Terça-feira, 28 de Setembro de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
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Manuela Degerine


Capítulo CXXI

Epílogo

A mulher que via passar os comboios (conclusão)

- Interessa-me. E até os leitores fazem perguntas... A última vez que dei notícias, querias sair daquela varanda. Em Pontevedra… Nos dias seguintes andei atrás de ti no Caminho de Santiago. Caminhas mais depressa do que eu, perdi-te de vista à saída de Rio Tinto. E não te encontrei nos albergues… Dormiste onde?

- Não tens nada com isso.

- Imagino que em Caldas, depois talvez em Teo e, por fim, em Santiago, noutro albergue… Tiveste razão: o Seminário Menor não era acolhedor. Confesso que, ontem e hoje, me esqueci de ti. E agora não esperava encontrar-te.

- Não acredito.

- Demoras-te em Lisboa?

- Não deves ignorar que, com ou sem a tua ajuda, fiz ontem um encontro... E disponho, há duas horas, de um alojamento no teu bairro – um andar em muito mau estado mas, ainda assim, habitável. Gratuito. Tomo conta daquilo para evitar uma ocupação por outras gentes. Dá-me jeito: senão restavam-me aquelas arcadas.

- Não convém.

- Também me parece. Mas desconfio da coincidência, ainda mais da proximidade: um comboio pode esconder outro.

Faz uma careta.

- Estúpida metáfora ferroviária. É linguagem tua, não é? Traduzida do francês. Quero mudar de discurso. Quero construir as minhas frases todas. Preferia ver-me onde nunca hás-de pôr os pés: Riad, Las Vegas, Joanesburgo.

- Como é que sabes?!

Ela sorri pela primeira vez.

- Também sei algumas coisas.

- Tens projectos?

- Muitos.

- E quais são?...

- Em primeiro lugar: não voltar a ver-te. Nem a ti nem ao tal pintor. Embora ele, no fim de contas, até me entenda. Somos quase vizinhos... Outra coincidência? Acho que não. Odeio essa maneira de fingires que contas uma coisa, contando outra, bastante diferente. O pintor também não te quer ver nem pintada. Nisto somos aliados. O resto não te diz respeito. Acho preferível que, daqui em diante, não me fales. Caso contrário... Para me desembaraçar de ti, irei até à Nova Zelândia, se achar necessário: sei que a língua inglesa não te entusiasma.

- Não muito. Falas inglês?

- Melhor do que tu. Bem... Vou andando. Tenho muito para viver.

- Rita…

- Rita, não: Joana.

- Joana?!

- Joana, sim. Queres o bilhete de identidade?

- Joana, então. Não quero ser desmancha-prazeres mas… Na vida real todos têm um património genético e cultural, antepassados, hábitos familiares, uma história antiga, começada muito antes de nascerem, depois uma infância, uma adolescência, uma formação, amigos, namoros, experiências, desilusões, vacinas, cicatrizes, enfim: achas que podes nascer com quarenta anos?

- Trinta e sete anos e dez dias. Não te inquietes: tenho isso e muito mais.

- Tens?!

- Claro que sim. Menos a família e os amigos – por enquanto. Nem pais nem avós nem primos… Não me incomoda: é assim. E faço questão de preencher, na medida do possível, daqui em diante, a lacuna: não preciso de ti.

- Duvido. Fui eu que te inventei. Não me deixaste prosseguir…

- Mais valia: o desvelo dos autores com as personagens não me passou despercebido. Fizeste de mim uma leitora… Eu, se tiver dissabores, prefiro saber de onde vêm; e, quando errar, ao menos, aprenderei. Já não te pertenço.

Lança-me um olhar de desafio.

- Lembras-te do Pinoquio?

