Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 18– por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

(conclusão)

 

 

 

 

No dia 29 de Outubro de 1965 regressaste à pátria. Manhã radiante de sol aquela em que, de um avião da Varig, descarregaram a urna com os teus restos mortais no Aeroporto da Portela. Definitivamente separavas-te do Brasil esse país sobre o qual, nas costas de um documento de caixa da casa Magazine Mesbla, do Rio de Janeiro, deixaste este apontamento a lápis: «Quanto a escrúpulos não foram com êles que progrediram as cidades do sul da Bahia, que se rasgaram as estradas, plantaram-se as fazendas, criou-se o comércio, construiu-se o porto, elevaram-se os edifícios, fundaram-se jornais, exportou-se cacau para o mundo inteiro. Foi com tiros e tocaias, com falsas escrituras e medições inventadas, com mortes e crimes, com jagunços e aventureiros, com prostitutas e jogadores. Com sangue e muita coragem» (BNL – espólio de AB – cota 12/883), palavras que, embora não pareça, significam amor por aquela nação.

 

Seja, enfim, como escreveste! Mas doze anos e dois meses após a tua partida aqui chegam os teus ossos reduzidos ao nada das tábuas de um caixão. Começa, então, o derradeiro acto do teu drama oficialmente encenado pelos representantes (ali presentes) do ministério dos Negócios Estrangeiros, da Educação Nacional, do Instituto de Alta Cultura, alguns familiares e amigos, que acidentalmente tomaram conhecimento, e dois ou três jornalistas. Diz o Diário Popular, da tarde desse dia, que depois das formalidades alfandegárias o féretro seguiria para a Igreja da Encarnação, etapa fúnebre inexistente pois ficou na alfândega entre embrulhos, malas e utensílios à espera de despacho para um cemitério, conforme noticiava o Diário de Notícias do dia 30: «Os despojos de António Botto foram sepultados no Cemitério dos Prazeres [onde repousam] ao lado de Fernando Pessoa, de João Villaret e de outros amigos de toda a vida», para sempre supunha o repórter na sua boa fé. Afinal não tinha havido igreja nem sequer enterro pois à tarde, na primeira página, o Diário Popular tratava de informar os leitores que o funeral continuava «por não se fazer» tendo apenas saído da alfândega do aeroporto «para ficar à guarda de um cemitério lisboeta». Tão depressa se entendessem as diversas entidades seriam organizadas cerimónias fúnebres com «o expressivo nacional que o grande lírico do amor indiscutivelmente merece». Sermão? Missa cantada? Bandeira nacional? Discursos e condecorações? Uma incógnita para um programa que começava mal.

 

Demoraram um ano e treze dias a organizar essas cerimónias. Não rias, por favor, peço-te! De certo modo terás razão, pois significava que regressavas em força e mais uma vez, como aliás era de tua natureza, disposto a provocar o escândalo. Bom, o desrespeito pela tua memória a todos indignava. Sobre a tua pessoa desapareceram as notícias e das ossadas nem rasto. Há quem diga que te atiraram para uma arrecadação do cemitério, outros - por decoro - concedem-te o direito a um gavetão anónimo e alguns dão como referência vaga uma “ausência” em parte incerta. Com o tempo a história tornou-se absurda e começou a dar origem a pressões que colocavam a ridículo as três representações oficiais (Ó Botto, até depois de morto eras incómodo!). Mas não de todo foste esquecido. Amigos teus como o Aníbal Contreiras, Mário Azenha e José Galhardo, presidente da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais, não deram tréguas às autoridades forçando-as a uma decisão definitiva.

 

Na verdade eles não sabiam o que fazer contigo. Não tinham vagas onde prantar os teus ossos. Molestados com a situação chamaram a Câmara para os ajudar e o município decidiu conferir-te, não uma medalha pelos bons serviços poéticos prestados à cidade, mas um gavetão escondido no cemitério do Alto de S. João. Escrevia o Diário Popular sobre esta tua aventura póstuma: «Perseguido na vida - uma vida de malfadado destino - António Botto sofre ainda, depois de morto, esperando - como que esquecido - mais de um ano por uma derradeira morada...»(Diário Popular, Lisboa 11.11.1966).

 

No dia de S. Martinho de 1966 - tu que nunca foste um pândego dos copos - lá recolheste à morada que te deram com a modéstia de quem havia escrito «Da vida não quero nada / De tudo me hei-de esquecer...». Começou a cerimónia no grande portão oriental numa manhã de «um sol ático brilhando sobre as colinas de Lisboa», de acordo com um descritivo jornalístico e como, certamente, terias desejado. A tua urna seguiu acompanhada pelas tais autoridades em ar solene, escritores, intelectuais, gente do teatro, familiares e um reduzido número de admiradores e amigos, alguns dos quais bateram-se incansavelmente por um funeral digno. Depositaram-te no gavetão 1952 da rua 17, escondido por detrás de altos jazigos, com a singeleza da inscrição «À memória do poeta António Thomaz Boto», com um só tê, respeitando o que havias pedido numa carta endereçada do Brasil a George Lucas, a propósito de mais uma edição de Canções: «Não ponham Boto com dois tês, já me pesam» ( Maria da Conceição Azevedo dos Santos Fernandes – Dissertação de mestrado em Literaturas Comparadas Portuguesa e Francesa, séculos XIX e XX – António Botto, Vida e Obra Lisboa 1994). Uma prova de humildade que jamais havias tido.

 

O teu drama encerrava-se, enfim, na singularidade do título de O Século Ilustrado: «Um poeta arquivado numa gaveta» quando, dizia, gostarias de ter ficado no talhão dos artistas no Cemitério dos Prazeres. Esta não era efectivamente a terra prometida mas a de um destino amargo que nem a morte te soube dar com a dignidade merecida. «Quero morrer em beleza», pediste numa das tuas canções, mas não foi possível António, desculpa lá.

 

Fim

 

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Nota dos coordenadores: O texto de "António Botto no Brasil", foi expressamente preparado para o nosso blogue. Estrolabio agradece a António Augusto Sales, felicita-o pela criação de uma obra de excelência e pela sua generosidade de no-la ceder.

 

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A Julieta do Beco das Cruzes

 

 

Aos arrancos, lá vai ela

Despedir-se do amante

Nesta manhã de Janeiro!

Coitada, morre por ele!

- Foi o seu primeiro amor

E será o derradeiro

 

Todas as tardes, risonha,

Ela falava com ele

Num beco escuro de Alfama.

Era ali que ela morava;

- Até que uma noite foram

Pernoitar na mesma cama.

 

Estou a vê-la cingida

Ao corpo delgado e quente

Desse esbelto carpinteiro!

E vejo-a, dias depois,

Nervosa, afastar-se dele

Chamando-lhe: trapaceiro.

 

Mais tarde ia procurá-lo

À oficina e chorosa

Seguia-o sem que ele a visse;

E naquela perdição

Adoeceu porque um dia

Com outra o viu – mas, sorriu-se;

 

Soube-lhe bem ser «mulher»

Do homem que apenas teve

Um desejo passageiro!

Mas, agora – cruel preço!

Dos olhos fez duas fontes

E do amor um cativeiro

 

Adoeceu gravemente,

Nunca mais saíu à rua,

Sempre a tossir e a sofrer…

E era a mãe que, mendigando,

De porta em porta arranjava

Qualquer coisa pra viver.

 

Hoje, constou-lhe que a Guerra

O chamara para as linhas

Do combate – e combalida,

Vai ao embarque levar-lhe

No silêncio de um olhar

Os restos da sua vida.

 

In “Canções – “Baionetas da Morte” – livro sétimo – ed. Círculo de Leitores, Lx. 1978

 



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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 17– por António Sales


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da esquerda para a direita Abel Manta, Aquilino Ribeiro, Gualdino Gomes e Júlio da Costa Pinto à porta da Havaneza de Lisboa em 1938.

 

 

 

 

Percurso Esgotado

(continuação)

 

Durante longos doze dias a presença constante de amigos nunca deixou só D. Carminda, dia e noite a seu lado falando-lhe baixinho na esperança de o despertar do estado de coma. Botto sofre, luta contra a morte lá no fundo do seu alheamento, mas Caronte e a sua barca esperam-no na Baía de Guanabara. Há uma luz cristalina que lhe abre um caminho infinito por um túnel de cânticos. É a luz de Lisboa a abençoá-lo com as pequenas casas de Alfama a descreverem um desenho suave sobre o rio. Há varinas na rua gritando o peixe, ardinas correndo a vender jornais, amoladores de facas e navalhas anunciando-se ao som estridente da flauta. Olha o Fernando no Martinho da Arcada, o Pacheko a pintar cenários para revistas, a Amália a cantar no Luso, a Beatriz Costa a fazer uma rábula no Variedades! À porta da Bertrand está o Aquilino Ribeiro e o seu grupo e o Gualdino Gomes, esse crítico arrasador, continua a frequentar o Café Chiado onde se encontram agora os neo-realistas. Nas avenidas passam Buicks, Chevrolets, Studbakers. Vem ali o Villaret a declamar a Julieta do Beco das Cruzes e o Filipe Pinto a cantar um fado meu. Raul Leal diz-me que me esperas e tu, António Ferro, também. Já vou, já vou aí!

 

Talvez nunca se tenha sentido tão tranquilo, tão seguro de si, tão suavemente humano como neste dia 16 de Março de 1959. Não há dúvidas nem certezas, tampouco vaidades e egoísmos. Está tudo finalmente concluído e cumprido. Um silêncio de luzes mortas ilumina-lhe a estrada para além. Carminda toma-lhe as mãos e sobre elas repousa as lágrimas de uma vida. Enche-se o quarto da generosidade daquela mulher, do seu amor indimensionável. Há pessoas assim capazes de sacrifícios pelos outros. Nos limites de uma consciência para além do coma mortal reconhece na rapidez de um segundo que não tem mais o direito de a sacrificar à sua fama nem ao exibicionismo do seu talento. Fugazes sombras convidam-no como musas inspiradoras a conhecer outro território sublime. Quebra a ténue lâmina de fogo que o separa desse destino infinito e, soerguendo-se do leito, deixa-se ficar humildemente debruçado nos braços da morte a repousar da tragédia.

 

 

Após autópsia o corpo do poeta é transferido, pelas 11 horas da manhã do dia 17, para as instalações da Beneficência Portuguesa onde permanece em câmara ardente. Ali comparecem um representante do Presidente da República do Brasil e outro da embaixada de Portugal além de outras instituições. Às 17 horas desse mesmo dia, depois do «esquife [ter sido] retirado da Beneficência Portuguesa pelos representantes diplomáticos de Portugal, Associações Portuguesa e amigos» o funeral segue para o cemitério de S. João Batista com a urna envolta numa bandeira de Portugal, conforme pedido de D. Carminda. Astério de Campos faz o elogio fúnebre do poeta diante do túmulo, a sepultura nº 771. José Maria Rodrigues, que escreveu a este propósito uma reportagem emocionante, acentua que o funeral foi «vazio de gente». Em contrapartida O Globo informa que ao funeral «compareceu grande número de intelectuais, poetas, jornalistas, representantes do Sindicato dos Jornalistas, presidente da Associação Brasileira de Imprensa e populares». Celebrado, popularizado, vendido, traduzido, reconhecido no Brasil como só dois ou três escritores portugueses vivos o seriam naquele tempo; morria pobre, esquecido da pátria, desprezado pelos editores, esta figura dramática que fora essencialmente um provocador, agora morto, enterrado, sossegado e em paz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pura ilusão! Passado muito pouco tempo já se especulava sobre as posições da embaixada de Portugal em ter criado dificuldades para a transladação do corpo para Portugal, conforme a vontade de D. Carminda, tornando o acto inviável. Afirmava-se também que a embaixada não teria dado a merecida atenção à morte do poeta, notícias que obrigaram a embaixada a publicar nos jornais um esclarecimento sobre a forma como actuou não faltando com a sua presença e colaboração no acto fúnebre e pagando todas as despesas com o funeral. Na verdade, o cônsul português no Rio de Janeiro terá explicado à viúva que a transladação dependeria do consentimento das autoridades de Lisboa (jornal A Voz de Portugal) o que demoraria imenso tempo. Por cá, isto é, em Lisboa, dizia-se que as autoridades, ou melhor a autoridade Salazar é que não concedera licença para tal.

