Sábado, 23 de Outubro de 2010
O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade –10: por Raúl Iturra
Parece-me importante escrever no texto central, o comentário sobre o livro, para entender os processos analíticos de Miller, especialmente para os que dedicam o seu tempo à análise dessa mente cultural em vias de desenvolvimento. A interrogação que se coloca é a de saber qual é o motivo que leva pessoas de sucesso a viverem os seus dias invadidos de sentimentos de vazio e alienação? Este livro, inteligente e profundo, tem provido a milhares de pessoas, respostas a colaborar no enriquecimento e calma para a sua própria vida. Milhares de nós temos sido ensinados, ao longo das nossas curtas vidas de infância, a esconder, de forma pericial, habilidosa, destra, os nossos sentimentos, necessidades, lembranças, para sermos capazes de satisfazer as expectativas dos nossos ascendentes.

Alice Miller diz que o seu uso da palavra gift, ou dotado em português, é não para crianças que obtêm altos valores de notas nos seus estudos ou pequenos de talento noutros desempenhos das suas vidas. Simplesmente em crianças capazes de sobreviver a abusos, por meio de se adaptar a crueldades que nem é possível nomear, ao ficarem dormentes perante esses ataques às suas emoções. Sem essa capacidade que a natureza nos dá éramos incapazes de sobreviver. Mas, sobreviver apenas, não é suficiente. O seu livro traduzido em Castelhano como Drama da Criança Dotada, ajuda-nos na descoberta das nossas necessidades cruciais, importantes para nós, para a nossa própria verdade . As análises de Alice Miller, são de pessoas que têm vivido a sua infância ou puberdade com sofrimento emotivo e em permanente depressão, mas que, ultrapassadas essas descompensações emotivas, ou são pessoas de saber, essas que eu denomino da cultura doutoral, ou não conseguem aceitar esse ser de forma diferente ou de simples mente cultural. Não se sabe se foram sexualmente abusados nem é o mais interessante das suas histórias de vida. É suficiente saber que Beckett, adolescente ainda, tem que tomar conta da família, que Flaubert fracassa nos projectos criados pelos seus pais para ele, Virgínia Woolf não resiste ao sucesso das suas obras, tem um colapso nervoso, como diz a sua história, e acaba por morrer, como o actor dos nossos dias, Keith Ledger


A autora não se limita a escreve estes estudos. Também analisa no seu texto de 1988: Der gemiedene Schlüssel traduzido para Castelhano como A Chave perdida , a vida e obra de Picasso e do comediante Buster Keaton, entre outros. Seres humanos que sofreram traumas na sua infância, mas que tiveram o sentido de resiliência suficiente para, converter os traumas em obras de arte, veja-se o caso de Buster Keaton divertindo o auditório com essa cara triste, que ainda se vê nos filmes, ele era capaz de fazer “palhaçadas” ou cenas burlescas. Alice Miller, para a capa do seu livro, procurou desenhos e encontrou no seu espólio uma gravura de uma pintura a óleo de Rembrandt, muito conveniente para os seus objectivos hipotéticos do texto que publicava. Mas, mais do que capa do livro, ela analisa as ideias transmitidas pelo desenho, como veremos mais à frente. Antes, penso que é conveniente perguntarmo-nos: porquê Rembrandt? É evidente que a gravura do retrato a óleo era adequada para o que ela queria provar, o abuso infantil. A obra de arte, esconde a mentira do abuso na infância e dá o prazer infantil, daqueles que não o tiveram, a outros. No entanto, em minha opinião, de acordo com o que Alice Miller me ensina com os seus textos e nas cartas que trocamos pela Internet, o próprio artista era um problema infantil. Tinha tido uma infância desgraçada, atribulada e pobre. Teve de abandonar os seus pais, pela inexistência de comida para todos, eram nove ou dez irmãos, filhos de pais sem entradas certas, como refiro na nota de rodapé . O interessante da história está nas primeiras linhas, essa sintética forma de falar de um artista, as abordagens remetem-nos meramente para o sucesso na vida e não para os seus antecedentes: sem pais nem família! Para contextualizar o que a analista pensou, vou referir as ideias redigidas pela editora, que diz: “Alice Miller percorre um longo caminho via o conhecimento das áreas negligenciadas da alma humana. No seu A Chave Perdida, talvez mais do que em qualquer das suas outras obras, Miller tenta desentranhar as cortinas de fumo usadas por nós para silenciar as nossas verdades mais dolorosas, denominadas sempre trauma” , mas que eu insisto em chamar uma verdade da história das nossas vidas que fere as nossas emoções. Há uma diferença entre as duas palavras. Para isso usa, a título de exemplo, algumas chaves básicas das nossas angústias recorrendo à análise da vida de personalidades como Nietzsche, Picasso ou Buster Keaton, essas portas das suas próprias moradas interiores, fechadas desde as suas infâncias. Donde, na sua tentativa de recuperar as chaves perdidas, seja possível permitir entender o estado de ânimo revelador de sentimentos obsessivos e vivências do mundo totalmente diferentes.
 
