Quinta-feira, 24 de Junho de 2010
Um peixe fora do aquário
Ethel Feldman


Todos os anos a família comemora o seu aniversário. Meu pai diz que a família é uma coisa que sempre existiu, minha mãe afirma que a família é mais que uma coisa mas concorda com seu tempo de vida. Numa data ao acaso festejamos o nosso aniversário.

Houve um tempo em que os velhos eram os responsáveis pelos festejos. Bons vinhos, queijos e presuntos eram escolhidos com todo requinte. Uma prima austríaca, obesa pela ausência da nicotina, trazia o esperado bolo moca como se este fosse o seu ingresso na festa.

Dos funerais lembro de dois, os dos últimos personagens que zelaram pelas nossas risadas. Os mesmos que reclamavam cansados dos nossos excessos. Depois deles as festas foram ganhando a cor da saudade. O vinho descobria sem vergonha a amargura das nossas risadas teimosas. O bolo que é agora comprado na pastelaria da esquina é tão indigesto como o resto da refeição.

Esperançados do sabor do passado a família reúne-se teimosamente todos os anos.

Enquanto a risada corre à solta nervosa, um grita EXISTO! o outro questiona DESDE QUANDO?


Ninguém dá pela tristeza, ninguém dá pela dor porque a vontade de outrora inventa a verdade. Se no fim da noite precisamos de um antiácido é somente porque abusamos do álcool.

Este ano acreditei na festa. Passei o dia a preparar um sorriso. Acordei a lembrar-me criança – um tempo que perco todos os dias.

Mal passava das oito quando meu pai telefonou:

- Já cá estamos todos filha! Estás atrasada ...

Minha irmã telefonou bem cedo avisando que o jantar seria num restaurante indiano. Lembrei com saudade a casa da minha avó. Lá ninguém vendia flores no meio da refeição.

Peço desculpas explicando que me perdera pelo caminho. Dei várias voltas à praça sem nunca encontrar a saída. Afinal bastava virar o rosto para a esquerda. Uma casa iluminada como se fosse Natal convida sem pudor quem passa na rua.

Uma sala vazia de gente. No canto esquerdo várias mesas esperam os clientes. À direita dois sofás para quem venha necessitado de algum descanso.

Pergunto pela reserva da família Alcobia. Um rapaz tímido aponta para o centro da sala. Espantada reclamo:

- Lá onde você aponta só tem um aquário...

O indiano teimoso repete:

- A família Alcobia está a jantar ali...

Julguei ser o português enviesado do simpático indiano responsável pela minha dificuldade de entendimento. Certa de esclarecer o equívoco corro para o centro da sala.

Não sei como explicar mas a verdade é que a minha família jantava no interior de um enorme aquário. Timidamente soco uma das paredes. Todos me acenam contentes.

Ninguém dá conta porque não entro, nem eu consigo descobrir como transpor o obstáculo. Quando o vinho aparece encho o copo. Na hora do brinde meu cálice encontra a parede de vidro num dó sustenido que contrasta com o eco surdo dos copos do lado de dentro.

O empregado de mesa sabe como entrar e sair, enquanto eu brigo com uma galinha massala no meu prato.

Será que mataram os peixes? Não consigo entender o que faz aquele carangueijo abraçado ao pescoço do meu primo...

Desta vez vou poder me despedir sem remorsos. Abro um sorriso. Volto a pedir desculpas pelo meu atraso.

Meu pai solta uma gargalhada sonora (uma daquelas quase igual às de antes)

- Pois, se fosses pontual não jantavas do lado de fora...

No próximo ano, quando a minha irmã telefonar não posso esquecer de perguntar se me dão umas garrafas de mergulho caso eu chegue a horas.



Tenho medo que me falte o ar.


publicado por Carlos Loures às 23:55
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1 comentário:
De paladar da loucura a 26 de Junho de 2010 às 17:21
tenho um leitor/que só lê meus poemas de amor/um dia quando eu me for/avise-o por favor que inventei a cor nesta partida sem dor.

temo que não tenha amado o peixe fora do aquário, já que a vida a ele assemelha-se a um poema sem rimas. afectuoso usa a liberdade como bandeira do amor. venha então amigo, libertar-me deste espaço que tem-me refén dia e noite, noite e dia.


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