Sábado, 17 de Julho de 2010
Bakunine por Bakunine - (Raúl Iturra)
MARX E A INTERNACIONAL: CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA - 6 (Continuação)



Assim, entre os anos 1866, época do primeiro Congresso de Genebra, e 1869, época do último Congresso de Basileia, formaram-se no seio da Internacional três grandes grupos: o grupo latino, compreendendo a Suíça romanche, a Bélgica, a França, a Itália e a Espanha; o grupo germano – austríaco; e o grupo anglo-americano. O grupo eslavo ainda está em via de formação. Ainda não existe propriamente. A unidade real, produzida pelo próprio desenvolvimento da acção e das relações espontâneas das secções entre elas, só existe, com efeito, em cada um desses grupos à parte, unidos interiormente por um tipo de unidade especial de raça, de situação, de pensamento e de aspirações mais especialmente homogéneas.

A união desses grandes grupos, entre eles, é muito menos real; só tem por base os estatutos gerais, e por garantia necessária a acção imparcial mas real do Conselho Geral, enfim, e sobretudo, os congressos.

Tal foi a situação da internacional até 1869.

Vimos que, em 1869, o Conselho Geral que ruminava desde muito tempo projectos de monarquia universal nascidos no cérebro tão inteligente de Marx, havia lançado os delegados alemães do Partido da democracia socialista operária, para tentar fazer no Congresso de Basileia uma primeira tentativa de realização. Os alemães e os ingleses escolhidos por Marx, partidários do Estado que se dizia popular, sofreram uma derrota retumbante. O nosso partido, compreendendo os delegados belgas, franceses, suíços romanches, italianos e espanhóis, opondo a essa bandeira do comunismo autoritário e da emancipação do proletariado pelo Estado, a bandeira da liberdade absoluta ou, como eles dizem, da anarquia, a da abolição dos Estados e da organização da sociedade humana sobre as ruínas dos Estados, arrancou uma vitória esplêndida. Marx compreendeu então que nos congressos a lógica e o instinto dos trabalhadores estavam a nosso favor, e ele jamais poderia vencer. Desde então, ele e o seu partido realizaram um golpe de Estado.

Mas enquanto homens políticos hábeis, eles compreenderam que antes de tentá-lo era preciso inicialmente prepará-lo. Mas como prepará-lo?

Pelos métodos eternamente empregues por todos os ambiciosos políticos, cientificamente constatados pelo terceiro positivista político após Aristóteles e Dante, Maquiavel – pelos mesmos meios dos quais se serve tão habilmente hoje o partido mazziniano: pela calúnia e pela intriga. Ninguém podia-se servir destes meios melhor do que Marx, porque, inicialmente, ele possui a genialidade para isso, e possui, além do mais, à sua disposição, um exército de judeus que, neste tipo de guerra, são verdadeiros heróis.

Após o Congresso de Basileia, toda a imprensa alemã e, em parte, em artigos escritos por judeus alemães, a imprensa francesa também, mas sobretudo a primeira, caíram sobre mim com uma fúria prodigiosa, como fizeram Marx e CIA. Deram-me a honra de fazer de mim, que não tenho, verdadeiramente, outra ambição além daquela de ser amigo de meus amigos, irmão de meus irmãos, e servidor fiel do nosso pensamento, da nossa paixão comum, um chefe de partido.

Eles pensaram estupidamente – era realmente conceder muita honra à minha suposta potência – que eu sozinho teria podido amotinar e organizar contra eles os franceses, os belgas, os italianos e os espanhóis, numa compacta e esmagadora maioria. E eles juraram destruir-me. O ataque começou por um jornal de Paris, um jornal muito respeitável: Le Réveil. O Sr. Hess, judeu alemão que se diz socialista, mas antes de tudo adorador do bezerro de ouro, inicialmente mestre de Marx, mais tarde seu rival e hoje seu discípulo bem disciplinado e submisso, escreveu contra mim um artigo infame que me apresentava, com força penhor de simpatia e até mesmo de respeito, como um tipo de agente, quer de Napoleão III, quer de Bismarck, quer do imperador da Rússia, ou de todos os três ao mesmo tempo. Na minha primeira reclamação, Delescluze, em nome da redacção, retratou este artigo. O Sr. Hess passou vergonha. Não tentaram mais atacar-me nos jornais franceses. Mas, ao contrário, lançaram-se de todo o coração ao ataque nos jornais alemães. Ah! meus caros amigos, vós não sabeis o que é a polémica nos jornais: é imbecil, é miserável, é sobretudo suja. Um jornal socialista, o jornal oficial do Partido da democracia socialista, redigido por um outro amigo e discípulo de Marx, judeu como ele, Liebknecht - jornal aliás sob muitos aspectos respeitável e muito instrutivo - publicou uma série de artigos de um terceiro judeu, Borkheim, outro servidor de Marx, onde diziam simplesmente que Herzen e eu éramos espiões russos pagos pelo governo russo. Eu vos poupo do resto. Aliás eu não fui o único caluniado, injuriado. Muitos dos meus amigos o foram comigo. Inicialmente nós sentimo-nos chocados e pedimos explicações. Finalmente nós aguerrimo-nos e nem sequer lemos o que se continua a escrever contra nós.