Notas:
 
O texto, em inglês, foi traduzido por mim para o presente trabalho, tornando-me assim possível acrescentar algumas ideias e modificar outras. O original, define as segunies ideias: “Why are many of the most successful people plagued by feelings of emptiness and alienation? This wise and profound book has provided thousands of readers with an answer and has helped them to apply it to their own lives. Far too many of us had to learn as children to hide our own feelings, needs, and memories skilfully in order to meet our parent’s expectations and win their love”. Alice Miller comenta:” When I used the word gifted in the title, I had in mind neither children who receive high grades in school nor children talented in a special way. I simply meant all of us who have survived an abusive childhood thanks to an ability to adapt even to unspeakable cruelty by becoming numb. Without this gift offered us by nature, we would not have survived. However, merely surviving is not enough. The Drama of the Gifted Child helps us to reclaim our life by discovering our own crucial needs and our own truth”. Quem quiser ler mais, pode visitar a ligação: http://www.alibris.com/booksearch?qsort=&page=1&matches=87&browse=1&qwork=1811647&full=1




A sua vida e obra pode ser lida em: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Keith+Ledger%2C+actor&meta=&aq=f&oq= Incapaz de aceitar o seu sucesso, faleceu por ingestão de calmantes anti-depressivos a mais, essa doença denominada dose excessiva de drogas. O sucesso também pode ser trágico, como os dois casos que aludo, é, pois, um abuso emotivo da população e da família, por apenas falarem da glória e do sucesso, sem, as pessoas, serem tratadas como seres humanos normais, que realizam um trabalho que passa a ser público.

Não há equilíbrio entre o sucesso de poucos e o trabalho rotineiro de vários, rotina compensada com a glória alheia. A prova está nas denominadas telenovelas, transmitidas no meio do dia, observadas pelas pessoas que nem comem para verem a novela ou o filme dessa televisão que acabou por trazer o pior dos venenos para a inteligência ao criar entretenimentos entre eles, e para a paz e a interacção familiar. Tenho referido noutros livros, como me era impossível, aquando da realização de trabalho de campo, falar com as pessoas à hora do almoço. Estavam todos a ver televisão, nem comiam nem falavam. Desisti de usar essa hora para a minha pesquisa; mais tarde pensei que era interessante ouvir as opiniões dos meus observados sobre o narrado nas telenovelas. Deu imensos frutos à minha pesquisa e um grande pulo às minhas ideias e hipóteses: os meus observados usavam os nomes das novelas e vestiam como os actores.

Publicado pela Editora por Suhrkamp Verlag, Franfurkt am Main, em alemão, traduzido para inglês em 1989, como The untouched key, Virago Press. Londres, em castelhano, 1991, por Tusquets, Barcelona, com o título de: La llave perdida. Este livro faz parte de uma análise psico biográfica da vida de Nietzsche, Picasso, Kollwitz e Buster Keaton; (No livro mais recente de Miller publicado em alemão em 2004, e em inglês, 2005: The Body Never Lies. The Lingering Effects of Cruel Parenting inclui análises semelhantes sobre as vidas de Dostoyevsky, Chekhov, Schiller, Rimbaud, Mishima, Proust, e James Joyce), editado por: WW Norton and Company Incorporated, Londres. A própria autora comenta o seu livro, em: http://alice-miller.com/articles_en.php?lang=en&nid=57&grp=11, editado em castelhano como: El cuerpo nunca miente, Tusquets, Barcelona, em que continua a sua análise do sofrimento infantil. O comentário diz: “Honra teu pai e a tua mãe, para teres uma longa vida na terra que o Senhor teu Deus te dará” (Êxodo, 20,12), Catecismo da Igreja Católica, 1991, versão portuguesa, página 471, artigo 4 do Capítulo Segundo, em suporte de papel, também disponível: http://catecismo-az.tripod.com/conteudo/a-z/m/m-4.html. Quem o quiser obedecer, apesar de ter sido desprezado ou maltratado pelos seus pais, só o poderá dinamizar, se souber reprimir as suas verdadeiras emoções. No entanto, o corpo rebela-se imensas vezes com doenças graves, motivadas pela repressão dos sentimentos feridos e pela falta de reconhecimento dos traumas infantis não superados. Nesta nova obra, Miller explica-nos, por meio de vários exemplos, as mensagens enviadas pelas doenças somáticas para as nossas emoções psíquicas. Ao narrar e analisar a história de vida de Nietzsche, Alice Miller define-o como uma pessoa que nunca teve a sorte de partilhar a vida com uma família que o quisesse amar. A sua criação filosófica é a metáfora de um impulso inconsciente de bater na sua infiel família que o tinha oprimido emotivamente por meio de uma tradição teológica. Pensa que a análise filosófica efectuada por Nietzsche, é fraca, porque autor é incapaz de estabelecer contacto emotivo consigo próprio, esse pequeno abusado que morava dentro dele. O problema de Nietzsche, foi o de ser severamente punido por um pai que enlouquecera quando ele era ainda criança. Miller não apoia a teoria genética (genetic) da loucura. Interpreta a depressão psicótica de Nietszche como resultado da forma prussiana de criar a infância.