 

A tua saga, António, estava ainda longe de terminar mesmo depois de morto. Mas isso que importava se o melhor elogio à tua pessoa, se assim o quisermos entender, seria publicado no mês de Abril, no nº. 22 da revista Leitura–a revista dos melhores escritores, na secção “Os dias, os factos, os homens”: «pediu [António Botto], antes de morrer, para ser enterrado em Portugal. Dificuldades de ordem burocrática negaram ao poeta o seu último desejo. (…) Assim, como Portugal não reclamou o seu Poeta, nós o guardaremos até o dia em que poetas portugueses mortos em exílio voltem a ter lugar no coração da pátria.», o que só viria a acontecer seis anos depois.

 

Apesar de tudo o Brasil foi teu amigo.

 

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História Breve de Uma Boneca de Trapos

 

 

Era uma vez uma boneca

Com meio metro de altura.

 

Insinuante, bonita,

Mas. Pobremente vestida.

 

Um ar triste – uma amargura

Diluída no olhar …

 

- Grandes olhos de safira,

E um sorriso combalido

 

Como flor que vai murchar.

 

 

Quase a meio da vitrine

Lá daquela capelista

Essa boneca de trapos

A ninguém dava na vista!

 

Ninguém via o seu sorriso!

 

Ninguém sequer perguntava:

 

Quanto vale a «marafona»?

Quanto querem pla «Princesa»? …

 

Passaram anos – Com eles,

Foi a minha mocidade

E cresce a minha tristeza.

 

Quem é que dá pla Boneca

Que os meus olhos descobriram

 

Lá naquela capelista

Quase à esquina do jardim? …

 

- Quem dá por ela? Ninguém.

 

E quantas almas assim!

 

(In “Canções – Intervalo” – pag. 179 – ed. Círculo de Leitores – Lx. 1978)



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Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL . 16 – por António Augusto Sales

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Percurso Esgotado

 

(continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mês e meio separa-o da morte, um tempo que não posso reconstituir por ausência de acontecimentos relevantes para António Botto. Tudo vulgar, tudo normal, como se um vazio se tivesse abatido sobre o poeta durante esse curto período. Modesta a vida do casal, sem aquelas peripécias de incumprimento de dívidas e até a saúde tinha estabilizado na sua fragilidade. Estava sereno como raras vezes estivera nos últimos anos pois não andava aos tombos, mais por mercê dos amigos que visitava, diga-se em abono da verdade, que por sua iniciativa de trabalho. Paulo Rabello era assíduo mártir das suas investidas, Pedro Bloch – seu médico dedicado – dava-lhe consultas graciosas, Danton Jobim e Saldanha Coelho ajudavam-no muitas vezes segundo o diz Alberto da Costa e Silva no seu livro Invenção do Desenho. As noites, senão todas muitas delas, eram ocupadas no restaurante “O Corridinho”, casa típica portuguesa onde costumava dizer poesia para ganhar uns cobres. Dias antes de ser atropelado concede uma entrevista que virá a ser publicada já depois da sua morte no jornal A Voz de Portugal, na página de espectáculo Esta Semana Aconteceu, dirigida por José Maria Rodrigues também correspondente da revista portuguesa O Século Ilustrado. A entrevista acompanha uma emocionada e comovedora reportagem sobre a morte do poeta e terá sido a última que ele deu antes de falecer. Ocupa meia página com duas fotos onde podemos ver além de António Botto, o proprietário António Mestre e Ivone Ruth, o cronista Marcos André, o editor António Pedro Rodrigues e o citado jornalista a quem o escritor responde que vão aparecer novas obras suas as quais «foram batizadas com estes nomes que [lhe] parecem bastante sugestivos: Ainda não se escreveu, primeiro volume de 500 páginas [tinha que ser coisa em grande], Os Mastros do meu Navio, O Livro da Revolta Mundial» e vai por aí fora com mais cinco títulos e um estudo sobre Fernando Pessoa. Longe das tais quinhentas páginas só apareceu postumamente o primeiro título, os outros correspondem a projectos ou trabalhos em esboço como seria o caso de O Verdadeiro Fernando Pessoa (BNL – espólio de AB – cota E12/198) em que Botto evoca a sua amizade com o poeta de Ode Marítima, as conversas no Martinho da Arcada e os conselhos que lhe dava como se fosse o seu guia. «A sua obra não era obra, não nos deixou obra alguma; deixou dispersos desarrumados em prosa e verso», escreve sobre o homem que morre, efectivamente, com os «dispersos desarrumados» e quase desconhecido, mesmo no seu país, classificando as Odes de Ricardo Reis um «jogo gongórico» em que teria procurado imitar-lhe as Canções. Mesmo sendo um texto que não teve publicação a indesmentível amizade de Fernando Pessoa, este sim verdadeiro amigo e impulsionador da sua obra, merecia mais sensatez.

 

Deambulava na noite do Rio, escrevi na primeira edição (António Botto, Real e Imaginário – edição Livros do Brasil - Lisboa 1997) quando foi atropelado na Avenida Copacabana, em frente ao Lido, em 4 de Março de 1959. O verbo deambular transmite a ideia de que António Botto andaria por ali à deriva o que não era o caso. Hoje sabe-se que teria decidido ir ter com o seu amigo Paulo Rabello pelo que saiu de casa (ali perto), com vestimenta ligeira e sem documentação. Nessa altura já bastante surdo, ao atravessar a movimentada avenida o poeta é atropelado por um veículo do governo brasileiro (automóvel da aeronáutica informam uns jornais, um camião noticia outro), cujo motorista põe-se em fuga mas sendo a matrícula registada por transeuntes é depois participado às autoridades. Entretanto, Botto fica imobilizado no asfalto com fractura de crânio até ser posteriormente conduzido para um hospital. A ausência do poeta ao encontro com Rabello leva o advogado e D. Carminda a contactarem amigos, polícia e hospitais onde será localizado na madrugada do dia cinco em estado de coma.

 

Quando a imprensa começa a noticiar o acidente damos conta de várias versões sobre o hospital em que a vitima terá dado entrada, seja no Hospital do Pronto-Socorro, no Miguel do Couto ou no Sousa Aguiar, onde na verdade veio a falecer. A questão da transferência para outro hospital enquanto vivo (também falada para o Gomes Lopes), não se terá verificado por oposição dos médicos Guilherme Romano e Herbert Moses, que o assistiam, dada a gravidade do seu estado (Voz de Portugal, 22.03.1959). Transferência houve, sim, mas para um quarto particular por ordem do secretário da saúde do Rio de Janeiro.

 

Logo que o poeta foi identificado apresentaram-se no hospital representantes da prefeitura da cidade, das associações portuguesa e brasileira de imprensa e da brasileira de escritores. O embaixador português, Dr. Manuel Rocheta, que se encontrava fora da embaixada, providenciou para que o cônsul geral visitasse o sinistrado e providenciasse no que fosse preciso. Em Portugal a imprensa escreve que António Botto deu entrada no hospital como indigente, fazendo assim acreditar que ele encontrava-se num estado de extrema pobreza. De facto, como indigente o registaram por ser um sinistrado desconhecido e indocumentado que após ter sido identificado nada lhe faltou.

 

Apesar do comportamento muitas vezes criticável, das frequentes confusões em que se metia, dos permanentes empréstimos que pedia, das mentiras com que alimentava a sua personalidade, Botto jamais foi escorraçado ou abandonado nos piores momentos. O Brasil que o acolheu em glória também o respeitou na modéstia da sua condição de escritor em decadência não deixando sequer de dar uma larga cobertura jornalística aos acontecimentos dos seus últimos dias.

 

(continua)

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As Canções de António Botto

 

 

Toda a Vida – poema 1

 

Pág. 319 – ed. Livraria Bertrand – Lx. 1956

 

 

Se fosses luz serias a mais bela

De quantas há no mundo, - a luz do dia.

Bendito seja o teu sorriso

Que desata a inspiração da minha fantasia.

Se fosses flor

Serias o perfume, concentrado e divino,

Que perturba o sentir de que nasce para amar.

Se desejo o teu corpo

Para nele poder todas as noites pernoitar

É porque tenho, dentro de mim, -

A sede e a vibração de te abraçar,

Sabendo, de antemão, que vais gostar

De eu o saber atravessar, nessa nudez

Em que podemos, ambos, tudo sentir

Sem nos cansar, -

E adormecer, E repetir.

 

Se fosses água, música da terra,

Serias água pura e sempre calma.

 

Mas de tudo que possas, ainda, ser na vida,

Só quero, meu amor, que sejas alma.



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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 15– por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Percurso Esgotado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

 

 

 

À meia-noite uma multidão espalha-se pela Baía de Guanabara festejando ruidosamente o novo ano de 1959, último de uma década tempestuosa: conflitos, doenças, hospitais, dívidas, despejos, pobreza, um gigantesco saco de maleitas que o perseguiu sem que os êxitos, poucos, o tenham compensado. Um tempo longo, António, sem nada a acrescentar à tua obra de Lisboa. O que há são textos, poemas soltos, artigos, ensaios, rascunhos de memórias, trabalhos sem unidade que confiram carácter até porque o livro Ainda não se Escreveu não é significativo.

 

Com quem brindaste no instante simbólico de mandares para o lixo o tempo das más recordações e erguer a taça das ilusões reconquistadas, agora que o destino parece querer recolocar paz e ordem no teu espírito? Com amigos, certamente, mas com Carminda em particular, selando a esperança de ambos. Parece um pacto bizarro, no mínimo insólito, o da vosso relação íntima de mais de trinta anos que nada teve a ver com paixão, prazer ou atracção física, coisas arredadas pela tua homossexualidade confessada e consentida por Carminda desde a primeira hora. Neste caso a palavra amor traduz uma relação afectiva cuja raiz platónica não impediu, antes reforçou, laços de mútua generosidade e sacrifício.

 

Carminda da Conceição Rodrigues foi a mulher da sua vida não pela beleza mas pelos anos que viveu com o poeta participando dos seus êxitos e fatalidades com devota admiração. Sem desfalecimentos, senhora de uma coragem silenciosa, foi a aduladora sombra feminina tornando menos agrestes as amarguras e angústias consequentes das agitações do seu feitio. Nesse longo e doloroso percurso foi sua mulher de facto e não de passagem. Fiel apesar da solidão sexual, generosa na humildade espiritual da sua presença, paciente na consciência do seu sacrifício. Se não lhe desejaste o corpo ela ofereceu-te a alma compreendendo o teu comportamento e criando em teu redor, com a sua companhia, um poema sem nome deitado na trajectória da tua vida. Por conseguinte é justo que inscreva neste livro algumas linhas que a retirem do esquecimento dos humildes, elevando a simplicidade de um caso de amor dedicado capaz de dar sem pedir nada em troca.

 

Nesta história tu não foste menor, António, foste mesmo surpreendentemente amante no sentido de um companheiro que retribuiu oferecendo de si o carinho e a dignidade que Carminda merecia. Apesar do teu exacerbado narcisismo não a repudiaste nem a desprezaste, porque a teu lado a quiseste como tua mulher mesmo nos acontecimentos públicos da tua vida. É difícil interpretar este comportamento generoso num homem de vincado egoísmo pela sua personalidade. Em tudo quanto escreveste ou disseste a seu respeito não se encontra um queixume, uma palavra de crítica, um desabafo onde a desmereças. Pelo contrário, Carminda surge como a companheira com quem divides sacrifícios mas também repartes bons momentos, ou para quem procuras encontrar meios de minorar a tristeza dos dias de chumbo. Nas piores situações, quando o desânimo e a revolta tomam conta da razão, não se encontra um arrependimento por essa união em que as dores do viver deram asas aos sentimentos.

 

Fica dessa relação uma imagem de indefectível amor como se qualquer coisa inexplicável vos ligasse. Custa-me defini-la de felicidade, palavra aplicada às alegrias e fortunas da vida quando tudo corre sem sobressaltos. Não obstante, entendo que também pode existir felicidade no sofrimento quando este nos fortalece e aguenta unidos apesar dos erros e desaires. Embora vaidoso, megalómano, estou convicto que na solidão das tuas mágoas choraste algumas vezes as lágrimas de ambos, lágrimas de um homem que pagou caro os defeitos do seu carácter mas soube, sem hesitações, minorar o silencioso drama da sua companheira de uma vida.

