhadores eram muitas vezes obrigados a trabalhar cerca de trinta ou trinta e um dias em cada mês. Alguns tinham trabalhado trezentas horas no mês anterior, algumas fizeram setenta horas por semana, em dias consecutivos.

 

Esses trabalhadores vivem num dormitório dentro do complexo fabril, doze pessoas para um quarto. Não podem cozinhar, pois a empresa fornece refeições de cafetaria. Os trabalhadores pagam vinte a trinta yuan por mês pelo aluguer e diferentes valores pela alimentação. Num quarto dormitório que visitámos, havia "apenas" sete trabalhadores, com beliches e um espaço mínimo para os seus haveres pessoais. Geralmente trabalham oito horas por dia — os únicos trabalhadores que nós conhecemos que não têm a rotina de tempo a mais em horas extraordinárias, mas ganham apenas 800 yuan (100 dólares) por mês, 20 por cento menos do que na Foxconn.

 

No entanto, esses trabalhadores são uns "sortudos". Três homens muito jovens da província de Hainan tinham estado na área fabril durante dois meses e não foram capazes de encontrar trabalho. A busca desesperada por emprego pode muitas vezes levar à aceitar empregos com salários e com condições de vida que mal podem, sequer, ser consideradas de sobrevivência. Algumas fábricas pagam tão pouco como 580 yuan (70 dólares) por mês e deduzem 200 yuan para a alimentação e para a habitação, deixando 380 yuan (45 dólares) líquidos, muitíssimo pouco para viver. Duas vezes ouvimos: "talvez os salários tão baixos sejam OK para as mulheres, porque elas não têm que comer tanto, mas os homens precisam de mais alimentos, de cigarros e de ir à cidade para beber cerveja". Os empregadores jogam muito bem com estas atitudes enraizadas.

Para além das portas da fábrica

 



publicado por Luis Moreira às 20:30
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Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
II PARTE . A Cidade da Juventude: Shenzhen, China Robert Weil

Sobre a China, sobre o estatuto do trabalho na Economia Global


II PARTE . A Cidade da Juventude: Shenzhen, China
Robert Weil

Desde os tempos antigos que as pessoas têm sonhado com uma Cidade da Juventude, onde a população nunca envelhece e onde qualquer forasteiro que vá morar para lá permanece eternamente jovem. Provavelmente, não têm em mente "a eterna juventude" de hoje, de Shenzhen, na China.

 

Situada precisamente na fronteira de Hong Kong, esta cidade "do instante" tem crescido durante mais de vinte e cinco anos passando de uma pequena vila de pescadores a uma região metropolitana onde vivem aproximadamente dez milhões de pessoas. Sendo a primeira Zona Económica Especial de China, era um modelo para as "reformas de mercado" capitalista e a "abertura ao mundo", que se iniciou no final de 1970 por Deng Xiaoping. Um dos seus aspectos mais marcantes é a baixa média de idade dos seus residentes, que andou durante anos à volta dos vinte e sete anos. Isto está em claro contraste com a China como um todo, onde a população está a envelhecer rapidamente.

 

Enquanto cerca de 95 por cento das pessoas que vivem em Shenzhen vieram de outras partes do país, a sua juventude não resulta do nascimento de novas gerações no seio dos seus moradores. Pelo contrário, ela reflecte a pouca idade da maioria dos que vêm para a cidade — muitos deles ainda no início da sua adolescência — e a rápida rotação dos que trabalham nas suas indústrias. Em 2005, apenas 1,65 milhão de todos aqueles que viviam na cidade tinham hukou, o direito de residência permanente ou de longo prazo, enquanto mais de 4,32 milhões de migrantes viviam nesta cidade há mais de um ano e mais de 4 milhões viviam aí à menos de um ano (Shenzhen Daily, 27 de Maio 2007, http://www.china.org.cn/english).

 

Muitos dos operários trabalham apenas alguns anos nas fábricas, principalmente nas que produzem basicamente para a exportação, depois passam a ser considerados "velhos", ou rapidamente queimados, estragados, pelas condições duras de trabalho em que laboram. Alguns deles procuram depois emprego noutras cidades ou mesmo voltam para as suas casas, para as suas aldeias. Muitos saem antes de atingirem trinta e poucos anos e muito poucos permanecem nas fábricas até à meia-idade.

 

A grande maioria desses jovens migrantes é proveniente das zonas do interior rural pobre. Para alguns, é uma questão de encontrar as luzes brilhantes e atraentes da cidade depois da vida difícil e do isolamento das zonas rurais. Mas a migração também reflecte a transformação da agricultura em si. Jovens trabalhadores dizem que um novo nível de mecanização — máquinas agrícolas para produções de pequena escala, a difusão e a dispersão na utilização dos pesticidas e dos adubos assim como as máquinas de processamento — tornam o trabalho diário nos campos muito mais fácil, agora. Estes avanços tecnológicos têm aumentado a produtividade e reduzido a necessidade de mão-de-obra. Desde que a China aderiu à Organização Mundial do Comércio, em 2004, a concorrência dos produtos alimentares importados — a produção de soja na China, por exemplo, está a descer — também levou a geração mais jovem para fora das explorações agrícolas.

Extremos do trabalho e capital

Uma curta visita à cidade no Verão de 2006 mostrou a prevalência de trabalhadores muito jovens assim como a profundidade da sua exploração por parte dos grandes e pequenos empregadores, originários da China continental, Hong Kong, Taiwan, e das empresas ou proprietários estrangeiros. Introdução de dois de nós nas suas duras condições de trabalho e de vida aconteceu de modo muito rápido, depois de um passeio a pé por perto de uma fábrica de um dos principais distritos industriais periféricos, fábrica um pouco afastada, cerca de uma hora a pé a partir do centro da cidade.

 

Tomámos um autocarro de volta ao nosso hotel, às onze horas da nossa primeira noite, e entre um punhado de outros passageiros, estavam três homens muito jovens, que tinham acabado de completar o seu dia, desde as 7 da manhã até às 10 da noite, numa das fábricas da maior empresa da área. Apesar de quinze horas no trabalho, disseram que só seriam pagos por dez horas, incluindo nelas duas horas extraordinárias. Com uma hora de trabalho subtraída para pagar as refeições, estavam, de facto, a dar quatro "horas livres" de trabalho à empresa. Confessaram que estavam totalmente esgotados, mas foram obrigados a permanecer na unidade para concluir um "trabalho de urgência". Jovens como eram não se destacavam entre os demais. Havia outras três pessoas que esperavam na paragem do autocarro depois do seu turno e que pareciam ter apenas quinze a dezasseis anos de idade.

 

Encontramos muitos destes trabalhadores e ouvimos muitas histórias semelhantes sobre as condições abusivas, como as das raparigas na mesa ao lado num restaurante, que tinham começado às 7 h e 30 min da amanhã e acabado às 8 h naquela noite. Disseram-nos que o seu turno deveria ter terminado às 15 h e 30 min, mas como o próximo turno não começava antes das 19 h e 30 min, acabaram por fazer bem mais de oito horas, como é comum. Algo próximo a doze horas é o tempo de trabalho normal para estas jovens mulheres. Da mesma forma, uma outra jovem de dezassete anos de idade, vinda da província de Hunan, que nós encontrámos numa pista de patinagem, já tarde, na noite, disse-nos que tinha acabado de trabalhar durante onze horas. A mesma história foi repetida, apenas com ligeiras variações, por praticamente todos os trabalhadores mais jovens que encontrámos nas nossas caminhadas pela zona fabril. Muitos dos jovens queixaram-se do ruído das campainhas e das máquinas que permanecia ainda nas suas cabeças e nos seus corpos.

 

A exploração brutal destes jovens trabalhadores é a base da riqueza crescente de Shenzhen. Mesmo num país que em apenas três décadas passou de um dos países mais igualitários do mundo para um dos países onde se tem uma das mais elevadas e rápidas taxas de crescimento da polarização económica, de desigualdade de rendimentos, os extremos encontrados na cidade são especialmente dramáticos. No seu produto interno bruto, o rendimento das empresas representa mais de 50 por cento, o rendimento dos trabalhadores apenas 30 por cento e a fatia destinada ao Estado é de 15 por cento — uma diferença entre os rendimentos do trabalho e os do capital maior do que em qualquer outra área urbana na China (http://www. tdctrade.com; Human Resources, n.º 7 [1 de Julho de 2006]).                                                                                                                    

 

Com os seus inúmeros arranha-céus e a Shenzhen Stock Exchange Tower de vidro verde e brilhante, Shenzhen é hoje a cidade mais rica da China. Um relatório de 2004 mostra que o rendimento médio atingia 23 544 yuan (2 843 dólares), quase o dobro de todas as outras cidades que atingiam um valor de 12 216 yuan (1 475 dólares) (Victorinox Hong Kong Lmt.). A comparação mais relevante pode, no entanto, ser feita com o baixo rendimento médio rural, que em 2005 foi de cerca de 2 500 yuan (300 dólares) por ano (Associated Press, 21 de Setembro de 2005). É este fosso cada vez maior, juntamente com as duras condições de vida nos campos, que atrai milhões de jovens migrantes para as fábricas de Shenzhen e para outros centros urbanos, concentrados nas regiões sul e na costa leste e que produzem o imenso fluxo de exportações chinesas.

 

A rápida expansão da riqueza dessas cidades permanece assim directamente ligada à pobreza nas zonas rurais e ao seu enorme exército reserva de trabalhadores. Com quase 1,3 mil milhões de pessoas na China, cerca de um em cada dez são agora migrantes. Os investidores vêm de todo o mundo para tirar proveito desta maré aparentemente inesgotável de trabalhadores.

