Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
O 25 de Abril de Carlos Mesquita

 

Quando iniciei esta rubrica, prometi trazer aqui outras vozes sem ser a minha. Já publiquei um debate sobre a resistência armada à ditadura, onde intervieram Carlos Antunes, Fernandp Pereira Marques e José Brandão. Hoje, é Carlos Mesquita quem publica aqui um texto onde nos conta como foi o seu 25 de Abril. Este texto foi ontem publicado no  seu blogue oclarinet.

 

O dia 25 de Abril começou mal, soube da chegada de tropas a Lisboa por um passageiro do comboio descendente (como diria o Zeca) de Queluz para o Rossio, muito cedo. Eu levava um grande saco, e o meu companheiro não soube dizer que tropas eram.

 

Aproximava-se o 1º de Maio e os meses anteriores foram de intensa actividade política para todos os que fazíamos oposição ao regime. Tinha sido o aproveitamento da abertura marcelista nas eleições com o Movimento Democrático, o apoio expresso aos presos políticos, a actividade no Sindicato dos Técnicos de Desenho, para além da acção semi-clandestina que se sabia vigiada pela “bufaria” da polícia política.
 
Resultou numa exposição demasiada e esperava-se por isso a visita da PIDE a casa de alguns militantes, não havia nada a fazer senão salvar os bens que a polícia gostava de pilhar; brochuras clandestinas, livros proibidos, papeladas, panfletos etc. Era o conteúdo do saco que transportava… e logo nesse dia.
 
Desde o 16 de Março (ensaio das Caldas) contávamos com um levantamento militar anti-fascista, mas também corria entre nós a informação que Kaúlza preparava um golpe de extrema-direita, de antecipação.
 
O saco era um problema se na estação do Rossio estivessem tropas, e não fossem amigas – foi com esse receio que fiz a viagem.
Não estavam. Segui para a Junqueira, onde estava a trabalhar, deslocado pela ITT para fazer um levantamento de material obsoleto da NATO. Era o esconderijo para o saco até passar o 1º de Maio, a PIDE não iria a armazéns com trastes da NATO à procura de coisas “subversivas”.
 
Fechei o saco num cacifo, trouxe a chave e saí a galope, Alcântara, Santos, Cais do Sodré, Rua do Alecrim…e na subida vi o primeiro soldado, deitado, de capacete de aço e arma pronta. À volta alguns populares de pé e nas calmas faziam-lhe perguntas, o rapaz só sabia que tinha de estar ali. Do lado direito, por cima de um tapume, viam-se as janelas da António Maria Cardoso, de lá, daí a umas horas a PIDE faria as únicas vítimas mortais da Revolução de Abril.
 
As imagens deste soldado e das janelas do edifício da PIDE visto daquele ângulo estão registadas em filme, assim como tudo o que passou no Largo do Carmo onde estive, o Francisco Sousa Tavares em cima dum tanque, os tiros para o quartel, a espera pela rendição de Marcelo Caetano.
 
E foi assim passado o dia, iniciado com muita tensão e findado com imenso alívio. Depois dos pulos, dos abraços aos conhecidos que iam chegando, cantando o “povo unido jamais será vencido”, vitoriando os heróis fardados decorados com cravos, numa alegria colectiva incontável, acabei o dia sentado nos Restauradores com a minha namorada (não sei como me encontrou) a comer morangos.
Os morangos ficaram para mim como símbolo desse dia, têm uma vantagem sobre os cravos, não murcham como as Revoluções.
 
Este post é baseado num artigo que fiz em 2003. Este ano estou murcho para escrever sobre o 25 de Abril – eu até sei porquê…


publicado por Carlos Loures às 12:00
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Orlando da Costa no Terreiro da Lusofonia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Orlando da Costa (1929-2006) foi um poeta verdadeiramente  lusófono. Nascido em Moçambique numa família goesa e, como tal, criado em Margão, veio para Lisboa para a Universidade e, com três nacionalidades possíveis, optou pela portuguesa. E foi um português de eleição, um homem que lutou contra a ditadura e sempre se mostrou consequente com os seus princípios. Um grande português e um grande escritor.

 

 

 

 



publicado por João Machado às 10:00
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Quarta-feira, 27 de Abril de 2011
Onde estive no 25 de Abril – por Carlos Loures

A voz rouca do Baptista Bastos, perguntando onde estávamos no 25 de Abril formula uma pergunta importante. O que a pergunta pretende saber, não é onde estávamos fisicamente, mas onde estávamos politicamente. O que é importante é saber o que cada um de nós fez para merecer o 25 de Abril. No entanto, vou responder ao sentido literal – como passei o «meu» 25 de Abril.