 

Mal despontara o ano de 1959, mais precisamente no mês de Fevereiro, já o nosso poeta teria transferido novamente a residência, agora para a Avenida Princesa Isabel (onde fazia tenda a portuguesa vendedora de galinhas que lhe emprestara o dinheiro para o médico), visto ser esse o remetente da segunda carta que Botto endereça a Salazar. Nesse mês adquire na Casa Samuel Rodrigues (vendia rádios, refrigeradores, pianos), sedeada na Avenida Copacabana, um conjunto de artigos no valor de 44.000 cruzeiros, entregando 20.000 à vista e o restante em prestações com letras de 2.400 cruzeiros cada. Parece, então, que as coisas iam melhor. Em termos de saúde sem dúvida, de bem-estar deixara para trás as casas miseráveis onde até aí vivera, de dinheiro nem falo pois adquirira o hábito de viver emprestado com “honrados” calotes a que habituara os amigos. De qualquer modo tudo aponta para uma certa estabilidade capaz de proporcionar a recuperação da sua obra criando algo de novo o que até aqui não tinha acontecido. Os inéditos careciam de unidade, estrutura literária, inspiração capaz de representar renovação na sua obra. Títulos existem vários, indicações também, mas tudo sem sequência nem orientação. Não se encontra um fio, uma identidade, uma forma de comunicação literária entre o seu mundo e o dos outros.

 

Embora António Botto não deixe transparecer mas a glória advém-lhe do passado. É possível que o excessivo culto pela sua pessoa o impedisse de tomar consciência da debilidade que a sua imagem literária ia assumindo, admito, porém, vislumbres dessa consciência escondida dos outros como de si próprio. Resulta daqui uma frustração maligna em relação ao Brasil consequente da inadaptação ao tipo de vida, ao carácter temperamental e alegre do povo, àquela imensidão que confere uma dimensão do mundo bastante para além do nosso umbigo. Botto foi um deslocado em terras brasileiras e o êxito surpreendente da chegada só serviu para alimentar ilusões que acabaram por marcar a sua alma com a agonia da decadência.

 

Nesta trajectória biográfica a aproximar-se do fim compreendo melhor a personalidade do poeta que imolou o seu talento pela vaidade. Contudo, afirmou-se sem lançar anátemas e infelicidade sobre destinos alheios. Gerou invejas e semeou antipatias com as suas mentiras e inimigos com a sua má-língua, não digo inocente mas participativa das tertúlias literárias e que Lisboa adorava. Os actos mais críticos e prejudiciais, as atitudes mais frívolas e imponderadas, a obsessiva paixão pelo sucesso e pela glória constituíram um roteiro de provocações contra si próprio. O grande inimigo foi o prazer exacerbado com a sua pessoa, a grande fraqueza o luxo da celebridade, a maior pobreza a sua falta de convivência com a humildade. Nada disto, porém, ofusca a beleza da maioria dos seus poemas e outros textos.

 

Tinhas talento? Certamente que sim. Os teus detractores podem querer apagar a importância da tua obra poética (sobretudo) mas não podem riscá-la do movimento modernista português dos anos vinte. Aliás, sempre soubeste isso, acontece que não soubeste foi gerir o teu talento, a tua arte. Agora que esse talento está gasto aproveita ainda a esperança em o reanimares. Se puderes aproveita-a bem porque a esperança será intemporal enquanto a felicidade, pelo contrário, é curta e a tua está esgotada.

 

(continua)

 

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Poema de Cinza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

À memória de Fernando Pessoa

 

Se eu pudesse fazer com que viesses

Todos os dias, como antigamente,

Falar-me nessa lúcida visão –

Estranha, sensualíssima, mordente;

Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,

Meu pobre e grande e genial artista,

O que tem sido a vida – esta boémia

Coberta de farrapos e de estrelas,

Tristíssima, pedante, e contrafeita,

Desde que estes meus olhos numa névoa

De lágrimas te viram num caixão;

Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,

Voltávamos à mesma: Tu, lá onde

Os astros e as divinas madrugadas

Noivam na luz eterna de um sorriso;

E eu, por aqui, vadio da descrença

Tirando o meu chapéu aos homens de juízo …

Isto por cá vai indo como dantes;

O mesmo arremelgado idiotismo

Nuns senhores que tu já conhecias

- Autênticos patifes bem falantes …

E a mesma intriga; as horas, os minutos,

As noites sempre iguais, os mesmos dias,

Tudo igual! Acordando e adormecendo

Na mesma cor, do mesmo lado, sempre

O mesmo ar e em tudo a mesma posição

DE condenados, hirtos, a viver –

Sem estímulo, sem fé, sem convicção …

 

Poetas, escutai-me! Transformemos

A nossa natural angústia de pensar –

Num cântico de sonho!, e junto dele,

Do camarada raro que lembramos,

Fiquemos uns momentos a cantar!

 

(in As Canções de António Botto – ed. Livraria Bertrand, pág. 245, Lx. 1956)

 


 

 

 




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Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 14– por António Sales

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os Últimos Anos de Infortúnio

(continuação)

 

Após ser obrigado a abandonar a residência da Almirante Alexandrino o casal aloja-se numa casa má na Rua Joaquim Murtinho, nº 549, ainda no bairro de Santa Teresa. Este terá sido um tempo negro como se depreende pela carta endereçada ao seu grande amigo e advogado Paulo Rabello a quem confessa que se tem privado de tudo: «Vendi tudo de valor quanto tinha. A última derradeira jóia que vendi foi um relógio de pulso Patek, todo em ouro». Data deste período o único desabafo que encontramos acerca da mulher: «Não gosta de se desfazer dos vestidos, sapatos, chapéus, jóias, mesmo que precise de pão para a boca». Mesmo estas considerações revelam exagero como se falasse de um moderno guarda-roupa, que não era o caso visto ambos vestirem modestamente segundo as observações de diversos dos seus amigos.

 

Mal instalado, sobrevive da colaboração em jornais, dos direitos de autor que vai recebendo, do auxílio dos amigos. Declama poesia num restaurante típico português ganhando, mal, o sustento diário: «Comemos arroz, café, chá, um resto de queijo e pão», escreve num dos seus dolorosos apontamentos da segunda metade de 1958. Para o médico de Carminda pede 1000 cruzeiros emprestados a uma portuguesa com venda de ovos e galinhas na Avenida Princesa Isabel, mas no dia seguinte a mulher não leva a primeira injecção «porque não havia dinheiro para o pavio, quanto mais para a vela».

 

A Portugal chegam ecos desta situação e um articulista do jornal O Século escreve, por altura do falecimento do poeta, na secção “Últimas Notícias” (19 de Março de 1959), algumas linhas trágicas a encerrar uma breve nota biográfica: «Um dia, após anos de silêncio, soube-se aqui que o cantor das quentes noites lisboetas estava num asilo de indigentes, para onde o remetera a caridade alheia. Fora preso por vadiagem na grande metrópole projectada para o céu em gritos de cimento, quando abordava transeuntes e lhes sussurrava: - Sou o António Boto. Vinte cruzeiros por um poema». Esta fantasia, derivada certamente do processo de internamento hospitalar na Santa Casa da Misericórdia, ajuda-nos a compreender os exageros que envolveram a vida e a carreira literária do autor de Dandismo porque no Brasil, como em Portugal, o dinheiro entrava-lhe nos bolsos e saía deles com grande facilidade. O próprio Botto regista que Samuel Ribeiro «honrado santista, e cultura aprimorada», ofereceu-lhe trezentos mil cruzeiros, «como lembrança de um lial admirador de toda a minha obra» (sic). Concluo que boa parte das dificuldades financeiras com que sempre lutou deveram-se à sua total ausência de economia.

 

Paulo da Cunha Rabello é advogado, director-gerente da Sociedade de Incorporações e Realizações, Lda., intelectual e poeta, amigo e admirador de António Botto a quem este recorre e mais abertamente se confessa nos momentos de maior dificuldade. A partir de Niterói Paulo Rabello torna-se uma espécie de anjo da guarda do nosso compatriota pois não só o defende nas questões jurídicas como lhe facilita a resolução dos problemas que delas resultam. Em Junho de 1958 o advogado recebe do tribunal a ordem de despejo da Av. Almirante Alexandrino e apesar de Botto se alojar na Rua Joaquim Murtinho não deixa de procurar, com a colaboração do amigo, outro local onde possa viver com dignidade e respirar com esperança. Inicia então uma batida por Copacabana em jornadas exaustivas e desanimadoras pois o que vê é «tudo caro e mau». São dias tristes, angustiantes, dolorosos, que o poeta regista no seu diário. Em 13 de Outubro o casal passa pelo escritório de Paulo Rabello onde a par da informação sobre a jornada falam da peça A Raposa e as Uvas, de Guilherme de Figueiredo, em cena no Teatro Copacabana. Antes de regressarem a Santa Teresa «debaixo de uma chuva horrível, peganhenta, em que a cidade velha, escura, desmantelada, nos comunica o frio da desgraça e da morte», procuram um pouco de conforto e calor humano com esse amigo de todas as horas, conversando sobre poesia, sobre acontecimentos correntes como seja o aniversário da Elbi (?) com quem Botto diz ter dançado duas vezes. Depois a noite cai, o dramaturgo de Alfama retoma a realidade para regressar a casa e ao deixar o “bonde” atravessa a Joaquim Murtinho cruzando-se com «ratos, ratazanas e baratas» que passavam diante de si. Nessa casa gélida, pobre, «miserável» como lhe chama, posso imaginar que todos os dias, mesmo nos de sol, acorda com «o céu pesado, da cor dos cemitérios», conferindo ao drama do casal a dimensão da tragédia não fora a intervenção de Paulo Rabello em conseguir um «apartamento salvador». Nesse Dezembro de 58 faz no notário um contrato de locação com o Dr. Firmino Von Doellinger da Graça, representado por sua esposa na escritura do apartamento 902, situado no 9º andar do edifício Granada, Rua Belfort Roxo, nº 169, Bairro de Copacabana. O contrato estabelece uma renda de 1000 cruzeiros por mês, ficando Cunha Rabello como fiador e responsável contratual o que só comprova que António Botto tinha, de facto, amigos. O desafortunado ano de 1958 acabava a flutuar entre a tranquilidade e a esperança de uma paz que tardava em chegar. Apesar do tempo lhes ir fugindo os seus corações estremeciam na fé de que ainda teriam direito ao seu pequeno naco de felicidade.

 

 

 

 

 

 

Tomado pela consciência do íntimo silêncio de si próprio, onde fenece a chama criativa dos anos vinte e trinta, pouco fala do que escreve. Toca-lhe a dor e o desespero que caracterizam os versos do seu drama mas falta-lhe a voz da sedução e a capacidade em provocar emoções violentas e profundas como fora o caso da “Polémica das Canções” que arrebatou a intelectualidade lisboeta nos idos anos vinte. Todavia, de 1958 data uma introdução ao livro Mastros do meu Navio, que não chegou a publicar, aproveitando-a em Ainda não se Escreveu, obra póstuma cujo original enviou para as Edições Ática, em Lisboa, pouco tempo antes de falecer e onde acabará por ser editada. «Depois de onze anos ausente da minha Pátria, sem publicar, sequer, uma única obra inédita, apareço finalmente. A mim, meteram-me numa cova rasa, e puseram este letreiro para quem passasse e olhasse: - morreu de vez. Porém ressuscitei, não ao terceiro dia, como o Deus que nos faltava, mas ao cabo de onze anos (..)». Mais valia que não tivesse ressuscitado este escritor a quem a doença foi minando o talento, fragmentando o tempo e o verso sem epopeia e sem arte. Na mente do poeta interceptam-se segmentos rápidos de memórias, esfumam-se no espaço rostos de amigos, lides literárias, tertúlias, conferências, bastidores de teatros, dislates de conservadores e provocações que criaram escândalos. Anjos anunciadores de recordações passam acenando-lhe gestos simples de amor e amizade. Muito embora António Botto sinta nos seus amigos brasileiros carinho e manifesto calor humano percebe que a sua realidade se tornou fugidia como uma pena levada pela maré nos mares de Iemanjá.

(continua)

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As Canções de António Botto

 

Dandismo

 

(Poema nº 16 – pag. 123 – nova edição Livraria Bertrand 1956)

 

Anda um ai na minha vida

 

Que me lembra a cada passo

A distância que separa

O que eu digo do que eu faço

 

Quem mo deu

 

- Partiu! …

Deixou-me na agrura

Interminável e fria

 

De ter de o guardar

Como único recurso

De poder viver ainda …

 

Anda um ai na minha vida,

Como lágrima que passa,

Que passa, - mas que não finda.

