Sexta-feira, 8 de Julho de 2011
Poema a quatro mãos - Maria Inês Aguiar

 

Maria Inês Aguiar  Poema a quatro mãos

 

 

(Adão Cruz)

 

 

 
 
sonhei-te, inventei-te, moldei-te
amanheci-te
acordei-te nas aguas em que me banhei

doce pranto em que todos os meus medos mergulhei
em ti floresci
restos de fruto que não colhi mas ousei
seara do meu tempo sopro de vento lento
porto de alento que vislumbrei na noite de um dia vago
e foi em ti que descansei o meu desejo cansado
no outro lado do sol
aonde a chuva mansa descansa
e é em ti que madrugo e invento a aurora
sem te acordar
o abrigo deste momento em que o instante volta a gritar
ah liberdade!
canteiro de povo e remendo de jade




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Terça-feira, 21 de Junho de 2011
O Paquete - Adão Cruz

 

Adão Cruz  O Paquete

 

(Adão Cruz)

 

O Paquete entrou no serviço de urgência inchado como um tonel tenso como um balão a que só falta o alfinete para estoirar fígado pulmões ventre de pandeiro tudo está encharcado como uma esponja por um coração entupido sem ar como se morresse afogado ou dentro da linguagem médica como peixe fora d’água.

Insuficiência cardíaca grave insuficiência cardíaca descompensada anasarca…os vários termos para rotular o sofrimento atroz de um jovem sem culpa igual a tantos outros que jogam ténis.

Socorrido na primeira fase de compensação e um tanto aliviado foi internado para estudo e veio fazer um ecocardiograma.

O Paquete tem vinte e seis anos e uma cara aciganada morena de si e roxa da cianose.

Começou a trabalhar como moço de trolha aos treze anos vergado ao peso da tábua e do balde e à força de cachaços lá se erguia quando aninhava com o abafa.

Nunca alguém o levara ao médico.

Não tive coragem de colher a sua história antes desta idade a história da sua infância.

A meio do exame diz-me o Paquete a medo e quase em segredo Sr. Doutorestou à rasca para mijar deixe-me ir mijar pelas almas… no meio de tais máquinas perante aquela gente de bata branca que ele nunca vira mais gorda o sofrimento da sua vida levava-o a pensar que pedir para mijar era quase um crime.

O Paquete tem uma gravíssima estenose mitral com severa insuficiência mitral e tricúspide e um coração do tamanho de uma melancia está numa fase inoperável a rebentar pelas costuras… se operado fosse tudo não passaria de remendo em calças a desfazer-se.

Sem a mínima ideia do que se passa ele submete-se humilde desconfiado medroso como sempre aconteceu em toda a sua vida tem medo que lhe ponham a tábua à cabeça ou o balde na mão e com aquela falta de ar…ele que sempre pediu para o deixarem respirar um pouco antes do peso de outra tábua e de outro balde.

O Paquete nunca fora ao médico e nunca ninguém lhe dera a mão para se erguer todos lhe esfacelaram o coração e a vida até rebentar.

Pobre Paquete pobre barco tão frágil.

Com as lágrimas nos olhos saí do hospital e escrevi esta história de hoje de há séculos e escrevo-a em especial para os meninos e jovens que brincam que jogam que sonham e que vão ao médico.



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Sábado, 18 de Junho de 2011
Carlos Leça da Veiga responde a Adão Cruz

 

Apreciei muito favoravelmente o texto do Adão Cruz em que, e muito bem, puxou as orelhas ao bispo Carlos Azevedo.

 

 

Parece que o cardeal Cerejeira está a querer voltar e os de Roma a quererem, mais uma vez, como sempre, um lugar ao sol. Na verdade a instituição da hierarquia romana não perde uma oportunidade para colocar-se ao serviço dos possidentes e quando o faz é por saber de fonte segura que eles estão com muito poder e têm as coisas bem encaminhadas.Assim deduzo que a situação é pior do que já parece.

 

Os outros, os que estão na  mó debaixo para quem devem orientar as suas queixas e dar conta dos seus projectos?

 

 

Deixo a pergunta no ar e não dou a minha resposta por não querer ouvir acusações consequentes a certas ideias políticas ditas de esquerda.

 

 

Peço, apenas, que seja recordada a evolução histórica do País já que é aqui que temos e devemos viver.

 

 

Carlos Leça da Veiga

 



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Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
Algumas palavras para D. Carlos Azevedo - Adão Cruz

 

Dei comigo a ler uma notícia sobre declarações de D. Carlos Azevedo, Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social. Não costumo ler, habitualmente, nos jornais, notícias sobre a Igreja, mas desta vez escorregaram-me os olhos. Como eu respeito muito as pessoas, embora não respeite muitas vezes o que dizem e o que representam, permito-me tecer algumas considerações às considerações de D. Carlos Azevedo.

 

Em primeiro lugar as suas declarações são declarações banais, o que não impede de que sejam perversas. D. Carlos Azevedo diz o que qualquer vulgar político está farto de dizer. “Que Portugal tem de encarar-se como um país pobre e não pode viver acima daquilo que é, mas apesar de ser pobre pode ser um país onde se viva de modo sereno e feliz”. Como, gostaria eu de saber! E diz mais. Diz que “temos de ter muita confiança em que aquilo que nos vai ser dito é a verdade do que está a acontecer, e tem de ser essa política de verdade a constituir a nossa confiança”. A Igreja sempre o disse, para quem a quis ouvir, embora todos saibamos que não há mais redonda mentira.