 

Vivia desde 1971 perto da Parede. Desde as eleições legislativas de 1973 quando se verificou a cisão no MDP- CDE (entre os militantes do PCP e os da chamada extrema-esquerda), todas as semanas, nas noites de sexta-feira, fazíamos uma reunião política. O local era a garagem do Pedro Pai, na Rua de Silves. Tinha um filho adolescente com o mesmo nome. Daí o «Pedro Pai», para que não houvesse confusões entre um homem politicamente actuante e um jovem estudante e surfista emérito, se não estou a fazer confusão. Éramos três ou quatro dezenas. Gente da Parede e de Carcavelos que depois se espalhou pelo MES, pela LCI, pelo PRP.  Algumas reuniões fizeram-se na minha garagem que era maior do que a do Pedro. Quando vinha gente de Lisboa, a reunião tinha de ser num espaço mais amplo.

 

Em casa do meu compadre Joaquim Reis (um segundo andar quase defronte do Pedro) havia reuniões mais íntimas. Meia dúzia de pessoas. No primeiro andar morava um jornalista da RTP, um homem conhecido, e que fora indigitado para assistir às reuniões do MFA. Trazia-nos comunicados e informações. Quando em 16 de Março houve o movimento das Caldas, ficámos desapontados, Foi num sábado, mas logo no domingo à noite esse amigo nos tranquilizou – o «movimento» fora preservado.

 

Tínhamos o hábito, eu e a minha mulher, de irmos às quartas-feiras almoçar a casa dos meus pais na Rua dos Douradores e, no dia 24 lá fomos. Quando acabado o almoço íamos tomar o metro para São Sebastião (eu trabalhava na António Augusto de Aguiar e ela na Filipe Folque), o António José Forte, que estava no Café Lusitano (vulgo Patinhas), na esquina da Rua da Prata com a de Santa Justa, viu-nos passar e saiu a correr para me perguntar:

- Quando é que é «aquilo»? - «Aquilo» era a Revolução. Quase todas as semanas almoçávamos (salvo erro às quintas) num restaurante da João Crisóstomo, o Pelé. Era o grupo da “Comuna”, uma ideia do Pedro Oom de que aqui falei há tempos.  Nesses almoços ia-os pondo ao corrente do que sabia nas tais reuniões e trazia-lhes fotocópias dos comunicados. O Forte queria saber se eu sabia quando era. Não sabia. Em todo o caso, respondi-lhe:

- É amanhã! – respondi com um sorriso, pois não era para levar a sério e o Forte riu-se também.

 

No dia seguinte uma quinta-feira acordei à hora do costume, pouco depois das seis. Cerca das sete, quando íamos a sair, uma vizinha, que tinha o hábito de ouvir rádio durante a noite, informou-nos de que estava a dar-se um golpe militar. Ouvira comunicados. Aconselhou-nos, a mim e à minha mulher, a não irmos trabalhar, pois os comunicados mandavam as pessoas ficar em casa. A Helena resolveu ficar com os filhos que também não iriam à escola. Levei o carro até São Pedro e tomei o comboio. Pouca gente ao contrário do que era costume. Nada de estranho pelo caminho. Na 24 de Julho alguns carros da polícia.

 

No Cais do Sodré entrei num um táxi. O motorista disse-me que o Terreiro do Paço estava cheio de tanques e auto metralhadoras. Não se passava. Subiu a Rua do Alecrim, depois a da Misericórdia. Pôs uma hipótese pessimista - «Isto é um golpe do Kaúlza». – e acrescentou – «o Caetano amoleceu e o Kaúlza vai endurecer o regime» – Era uma hipótese plausível. Mas eu tinha esperança de que fosse «aquilo». Conseguimos chegar  sem impedimentos. No cruzamento da António Augusto de Aguiar, onde a Duque D’ Ávila dá lugar à Marquês de Fronteira, algum aparato, uma Panhard salvo erro e policia militar a dirigir o trânsito. O Quartel general ali a poucos metros estava cercado.

 

No escritório deserto comecei a fazer telefonemas. Liguei a rádio.  Ao quarto para as nove ouvi o comunicado do MFA - «As Forças Armadas iniciaram uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina». E avisava as forças policiais de que qualquer acção hostil seria repelida severamente. Pedia à população para se manter calma e recolhida nas suas casas. Percebi que era mesmo «aquilo».

