Domingo, 24 de Outubro de 2010
Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - Quando Começou a História?

O ciclo infernal dos terrorismos só se pode quebrar se se conhecer a história e tirar dela lições


A perplexidade que assolou o mundo ocidental em geral, e os EUA, em particular, após as atrocidades de 11 de Setembro leva-me a pensar que, para muita gente, líderes políticos e cidadãos comuns, desta região do mundo, a história só começou em 11 de Setembro. Muitas das questões que dominam os media parecem partir dessa premissa: porquê todo este ódio contra o Ocidente e a América? O que leva jovens, alguns engenheiros, embrulharem-se em bombas ou a transformarem aviões em bombas para se imolarem por uma causa? Porque é que estes terroristas são considerados mártires nos seus locais de origem e as suas famílias respeitadas por terem tão heróicos filhos? A perplexidade, a surpresa e a estranheza são tão grandes que nada parece existir no passado que nos ajude a compreender (sem que isso implique justificar) o que se passou.

O problema desta amnésia histórica é que, sem o passado do que se passou e, portanto, sem as lições que se podem tirar dele, não poderemos compreender e muito menos influenciar positivamente o futuro. A verdade é que esta história e estas perguntas têm um passado, por vezes bem remoto. Ilustro alguns dos seus momentos: as cruzadas dos cristãos contra os "infiéis" nos séculos XI e XII; a intolerância cristã contra mouros e judeus na Península Ibérica do séc. XIII ao séc. XVI; o colonialismo europeu a partir do séc. XV com os massacres massivos dos índios na América, dos negros na África, dos indianos na Ásia, dos irlandeses na Europa, com a escravatura, com a repressão violenta dos movimentos de libertação da Argélia, e da África "portuguesa"; a dependência da prosperidade do Ocidente do petróleo barato e abundante; a longa história de intervenção violenta do Ocidente, liderado pelos EUA, para derrotar no Médio Oriente movimentos democráticos (Mossadegh, em 1953, no actual Irão, sobretudo por ter nacionalizado o petróleo) e nacionalistas, laicos ou opostos ao fundamentalismo religioso (nos anos 60, o Nasserismo, no Egipto e o Baathismo, no Iraque; nos anos 70 e 80, o regime pró-soviético do Afeganistão, armando os extremistas religiosos, os talibã e os bin ladens); o apoio incondicional dos EUA ao terrorismo de Estado exercido por Israel contra os palestinianos, da guerra de ocupação de 1967, ao massacre de 17000 civis palestinianos no Líbano e de 3 mil famílias de refugiados nos campos de Shabra e Shatila 1982-83; o apoio militar a Saddan Hussein na luta contra o Irão onde foram usadas armas químicas e morreram mais de um milhão de iranianos e kurdos; o bombardeamento, ordenado por Clinton, sem provas concludentes, de uma fábrica de produtos farmacêuticos no Sudão, de que resultou, segundo alguns estudos, a morte de 30 000 pessoas que dependiam dos medicamentos aí produzidos; o facto de, no dia 11 de Setembro, e segundo dados da FAO, terem morrido 5,615 crianças nos países pobres do mundo, sem que tenha havido qualquer notícia, nem nenhuma manifestação de solidariedade; a arrogância eticamente repugnante de pôr a par aviões B-52, lançando bombas e os C-17, lançando comida para que os afegãos humilhados saibam que quem lhes mata a fome só pode matar e destruir por amor.

Esta história começou há muito e, se não for conhecida e aprendida, ao terrorismo dos desesperados seguir-se-á mais uma reacção de terrorismo de Estado e a esta mais terrorismo se seguirá.


(Publicado na revista "Visão" em 18 de Outubro de 2001)






publicado por Carlos Loures às 21:00
link do post | comentar

EDITORIAL
AUTORES
Adão Cruz

Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Antunes

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Moreira de Sá

Fernando Pereira Marques

Hélder Costa

João Machado

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Moreira

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Maria Inês Aguiar

Paulo Melo Lopes

Paulo Rato

Pedro Godinho

Raúl Iturra

Rui de Oliveira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Contacte-nos
estrolabio(at)gmail.com
últ. comentários
Olá Sr. / Sra.Você precisa de empréstimos para o p...
HOLA...¿NECESITA PRESTAR DINERO PARA PAGAR CUENTAS...
Bom-dia Senhoras e Senhores.Sou uma mulher de negó...
Sou uma mulher de negócio Portuguesa e ofereço emp...
Dude, if you were trying to sound portuguese let m...
Olá Andreia! Sei que esta publicação já é antiga. ...
Patricia Deus vai abençoar você e sua empresaMeu n...
Meu nome é Fábio João Pedro e eu sou de Portugal. ...
Meu nome é jose matheus Giliard Alef sou do brasil...
Bom dia a todosMeu nome é Damián Diego Alejandro, ...
pesquisar neste blog
 
posts recentes

De 26 de Setembro a 2 de ...

As minhas novas pegadas (...

A viagem dos argonautas

Portugal, a União Europei...

Políticos que cumprem ! P...

O Ministro Gaspar

Anima ver o lado positivo

Palavras Interditas - por...

Os jornais e as notícias ...

Summer Time - Ella Fitsge...

arquivos

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

tags

todas as tags


sugestão: revista arqa #84/85
links