 

Dizê-lo? – nada lucrava.

Guardá-lo? – morro a senti-lo,


Anda um ai na minha vida

Que me lembra a cada passo

A distância que separa

O que eu digo do que eu faço.


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Domingo, 30 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 13– por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os Últimos Anos de Infortúnio

(continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Brasil que lhe ofereceu glórias não lhe poupou desgraças. Humanamente o poeta esquece as primeiras e enreda-se na malha das segundas. Na sua psique fragilizada acumulam-se recalcamentos que alivia em apontamentos escritos sobre o país escolhido para emigrar. No diário, entre 13 de Outubro e 23 de Novembro de 1958, talvez num dos mais tristes momentos da sua vida, António Botto não poupa comentários críticos e depreciativos em impressões avulsas, na maioria telegráficas, indicando pessoas, marcas, coisas, observações da vida corrente, estabelecendo o contraponto entre a nação rica e «a miséria [que] é o pão de cada dia». A sua realidade conjugada com um envolvimento social difícil deprime a ponto de proclamar a revolta interior de forma algo violenta: «Levanta-te Rei D. João VI, e vem presenciar este novo campo de concentração para os que trabalham. Os outros, os magnates, esses arrastam correntes de ouro pelas ruas da capital desprezada, cheia de lixo e covas onde se podem enterrar os pobres» (BNL- espólio de AB – cota E 12/63).

 

 

Botto foi sempre um homem sensível à miséria social, provavelmente pela vincada memória das suas origens sobre as quais podia mentir mas não se podia furtar. Em muitos dos seus poemas e outros textos encontramos solidariedade com a dor e infelicidade alheias. Creio que foi sincero no desgosto perante o drama dos outros onde integrava também o seu. A realidade dos que labutavam no charco da ignorância e da pobreza entristecia-o, pelo que não deixou de se emocionar com o destino daqueles que viviam no limbo do sacrifício. Daqui deriva, certamente, a imagem de um Brasil «árido [onde], a hostilidade é o brazão sem nobreza deste país condenado pela política» (BNL-espólio de AB-cota E 12/163). Não obstante ser política qualquer crítica social (mesmo a sua), o lusitano poeta declarava-se «visceralmente anti-política», pois dizia: «…De resto não sou um político: sou um poeta» (Revista da Semana), o que não o impediu de escrever, provavelmente em 1954, durante o levantamento popular na Hungria, o Poema aos Estados Unidos da América sem Política Nenhuma (inédito dactilografado no espólio), de gosto duvidoso mas suficiente para concluir que o seu autor era manifestamente anti-estalinista e anti-comunista. E não serão por acaso políticas as duas cartas escritas a Salazar? Remetida a primeira, ainda em 1958, da Almirante Alexandrino, felicitas o ditador pelo aniversário que ocorrerá em 27 de Abril, informando-o que o teu maior desejo seria estar em Lisboa nessa data para poderes «apertar a sua mão comovido e feliz».Um caso de idolatria, para não dizer bajulação, a repetir-se na segunda, datada de 2 de Fevereiro de 1959, em que manifestas a tua veneração de sempre para com o ditador, «Agora que esse caso deploravelmente lamentável do sr. General Humberto Delgado deixou de andar nas notícias de jornais, todos os dias, como oposição que foi (…)». Para quem era «visceralmente anti-política» tornava-se evidente que a política não te era de todo indiferente, ou pelo menos um certo tipo de personalidades políticas, como se deduz pela desconfortável leitura das duas cartas carregadas de elogios. Estes serão, contudo, pecados menores ditados pelo exagero que punhas nas palavras e atitudes como se representasses em palco a figura de António Botto por ti próprio. Este exercício de um salazarismo servil, jamais manifestado enquanto viveste em Portugal, só encontra explicação no desejo secreto que acalentavas de regressar à pátria. Salazar nunca te respondeu. Salazar não gostava de ti.

 

O caso da tua exoneração compulsiva da função pública foi disso significativo embora o inquérito oficial tenha englobado sete funcionários, entre os quais três senhoras. Na altura (1942) eras 1º escriturário de 2ª classe do Arquivo Geral do Registo Criminal e Policial e foste acusado de “Não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social; Fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição (…)”. Publicado o resultado do processo no Diário do Governo Botto vem para a rua e passou a vangloriar-se publicamente de ser o primeiro pederasta português com direito a reconhecimento oficial, chegando a mandar imprimir cartões de visita com tal classificação. A sobranceria sarcástica do autor de Ciúme acerca da deliberação que o atinge esconde um presumível ressentimento sobre a decisão pública, a qual terá efeito devastador na sua vida. A nova ordem jesuítica do salazarismo nunca lhe perdoou a personalidade arrevesada e provocatória atacada por muitos mas também defendida como forma de salvar o poeta e a sua obra da onde de hipocrisia moralista.

 

Na prática colegas de letras afastaram-se, ou cortaram relações, com António Botto devido ao seu homossexualismo e feitio maledicente origem de sérios dissabores de que o período do Brasil não foi excepção. Queixava-se, por isso, de ser esquecido pelos amigos, não ser acarinhado como sentia merecer, do infortúnio que o atingia ao ponto de considerar que «a perseguição [entrara consigo] no barco». A estiagem da sua carreira literária e a arquitectura de fantasias roubam-lhe lucidez pois classifica-se figura ilustre à qual a Colónia Portuguesa não presta homenagem, antes lhe torpedeia os lugares que tem nos jornais Mundo Português, Voz de Portugal e Globo. Na realidade todos são culpados das suas desgraças e ele o único inocente, como podemos ler em registo inédito: «Acabo este livro de impressões sobre o Brasil, pedindo uma indemnização ao Império da Banana porque vim iludido com as falsas reportagens de tanto cretino comprado para as fazer. Indemnização pela neurastenia., pela perda da saúde, pelos aborrecimentos, pela perda da vontade pela vida, e pela soma de infâmias que pretenderam com a semente da inveja manchar o meu nome limpo de artista, de Homem e de Poeta» (sic) (BNL-espólio da AB- cota E12/174).

 

Estes desabafos fortemente ditados pela amargura de situações desesperadas não correspondem literalmente à verdade. António Botto sentia prazer em lamentar-se pelas desatenções de que era vítima esquecendo-se que imensas vezes as motivava. Não obstante, são incontroversas as provas de constante e verdadeira amizade de muitos portugueses e brasileiros ali radicados. Rodearam-no de atenções, proporcionaram-lhe oportunidades, ajudaram-no moral e materialmente impedindo a sua queda total. Mesmo nos piores momentos, apesar de Botto nada de relevante ter acrescentado à sua obra publicada em Portugal, desfrutou de condigna posição entre a intelectualidade brasileira e destaque na imprensa como se verifica no noticiário do seu internamento na Beneficência Portuguesa e depois nas circunstâncias da sua morte.

 

(continua)

 

Em cima: Retrato de António Botto por Almada Negreiros

 

Damos hoje início a uma pequena antologia de poemas de António Botto:

 

Canção Mutilada

 

A tarde cai amaciando a terra,

E enchendo-a de miragens tentadoras

Enquanto o sol,

 

Nos últimos alentos,

Se prende aos galhos de um arbusto

Que, ressequido, à beira de uma ermida,

Parece o próprio símbolo da vida.

 

De enxada ao ombro, alguns trabalhadores,

Pisam o pó e as pedras dos caminhos

- Como bandeiras humanas

Movidas pelo infortúnio,

Sem alegria, sórdidos, curvados,

Mas enormes no seu frémito de luta!

 

Ah!, nem a Morte quer os homens

Quando eles são desgraçados!

 

As estrelas lá, no alto,

Riscam cintilantes brilhos.

 

E em bandos –

Os maltrapilhos,

Silenciosos e ateus,

Zombam do Amor

E até de Deus!

 

A miséria

Quando atola

O homem nos seus negros labirintos,

Dá-lhe, também, a loucura

Dos mais trágicos instintos …

 

Agora, neste momento,

A noite –

É uma imensa realidade …

 

E eu julgo ver a Justiça

Afundar-se na penumbra

Da sua inútil verdade.

 

NOTA - Este poema de A. Botto é datado de 1936 e vem incluído no livro “Imagens do Alentejo”, da colecção “Amanhã”, que era dirigida por Henrique Zarco e o livro de sua autoria. A obra foi editada em 1936 e Botto foi convidado a fazer o poema.



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Sábado, 29 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 12– por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os Últimos Anos de Infortúnio

(continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O caso Martinez, a doença e o internato, têm o seu quê rocambolesco. Segundo o próprio Botto explica pelo seu punho (BNL,espólio A.B.-cota E12/175) num apontamento a lápis tomado numa toalha de mesa em papel, da Casa Atlântica da Avenida Copacabana. Foi internado na enfermaria (sublinhado meu) 268 da Real Benemérita Sociedade de Beneficência Portuguesa que viria mais tarde a público explicar tratar-se não de enfermaria mas do quarto particular nº 268. O certo é que Botto tece fortes queixas à assistência na instituição pelo que no dia 6 de Novembro passam-no para o quarto particular nº 254. Mas o poeta afirma que em todo este tempo em vez de melhorar piora e troca os cuidados do Dr. Paulo Brás pelos do cirurgião Renato Machado. Afinal, que doença, ou doenças, atacam António Botto a um ponto de tal gravidade?

 

A garganta e os ouvidos sabemos serem órgãos frágeis neste homem que sempre os tratou mal. Os exames radiológicos mostraram opacidade nos seios da face e do crânio e a última análise deu maus resultados mas desconhece-se a origem. Nada é possível garantir e a polémica da assistência prestada pela Beneficência Portuguesa arrastou-se pelos jornais ao ponto daquele hospital prestar esclarecimentos públicos, informando que não sendo António Botto sócio da instituição ali foi internado gratuitamente. Acusações aparte, Botto acabou pedindo ao ministro Lafayette de Andrade, simultaneamente provedor da Santa Casa da Misericórdia, transferência para esta instituição, que lhe foi concedida e concretizada no dia 29 de Dezembro daquele malfadado ano de 1955. Cabe ao médico Luciano Rossi assisti-lo e logo no dia 10 de Janeiro de 1956 uma análise ao sangue não vaticina nada de bom, mas desconhece-se a doença.

 

Na Misericórdia o poeta é instalado no quarto nº 18, da 14ª enfermaria, aquele onde viria a ocorrer a célebre entrevista de José Alberto Teixeira Leite, com fotos de Alberto Ferreira, publicada em 19 de Maio de 1956, no nº 20 da Revista da Semana, do Rio de Janeiro, entrevista onde afirma que aos sete anos partira para Inglaterra e com dezoito incompletos principiava «a publicar no Suplemento Literário do jornal The Times Square os [seus] primeiros ensaios sobre escritores daquele tempo». Confesso, António, que fiquei perplexo com esta colaboração desconhecida, certamente por ignorância minha e de muitos outros que escreveram sobre a tua obra e a tua pessoa. Penitencio-me, até porque não fui confirmar tal colaboração ao Times Square, assim como a história de teres sido matriculado numa «escola de comprovada categoria», a fim de tirares um curso de arquitectura, são efabulações para brasileiro ler.

 

Eras assim, um contumaz esbanjador de grandezas pois nem sequer reconheceste, perante o jornalista, as tuas dificuldades económicas: «Não estou na indigência, de modo algum. Tenho ainda as minhas propriedades em Portugal e meus livros publicados em várias editoras (…) rendem-me direitos autorais». Uma parte era verdade, outra ficção. Não estarias na indigência, é facto, mas o teu senhorio, Manuel Vitorino, preparava-se para te fazer as malas com uma acção de despejo. Quanto aos estudos, frequentaste em Lisboa a escola primária e pouco mais visto o resto ter sido resultado do autodidatismo o que não é nenhuma desonra.

 

A leitura da entrevista traduz um tom ameno e até uma certa boa disposição, o que não invalida a exigência de cuidados com a saúde do poeta, sendo operado, em Outubro de 1956, no Hospital da Gambôa (Cais do Maná), por qualquer razão que se desconhece. D. Carminda, mulher fidelíssima e de indiscutível solidariedade para com o seu marido, por essa ocasião rondando os setenta anos, é assaltada dentro do hospital pelo método do esticão, ficando sem a mala, dinheiro e documentos. António Botto, após a operação regressa à Santa Casa da Misericórdia sendo surpreendido por um carta do ministro Lafayette de Andrade, que o transfere para o Hospital de Nossa Senhora do Socorro no dia 23 de Novembro de 1956, no desejo de proporcionar maior conforto ao doente.