 

Entretanto chegou o Luís Rocha. O pessoal foi aparecendo e mandámos todos para casa. Resolvemos não funcionar. Telefonei a dois «conjurados».  O Jaime Camecelha, gerente bancário, veio de Campo de Ourique e o Joaquim Reis, tesoureiro numa agência de viagens, zarpou do Cais do Sodré. Começámos a percorrer a cidade. Depressa tivemos um retrato da situação. Depois do meio-dia acompanhámos a coluna que subiu a rua do Carmo e a Garrett na direcção do Carmo. Temos uma foto tirada pelo Jaime em que eu e o Joaquim estamos encostados a um tanque em frente do Jerónimo Martins. As empregadas saíram com as suas batas brancas com caixotes cheios de laranjas. Nós e muitos outros ajudámos a distribui-las pelos soldados.

 

Passava do meio-dia. Fomos até ao Camões e subimos a Rua da Misericórdia. Camiões da GNR e soldados da Guarda, postavam-se ao longo da Rua da Trindade. Eram forças fiéis ao governo. Um cabo perguntou-nos se tínhamos tabaco. Demos-lhe um maço de SG e aproveitámos para conversar. Era um “velho” (mais de quarenta anos). Dissemos-lhe que o MFA ia triunfar e que não merecia a pena ele e os colegas sacrificarem as vidas, O homem concordou, tinha mulher e filhos. Mas tinha que obedecer a ordens. Um sargento a poucos metros ouvira a conversa – cumprimentou-nos, sinal de que não discordara dos nossos conselhos.

 

 

 

Descemos até ao Carmo. Ao fim da tarde fomos para minha casa no carro do Jaime. Na Praça do Município, cruzámo-nos com um grupo de guardas do Corpo de Intervenção, com o capitão Maltês a comandá-los. Afastaram-se para nos dar passagem. Em minha casa havia muita gente – improvisou-se um jantar e ficámos presos à televisão até que. já nas primeiras horas do dia 26 apareceu a Junta e o seu comunicado. O Reis, alentejano e sempre irónico, comentou - «Porra! Parecem mexicanos!». Era verdade, parecia uma junta militar sul-americana, no sentido pejorativo, claro.

 

Nunca consegui convencer o Forte de que a minha resposta à sua pergunta fora casual. “Aquilo” aconteceu mesmo quando lhe disse.

 

Junto um poema que saiu em livro e em diversas antologias. Foi escrito quanto «aquilo» terminou e a «normalidade» foi reposta.

 

Dia Um, Ano Primeiro

 

 

                       Aqui posto de comando

                       Do movimento das Forças Armadas

 

 

De súbito, a manhã ficou mais clara:

uma ave luminosa invadira o tempo,

rasgando com as asas a cortina brumosa,

a toalha de pus, a cirrose do medo.

De repente, tudo assumiu outro sentido

na poalha dourada da luz amanhecente

com os soldados, os tanques, os comunicados,

com as espingardas floridas e com a gente.

O silêncio derramou das suas feridas

um rio de fogo que destruiu as mordaças

e um grito colectivo de raiva e esperança

inundou as ruas, as praças e as avenidas.

Um hálito de futuro as percorreu;

uma inscrição floresceu vitoriosa

sobre a pedra musgosa de um velho muro

como um murro nos dentes da opressão.

A criminosa apatia que por tantos anos

nos enevoara o gesto e sufocara a voz

esfumava-se na rosa evanescente da alvorada

e surgia agora transformada em canção.

 

Um mundo de intermináveis corredores,

de cárceres, de tortura, exílio e morte

diluía-se no ácido subtil desta alegria,

que ocupara a cidade, o país e todos nós.

Pela noite, enqunto quase todos dormiam

eclodira a soleira, o limiar de um novo tempo:

o assassínio, a fome e a ignorância

pareciam já só uma recordação pungente.

Os milhões de cérebros violentados

por décadas de estupidez e crueldade

pareciam ser produto da nossa imaginação

ou ter existido apenas num pesadelo atroz.

Adormecéramos velhos, ciciantes e derrotados,

acordávamos jovens, iluminados e vitoriosos

e isso deixava-nos atónitos e boquiabertos,

cegados pela luz feroz da liberdade.

Falo do instante, do momento feito de horas

em que o tempo se suspendeu solene

enquanto se esvaía a noite da repressão

e a manhã clara nascia, incandescente.

 

Não falo do tempo em que, hesitantes,

procurávamos a bússola, o sextante, a vela

para navegar Abril, para sulcar o oceano

que o coração do povo abria generoso à Revolução.

Falo, sim, do momento em que o chacal

se escondeu, amendrontado, no fundo do covil,

espiando-nos a esperança, sonhando anoitecê-la

em setembros e marços de ódio e de vingança.

(Nas nossas mãos espreitavam já talvez

as garras de dilacerar revoluções e matar sonhos,

dentro de muitos de nós despontavam sementes

de outras novas e cinzentas servidões).

