Terça-feira, 1 de Junho de 2010
Recordações de antropólogo em trabalho de campo
Raúl Iturra
(Angelus, Jean-François Millet, em Barbizon, França, 1859,
conservado no Museu Orsay de Paris).

Em memória da minha Mamá Esperanza…


É-me impossível não recordar a família Medela Dobarro do Lugar de Lodeirón, Paroquia de Vilatuxe, Província de Pontevedra Alta, sem me lembrar da sua gentileza, da sua doçura, do seu acolhimento, do seu bom trato. O pai da casa é Hermínio Medela Taín, hoje com 82 anos, viúvo recentemente da sua querida mulher Esperanza Dobarro. Ele pertencia a uma família de ricos proprietários, do Lugar de Gondoriz Pequeno. Conheci-o em 1974, éramos novos. Tinha 47 anos certos, como digo num livro em que falo da sua vida, e eu, 33. Era o ano de 1974. Tinha sido enviado pelo meu director de estudos e trabalhos, Sir Jack Goody, Catedrático de Antropologia da Universidade de Cambridge, o meu sítio de trabalho, para entender o pensamento das crianças dessa parte do Estado Espanhol, denominado Galiza. Para meu espanto, havia duas Galizas: a da Polónia, da qual eu nada sabia, e a do Estado mencionado. Sem pensar mais, escolhi a Galiza Lusa, ao Noroeste da Península Ibérica. O problema era encontrar casa onde habitar em Vilatuxe. Com a colaboração do Pároco, Luís Vázquez Lamela, ofereceu-me uma casa fria, cozinha de lenha, imensos quartos, no Lugar da Carreteira que unia Vilatuxe com Compostela, cidade, e Lalín, Concelho. Assunto arrumado. A seguir, seduzir aos vizinhos para saber deles e escrever um livro. Em menos de uma semana do ano e meio que lá vivemos, era amigo de todos e trabalhava com eles desde as 7 da manhã até  noite adiantada. As raparigas, essas nossas filhas ou cativas como se diz em galego, uma gatinhava, a outra, começou a ir a escola. Teve que se traduzir do inglês ao luso galego, a língua do país, que era muito semelhante ao Castelhano. Passada uma semana, estava com as cativas na loja e uma amável senhora diz-me: Don Raul – nem sei como sabia o meu nome nem perguntei, e porquê eu era Don, o outro era o Pároco, os outros, Senhores - sabemos que quer conhecer os nossos costumes; convido-o para próxima terça-fFeira da segunda semana de Janeiro e vai poder apreciar como se trabalha em Galiza.

Deus me livre! Sabe-se bem que não sou homem de fé, é apenas uma exclamação, mas todos eles eram e muito. Foi preciso dissimular.Lá estava eu às 7 da manhã, ainda noite: tínhamos de limpar o sítio onde as vacas são guardadas, tirar o estrume, carrega-lo até um tractor, o do filho da Senhora, para mim D. Marcelina Medela de Montoto, e, com todo ímpeto, as minhas mãos agarraram uma pá e comecei a tirar o estrume fora da quadra, chamadas Cortes, para um monte que era carregado no tractor do filho da Senhora, o meu primeiro amigo, António de Taboada ou O Ferreirinho. Nem queriam que eu trabalhasse, mas orgulho-me em dizer que semeava batatas, cortava a espigas do milho, regava com todos os parentes e amigos do António. Havia um Senhor que disse para eu parar: era o irmão de, após largo tempo, Marcelina, o Senhora caiu, como o Don e passei a ser O Chileno de Vilatuxe. Esse Senhor, de forma gentil, tirou-me do sítio, começou a falar e fumar comigo, era a sua casa paterna, irmão da Marcelina, tio do António Montoto, como eu chamava ao Ferreirinho para não esquecer os nomes e não ser mal criado. Almocei…tanto, que fiquei doente e foi preciso regressar a casa, todo partido. A minha mulher Gloria teve que tomar conta de mim e melhorei em meio-dia. Juntei-me a esse grupo de pessoas, trabalhava sempre com eles enquanto preenchia os meus diários de campo, esse mais de 500 que guardo comigo. O Senhor amável era Hermínio e o sítio do trabalho, a dez minutos do nosso lugar, era Gondoriz Pequeno, palavra celta que significa aldeia. Apenas que havia a casa em que trabalhávamos, um Paço de mais de 300 anos, dividido e subdividido entre parentes por causa de heranças. Por ser a irmã mais velha, Marcelina ficou com a parte elegante do Paço e Hermínio, teve que construir uma casa para si e família na terra comum ou baldios ou terra de monte. Aí tomava conta das suas ovelhas, das suas cabras, viviam do produto delas, leite e queijo.