 

Estas palavras de D. Carlos Azevedo fariam rir se não causassem amargura. No mínimo, produzem em mim alguns arrepios, ao exumarem este espírito salazarento da pobreza feliz.

 

D. Carlos é suficientemente inteligente para saber que não há países ricos e países pobres mas sim meia humanidade que é rica e meia humanidade que é pobre. E esta meia humanidade é pobre porque a meia humanidade rica vive à custa dela. Os EU são um país rico e, no entanto, quarenta milhões de pessoas vivem pior do que se vive em Portugal, considerado um país pobre. Por outro lado, há países muito mais pobres do que os EU, onde as pessoas, de uma maneira geral, têm um bom nível de vida.

 

O problema, como muito bem sabe D. Carlos Azevedo, não está, em princípio, na pobreza nem na riqueza de um país, mas no brutal desequilíbrio de um sistema que sempre cavou e cava cada vez mais fundo um fosso abismal entre ricos e pobres. D. Carlos Azevedo sabe, mas não lhe convém dizer, que a causa está no roubo e na exploração dos mais fracos pela quadrilha que domina o mundo, que a causa está no abjecto capitalismo selvagem que vai levar o mundo à degradação total. Ele sabe-o tão bem como nós mas não é capaz de o dizer, até porque a Igreja faz parte integrante do núcleo duro deste execrável sistema. Sem capitalismo, sem obscurantismo e exploração dos mais fracos a Igreja não sobreviveria. Não me venham, pretendendo tudo justificar, com as caridades, sem dúvida louváveis se não fossem a toalha branca a que a Igreja sempre limpou as mãos sujas.

 

Para os parasitas do mundo, de facto ser pobre é uma fatalidade, não sendo permitido aspirar a mais, não sendo lícito ter direitos, lutar por eles, ter sonhos, anseios e projectos. O que é preciso é ser sereno e feliz na pobreza e na exploração. Nada de revoltas, indignação e luta. Sempre foram estas as palavras da Igreja através dos séculos e sê-lo-ão no futuro porque ela sabe que os seus parceiros sempre foram os ricos e os poderosos, e contra eles nunca a Igreja se rebelou. A Igreja sabe mas não quer ver, nem lhe dá jeito, que é muito maior a felicidade de viver numa sociedade justa e equilibrada do que a felicidade de contemplar a pobreza do alto de um pedestal, ainda que ela constitua uma permanente motivação para a caridade descer à rua, mantendo a sua natureza de necessária e sempre desfraldada bandeira da Igreja.

 

D. Carlos Azevedo e a igreja sabem que o poder político pouco mais é do que o executor dos interesses do poder económico. Além disso, os políticos são, muitas vezes, medíocres, facilmente corruptos, insensíveis e sem a visão construtiva de um mundo que colide com os seus interesses pessoais e de grupo. Mas a Igreja, salvo alguns beliscões muito genéricos, nunca os maltrata, não só porque vão à missa e comungam, mas, sobretudo, porque alinham naquilo que a Igreja impõe e exige.

 

D. Carlos e a Igreja sabem que o povo não é suficientemente culto para entender as complexas relações de causa e efeito, daqui decorrendo a sua incapacidade para romper o amorfismo e empreender as mudanças de comportamento necessárias à germinação da semente de uma sociedade nova. Mas em vez de o ensinarem e de o fazerem crescer através do conhecimento e da cultura obrigam-no a calar-se e a rezar.

 

D. Carlos Azevedo e a Igreja sabem que os mais responsáveis, os ditos intelectuais, aqueles que, por força do conhecimento, mais próximos deveriam estar da verdade e da moral, os detentores da ciência e da cultura nos seus mais diversos ramos, os agentes da abertura das mentalidades, estão obrigatoriamente enfeudados, consciente ou inconscientemente, nas formas obscurantistas do pensamento único, impostas pelas linhas dos grandes interesses a que a Igreja não é alheia.

 

Ser pobre é tremendamente penoso. Querer que o pobre seja sereno e feliz é um ultraje, D. Carlos Azevedo. A pobreza não é só feita de fome. Ela é também de natureza emocional. Os factores emocionais abrangem essencialmente as perturbações afectivas, criando sentimentos destrutivos e corrosivos como a depressão e as perturbações ansiosas.

 

Os factores de stress crónico constituem um grande leque, incluindo o desrespeito do Estado pelo cidadão, o baixo apoio social, a insegurança na doença, o baixo estatuto sócio-económico, o endividamento e a crua insensibilidade da especulação bancária, a progressiva angústia da vida cada vez mais difícil numa sociedade dita de progresso e desenvolvimento, os conflitos de trabalho, os desencontros conjugais e familiares, sempre crescentes numa sociedade injusta e pouco solidária como a nossa, o espírito fortemente abalado pela rigidez afectiva e pela incapacidade de sentir prazer com a vida, a aversão ao trabalho, a propensão para a violência, o estado de incapacidade funcional e as queixas somáticas que daí advêm e que se arrastam pela vida fora, a sensação de não se ser amado, a amargura do viver só, o isolamento social, a falta de confidentes, as más condições de trabalho, a falta de paz no emprego, as tarefas repetitivas, a rotina excessiva sem escapes criativos, a sensação de confinamento rígido, o desequilíbrio entre esforço e compensações, as más condições habitacionais, os maus-tratos infantis, as más experiências de toda a ordem.

 

Esta sim, é a pobreza no seu estado puro e ninguém tem o dever e a obrigação de ser pobre.

 

A pobreza de Portugal e de tantos outros países está na asfixia da vida, provocada por todos aqueles que neste país e neste planeta vivem da morte.