 

A luz atravessou o prisma de cristal da vida

e explodiu em mil cintilações de cor

perfurando o pulmão dos velhos medos

com um seta de amor, um estilhaço de sol…

Desse momento falo, do instante breve e puro

em que o Paraíso pareceu estar à mão dos nossos dedos;

não, não é do passado que vos falo – juro,

pois foi no futuro que Abril aconteceu.

 

 



publicado por Carlos Loures às 12:00
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Terça-feira, 26 de Abril de 2011
LEVANTA-TE E ANDA, 25 DE ABRIL, por Raúl Iturra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Zeca Afonso Grândola, Vila Morena

 

 

 

 

Para os cidadãos lusos, pais das crianças, que hoje vivem a nova História de Portugal.

 

Houve o tempo em que Portugal era uma eterna tirania. Não apenas nos tempos do ditador dos começos do Século XX, 1928 até o 25 de Abril de 1974. Antes, as primeiras repúblicas não se sabiam governar, era uma nova experiência ter um Presidente da República e não um rei, Dom Carlos de Bragança que fora morto com o Príncipe Real, herdeiro da coroa, Luís Filipe. Portugal passou a ser um país sem monarquia a partir do dia que o outro filho varão de Carlos I, Dom Manuel, que passou a ser o Manuel II e teve que assumir a coroa. Era novo, não estava preparado para governar, era quase um Menino.

 

D. Manuel II de Portugal (nome completo: Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orleães Sabóia e Saxe-Coburgo-Gotha; 15 de Novembro de 18892 de Julho de 1932) foi o trigésimo-quinto e último Rei de Portugal. Fonte: PROENÇA, Maria Cândida, 2006: D. Manuel II, Rio de Mouro, Círculo de Leitores. D. Manuel II sucedeu ao seu pai, o rei D. Carlos I, depois do assassinato deste e do seu irmão mais velho, o Príncipe Real D. Luís Filipe, a 1 de Fevereiro de 1908. Antes da sua ascensão ao trono, D. Manuel foi duque de Beja e Infante de Portugal. O herdeiro nada preparada para governar, reinara apenas dois anos, teve que fugir de Portugal com a Rainha viúva Dona Amélia e a família a 5 de Outubro data da proclamação de República mo nosso país. Fugiram para Inglaterra, país dos seus parentes Saxo-Coburgo.

 

Na verdade, a 4 de Outubro de 1910, começou uma revolução e no dia seguinte, 5 de Outubro deu-se a Proclamação da República em Lisboa. O Palácio das Necessidades, residência oficial do Rei, foi bombardeado, pelo que o monarca terá sido aconselhado a dirigir-se ao Palácio Nacional de Mafra, onde sua mãe, a Rainha, e a avó, a Rainha-mãe D. Maria Pia de Sabóia viriam juntar-se a ele. No dia seguinte, consumada a vitória republicana, D. Manuel II decidiu-se a embarcar na Ericeira no iate real "Amélia" com destino ao Porto.

 

Os oficiais a bordo terão demovido D. Manuel dessa intenção, ou raptaram-no simplesmente, levando-o para Gibraltar. A família real desembarcou em Gibraltar, recebendo-os logo a notícia de que o Porto aderira à República. O golpe de Estado estava terminado. A família real seguiu dali para o Reino Unido, onde foi recebido pelo rei Jorge V.

 

O regicídio tinha sido preparado pela organização regicida, A Carbonária tendo sido organizada em Portugal pelo sobrinho tetraneto de Michelangelo Buonarotti. Philippo, quem era especialista em matar à aristocracia. De todos eles, cabeças coroadas, como narra no seu livro de 1858, Paris, Chez C.Charavay Jeune, editora. O original está comigo.

 

Os livros de História sabem melhor narrar estes episódios, que a minha capacidade de escrita e investigar. Remeto a eles os inconfortáveis factos dos séculos XIX e XX.

 

Uma ditadura começou em 1928, orientada por um Ministro das Finanças,  de nome António de Oliveira Salazar GO TE (Vimieiro, Santa Comba Dão, 28 de Abril de 1889Lisboa, 27 de Julho de 1970) foi um estadista, político português e professor cátedra. Instituidor do Estado Novo (1933-1974) e da sua organização política de suporte, a União Nacional, Salazar dirigiu os destinos de Portugal, como Presidente do Conselho de Ministros, entre 1932 e 1968.                                                                                                                                                                                         

 

Os autoritarismos que surgiam na Europa foram amplamente experienciados por Salazar em duas frentes complementares: a propaganda e a repressão. Com a criação da Censura, da organização de tempos livres dos trabalhadores FNAT, da Mocidade Portuguesa, masculina e feminina, o Estado Novo garantia a doutrinação de largas massas da população portuguesa da Universidade de Coimbra.