Ilegível



Paralelamente à calúnia moral, a intriga, que fracassou em todos os outros países. Mas deu certo em Genebra. Um pequeno judeu russo, imbecil mas maquiavélico, cínico, impudente, mentiroso e intrigante até ao tutano dos seus ossos, ou tornou-se a criatura, o agente, o criado de Marx. É ele quem redige agora o Egalité de Genebra. Aproveitando a minha partida e a minha residência em Locarno, eles tanto intrigaram, tramaram, aliando-se com as pessoas mais desprezíveis, que conseguiram desmoralizar e arruinar completamente a Internacional em Genebra. Foi em consequência disso que eclodiu uma ruptura (em 1870) entre a Federação das secções do Jura e o Conselho federal de Genebra. É uma história bem suja, da qual encontrareis os detalhes em uma Memória que está sendo escrita agora em Neuchâtel. O Conselho Geral de Londres tomou naturalmente partido por Genebra, quer dizer, da infâmia contra a justiça e contra os próprios princípios da Internacional.

Eis os efeitos da intervenção central, a sua inacção unia-nos, a sua intervenção divide-nos.

O resultado da guerra, do triunfo dos alemães, do fracasso da França e da derrota da Comuna de Paris fizeram nascer no coração de Marx novas esperanças. Os internacionais de França, em parte destruídos, em parte dispersos, não podiam mais opor-se, pensava ele, à realização dos seus projectos ambiciosos.

Naquelas circunstâncias, no meio das perseguições internacionais da qual a Internacional é objecto, era impossível reunir um Congresso; aliás Marx, que não é absolutamente orador e que temia, nos seus planos, a grande publicidade, não queria Congresso de forma alguma. Ele usou o pretexto real ou fictício da impossibilidade da sua convivência em vários países especialmente na França, para convocar em Londres uma conferência secreta, chamando a participar nela apenas os mais íntimos, aqueles tidos como certos. Uma conferência, mesmo pública, não teria absolutamente nenhum valor segundo os nossos estatutos gerais, que só reconheciam os direitos dos congressos. Mas estudai os estatutos e vereis que nos congressos cada associação profissional, não somente o grupo ou a federação das secções, mas cada secção tem o direito de se fazer representar por um ou dois delegados; além do mais, vereis que todas as questões que devam ser resolvidas num congresso devem ser anunciadas a todas as secções com dois ou três meses de antecedência, a fim de que elas possam estudá-las, discuti-las e dar aos seus delegados instruções com pleno conhecimento de causa. Na última Conferência (realizada em Londres, em Setembro último) nenhuma destas condições foi observada. Enviaram-se poucos delegados por grupo. A Itália não enviou nenhum. Sequer dignaram-se a advertir a Federação do Jura. Alguns membros da Comuna de Paris, refugiados em Londres, foram convidados a tomar assento. Mas após desentendimentos com Marx, a maioria afastou-se. A maioria era composta de ingleses marxistas, de alemães e de judeus alemães. O delegado espanhol, o delegado belga, os delegados dos refugiados franceses protestaram contra as resoluções desta Conferência. Estas resoluções são lastimáveis. Elas investem com um direito ditatorial o Conselho Geral, concedem-lhe o direito de rejeitar as novas secções, e o direito de censura sobre os jornais da Internacional. Assim como o dogma de Mazzini em Roma, o dogma de Marx em Londres foi declarado ortodoxo. Por sinal, lereis ou já haveis lido estas resoluções e as ucasses ou, os decretos do Conselho Geral, são o triunfo do golpe de Estado. Uma ucasse, ou decissão aribitrária, palavra que advêm do decretos outrora emanados do imperador da Rússia



Será a morte da Internacional se não emitirmos um pretexto universal, se em nome mesmo dos nossos princípios e dos nossos estatutos fundamentais não aclararmos nulas a Conferência de Londres, e todas as suas resoluções, e se não forçarmos o Conselho Geral a voltar aos limites que lhe são impostos por estes estatutos.

Todos os que querem a liberdade, todos os que querem a acção espontânea e colectiva do proletariado e não a intriga e o governo dos indivíduos ambiciosos estarão connosco.

Ilustração: xilogravura do rosto de Bakunin, cerca de 1880.


publicado por Carlos Loures às 15:00
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1 comentário:
De carlos loures a 17 de Julho de 2010 às 23:27
Com a publicação destas cartas, a figura de Bakunine ganha espessura. Quem lê estes textos, em que o grande pensador revolucionário se revela um homem de grande sensibilidade e, sobretudo, de uma grande coragem e determinação, compreende melhor por que motivo, sobretudo na primeira metade do século XX, tantos combatentes anticapitalistas deram a vida ou comprometeram a liberdade pelo ideal anarco-sindicalista. Grande serviço nos presta o Professor Raúl Iturra.


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