 

Portugal é um país pobre, D. Carlos Azevedo, como tantos outros, porque não os deixam ser ricos. Capazes disso eram eles.

 

Repare, D. Carlos Azevedo, que o JN impõe hoje a sua pessoa como FIGURA DO DIA.

 

Pudera!



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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011
Canções antigas - Adão Cruz

 

Adão Cruz  Canções antigas

 

(Adão Cruz)

 

Na recordação das canções antigas veste-se meu coração das verdes folhas do desejo e entoa na fragrância dos campos a melodia dos olhos pendurados na profundidade do céu.

 

Na sombra da figueira diz-me adeus o sol em acenos de azul e violeta por entre os ramos e o sons de uma flauta de lábios doces que por ali poisou entre sonhos infinitos do lusco-fusco.

 

As primeiras chuvas do verão humedecem como lágrimas as palavras ditas e não ditas no silêncio dos caminhos perfumados de terra e folhas molhadas.

 

E nada se reconhece na lembrança muda das tardes que para sempre morreram mas os passos ecoam em silêncio por entre os pés das oliveiras onde outrora floriam mil risos de criança.

 

Que fez de mim este crepúsculo azul como flecha espetada no vento ferindo de morte toda a vida de meu sonho-menino?

 

Onde está a pedra que se fez onda o regato que se fez rio a tripla chama infinita da vida luz e verdade que se apagou na alma nua quando sagradas selvas e misteriosas crenças de punhal à cinta quiseram que fosse santa?

 

Meu coração peregrino de seu perdido tesouro entre o sol e as desgarradas nuvens de infinitos céus ainda hoje se arrasta entre a razão e o abismo em pálido reflexo de ouro para ser criança na hora de partir.



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Quarta-feira, 8 de Junho de 2011
In limine - Adão Cruz

 

Adão Cruz  In limine

 

(Adão Cruz)

 

 

Pelos caminhos de prantos e sorrisos dentro de um tempo farto de horas sem minutos a vida vai colhendo flores que murcham por não serem simples flores ou flores simples sem exigências de estufa ou jardim flores de terra húmida céu por cima e sol de permeio.

 

Em tudo o que me é vida interfere a vergonha de ser adulto descortino as janelas que me disseram haver dentro dos homens e só vejo muralhas nada de crianças os homens comeram as crianças os homens comeram-se crianças os homens pariram-se adultos.

 

Os pongídeos chegaram a homens quinze milhões de anos para o homem ser bicho… bicho erecto rastejo de púrpura.

 

Eu nasci na erva e dormi no feno e acordei com a voz dos melros e rouxinóis e saltitei com os pardais vesti-me de sol e despi-me de luar estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios meus olhos dormidos casavam a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino a vida viveu em mim crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus também eu fui criança e matei em mim a criança que procuro ao pensar que eram de amor as mãos que a mataram.

 

Passei a vida a correr tropeçando nas sombras arrumei ao canto da luz mil horas vazias sangradas a curricular futuros para ser gente na praça dos homens pisei os passos pequeninos nos avessos da verdade e palmilhei léguas vagarosas a tossir poeira.

 

Vestido de ausências fui renascendo de amor pela vida fora nos infinitos da fantasia que outros foram lentamente matando com fruído prazer.



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Terça-feira, 7 de Junho de 2011
Serenidade - António Sales

 

António Sales  Serenidade

 

(Adão Cruz)

 

 

 

 

No coração do tempo

encontro inexplicável quietude

perante uma obra de arte

escutando uma sinfonia

contemplando uma paisagem

que me beija com ternura.

 

Fico estático.

Um sol interior aquece-me a alma,

um sopro de solidão, sem tristeza,

envolve-me de prazer

uma voz serena

conversa em surdina comigo.

 

Deixo-me ficar quieto no tempo

como se o tempo fosse

a medida da eternidade

e não a relatividade da passagem.

 

 

 

Algueirão, 02.06.2011

 

 

Sobre o concerto que apresentamos a seguir, cuja interpretação privilegia, diz António Victorino d'Almeida no seu livro Músicas das Minha Vida "Parece-me porventura ser o mais belo Concerto de Violino de Toda a História da Música e estou mesmo em crer que Beethoven o assinaria de muito bom grado - ou talvez até o trocasse pelo seu, quem sabe?..."

 

 

 

 

 

 



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Segunda-feira, 6 de Junho de 2011
Não falo mais em eleições. Acabou - Adão Cruz

Adão Cruz  Não falo mais em eleições. Acabou

 

 

Apenas queria reforçar a ideia de que o povo não tem remédio e a sua cegueira é irrecuperável. Falar da soberania popular é ridiculamente irónico. Que se lixe tal povo. Aqui deixo duas inequívocas notas que hoje me foi dado ler:

 

(O que se passou) Paulo Rato: - O bom povo, que vê futebol e telenovelas e até assiste a debates políticos onde nada de substancial se discute, votou na sua própria fome, miséria e desespero: formataram-no para tal e cumpriu.

 

(O que nos espera) Manuel António Pina: - Recessão, pobreza, despedimentos fáceis, destruição do SNS, da escola e da segurança social públicas, desoneração das empresas de qualquer responsabilidade social através de uma gorda redução da TSU que aumentará exponencialmente o número de Ferraris nas estradas das regiões mais deprimidas do país, e redistribuição em “apoios” à banca, dos recursos sociais afectados aos mais desfavorecidos.

 

 Quanto mais me bates mais gosto de ti.

 

Hão-de torcer a orelha mas não deitará sangue.