 

Adoeceu, se for homem de fé, diria graças a deus, e Marcelo Caetano o substituiu, até o dia em que as forças armadas portuguesas, fartas já de andar colonizar a África Portuguesa, baixo o mando do capitão Salgueiro Maia, como se tornou conhecido, foi um dos distintos capitães do Exército Português que liderou as forças revolucionárias durante a Revolução dos Cravos, que marcou o final da ditadura.                                              

 

Filho de Francisco da Luz Maia, ferroviário, e de Francisca Silvéria Salgueiro, frequentou a escola primária em São Torcato, Coruche, mudando-se mais tarde para Tomar, vindo a concluir o ensino secundário no Liceu Nacional de Leiria (hoje Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo). Depois da revolução, viria a licenciar-se em Ciências Políticas e Sociais, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa. Fernando José Salgueiro Maia GO TE (Castelo de Vide, 1 de Julho de 1944Santarém, 4 de Abril de 1992), liderou esse dia do 25 de Abril, era i capitão que arrecadou ao exército e outros capitães e ganhou a batalha de denominada Revolução dos Cravos, bem conhecida por todos nós .             

 

Infelizmente Salgueiro Maia foi atacado por um cancro e faleceu, o herói do 25 de Abril, em 4 de Março de 1997, com 44 anos. Não viveu o suficiente para fazer do 25 de Abril, uma democracia de seres igualitários. Democratas e livres.

 

 

 



publicado por João Machado às 15:00
editado por Luis Moreira às 15:19
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Segunda-feira, 25 de Abril de 2011
25 de Abril - 21

Dia 25 de Abril

 

 

 

23:30 -  Chegada da EPC a Cavalria7 e a Lanceiros 2 que são ocupados, perante a rendição, sem resistência, dos seus comandantes.

 

 

Nessa noite o país festejou. À 1,30h do dia 26 foi feita a proclamação da Junta de Salvação Nacional.

 

 

 

 

 

 

FIM DE TARDE DE ABRIL  Orlando Cardoso (1948)

 

 

atravessávamos a poalha do fim da tarde em abril

escuro lamento da voz rompíamos o círculo estreito de

amizades cinzentas o muro branco da lamentação

antiga abríamos um seco areal aí passava o sol

banhando a tua roupa a nudez do corpo macerado no

ofício dolorido dos navios

 

 

 

(In Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 

Equipa responsável por este dia: Augusta Clara, Carlos Loures, Luís Moreira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 23:30
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25 de Abril - 20

Dia 25 de Abril

 

 

 22:00 - Pára-quedistas chegam à prisão de Caxias. A PIDE/DGS continua a resistir.

 

 

 

AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU  José Carlos Ary dos Santos

 

(3 fragmentos)

 

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

(…)

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

(…)

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

 

(in Poemabril, 2ª edição, Coimbra, 1994)



publicado por Augusta Clara às 22:00
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25 de Abril - 19

Dia 25 de Abril

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LEGENDA DE ABRIL  Papiniano Carlos (1918)

 

Para os meninos do meu país

 

 

Eram

três capitães

eram trezentos capitães

Eram

trinta sargentos

eram três mil sargentos

 

Eram

trezentos soldados

eram trinta mil soldados

 

E eram

duas e quinze da madrugada

 

Vestiam camuflados de combate

e  relampejantes

e empunhavam as armas

 

Eram

duas e quinze da madrugada

a noite chegava ao fim

 

Não eram super-homens

não eram arcanjos cavalgando

o relâmpago e o trovão

eram jovens soldados sangue

do nosso sangue popular

 

Relampejantes

empunhavam as armas

fitavam de frente os monstros

uivantes

a abominável hidra

do terror fascista

 

Eram

duas e quinze da madrugada

finalmente amanhecia

em Portugal

 

E era

de cravos couraçado

o povo triunfante

às portas de Abril

 

(Diário, 25/4/80)

 

(In Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 

 

 

 

25 DE ABRIL  José do Carmo Francisco (1951)

 

Dez anos depois eu trago numa bandeja

Retratos e sons que guardei na altura

Não como quem já chora ou inda festeja

A certidão de óbito passada à ditadura

 

Porque os abutres logo vieram a correr

Sem mais cuidado que tomar outro lugar

à frente das muitas secretárias do poder

Para  proibir a festa de mais avançar

 

Dez anos depois trago uma revolta

A raiva já sem limites duma tradição

Feita em eleições com fascismo à solta

Só amordaçam mas não matam a Revolução

 

(In Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 21:00
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25 de Abril - 18

Dia 25 de Abril

 

 

20:00 -  Disparos de elementos da PIDE/DGS sobre manifestantes que começavam a afluir à sede daquela polícia na Rua António Maria Cardoso, fazem quatro mortos e 45 feridos.