Miller, Alice, 1991, em formato de papel: La llave perdida. Editado por Tusquets, Barcelona, 176 páginas. Texto em linha em: http://www.agapea.com/libros/La-llave-perdida-isbn-8472233901-i.htm. O comentário está já referido e traduzido, mas quem deseje ler outra vez, pode aceder a: http://www.agapea.com/libros/La-llave-perdida-isbn-8472233901-i.htm

Rembrandt Harmenszoon van Rijn nasceu em 15 de julho de 1606 (tradicionalmente) mas provavelmente em 1607 em Leiden, Países Baixos. Fontes conflituantes afirmam que a sua família era formada por 7, 9, ou 10 filhos. O seu pai era moleiro, e a sua mãe, filha de um padeiro. Quando criança teve aulas de latim e foi matriculado na Universidade de Leiden, embora desde cedo demonstrasse inclinação para a pintura. Pouco depois, tornou-se aprendiz do pintor histórico de Leiden, Jacob van Swanenburgh. Após, um breve, mas importante aprendizado com o famoso pintor Pieter Lastman em Amsterdan, Rembrandt abriu um estúdio em Leiden, dividindo-o com o seu colega Jan Lievens. Em 1627, Rembrandt passou a aceitar alunos, entre os quais, Gerrit Dou. Informação retirada de: http://pt.wikipedia.org/wiki/Rembrandt.

Do Grego trauma, ferimento s. m, Med., traumatismo; contusão; lesão local devida a um agente exterior accionado por uma força; Psic., choque emocional violento que modifica a personalidade de um sujeito, sensibilizando-a em relação a emoções da mesma natureza e podendo desencadear problemas psíquicos. É a interpretação da ciência da Psicologia que mais me interessa, por referir essa modificação de personalidade que Alice Miller, Daniel Sampaio e outros como eu, estudamos para entender a mente produtiva do adulto, essa hermenêutica, que, em minha opinião, não aparece apenas dos estudos. Qual é o motivo ou inclinação que orienta um adulto para um determinado tipo de análise da vida social, como, no meu caso, o interesse pelo luteranismo de Marx, materialista histórico na sua análise, ou ateísmo de Durkheim e Mauss, os que, no entanto, escreviam sobre religião, ritos, sacrifícios, sentimentos de fé, como o próprio Marx dos anos 48 do Século XIX, resultado, talvez, dessa ideia que eu denomino mente cultural, orientada pela religião como lógica da cultura, definida por mim em textos antes citados, especialmente no texto de 24 páginas: “ A religião é a lógica da cultura”, publicado no livro, coordenado por Donizete Rodrigues, 2004, Afrontamento, intitulado: Em Nome de Deus. A religião na sociedade contemporânea, 183 páginas. A palavra Verdade, também tem outro sentido: pode ser uma realidade que acontece apenas para nós, por causa do nosso contexto histórico material, ou pela sociedade toda que observa mudanças na sua mente cultural, que não consegue entender, definida assim: do Lat. Veritate s. f., qualidade do que é verdadeiro; qualidade pela qual as coisas se apresentam tais como é; realidade; coisa certa e verdadeira; boa-fé; sinceridade; princípio exacto; representação fiel; carácter próprio; conformidade do que se diz com o que é. loc. adv., em -: vd. na verdade; na –: efectivamente; seguramente; realmente; o m. q. em verdade; Filos., – formal: verdade que não implica contradição, que consiste num acordo de pensamento consigo próprio; verdade que assegura a lógica formal; - material: verdade que se traduz na aliança do pensamento ou da afirmação com um dado factual, o qual pode ser imaterial (psíquico, etc.) ou material. Para esta parte do texto, a definição filosófica da palavra verdade, de entre outras acepções, a que me parece mais adequada para entender o saber da criança, é o conceito verdade com o conteúdo de ideias que parecem contraditórias para a nossa vida. Se for contraditória, passa a ser a hermenêutica da palavra verdade, a base do seu seguimento: um trauma. Se o que pensamos não diz respeito à realidade, material ou imaterial, acaba por ser a dinâmica de ferida emotiva. Pelo que o conceito verdade é prévio ao de trauma. Uma criança capaz de entender a diferença entre o falado e a ordem do que deve ser feito ou como deve ser, pensa que é materialmente um facto, uma contradição. Essa contradição produz um trauma que, ou cria génios, como os analisados por Alice Miller, ou criminosos, analisados também por ela, como o já referido grande ditador e outros que nas nossas vidas cronológicas vamos encontrando. Parte deste texto tem sido retirado de: http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx. Os comentários são meus.


publicado por Carlos Loures às 15:00
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