Terça-feira, 14 de Setembro de 2010
Os livros do século XX que devem ser salvos
Raúl Iturra


Nem dez nem catorze, todos livros são uma aventura que devia ser salva. Quem me precedeu nesta crítica, dividiu por países. Parte da minha costela de Adão é da América Latina e para esse Continente me endereço. De entre os que escolhi, porque são tantos, apareceu-me primeiro Pablo Neruda, sobre quem tenho escrito uma história sintética neste simpático sítio de debate, Estrolabio. De todos eles, a grande novidade, os poemas escritos entre 1919-1920, reunidos num livro de 231 páginas, intitulado Cuadernos de Temuco, sítio ao Sul do Chile, onde foi criado pelo seu pai e a sua mamadre, como denominava a segunda mulher do seu pai; a primeira tinha falecido quando ele era pequeno. A novidade de Pablo Neruda neste livro, escrito em vários jornais, revistas, livros de outros, é a sua indefinição ideológica e poética. Tanto escreve sobre religiosidade, como as seguir passa aos campesinos e as suas mãos feridas pelo trabalho, outros de amor adolescente em Yo te soñé una tarde, o esse cansaço eterno que mostra de morar em Temuco, uma aldeia em que chuva não parava de cair, como en El deseo de irse, para passar ao romance no seu Primavera en la noche. De los 20 poemas, alguns são escritos en Chillán, outros en Santiago, apontando para o homem que viria a ser um dia prémio Nobel de Literatura. Los Cuadernos de Temuco apontam para a mão que escreve Canto General de Chile, un prelúdio al Pablo Neruda Eterno, esse que a sua directora de Liceo pergunta-lhe com arrogância ao ler uno destes poemas: de donde lo copiaste? Era Gabriela Mistral…


Una notável poetisa que soube escrever Los Sonetos de la Muerte, em 1914, que aparecem na sua compilação de poemas de 1922, intitulado Desolación. Versos que mostra a dor da sua vida, como Tala de 1934. A sua obra poética está compilada em livros que ela nunca escreveu, apenas aceitou a organização da sua obra entre esses dois antes mencionados e, a seguir, Ternura, 1924, Lagar de 1954, Poemas de Chile, 1967 e outros.

Gabriela Mistral, cuja vida narrei, neste sítio de debate, era antes de poeta, era uma excelente professora e diplomata. A sua diplomacia aparecia na sua obra, que ela lia ao público en todos os países em que representou a Chile. Especialmente o seu livro Lecturas para mujeres, de 1923, uma lição do que devia ser entendida por todos os seres humanos por sentir que as mulheres, especialmente as mais pobre e sem filhos, era de segunda categoria. A sua obra toda reflecte solidão e sentimentos maternais profundos, como amores frustrados, referidos por mim em outra página, como o suicídio do seu grande amor Romélio Ureta, homem fino que ela amava profundamente e passou a ser a base da sua poesia, como as mulheres do Chile e o país inteiro, no seu conjunto de poemas Recados. Chile era um país desconhecido, Gabriela ainda mais, mas a compilação, impressão e divulgação da sua poesia, mataram a visão pueril dela ser apenas uma maestra de escola. Gabriela Mistral, buscava nada menos que "o sentido da existência" em sua obra, de acordo com Cuneo. O legado de Mistral que esteve 50 anos no poder de sua amiga e inventariante, a norte-americana Doris Dana e, em seguida, de sua sobrinha, Doris Atkinson. E ainda há muito ara guardar….

Como o caso de Isabel Allende, que não apenas sabe escrever, essa escrita com comas, toda a seguir sem parar, em seus quase 20 livros publicados, entre 1988, La Casa de los Espíritus e o mais recente, La isla bajo el Mar, acabamos por não saber qual de todos eles é o que se deve salvar. Desde o seu romance de 1988 que lhe dera de imediato fama Universal, passou aos livros resultado de investigação prévia, como Retrato em Sépia, e Inés del alma mia. Todos os seus livros devem ser salvados, especialmente o primeiro, e que narra a vida de uma família de imensa riqueza e influencia política, onde as relações entre homem e mulher estão estruturadas pelas classes sociais de pertença, acabando o arrogante pai da protagonista Blanca, ser punido pela sua arrogância, amor à política de ultra direita e perde a sua família toda com o seu machismo de homem latino-americano.

Finalmente, nem é preciso dizer, que Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez, é o livro que narra sem parar e sem concessões, trezentos anos de vida de uma família que se bate em todas as guerras de Colômbia e, sem deixar respirar ao leitor, não há diálogo, é uma narrativa de 1967 que apenas as vírgulas e as aspas, deixam respirar ao leitor.

Há também Mário Vargas Llosa, especialmente La Tía Júlia y el escribidor e o escritor quechua, autor de El mundo és ancho y ajeno, Ciro Alegría.

Eis a minha escolha. O leitor tem a palavra


publicado por Carlos Loures às 11:00
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12 comentários:
De Luis Moreira a 14 de Setembro de 2010 às 11:43
Sem dúvida, prof., há aqui o Cem Anos de Solidão que me faria voltar atrás, nem que fosse a nado.


De carlos loures a 14 de Setembro de 2010 às 14:51
"La tía Júlia y el escribidor", de Vargas Llosa, é uma maravilha, um prodígio de engenho ficcionístico. Deu lugar a um magnífico filme americano, realizado por Jon Amiel e interpretado pelo Peter Falk, o velho Columbo, Keanu Reeves e Barbara Hershey – "Tune in Tomorrow" (1990). Aliás, Vargas Llosa é um grande romancista, um dos maiores da actualidade, e não se compreende como é que ainda não ganhou o Nobel. Como não o vou pôr na minha lista (porque sendo excepcional, considero que há dez melhores) aproveito para falar nele e para felicitar o Professor Iturra por não ter tido problemas em escolher uma obra que já ouvi classificar como frívola, mas que é, na minha opinião, um dos melhores romances do século XX - se em vez de dez fossem 15, "La tía Júlia y el escribidor" não escaparia.