A cidade iPod

As maiores empresas da região de Shenzhen são praticamente cidades completas em si mesmas. Na zona suburbana onde baseámos o nosso trabalho, Longhua, cidade no distrito de Baoan, a principal empresa é a Foxconn Electronics, o nome comercial da Hon Hai Precision Industries, Inc., de Taiwan, onde a sua subsidiária Hongfujin faz os iPods para a Apple e as placas-mãe para a Dell, para além de produtos para outras empresas americanas. Vieram para Shenzhen apenas em 1993, mas tiveram sempre 240 000 empregados, com planos para atingirem 300 000 num futuro próximo e, como muitas outras, para alcançarem o meio milhão. Como o maior operador estrangeiro na área e a maior das empresas transformadoras de Taiwan no continente, exportou 20,7 mil milhões de dólares em mercadorias em 2005 ("Foxconn Refutes UK Media Labor allegations", http://china.org.cn/English, 1 de Junho de 2006). O "mega-complexo fabril de Longhua... é o espaço maior do mundo em trabalho de componentes electrónicas" (San Francisco Chronicle, 16 de Julho de 2006) e a sua mini-cidade é medida em quilómetros quadrados, ocupando um vasto complexo de unidades de produção, escritórios administrativos e habitação.

 

Os distritos no centro da cidade de Shenzhen podem brilhar com a nova riqueza, mas não se nota nada disto ao percorrer os arredores da Foxconn, bloco após bloco de dormitórios e de prédios privados para os trabalhadores já com um aspecto de estragados, embora a maioria deles tenha sido construída nos últimos anos. Às portas da fábrica, nas ruas e na área dos restaurantes, é fácil encontrar muitos jovens cujas histórias tornam brutalmente claro como é que a enorme riqueza dos capitalistas da "nova" China é acumulada.

 

Num dormitório da Foxconn para mulheres, um supervisor de nível baixo deu-nos uma ideia da vastidão da sua "empresa cidade" e de qual é o regime em que centenas de milhares de trabalhadores vivem e trabalham. Este mecanismo único de instalações alberga cerca de cinco mil trabalhadores do sexo feminino, mas é apenas um dos quarenta e oito dormitórios para homens e mulheres. Os trabalhadores recebem o alojamento gratuito, com um mínimo de seis ou sete pessoas por quarto, e em alguns casos mesmo mais, com três fileiras de beliches duplos — tão lotado e barulhento que não se consegue dormir convenientemente. A maioria dos empregados mais jovens vive nesses dormitórios e, cada vez que entram ou saem, devem inserir os seus dados de identificação num gravador de dados electrónicos. Não estão autorizados a cozinhar, mesmo que seja numa placa, e visitas do outro sexo, incluindo os membros da família, não são permitidas. Os quartos dormitório não têm ar condicionado e uma vez que a fábrica o tem, existe mais este estímulo para as horas extraordinárias e para o trabalho de fim-de-semana; é uma forma de escapar ao intenso calor do Verão (San Francisco Chronicle, 16 de Julho de 2006). Quando os trabalhadores são contratados, a empresa dá-lhes um curso breve que o supervisor designa por "treino militar", cuja finalidade é preparar o jovem "recruta" para a disciplina industrial. Os casais e as crianças são excluídos dos dormitórios e vivem em prédios de apartamentos nas proximidades.

 

Uma das jovens disse-nos que trabalha das oito às oito em cada dia útil, mas são-lhe pagas apenas dez horas por dia, porque duas horas são deduzidos para refeições. Os turnos diurno e nocturno mudam em cada três semanas, tornando difícil ajustar o calendário extenuante. A maioria dos trabalhadores come no refeitório da fábrica. Estão autorizados a sair para irem comer, mas raramente o fazem, em parte porque teriam que pagar a sua própria comida. Os trabalhadores de mais elevado nível de remunerações ganham apenas cerca de 1 000 yuan (120 dólares) por mês, incluindo o pagamento de horas extraordinárias, cerca de cinquenta centavos por hora, sem contar com a alimentação gratuita e o alojamento. Conversámos com um grupo de técnicos de Taiwan que nos confirmaram que o dia normal de trabalho na fábrica é de dez horas, duas das quais são horas extraordinárias, mas se a produção exigir podem incluir Sábado e Domingo, como tempo extra, sem qualquer direito depois a descanso. Estes funcionários, eles mesmo técnicos, trabalham doze horas por dia, seis dias por semana, voam para casa em Taiwan, a expensas da empresa. Todos os trabalhadores na Foxconn têm alguns benefícios limitados. Se os trabalhadores ficam doentes, podem ir para uma clínica de fábrica e, em caso de doença grave, podem ir a um hospital, com a sociedade a pagar 80 por cento do custo. Em condições de doença terminal, como cancro, os colegas de trabalho, fazem uma colecta. Se as mulheres trabalhadoras ficam grávidas, podem ficar três meses fora e podem manter os seus empregos, embora a maioria os deixe depois do parto.

 

Como activistas familiarizados com a cidade nos explicam, os empregados de Shenzhen têm direito por lei a determinados benefícios que são garantidos depois de dez anos de trabalho, em qualquer uma das empresas, incluindo contratos de trabalho de duração indeterminada, mais do que a termo fixo, e planos de reforma. Mas os trabalhadores que tentam realmente reivindicar o seu direito ao seguro, à assistência médica, às pensões e ao pagamento de desemprego são, muitas vezes, despedidos e alguns até chegam mesmo a pedir aos seus empregadores que ignorem essas obrigações legais, para que possam continuar a trabalhar. As autoridades governamentais conluiam-se com as empresas neste processo. Quando a cidade anunciou pela primeira vez a regulamentação a vigorar para quem tem mais de dez anos de trabalho, ainda de acordo com estes activistas sindicais, as autoridades responsáveis da cidade pelo cumprimento das normas aconselharam os empregadores a dar aos trabalhadores contratos de um ano, porque se os empregados não mantiverem cópias, não podem documentar o tempo de duração do seu emprego. Nalguns casos, os empregados são demitidos depois de nove anos ou mesmo antes disso, para evitar a regra de garantia de dez anos para efeitos de benefícios sociais. Mesmo técnicos e gestores superiores são frequentemente despedidos quando se tornam "demasiado caros".



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Quinta-feira, 16 de Junho de 2011
A Cidade da juventude - Shenzhen, China - Robert Weil - Monthly Review, Junho de 2008.

enviado por Julio marques Mota

 

Ganhos mínimos

Na altura em que estávamos a visitar a cidade, a situação começou a mudar, devido às crescentes pressões sobre o governo, a organização do trabalho oficial, e as empresas. Em parte, este resultado devia-se ao facto de cada vez mais e mais trabalhadores "votarem com os pés". Durante alguns meses antes de nossa visita, houve relatos de um movimento inverso de trabalho a sair para fora das regiões costeiras ou à procura de empregos nas fábricas que estavam a surgir no interior ou até mesmo de regresso às aldeias. Deu-se então uma mudança nas políticas nacionais, incluindo o fim do principal imposto sobre a terra agrícola, que tem permitido a redução de alguns dos piores encargos económicos e tornado a agricultura parecer mais uma vez mais viável.                                                                                                                                    

 

Algumas das empresas estão a mover-se do litoral para o interior, tanto para acompanhar a força de trabalho como para tirar partido das menores remunerações salariais e de outros incentivos que as autoridades oferecem no interior. Outras empresas estão a deixar completamente a China, deslocalizando-se para o Vietname, entre outros países vizinhos, numa "corrida para o fundo" ao nível dos baixos salários e das más condições de trabalho. Mas, apesar de inúmeras histórias sobre a forma como se paga em Shenzhen e como outras zonas baseadas principalmente no sector exportador foram assim também criadas, o efeito tem sido muito marginal, de acordo com aqueles com quem nós conversámos, em parte devido à capacidade das fábricas em se movimentarem.

 

Embora possa haver bolsas de falta de trabalho, em especial de trabalhadores mais qualificados, o declínio nas forças migratórias costeiras não deve ser exagerado, uma vez que novos trabalhadores das áreas rurais continuam a afluir à cidade, onde quase todo e qualquer nível de remuneração nas fábricas ultrapassa o que podem ganhar se voltarem para casa. Na Foxconn, como noutras empresas dominantes em Shenzhen, uma multidão de jovens ainda lhes rondam a porta à procura de um emprego. Muitos têm formação específica para estes trabalhos e precisam de encontrar rapidamente trabalho para poderem pagar a sua formação.

 

Entre aqueles que encontrámos, estavam vinte e cinco migrantes muito jovens da província de Hunan rural, que tinham acabado de sair de dois mini-autocarros que os trouxeram para a cidade. Eles pareciam ter apenas quinze ou dezasseis anos de idade e alguns pareciam ainda mais jovens.

 

Uma vez que a idade legal mínima para o trabalho nas fábricas é de dezasseis anos, eles disseram que era "isso". As suas vagas respostas eram compreensíveis e suspeitas — é fácil conseguir documentos falsos num país onde a pirataria de todos os tipos, incluindo documentos falsos, existe por toda a parte. A maioria dessas pessoas recém-chegadas à procura de trabalho tinham apenas uma mala ou uma mochila, junto com um balde com produtos de limpeza e outras coisas para a vida diária. Tinham pago dez mil yuan por dois anos de formação técnica básica numa escola profissional. Aí estudaram computadores, reparação de produtos electrónicos e inglês. Vieram para Shenzhen com o responsável angariador e dois assistentes, que os iriam ajudar a encontrar emprego. Quando questionados acerca do facto de eles próprios estarem na cidade, um deles citou um velho ditado acerca de "viajar nos lagos e montanhas". Todos disseram que tinham saudades de casa.

