Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011
Cidade Maravilhosa – 1 – Sílvio Castro

(Retrato sintético dos anos ’50 (até 1962) da e na “Cidade Maravilhosa”)

1950 chegou encontrando o Rio de Janeiro que passara por grandes mudanças urbanísticas e entrava por outras mais. Com os túneis abertos, superando as colinas e montanhas que faziam da cidade uma faixa que se estreitava em muitos pontos e por alturas que encobriam outros pontos, o carioca se surpreendia a cada dia com as constantes inovações e com o território urbano festivamente alargado ao sul pela costa oceânica na direção da Barra da Tijuca, superando os limites do Leblon; internamente,ao norte, pelos longes de Jacarepaguá e alturas do Alto da Boa Vista e da Floresta da Tijuca. O aterro do Flamengo, por estradas que partindo do Centro da cidade chegavam até Botafogo, encontrará cedo a sua revolução ambiental, realizando-se em muitas Avenidas que unem os bairros próximos do Centro à Zona Sul, tudo transformado em uma área de grande beleza pela magia dos jardins desenhados por Burle Marx. Assim, o tempo do período absurdo da II. Grande Guerra passara definitivamente da mente de todos aqueles que agora esperavam somente por outras épocas. Passara igualmente o monótono período político social-democrático do governo Dutra. Nesses primeiros momentos da nova década se retornava à mobilidade social e ao entusiasmo cívico com a volta ruidosa de Getúlio Vargas à Presidência da República. Tudo agora é um novo ritmo, mais de samba que de valsas lentas.

 

 

 

 

Logo no início da década toda a gente vivia a expectativa de um evento mágico, a Copa Jules Rimet-1950, programada pela FIFA no Brasil das grandes expectativas. Os brasileiros, todos os brasileiros, sonhavam com a conquista do título mundial, aquele mesmo título que escapara na última edição da Rimet em 1938 aos campeões Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Romeu Pellicciari, Perácio, Patesko, Tim e demais companheiros, diante de uma Itália que em Marsilha os vencera com um incompreensível 2X1. Para hospedar tantas esperanças se construirá em tempo absolutamente record o maior Estádio do Mundo, o Maracanã, pronto para receber uma multidão de 180 mil espectadores!

O Maracanã foi construido em poucos meses, diante dos meus olhos juvenis.

Lenta, mas magicamente se elevava nos terrenos do antigo Turf Clube, na Avenida Maracanã, terreno em que eu muitas vezes pisara nas minhas infatigáveis “peladas” com os meus companheiros das ruas próximas à minha, a Visconde de Itamaraty, para sempre glorificada pela proximidade frontal com a nova maravilha da arquitetura esportiva brasileira.

O Maracanã se fez num instante de poucos meses; e logo corríamos para assistir à sua partida inaugural, disputada entre as seleções de jovens, menos de 23 anos, do Rio e de São Paulo. Venceu a seleção carioca por 3X1, sendo o primeiro gol no novo estádio monumental da autoria do jovem, mas já genial, Didi.

O Campeonato do Mundo-1950, o quarto da série e o primeiro depois da tragédia da II Guerra Mundial, começa. E tudo é uma sequência de sucessos da Seleção:

4X0 contra o México; 2X2 com a Suíça; 2X0 com a Yuguslávia; 7X1 com a Suécia; 6X1 contra a Espanha. Chega-se à final com o Uruguai. O Brasil até mesmo com um empate conquistaria o título mundial. Mas vence o Uruguai: 2X1, diante dos olhos estarrecidos de 180 mil brasileiros que viram o Brasil passar a frente no placard, logo no 1º. tempo, com um um gol de Friaça; porém, no segundo tempo, como a realização de algo absurdo, Schiaffino empata, para depois o ponta-direita celeste, Chiggia, marcar o gol da vitória . Estarrecidos, silenciosos, a multidão de derrotados vê Obdúlio Varela com a Copa erguida, na frente de seus outros dez companheiros, que percorrem olimpicamente o inteiro campo. De repente, diante da exultação dos vencedores, se levanta um aplauso que se faz sempre mais intenso. Os torcedores brasileiros, jamais derrotados, venciam assim esportivamente o sonhado campeonato.

Passados quatro anos, em 1954 a seleção brasileira parte para a disputa do V Campeonato do Mundo, na Suíça, vindo considerada pela crítica esportiva internacional como uma das favoritas para a conquista da Taça Jules Rimet. A Seleção se apresentava com diversas inovações, algumas das quais mudariam o sentido do jogo em todo o mundo. Em particular as novas atividades táticas dos defensores laterais, não mais somente encarregados da marcação das alas adversárias, mas prontos a subir para o ataque, em substituição das pontas tradicionais. Assim logo aparecem os gênios futebolísticos de Djalma Santos, na lateral direita, e Nilton Santos, naquela esquerda. E, dessa maneira, os brasileiros introduziam com convicção o novo sistema de “marcação” a zona, que teria vitoriosa confirmação no campeonato sucessivo, o da Suécia, em 1958. A ainda não completamente madura seleção brasileira vem eliminada nos quartos de final pela formidável formação da Hungria de Puskas, 2X4.

