Domingo, 10 de Outubro de 2010
O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade –3: por Raúl Iturra.
Todos estes textos, não esquecem a figura paterna como guarda, tornando-se assim imprescindível sabermos o que a figura paterna representa na infância. No meu caso das bolachas, mal entrava numa casa, de imediato ia às mobílias para procurar “gallallas”. A minha mãe ficava enternecida, a senhora da casa também. Não esquecerei o dia em que entrei na casa da enfermeira que tratava os trabalhadores da fábrica do nosso Senhor Pai, como relato noutro livro meu, a sair em breve, e ir de forma precipitada para uma mobília de madeira de sândalo lavrado e coberta por uma peça de mármore de Carrara, que fez a minha grande ilusão. Era uma mesa encantadora e chamava a minha atenção.

Essa enfermeira, Dona Ema Cubillos de Geisser, era na verdade uma parteira, denominadas Matronas no Chile. Tinha dinheiro e a sua casa era de uma elegância que qualquer criança poder-se-ia iludir com a ideia de que dentro dela haveria imensas maravilhas, também “gallalas”. O nosso Senhor Pai, de imediato, chamou a minha atenção, no seu papel de guardião: “Menino, não faça isso”. Por ser, nesses tempos filho único, pensava que tudo era meu, e não quis ouvir e não parei quieto até rever toda a mobília da casa. Não havia “gallallas”... Grande desilusão! O puxão de orelhas do Senhor Pai doía menos que a falta do bem mais cobiçado, largamente conhecido pela família, amigos e vizinhos. A transgressão às ditas boas maneiras nem era um afazer mau para mim. Se tudo era meu, porque não tinha “gallallas”? Essa figura guardiã e restritiva, esse papel de pai, tão diferente do da mãe e do das mulheres que também tinham filhos, era apenas no olhar, uma grande punição.


Se o pai é figura restritiva, o filho devia respeitar e ter medo. Mas eu, no meu azarado afã de ter o que queria, nem medo tinha das mandadas restrições da figura punitiva do pai. Um pai que pune e vigia, se é a imagem do ser que controla, de facto, como diz Freud, acaba por ser um pai castrador . É a terceira noção que a criança aprende do pai, na cultura ocidental. Pai castrador que o filho deve matar para existir paz na família, como defino em nota de rodapé. A definição dos estágios de figura paterna perante o menino aparece no seu texto de 1923 . A teoria freudiana desenvolve estágios de paternidade, ao comparar um pai primário para a criança, com o pai que pune e castra os filhos na sua vida adulta. Freud responde à questão: o que é um Pai? O pai freudiano é o pai morto, retomado por Lacan como Nome – do – Pai (Subversão do sujeito e dialéctica do desejo no inconsciente freudiano). Pai morto articulado nos dois mitos freudianos: o pai da horda primeva e o pai do complexo de Édipo.

Para aquilo que não é mito, que vai além do mito, encontramos em Freud o complexo de castração, mola mestre do sujeito na psicanálise, eixo estrutural do sujeito dividido. Complexo que Georges Devereux quis provar não ser universal, e, já antropólogo, foi estudar entre a etnia Mohave dos Estados Unidos de América. Ele próprio, queria provar se a teoria de Freud era ou não universal e analisou a teoria psicanalítica dos Mohave , que soube explicar, após um prolongado trabalho de campo, em vários textos escritos em língua húngara, traduzidos para francês.
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Notas:
 
O pai castrador é a terceira categoria, ou o terceiro estágio de tipo de pai que aparece na estrutura da teoria da sexualidade das crianças em Freud. Está definido no texto Organização Genital Infantil e da noção de falo. O primeiro tipo de pai que ele classifica, é o proto-pai, ou pai primevo, origem da Lei, que ele dita, sem a ela se submeter: a lei do proto-pai é uma lei fálica para organizar a vida da família, assim, ele necessita estar acima da lei. É o modelo de pai que aparece no seu livro de 1912, retirado das pesquisas de Durkheim sobre os Aranda ou Arunta da Austrália Central. Proto-pai que não se submete à Lei. Esta obra foi traduzida para inglês em 1919 como Totem and Taboo. Resemblances between the psychic lives of savages and neurotics, que responde a uma necessidade lógica da origem da lei, pai mítico, macho dominante, morto pelos filhos. O texto pode ser lido em francês em: Totem et tabou. Interprétation par la psychanalyse de la vie sociale des peuples primitifs (1912). Traduction française, 1951. Traduit de l'Allemand en français avec l'autorisation de Freud en 1923. Reimpresso, 1951. Texte téléchargeable ! Em: http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/freud.html A sua análise é curta e fria ao estudar emotividades, mas muito detalhada nos aspectos de neuroses, especialmente a sua análise sobre o incesto. O autor procura, como, mais tarde, George Devereux, psicanalista húngaro, que enveredou pela Antropologia sob orientação de Marcel Mauss, estuda a etnia Mohave dos Estados Unidos de América, confrontando a teoria freudiana, mas no terreno, e não no texto, como Freud que analisou a etnia Arunta a partir dos estudos de Durkheim e seus discípulos, cujos resultados são analisados no livro de 456 páginas, com o título de Les Structures Élémentaires de la vie religieuse, Le système totémique en Australie, 1912, Félix Alkan, Paris, livro que pode ser lido em: http://classiques.uqac.ca/classiques/Durkheim_emile/formes_vie_religieuse/formes_vie_religieuse.html. analisar o tabu do incesto entre os Aranda. É possível ver que o proto-pai de Durkheim é diferente do de Freud, apesar de ter sido retirado das mesmas fontes etnográficas. Só que Durkheim, analisado por mim noutro texto, endereçou a sua pesquisa ao estudo dos rituais, especialmente ao sacerdote tribal Aleteucha e a sua forma de ensinar aos mais novos o saber de sobrevivência. O Aleteucha é o proto - pai entre os Arunta. Para Freud, o recurso ao ritual totémico, é uma forma infantil, donde neurótica, de se apoiar para viver. Para Durkheim, o proto – pai é um pedagogo, para Freud, uma fantasia mental. Paradoxo – porque teria que haver a ameaça da castração como punição se já havia a ameaça de morte? Freud diz que a morte do Pai era necessária para estabelecer uma certa relação entre os filhos. Questão colocado pelo docente Márcio Peter de Souza Leite da Pontifícia Universidade do Brasil, em: http://www.marciopeter.com.br/links2/ensino/feminilidade/02_o_pai_em_freud.pdf


