Quarta-feira, 28 de Julho de 2010
Lopo e o avõ Bartolomeu
Carlos Loures

Lisboa, Primavera de 1459.

- Rapaz, sabes o que é um almogárave? - Quase sempre que o via, o avô Bartolomeu lhe fazia esta pergunta. E, para maior infortúnio do jovem Lopo, o ancião via-o todos os dias, pois a família habitava, desde há muitos anos, toda na mesma casa, ou seja, Lopo, seus pais, Simão e Branca Maria, Maria Beatriz, sua irmã mais velha, moça bonita e já casadoura, seu irmão Antão, o mais novo dos três, ainda estudando na vizinha escola catedralícia e seu avô paterno, o tal velho e destemido almogárave. Ficava a casa da família Mateus na Rua Direita de São João, freguesia de São João da Praça, junto da Judiaria Grande, na aljama de Lisboa, mas, da casa propriamente dita, um pouco mais adiante vos falarei com algum pormenor. O que vinha a ser então um almogárave? Ora, não sabia Lopo outra coisa, pois ouvira centenares de vezes a pergunta e outras tantas a explicação, bem como as longas e complicadas, mas – reconheça-se – nunca enfadonhas, histórias adjacentes. Contudo, o obstinado velho, simulava não ouvir e nunca queria atentar na afirmativa resposta do seu jovem neto, pois decidira já que, fosse ela qual fosse, explicaria tudo de novo. Era fatalidade a que o pobre Lopo nunca lograva fugir:

- Pois fica sabendo meu rapaz – recitava o ancião, sempre com o dedo indicador muito esticado – gesto que talvez dele tenha herdado no sangue, pois, sobretudo quando falo com gentes das mais novas gerações, me surpreendo com o indicador em riste – que um almogárave é um homem, um ginete audacioso, vestido de loriga e cota, munido de lança, adaga e às vezes de besta armada, que entra em correrias na retaguarda das hostes inimigas, onde fica a carriagem e se armazenam as provisões de boca, o gado bovino, os rebanhos de gado miúdo, as armas e munições de guerra, as alfaias dos artífices, os instrumentos e medicinas dos físicos, as mulheres que mitigam as necessidades dos soldados, porque, claro, os homens longos meses fora de suas casas... – o velho por esta altura da prédica ficava sempre um pouco tartamudo – bem esta parte explico-ta depois… – enfim, onde se guarda tudo o que é necessário ao funcionamento de um grande exército em campanha. Como dizia, o almogárave surge como se viesse do nada, silencia as sentinelas cortando-lhes as gorgomeleiras com a adarga, pilha, destrói, incendeia e mata e, realizada a sua fatal, mas necessária missão, desaparece, tão depressa como surgiu, como se nunca tivera existido ou como se fora uma nuvem em céu de Agosto – e completava a, mil vezes repetida, explicação, sublinhando com voz estentórea, terrível – eu sou um almogárave!

Quando era mais pequeno, criança ainda de colo, Antão, irmão mais novo de Lopo, o benjamim da família Mateus, desatava em aterrorizado berreiro quando o velho gritava no sempre apoteótico final da sua estafada crónica guerreira. A rogo da nora, Bartolomeu lá condescendia em baixar um pouco o tom da voz, resmungando porém:

- A chorar? Ora, está visto que filho de copista, de iluminista, de calígrafo, ou lá o que é isso que todo o dia fazeis na Torre Albarrã, filho de escriba, temeroso sai! - E repetia para Lopo, agora num tom de voz mais baixo – Escuta bem meu rapaz, eu sou um almogárave!

O velho Bartolomeu dizia sempre «eu sou» e não «eu fui», como deveria dizer, pois estava a falar de coisas acaecidas cinquenta anos antes, anteriormente à era em que Portugal celebrou a primeira paz com Castela, a precária paz de Segóvia, no distante ano de 1411. E acrescentava sempre com um ar de superioridade:

- Mas, que sabem tu e teu pai, calígrafos, copistas que sois, destas coisas de armas? Tempos difíceis os de hoje, dizeis. Não, bofé, tempos difíceis foram esses, os meus! - E, se a conversa tinha lugar na rua, cuspia sobre a calçada. Porém, sempre que falava do «seu tempo» o olhar iluminava-se-lhe e a voz parecia crescer de emoção e vigor.