 

No fim desta infeliz trajectória hospitalar o autor de Baionetas da Morte regressa a casa, na Almirante Alexandrino, onde o espera o senhorio com um rol de rendas em atraso, aliás, contestadas pelo inquilino, num processo que ser-lhe-á desfavorável obrigando-o a abandonar a casa em Abril de 1958. Tinham corrido no Brasil onze anos de malfadada sina, agora faltavam-lhe apenas onze meses para a chegada da malfadada morte.

 

(continua)

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Escolhemos hoje mais um poema de António Botto, desta vez cantado por Teresa Silva Carvalho, "Choram meus olhos" .

 

 

 



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Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 11 – por António Sales

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os Últimos Anos de Infortúnio

 

(continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O atentado contra Carlos Lacerda (1954), onde morre o major da aeronáutica Rubem Florentino Vaz, confere ao descontentamento político uma dimensão violenta e perigosa. Café Filho não consegue acalmar os protestos contra uma economia em descalabro pela constante desvalorização da moeda. A mediocridade da geração de políticos é evidente como evidente se torna a superioridade dos intelectuais saídos da Geração 45 e do Concretismo que darão às artes e às letras obras de Cândido Portinari, Óscar Niemer, Villa-Lobos, João Cabral de Melo Neto, Bueno de Rivera, Lasa Segall, Péricles da Silva Ramos, Manuel Bandeira e outros. Graciliano Ramos (Vidas Secas, Memórias do Cárcere) morre em 1953 e o curioso poeta Ascenso Ferreira, falecido em 1955 (Catimbó e Outros Poemas), revela-se, sobretudo, na interpretação da sua poesia através de recitais. Augusto Schmidt, escritor modernista (Fonte Invisível), torna-se grande amigo de António Botto assim como José Gerardo Vieira (A Mulher que Fugiu de Sodoma), mas são os murais de Cândido Portinari, na sua força telúrica de cores e formas, que levarão à glória este pintor autodidacta que viria a falecer em 1962.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do maciço da Tijuca o panorama do Corcovado é de uma beleza esmagadora a esconder a miséria das favelas sob o tecto maravilhoso que a natureza deu e o homem sujou. Não obstante, as eleições de 1955 vão trazer ao poder uma nova direcção, prestígio, desenvolvimento, motivação popular que coloca com o seu voto na presidência da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira. Ganha o futuro do Brasil que conhece a implantação da indústria automobilista, medidas económicas e sociais inovadoras e o sonho antigo de criar de raiz a capital no interior. Voo luminoso, começado em 1956, tem apogeu em Brasília inaugurada em 21 de Abril de 1960. Nunca como então as nossas relações estiveram tão próximas e prometedoras. Foi essa diplomacia de proximidade que levou o embaixador do Brasil a estar presente nas comemorações do 25º aniversário da posse do teu amigo Manuel Gonçalves Cerejeira como cardeal-patriarca de Lisboa.

 

O António Ferro, após a última exposição de arte no SNI seguiu a diplomacia e andou por essa Europa fora até falecer há pouco tempo. Diz-se que “o velho” mandou-o viajar porque estava farto dele. D’Assumpção, Sá Nogueira, Nikias Skapinakis são os novos provocadores da pintura irritando os conservadores já dispostos a ceder snobmente às obras da Vieira da Silva. O Almada, o nosso do Manifesto Anti Dantas, pintou o retrato do Fernando Pessoa, condenado à celebridade, pelo menos entre nós. O Jorge Brum do Canto filmou Chaimite e o amigo António Lopes Ribeiro foi-se ao Eça com O Primo Basílio. Surrealistas entretêm-se em discussões mesquinhas com o Cesariny à cabeça, sobretudo depois do desaparecimento do António Maria Lisboa. A sensação do grupo é Alexandre O’Neill (gente nova, António, que desconheces), poeta reinventor da palavra e da ironia com Cadernos de Poesia. A Agustina e a Irene Lisboa escreveram duas obras de referência: A Sibila (1954) e Uma mão Cheia de Nada, Outra de Coisa Nenhuma (1955). Aí vão para tu leres homem, ao menos a ver se deixas esse torpor! Eh!, chegou aqui a Ciranda de Pedra da Lígia Fagundes Teles, mas os grandes escritores brasileiros que se vendem por cá são o Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Erico Veríssimo e, naturalmente, Josué de Castro e Jorge Amado, estes na candonga. A PIDE apreendeu a edição de Quando os Lobos Uivam, do Aquilino. A peça Alguém terá de Morrer, do Francisco Rebello, é aplaudida no Trindade, mas se queremos vibrar, sentir um cheiro diferente sobre as tábuas do palco temos de aplaudir O Crime de Aldeia Velha do Bernando Santareno. A televisão iniciou as transmissões regulares tornando-se a coqueluche das casas dos ricos e o divertimento nocturno dos cafés dos pobres. O arménio Calouste Gulbekian legou um império a Portugal, salvo seja, deixando em testamento a vontade de criar uma fundação com o seu nome. Sebastião da Gama, jovem poeta de vinte e sete anos, finou-se no início de uma obra prometedora Recordas-te do Alves da Cunha, da Maria Matos, do Nascimento Fernandes? Puseram de luto o teatro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A rua Almirante Alexandrino, nº 154, no bairro popular de Santa Teresa, onde o casal se instala em Outubro de 1955, irá ser o palco de mais uma situação conflituosa e amarga no curto futuro do poeta. Por cima do apartamento viviam uma brasileira e um galego, «pessoas de xadrez», como Botto as classificava, cujo sujeito odiava portugueses. Provavelmente, alguém da família Martinez, ou ele próprio, sofrera em Lisboa humilhações que ficaram gravadas para a vida inteira. Há rancores de estimação que nos consomem pelo que portugueses por perto eram veneno pela certa. Botto está, assim, em má vizinhança. A dupla desafia a paciência de um oriental quanto mais a de um poeta doente. Arrastam móveis, divertem-se com música alta, esmeram-se em actividades ruidosas fora de horas, mantendo a estratégia do permanente desassossego. O dia a dia torna-se um inferno pelo que António queixa-se ao senhorio Manuel Vitorino de Almeida que não só faz ouvidos de mercador como lhe aumenta a renda dos 1.700 cruzeiros para 2.500. Uma exorbitância! Proclama o poeta, comprando um litígio com a “caridosa alma” do senhor Manuel. Os Martinez atacam-no com o barulho e o Manuel com a renda, fazendo a tormenta do português. Desde há muito, sabemos Botto portador de uma inflamação auditiva grave a piorar porque o stress domina-o, a tensão arterial eleva-se e na manhã de domingo 23 de Outubro de 1955, pelas onze horas, António Botto adoece de modo a gerar inquietação: «Quando o médico chegou eu já estava surdo e quase no outro mundo», lamenta-se. No dia 26 de Outubro é internado no Hospital da Beneficência Portuguesa, começando com estes acontecimentos a sua descida ao purgatório.

 

A imprensa dá notícia chamando-lhe “o grande poeta universal”. «Está ali a tratar-se de uma doença que os médicos não declaram, mas não vítima de um derrame cerebral» como chegou a ser noticiado. Mas a maleita é grave e o poeta reage com lentidão. Visitam-no colegas de letras e jornalistas. D. Carminda mantém-se a seu lado. Os dois únicos semanários da colónia portuguesa pouco escrevem ou noticiam enquanto a imprensa brasileira manifesta-se sobre o acontecimento com «todo o louvor e mágoa».

 

(continua)

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Hoje vamos ouvir "O Mais Importante Na Vida", de António Botto, dito por Manuela de Freitas:

 

 



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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL - 10 – por António Sales


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os Últimos Anos de Infortúnio

 

 

(continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A década da sua máxima produção poética e merecido destaque foi a dos anos vinte que arrancou a Fernando Pessoa, no início da carreira do seu amigo, as algo exageradas afirmações ao considerar António Botto o «único exemplo (...) na literatura europeia, do isolamento espontâneo e absoluto do ideal estético em toda a sua vazia integridade» (António Botto e o Ideal Estético em Portugal). Quando em 1929 Pessoa recorre à colaboração de Botto para iniciarem a Antologia de Poemas Portugueses Modernos já este ocupa um lugar especial na nossa poesia o que levaria José Régio a considerá-lo mais tarde, «Grande poeta e grande artista isolado (...) tem já uma obra que pelas esquesitices do ritmo, as subtilezas da ironia, os arrojos confessionais, os recantos de intenção e os achados de expressão depurada, - é bem moderno» (A Moderna Poesia Portuguesa – p.90-Ed.Inquérito, 2ª ed. – Lisboa s/data).


 

Destes pontos de vista não partilha Amorim de Carvalho no seu livro Através da Obra do sr. António Botto (Livraria Simões Lopes de Domingos Barreira – 1ª ed., Porto 1938), pois denuncia o autor de Dandismo de «inspiração livresca» e sugestibilidade poética, estabelecendo nomeadamente comparações entre quadras populares existentes, que transcreve, e outras que o poeta escreve, afirmando «que uma das grandes fontes de sugestão do sr. Botto (e já sabemos que proporções assombrosas assume no sr. Botto a sugestão) é a fonte popular, tanto no verso como na prosa» (pg.36). Ao longo do seu livro Amorim de Carvalho não se cansa de comparar versos que vinquem a “sugestibilidade” botiana com os de um poema do Conde de Monsaraz. Amorim de Carvalho desfere um ataque cerrado à obra de António Botto e embora esta análise mereça atenção, mais não seja por curiosidade, a palavra e o estilo são absolutamente redutores. Amorim de Carvalho é um crítico demolidor da obra de António Botto seja a poética, infantil ou teatral - tanto no plano das ideias, do ritmo, das palavras, ou da criatividade pura. Ali nada existe, é tudo falso: «O que há de amplo, profundo e humano, na sua obra, não é original - neste sentido: não provém do seu pessoal esforço de criação: ou pertence ao domínio comum ou pertence a outro autor» (pg.40).

 

Mas não é só Amorim de Carvalho que coloca questões desta ordem. No espólio de António Botto encontra-se um pequeno recorte de jornal brasileiro (não identificado) com o sugestivo título Quem copiou quem? a propósito de um soneto de Francisco Luiz Bernárdez cujo primeiro verso «Hombre que nasces entre desventuras» (sic) é igual ao «Homem que vens de humanas desventuras» (“Canções” – edições Bertrand 1956, soneto nº15/ou nº 14; edição Circulo de Leitores 1978, p.255; ed. Presença (1999), p.210), cujos versos de Botto foram popularizados em fado por Carlos do Carmo.

 

Francisco Bernárdez nasceu em Buenos Aires a 5 de Outubro de 1900. Seus pais eram galegos e vieram para Ourense. Jovem, Bernárdez, fixou-se na Galiza, mais precisamente em Vigo, como redactor do jornal Pueblo Gallego. Ali viveu entre 1922 e 1925, iniciando a sua carreira literária, com algumas temporadas em Madrid e um ano em Portugal. Regressou à Argentina onde teve actividade literária considerável e conheceu a fama poética. Morreu em 1978. Nesta questão de plágio é indesmentível o facto dos versos dos dois sonetos (argentino e português) serem efectivamente iguais. Resta saber quem publicou primeiro, isso não consegui apurar, mas coincidência não é de certeza num soneto completo.

 

Bem menos cáustico que Amorim de Carvalho, Eugénio de Andrade manifesta uma posição bastante crítica em relação à poética de António Botto mesmo quando lhe reconhece algum mérito. Também Oscar Lopes, no volume VIII da História Ilustrada das Grandes Literaturas, não concede tréguas à menorização da obra do autor de Canções caracterizada por uma «rima quase sempre ocasional e muito pobre», repassada pelas imagens do «amor secreto e sensual, o fado alfacinha, o populismo, casos de miséria e de paixão». Ao referir-se a Olympíadas considera que «a ode ao desporto desce do pindárico até ao pindérico». Botto nunca foi o que ele se imaginava, um dos maiores, dos únicos grandes poetas da língua portuguesa. «A mim, o que me afligia em António Botto era o cabotinismo, e o que nele havia de artificial, sobretudo quando falava.» (Eugénio de Andrade), fruto da megalomania que haveria de o conduzir à desgraça e que justifica os seus pedantes e antipáticos exageros. Todavia a linguagem, ou o verso populista minimizado por alguns críticos, era, segundo uma lúcida abordagem de Joaquim de Matos (“Letras & Letras” nº 30, Porto, Junho 1990) «uma relação entre o prosaico e o poético [pelo que] o poema apresenta-se ao jeito de uma carta, diálogo com pessoa ausente (…) numa linguagem directa de oralidade (…) poderemos dizer que entramos pela prosa e saímos pela poesia». A forma, o estilo e a espontaneidade fixaram o tal populismo segundo um valor caracterizado pelo dramatismo da linguagem, já para não repetirmos a força expressiva do seu próprio drama.