Ora bem, ou estávamos todos juntos a trabalhar os campos, ou Hermínio e eu a tomar conta dos bichinhos, como chamava ao rebanho. O frio era intenso e o calor no Verão era para nos cozinhar vivos. À hora do Angelus, que Hermínio e eu no rezávamos, continuava a conversa, aparecia a, para mim nesse tempo. A sua mulher D. Esperanza com comida para os dois. Pedi a Gloria preparar comida também para nós, que eu levava e comíamos que nem jibóias e adormecíamos por causa da comida e do calor.

Foi assim que conheci Hermínio Medela Taín, de família, descobri 25 anos depois, aristocrata, mas empobrecida pela Guerra Civil de derrubou a Isabel II de Bourbon, pela guerra começada pelos trabalhadores das terras dos condes e duques, os enfiteutas, que trabalhavam a terra como se fora deles, mas deviam entregar o que o proprietário da raíz do direito de propriedade, o que ele mandar. A revolta, ironicamente, começou em 1870 em Vilatuxe encabeçada por José Ferradas e os Dobarro, tios tetravós de Esperanza, que tinham de pagar aos Condes de Lemos, os Medela, o solicitado como enfiteutas. A revolta acabou com uma Rainha a correr para o exílio em Itália com toda a corte, entre eles a minha tetravó Maria Grajera Molano, filha de uma Dama da corte real, Dama quando a monarquia tornou a Espanha. Os Ferradas e Dobarro pagavam aos Medela em Gondoriz Pequeno, lugar situado perto do Paço dos Condes de Lemos, como são denominados na Galiza, os duques de Alba.

No podia deixar de contar estas ironias da vida. A família de Esperanza pagava aos de Hermínio e a minha família desfrutava com os impostos que a aristocracia pagava à Coroa. Hermínio e Esperanza não sabiam, eu sim, mas calava-me. Apenas 24 anos mais tarde, de regresso para um reestudo de Vilatuxe e acolhido pelos Medela e investigando outra vez a Paróquia, por não me quererem cobrar nem meia perra – forma de referir a meia peseta - pelos gastos que eu causava, escrevi o meu quarto livro sobre Vilatuxe, investigando, com Pilar, a quarta filha do casal Medela, e com licença do seu marido, Alfonso Batán, percorrendo os arquivos em procura das suas genealogias, todas elas apresentadas no livro que escrevi sobre eles: Como era quando não era como sou. O Crescimento das crianças, Profedições, Porto, datado em 1998, comentada em todas as moradas net de:
 http://www.google.pt/#hl=pt-PT&ei=iEgBTK3qCJ-O4gartPjLDg&sa=X&oi=spell&resnum=0&ct=result&cd=1&ved=0CBQQBSgA&q=Ra%C3%BAl+Iturra,+Como+era+quando+n%C3%A3o+era+como+sou.O+crescimento+das+crian%C3%A7as&spell=1&fp=940f438e07dbab8e
especialmente nos jornais, o mais notável, Terras da Beira, em:
http://www.freipedro.pt/tb/290600/soc9.htm
e outros sítios.

Os anos passaram. Voltei de Lodeirón, o Lugar dos Medela de Vilatuxe, em 1999, não sem antes descobrir com Pilar Medela Dobarro, esse apelido da mãe, que na Galiza é Nai ou Mamá, que eram parentes dos Condes de Lemos e dos Duques de Alba. Os levara ao Paço dos Lemos e Alba, que por direito lhes pertence, mas no usam o direito: trabalham. Fui capaz, com Pilar de historiografiar a sua vida desde o Século XVII em frente, com imensa teoria, o livro foi apresentado na Universidade de Compostela, está esgotado e parece-me que o devo dedicar a quem, anos volvidos e na sua casa, passara a denominar Mamá Esperanza…que já não está connosco, mas toma conta de nós onde quer que seja que se encontre... e eu a choro.


publicado por Carlos Loures às 19:30
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