Sábado, 4 de Setembro de 2010
O Espaço VerbArte está hoje por conta do nosso Adão Cruz
Adão Cruz


Anti- Deuteronomio I



A cidade está deserta por dentro e por fora de nós
começa a não haver vivalma neste lusco-fusco brumoso
neste irracional azul de um céu de chumbo
nesta descrença de manhãs de sonho
em bicéfalas e bárbaras bandeiras
de um mundo informe e medonho.
Seguir em frente no deserto do fim do dia
dilatar a esperança até que raie a claridade
no ventre da manhã de fogo e sangue
entrar na vereda enlameada e fria
dos homens de aço sem perfil e sem destino
virar na esquina sem luz da esperança perdida
no contra-senso divino
…ou voltar para lugar algum!

Como seria bom continuar o caminho que nascendo dentro de nós
em fio de regato cristalino se perde ingloriamente à flor da pele!
Assim que for dia
se dia chegar a ser nesta aparência de paisagem
não podemos deixar que a nuvem negra sombria e negra miragem
venha toldar a aurora da razão
e semear ruínas no coração apodrecido das nações
e no cérebro corrompido por obscenas falas armas e cifrões
de imperiais e acéfalos patrões.
Se libertarmos da nuvem negra a aurora da nossa interrogação
se impedirmos a negra nuvem de apagar a luz da inquietação
na incontornável unidade do pensamento e da razão
o poema incendiará as asas do vento
e queimará as garras dos abutres
devolvendo à humanidade algum alento.

A terra engolirá os exércitos genocidas
que à sombra da nuvem negra de deuteronómicos evangelhos
a ferro e fogo se empanturram de vidas
e se embebedam de sangue
para glória do Senhor dos Exércitos…
…e jamais haverá Deuteronômio que resista
por mais petróleo que na terra exista.
…e jamais a exaltação da santidade
estará na morte e nas cinzas da cidade.
…e não haverá espinhos nos olhos e aguilhões nos flancos da vida.
…e não haverá armas de destruição maciça
no coração das mães dos filhos exterminados.

Na diáfana manhã de um novo dia
apenas a plangente harmonia de um Stabat Mater.

Anti- Deuteronomio II


No tempo em que as sardinheiras das varandas dos pobres
faziam parte dos nossos sonhos
florindo em poemas de sol e de cor
no tempo em que as andorinhas
teciam grinaldas de vida nos beirais
no tempo em que os rios bordavam a terra de areia branca
no tempo em que a brisa sussurrava por entre as flores
e as fontes murmuravam seus amores
a aurora da nossa inquietação tinha o cheiro a maçãs
e o pulsar das coisa vivas
e o levíssimo sorriso dos jardins do paraíso.

Tudo amávamos em nobre sentimento de exaltação.
O mundo era transparente e fácil de amar
e cheirava a feno a razão
ondulava a frágil seara um suave alento
na quietude universal da liberdade
como harmoniosa mulher suspirando ao vento.
Tão inocente amor tanta alegria
quem pensaria que os rios de pranto haveriam de chegar um dia
em negra nuvem de calado voo.

Não podemos deixar que a nuvem negra se abata
sobre nós e o pensamento
e o pensamento nos agarre na deserta anatomia do silêncio
sentados ao vento no falso sol da varanda da ilusão
e da erosão da consciência adormecida.

Não podemos deixar que a todos nos transforme em filhos da morte
filhos de nenhum lugar e de toda a parte
figuras do vale das sombras
esgueirando-se nas sombras de outras sombras
sonâmbulos fantasmas sem gestos de vida que nos façam acordar.

E quando for dia de sol bem alto
porque há sempre um dia a rasgar a deuteronómica nuvem negra
que ameaça os campos do futuro
e o sereno assombro das pedras
e os peixes verdes dos poemas
e os rubros sorrisos que cheiram a mar
e os passos dos que aprendem a andar
e os rios que correm nos olhos de uma criança
e a memória sem tempo
e a terra sem chão mapeada de esperança
e os desejos que nos abraçam
e o amor excelso e fecundo
e não mais a noite dos homens apagará as estrelas do céu
com todas as bombas do mundo.


publicado por Carlos Loures às 08:00
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3 comentários:
De augusta.clara a 4 de Setembro de 2010 às 13:43
Quem me dera saber dizer assim o que é preciso, com um furor cheio de beleza.


De adão cruz a 4 de Setembro de 2010 às 14:39
Obrigado Augusta


De Anónimo a 5 de Setembro de 2010 às 18:01
Adão, Hoje as sardinheiras são de plástico dispostas em floreiras de plástico numa janela qualquer ; as andorinhas são de papel, feitas na China e vendidas a preço da chuva numa loja de chineses qualquer. As nuvens são negras do fumo dum figo posto por uma mão criminosa. Só fica o amor...o amor que não tem raça, de nenhuma nação nem praça, o amor daqueles que têm esperança de um Mundo melhor. Gostei muuuito do seu Anti-2. Um abraço. Susana (Teixeira Pinto)


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