 

20:05 - É lida no RCP, a Proclamação do Movimento das Forças Armadas.

 

 

 

 

 

 

RUMOR  Antunes da Silva (1921)

 

Se gosto desgosto

desta terra onde nasci,

porque longe meço o gosto

de viver onde vivi.

 

Se aqueço arrefeço

ao lume que pressenti,

ser o lume donde aqueço

outro lume que escolhi

Não vou cantar: canto

em Abril o que colhi,

meu país e meu recanto:

outro canto descobri.

(In Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 




publicado por Augusta Clara às 20:00
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25 de Abril - 17

Dia 25 de Abril

 

Duas entrevistas de Otelo sobre a organização do 25 de Abril:

 

http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=txtOtelo1

http://www1.ci.uc.pt/cd25a/wikka.php?wakka=txtOtelo2

 

 

19:30 - Marcelo Caetano e os ministros que com ele estavam no quartel são transportados, numa Chaimite (veículo blindado), para o posto de comando do MFA, na Pontinha.

 

 

19:50 - Comunicado do MFA anuncia a queda do Governo.

 

 

 

 

10º POEMA DE ABRIL  José Manuel Mendes (1948)

 

Acolher maio com punhos

de metal

           

repartir orvalhadas rosas

bagos de coral

 

agitar bandeiras espigas

ruivas

na luz fria

 

alagar as ruas do límpido cantar

como semeando faias na penumbra

da alegria

 

dizer íris com verdes asas

povo com mica dum clamor

fabril

 

gritar este dia com agulhas

de cristal

e fecundar abril

 

(in Pedra a Pedra, Lisboa, 1983 e Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 19:00
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25 de Abril - 16

Dia 25 de Abril

 

 

15:10 - Salgueiro Maia solicita, com megafone, a rendição do Carmo em 10 minutos. Momentos antes recebera do Posto de Comando do MFA uma mensagem escrita pelo major Otelo Saraiva de Carvalho na qual ordena que apresente um aviso-ultimato para a rendição.

 

15:30 - Não sendo atendido após 15 minutos, Salgueiro Maia ordena ao tenente Santos Silva para fazer uma rajada da torre da Chaimite sobre as janelas mais altas do Quartel, repetindo o apelo de rendição logo a seguir.

15:45 - Do Quartel do Carmo sai o major Hugo Velasco, membro do MFA, para falar com o capitão Salgueiro Maia.

 

 

16:00 –  O coronel Abrantes da Silva, a pedido de Salgueiro Maia, entra no Quartel para dialogar com os sitiados.

 

16:15 -  O capitão Salgueiro Maia dá ordens ao alferes miliciano Carlos Beato para instalar os seus homens no cimo do edifício da Companhia de Seguros Império e fazer fogo sobre o Carmo, agora com armas automáticas G-3.

16:25 – Salgueiro Maia, não tendo resposta dos sitiados no Quartel do Carmo, ordena a colocação de um blindado em posição de tiro e chega a dar "voz" de "um, dois"..., sendo interrompido pelo tenente Alfredo Assunção que conduz dois civis até ele. Trata-se de Pedro Feytor Pinto, director dos Serviços de Informação da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, e Nuno Távora, que se dizem portadores de uma mensagem do general Spínola para Marcelo Caetano.

Portugal, Lisboa. Revolução de 25 de Abril de 1974

 

16:30 - Salgueiro Maia autoriza a entrada no Quartel dos dois mensageiros.
Spínola comunica ao Posto de Comando do MFA ter recebido um pedido de Marcelo Caetano para ser ele a aceitar a rendição do chefe do governo. Otelo, após recolher a opinião dos presentes, concede-lhe esse mandato.

 

 

16:45 - Os dois mensageiros saem do Quartel do Carmo e deslocam-se num jipe, acompanhados por Alfredo Assunção, para casa de Spínola que, entretanto, se dirige já para o Carmo.

 

17:00 -  Salgueiro Maia desloca-se ao interior do Quartel e fala com Marcelo Caetano que, após ter colocado algumas perguntas, lhe solicita que um oficial-general vá efectuar a transmissão de poderes (Spínola, com quem, aliás, falara já ao telefone) para que o poder não caia na rua. .Salgueiro Maia pede a Francisco Sousa Tavares e a Pedro Coelho, oposicionistas ligados à CEUD e ao PS, para ajudarem a afastar a população. Sousa Tavares sobe para uma guarita da GNR e, usando o megafone, apela à calma.

 

17:45 - Chega ao Largo do Carmo António de Spínola. Após longos minutos envolvido pela multidão, o carro que transporta Spínola consegue, finalmente, chegar junto da porta de armas do quartel.