 

Hão-de berrar mas ninguém os ouvirá.

 

Hão-de chorar mas ninguém lhes limpará as lágrimas.

 

Hão-de rezar mas Deus estará surdo.



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Sábado, 4 de Junho de 2011
Mãe de todas as mães - Maria Inês Aguiar

 

Maria Inês Aguiar  Mãe de todas as mães

 

(Adão Cruz)





 

dóis-me mulher
com as tuas dores antigas
em espaços ocos a preencher
dóis-me em feridas
numa parte de mim
num lado qualquer
dóis-me entre o teu sonho e o teu ver
a continuação do teu ser

dóis-me em dores infernais
das tuas mazelas ancestrais
dóis-me o vácuo
a inversão do tempo
na outra margem do lamento

dóis-me em arrepios de medo
subtis sons silenciosos
desassossego dessa essência
quase apagada
dóis-me mãe de todas as mães

 

 

(Infelizmente não nos é autorizada a integração da belíssima interpretação de "Woman" de John Lennon sugerida pela Inês. Mas não perdemos nada em tê-la substituído por esta canção e, sobretudo, pelo discurso proferido no início)

 
 
 
(e, afinal, sempre conseguimos obter uma interpretação de "Woman" e não resistimos)


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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011
A Exposição e a Resposta do Adão Cruz ao António Gomes Marques

 

 

 

O Vídeo da Inauguração da Exposição

 

 

 

O Jardim apresenta hoje uma reportagem da inauguração da exposição de pintura de Adão Cruz na Galeria Zeller, em Espinho no passado dia 14 de Maio. 


 

Adão Cruz  Pequeno comentário ao texto de António Gomes Marques

 

 

Não quero perder tempo a ajuizar se mereço ou não este belo texto do António.

 

Sinto que as suas palavras são de uma tão diáfana espontaneidade e de uma tão notória sinceridade que criam em mim um sentimento de transparência que há muito não tinha, e que me permite ver com mais nitidez que a arte é uma relação de vida, uma profunda e poderosa relação de vida que se estabelece através da poesia, a mais nobre e sublime expressão do entendimento da realidade.

 

As palavras do António conseguem iluminar, como se fosse dia, as ruas da nossa cidade interior, por vezes ensombradas pelo difícil caminho através do qual aprendemos a viver a vida da arte para tentarmos criar a arte da vida. São palavras que nos lembram as amargas trevas que por vezes nos invadem por sermos homens, já que o Homem é um ser atravancado de mitos. E lembram-nos que a arte e a poesia, caminhando de mãos dadas com a razão e a matéria pura, são a força e a energia indispensáveis no espinhoso percurso que vai da prisão à liberdade.

 

As palavras do António são palavras que inesperadamente me conduzem a um local de encontro comigo mesmo, desses muitos encontros que se foram perdendo ao longo da vida. Por isso elas entraram em mim de forma tão agradável.

 

Com esta honestidade de pensamento e com esta suavidade e delicadeza de sentimentos, o texto do António conseguiu tocar o cerne da minha relação com o mundo e criar em mim a magnífica sensação de que essa relação tem vida e é inegavelmente o sangue da nossa existência.

 

Muito obrigado António.

 


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Quinta-feira, 2 de Junho de 2011
«rente ao cair da folha», uma exposição de Adão Cruz - António Gomes Marques

 

António Gomes Marques  «rente ao cair da folha», uma exposição de Adão Cruz

 

No regresso de uma viagem em serviço ao Porto, fiz um pequeno desvio para ver a exposição de pintura do Adão Cruz, na Galeria Zeller, em Espinho, desvio que me deu oportunidade de, por fim, ver ao vivo alguns quadros do pintor, dado que apenas conhecia reproduções em livros que têm vindo a ser editados, para além das fotografias divulgadas no «estrolabio».

 

Não poderia ter ocupado melhor aquele tempo. Gostei muito do que vi.

 

Quando vejo uma exposição de pintura, vou sempre a pensar qual dos quadros gostaria de ver pendurado nas paredes da minha casa. Nesta exposição senti que escolheria vários.

 

Há quem diga que a pintura é para uma elite cultural, dado que o comum dos mortais não tem capacidade para apreciar arte tão maravilhosa, do que discordo profundamente. Criem condições para que as pessoas tenham acesso a estas manifestações, levem os estudantes a visitas periódicas a museus e a exposições, tornem-nas mesmo obrigatórias no ensino secundário, ou seja, criem-se hábitos e depois veremos o resultado.

 

Ao ver esta exposição de Adão Cruz fui pensando em tudo isto, mas o que me faltava compreender era a razão desta pintura.

 

Na impossibilidade de adquirir pelo menos um dos quadros, e eleger um não me seria fácil, - a crise também não facilita e esperemos que não venha a haver alguém, um dia, a dizer que, afinal, o Medina Carreira era um optimista! - resolvi então comprar um dos livros, «Um gesto de silêncio», que reproduz muitos dos quadros expostos que tinha acabado de ver. Folheando o

livro, cheguei ao texto que o finaliza, de Eva Cruz, irmã do pintor, ficando a saber que, para além de nascer e crescer «na pequena aldeia das Figueiras do Concelho de Vale de Cambra», foi nesta vila (cidade desde Maio de 1993) que começou a exercer medicina. Escreve a sua irmã: «No fim do estágio, um grupo de amigos montou-lhe o seu primeiro consultório pessoal, a partir do qual se dedicou de alma e coração ao sofrimento de todo o povo de Vale de Cambra e concelhos limítrofes, numa altura em que a Medicina dava um salto científico e qualitativo entre o empirismo do passado e a medicina moderna.» Era isto que me faltava saber e julgo não me enganar nas conclusões a que cheguei.