Porque, dizia o idoso Bartolomeu, apesar de muito mais difíceis do que os actuais, esses tempos eram, apesar da terrível Peste Negra e da interminável guerra com Castela, incomparavelmente mais belos. Sim na verdade o céu era muito mais azul, o sol bem mais quente e luminoso, o vento mais perfumado, o odor do mar mais salgado e penetrante nos sentidos, os frutos mais saborosos, as aves mais belas e mais subtil e sedoso o seu voo, as moças mais formosas, ainda que mais, muitíssimo mais, recatadas. Tudo era mais difícil, mais duro. Mas tudo era melhor. Difícil era compreender os anciãos, pensava Lopo. Nem todos, no entanto. Na realidade, o rapaz conhecia um ancião, calmo sábio e ponderado, bastante diferente do que seu avô era. Parava ao fim da tarde pela locanda do mestre Samuel Levi, que a velha tabuleta de madeira indicava ser a Taverna do Falcão Azul, na Rua da Porta do Mar, ali mesmo, a dois passos da Catedral. Nos dias de maior calor o jovem ia ali beber uma água muito límpida e fresca temperada com limão e adoçada com mel de abelhas, que quase sempre acompanhava com uma cidrada deliciosa, dessa que se costumava comer por alturas das festividades do Natal, mas que o engenhoso hebreu tinha artes de vender durante todo o ano. Das bandas de Enxobregas, onde agora eu me acho em protegida clausura, lhe chegavam tais mimos, dizia aos clientes.

O ancião que ele entendia ser bem diferente de todos os outros que conhecia, daqueles que só elogiam o passado, sempre condenando o presente e temendo o futuro, era um senhor fornido de carnes, bem trajado e de gestos lentos e calmos. Em resposta à questão levantada por Lopo, respondeu-lhe que, em boa verdade, todos os tempos são difíceis, embora o possam ser de maneiras sempre diferentes umas das outras. E isto já parecia ao rapaz ideia mais fácil de aceitar. E porque devia ser quase da mesma idade que o seu avô, perguntou-lhe se cinquenta anos antes o céu era mais azul, o sol mais quente e dourado, o mar mais oloroso a sal, as aves de penas mais brilhantes e voo mais subtil, os frutos mais acetinados e saborosos e as moças mais belas e recatadas. Riu-se muito, com evidente gosto. Pensou um pouco e respondeu que sim, que, sem dúvida, nessa altura a sua jovem pele sentia muito melhor o calor do sol, a sua vista, o seu paladar e o seu olfacto eram bastante mais apurados e, portanto, o céu lhe parecia mais azul do que agora que quase o via cinzento e tudo, incluindo o voo das aves, lhe parecia mais belo e glorioso do que agora. Quanto às moças, não estava, de modo algum, de acordo com o avô de Lopo – menos recatadas as de agora, talvez o fossem, mas menos formosas, nem pensar – As jovens sempre são belas, seja em que era estivermos – concluiu.

O rapaz era, por essa altura, e desde há quase um ano, altura em que terminara os estudos na catedral, copiador no Tombo. Seu pai, Simão de Mateus, que também ali trabalhava desde muito jovem, lhe ensinara, com diligência e amor pela arte, os rudimentos complicados, os quase segredos da profissão, das misturas das tintas e pigmentos, à textura e gramagem dos papéis, pergaminhos ou velos e, muito importante, à escolha de cálamos, penas e pincéis adequados a cada tarefa – certidão, crónica, livro de horas... E Simão, embora não tivesse ainda quarenta anos, já ia dizendo que na sua geração se copiava e escrevia bem melhor. Que àquilo que Lopo e os outros moços aprendizes faziam só por muita bondade do senhor guardador se poderia chamar cópias. Ia o jovem Lopo, portanto, aprendendo que, de era para era, de geração para geração, as coisas iam sempre piorando e que lhe coubera viver o tempo mais desgraçado desde a criação do mundo. Naturalmente, tal ideia não o preocupava demasiado.

A bem dizer, as suas principais preocupações eram outras muito diferentes. Enquanto a filha do tanoeiro João, a linda vizinha Matilde lhe sorrisse da sua janela, incendiando de luz as manhãs que iria passar na escura torre Albarrã, copiando alfarrábios, iluminando letras capitais, bem podiam os tempos ir piorando, pois para ele sempre melhores os sentia. Se, ainda que apenas em sonhos, a pudesse amar e ter a ilusão de ser um pouco correspondido (ultrapassando as pretensões de Julião Fernandes, seu amigo, companheiro de escola e, desde há meses, seu rival), se assim fosse, suportaria alegremente o infortúnio de viver tempos tão ruins e adversos, nos quais, para cúmulo, até o fim da sua tão ancestral profissão se anunciava. Na verdade, o mestre Gonçalo, zelador dos aprendizes de copistas, dissera dias atrás, no meio do pasmo e riso gerais, que, nas Alemanhas, se havia inventado um engenho que permitia fazer mais de cem cópias sem intervenção de copistas ou calígrafos. E fizera um desenho de uma confusa geringonça com duas pernas e dois pés, dois someiros grandes e dois pequenos, uns em cima e outros em baixo de uma grade com correntes de ferro... Coisa complicada e sem nexo, mais parecendo um aparelho de lagar. Os moços aprendizes riram muito e com eles o próprio mestre Gonçalo acabou por acompanhar a chufa. Mais de cem cópias quase sem intervenção humana... Ora! Quem quisesse que em tal acreditasse!