 

 

 

18:00 - António de Spínola, acompanhado por Salgueiro Maia (que o informa sobre o modo como os membros do Governo serão retirados das instalações), entra no Quartel do Carmo para dialogar com Marcelo Caetano.

 

18:15 - Spínola encontra-se com Marcelo e informa-o dos procedimentos que serão adoptados para a sua saída do local e posterior evacuação para a Madeira. Enquanto isso, Salgueiro Maia pede à população que abandone o Largo do Carmo, a fim de se proceder à retirada do Presidente do Conselho e dos ministros. O apelo é ignorado.

 

 

18:20 - Um comunicado do MFA informa o País da entrega de Marcelo Caetano e de membros do seu ex-governo, refugiados no Carmo.

 

 

18:30 – A  Chaimite entra de marcha atrás no Quartel do Carmo.

 

 

18:45 - O Decreto-Lei 171/74, que "entra imediatamente em vigor", extingue a Direcção-Geral de Segurança, a Legião Portuguesa, a Mocidade Portuguesa e a Mocidade Portuguesa Feminina.

 

 

 

SONETO  Olga Gonçalves (1929-2004)

 

festejar no teu corpo a liberdade
que a dobra desta noite pronuncia
sobre o nervo da voz força de alarme
garganta milimétrica de abril

um cravo da coronha de um soldado
no carmo há meia hora ainda em sentido
para o gesto tão fundo tão volável
infância já da luz dentro do sismo

jornais não censurados no tapete
uma fábula fértil de fogueiras
crepitando onde rola o som da estampa

interior ao rumo a labareda
o desenho final do nosso beijo
na premissa mais livre do meu sangue

 

(in Só de amor, Lisboa, 1975 e Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 



publicado por Augusta Clara às 15:00
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25 de Abril - 15

Dia 25 de Abril

 

 

LEMBRANÇA ENTRE ELEGIA E HINO PARA O 25 DE ABRIL  António Salvado (1936)

 

O trigo espera o campo das searas

vive o sonho o pomar:

um canto de cigarra

aguarda os frutos para se entregar

 

 

A sombra nega a promessa

na tristeza maior das oliveiras:

ausente luz que atravessa

sem clarão o estreme nevoeiro

 

Que esvaído o contorno

é este que quando o granito

sufoca a terra onde nasceu o grito

adormecido em desalento morto

 

Despertas pousam ainda nos galhos

as aves: o desafio

E o vento aguarda puro sobre as árvores

A vinha se anuncia!

(in Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 

25 DE ABRIL  José do Carmo Francisco (1951)

 

Dez anos depois eu trago numa bandeja

Retratos e sons que guardei na altura

Não como quem já chora ou inda festeja

A certidão de óbito passada à ditadura

 

Porque os abutres logo vieram a correr

Sem mais cuidado que tomar outro lugar

à frente das muitas secretárias do poder

Para  proibir a festa de mais avançar

 

Dez anos depois trago uma revolta

A raiva já sem limites duma tradição

Feita em eleições com fascismo à solta

Só amordaçam mas não matam a Revolução

 

(In Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 



publicado por Augusta Clara às 14:00
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25 de Abril - 14

Dia 25 de Abril

 

 

12:30 - É cercado, pelas forças de Salgueiro Maia, o Quartel da GNR do Largo do Carmo, onde se encontra o presidente do Conselho, Marcelo Caetano.

 

12:45 - Forças da GNR, fieis ao Governo ocupam posições na Rua da Trindade, na retaguarda do dispositivo de Salgueiro Maia.

 

 

 

 


 

 

 

 

E CORRERAM OS RIOS  Wanda Ramos(1948-1998)

 

Correram como rios as palavras

altas e soltas            correram os rios na gente

rios de lava      Lisboa inflamada acorrendo fremente

nos dias eu se abriram          vinda das faldas vertida

dos dormitórios      da cintura fumegante e mecanizada

                        Lisboa livre acorreu

enxameadas as veias      avenida da liberdade

rossio         terreiro do paço          Belém

- e além na outra banda absurdo o cristo:

braços em cruz impotente –

e correndo os rios cada vez mais latos

até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada

afundadas as olheiras da vigília    entornadas

as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte

o sangue agitado o tempo:

                       uníssono o nosso grito

                          escancarado em cada rua

                          em passo de estar alerta

                          uníssono ressoou porém mais fundo.

E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro

e levaram alamedas da liberdade acima

que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?