 

Na pintura de Adão Cruz sinto as vivências do médico, testemunha privilegiada do sofrimento daquele povo, mas também do poeta que ama a natureza, cheia da beleza colorida que rodeava as gentes da zona. Adão Cruz foi testemunha do sofrimento do seu povo e, na sua pintura, sinto que sofreu em profunda solidariedade com os seus conterrâneos.

 

Lembro os tempos das grandes polémicas à volta dos conceitos de naturalismo, realismo, abstraccionismo, objectivismo, subjectivismo e vários outros ismos, que em vez de nos esclarecerem mais nos perturbavam a espontânea apreciação do que aos nossos olhos os artistas apresentavam para que pudéssemos, livremente, sem preconceitos, fruir da arte que produziam. Pessoalmente, valeu-me o convívio e a leitura de autores como Fernando Lopes Graça e Mário Dionísio, de Costa Ferreira, Rogério Paulo e Luís Francisco Rebello, para apenas citar os que, na minha juventude, mais me terão ensinado a ver e a usufruir da arte que ia sendo produzida no Portugal fascista de então. E valeu-me também uma outra grande corrente – o Movimento do Neo-Realismo. Claro que depois o curso de Filosofia ajudou a arrumar tudo isto. Será que arrumei?

 

Dou claramente preferência a uma arte que me ajude a ter uma visão dialéctica da realidade que me rodeia, que me faça acreditar que essa realidade pode ser transformada pela acção do homem, que me leve a continuar a ter esperança que tal transformação possa contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, para uma sociedade onde seja possível a igualdade de oportunidades para todos, uma sociedade solidária. A pintura de Adão Cruz está pois dentro da arte da minha preferência. Mas não confundamos a Arte com a imagem da realidade, para ter essa imagem não necessito da Arte. Da Arte necessito para me ajudar a compreender essa realidade que a Natureza me dá, para me ajudar a ver o que estará por detrás dessa imagem, para me ajudar a construir um diálogo dialéctico com o Mundo em que vivo, que me ajude a compreender o caminhar do Homem ao longo dos séculos.

 

Relembremos Mário Dionísio: «Não há nova arte possível fora do “desenvolvimento natural” das aquisições que a humanidade alcançou nos últimos séculos, incluindo os anos mais recentes. Tal desenvolvimento não se processa por mero acaso ou pela simpática deliberação dos artistas isoladamente considerados. Não é função de um decreto nem de um acto de fé. Pode-se interferir no seu processo, mas não é possível levá-lo pela mão. Ele nutre-se do diálogo ininterrupto – mesmo quando arredio e caprichoso – amorosamente travado entre a paleta e o mundo. Depende das relações interactuantes que permanentemente se estabelecem entre os fenómenos da sociedade e a capacidade de resposta e transfiguração dos artistas, entre a vontade dos grupos humanos e a atitude de concordância ou de rebeldia dos artistas que lhe dão voz ou a combatem, da riqueza da criação dos artistas e do comportamento dos homens perante essa riqueza. É função do que é mais geral na sociedade e do que é mais particular no indivíduo. Todas as partes estão em jogo.» (in «a paleta e o mundo», vol. 1, Publ. Europa-América, 2.ª edição, Novembro de 1973).

 

Esta frutuosa inquietação que esta exposição criou em mim fez-me revisitar não só a obra de Mário Dionísio, mas também a obra do meu querido e saudoso amigo Manuel da Fonseca (e deste não foi por eu estar envolvido nas comemorações do centenário do seu nascimento); fez-me também ir à procura da poesia de Adão Cruz, que não consigo encontrar nas principais livrarias de Lisboa, fez-me comprar um outro dos seus álbuns: «Hora a hora rente ao tempo», uma edição da Campo das Letras de Setembro de 2007. No texto que Adão Cruz escreve a abrir esta edição, pode ler-se, a determinado momento: «A Arte é um produto de ideias mas também um veículo de ideias. Quando deixa de ser transparente como veículo de ideias, quando não é mais do que configurações, cores e sons, transforma-se numa técnica de

entretenimento superficial dos sentidos. Quando se diz apenas produto de ideias, menosprezando o poder de relação, confina-se ao processo neuronal que a gerou e que pode ser relativamente pobre. A Arte é aquilo que vive atrás da aparência das coisas. Para que a obra adquira grandeza, os processos formais devem ser ofuscados pelo seu próprio efeito.» E, mais à frente, continua: «A Arte é sempre uma prática de meditação, uma tomada de consciência, a livre expansão de nós mesmos, inteligência viva, diálogo e libertação das forças vitais dentro de uma disciplina ética. Dito de outra maneira, a Arte é sempre impacto, desconcerto de espírito e agente de transcendência das formas físicas e de mudança das formas de ver e pensar.»

 

As transcrições foram longas, mas foram-me necessárias.

 

Obrigado Adão Cruz pela ajuda que me deste!