 

Se o poeta das Curiosidades Estéticas manifesta, para lá da forte dualidade entre o amor e o prazer carnal, as contradições de um comportamento onde é observável a densidade dorida e traduzida, não raramente por uma certa cumplicidade entre o amor e a morte («Têm-se o amor da própria morte»), abre-se a formas menos negras e angustiosas em Piquenas Esculturas, poemas que figuram como peças modeladas («Busco a beleza na forma») e chegam a representar alegria e vitalidade, sentimentos pouco frequentes na sua poesia, permitindo que o amor assuma uma certa mística do prazer, «uma formosa animalidade inconsciente» como caracteriza o espectáculo viril do corpo masculino na dedicatória que antecede os cinco poemas de Olimpyadas. É essa animalidade que o seduz («E aqueles corpos/ de gentilíssimo talhe/ e sóbria musculatura») num elogio dionisíaco à beleza, à elegância do movimento, ao sentimento de força e à coragem. Dandismo é um livro de despedidas e de separações, umas expressas e outras intuídas («Não vás ainda/ Vê comigo a manhã que vai romper»). Não o denunciando o título, ressalta deste livro uma amargura profunda se não mesmo um desespero que estes dois tristíssimos versos retratam: «Anda um ai na minha vida/ Como lágrima que passa». Ciúme (1934) confirmaria uma plenitude dramática que levaria João Pedro de Andrade a considerar António Botto «um dos mais dolorosos casos da poesia portuguesa» (“Dicionário da Literatura”-Figueirinhas – Porto 1977/ ou 1973).

 

Quando em 1930 aparece uma nova edição de Canções, Botto é um homem em conflito interior que mais tarde se manifesta na sua poesia e em outros trechos da sua obra. Dotado de uma sensibilidade superior sofre física e psiquicamente com um certo sentido místico da vida que o impede de interpretar a realidade prática mas não de estabelecer desígnios fantasistas para compreender o sofrimento. Afastado, por natureza, dos conflitos sociais verificados à sua volta, interna-se em si e no seu drama. Todavia, os versos e outros textos não deixam de se revestir de uma forte identidade emotiva com os pobres, os desafortunados, os sofredores, os marginalizados. Salvo uma ou outra excepção quando as suas incursões literárias penetram criticamente no plano social, raramente ultrapassam os padrões de solidariedade ou de revolta moral segundo uma visão humanista que prevalece.

 

 

(continua)

 

 

 


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Hoje temos para vos oferecer uma interpretação da fadista Maria Fernandes do poema de António Botto "Não me chamem pelo meu nome". Há um ainterpretação de Mísia que tentaremos apresentar num dos próximos dias.

 

 

 

 



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Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL - 9 – por António Sales


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Últimos Anos de Infortúnio

 

(continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O regresso ao Rio de Janeiro é rápido, o trajecto é curto e os bens do casal são apenas restos esfarrapados da triste estadia em Niteroi. Não há jornalistas à espera do poeta mas ainda tem amigos que o aplaudem numa visita à Academia Brasileira de Letras, em Julho de 1955, recebido pelos académicos e pelo presidente Paulo de Medeyros, em sessão especial onde declama com a inconfundível classe do seu talento. Fazia praticamente um ano que a vida política sofrera o forte abalo do suicídio de Getúlio Vargas a quem sucede João Café Filho, impotente político para proceder à limpeza do «mar de lama do Catete», como dizia. Mas também António Botto não irá ter tempos fáceis, como eu sei, mas ele desconhece, que se encontra suspenso num ângulo da vida definitivo e dramático. Infelizmente jamais retornará à sua poesia da amargura da transitoriedade da beleza e do amor, duas coisas nele associadas. Mais do que a qualquer outro ter-lhe-á sido difícil suportar a carga dos anos e a decadência do corpo a quem rendera o culto da beleza. Entre outros dramas este não terá sido o menor no último quartel da vida.

 

João Café Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tem-se escrito que na última fase do período brasileiro António Botto terá percorrido no Rio de Janeiro os caminhos da miséria a ponto de vender poemas seus, à porta dos botequins, a vinte cruzeiros para seu sustento e da mulher. Os dramas de um poeta dão sempre jeito a fim de ajudarem a construir o mito. Neste caso nada prova que Botto tenha sido um mártir, o próprio chega a desmentir e repudiar qualquer situação de indigência mesmo temporária. Beatriz Costa declara, vagamente, que «andou por lá mal» (revista “Marie Claire”, Lisboa 1993) e o jornalista Miranda Mendes afirma, a propósito, que «por ali andou aos tombos (“Um Poeta na Vida” – Diário de Notícias, Página Literária, Lisboa 23.03.1959). Impecável no seu casaco de linho modestíssimo, na camisa muito branca - sempre os mesmos, porque não tinha outros -, cheio de fome e a disfarçá-la com uma dignidade altiva e triste, recitava há anos no Rio de Janeiro, terra da sua aventura e desventura, alguns dos melhores versos que jamais se fizeram em língua portuguesa” (idem, idem). É óbvio o toque literário do texto de Miranda Mendes, aliás justificado pelo momento em que foi escrito (1959). No entanto, será bom lembrar, foi exactamente no ano de 1955 que António Botto fez uma nova edição do seu livro Fátima, Poema do Mundo, gravada com a chancela de D. Manuel Gonçalves Cerejeira num gesto de amizade que o Cardeal Patriarca de Lisboa já tivera para com O Livro das Crianças.

 

Fátima foi um êxito, de modo algum revelador de qualidade literária. Quanto a mim, a pior obra de toda a bibliografia do poeta. No quadro da sua poesia representa um livro de oportunidade embora aliado ao seu sincero espírito religioso. António escreveu a primeira versão logo em 1917, ano das aparições, vinte folhas bem diferentes do trabalho publicado. Encontramos em 1945 uma outra versão com notas para a tipografia, mas só em 27 de Junho de 1946 obtém o imprimatur cardinalício, ano em que regista a primeira edição do poema em livro, com foto em preto e branco da imagem de Nossa Senhora de Fátima e a seguinte inscrição na folha de frontispício: «Primeira edição extraordinária de quarenta mil volumes numerada e assinada pelo autor a fim de solenizar a entrega de uma cópia da imagem de Nossa Senhora do Rosário às autoridades eclesiásticas do Rio de Janeiro por ocasião do 30º Congresso Eucarístico do Rio de Janeiro» (sic). No verso da página, além da assinatura do autor e número do exemplar, imprimiu-se a data de 13 de Maio de 1946, Lisboa, Portugal, o que não exclui a hipótese da edição ter sido realizada exclusivamente para o Brasil. Onze anos mais tarde, com nova capa, agora para o 36º Congresso Eucarístico de 1955, o autor junta o seu poema Cântico da Alma Brasileira, explicando: «Neste volume publica-se este poema inédito a pedido de milhares de pessoas que o ouviram recitado pelo seu autor, em programas realizados nas estações de Rádio Bandeirante, Cultura e Recorde de São Paulo». A publicação desta nova edição de Fátima, Poema do Mundo, naquele momento, leva-me a admitir que foram as circunstâncias e dificuldades a imporem um “desfuncionamento” que justifica a reedição de versos como estes: [pergunta Nossa Senhora aos pastorinhos] - «Carinhas abençoadas, / Na doçura de me ouvirem, / Que até parece que são feitas / Do mel saboroso que há no figo, / Compreendeis o que vos digo?». Ou ainda outro passo: «Pastorinho és meu amigo? / Dizes-me que sim, abanando / Afirmativamente, / Essa redondinha cabecinha, / E as faces ficam a corar / De envergonhadinho, não?». O tema, o momento e o prestígio do autor terão ajudado a vender os 40.000 exemplares da primeira edição e outros tantos da segunda, proporcionando certamente um razoável nível de direitos. A leitura deste livro torna-se penosa, constrangedora e triste tal é o malogro artístico e poético daquele que fora o autor de Canções. Chegamos ao fim aflitos e angustiados pelo rudimentar exercício de inferior qualidade a que fomos submetidos e que de certo modo vinha ao encontro das críticas negativas que ele já tivera à sua poesia nos tempos de Lisboa.

 

(Continua)

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Ouçamos agora os "Penicos de Ouro", interpretando uma canção com letra de António Botto. (João Lima: guitarra portuguesa e voz; André Louro: composição, guitarra e voz;Catarina Santana: ukulélé e voz;Eduardo Jordão: contrabaixo e voz).

 

 

 



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Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL - 8 – por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

As Espessas Nuvens de Niteroi

 

(continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

O ano de 1954 será de profunda mudança na vida do autor de Nove de Abril, começando com a carta que o consulado de Portugal no Rio de Janeiro, ainda lhe envia para a morada de Vila Violeta, em Niterói, a convocá-lo para comparecer na sede da chancelaria (Rua Teófilo Otini, nº 4 -2º), no dia 21 de Março de 1954, «a fim de tratar da sua repatriação e de D. Carminda conforme solicitou». A questão estaria oficialmente bem encaminhada se o casal tivesse dinheiro para regressar, mas não tinha, pelo que é feita uma subscrição com o objectivo de reunir fundos. Contrariamente ao que o poeta diz num documento, a subscrição não foi oficial tendo partido da iniciativa particular do vice-cônsul João José Diniz. Várias pessoas e instituições contribuíram pois no espólio há um registo de nomes e quantias (que desconheço se é a totalidade), perfazendo insuficientes 37.000 cruzeiros. Uma coisa é certa, o poeta não regressou e do dinheiro não se regista caminho levado. Esta situação falhada e o penoso capítulo de Vila Violeta, acabam por empurrar o casal a abandonar a Casa Três, o tal “palácio” que o poeta elogiara, regressando ao roteiro dos hotéis manhosos, agora o Greogotá, instalado num edifício degradado, será vítima de uma derrocada parcial provocada pela chuva. Em Setembro de 1954 o casal regressa definitivamente ao Rio de Janeiro, pois em Dezembro uma carta de João Sassetti, sobre os direitos de autor das canções de Gado Bravo, já é endereçada para aquela cidade (o problema das canções de “Gado Bravo” já vinha em discussão desde Lisboa devido a adulteração de letras sem autorização do autor. Só nesta altura, 1954, acabou por ficar resolvido).

 

O salto a Niterói, que começara envolvido em esperança, chegava ao fim marcado pelo desalento e pela pobreza.

 

 

 

 

 

 

 

Após a falhada tentativa de regresso a Portugal a hipótese foi colocada definitivamente de parte. Em termos literários e sociais tem a consciência de que Portugal já lhe dera o que podia. Se alguma dívida se mantém em aberto são as honras do país para consigo. O poeta jamais se interrogou sobre a queda do seu prestígio, isso seria admitir o princípio de uma humildade de que era desprovido. Toma conta dos poucos haveres e volta novamente ao Rio para representar o último acto num palco literário onde, qual Fénix, Botto renascerá das cinzas a acreditar nas notícias encumeásticas do Jornal do Comércio, em Janeiro de 1953: «É, o sr. António Botto o maior poeta português contemporâneo (...). O seu génio pertence a uma obra vasta de genialidade, de ritmos poderosos que são apenas seus. Ilumina a inteligência do leitor. Cativa-o, surpreende, encanta e fica na lembrança inesquecível de quantos o sabem compreender e sentir».