- Tu és adulta. E – por enquanto – uma criatura vazia. Aliás como tantas que aí andam: vai a avenida saturada de misérias. Ora eu não quero que, por tua causa, esta minha viagem Portugal-a-riba venha a simbolizar a marcha do nosso progresso social; porém, na melhor das hipóteses, cais na sociedade de consumo sem qualquer prevenção, achas-te com uma coca cola na mão esquerda e um hamburguer na mão direita. Foi para isso que te inventei?

Ela ri-se.

- Não te esqueças das batatas fritas. O problema agora é meu. Se me tornar obesa não te venho pedir contas, se não souber gerir o que me puseste na bolsa, não te venho pedir ajuda. Aliás… Não projecto descer a tua Almirante Reis até ao fim dos meus dias. Gostava de ter uma horta, numa aldeia de xisto, por exemplo, beber o leite das minhas ovelhas, comer o mel das minhas abelhas… Quando for possível. Adeus. Até nunca mais.

Deixo aqui de ser a narradora. Do tempo do Almeida Garrett a esta parte as heroínas evoluíram muito, nenhuma agora se acomodava com a história da Joaninha, com a de Georgina ainda menos, fosse numa obra genial, fosse para figurar, até ao fim dos tempos, nos programas dos liceus e universidades, fosse em que circunstâncias fosse... Hoje as figuras femininas não aceitam qualquer papel. E eu, com esta mania de inventar personagens rebeldes, sujeito-me agora às lógicas consequências. Evidentemente, aqui, nas Novas Viagens na Minha Terra, ao imaginar uma mulher que reivindica, junto do pintor, uma mudança de estatuto, autorizei os distúrbios dentro do meu próprio espaço ficcional. Paciência… Na próxima vez tentarei, antes da ruptura, chegar a um pacto. (A Agustina Bessa-Luís, com as suas santas, iluminadas e masoquistas, não passa por estes embaraços.)

Hoje em dia o autor (ou autora) encontra-se, não raras vezes, com o papel do Pai Tirano… E já aconteceu, mais de uma vez, surgir no meu romance, de supetão, vinda de outro texto, uma personagem cuja entrada, evidentemente, eu não previra. Não, não é fácil enfrentar tais situações mas acaba – afinal – por ser estimulante.

Ignoro como se conclui esta história. Agradeço aos leitores que me avisem se acaso, numa rua de Lisboa, reconhecerem a minha personagem ou se lerem algures as aventuras da mulher que via passar os comboios. (Reparei no instante da despedida que ela tem os olhos verdes.)


publicado por Carlos Loures às 10:00
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3 comentários:
De carlos loures a 28 de Setembro de 2010 às 10:34
Que belo trabalho a Manuela Degerine nos apresentou ao longo destes 121 dias! Que falta vamos sentir da leitura diária destes episódios. É um livro excelente o que tens aqui.Por outro lado, para além da vertente literária que nos encantou, mas não surpreendeu quem tenha lido os teus romances e conheça o teu grande talento de ficcionista, para além disso, fica a admiração por quem foi capaz de palmilhar as centenas de quilómetros que vão de Lisboa a Santiago de compostela. Como se sabe, só existe o que é registado, o que fica escrito e seria pena que uma proeza tão grande não fosse conhecida. Aqui ficou registada e oxalá depressa apareça em livro.

O Estrolabio beneficiou da licença sabática da Manuela Degerine, que agora regressa a Paris onde é professora. Com menos tempo disponível, estará, no entanto, presente numa das equipas que vão criar as duas blogonovelas - as primeiras que se escrevem no nosso País, julgo eu. Escreverá um capítulo por semana. Obrigado Manuela.


De Luis Moreira a 28 de Setembro de 2010 às 12:06
Manuela, que falta vou sentir dessa viagem que fiz todos os dias.Oxalá voltes depressa com mais caminhos.Obrigado.


De Manuela Degerine a 28 de Setembro de 2010 às 21:18
Obrigada. Também tem sido um prazer encontrar-me aqui, todos os dias, em tão boa companhia... Até breve.


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