De António Gomes Marques a 14 de Setembro de 2010 às 23:35
Oh, Carlos! Pode falar-se de Mario Vargas Llosa sem se falar de «Conversa na Catedral»? E de «Pantaleão e as Visitadoras», se calhar o livro que melhor nos fala daquela América Latina? E pode falar-se de escritores da América Latina sem referir Juan Rulfo, nomeadamente daquela obra-prima que é «Pedro Páramo»?


De Luis Moreira a 15 de Setembro de 2010 às 01:04
António, devias ter sido o primeiro a responder à injusta provocação do carlos...


De carlos loures a 15 de Setembro de 2010 às 07:46
Qual provocação, Luís? Este "inquérito"? A ideia é do Sílvio Castro; limitei-me a põ-la em prática, porque me pareceu muito interessante. António, já vi que o Vargas Llosa tem aqui um clube de admiradores - O Professor Iturra referiu "La tía Júlia", a "Augusta Clara", "A Festa do Chibo", tu, e muito bem, lembras o "Pantaleão" (a "Conversa na Catedral", livro de estreia, não me parece à altura dos outros). As "Travessuras da Menina Má", é um excelente romance. Se tivesse de escolher um entre tantos, escolheria a "Tía Júlia". Juan Rulfo é um grande escritor. E Cortázar? E Sábato? E Borges"? E Neruda? A América de língua castelhana é um universo de uma riqueza literária ímpar. Centrando-nos em Vargas Llosa, insisto, merece o Nobel. E o Sábato primeiro que todos, que está à beira dos cem e ainda bate a bota antes da Academia de Estocolmo se lembrar dele e da sua extraordinária obra.


De Luis Moreira a 15 de Setembro de 2010 às 11:20
carlos, é só no sentido, que isto é muito dificil para qum não está à altura...


De António Gomes Marques a 15 de Setembro de 2010 às 23:24
Concordo com o Carlos quanto à atribuição do Nobel ao Vargas Llosa (o Saramago ficaria danado!) e penso que tu, Carlos, precisas de ler de novo a «Conversa na Catedral» (ensina-nos como funcionam os partidos comunistas). Quanto ao Borges, se tivesse de escolher algum dos seus livros, responderia: Obra Completa!
Do Cortázar nlogo nos vem à cabeça «Rayuela», mas confesso que, neste momento, estou encantado com os seus «Papeles Inesperados», editados por Aurora Bernárdez e Carlos Álvarez Garriga e publicados pela Alfaguara. E, reparem!, estas duas obras estão já editadas em português, o que me levou a comprar a edição portuguesa dos «Papeles...» para oferecer no Natal, e vou comprar a edição portuguesa do «Rayuela» para oferecer também, se calhar à Célia que não gosta de ler em castelhano.


De Prof.Doutor Raúl Iturra a 16 de Setembro de 2010 às 15:01
Agradeço os vossos comentários. São tão dignos, como os livros! E esclarecem. Não falei mais do Mário (Vargas Llosa, o meu amigo em Cambridge e Londres, porque apesar dos seus livros serem interessantes, bem documentados e com uma narrativa diferente à de García Márquez, seria trair confidências de amigo. Um só posso revelar: " Raúl, candidatei-me à Presidência do Peru e perdi, porque tenho dois problemas: sou Vargas e sou Llosa". Era das famílias mais ricas e aristocratas do Peru, desde os tempos que era um Vice-reino. O que implicava um realidade que ele não podia ultrapassar. Foi esse o motivo que o levara a morar na Grã-Bretanha. Quanto a tia Júlia, casou com ela, ele com vinte e poucos e ela viúva de um irmão do pai do escritor.
Porque não tem ganho o Prémio Nobel? A resposta está no livro Tia Júlia e o escrevinhador (1977) ou La Tía Julia e o Escribidor´: é preguiçoso e adora a vida nos clubes. Quanto a Guerra do Fim do Mundo, é um texto histórico que merece premio, como Pantaleão e as visitadoras (1973) ou Pantaleón e as visitadoras, texto ironiza a vida das Forças Armadas, serviço que teve que cumprir. O problema com o Mário (Jorge), é que os seus livros são muito autobiográficos. O arquivo da família e imenso e a sua vida pessoal, era a de um menino betinho…García Márques, Ciro Alegría, Isabel Allende, afastam da sua vida os seus livros, ainda essa Paula de Isabel, que escreveu enquanto tomava conta da sua doença, porfiria, o dia que acabou a derradeira página, Paula faleceu. Ela culpa-se, o que é injusto para ela. Porfirias são um grupo de distúrbios herdados ou adquiridos que envolvem certas enzimas participantes do processo de síntese do heme. Estes distúrbios se manifestam através de problemas na pele e/ou com complicações neurológicas. Existem diferentes tipos de porfirias, actualmente sendo classificadas de acordo com suas deficiências enzimáticas específicas no processo de síntese do heme.
E mais nada acrescento. Por um certo número de dias, talvez não escreva por causa de duas doenças. Mas essa e outra história...e o nosso Gestor sabe disso


De augusta.clara a 16 de Setembro de 2010 às 16:34
Ó Carlos, não sabia que o Vargas Llosa tinha escrito um livro com o meu nome.Fui mesmo apanhada de surpresa.


De carlos loures a 16 de Setembro de 2010 às 18:01
Erro gráfico, na melhor das hipóteses - o livro que o Mario Vargas Llosa escreveu sobre ti, chama-se "Travesuras de la niña mala".


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