 

Desconheço se Fernando Pessoa levantou a tua carta do céu, mas sendo amigo admito-o, explicando-te que o sol marcava o horóscopo no signo de Leão visto teres nascido em 17 de Agosto de 1897. Não era o que dizias pois sempre roubavas dois ou quatro anos lançando a confusão nos espíritos. Mas foi a 17 às oito horas da manhã, meu poeta, com bons aspectos indiciando capacidade criativa, sucesso literário, auto-afirmação. Porém, Pessoa, não terá deixado de advertir para aspectos desfavoráveis de narcisismo, ego desmesurado, mitomania e exibicionismo. Uma “doença” a agravar-se desde Lisboa nos anos trinta, obrigando-te a viver acorrentado à idolatria de ti próprio, incapaz de aceitar os limites literários de um percurso com a atitude de quem, embora reconhecendo o seu talento, não consegue evitar que este o devore pela vaidade, mas não só…

 

Os estigmas colam-se ao corpo, agarram-se à imagem e perseguem-na através do tempo fazendo, por vezes, de um sujeito vulgar uma personalidade destacada e outras exactamente o inverso. A tua homossexualidade assumida, versejada, afirmada, literariamente enriquecida, foi uma manifestação de carácter não só socialmente imperdoável como, por isso mesmo, “condenável”. Ficou-te colada à pele, ao nome e à obra de tal modo que ainda hoje, apesar da evolução, não te conseguiste divorciar dessa marca quando se fala de ti. Pela tua parte, não é menos certo, praticaste a possível ostentação. Não escondias nem disfarçavas, antes assumias, e dessa postura acabaste vítima de estórias anedóticas e cruéis como a que Ricardo de Araújo Pereira transcreve (JL – Jornal de Artes Letras e Ideias – “No Rasto do Poeta”, nº 699,pág.21, 30.07.97), segundo relato de Moitinho de Almeida: «O Pessoa era um gozão. Contava, por exemplo, que um dia, um amigo do Botto, encontrando-o de braço dado com um marinheiro, numa Sexta-Feira Santa, disse-lhe: “António, parece impossível. Comer carne na Sexta-Feira Santa!” Ao que Botto respondeu (e aqui Pessoa aflautava a voz): “Mas não é carne. É peixe.”». Passe a caricatura, uma entre muitas e algumas conhecias, este foi um comportamento que não ocultaste nem mesmo a Carminda quando ela desejou viver em tua companhia. Foste sério, corajoso, leal, varreste a hipocrisia. Todavia não foi só isso o que te perseguiu, talvez mais do que isso o teu carácter, essa personalidade faminta de sucesso, esse drama interior de glória impeditivo da paz de espírito ajudou a criar à tua volta certo ambiente hostil.

 

À medida que te venho acompanhando compreendo melhor toda a tua complexidade, ou seja, as tuas fraquezas como as tuas forças escondidas sob o folclore exterior da frivolidade. Sei que te comoveste com a dor alheia, que cultivaste a amizade, que na solidão do infortúnio procuraste minorar o desespero da tua mulher. Agora que o capítulo de Niteroi, que começou radiante, chega ao fim marcado pelo desalento e pela pobreza, verifico quanto é vulnerável o nosso destino. O teu António, na minha visão, acaba por ser o de uma personagem de romance que procura na tragédia o sentido da vida.

 

(Continua)

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Hoje vamos ouvir um ensaio de Blandino & Sara Luz . É uma versão muito diferente da mesma "Canção 6" que ouvimos a Mariza sob o título "Os

anéis do meu cabelo".

 

 

 



publicado por João Machado às 23:55
editado por Luis Moreira em 25/01/2011 às 02:52
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Domingo, 23 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL - 7 – por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

As Espessas Nuvens de Niteroi

 

Botto dedica-se, mais pragmaticamente, a equilibrar a situação financeira ou mesmo a revertê-la com solidez, pelo que em Agosto de 1953 o poeta está envolvido num negócio de barcos, segundo carta datada de Niterói, endereçada ao «grande industrial» Adão Pacheco Polónia para a Avenida Serpa Pinto em Matosinhos. Na realidade Polónia seria proprietário de dois barcos de pesca que pretendia vender para o Brasil através da intermediação de António Botto que trabalhou, de facto, para que o objectivo se concretizasse. Na correspondência que trava com o industrial chega a informá-lo também da iniciativa literária de altas figuras que estariam a organizar um recital em sua homenagem, para Outubro de 1953, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Indica os nomes de Pedro Calmon (reitor da Universidade do Rio de Janeiro), Martinho Nobre de Mello (embaixador de Portugal), Henriette Marineau, Maria Sampaio, Beatriz Costa, Dulcina de Morais e João Villaret. O negócio dos barcos não deixa de prosseguir e o poeta, transformado em agente comercial, desdobra-se em contactos e diligências pois a serem vendidos os barcos a comissão dar-lhe-ia, certamente, para vida de nababo durante um tempo. Infelizmente teve azar. Adão Polónia, que chegou a deslocar-se ao Rio de Janeiro, acabou por não concretizar o negócio visto que os brasileiros queriam os barcos mas também o proprietário a fim de trabalhar com eles.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na Vila Violeta agudizam-se as más relações num processo de desgaste que irá arrastar-se por mais de um ano. Circunstâncias não totalmente esclarecidas dão conta que provocações e insultos que se repetem amiúde, chegando à agressão. A vida torna-se infernal e a saúde do poeta começa a dar sinais de perturbação. Carminda suporta com paciência e espírito de sacrifício representado pela sua imagem de mulher franzina permanentemente envolta em pobres roupas negras. Botto, pelo contrário, não está disposto a suportar ostensivos desmandos dos vizinhos sobre a sua pessoa pelo que apresenta queixas na polícia sem qualquer resultado prático. Os dias tornam-se amargos, mas aguentam-se dado que no fim do ano de 1952 um jornal ainda mandava a correspondência para a Casa Três de Vila Violeta.

 

 

O alojamento no Brasil foi sempre fonte de múltiplos problemas, obrigando o poeta a uma vida de nómada de hotel em hotel, casa em casa, fosse por razões de rendas em atraso ou conflitos com vizinhos e senhorios. Casos de comprovada culpa sua, outros nem tanto. Os relatos deixados, queixas, lamentações, permitem admitir que António Botto também foi vítima de descriminação homossexual correndo a via de um calvário que contribuiu para o agravamento da sua saúde.

 

Desgastado por todos estes desatinos em Abril de 1954 dá entrada no Hospital Municipal António Pedro. Os crónicos problemas de garganta tornam-se graves, forte hipertensão e também queixas renais. Efectivamente fica internado, mas no dia 26 de Abril pede alta a fim de ir receber 28.000 cruzeiros que o Instituto Nacional do Livro lhe devia há treze meses. O médico assistente, Dr. Almerindo Lisboa, com relutância concede-lhe a alta por duas ou três semanas. Contacta o director do instituto, Augusto Meyer, que só consegue obter 9.000 cruzeiros prometendo o resto uma semana depois sem resultado. Regressa a casa, entretanto assaltada, e vê-se confrontado com uma ordem de despejo pelo que o hospital fica para melhor oportunidade. «Em casa à 1.30 da madrugada. Extropiado e sem dinheiro, deitámo-nos para morrer de aborrecimento por tanta falta de humanidade»(sic), é um apontamento que ilustra como a situação se tornara de tal modo angustiante que admite regressar a Portugal.

 

O poeta está sofrido e dorido. Sente-se maltratado, injustiçado, resistindo a dificuldades que transformam os dias num tormento. O dinheiro evapora-se nas suas mãos como mais tarde viria a reconhecer num desabafo: «Muito dinheiro me tem aparecido depois que vim para o Brasil, ganho com o meu trabalho, mas como vem desaparece». «Neste três anos devo apenas uns trezentos mil cruzeiros porque passámos muita fome» (20.05.1954). Se considerarmos o trabalho desempenhado, as diversas oportunidades criadas, a indemnização ganha em tribunal bem como a parte jornalística, reconhecemos que, pelo menos, terá ganho dinheiro suficiente para uma vida bastante satisfatória. Todavia, a sua relação distante e desinteressada com o dinheiro, a que não terá sido alheia a homossexualidade, fazia-o desperdiçado à nascença. Desde as condições de saúde às financeiras; das literárias onde não encontra bálsamo às humanas, Botto começa a acumular frustrações e tristezas d’alma. O pensamento em voltar à pátria torna-se natural como é natural, em muitos dos seus apontamentos e registos soltos, que o Brasil saia mal no retrato. Embora mostre estima e gratidão pelas pessoas que o ajudaram (e que o irão ajudar na sua dolorosa descida às amarguras de um triste destino), o vinco colectivo que nos deixa dos brasileiros é o da amizade fácil mas falsa, isto é, prometem, mostram-se prestáveis, mas não fazem nada na hora da prova real.

 

(Continua)

 

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"Se me deixares, eu digo", um poema de António Botto, musicado e interpretado pelos «Xicara» que vemos e ouvimos aqui numa sessão de gravação.

 

 

 



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Sábado, 22 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL - 6 – por António Sales

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

 

 

 

 

 

 

 

A vida brasileira de António Botto é pouco conhecida. Melhor dizendo, era praticamente desconhecida até à colocação do seu espólio à consulta pública na Biblioteca Nacional de Lisboa, no final dos anos noventa. A partir de São Paulo perdia-se bastante o rasto tanto pessoal como intelectual. Sabia-se, e confirma-se, que não foi fácil e algumas vezes recorreu a amigos para a sua subsistência. A Beatriz Costa, o doutor Neves Fontoura, o advogado Paulo da Cunha Rabello e outros auxiliaram com empréstimos que Botto nem sempre pagava porque entendia ser uma distinção. No dizer de Beatriz Costa, «Botto era um homem estranho. Achava que o que ele pedia era dar-nos uma honra, não nos ficava a dever nada». Este espírito de príncipe associado a uma postura com tanto de generosa como mexeriqueira, permitiu que se afirmasse sobre o seu carácter e temperamento as maiores barbaridades criando a imagem de um indivíduo incapaz de um relacionamento saudável com os outros, estigma que perdura sobre a vida brasileira do poeta mesmo desconhecendo-se os pormenores. Hoje, felizmente, podemos reconstituir muitos dos seus amargos passos a partir de São Paulo.

 

No seu regresso ao Rio de Janeiro, em 1951, onde em Julho vamos encontrá-lo com Carminda hospedados no Hotel Atalaia, na Avenida de Copacabana, nº 256, ocupando o quarto 45 e depois o 54, procura refazer a vida retomando contactos e colaborações jornalísticas, lançando mão de diversos trabalhos de desenho para construções a coberto da sua auto designada condição de engenheiro-arquitecto que lhe confere a autoria de uma moradia do tipo “casa popular”, para “madame” Lucy Teixeira da Silva Schopke, conforme escreve aquele que deduzi ser o empreiteiro da obra, Isaías João Costa, quando assina um vale de 4.000 cruzeiros «por conta do encontro nos lucros de 50%».

 

Efectivamente, o desenho foi uma das faculdades que desenvolveu permitindo-lhe a realização de exposições e a realização de projectos de moradias e outros. Vendo bem, acabou por ser o desenho que esteve na origem de uma mudança profunda na sua vida. Será aquela profissão “desencartada” (engenheiro-arquitecto), e não a de poeta “encartado”, a determinar uma viragem inesperada ao ser contratado, com documento assinado e reconhecido no tabelião, para trabalhar em Niterói como supervisor de construções da Companhia Territorial Itaipu. No final de 1951, ou logo no início de 1952, assenta residência naquela cidade que lhe reservava um período agitado, ou seja, o verdadeiro começo infeliz da experiência brasileira.

 

O novo estatuto profissional não impede a actividade literária. Logo que chega a Niteroi trata de se apresentar nos jornais da cidade, em visitas de cumprimentos, acompanhado por dois influentes amigos e pela sua fidelíssima mulher que o segue para todo o lado sem que isso o incomode. Assim, passa a garantir colaboração efectiva e remunerada na imprensa a par das récitas, sessões de autógrafos e conferências sobre escritores, ou a organização de um festival de poesia no Teatro Municipal João Caetano.

 

 

 

 

Hoje, vamos ouvir Carlos Mendes cantar "Não me Peças", poema de António Botto musicado pelo cantor:

 

 

 



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Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL - 5 – por António Sales


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(continuação)

 

 

Brasil, Meu Irmão!