 

Com novos candidatos a um emprego como estes a chegar todos os dias, o movimento ascendente dos salários é relativamente limitado. As taxas de remuneração de base legal são definidas pelo governo de Shenzhen, embora algumas empresas ofereçam salários mais altos para atrair e manter os trabalhadores. Mas há, no entanto, forte pressão e crescente para que as autoridades locais que por mais de uma vez ao longo dos últimos anos aumentaram o salário mínimo — já é um dos dois mais altos no continente, junto com Xangai — o voltem a fazer. Muitas empresas, no entanto, já tinham encontrado maneiras de evitar os efeitos das exigências legais de maior remuneração. Na Foxconn, por exemplo, tenta reduzir-se a quantidade de trabalho extraordinário nos termos da lei dos novos salários mínimos, e de acordo com uma ONG de direitos do trabalho, "até mesmo o subsídio de habitação está em perigo. Cerca de 2 000 empregados já teriam deixado a fábrica depois de saberem que seriam cobrados pela ocupação dos seus quartos... logo que se determinou que aumentasse o salário" (San Francisco Chronicle, 16 de Julho de 2006).

Activismo crescente



publicado por Luis Moreira às 20:00
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011
Migração Interna de Trabalhadores na China: evolução, distribuição geográfica e políticas Kam Wing Chan

enviado por Julio Marques Mota

 

2 . Trabalhadores Migrantes Chineses

Mesmo antes do início das reformas em 1978, a China socialista tinha tido movimentos migratórios. No início da década de 50 vieram milhões de trabalhadores dos campos para as cidades para trabalhar nas novas indústrias estatais. Inicialmente, eram aí necessários mas, em meados dos anos 50, com o desemprego e os problemas com os abastecimentos alimentares, por exemplo, o governo introduziu um sistema de registo rigoroso de casa de habitação (hukou). O sistema hukou restringia a mobilidade da maioria dos chineses e manteve-os na zona rural durante as décadas seguintes. Controlava assim se alguém estava no local onde que estava inscrito, e a atribuição de alimentos e outros recursos estavam directamente vinculados a este sistema, ao registo da habitação. Para a construção de indústrias pesadas — a parte central do programa de modernização ao estilo soviético — os camponeses na China socialista eram ultra-explorados através dos baixos preços dos cereais. Apenas uma minoria de pessoas foram autorizados a viver nas cidades e a beneficiar das vantagens proporcionadas pelo Estado de Planeamento socialista.

 

Mas a migração não termina aqui. Com a fome gerada no período do "Grande Salto em Frente" (1958-62) partiram vagas enormes de migrantes. E, na década de 60 e 70, milhões de pessoas foram canalizados das áreas rurais para as cidades, para fazer os trabalhos mais duros e mais perigosos em empresas estatais. Estes migrantes estavam apenas temporariamente com emprego e tiveram que voltar para o campo quando o trabalho terminou. Durante a sua estadia nas cidades estavam ainda excluídos dos benefícios sociais dos trabalhadores urbanos (o "Iron Rice-Bowl").

 

O primeiro grande movimento migratório depois do início da reforma foi o do retorno. Na década de 60 e 70, milhões de jovens foram enviados para o campo, na esteira da Revolução Cultural para "aprender com os camponeses". O partido queria empurrá-los para fora das cidades, a fim de obter a agitação social e política da Revolução Cultural sob seu controle e também para baixar o nível de desemprego urbano. Depois de 1978, muitos desses migrantes lutaram com sucesso pelo seu regresso às cidades. Muitos trabalhavam nas indústrias estatais, outros tornaram-se independentes e participaram nas lutas para pôr em causa a proibição de empresas privadas. Tornaram-se vendedores ambulantes ou trabalharam em serviços urbanos.

 

No início dos anos 80, começou o fluxo de partes da população rural para as cidades, o resultado de muitos factores, de repulsão das terras e de atracção urbana. A distribuição das terras pelas famílias e o crescimento da produtividade na agricultura levou a uma população com "excedente" de força de trabalho no campo. Enquanto isso, as empresas nas aldeias e nas pequenas cidades (que de certa forma tinham ganho independência do Estado central), a nova "zona económica especial" e mais tarde a expansão das indústrias do Estado precisaram de mão-de-obra barata.            

 

Quando no final da década de 80 e, em especial, no início de 90 o Estado investiu em muitos projectos de infra-estruturas e de construção urbana e quando, ao mesmo tempo, os investimentos estrangeiros nas empresas industriais se expandiram, muitos milhões de pessoas, na sua maioria jovens, deixaram o campo para encontrar emprego e ganhar dinheiro nas cidades. Ao mesmo tempo, sentiam-se atraídos pela emoção da vida da cidade, da modernidade e da liberdade para consumir, processo que acompanhou as reformas. No entanto, até agora, os novos trabalhadores não se tinham tornado permanentes, não se tinham tornado moradores permanentes da cidade.

 

O sistema hukou, dividindo todos os chineses em população urbana e em população rural, ainda funciona. Quem sai da aldeia para ir para a cidade tem, ainda hoje, que se candidatar a um trabalho temporário e a uma autorização de residência. Essa autorização é normalmente limitada a um ano e ligada ao emprego. Por esta razão, os trabalhadores migrantes ainda são chamados mingong, camponeses que se transformam em trabalhadores urbanos. Eles não têm os mesmos direitos que os titulares de hukou urbano e estão excluídos de muitos serviços urbanos.

Números e factos



publicado por Luis Moreira às 20:00
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Segunda-feira, 13 de Junho de 2011
I Parte. As migrações, o regime houkou e o mal-estar social na China


I Parte.  As migrações, o regime houkou e o mal-estar social na China

1. Migração Interna de Trabalhadores na China: evolução, distribuição geográfica e políticas
Kam Wing Chan

O sistema hukou e definições de migrantes

Qualquer análise séria acerca da migração chinesa deve começar por procurar compreender o que se entende por hukou (registo da casa), e qual a sua relação com a migração. Desde há muito tempo que, na China, a migração tem sido uma área de forte controle estatal e as regras da regulação estatal ainda estão activas na actualidade. Para que as pessoas possam mudar a sua residência permanente é necessário que obtenham aprovação de uma ou mais autoridades. A mudança de residência é considerada legal, se for oficialmente aprovada e registada junto das autoridades da segurança pública.                                                                                                                                                                               

 

Para os residentes urbanos, a mudança de residência na mesma cidade (ou seja, movendo o seu hukou para uma nova morada), porque mudaram de local de habitação (pessoas que se deslocam para um novo apartamento), ou mudança de residência causada, por exemplo, pelo casamento geralmente é autorizada. A mesma facilidade é também dada à população rural que se desloca dentro das mesmas zonas rurais por efeitos de casamento ou por motivos familiares de outra ordem.                                                                                                                   

 

No entanto, qualquer movimento formal (ou "permanente") entre cidades, entre zonas urbanas, entre zonas rurais e urbanas é fortemente regulamentado e exige a posse de uma autorização de migrar ("a migration permit") emitida pelas autoridades de segurança pública. A autorização só é concedida quando há boas razões, especialmente quando a deslocação é, ou pelo menos não está em contradição, com os interesses do Estado Central ou mesmo local, definido pelas várias leis estabelecidas na regulação dos movimentos das pessoas, como por exemplo as políticas que pretendem controlar o crescimento das grandes cidades.

 

Portanto, para uma pessoa normal, sem contactos oficiais, conseguir uma autorização para migrar das zonas rurais para as urbanas ou das cidades pequenas para as grandes ainda é muito difícil, se não totalmente impossível. O sistema hukou funcionou, de facto, na era da pré-reforma, como um mecanismo de passaporte interno e ainda hoje tem muitas funções semelhantes, embora os agricultores possam agora viajar para muitos locais para terem um emprego ou para permanecerem de modo "temporário" — ou seja, sem hukou local — o que significa que são inelegíveis para muitos dos benefícios e dos direitos dos moradores comuns.

 

Ao nível administrativo e a nível operacional, as migrações das zonas rurais para as zonas urbanas tem duas etapas: a conversão do seu estatuto de rural para o estatuto de urbano e a obtenção da autorização da permissão para se movimentar numa específica zona urbana.

 

Esta última etapa — a obtenção de hukou local — é o resultado substantivo. Portanto, podemos distinguir os migrantes hukou e os não-hukou consoante têm hukou local ou não local para se poderem movimentar. Duas categorias de imigrantes podem ser então diferenciadas:

A migração com "direitos de residência local (Bendi) hukou ou sem residência local permanente (migration hukou);

Migração sem residência hukou (non hukou migration).

Na China, oficialmente só a migração hukou é considerada como qianyi ("migração"). Todos as outros são simplesmente consideradas renkouliudong (ou movimento da população ou "flutuante"), o que implica um baixo grau de permanência esperada: as pessoas em trânsito não são supostas (e legalmente não têm direito) estarem de modo permanente no local de destino e, portanto, são frequentemente chamadas de "migrantes temporários", apesar do facto de muitos imigrantes não-hukou poderem estar durante anos no local de destino. À migração hukou, por outro lado, é dado apoio do Estado e cai dentro da migração "planeada" (a categoria Jihua qianyi), enquanto a população flutuante está fora dos planos do Estado.                                                                                                                                                                                              

 

Para o governo, e do ponto de vista administrativo, a diferenciação entre o hukou e o não-hukou é a questão mais importante. O sistema hukou chinês permanece essencialmente como sendo o registo de estatísticas do hukou (a partir da população de jure) e, mais recentemente, regista também os dados da população não-hukou. Desde o início dos anos 80, juntamente com as reformas, os investigadores e órgãos encarregados das estatísticas também começaram a recolher informações sobre os imigrantes com base numa base de facto, através dos seus vários tipos de inquéritos.