 

Portela (de Sacavém), 2011-06-01

 



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Sexta-feira, 27 de Maio de 2011
Um Novo Coração 4 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

 

Capítulo 4

 

 

 

A partir de 1º de janeiro e por vinte e quatro dias vivo no setor de Cardiologia do Hospital de Veneza uma internação praticamente passiva, destinada quase tão somente a controles e exames. Depois de assistido com urgência, meu mal-estar desaparece e vivo a normalidade que me parecia ser o meu estado de saúde de antes. A sensação de normalidade deve confrontar-se com a minha nova, inédita até agora, situação de internado num hospital. Nunca vivera uma tal experiência e por isso me surpreendia mais do que os outros poderiam compreeder se eu em verdade lhes comunicasse sobre esse meu recôndito sentimento. A sensação de normalidade, a partir de então conscientemente perseguida, deve confrontar-se com o meu novo estado de internado. Desde logo procuro fazer com que isso seja simplesmente possível empregando o máximo esforço para transformar-me em parte integrante do novo ambiente, estando verdadeiramente nele, coisa que me obriga a um grande exercício de vontade. Tenho um espaço fechado, que é o meu quarto, no qual durmo, realizo minhas refeições diárias, utilizo o seu banheiro integrado, mas do qual desde o primeiro dia me sirvo aplicando com tenacidade a predisposição masculina de estimar predominantemente os espaços exteriores de sua existência. O meu espaço externo, a partir do momento em que deixo a minha cama e saio de meu quarto, é limitado a quatro corredores que organizam idealmente uma superfície retangular, com uma série de quartos, dos quais o meu é o de número 8, completos de banheiro com chuveiro; de salas dos médicos, outras dos enfermeiros, ao lado daquelas outras de serviços gerais. Existem igualmente três espaços conviviais, sendo o maior deles servido de estantes com livros que formam uma surpreendente biblioteca, com os volumes devidamente catalogados, divididos por gêneros, biblioteca que muito me ajudará a compreender melhor esta minha internação. Os dois outros espaços conviviais são menores, um deles com uma televisão, ambos sedes de tantos usos. Numa das partes do retângulo se localizam os grandes laboratórios dos vários tipos de exames médicos, entre os quais o da coronariografia, misteriosamente sempre fechado. Pelos corredores caminho infatigavelmente, na imitação de minhas caminhadas quotidianas pelas ruas de Veneza. Médicos e enfermeiros logo se acostumam com as minhas caminhadas. Também os internados me vêem num constante passeio; alguns deles, poucos, me imitam; outros, a maioria, me fixam com ar de indiferença, em pé às portas de seus quartos. Uma terceira categoria entre os hospitalizados não sabe de meu perambular: são os acamados estáveis por diversas razões que vão desde uma maior gravidade da doença a que estão condenados, até a incapacidades motoras devidas à patologia cardíaca. Essas são presenças silenciosas na vida diurna e noturna da Cardiologia, silêncios no grande silêncio que encobre nas veladas horas noturnas as dores que muitas vezes levam à morte. Mas, tudo se passa como se nenhuma tragédia pessoal aconteça ou tenha acontecido. A azáfama de médicos e enfermeiros é sempre a mesma, sem qualquer momentânea demonstração de comoções novas ou imprevistas. Não se pode pressentir nada de anormal no silêncio noturno dos quartos, mesmo quando dos mesmos se nota o acentuar das tosses ou o excepcional grito angustiado de uma velha enferma que na insônia grita repetidamente “mamma!”. Sabe-se que a morte está ali sempre presente, mas ainda quando caminho insone nas horas mais profundas da noite, procurando fazer-me mais uma das sombras que recobrem os corredores, não chego a reconhecer o passar do ar que anuncia o fim da vida.

 

Assim vou por vinte e quadro dias; e quanto mais me sinto como aparente privilegiado de uma normalidade, mais procuro compreender a vida daqueles que me estão próximos, sempre sob os meus olhares incansáveis. Muitas vezes tal coisa se faz difícil, pelos vícios que trazemos fixados em valores e comportamentos que quase não suportam o aparecer expressivo e livre de outros comportamentos que nos parecem diversos, se não inferiores aos nossos. Tudo isso é ainda mais reconhecível pela heterogeneidade da população que vive a experiência hospitalar, principalmente se num hospital público. O homem veneziano das classes populares, em modo especial os originários das ilhas menores do estuário lagunar, é profundamente simples, naquele sentido de elementar quanto às perspectivas da própria existência, e carente em geral de conhecimentos que superem as suas origens insulares. Porém, ao mesmo tempo, são indivíduos que vivem o atávico orgulho de serem venezianos, ainda que essa manifestação de orgulho deixe ver que o possível ser veneziano quase nunca esteve neles, porque quase sempre confinados à marginalização social nos séculos por parte do poder político e econômico de uma dominante minoria aristocrática. Junto a esse veneziano simples está aquele herdeiro da grande cultura da cidade sereníssima. Neste hospital civil, gratuita e profissionalmente assistidos, como acontece aqui na vida italiana para com os internados nos serviços médicos públicos ou conveniados, nós três, incluindo o não-veneziano de origem que sou eu,  convivemos em termos de igualdade e gozamos dos mesmos benefícios.

 

Nesses vinte e quatro dias iniciais me acostumo a ver muito próximos da minha cama os meus companheiros de quarto.  Na cama ao lado está um veneziano simples, um buranês, com seus oitenta e dois anos vividos intensamente. Filho de pescadores, estava pronto a ser também ele pescador quando a guerra o levou de Burano em 1940 para ser marinheiro. Embarcado num submarino, sobreviveu a cinco naufrágios. Contados pela sua voz segura, foram cinco simples aventuras. Vianello, mesmo sendo de estatura baixa, é ainda forte de constituição, mostrando uma estrutura muscular compacta. Seu corpo tem sempre a robustez exterior de quem sobreviveu a cinco naufrágios, mas durante o dia o velho marinheiro sofre para poder deglutir os alimentos que toma e, à noite, sua respiração difícil e pesada compassa também a nossa insônia.