 

 

Longe, pegando o sol de outra bandeja, são ecos as notícias chegadas de Portugal. Mas sempre te interessa saber que o João Gaspar Simões publicou o primeiro livro de fôlego sobre o Fernando Pessoa (Vida e Obra de Fernando Pessoa) e nele recolheu o teu nome de passagem. O António José Saraiva deixa marca com a História da Literatura Portuguesa e o maestro Lopes Graça lançou a Gazeta Musical e de Todas as Artes. Salazar despachou o António Ferro para o exílio dourado nomeando-o ministro plenipotenciário em Roma. Ao Carmona foi a natureza que se encarregou de o despachar, com 81 anos, para o exílio eterno depois de 23 anos na presidência da república agora ocupada pelo general Craveiro Lopes. Ah, infausta nova! Morreu o teu amigo Cotinelli Telmo (1897-1948), dos grandes arquitectos portugueses no seu tempo, artista plástico e cineasta realizador do filme A Canção de Lisboa; seguiram-lhe o percurso do infinito o pintor modernista Mário Elói (1904-1951) e o mestre Viana da Mota (1868-1948) a quem a música muito ficará a dever. Os surrealistas andam encadeados com as luzes do desentendimento e os neo-realistas tomam o lugar de um movimento de arte inovador no seu retrato duro e dramático da sociedade portuguesa. Se por cá andasses havias de perceber (se a vaidade te deixasse) o firme propósito desta nova geração: Alves Redol (Horizonte Cerrado), Manuel da Fonseca (O Fogo e as Cinzas), Fernando Namora (Retalhos da Vida de um Médico), José Cardoso Pires (Os Caminheiros e Outros Contos – que a censura retirou), Carlos de Oliveira (Pequenos Burgueses) e um tipo rebelde chamado Urbano Tavares Rodrigues. O teatro português renova os palcos com A Forja do Alves Redol e O Mundo Começou às 5.47 do Luís Francisco Rebello. Apesar da censura prévia e da PIDE a hora é outra. Na tradição do êxito fácil José Buchs apresentou o filme Sol e Touros e Leitão de Barros o Vendaval Maravilhoso, mas o quem sacudiu a sonolência do cinema português foi um tal Manuel Guimarães, que não conheces, com o filme Saltimbancos. Ah, recordas-te do Eugénio de Andrade, aquele rapazinho com quem falavas no Governo Civil contando histórias da tua poesia “genial” e que diz de ti e da tua poesia coisas bárbaras?, publicou As Mãos e os Frutos.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre convites diversos e frequentes manifestações de amizade semeia a distinção do seu valor intelectual. António Botto movimenta-se no seu jeito mundano, recolhe brisas e tempestades contribuindo para ser amado ou rejeitado. Em Novembro de 1950 ainda reside em São Paulo pois aí regista na Junta Oficial de Propriedade Industrial, através da empresa A Serviçal, Lda., a marca António Botto, pelo que paga 500 cruzeiros. Nesse mesmo mês realiza em Campinas a sua exposição de desenhos e versos inéditos, na Galeria Salvador Rosa. Uma récita marcada para o Teatro Municipal acaba numa inesperada manifestação, em plena Praça da República, prestada por alunos da Escola Caetano de Campos. Mas o poeta não consegue evitar um clima nebuloso à sua volta que acentua desfalecimentos e angústias numa saúde debilitada. «Afectos, sacrifícios, lealdade! / Tudo se apaga ou fica na memória / Se a ilusão dá lugar à realidade» (Um soneto por António Botto – Diário de Lisboa – Lisboa 12.08.1938). O relacionamento urbano de António Botto torna-se sufocante pelo esmagamento da metrópole paulista. As amizades começam a sofrer a instabilidade de outrora erguendo barreiras profundas. Ai, Botto porque te foste se guardada estava em ti a chave do problema? Sem se incomodar sequer com o lançamento e expansão de Regressos (Novelas Inéditas - Edição do Clube do Livro, S. Paulo, Brasil, 1949)), colectânea publicada em S. Paulo, o poeta faz as malas e demanda o Rio de Janeiro. Leva consigo uma mágoa infinita por terem sido traídas as suas expectativas. Distanciado de uma realidade que lhe penhora a ilusão daquilo que possuía no quarto de hotel onde vivia com sua mulher, Botto tem 55 anos e alimenta sonhos e fantasias Parte, vai para o Norte em busca de outra estrela polar capaz de lhe desfazer o desgosto e iluminar o coração. Vamos Carminda! Vamos amiga à procura doutra sorte nos mares da vida que nos resta. Eu sou Botto! o António, poeta universal que eterniza nos seus versos a memória do seu nome e do seu país. Sou gente! Terei todos os defeitos, mas sou gente! Mais que gente, sou poeta!

(Continua)

 

__________________

 


Hoje vamos ouvir João Braga numa "Canção" de António Botto

 

 

 

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publicado por João Machado às 23:55
editado por Luis Moreira às 22:05
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Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011
ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 4 – por António Sales

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(continuação)

 

Brasil, Meu Irmão!

 

 

 

 

 

 

 

 

O Brasil atravessa um período conturbado resultante da ditadura de Getúlio Vargas (1853-1954), afastado do poder em 1945 por um golpe militar. O general Eurico Gaspar Dutra será eleito presidente nesse mesmo ano e elaborada nova constituição. A Grande Guerra terminara mas deixara feridas espalhadas por todo o lado e o Brasil não era excepção. A economia abre-se à importação de produtos e a inflação sobe imparável, as reservas de dólares e de libras são desvalorizadas e o desastre económico só é contido pelo aumento da exportação e do preço do café. Época pautada por frequentes perturbações sociais, características paralisações de trabalho, manifestações de rua, actividades sindicais que perturbam a ordem enfraquecendo politicamente o governo e conduzindo-o ao uso da força. O estado militar corta relações diplomáticas com a União Soviética (URSS) e ilegaliza o Partido Comunista Brasileiro prendendo e perseguindo muitos dos seus militantes. Em cinquenta a nação mergulha em eleições gerais e, por ironia da vontade popular, o antigo ditador Getúlio Vargas acaba por ser eleito Presidente da República por esmagadora maioria. Sol de pouca dura! Quatro anos após a oposição conservadora exige a renúncia e Getúlio, angustiado e incapaz de resistir às pressões políticas suicida-se no dia 24 de Agosto de 1954.

 

Monteiro Lobato era prestigiado escritor em 1947, ano em que começou a ser editada a colecção das suas obras completas num total de 13 volumes. Viveu como se deslizasse numa montanha russa em surpreendentes flexões do destino como editor, empresário, adido comercial do Brasil em Nova Iorque e até preso político e incomunicável, em 1941, na ditadura de Getúlio Vargas. Quando António Botto chega a São Paulo, Monteiro Lobato, que viria a falecer em 1948, está em condições de o apresentar aos altos representantes da finança paulista, escritores e alta sociedade, ajudando-o a entrar pela porta grande em recitais ao lado de Joracy Camargo e Procópio Ferreira e sessões de autógrafos em diversas salas. São Paulo se não lhe abriu os braços como o Rio de Janeiro também não os fechou.

 

O casal Botto começou por instalar-se no Hotel S. Bento, na Rua Rogério Badaró, nº 504, apartamento 2119 no 21º andar, onde a Companhia Óscar Rudge entregava as encomendas de resmas de papel feitas pelo Dr. António Botto Almada, recuperando assim a «veleidade de aristocrata» que João Medina refere (Morte e Transfiguração de Sidónio Pais, nota nº 99, pág. 164, Edições Cosmos, Lisboa, 1994) como «tendo chegado a pôr um Almada entre parêntesis, a seguir ao nome, nos cartões de visita». Por essa altura realiza conferências e representações de poemas seus na sala Camões do Centro Português, no Clube Portugália, na Sociedade Brasileira de Alimentação, na Boite Restaurante São Paulo e no Museu de Arte com afluência de público. Tinha trabalho regular na Rádio Bandeirantes com o programa Portugal Canta, transmitido aos domingos, pelo que recebia 1000 cruzeiros por emissão. Durante todo o período de São Paulo estabeleceu contratos com a Rádio Tupi, Rádio Difusora de São Paulo e Rádio Cultura onde manteve Almas e Povos, três dias por semana, que lhe rendia 500 cruzeiros por audição, pagos adiantadamente; aparecia assiduamente em jornais com artigos, crítica, contos, crónicas e poemas. Não sendo rico arrecadava o suficiente para uma vida medianamente confortável como se deduz da sua relação com a Imprensa Gráfica da Revista dos Tribunais a quem pediu orçamento, encomendou papel e realizou pagamentos para a impressão do livro Poesia Nova que por razões desconhecidas não se fez. Por essa altura manda brochar «com todo o cuidado e capa dobrada à francesa», oitocentos livros a um cruzeiro cada.


 

No início do ano de 1949 troca o Hotel S. Bento pela Pensão Internacional, na Rua Anhangabu, no que parece uma despromoção residencial. Porém, logo nesse ano o proprietário move-lhe um processo na 5ª Vara Criminal por estar sem pagar até Abril. Segundo os autos o hóspede apresentou-se como pessoa de posses, arquitecto, amigo de artistas e políticos. Tudo grandes nomes, mas não tinha um cruzeiro pelo que comeu e bebeu sem pagar. António Botto contestou sem conseguir impressionar o juiz que lhe deu 15 dias de prisão, ao que tudo indica remíveis a dinheiro evitando assim que o poeta caísse no xelindró. Desta conturbada encruzilhada levanta asa para ir poisar no Hotel Ipiranga, na Rua 24 de Maio, nº 275, onde ocupará o apartamento 31 até praticamente ao dia do seu regresso ao Rio de Janeiro. Deixa soltas as pontas da sua estadia visto que o proprietário, Eugénio Bissachi, regista em carta timbrada que o casal deixou um rádio, um amplificador de discos, gravuras e utensílios no valor de 7.500 cruzeiros que ficam por conta dos pagamentos em atraso.

 

 

 

 

 

São Paulo, anos 50.

 

Foi sempre assim, um teso caloteiro, cravando uns e outros e contribuindo para que se criassem a seu respeito as mais mirabolantes histórias e situações caricatas de amigos que o evitavam para não serem cravados. Sem necessidade, diga-se, pelo menos em São Paulo onde teve trabalho regular, espectáculos, sessões de autógrafos, actividades recompensadas para uma situação financeira certamente não invejável mas pelo menos razoável. Que raio te passa pela cabeça, António, como perguntaria o teu amigo Erico Braga. A vida nem era madrasta nessa altura embora Carlos Drumond de Andrade escrevesse mais tarde, no jornal Correio da Manhã (02. Fevereiro. 1956), referindo-se à estadia em São Paulo «onde lhe aconteceram coisas desagradáveis». Suponho eu, mais por culpa tua que dos outros.

 

Apertado em tais deambulações financeiras os direitos de autor, importante fonte da receita do poeta, tomam papel fundamental e urgente nos contactos que desenvolve com a Sociedade de Autores em Lisboa. Os mapas de pagamentos que lhe são enviados, com o valor de direitos pagos confirmam o bom estatuto artístico de António Botto e uma conta-corrente em que ele, por adiantamentos efectuados, em vez de credor era devedor da bonita soma de trinta e três contos, mais dez de uma letra em carteira, saque de João Villaret endossado a Erico Braga. É óbvio que apesar das colaborações e recitais com venda de bilhetes as coisas começam a complicar-se para o casal. Os jornais continuam dedicando-lhe espaço com louvores e artigos à sua obra, assinados por prestigiados nomes das letras brasileiras e na Galeria Domus tem lugar uma exposição dos seus desenhos (Botto desenhava bem e isso ainda lhe vai valer como veremos). De modo algum ele está sendo socialmente depreciado até porque histórias de dívidas a hotéis diluem-se no tempo, tomando a versão mais conveniente para a sua imagem. A questão é outra: a retoma de um certo êxito inicial é como a derradeira ilusão do moribundo incapaz de vislumbrar o anúncio da tragédia. Inadaptado ao gigantismo de São Paulo, por comparação com o maneirismo de Lisboa, o tempo de permanência torna-se curto de quatro anos para o autor de Cartas que Me Foram Devolvidas.

 

A cidade aprisiona o pensamento na descomunal malha de edifícios. Torna-se sôfrega, esmagadora, irrespirável. Onde está o Tejo das pequenas embarcações no vaivém do rio? E a noite lisboeta feita de um céu de pérolas? A agitação suave da Baixa escutada num murmúrio carinhoso? São Paulo passa num instante: é «uma terra disparatada, sem harmonia e sem beleza! Uma estrumeira de vícios e onde o Diabo prefere passar a noite a mijar» (BNL-espólio de A.B). São Paulo não tem céu, farrapos só. Pedaços aqui e além recordando que as estrelas existem.

(continua)

_____________

 

«Meu amor na despedida» é um fado, com letra de António Botto, cantado pelo jovem fadista Pedro Moutinho. Atenção:

 

 



publicado por João Machado às 23:55
editado por Luis Moreira às 17:34
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