As políticas recentes

 



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Terça-feira, 31 de Maio de 2011
Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC 2009/2010, intitulada O capitalismo na China:

Introdução

Nota Prévia

 

Júlio Mota, Luís Lopes e Margarida Antunes

Com a sessão sete do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC 2009/2010, intitulada O capitalismo na China: as classes sociais, as migrações e a repartição do rendimento, pretendemos colocar no centro do debate o papel da China nos fluxos de mercadorias que invadem o mundo, assim como os mecanismos que lhe asseguram esse novo papel de dominação, e as tensões que isto mesmo estará já a provocar na sociedade chinesa. A China é hoje uma das sociedades mais desiguais do mundo, onde se institucionalizam os muros da repartição de rendimento, que se poderiam também chamar hoje os muros da espoliação, tal o nível de desigualdade atingido.

 

Quer se goste ou não, quer se queira quer não, os produtos "Made in China" vão continuar a estar presentes num futuro próximo em todo o mundo.

 

O modelo de crescimento económico chinês, baseado precisamente nisto, no sector de exportação, e no investimento mostra-se cada vez mais associado a um processo de desconstrução industrial em muitos países europeus, mas também em regiões dos Estados Unidos, da responsabilidade em primeiro lugar dos governos nacionais, por ausência de política industrial em nome do livre jogo das forças de mercado, e das empresas (multi)nacionais que no quadro do modelo económico vigente procuram a redução máxima dos custos à escala planetária, deslocalizando ou instalando unidades de produção em países como a China. Ligado a tudo isto estará também nesses mesmos países a prioridade na estabilidade de preços ao nível da política macroeconómica, sendo então a importação de bens a baixo preço uma via para controlar a inflação importada.

 

Mas o modelo de crescimento económico chinês cria igualmente pressões em países com níveis de desenvolvimento semelhante ao seu, sendo a maior parte deles da mesma zona do globo, essencialmente por aqueles países se sentirem obrigados a seguir o mesmo tipo de modelo. As palavras de Rustam Aksam, presidente da Indonesian Trades Union Congress são ilustrativas a este respeito: "Cada país está agora a concorrer para reduzir os direitos dos trabalhadores... Nós estamos a correr para o fundo".

 

Do lado chinês, um dos eixos centrais que fez com que a China continental se tenha transformado na "fábrica do mundo" e que se desenvolveu em paralelo com o seu crescimento económico foi o extraordinário acréscimo de volume de mão-de-obra disponível e a baixo, a muito baixo, custo, que ocorreu nestas últimas décadas em resultado de fluxos migratórios de jovens do campo para o seu litoral, para as cidades industriais da costa, para as zonas de produção dos bens exportáveis. Estes fluxos são considerados por muitos a maior movimentação humana no mundo e possivelmente a maior de sempre na história (mais de uma centena de milhões de pessoas).

 

Mas a relevância desta mão-de-obra como eixo central do modelo de crescimento económico chinês não se fica de todo apenas pelo seu volume; acima de tudo é preciso não negligenciar as condições de trabalho que lhe estão inerentes. Estes trabalhadores migrantes internos, legais e ilegais, sujeitam-se a situações laborais e de vida extremas. De acordo com um levantamento sobre as condições de vida dos trabalhadores migrantes realizado, em 2006, apenas 21% de trabalhadores migrantes vivem em casas com quarto de banho e cozinha; a maior parte dos restantes vivem em barracas, no local de trabalho, em dormitórios, em casas sem quarto de banho ou cozinha ou então sem nenhum deles.

 

A vulnerabilidade dos trabalhadores migrantes também se reflecte noutros aspectos, tais como salários em atraso, SIDA, doenças sexualmente transmissíveis e más condições de vida. Apesar de a partir de 2003, o governo chinês ter tomado diversas medidas para tentar resolver o problema dos salários em atraso dos migrantes, estes continuam a ser vítimas desta realidade, que é considerada um drama nacional. De acordo com um inquérito realizado em seis sectores, em 2006, 32,4% dos trabalhadores migrantes que trabalham no sector da construção são vítimas dos salários em atraso, sendo este o valor mais alto, apresentando a indústria transformadora a proporção mais baixa, mas mesmo assim com 12,5% (ver o texto 2 da Parte II do presente caderno).

 

Como tem sido cada vez mais apontado, a vulnerabilidade dos migrantes rurais advém da regulamentação de segmentação residencial inscrita no âmago do sistema hukou, segundo o qual qualquer movimento formal (ou "permanente") entre cidades, entre zonas urbanas, entre zonas rurais e urbanas, exige a posse de uma autorização de migrar emitida pelas autoridades de segurança pública. Apesar de algumas experiências reformistas deste sistema a nível local, o hukou impede parte dos trabalhadores migrantes de poderem ter casa, cuidados médicos, educação para filhos, e outros serviços públicos, a preços razoáveis. Criam-se assim diferenças entre trabalhadores, consoante se tem ou não autorização para se migrar, consoante se é trabalhador local ou trabalhador migrante, criam-se assim "muros invisíveis" mesmo ao nível dos trabalhadores de menores níveis salariais.

 

Tudo isto se amplifica quando se sabe que simultaneamente as desigualdades sociais e de rendimento se têm acentuado nos últimos anos. Por exemplo, o peso dos rendimentos de 1% da população mais rica no rendimento total mais que duplicou entre 1985 e 2005, quando ao longo do mesmo período o peso dos salários no rendimento total se reduziu mais de 15 pontos percentuais.

 

Isto ajuda a perceber porque é que, ao longo do mesmo período, o peso do consumo privado na despesa total se reduziu praticamente na mesma proporção, conforme se ilustra no gráfico seguinte:

 



publicado por Luis Moreira às 23:00
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Sexta-feira, 27 de Maio de 2011
Economia Global, Capitalismo de Estado e Neoliberalismo - 6

Júlio Marques Mota

 

O desespero e a falta de esperança

 

A geração do pós 80 e 90 de trabalhadores migrantes tem maiores expectativas de vida do que as gerações anteriores, o que os faz sentir mais desapontados com cada fracasso. Com 19 anos, Li Hai saltou do 5º andar do centro de treino da empresa a 25 de Maio de 2010 (foi apelidado de “o 11º saltador”). A polícia encontrou uma nota de suicídio na qual pede desculpas à sua família. A nota indicava que Li tinha "perdido a confiança no seu futuro." (136) Nela pode-se ler: “As minhas expectativas do que eu poderia fazer no trabalho e para a minha família vão muito para lá do que eu poderia alcançar.”

 

Li nasceu em 1991 numa aldeia pobre da província de Hunan. A sua família arrendou uma pequena fazenda de apenas três “mu”, o que corresponde a apenas 0,4 hectares. O seu primo disse que ele poderia ganhar dinheiro se trabalhasse na Foxconn. Depois de vender a mota por 300 yuan (cerca de 33€) para comprar um bilhete de comboio, viajou para o sul. (137) Na fábrica Guanlan Shenzhen, durante os 42 dias de trabalho, terá sido repreendido pelo seu supervisor de linha quase todos os dias. Na sua nota de suicídio continua:

 

Eu gosto de desenhar, como o faz a Xiao Ye, mas realmente eu não gosto de ….[fushikang]

 

Li, um recém-formado, ficou desiludido com o modo de vida em Foxconn. Vindo do campo, ele encontrou no processo de adaptação à montagem robotizada a alta velocidade e com uma precisão extrema uma grande dificuldade. Sentindo-se incapaz de voltar para casa, ele pôs termo à sua vida no início da manhã. Shenzhen acabou por mostrar não ser o mundo de oportunidades que nela havia visto.

 

Lu Xin, também ele natural de Hunan, saltou do 6 º andar no apartamento da Foxconn em Shenzhen no dia 6 de Maio de 2010 (o “7º saltador”).(138) Como Li Hai, Lu precisava de dinheiro para melhorar as condições de vida da sua família. Sendo formado, Lu, tem uma remuneração base a partir de 2.000 Yuan (222€), mais do o dobro de trabalhadores da linha de montagem. Durante os oito meses de trabalho, ele conseguiu enviar para casa mais de 13.000 Yuan (1446€), tendo para isso feito uma quantidade excessiva de horas extra. No seu blog data um post escrito a 26 de Outubro de 2009, citado pela China Central Television (CCTV), no qual se lê (139):

 

Eu vim para esta empresa por dinheiro. E foi aí que me apercebi, isto é um desperdício da minha vida e do meu futuro. Logo na primeira etapa da minha vida adulta eu fui pelo caminho errado. Estou perdido.

Lu foi designado para o departamento de produção, e não para a unidade de investigação e desenvolvimento como preferia. Em Abril de 2010, ele trabalhava todos os dias até as 21horas. De acordo com a lei chinesa, a jornada de trabalho não deve exceder 8 horas por dia e 40 horas semanais (artigo 3 º do Regimento do Conselho de Estado sobre o Horário de Trabalho) e as horas extraordinárias não deverão exceder 3 horas diárias (artigo 41 da Lei do Trabalho). Lu não viu qualquer esperança para si ou perspectivas para o futuro. Noutro post online datado de 14 de Março de 2010 lê‑se:(140)

 

Se eu realmente pudesse, escreveria música todos os dias. Eu não tenho dinheiro para comprar hardware necessário para música. Eu nem quero gastar dinheiro num computador. Não consigo sequer encontrar uma produtora. A juventude desaparece muito rápido. Aos 24 anos, será que eu ainda posso fazer isso?