 

 

 

 

 

Passados outros quatro anos, finalmente a seleção brasileira, agora com um definido e surpreendente “4, 2, 4” de Vicente Feola, brillantemente bem executado por um time excepcional: Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagalo, conquista finalmente o seu primeiro título mundial. O mundo inteiro louvava então a grande classe dos onze craques da camisa verde e amarela, em particular pelas jogadas inimagináveis dos muito jovens Pelé e Garrincha, mas também encantado com a inteligência tática de Zagalo e dos laterais Djalma e Nilton Santos. Tudo se conclui gloriosamente no dia 29 de junho de 1958 com o título de campeões invictos do mundo, depois de resultados excepcionais, coroados com a final Brasil 5 x Suécia 2 (gols de Vavá 2, Pelé 2 e Zagalo, para os brasileiros; Liedholm e Simonsson, para os suecos.)

Quando os campeões do mundo de retorno e desfilando nas ruas do Rio se apresentam às multidões, a apoteose que a Cidade Maravilhosa lhes reserva lembra todas as festas coloridas que naquelas mesmas ruas tinham sido vividas até então em tantos e inesquecíveis carnavais.

 

A vitória quase publicitária de Getúlio Vargas em 1950 para a Presidência da República (também inaugurando a curiosa coincidência das eleições presidenciais com o ano de um novo Campeonato do mundo de futebol, como neste 2010 a coincidência do malogrado Campeonato do Mundo da África do Sul para a Seleção penta-campeã , e a feliz eleição da primeira mulher brasileira, Dilma Rousseff, ao alto Cargo), uma tal vitória trazia a esperança de grandes renovações sociais. Getúlio apresenta nos seus dois primeiros anos de governo projetos que tendem a fazer com que o Brasil possa retornar a uma política trabalhista propiciatória de continuado progresso e, como consequência, a uma concreta emancipação nacional, seja diante do capital internacional, seja igualmente em confronto com o muro diplomático estadunidense, absolutamente hegemônico. Assim ele entra na fase final de seu mandato violentamente comprimido pela política aliberal da UDN (União Democrática Nacional), derrotada no pleito presidencial e que não cessava de criar uma obstrução sistemática à ação do Governo. Nessa atividade o protagonista central era o teórico udenista, Carlos Lacerda, jornalista excelso, ex-lider das reivindicações socialistas nos anos ’30, agora parlamentar de linha conservadora-reacionária. A campanha da oposição lacerdista se radicaliza mais e sempre, até que, depois de denúncias de corrupção no staff presidencial, com total incriminação do sempre inovador Getúlio Vargas, acontece a tragédia do dia 24 de agosto de 1954: indefeso e acometido por todos os lados, Getúlio se suicida.

 

Na manhã daquele dia trágico todo o Brasil recebe por rádio a notícia da morte de seu Presidente. Pelas nove da manhã, eu parto da minha casa da rua Pereira Nunes, em Vila Isabel, para a rua Moncorvo Filho, onde estava a sede da Faculdade Nacional de Direito que então eu cursava. Por toda a parte, nos bondes e nas ruas, da minha casa até à Faculdade, na Praça de República, bem diante do palácio do Ministério da Guerra, já então protegido ostensivamente por carros armados, e defronte à estação da Central do Brasil que descarregava a cada minuto centenas e milhares de trabalhadores vindos dos subúrbios cariocas, por toda a parte eu encontrava uma multidão enfurecida. Entrado no prédio da Faculdade, me junto aos meus colegas ali reunidos desde a primeira manhã daquele dia fatídico. Confabulo com o grande grupo em ebulição, e logo a seguir saio a pé com um deles, Pierre, na direção do Palácio do Catete, onde a tragédia se consumara, passando pelo centro da cidade, pela Avenida Rio Branco, Cinelândia, a Lapa, até o bairro do Palácio Presidencial, aquele Catete de velhas tradições. Pierre e eu , enquanto caminhavamos a pé por vários quilômetro, nos sentíamos como que carregados naquela direção pela multidão sem fim. A cidade era uma única rebelião, pronta a explodir em atos de destruição de tudo. Depois de várias horas no nosso caminhar, chegamos diante do Palácio Presidencial. Já ali, o imenso tumulto dos seu arredores se atenuava como em gestos de grande dor por parte daquela gente simples que em filas, milagrosamente organizadas, penetrava no grande prédio neo-clássico, em direção da sala que já então recolhia e expunha o corpo do Presidente morto.

 

A partir daquele 24 de agosto, a Cidade vive momentos de tumultos constantes. O parlamento nacional não consegue organizar-se para chegar à programação definitiva das novas eleições. Os vice-presidentes entrados sucessivamente no exercício da Presidência têm absoluta dificuldade em encontrar os melhores rumos. Os adversários consevadores de Getúlio desapareceram como por um ato mágico, que mágico era tudo aquilo que vivíamos em tais horas; e a preparação das novas eleições se dramatizava a cada dia. Até que esta vem realizada em 1955, tendo como vitorioso o governador de Minas Gerais, Juscelino Kubistchek, lider social-democrático, mas que encontra ao seu lado, como Vice-Presidente, o trabalhista João (Jango) Goulart, herdeiro político direto de Getúlio. Em janeiro de 1956 principia um outro inovador período presidencial, aquele de Juscelino, o próximo criador de Brasília.

 

 

 

(Continua)

 

 

 



publicado por Carlos Loures às 20:00
editado por Luis Moreira às 16:11
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