Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010
Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 7 - por Sílvio Castro
(Continuação)

Coaracy I


Gostaria de poder dizer com clareza a Vossa Senhoria quanto foi importante para mim o conhecimento de Coaracy. Será difícil, mas tentarei. Difícil não porque eu não saiba quem é Coaracy e da sua natureza de homem sábio. Pero Vaz é um homem sábio, ah! se o é! Pedro Álvares, o grande capitão, é um homem sábio e todos o confirmam; como eles, outros homens sábios existem, mas Coaracy é um homem sábio como só ele sabe ser.

Isto eu descobri logo no primeiro dia que o vi. Melhor, naquele dia que ele me viu com a sabedoria de seu olhar. Recordo bem: estávamos tomando os primeiros contactos com a terra nova; cada vez que um esquife vinha preparado para descer à praia, era um alvoroço para todos, um misto de entusiasmo e medo. Ainda que muito armados, o encontro com o desconhecido provocava profundo tremor nos corações. Eu fui logo mandado pelo Comandante para as expedições exploradoras, seja com Bartolomeu Dias, seja sob as ordens de Nicolau Coelho. Somente nós dois, Pero Vaz e eu, participávamos de todas as explorações. O bom Pero Vaz recolhia informações de cada coisa e de todo evento para as suas crônicas; mas, eu, por que isto comigo? Logo assentei no meu coração exaltado pelo medo de tudo - do mar, das descidas dos esquifes, do silêncio que vinha da praia e da floresta que lhe estava atrás e que eu via nos esquifes que rompiam as ondas em direção da terra; medo de pisar a terra e da gente que nela nos esperava; de seus rostos impenetráveis, seus olhos de olhar profundo; medo dos gestos que não faziam; de suas armas, grandes arcos e flechas que traziam a tiracolo; medo que tudo aquilo, o silêncio, os olhares, o murmúrio assustador das águas, das vozes da floresta, caísse de repente sobre mim.

Estava eu assim perdido dentro de mim em meio ao movimento de trezentos trezentos e cinquenta, quando retorno à consciência de tudo que me rodeava ao sentir nos ombros o contacto de duas mãos serenas: era Coaracy que tomado de compaixão da minha angústia muda me conduzia na praia à sombra de um palmeira.

Eu vi Coaracy quando tive coragem de olhá-lo sem medo. Ele me sorria sem falar, enquanto caminhávamos na areia branca da praia e a algazarra geral se atenuava na distância. Eu via um homem sem idade, alto, da minha altura, ainda que um pouco curvado; os cabelos grisalhos cobriam a cabeça que se movia como acompanhando os olhos e todo o corpo, em harmonia. Tudo em Coaracy se mostrava em harmonia. Até mesmo a sua mão direita que não deixava os meus ombros me dava uma sensação de serenidade. Eu me apoiava naquele gesto e, pouco a pouco, passava a não sentir mais medo. Sentados à sombra de uma grande árvore, Coaracy e eu olhávamos para todo aquele mundo de festas e não sentíamos o passar do tempo. Acredito que Coaracy não sofria em momento algum o passar do tempo. Depois Coaracy me mostrou as primeiras coisas de seu mundo. Me deu uma espécie de manto de penas, ao mesmo tempo quente e fresco, feito da leveza de vôos passados por pássaros multicoloridos. Provei grande alegria com o presente de Coaracy e logo procurei alguma coisa entre as minhas pobres riquezas que lhe pudesse agradar. Eu não tinha quase nada. Ele sorrindo com os olhos profundos que me olhavam protetores dizia que não importava. Eu queria dar um presente rico a Coaracy. Foi quando, de retorno, nos encontramos com o grupo de Bartolomeu Dias que retomava o caminho das naves, pois se fizera tarde. O capitão me deu algumas carapuças bem jeitosas e uma bacia, com pentes e outras coisas, dizendo-me de dar aos nossos novos amigos. Eu peguei de tudo aquilo e entreguei a Coaracy que sorriu.

