Sábado, 7 de Agosto de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine

Capítulo LXXI

Décima oitava etapa: de Barcelos a Ponte de Lima (continuação IV)

Passamos Tamel, Portela, Aborim... Subimos, descemos, voltamos a subir.

Caminhamos por debaixo de vinha suspensa que, com este tempo e mesmo, nesta época, não faz sombra mas, no Verão, deve ser refrescante. O alcatrão e a calçada alternam com terra e areia. Atravessamos pontes por cima de riachos, atravessamos com água pelo cimo das botas, trepamos por taludes e até paredes para evitar charcos mais profundos... As varas de eucalipto revelam-se indispensáveis para sondar a água ou para nos equilibrarmos quando avançamos com um pé em suporte instável...

Entramos em Balugães. Passa do meio-dia e chove a cântaros. Com tal ritmo a que horas chegaremos a Ponte de Lima?... Percorremos treze quilómetros e meio com esta chuva – que nunca diminuiu. Não nos sentámos durante toda a manhã, não parámos sequer para comer, pois impor-se-ia poisar as mochilas, estando tudo inundado e cheio de lama. Doem-me as costas, sinto-me gelada. Por isso, vejo um portão aberto, chamo os donos da casa. Acorre uma senhora. Inquiro se podemos abrigar-nos.



- Só uns minutos... O meu marido chega daqui por um quarto de hora e, se os vir, ralha comigo. Sabe... Muitas pessoas têm sido assaltadas dentro de casa...

Prometemos que nos sentamos e, dali por dez minutos, nos vamos embora. Ela indica, por debaixo da varanda, uma mesa e duas cadeiras. Largamos as mochilas... Sentimo-nos logo melhor. Tiro o impermeável e descubro que tenho não só o cabelo mas até a camisola molhados. Ah... Por isso sentia tanto frio.

Chega a senhora. Aflige-se quando me vê de perto, vai buscar uma toalha para eu limpar o cabelo, quer fazer um café para nos aquecermos... Digo que basta água quente, pois trago sacos de chá. Ela põe de imediato água a aquecer e traz bolachas, amêndoas da Páscoa... Nós temos comida, é pesada, importa comê-la: sandes com queijo, leite com chocolate e fruta. Começamos a comer. Entretanto a senhora insiste para eu mudar de roupa. Prefiro ficar com a camisola molhada para poder, quando chegar a Ponte de Lima, vestir suficiente roupa seca: duas camisolas de algodão, uma por cima da outra, mais a de fibras complexas, a tal, tão leve e arejada – e que afinal não aquece nada.

A senhora quer dar-me uma camisola. Replico logo que não – um pouco envergonhada. Ela não se convence, vira costas, volta com várias, mais um blusão. Eram da filha. Trouxe-os para ela os oferecer a alguém que, por ali, precise deles, a senhora lavou as camisolas, mandou limpar o blusão... Ora, declara ela, nos dias de hoje, ninguém precisa de roupa – excepto eu, neste momento. Não é completamente falso... Tenho armários cheios mas, neste instante, não me aquecem nem arrefecem. Ela continua a teimar: se não quiser carregar com o blusão, que é pesado, abandono-o em Ponte de Lima mas, ao menos, chego lá sem uma pneumonia. Acabo por aceitar. Uma camisola. E o blusão, de couro, muito pesado, de facto – mas quente e impermeável.

Entretanto chega o marido, a quem explicamos a situação. O senhor não se zanga: revela um coração semelhante ao da esposa.

Conversamos durante alguns minutos. Nós explicamos o caminho de Santiago, eles contam a vida em Balugães. A D. Graziela foi modista e fez vestidos para todas a noivas da região: uma vida inteira a vestir os outros.

Acabamos por nos despedir. A D. Graziela oferece-nos, à força, o pacote de amêndoas.

- Não vos fazem mal: vocês precisam de força para caminhar!

Sendo impossível recusar, encarrego Sérgio de as transportar – e comer.

Neste encontro houve um embaraço irresolúvel. É que, do princípio ao fim, a D. Graziela se referiu a Sérgio dizendo: o seu marido. Logo percebi que a circunstância de vir acompanhada com um homem tinha para ela implicações distintas das que lhe atribuo.

- O seu marido não é português, pois não?

- Não, não... O Sérgio é italiano.

- Pergunte ao seu marido se quer o chá com açúcar.

- Não, acho que não...

É certo que em Santiago de Compostela hei-de orar pela D. Graziela e pelo marido – eles crêem no Deus Todo-Poderoso. Que vivam muitos anos com alegria. Que nas silvas encontrem as amoras e nunca os espinhos. E que nenhuma criatura de má índole ultrapasse o limiar daquele n°32.


publicado por Carlos Loures às 10:00
link do post | comentar

EDITORIAL
AUTORES
Adão Cruz

Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Antunes

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Moreira de Sá

Fernando Pereira Marques

Hélder Costa

João Machado

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Moreira

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Maria Inês Aguiar

Paulo Melo Lopes

Paulo Rato

Pedro Godinho

Raúl Iturra

Rui de Oliveira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Contacte-nos
estrolabio(at)gmail.com
últ. comentários
HOLA...¿NECESITA PRESTAR DINERO PARA PAGAR CUENTAS...
Bom-dia Senhoras e Senhores.Sou uma mulher de negó...
Sou uma mulher de negócio Portuguesa e ofereço emp...
Dude, if you were trying to sound portuguese let m...
Olá Andreia! Sei que esta publicação já é antiga. ...
Patricia Deus vai abençoar você e sua empresaMeu n...
Meu nome é Fábio João Pedro e eu sou de Portugal. ...
Meu nome é jose matheus Giliard Alef sou do brasil...
Bom dia a todosMeu nome é Damián Diego Alejandro, ...
Olá a todosEu sou Tainara izabella paola e sou da ...
pesquisar neste blog
 
posts recentes

De 26 de Setembro a 2 de ...

As minhas novas pegadas (...

A viagem dos argonautas

Portugal, a União Europei...

Políticos que cumprem ! P...

O Ministro Gaspar

Anima ver o lado positivo

Palavras Interditas - por...

Os jornais e as notícias ...

Summer Time - Ella Fitsge...

arquivos

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

tags

todas as tags


sugestão: revista arqa #84/85
links