Nessa noite, à hora da ceia, quando comentou com seu pai a bizarra novidade, Simão disse que era verdade, nas Alemanhas estavam a avançar com essa ideia – e falou de uma coisa de que nunca o rapaz ouvira falar – «imprimissão» – a técnica de gravar caracteres no papel, reproduzindo muitas cópias em pouco tempo. E seu pai estava geralmente bem informado sobre o que ocorria no mundo, pois todo o tempo livre era dedicado ao estudo, à leitura e ao aperfeiçoamento do latim que, tal como Lopo, aprendera à força de chibatadas com os frades da escola da Sé catedral. Apesar de tudo, não ficou preocupado. Para falar verdade, depressa esqueceu o assunto. O tal circunspecto ancião de quem já vos falei e ao qual, a seu pedido, mostrara já exemplos da sua caligrafia, afiançou, ao contrário do que o pai sempre augurava, que, se estudasse e porfiasse, viria por certo a ser um bom copista. E logo aquele senhor lhe pareceu ser pessoa bem entendida no assunto, pois sobre o tema fez algumas daquelas perguntas que só as pessoas de muito saber costumam fazer – perguntas que, se as soubermos escutar, já transportam a resposta no ventre. Afirmou conhecer as tais crónicas em cujas cópias o rapaz trabalhava.

Dias depois, quando cismava ainda na preocupante afirmação de seu avô sobre o declínio crescente da felicidade do mundo e das pessoas à medida que o tempo avançava, disse-lhe que o cronista dos conturbados tempos do cerco, época em que, mais ou menos, o seu interlocutor devia ter nascido – tão velho era! - Afirmava que a geração seguinte à do assédio, justamente a dele e a de seu avô, apesar de tanta tormenta que sobre ela caíra, foi bem-aventurada relativamente à que viveu a desgraçada era do cerco castelhano. E logo o ancião, lestamente, citou de memória o trecho que o jovem recitara por palavras suas: «Ó geração que depois veio, povo bem-aventurado que não soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de tais padecimentos!». Aquele homem sapiente e grave parecia também conhecer todos os cantos e recantos da Torre Albarrã, o casarão rente à cerca velha onde os copistas trabalhavam. Foi ele também quem disse que o senhor D. Afonso II ali mandou guardar o tesouro real e a respectiva documentação. Servia também de depósito para o produto dos impostos e rendas. Por isso lhe chamavam também Torre do Haver. El-rei D. Fernando, de tão triste memória, mandou lá recolher o arquivo do Estado. Contudo, por essa altura, o serviço mais importante que ali se prestava era o de passar certidões de livros de inquirições, de chancelarias, de aforamento, de doações, etc. Eram requeridas pelo contador e passadas pelo notário público. Disse também que, a partir de certa altura, pela era de 1418, começou a Torre a ter outras mais nobres missões, tais como a de pôr em crónicas as histórias dos reis que antigamente em Portugal reinaram, bem como a de exaltar os seus grandes e numerosos feitos e virtudes. Algumas dessas coisas Lopo as sabia de sobejo, e assim o disse ao seu sábio companheiro, pois eram precisamente essas crónicas que dia após dia copiava, para satisfazer encomendas de casas nobres e abadias, iluminando com belas letras capitais que mereciam algum contido elogio de mestre Gonçalo. E acrescentou:

- Meu pai disse-me que foram escritas pelo anterior guardador das escrituras, o senhor mestre Fernão Lopes.

- De pouca valia terá sido esse escrivão, não te parece rapaz? - Perguntou franzindo os olhos.

Apesar de cordato e respeitoso, o jovem ficou profundamente agastado com o tom de desdém que povoava a voz do velho senhor:

- Não diga isso, senhor, nem por gracejo! A mim, tantas horas mergulhado nas suas palavras tão vivas e mais eloquentes do que uma brilhante pintura, afigura-se-me pessoa de vasto saber – e Lopo, num assomo de honestidade, acrescentou – Também é verdade que a minha opinião de pouco ou nada vale, pois, segundo o meu avô e o meu pai, nasci num tempo em que Deus Nosso Senhor preferiu ser demasiado avaro na distribuição do siso, mas, mesmo para o meu pai que é exigente em seus juízos, o senhor mestre Fernão Lopes é o mais sábio dos homens.

- Pois dize a teu pai que, se quiser subir em valimento e haveres e, até, em segurança, não deverá defender opiniões como essa – a dureza aparente destas palavras era suavizada pela emoção com que as proferiu. Não percebeu o rapaz bem o que ele queria dizer, mas recados destes não os levava a seu pai. A vergasta com que lhe punia os desaforos tinha estado inactiva a bem dizer desde que terminara os estudos na escola- catedral. Agora era o petiz Antão quem, de quando em vez, lhe tomava o peso. Muito lhe aprazia que assim fosse. Mas não convinha abusar da sorte.

(De "O Hortelão de Palavras", romance)


publicado por Carlos Loures às 01:00
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