 

Lu adorava música e queria ser um cantor profissional. Ele chegou mesmo a participar no concurso de canto da empresa e ficou em segundo lugar. Mas na vida real ele era responsável por tarefas monótonas na oficina de montagem. No início de Maio estava à beira de um colapso. Ele apresentou sintomas de delírios como "ser seguido e ameaçado por alguém que queria matá-lo" Naquela noite de insónia, o seu colega de universidade e de trabalho, recordou as palavras finais de Lu:(141)

 

 

Ele disse que ia olhar para a paisagem e mal acabou a frase abriu a janela e foi para a varanda, depois saltou. Não hesitou em momento algum. Tentei agarrá-lo, mas só consegui tocar na roupa do seu braço esquerdo e ele esquivou-se da minha mão.

 

A função do Lu era o controlo de qualidade. Se ele não conseguisse monitorizar correctamente a qualidade dos produtos, não só ele como cada funcionário do departamento seriam punidos.(142) Como resultado desta medida, ele estava sempre muito nervoso com as taxas de aprovação de produtos, com medo da punição ou de um corte no bónus.

 

A nova geração de trabalhadores migrantes melhor educados quer uma vida nova, mas não vê perspectiva em trabalhar dia e noite nas linhas de montagem padronizada. Eles enfrentam uma enorme discrepância entre as expectativas crescentes e a dura realidade que é a vida nas fábricas.(143) Apenas alguns dias após o suicídio de Lu Xin, de 24 anos, a trabalhadora Henan Zhu Chenming atirou-se também do telhado do apartamento (apelidado de "8º saltador"). Um amigo contou os seus sonhos de fama como uma super modelo:(144)

 

Ela tem 1,74m. Antes de entrar na Foxconn aprendeu sobre moda. A sua aspiração era viajar para o estrangeiro para estudar.

 

Na noite de 11 de Maio de 2010, o corpo de Zhu foi encontrado no chão. Todo o glamour com que sonhava se havia dissipado.

Os trabalhadores vindos do meio rural são marginalizados e excluídos material e culturalmente. Sentem-se inseguros, especialmente os mais jovens, pois nem são da cidade nem são já capazes de voltar para a vida do campo. Todos os dias, centenas de jovens trabalhadores abandonam o seu emprego e deixam a empresa. Mas aqueles que se mudam para outras fábricas em pouco tempo estão a ser explorados sensivelmente da mesma forma como acontecia na Foxconn. A carreira de alguns chega ao fim devido a acidentes de trabalho.145 Outros tentam desesperadamente seguir uma outra vida.(146)

 

Nove professores universitários da China e de Hong Kong fizeram uma declaração pedindo que a Foxconn e que o Governo sejam justos para com a nova geração de trabalhadores migrantes.(147) A declaração diz:

A partir do momento que eles [a nova geração] passam para lá da porta de casa nunca pensam em voltar para a agricultura, como os seus pais. Nesse sentido, eles não vêem outra opção quando entram na cidade para trabalhar. Quando a possibilidade de construir uma casa na cidade graças ao seu próprio trabalho se esvanece, esvanece-se também o próprio significado desse mesmo trabalho. O caminho adiante é bloqueado, e o caminho de regresso a casa está fechado. Presa nesta situação, a nova geração de trabalhadores migrantes enfrenta uma séria crise de identidade, o que aumenta os problemas psicológicos e emocionais. Ao estudar mais aprofundadamente estas condições sociais e estruturais, compreendemos e sentimos mais profundamente a ideia de que não há um caminho de regresso a casa para os funcionários da Foxconn.

 

A pressão de estar longe de casa e de sentir que há muito pouca preocupação e justiça pelo lado da sociedade foi um dos principais factores que esteve por detrás dos suicídios.(148) Milhões de trabalhadores migrantes como os da Foxconn são deixados numa situação de profunda contradição. Eles rejeitam aceitar as duras dificuldades que os seus antecessores sentiram e viveram como sendo trabalhadores de baixos salários e de serem considerados cidadãos de segunda. Eles revoltam-se contra a sua condição de marginalizados e contra o facto de terem uma vida sem sentido. Assim sendo a sua única opção é, segundo um especialista no tema, “deixar de ter preocupação com os seus próprios corpos e destruí-los, como sinal de frustração e desconfiança.(149) Ao cometerem suicídio de modo a desafiar e a provocar esta realidade, apelam à sua pátria e ao resto do Mundo para que se faça algo, antes que mais vidas se percam.

 

 

Conclusão

 

 

 



publicado por siuljeronimo às 20:00
editado por Luis Moreira em 26/05/2011 às 17:10
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Quinta-feira, 26 de Maio de 2011
Economia Global, Capitalismo de Estado e Neoliberalismo - 5

Júlio Marques Mota

 

Jovens Trabalhadores: Lutam dentro da "Cidade Foxconn"

 

A Foxconn descreve o local da sua fábrica de Shenzhen Longhua, como estando sub-dividido em 11 zonas assinaladas por ordem alfabética, de A a K, como um campus. É o maior parque tecnológico na China, onde 300.000 trabalhadores trabalham, ou seja um terço da sua força de trabalho da Foxconn na China. Segundo o perfil expresso pela empresa e relatado pelos media (92) o campus de 2,3 quilómetros quadrados inclui:

 

fábricas, residências, bancos, hospitais, correios, bombeiros, com dois carros de bombeiros, uma rede de televisão exclusiva, um instituto de ensino, livrarias, campos de futebol, zonas de basquete, atletismo, piscinas, supermercados, e um conjunto de cafés, pastelarias e restaurantes.

 

O nosso trabalho de campo confirma que a maioria dos trabalhadores da Foxconn na China são jovens migrantes que trabalham e vivem nos campus. Esses trabalhadores produzem e montam os produtos electrónicos de alta qualidade. Num slogan da propaganda Foxconn sobre recrutamento em todo o mundo lê-se: "A marca Foxconn é o talento dos seus trabalhadores " (no original chinês, rencai shi Hon Hai de pinpai). (93) Os factos sugerem, contudo, que a empresa está a perder o seu talento mais precioso. Até ao final de Maio, 12 trabalhadores Foxconn tinha saltado ou caído para a morte e o décimo-terceiro, um trabalhador de 25 anos, cortou os pulsos depois de ter sido impedido de saltar de um dormitório (vide tabela 5). Dados os recentes acontecimentos, o termo usado para se referir aos trabalhadores, "o povo da Foxconn" ou Fu Kang ren, soa com uma muito amarga ironia, uma vez que estas palavras em chinês, traduzidas à letra, significam as pessoas "ricas" e "saudáveis".

 

Tabela 5. Suicídios na Foxconn em Shenzenn, Janeiro a Maio, 2010.

 

 

 * Os media Chinese locais relataram a morte de Ma Xianqian como a “primeira” das 13 tentativas de suicídio falhadas desde Janeiro de 2010 nas

instalações da Foxconn en Shenzhen.

# Sobreviveu com ferimentos

Fonte: News reports

 

Foxconn publicita visitas feitas por psicólogos com a sugestão vergonhosa de que o número de suicídios nos seus dois locais de trabalho em Shenzhen está abaixo do nível nacional, (94) numa fria tentativa feita tanto para evitar a responsabilidade como para esconder o problema. Nenhum estudo científico genuíno se iria basear em tal comparação que deixa fora de consideração que os suicídios na Foxconn foram de jovens empregados na cidade Foxconn.(95) Nem se considera como "norma" que os trabalhadores chineses cometem suicídio a lutar por péssimas condições de trabalho.

 

 Aqui apresentamos a nossa recolha de dados, análises sobre a indústria, e relatórios de investigação feitos e publicados pelos media e por grupos de defesa dos direitos dos trabalhadores para assim se conseguir uma melhor e mais profunda compreensão dos problemas. Concluímos que os três principais autores a saber (as grandes empresas internacionais de marca, a Foxconn e os governos locais e nacionais) deveriam agir com responsabilidade para acabar com esta tendência dos trabalhadores da Foxconn escolherem acabar com as suas vidas.

 

 Outsourcing, os lucros da Apple e os baixos salários

 

 

 



publicado por siuljeronimo às 20:00
editado por Luis Moreira em 25/05/2011 às 21:40
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
Economia Global, Capitalismo de Estado e Neoliberalismo - 4

Júlio Marques Mota (Continuação)

 

Foxconn: "A fábrica de material electrónico do mundo"

 

A subsidiária Foxconn é um produto da empresa-mãe, a Hon Hai, especialista em produção em massa de material electrónico desde a década de 80 quando o mercado de computadores pessoais ganhou visibilidade.(43) Em 1988, o presidente e fundador Terry Gou investiu na produção a baixo custo na China continental, mantendo as estruturas de investigação e desenvolvimento (I&D) nas suas instalações de Taiwan.(44) Desde o início dos anos 90, a empresa instalou mais de 40 fábricas e centros de I & D na Ásia (Índia, Vietname, Tailândia, Malásia, Singapura, Japão, Coreia do Sul e Austrália), Rússia, Europa (República Checa, Eslováquia, Hungria, Dinamarca, Holanda, Finlândia, Reino Unido e Turquia), e na America.(45) O grupo dispõe de tecnologia que oferece aos seus clientes "a melhor rapidez, qualidade, serviços de engenharia, eficiência e valor acrescentado ", chamando ao conjunto “as cinco competências fundamentais”. (46) Mas o que é que tem feito pelos 450 mil trabalhadores em grande parte trabalhadores migrantes que produzem os produtos nas suas duas fábricas de Shenzhen ou noutros lugares? Os resultados sugerem um crescimento continuado e altos lucros gerados possivelmente pelos trabalhadores chineses, a maioria dos quais continuam a trabalhar ao nível dos salários mínimos decorrentes da determinação dos governos locais tendo visto muito pouco ou mesmo nenhum ganho decorrente do crescimento da empresa.

 

 

Gráfico 1. Rendimento da Foxconn, 1996-2009

Fonte: Foxconn corporate and environment report (2008); Fortune Global 500 (2010).

