Domingo, 20 de Junho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo XXV

O dia dos horrores

Houve um desvio brutal nestas Novas Viagens: no dia 22 de Novembro a minha mãe sofreu um AVC.

Chamei o INEM. Levaram-na para o hospital de Amadora-Sintra, que se encontra entre auto-estradas, no meio de nada – as famílias ficam horas incertas à espera de uma informação, não usufruem por vezes de uma cadeira e menos ainda de um espaço onde comprar algo a que se possa chamar comida. Às três e meia informaram-me por fim que a minha mãe ficava em observação; às sete poderia vê-la durante cinco minutos.

Resolvi voltar à casa dela. Para comer, ir a uma casa de banho limpa, pôr um pouco de ordem na desolação que ali deixáramos. Como o meu irmão me havia recomendado que não saísse do hospital, pois aquela zona é perigosa, apanhei um táxi para os Quatro Caminhos de Queluz. A minha mãe vive poucos metros mais adiante; continuei a pé. Quando ia entrar no prédio dela, a chorar, na angústia e incerteza em que me encontrava, sabendo a minha mãe a morrer, fui atacada por um indivíduo que me apontou uma navalha e levou tudo o que comigo tinha: chaves, telemóveis, máquina fotográfica, dinheiro, guarda-chuva, cartões variados, entre os quais o bilhete de identidade da minha mãe, numerosos objectos mais ou menos preciosos – e até o meu diário.

Já não pude entrar em casa. Sem telemóvel nem contactos, não pude avisar o meu irmão ou a minha cunhada sobre o que se estava a passar. E nem me restava dinheiro para um bilhete de comboio entre Queluz e o Rossio.

Fui ao café mais próximo. Telefonei para o 112. Dali por dez minutos chegou uma patrulha da PSP. Os polícias sugeriram que fizéssemos um circuito; podia ter a sorte de identificar o assaltante. Percorremos Queluz em todas as direcções. Não vi o indivíduo. Do qual aliás não consegui dar uma descrição pormenorizada. Só reparara nele quando me agarrou e encostou a navalha ao meu peito. Lembro-me de ouvir: Não grites, dá-me o saco, é melhor para ti. Eu repeti várias vezes: Não acredito! Expliquei que vinha do hospital e tinha a mãe a morrer. Ele riu-se. Como o descrever? Mesmo no instante em que senti a navalha, eu revia a minha mãe caída no chão – o que se passava com ela desviava dali a minha atenção. Se o encontrasse, reconhecia-o, mas descrevê-lo?... Vinte e cinco anos. Um metro e setenta e cinco. Mestiço. Isso corresponde a trinta por cento da população de Queluz, queixaram-se os polícias.

Consegui por fim, graças à ajuda deles, voltar para o hospital.


publicado por Carlos Loures às 10:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 20 de Junho de 2010 às 11:56
Lamento imenso!Há dias...


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