 

Na cama defronte está em constante serenidade um engenheiro, o dr. Lorenzato. A minha insônia, consequência principalmente da mudança de ritmo de vida porque passo, nada é em comparação com a sua. Mais de duas horas por dia ele não chega a dormir. Porém, não demonstra nenhuma perda física por isso; está sempre atento às coisas e às pessoas; alimenta-se normalmente e normalmente vive as horas de seus dias. O dr. Lorenzato é o meu mais constante companheiro de leituras noturnas, quando nos encontramos apartados na sala da pequena farta biblioteca do nosso setor de cura e ali consumimos o passar lento das horas, lendo, lendo. Ele traz sempre consigo um rádio de pilhas, que escuta com grande atenção em não perturbar os vizinhos. O engenheiro ama em particular a música lírica e em especial aquela de Verdi. Uma vez, conversando com ele, lhe falei de Carlos Gomes e da prima de “O Guaraní”, no Scala de Milão, assistido por Verdi, seu mestre, e do orgulho dos brasileiros por esse encontro criativo. Ele conhecia a ópera e cantarolou a sua abertura   lá lá lalariá   lá lá   lá lá lalariá… Nesse início de noite, são já dez horas e as luzes dos quartos foram definitivamente apagadas depois da última passagem dos enfermeiros com as pílulas para o dia seguinte e os remédios capazes de facilitar o sono de todos aqueles que queriam lutar com a insônia, quando sob a tênue luminosidade que vem do corredor defronte à nossa porta sempre aberta o dr. Lorenzeto sintoniza o espetáculo transmitido pela RadioTre, diretamente do Metropolitan Opera House de Nova Iorque, do “Otelo”, de Verdi. O drama do “moro” e da infeliz Desdêmona ressoa em tom baixo e confortante na penumbra que já então não parece de um hospital, mas de uma sala de música misteriosa que se enche da beleza dramática da arte verdiana e das palavras do libreto de Boito. De quem virá no “Otelo” aquela adesão à estética dramática de Wagner? Será uma mudança verdiana quanto aos seus anteriores e imortais “pezzi chiusi” a favor de uma nova maneira do processo cantado e da composição dramático-musical, ou então tudo se deve ao processo compositivo moderno do texto de Boito? Nem uma coisa, nem outra, me responde na manhã seguinte o meu novo amigo engenheiro, porque Verdi é sempre Verdi.

 

(continua)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Quinta-feira, 26 de Maio de 2011
Um Novo Coração 3 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

 

 

 

Capítulo 3

 

 

Mas urge não esquecer que antes de chegar a Arco muitas coisas me aconteceram em pouco mais de dois meses e se fizeram razão de minha procura da “Casa de Saúde”. Somente contando tudo quanto foi então vivido poderei transmitir o sentido mais profundo dos dezesseis dias que passarei em Arco e das ressonâncias mais indistintas do quase mistério desses dias.

 

Tudo começa em Veneza na noite-véspera do Ano Novo de 2005. Anna Rosa e eu saímos de nossa casa prontos para conviver em grupo na casa de amigos a expectativa da passagem do Ano. Caminhando na direção do embarcadouro da parada de Ca’ Rezzonico não se poderia evitar notar a movimentação geral da gente movida pela festa. O frio é intenso, pré-anúncio de um inverno cruel. Pelo menos assim eu o sentia enquanto caminhava na direção do Canal Grande onde chegaria o vaporeto que nos traguetaria para a outra margem do canal e para a festa. O frio me tornava lento no caminhar pelos duzentos metros que vão de nossa casa ao embarcadouro, e meus passos não sabiam acompanhar a segurança daqueles de Anna Rosa. Os duzentos metros se faziam muito longos pela falta de ar que repentinamente me tomava e eu ignorava se me seria dado chegar à parada antes de ceder definitivamente ao mal-estar que me assaltava com o ar frio da noite e com o peso de uma crueldade que dela vinha. Meu estomago parecia ofendido por uma força que revoltava todos os meus movimentos e a cada difícil passo cada vez mais eu tomava consciência de que dentro em pouco não mais saberia que caminhava com minha mulher na direção de uma festa desejada, nem que então eu poderia dizer-lhe já não posso continuar, estou por perder os sentidos.

 

Volto a retomar os sentidos dentro de um motoscafo-sanitário de pronto-socorro que corre desabalado pelas águas do Canal Grande, em meio às meias-luzes de uma Veneza serena na expectativa do Ano Novo. O enfermeiro me assiste, me consola e me limpa de todos os vômitos que meu estômago revoltado verte sobre a coberta de lã que me protege contra o frio. Na noite aquática os vômitos se confudem com o lusco-fusco exterior da cidade e com a sirene incessante do motoscafo na corrida para chegar ao hospital. Por toda a corrida desabalada do motoscafo Anna Rosa me contempla aflita.

 

Chegados, já não mais vomito e me sinto com a leveza de um pintassilgo, certamente aquele do nosso jardim veneziano, o mesmo que voa e salta, voa e salta e  caminha na direção do nosso gato Mino que o espreita na serenidade de uma caça segura.

 

Agora é já o Ano Novo e me encontro deitado numa cama do hospital. Ao meu lado está uma segunda cama e ao fundo do quarto, uma terceira. Ainda não vejo aqueles que as ocupam porque me fixo tão somente sobre mim para tentar compreender aonde estou e como me sinto.