 

Na sequência de uma recuperação económica global, a empresa Foxconn tem vindo a crescer rapidamente. No final dos primeiros seis  meses de 2010, as vendas da empresa aumentaram 48 por cento relativamente a um ano antes para cerca de 37,43 mil milhões de dólares e o lucro líquido aumentou de 22 por cento 1,08 mil milhões de dólares. (55) A Foxconn, apesar da má publicidade no país e no estrangeiro que se seguiu à sequência dos 13 suicídios de trabalhadores até Maio e apesar da pressão para aumentar os salários em Shenzhen e aos apelos mundiais para um boicote aos produtos Foxconn, incluindo o iPhone da Apple, durante o mês de Junho, (56) registou um aumento das suas exportações. No mercado da indústria transformadora de material electrónico, o volume de receitas da Foxconn é quase três vezes maior ao do seu rival mais próximo, Flextronics, fabricante em Singapura.

 

Foxconn produtos e serviços

 

 

 

 

Tabela 3. Rendimentos de clientes seleccionados da Foxconn e o seu ranking na Fortune Global 500, 2010

 

 

 Fonte: Global 500 (annual ranking of the world’s largest corporations), 2010

 

O crescimento dos lucros da Foxconn, porém, não é comparável ao das grandes marcas como Apple e Microsoft. Com base na capitalização de mercado, em Maio de 2010 Apple (237 mil milhões de dólares americanos) ultrapassou a Microsoft (que obteve 221 mil milhões dólares) aparece como o número um mundial na indústria das novas tecnologias.(65) A empresa Apple tornou-se assim a nível das tecnologia da informação mundial como a mais importante empresa do mundo.(66) No conjunto dos diversos tipos de empresas, a Apple quanto a capitalização de mercado está em segundo lugar, apenas ultrapassada pela empresa gigante do petróleo Exxon Mobil (que está em 315 mil milhões de dólares americanos). Até ao final do ano fiscal de 2010, a Apple, em volume de vendas, tem como projecção crescer 46 por cento, para 62,6 mil milhões de dólares(67) movendo-se rapidamente para o top 100 das empresas globais segundo a classificação pela revista Fortune.

 

A Foxconn depende e em muito das encomendas feitas pelas empresas de tecnologia de ponta (e cada vez mais das marcas de automóvel). Beneficiando de fortes encomendas durante a recuperação económica, a Foxconn produziu mais de 6 milhões de notebooks no primeiro semestre de 2010(68). As vendas de Foxconn, de notebooks para a HP poderá alcançar 10 a 12 milhões de unidades até ao final deste ano, e o total de remessas para a HP está projectada aumentar para 20 milhões de unidades em 2011. (69) Em Julho de 2010, a Foxconn já ultrapassou a Quanta Computer ao tornar-se o terceiro maior fornecedor de notebooks para a Dell (apenas atrás da Wistron e da Compal Electronics). Foxconn irá produzir 4 a 5 milhões de notebooks para a Dell em 2011(70).

 

Para lidar com esse mercado em expansão, Foxconn utiliza uma enorme força de trabalho em todo o mundo, incluindo cerca de 900.000 trabalhadores somente na China. Espera-se que a empresa vá ainda crescer mais de 40 por cento e passe a utilizar cerca de 1,3 milhões de trabalhadores chineses(71), muitos deles jovens migrantes rurais e estudantes estagiários, em 2011.

 

A produção de Foxconn na China

 

A Foxconn aproveitou-se das vantagens das políticas macroeconómicas da China ao expandir os seus investimentos. A empresa tecnológica tem instalações fabris em quatro regiões geográficas estratégicas em todo o país: o Delta do Rio Pérola (Shenzhen, Dongguan, Foshan, Zhongshan e), o Delta do Rio Yangtze (Xangai, Kunshan, Hangzhou, Ningbo, Nanjing, Huaian, Jiashan, e Changshu), a área do Golfo de Bohai no Norte da China (Pequim, Langfang, Qinhuangdao, Tianjin, Taiyuan, Yantai, Yingkou e Shenyang) e as cidades da zona central e ocidental (Chongqing, Chengdu, Zhengzhou, Wuhan, Jincheng e Nanning) (72) O acesso da Foxconn aos recursos e aos talentos nas principais cidades chinesas é fundamental para o seu crescimento.

 

Embora o governo chinês tenha congelado o salário mínimo ao longo de 2009, em resposta à crise económica, desde o início de 2010 uma série de cidades e províncias aumentaram o salário mínimo de 10 a 30 por cento.(73) Na China, em suma, não há salário mínimo nacional, mas um leque de salários mínimos ao nível das províncias e das cidades. É interessante notar que Pequim e Tianjin mantêm o salário mínimo bem abaixo daqueles que são estabelecidos para Shenzhen e Xangai, enquanto as cidades do interior como Chengdu, Chongqing ou Zhengzhou procuram atrair os investimentos com salários mínimos que são ainda muito menores. A falta de trabalhadores migrantes (ou yonggong mingong huang huang) no Delta do Rio Pérola e Yangtze River Delta tem estimulado à existência de salários mais altos para atrair migrantes dada a concorrência para obter trabalhadores. Em contrapartida, os investidores, como a Foxconn, consideram as cidades do interior cada vez mais atractivas porque oferecem terras mais baratas e com melhores infra-estruturas, com salários e com custos de segurança social mais baixos do que as regiões a leste e a sul do litoral e estas foram as zonas que inicialmente asseguraram o crescimento económico assente nas exportações.

 

              Tabela 4. Salário mínimo legal por cidades chinesas, em Agosto de 2010

 

 

Fonte: Ministério dos Recursos Humanos e Segurança Social da China, 2010

 

 

 



publicado por siuljeronimo às 20:00
editado por Luis Moreira às 00:08
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Terça-feira, 24 de Maio de 2011
Economia Global, Capitalismo de Estado e Neoliberalismo - 3

Julio Marques Mota

 

Regime de Trabalho Global

 

Num cenário habitual, num dormitório de trabalhadores numa zona industrial de Shenzhen, a cidade de mais rápido crescimento na China, com uma população, em 2008, oficialmente estimada em 14 milhões, nós fomos rodeados pelos trabalhadores da Foxconn, que estavam a conversar e a assistir a um programa de novelas numa mercearia, no verão de 2010. Era uma área aberta onde os jovens trabalhadores rurais migrantes, a maioria sem família, passava as suas poucas horas de lazer. O complexo fabril estava fechado e para lá do portão, estavam situados mais de dez edifícios de dormitórios a sul das instalações de produção da empresa. Cá fora do portão, viviam mais de 50.000 trabalhadores em casas do bairro, transformando-os em dormitórios colectivos. Impedidos de viverem na cidade onde eles vendem a sua força de trabalho, os trabalhadores têm de encontrar um sítio para viver próximo do seu empregador ou vivem em dormitórios da empresa. As zonas recém-industrializadas e as cidades na China apresentam numerosos dormitórios colectivos, onde um prédio de cinco andares, pode albergar várias centenas de trabalhadores. Nas noites ventosas, as roupas dos trabalhadores, nos corredores do dormitório, esvoaçam como as bandeiras coloridas das multinacionais nos mastros. Estas e essas bandeiras são as bandeiras da nova classe de trabalhadores da China, simbolizando o fluxo de capital sem fronteiras e a miséria na terra socialista.

 

 

 

Tabela 1.

Trabalhadores migrantes chineses por idade, 2009 (total=100)

 

 

 

 

 

Fonte: NBS (2010: secção 3, ponto 1) [em chinês]

 

 

 

 

Tabela 2.

Trabalhadores migrantes chineses por emprego, 2004 e 2009 (total=100)

 

 

 

 

Fonte: ACFTU (2010: secção 2, ponto 5) [em chinês]

 

 

 



publicado por siuljeronimo às 20:00
editado por Luis Moreira às 16:23
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
Economia Global, Capitalismo de Estado e Neoliberalismo - 2

Júlio Marques Mota

 

Introdução

 

Hon Hai Precision Industry Company, mais conhecida pelo seu nome comercial de Foxconn (Fushikang), foi criada em Taipei em 1974 (2). A Foxconn é actualmente a maior fabricante do mundo em produtos electrónicos a trabalhar em regime de contratos, o que significa que faz a maioria do seu volume de negócios como fabricante em regime de subcontratação com terceiros e não pela venda de produtos de marca própria. A empresa está em condições de garantir a produção de mais de 50 por cento do valor global em produtos electrónicos para a indústria de serviços em 2011. (3) Sob a liderança do seu fundador e actual presidente, Terry Gou, a Foxconn considera-se "o parceiro mais fiável e preferido em todos os aspectos de outsourcing global em material electrónico para ajudar os clientes nos seus negócios."(4) Tragicamente, nos primeiros cinco meses deste ano até 27 de Maio de 2010, lamentável e inesperadamente, 13 jovens trabalhadores suicidaram-se ou tentaram fazê-lo nas duas instalações de produção da Foxconn em Shenzhen, uma cidade no sudeste da China, abrindo uma crise de relações públicas e uma crise ao nível da responsabilidade das empresas quanto à imagem e à consciência moral de praticamente todos os clientes da Foxconn, incluindo a Apple, HP, Dell, IBM, Samsung, Nokia, Hitachi e outros gigantes da electrónica. Dez trabalhadores migrantes chineses morreram e três sobreviveram aos ferimentos. Todos tinham entre os 17 e os 25 anos, estavam pois no auge da sua juventude. A sua morte deve levar a sociedade tanto a chinesa como a internacional a tomar consciência e a reflectir sobre os custos de um modelo de desenvolvimento que sacrifica a dignidade em nome do crescimento económico.

 

 

tentar recuperar os seus direitos e a sua dignidade.