Coaracy II



A sabedoria de Coaracy era ligada a todas as coisas, aos homens, animais, plantas, à terra e às estrelas; ao viver e ao pensar; à realidade e aos sonhos. Mas isso eu não compreendi logo; levei muito tempo. Em determinado momento, quanto mais eu entendia da sabedoria dele, mais eu me perdia, pois seguindo-o como uma revelação constante, a maior parte das vezes eu não era capaz de compreendê-lo completamente. Porém, sempre ansiava por fazê-lo e Coaracy usava de toda paciência para seguir-me.

Foi muito importante, desde o início, a sua voz. Eu seguia a voz de Coaracy como um rumo. Não era uma voz qualquer, era uma espécie de farol. Naturalmente no início eu não compreendia as palavras que saiam da boca de Coaracy; mas, acompanhando-as como eu fazia, mesmo não as entendendo, eu sempre tive a sensação que me dissessem coisas que eu recolhia. Eu escutava a voz de Coaracy, fixava a sua boca, seus olhos, e os gestos dele então se transformavam pouco a pouco em palavras recebidas. Escutando Coaracy, eu fixava pedaços de sons que se uniam e me faziam pensar de poder compreender o que o meu velho amigo continuamente me dizia sem cansar-se. Então eu também falava na minha língua e tantas vezes o meu entusiasmo era tamanho que chegava a encobrir a voz de meu amigo. De repente, todavia eu saia do meu palrear inconsciente porque o sorriso silencioso de Coaracy era de uma grande eloquência...

Conversamos sempre muito. De manhã, de tarde, perto dos rios, na praia, diante das cabanas ao entardecer. Eu decorava as palavras de Coaracy.

Um dia, era de primavera, tive a sensação de entender tudo de uma estória que Coaracy me contava. Era a estória da inundação grande que cobriu todo o mundo e que acontecera em tempos muito distantes. Contava a estória: como se fazia sempre para as grandes pescas da aldeia, uma dela armara num rio uma armadilha para recolher os peixes que por ali passavam. Decorridos alguns dias um dos homens, o melhor pescador daquela aldeia, foi ver. Chegado à boca do rio, ele viu perto da armadilha o espírito mal da cor amarela e, com muita atenção, flechou-o. O espírito amarelo zangou-se muito e para castigar o homem mandou subir as águas. E as águas cresceram e começaram a cobrir tudo, planície, árvores, montes. O pescador apavorado correu para a aldeia e gritava para a gente que o seguisse. Mas, ninguém o seguiu e logo as águas cobriram a aldeia e as outras e todas as outras. O pescador corria para longe, para o monte mais alto que podia e via que as águas destruiam e matavam tudo no seu caminho sem fim, plantas, animais, gentes. O pescador corria sempre para salvar-se, sempre tendo na mão o tição de fogo que recolhera de sua cabana.

Passado algum tempo, no alto de sua colina, até onde chegara a água, mas não superara o cume, o pescador repousava olhando a imensidão das águas. E viu que o tição a partir de determinado momento, quando ela, a água, já parara na sua subida, começou a fazer evaporá-la. E a água que descia descia descia: até se enxugar. O pescador então deixou o refúgio da colina e começou a procurar a gente; mas não encontrou ninguém. Assobiava daqui e dali, e ninguém respondia. Até que de repente, por detrás de uma moita, veio ao seu encontro uma cerva muito jovem e bela. Você se salvou? sim, me salvei das águas e não sabia mais para onde ir. Então o pescador casou-se com a jovem bela cerva e tiveram muitos filhos. Os primeiros tinham cara e patas de cervos e eram pelosos. Depois os demais nasceram com cara e pés de homem e poucos pelos. O pescador então decidiu dividir a nova gente em dois grupos e que homens e mulheres do segundo grupo se casassem com homens e mulheres do primeiro e que depois esses com homens e mulheres do segundo. Assim foi feito e se faz até hoje.

(Continua)


publicado por Carlos Loures às 22:30
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