Domingo, 1 de Agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra


 Manuela Degerine

Capítulo LXVI

Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos (continuação II)

O italiano chama-se Sérgio. Para esconjurar mal-entendidos, aviso, sem precauções oratórias, apenas se aproxima, não só sou lenta, também gosto de parar, de olhar, de conversar, não vim aqui fazer ginástica, perder quilos, mortificar o corpo, passear o tédio, mas ver, ouvir e apreciar, por conseguinte, se lhe apetece devorar quilómetros, avante e boa viagem, voltaremos a encontrar-nos, se tal for o nosso fado. Ele replica, algo surpreendido, que não tem pressa: apanhou o avião para andar a pé.

Começamos então a conversa. Sérgio faz o esforço de compreender o francês – uma língua que estudou durante apenas dois anos. De vez em quando, vamos perguntando:

- Como é em italiano?

- Como é em português?

Falamos de viagens, desta e doutras. E de leituras. Por isso evoco – uma vez mais – Viagem de uma parisiense a Lhassa. Alexandra David-Néel atravessou o Tibete em pleno Inverno, passando cumes acima dos cinco mil metros, a pé e disfarçada de mendiga, por o país estar interdito aos estrangeiros. Sérgio não conhece Alexandra David-Néel. Vou-lha apresentando, de maneira breve: o romanesco desta biografia encanta-me. Nasce em 1868, morre em 1969 – com quase cento e dois anos. As carreiras de jornalista e cantora de ópera. O feminismo. O anarquismo. O orientalismo. A primeira viagem ao Oriente. O casamento em 1904 com um engenheiro residente na Tunísia: Philippe Néel. As depressões até à segunda partida para o Oriente em 1911. A adopção de Yongden. As experiências nos Himalaias. A teoria e a prática das filosofias orientais. As caminhadas. A escrita. A correspondência com o marido. O regresso à Europa, em 1925, passados catorze anos. A terceira partida para o Oriente e as sucessivas guerras que lhe vão impedindo os movimentos. Os últimos decénios em Digne-les-Bains.

A conversa não nos distrai do hic et nunc. No percurso de hoje as aldeias são pequenas, as casas de pedra e o ambiente rural. Há bosques. Há prados. Há vinha. Há campos cultivados e para cultivar, castanhos os já semeados, outros muito verdes ou, de vez em quando, amarelos de malmequeres. Vemos giestas floridas, digitálias cor-de-rosa, grandes pedras à beira do caminho, passamos por muros enfeitados com rosas ou folhas de vinha, avistamos um espigueiro, atravessamos uma ponte medieval...

Compramos bananas num cruzamento onde, por ser domingo, vendem fruta e produtos regionais.

Fazemos uma paragem em S. Pedro de Rates. Entramos na igreja românica, vemos as capelas do largo, prosseguimos a caminhada.

Mais à frente, numa mata, Sérgio escolhe duas varas: uma para ele, a outra para mim. Imobilizamo-nos para ouvir o silêncio, os pássaros, a água corrente...

À beira do caminho, deparamos com um insólito altar a Santiago dentro de uma barrica de vinho. Conversamos com o artista, o Sr. Messias da Courela, que nas obras reutiliza os materiais da vida quotidiana.

Voltamos a encontrar a N306 (quilómetro 60) em Pedra Furada. Fazemos uma pausa junto da capela, enchemos as garrafas na fonte, compartilhamos as vitualhas. Grazie, molto gentile... Vou aprendendo palavras italianas. Reencontro, no contacto com Sérgio, a cumplicidade de Maria, porém ela é instável, espalhafatosa, impulsiva, o que a torna aliás tão divertida, enquanto ele se mostra calmo, discreto, reflectido: um agradável companheiro de caminhada.

Volta a surpreender-me esta facilidade com que, no primeiro encontro, se instala uma comum apreciação do que vemos e vivemos, ajustamos os gostos, as manias e as experiências, da comida às leituras, passando pela ética e pela estética, tudo assuntos de tratamento delicado: a Europa surge nesta harmonia. Claro que somos indivíduos, há portanto também dissonâncias, decorrentes de meandros biográficos: falo a Sérgio de um realizador italiano, Ettore Scola, que ele conhece de maneira vaga, cito-lhe Caro Diario, de Nanni Moretti, que ele não viu. Sérgio fala-me de filmes americanos – sou avessa a quase todo o cinema ianque.

Descalço as botas, tiro as meias. Doem-me os pés mas não há novas bolhas. Aguentarei a caminhada até Barcelos?... Seria uma boa surpresa. Em contrapartida, embora mais vazia, a mochila parece-me pesada: doem-me também as costas.

No céu aparecem buracos azuis. Talvez não chova. Cheia de confiança, até ponho o chapéu.


publicado por Carlos Loures às 10:00
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3 comentários:
De Luis Moreira a 2 de Agosto de 2010 às 02:41
Bela caminhada esta, com a evocação de uma grande aventureira.


De carlos loures a 2 de Agosto de 2010 às 07:58
Que maravilha, Manuela,ler as crónicas da tua "peregrinação", calmamente, neste regime lento que me impus nestes dias! Sempre tive o culto do viajante,sentimento atávico de quem está parado - como admiro a tua coragem, a ruptura com a rotina que tiveste de fazer... no mínimo, essa viagem tem de dar um grande romance. Só um desacordo, o não gostares do cinema americano, dito assim. Os ianques fazem o pior cinema do mundo; mas fazem também o melhor. O cinema europeu, tem uma ou outra coisa, um ou outro realizador... Olha, se eu quiser generalizar (e não quero), diria que é enfadonho, pedante e decadente (o que seria injusto para Almodovar, por exemplo). Fechar parêntesis. A tua crónica está quase a chegar... Até amanhã.


De paladar da loucura a 2 de Agosto de 2010 às 08:56
A mochila que se faz pesada... e lembrei-me da última viagem de Bashô que foi largando o peso pelo caminho. É metafórica a caminhada. Muito obrigad, Manuela.


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