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Segunda-feira, 2 de Maio de 2011
O mundo do trabalho no capitalismo moderno, na economia financeirizada por Julio Marques Mota

O mundo do trabalho no capitalismo moderno, na economia financeirizada

Introdução

Dia 1 de Maio, dia dos Trabalhadores

 

Para este dia, uma nota simples. Um trabalhador suicidou-se, imolou-se em França. Drama, é certo, mas que a imprensa podia colocar ou tratar como um fait-divers, como o faz muitas das vezes. Mas este suicídio, segue-se a outros 17 suicídios mais, em 2010, e estes sucedem-se também a outros 35 mais, nos anos anteriores, e na mesma empresa.

 

Uma célula de apoio psicológico terá sido criada pela France Télécom, quarto operador mundial nas Telecomunicações mas mais uma vez a memória impõe-se-me, traz-me à frente do ecrã do meu computador  imagens de um outro continente e de há um ano, apenas. Lembrei-me de que no quadro de uma iniciativa da Faculdade de Economia de Coimbra fizemos uma sessão especial com um filme bem especial, The last Train, sobre as migrações na China. Organizámos um caderno de textos de apoio sobre os trabalhadores na China. Mais um caderno, diremos. Neste caso, com a particularidade de nessa sessão publicarmos um grande texto sobre as características do capitalismo moderno sob o regime da financeirização da economia e assente num regime caracterizado por um duro capitalismo de Estado e caracterizado também pela  inexistência de sindicatos capazes de agir na defesa dos trabalhadores.                                                                                                                                                        

 

Neste texto analisava-se as condições de trabalho numa das maiores empresas fabris mundiais, com globalmente mais de um milhão de trabalhadores, a trabalhar quase que exclusivamente para o Ocidente desindustrializado, e por isso mesmo, mas com margens brutas de lucro na ordem apenas dos 4 a 5 por cento. E esse exemplo, era uma das fábricas Foxconn e o texto de referência era  uma análise detalhada das condições oferecidas ou impostas aos jovens chineses que para nós, consumidores no Ocidente, produzem dos melhores computadores, que para nós produzem os I PAD’s, os IPOD’s, e para as multinacionais ocidentais geram assim os lucros mirabolantes.                                                           

 

Lembrei-me que também há um ano que nesta empresa, de grande dimensão em que algumas das suas unidades fabris comportam 300.000 operários, também aqui os suicídios se deram em série, também aqui  unidades psicológicas de apoio foram criadas e de urgência. Lembro-me bem que se tratava de jovens, muito jovens mesmo, e tenho ainda na retina e no ouvido também, agora que estas linhas escrevo, as palavras cheias de comoção de um estudante, Dino Alves de certeza, que daqui saúdo, que nos explicava a todos nós, com o Gil Vivente quase completamente cheio, como o texto que tinha ajudado a traduzir o tinha comovido e o tinha ajudado a perceber o absurdo dos fundamentos desta globalização.          

 

Ensinou-o a ele e a mim também. Mas tenho também sobre os meus olhos  a dureza do texto comentário do meu amigo Flávio, igual a tantos outros Flávio por esta Europa fora, vitimas que são da incapacidade ou da desonestidade de um conjunto de dirigentes que à lógica exclusiva dos mercados financeiros se submeteram ou a ela se venderam, ou até a ela não sequer se  venderam porque dela são já eles mesmo um produto e dela  são assim parte integrante.

 

Cremos mesmo que os suicídios de um lado e do outro correspondem às duas faces da mesma moeda, são o resultado da violência do capitalismo moderno onde todos os mecanismos de pressão e de exploração estão disponíveis e utilizáveis, onde a rentabilidade máxima e de curto prazo domina sobre todos os outros objectivos possíveis ou desejáveis, e em que a Ocidente se dispõe de técnicas ultra-refinadas de manipulação, como a gestão da crise o mostra à evidência, e a Oriente se dispõe da força brutal que a falta de democracia lhes pode conferir, sendo agora certo que quer a Ocidente e a Oriente, de um lado e de outro, surge ainda a precariedade como elemento comum a ambos, como arma quase absoluta de manipulação e, sobretudo, de contenção das lutas dos trabalhadores.                                                                                                              

 

Não é por acaso que se dão os suicídios em série na France Télécom e não é por acaso que eles se dão igualmente na China e não é ainda por acaso também que para este longo texto sobre a China lhe foi dado como título Os suicídios como protesto para as novas gerações de trabalhadores migrantes chineses: Foxconn, Capital Global e o Estado. Mas a luta de classes não pode ser isto, mesmo que transitoriamente possa estar a ser isto e é nesta distância que se pode compreender o longo trabalho que pelos sindicatos haverá agora a percorrer, o que na linguagem de Marx poderíamos dizer que este trabalho sindical se insere na longa e dura passagem do em-si da classe operária à enorme força do para-si que a mesma classe terá que assumir face à sofisticação dos mecanismos de pressão pelos Estados modernos exercidos . Retomemos o texto editado na Faculdade de Economia relativamente a este tema:

 “Como se assinala no caderno de textos de apoio: “As zonas recém-industrializadas e as cidades na China apresentam numerosos dormitórios colectivos, onde um prédio de cinco andares pode albergar várias centenas de trabalhadores. Nas noites ventosas, as roupas dos trabalhadores, nos corredores do dormitório, esvoaçam como as bandeiras coloridas das multinacionais nos mastros. Estas e essas bandeiras são as bandeiras da nova classe de trabalhadores da China, simbolizando o fluxo de capital sem fronteiras e a miséria na terra socialista”.                                               

 

Bandeiras espalhadas por todo um grande país, a China, bandeiras que assinalam também o sacrifício de uma geração em que os seus anos de juventude como trabalhadores “são completamente queimados com o ritmo das máquinas, à medida que as suas peças e componentes vão funcionando, à medida que estas vão trabalhando. Os tempos livres e até mesmo as próprias vidas nisso são sacrificadas”. É neste contexto que se pode perceber um texto de um blogo de um operário chinês: “A morte serve apenas para certificar que estivemos vivos, sem dúvida, e que foi apenas no desespero que sempre vivemos.”



publicado por Luis Moreira às 20:00
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Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011
Carta aberta a Durão Barroso - 5 - por Júlio Marques Mota

(Continua)

 

O tsunami silencioso e os direitos dos trabalhadores na Europa

 

Senhor Presidente, enquanto se dá esta desindustrialização, o tsunami silencioso avança, invade a vida daqueles que pouco mais têm que isso, daqueles que não têm meios próprios para viver, daqueles que vivem da riqueza por eles e para outros criada e, muitas vezes, daqueles cuja própria dignidade profissional, por anos de lutas conquistada e pela pressão de agora começam a sentir esmagada. Que o digam trabalhadores da Fiat quando afirmam: “é garantido que votarei sim, que querem que eu faça, tenho uma família”, é garantido que aceitaremos as condições impostas por Sergio Marchionne, patrão da Fiat, é garantido que perderemos os nossos direitos para salvar o emprego. Esta foi a chantagem da Fiat, ao ameaçar não investir na Itália, mas na Polónia; com isto, e mais uma vez, se descobre que a concorrência da União Europeia, do seu Presidente, que os seus mecanismos, preenchem os invernos do nosso descontentamento; esta é a concorrência pelo custo salarial mínimo, assente no mínimo de direitos possíveis em que se pode trabalhar. Mudarmos de produção e de multinacional e tomemos, por exemplo, o que se passou com a General Motors em Estrasburgo. Também aqui os trabalhadores aceitaram perder parte dos seus direitos para conservarem os seus postos de trabalho. Estes disseram sim à compra da unidade fabril pertença da General Motors Corporation, a antiga General Motors, pela General Motors Company, a nova General Motors, disseram sim numa maioria de mais de dois terços. Mas, a General Motors Company apenas compraria esta unidade fabril, especializada na produção de caixas de velocidades automáticas, à General Motors Corporation, se e só se os custos de mão-de-obra baixassem cerca de 10%, de modo a reduzir a diferença de competitividade com uma unidade fabril do mesmo grupo que produz as mesmas caixas no México. Foi a estas condições que a maioria dos trabalhadores disse sim! Tristeza bem amarga de um trabalhador desta unidade fabril que recusava que se tivessem de comparar aos trabalhadores que se exploram no México ou na China, mas na verdade era o que estava a ser feito, era o que estava a ser feito e a um passo, portanto, de se tomar como referência os custos de produção na China. Será, pelos vistos, uma questão de resistência ou de não resistência, uma vez que o mercado é global, regido pela lei do custo mais baixo, do custo de produção mínimo e independentemente da forma como esse custo é obtido.

 



publicado por Carlos Loures às 21:00
editado por Luis Moreira às 12:01
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Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010
A revolução está na rua?
Luis Moreira ( publicado por: )

Sem sentido filosófico…….

Que os paradigmas estão a mudar, já todos demos conta. Mas para onde vamos é difícil de antecipar.

E nada desta revolução corresponde a políticas, a ideologias, a capitalismos, a socialismos, a comunismos, a fascismos e a tantos outros ismos.

Trata-se apenas e mais prosaicamente da revolução económica dos paises emergentes e do desejo justo das suas populações de acederem aos beneficios civilizacionais e materiais que durante séculos os europeus, melhor dizendo os paises ditos ocidentais, alcançaram e as suas populações usufruiram.

Desconheço o autor , mas está muito bem visto e bem escrito. Aí vai contra todas as regras do copy/paste.


Está a acontecer na nossa rua e à nossa volta, e ainda não percebemos ou não queremos perceber que uma nova Era já começou!