(Diário de 25/4/79)

(In Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 



publicado por Augusta Clara às 12:30
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25 de Abril - 12

Dia 25 de Abril

 

 

 

 

O CARANGUEJO  Carlos Pinhão (1924-1993)

 

O caranguejo

talvez seja bom rapaz

não digo que não

mas quando o vejo

a andar para trás

faz-me lembrar a Revolução.

 

(In Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 

 

EU CANTEI ABRIL  António Augusto Menano (1937)

 

Eu cantei Abril

e tu também

 

Eu cantei Abril

e tu também

 

A raiva e o amor cantámos

sem trilhos vagos

e secretos lugares

 

Cantámos o amor

de estar em Abril, amando-o,

a cantar Maio

 

 

(De Cinco poemas de Abril e Maio, in Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 



publicado por Augusta Clara às 10:00
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25 de Abril - 9

Dia 25 de Abril

 

 

07:00 - Vindo da Ribeira das Naus, chega ao Terreiro do Paço um pelotão de reconhecimento Panhard de Cavalaria 7, comandado pelo tenente-coronel Ferrand de Almeida, que acaba por se render, sendo preso.

 

07:30 - Quinto comunicado do MFA – Repete as advertências às forças policiais e militarizadas e pede à população que se mantenha calma e permaneça nas suas residências.

 

 

25 DE ABRIL  Hélia Correia (1949)

 

Agora deve-se beber, ohé, dançai

sobre este chão que estala com o cheiro

das coisas prometidas, com o fresco

tambor da ansiedade.

 

É, a festa, mulheres!

Que sangue vibra,

que flor ou menstruo? Cor

que abotoais nas blusas, que atirais

na direcção do sol.

                                   Espantosamente

se desfaz a montanha..

Hoje é a ceifa, oh!

                                   Beijai a terra,

soletrai-a com sede e devagar

 como se toma a posse do amor

 e se mordem os frutos.

 

 

Salve, mãe, o teu ventre perfumado

pelo nosso triunfo.

 

Bebamos, pois, o vinho destas vozes,

 soltemos estes cravos como potros

 embriagados.

 

Como intensas éguas

 incendiárias

 

Cantai, cantai, crianças o esplendor

de que nasceis herdeiras.

 

Erguei nas vossas mãos o ar por onde

esvoaça esta alegria.

 

Que ninguém adormeça.

Por que dias,

meses a fio, e anos, dançaremos

por sobre a claridade.

 

Vinde, bebei, ciganos:

eis a pátria.

 

 

(In Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 

 

 

 

 

 

 




publicado por Augusta Clara às 07:00
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25 de Abril - 8

Dia 25 de Abril

 

06:05 - Chega ao Terreiro do Paço um esquadrão de Chaimites reforçado com Panhards de Cavalaria 7, fiel ao Governo. Adere ao MFA, tal como os dois pelotões do Regimento de Lanceiros 2 que guardam o Ministério do Exército.

 

06:45 - Quarto comunicado do MFA: Dá-se conta de que as Forças Armadas decidiram tomar a seu cargo a presente situação, repetindo-se o aviso de que qualquer oposição das forças militarizadas será duramente punida.

 

 

AINDA HOJE SE FALA NESSE DIA  António Cabral (1931-2007)

 

Ainda hoje se fala nesse dia. Que
surgiu como bola de fogo
na sulfurosa montanha.
Dies irae, dies illa. Distante, mas

não tanto que se tenha apagado da raiva.
Sobretudo os mais novos são os primeiros
a recordar. Um hálito forte
de primavera excitava o húmido

corpo da noite e alguns cravos
trocavam na varanda suas palavras
recentemente proibidas.
À boca de muitos túneis, o mesmo corpo

surgia lentamente inundado de tons
claros. E passos musicais, firmes ,
falavam cada vez mais alto
pela incrível madrugada.

Quem decidiu tão feroz descontentamento
e encheu de alecrim as urnas
da memória? Até o ouro tinha um sabor
a enxofre. Velhas ideias

ardiam. Quão doce espectáculo! As culpas
reentravam no buraco dos olhos,
coisas insalubres, enquanto  as lendas
vinham para a rua em cabelo.

Quando rompeu a manhã, um clarão
íntimo começou a jorrar
dos  armários da luz, acumulação
de muitos anos, subiu de novo

às varandas, floriu no púbis.
Escancarou as coisas interditas.
Os jornais e as fábricas, a alcova
secreta, a rua  e os campos anilados,

a escola da luz, tudo isso comoveu
o frágil coração do poeta que
pôs olhos atentos na cotovia:
do morro o coração, emerso no nevoeiro,

cintilava. Ainda hoje
se fala desse dia.
Mas sobretudo os mais novos continuam a recordar.

 

(In Poemabril, 2ª edição , Coimbra, 1994)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 




publicado por Augusta Clara às 06:05
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