 

(continua)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
Um Novo Coração 2 - Sílvio Castro

Sílvio Castro Um Novo Coração

 

 

 

 

Capítulo

 

 

Chega-se em Arco e logo ali se pára para ficar. Parados se está como se o sabor maior do momento presente se confundisse naturalmente com a inércia motora e assim, desde logo, se goza de delícias que a paisagem cria e o ar conduz. Nossa pele reconhece as delícias e sabe transmitir aos sentidos todos uma orgia de sensações. A vista de tudo toma o primeiro plano e carrega em confusão consigo mesma a ação do olfato que descobre cheiros odores perfumes, mas também do tato toque tato que acompanha os fluxos perfumados e se dinamiza em presas infindáveis à caça de cores quentes, modificadas agora em olhos pele boca nariz ouvido pele, mais que vistas.

 

Vê-se Arco e do alto da colina e do castelo o olhar banhado vai com o Sarça para integrar-se com a doce plácida amplidão do Garda espraiado em lago e largo.

 

Nas alturas arqueadas corre-se com o ar que voa para o lago e que retorna para as vistas das montanhas dentro do infinito e sempre próximas aos olhares. Arco é uma realidade física ou uma visão? Certo ela vem dos tempos longes, pétrea e firme na configuração de sua imagem benéfica. A tepidez deste inverno de 2005 diz que a realidade é o espaço que vai daqui às montanhas, volta em arco e se debruça a contemplar a beleza pousada do lago. Com os olivais que recobrem as colinas e se misturam com as videiras que florescerão em vinhos tintos e brancos e tintos e brancos e também com absurdos limoeiros florescidos aqui, longe dos grandes mais naturais espaços cítricos.

 

Este é um fevereiro de grandes neves e gelos por toda a parte, se pode ver nos cumes das montanhas arqueadas não longe, mas Arco faz do inverno mais que branco fora uma surpresa de tepidez acolhedora quando chego na “Casa de Saúde”. E nela entro.

 

(continua)

 

 

 

 

 

 

 



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Terça-feira, 24 de Maio de 2011
Um Novo Coração 1 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

 

 Capítulo 1 

 

 

                                                                                      Anna Rosa,

                                                                                                          da te rifiorito

                                                                                                          nuovo

                                                                                                          il mio cuore

                                                                                                                      batte.

 

 

 

                               Toda a cura, toda Baden se transformaram em

                               coisas odiosas para mim. A maioria dos clientes do

                               nosso hotel, pelo que eu o soube, não estão aqui

                               pela primeira vez, muitos deles retornam pela

                               sétima, pela décima vez , e conforme o cálculo das

                               possibilidades acontecerá o mesmo também comigo.

 

                               Hermann Hesse

                               Cura da Terma de Baden

 

 

Esta Casa na qual cheguei depois de renovadas surpresas, mais do que um hospital, se trata de uma “Casa de Saúde”: grande, ampla, quase imensa. Mais do que um hospital, também se mostra como um absurdo hotel, ocupado sempre por doentes internados, mas circulantes nas salas salões corredores, até mesmo no bar de mais de sessenta lugares, no andar térreo, de vistas para  o jardim.

 

No bar se convive como em qualquer bar de uma qualquer cidade, como coisa da vida comum: se bebe, come-se, joga-se baralho, se conversa com as visitas ou com os companheiros de cura, lá no fundo, no ângulo do salão organizado com poltronas e mesas, distante do balcão do bar. Quem não conversa pode estar lendo algum livro exposto na estante suspensa na parede lateral, livros não catalogados, como que oferecidos não só à leitura.

 

Vou contar-lhes detalhadamente desta “Casa de Saúde” vista sob ângulos diversos a partir da experiência da doença mortal. Me prometo de fazê-lo não com intenções técnicas e científicas, mas como uma expressão literária e por isso mesmo com maior adesão à realidade, porque somente a literatura pode figurar experiências sem janelas, como esta,  a um só tempo conviviais com a idéia da morte e com uma total participação com a vida que deve ser preservada no seu ritmo maior de afirmações e consumo.

 

A “Casa de Saúde” é uma instituição particular, mas convencionada com o Estado. Os internados podem usufruir de três tipos de hospedagem: com quartos de três, duas ou uma cama, sendo aqueles de três camas isentos de qualquer pagamento fora do valor do convênio que cobre a cura; a escolha daqueles de 1 ou 2 hóspedes corresponde a pagamento à parte de uma quota adicional e diária, logicamente muito mais cara quanto aos quartos particulares, em verdade oferecidos em número reduzido e também por essa razão praticamente inacessíveis.

 

No comportamento dos internados, como é possivelmente óbvio já que de certo humano, circulam reações ligadas a estas três condições de hospedagem, quase como novas formas de classes sociais movidas por reações oníricas, nem sempre patológicas. Tudo expresso entre os extremos da resignação passiva e da auto-exaltação de um atribulado eu pessoal.

 

A população que tem acesso à “Casa de Saúde” é predominantemente italiana, mas com presença de muitos estrangeiros, em particular europeus dos diversos países da Comunidade.

 

O hospital que é esta “Casa de Saúde” mostra-se como um mundo que se cria em si mesmo. Parece o mundo comum, mas para o doente em recuperação ele aparece em mutações indefinidas, em configurações de novas expressões do mundo: isolado, em um primeiro momento; levemente atraente, quase logo depois; centralizante, mas igualmente rechaçante, em seguida. É como o viver num espaço sabido à maneira de todos os dias já vividos e numa realidade que, mais do que capaz de revelar-se enquanto tal, figura aquele eu que em verdade somos, mas que está sempre por detrás e irrevelado do eu que acreditamos  ser.

 

(continua)

 

                                                                                             

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