As pessoas andam um bocado distraídas! Não deram conta que há cerca de 3 meses começou a Revolução! Não! Não me refiro a nenhuma figura de estilo,nem escrevo em sentido figurado! Falo mesmo da Revolução "a sério" e em curso, que estamos a viver, mas da qual andamos distraíd(desprevenidos).

De facto, há cerca de 3 ou 4 meses começaram a dar-se alterações profundas, e de nível global, em 10 dos principais factores que sustentam a sociedade a. Num processo rápido e radical, que resultará em algo novo, diferente e porventura traumático, com resultados visíveis dentro de 6 a 12 meses... E que irá mudar as nossas sociedades e a nossa forma de vida nos próximos 15 ou 25 anos!

... tal como ocorreu noutros períodos da história recente: no status político-industrial saído da Europa do pós-guerra, nas alterações induzidas pelo Vietname/ Woodstock/ Maio de 68 (além e aquém Atlântico), ou na crise do petróleo de 73.

Estamos a viver uma transformação radical, tanto ou mais profunda do que qualquer uma destas! Está a acontecer na nossa rua e à nossa volta, e ainda não percebemos que a Revolução já começou!

Façamos um rápido balanço da mudança, e do que está a acontecer aos "10 factores":

1º- A Crise Financeira Mundial : desde há 8 meses que o Sistema Financeiro Mundial está à beira do colapso (leia-se "bancarrota") e só se tem aguentado porque os 4 grandes Bancos Centrais mundiais - a FED, o BCE, o Banco do Japão e o Tesouro Britânico - têm injectado (eufemismo que quer dizer: "emprestado virtualmente à taxa zero") montantes astronómicos e inimagináveis no Sistema Bancário Mundial, sem o qual este já teria ruído como um castelo de cartas. Ainda ninguém sabe o que virá, ou como irá acabar esta história !...

2º- A Crise do Petróleo : Desde há 6 meses que o petróleo entrou na espiral de preços. Não há a mínima ideia/teoria de como irá terminar. Duas coisas são porém claras: primeiro, o petróleo jamais voltará aos níveis de 2007 (ou seja, a alta de preço é adquirida e definitiva, devido à visão estratégica da China e da Índia que o compram e amealham!) e começarão rapidamente a fazer sentir-se os efeitos dos custos de energia, de transportes, de serviços. Por exemplo, quem utiliza frequentemente o avião, assistiu há 2 semanas a uma subida no preço dos bilhetes de... 50% (leu bem: cinquenta por cento). É escusado referir as enormes implicações sociais deste factor: basta lembrar que por exemplo toda a indústria de férias e turismo de massas para as classes médias (que, por exemplo, em Portugal ou Espanha representa 15% do PIB) irá virtualmente desaparecer em 12 meses! Acabaram as viagens de avião baratas (...e as férias massivas!), a inflação controlada, etc...

3º- A Contracção da Mobilidade : fortemente afectados pelos preços do petróleo, os transportes de mercadorias irão sofrer contracção profunda e as trocas físicas comerciais (que sempre implicam transporte) irão sofrer fortíssima retracção, com as óbvias consequências nas indústrias a montante e na interpenetração económica mundial.

4º- A Imigração : a Europa absorveu nos últimos 4 anos cerca de 40 milhões de imigrantes, que buscam melhores condições de vida e formação, num movimento incessante e anacrónico (os imigrantes são precisos para fazer os trabalhos não rentáveis, mas mudam radicalmente a composição social de países-chave como a Alemanha, a Espanha, a Inglaterra ou a Itália). Este movimento irá previsivelmente manter-se nos próximos 5 ou 6 anos! A Europa terá em breve mais de 85 milhões de imigrantes que lutarão pelo poder e melhor estatuto sócio-económico (até agora, vivemos nós em ascensão e com direitos à custa das matérias-primas e da pobreza deles)!

5º- A Destruição da Classe Média : quem tem oportunidade de circular um pouco pela Europa apercebe-se que o movimento de destruição das classes médias (que julgávamos estar apenas a acontecer em Portugal e à custa deste governo) está de facto a "varrer" o Velho Continente! Em Espanha, na Holanda, na Inglaterra ou mesmo em França os problemas das classes médias são comuns e (descontados alguns matizes e diferente gradação) as pessoas estão endividadas, a perder rendimentos, a perder força social e capacidade de intervenção.

6º- A Europa Morreu : embora ainda estejam projectar o cerimonial do enterro, todos os Euro-Políticos perceberam que a Europa moribunda já não tem projecto, já não tem razão de ser, que já não tem liderança e que já não consegue definir quaisquer objectivos num "caldo" de 27 países com poucos ou nenhuns traços comuns!... Já nenhum Cidadão Europeu acredita na "Europa", nem dela espera coisa importante para a sua vida ou o seu futuro! O "Requiem" pela Europa e dos "seus valores" foi chão que deu uvas: deu-se há dias na Irlanda!

7º- A China ao assalto! Contou-me um profissional do sector: a construção naval ao nível mundial comunicou aos interessados a incapacidade em satisfazer entregas de barcos nos próximos 2 anos, porque TODOS os estaleiros navais do Mundo têm TODA a sua capacidade de construção ocupada por encomendas de navios... da China. O gigante asiático vai agora "atacar" o coração da Indústria europeia e americana (até aqui foi just a joke...). Foram apresentados há dias no mais importante Salão Automóvel mundial os novos carros chineses. Desenhados por notáveis gabinetes europeus e americanos, Giuggiaro e Pininfarina incluídos, os novos carros chineses são soberbos, réplicas perfeitas de BMWs e de Mercedes (eu já os vi!) e vão chegar à Europa entre os 8.000 e os 19.000 euros! E quando falamos de Indústria Automóvel ou Aeroespacial europeia...helás! Estamos a falar de centenas de milhar de postos de trabalhos e do maior motor económico, financeiro e tecnológico da nossa sociedade. À beira desta ameaça, a crise do têxtil foi uma brincadeira de crianças! (Os chineses estão estrategicamente em todos os cantos do mundo a escoar todo o tipo de produtos da China, que está a qualificá-los cada vez mais).

8º- A Crise do Edifício Social : As sociedades ocidentais terminaram com o paradigma da sociedade baseada na célula familiar! As pessoas já não se casam, as famílias tradicionais desfazem-se a um ritmo alucinante, as novas gerações não querem laços de projecto comum, os jovens não querem compromissos, dificultando a criação de um espírito de estratégias e actuação comum...

9º- O Ressurgir da Rússia/Índia : para os menos atentos: a Rússia e a Índia estão a evoluir tecnológica, social e economicamente a uma velocidade estonteante! Com fortes lideranças e ambições estratégicas, em 5 anos ultrapassarão a Alemanha!

10º- A Revolução Tecnológica : nos últimos meses o salto dado pela revolução tecnológica (incluindo a biotecnologia, a energia, as comunicações, a nano tecnologia e a integração tecnológica) suplantou tudo o previsto e processou-se a um ritmo 9 vezes superior à média dos últimos 5 anos!

Eis pois, a Revolução!

Tal como numa conta de multiplicar, estes dez factores estão ligados por um sinal de "vezes" e, no fim, têm um sinal de "igual". Mas o resultado é ainda desconhecido e... imprevisível. Uma coisa é certa: as nossas vidas vão mudar radicalmente nos próximos 12 meses e as mudanças marcar-nos-ão (permanecerão) nos próximos 10 ou 20 anos, forçando-nos a ter carreiras profissionais instáveis, com muito menos promoções e apoios financeiros, a ter estilos de vida mais modestos, recreativos e ecológicos.

Espera-nos o Novo! Como em todas as Revoluções!

Um conselho final: é importante estar aberto e dentro do Novo, visionando e desfrutando das suas potencialidades! Da Revolução! Ir em frente! Sem medo!

Afinal, depois de cada Revolução, o Mundo sempre mudou para melhor......??!!!...


publicado por Luis Moreira às 13:00
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Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010
China - socialismo de mercado -conclusão
Luis Moreira


Na onda do "socialismo de mercado" criou-se uma classe de pessoas burguesas, (chamemos-lhe assim) que o partido comunista chama a si, no sentido de a controlar, decapitando-a, de certa forma como no capitalismo se cooptam as pessoas com mais mérito das classes populares.

As empresas privadas são levadas, mais do que à procura desenfreada do lucro, ao desenvolvimento da economia e da tecnologia nacional. Podemos dizer que mesmo as empresas privadas estão subordinadas ao "socialismo de mercado". Poderão os comunistas de todo o mundo estar descansados?

A verdade é que os US e, de certo modo, os países ocidentais, estavam a preparar-se, no pós URSS, a tomar definitivamente a dianteira nos aspectos tecnológicos. Para a China, estaria reservada a produção de produtos e serviços de baixo valor acrescentado, o que determinaria uma dependência contínua em relação à metropole capitalista.

A China percebeu a tempo que não há uma verdadeira independencia política sem indepedencia económica o que, abre caminho à democratização das relações económicas internacionais e ao favorecimento da emancipação política e económica dos países do terceiro Mundo.

O século das humilhações que vai de 1840 a 1949, desde a primeira guerra do ópio à conquista do poder pelo PCC, coincindiu, historicamente,com o século da mais profunda depravação moral do ocidente: guerras do ópio com a devastação de Pequim, as práticas esclavagistas, as humilhações...

Como disse, ainda estando lá, a China fervilha de poder e desenvolvimento, isso é claro na modernidade das suas cidades (deitam abaixo bairros inteiros e constroem belos edificios), as pessoas jovens estão ocidentalizadas, no fisico e no vestir, deixaram de ser pequenos e submissos para serem grandes e ambiciosos.

Foi uma experiência apaixonante a que liguei a visita à Expo Xangai onde estavam representados a maioria do países do mundo.


publicado por Luis Moreira às 13:30
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