Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010
Uma outra forma de aparecer no mundo
Clara Castilho


O belo texto com que o Adão Cruz nos presenteou em que falava de partos na Guiné e as achegas sobre o futuro de um bebés nascidos( apetece dizer: o mundo é pequeno!) fez-me lembrar este texto de minha mãe (publicado na revista”Mulher”, ano LXV, nº 3358, de 8.9.76)

Um texto de MARIA CECÍLIA CORREIA 

QUANDO A ANA NASCEU

A primeira vez que nos reunimos – as quatro mulheres da família – foi quando a Ana nasceu.

Foi simples. Pensei: deve ser uma festa. E convidei as outras filhas.

A mais velha tinha 18 anos e, não sei porquê, uma leve suspeita que o parto podia ser coisa bicuda. A outra tinha 10 e a sua presença foi escândalo para algumas pessoas, de certa idade, entenda-se. Tão novinha – diziam, que disparate!

Vejamos: se a filha do meu compadre Lourenço, com 12 anos, foi a parteira da mãe, lá por terras da Beira Alta, porque considerar a Clara nova de mais? Ela até ficou a julgar-se mais crescida!

Além de nós a três , Cersina Bermudes, que perdeu o título de Drª porque os títulos se perdem quando outros valores mais altos aparecem. Assim, era como uma amiga que ela discretamente dirigia a nossa reunião-festa. Lembro-me que contava uma recente viagem à Áustria.

No pouco tempo de espera, a nossa atitude era a mesma que teríamos numa estação de caminhos-de-ferro: entretínhamos o tempo como quando se espera qualquer coisa. E a “qualquer coisa” apareceu pouco depois, com ar calmo e grande cabeleira preta. – Pareces uma indiazinha do Peru, foi como a saudei. E fiquei contente por ela ser uma rapariga. Mulher – futura mãe! Assim éramos nós quatro, ali reunidas, a fonte de outras crianças; a maternidade presente e as que viriam depois teriam sempre a ligá-las aquela tarde de esta.

Ana, a última, e alheia ainda a significados, não poderia saber que essa reunião tinha sido preparada muitos anos atrás, quando outros lutaram para que ela pudesse ser feita. Ali estavam os estudos e os esforços de quantos quiseram mais bela a maternidade, fora e dentro de Portugal.* De quantos lutaram profundamente e cm coragem, primeiro contra o desconhecido, depois contra a ignorância e os preconceitos. Quase todos, com pena minha, ignoram o agradecimento de quem recebia os benefícios das suas conquistas.

Ana não sabia também que, juntando pedra na construção, eu queria fazer a preparação remota do parto sem dor a essas filhas, que seriam mães, por sua vez, e a quem teria de ser dado o “contraveneno” das conversinhas-rumores” sobre o parto. O parto foi posto aos seus olhos, não como uma dura prova, mas como um acontecimento simples e belo.

A “indiazinha” ficou no berço e as irmãs regressaram a casa. Talvez amanhã seja coisa corrente os irmãos esperarem outros irmãos com o mesmo ar de festa com que a Ana foi recebida, não sei. Mas para nós foi extraordinário. Todas hoje sentimos que essa foi uma tarde grande: aconteceu que chegou a Ana e que todas as mulheres da família a estávamos esperando.


publicado por Carlos Loures às 11:00
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De Luis Moreira a 9 de Setembro de 2010 às 21:03
Eu sou um valente do caraças, fui para a sala de partos, o Hugo estava a nascer, e a médica voltou-se para mim e perguntou: trato do filho ou do pai? saí da sala e ainda tive tempo de tirar a bata antes de desmaiar...


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