Freud, Sigmund, (1923) 1955: The Infantile Genital Organization, Hoggart Press, and London. Em português: Organização Genital Infantil, volume. XIX, Imago, 1999, Rio de Janeiro, citada antes, em francês: L’organization Genital de l’Ênfant, em: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&sa=X&oi=spell&resnum=1&ct=result&cd=1&q=Freud+Les+Classiques+des+Sciences+sociale+L%27Organisation+Genital+de+l%27%C3%AAnfant&spell=1 A lei fálica é a que faz de um adulto um pai

George Devereux (born Dobó György on 13 September 1908 — 28 May 1985) was an ethnologist and psychoanalyst. Foi um dos pioneiros da etnopsicanálise (ethnopsychoanalysis). Autor que eu admiro, começou a praticar psicanálise em trabalho de campo, teoria a que recorro para as minhas observações de crianças e dos seus pais. A sua história pode ser lida em: http://en.wikipedia.org/wiki/George_Devereux Fomos colegas de ensino, com o meu eterno amigo Maurice Godelier, em La Maison de Sciences de l’Homme, nos anos setenta do século passado.

O resultado do seu estudo, entre outros textos escritos por ele sobre os Mohave, está no livro de 920 páginas, original em inglês de 1961: Mohave Ethnopsychiatrie: The Psychic Disturbences onf an Indian Tribe, Smithionan Instituion (Bureau of American Ethnology-Bulletin 75, Washington DC, traduzido para francês em 1996, por Françoise Bouillot, com o título de: Ethno-Psychiatrie des Indiens Mohaves, editado por Corlet, Imprimeur, Paris, 1996. Os seus livros não estão em linha, mas há comentários nas entradas Intenet da página Web: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Les+Classiques+en+Sciences+Sociale+Georges+Devereux&btnG=Pesquisar&meta=

Devereux, Georges, (1961) 1996 : Ethno-psychriatrie dês Indiens Mohaves, citado antes, da Collection Les Empêcheurs de Penser En Rond. É comentado em todas as entradas Internet da página web: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Georges+Devereux+Ethno-.Psychiatrie+des+Indiens+Mohave+1996&btnG=Pesquisar com prefácio em: http://www.ethnopsychiatrie.net/actu/hebranarchiste.htm, intitulado: “Devereux, en hébreu anarchiste”, da autoria de Tobie Nathan, retirado do livro em formato de papel. O texto mais interessante para mim de Devereux é o do ano (1970) 1977: Essais d’ethnographie générale, Gallimard, traduzido do original em inglês: “Basic Problems in Ethnopsychiatry”, 1979, uma colecção de ensaios dos anos 1939 a 1965, Chicago University Press, 380 páginas. A tradução francesa, que tenho comigo em formato de papel, é de 394 páginas, comentada em todas as entradas Internet da página web: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Georges+Devereux+Essais+d%27ethnopsychiatrie+g%C3%A9n%C3%A9rale&btnG=Pesquisa+do+Google&aq=f&oq= abordagem sobre as transgressões delinquentes da vida social da população mais nova nos diversos sítios por onde passam na sua trajectória migrante».

Sobre os Mohave, consulte-se: http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Ind%C3%ADgenas+Mohave&btnG=Pesquisar

Texto retirado do artigo de Cármen Sílvia Cervelatti: “A função do pai. Uma articulação possível”, em: http://www.ebp.org.br/biblioteca/pdf_biblioteca/Carmen_Silvia_Cervelatti_A%20funcao_do_pai.pdf

Cyrulnik, Boris, 1993 : Les Nourritures Affectives, Ódile Jacob, Paris. Não está em linha, mas é comentado em : http://www.boulimie.fr/livres/cyrulnik2_bon.htm , bem como em várias entradas Internet da página web: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Boris+Cyrulnik+Les+Nourritures+Affectives&btnG=Pesquisa+do+Google&meta=&aq=f&oq=Boris+Cyrulnik+

(Continua)


publicado por Carlos Loures às 15:00
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2 comentários:
De Prof.Doutor Raúl Iturra a 11 de Outubro de 2010 às 09:21
Escrevi este livro por causa de trabalhar com crianças, a minha equipa e eu, desde os anos 80 do século passado. A sua mente cultural, orientada pela religião que eu defino como lógica da cultura, parecia-me um mistério insondável. Especialmente por causa das minhas filhas e, hoje em dia, dos meus netos. Escrevi o livro, mas em conjunto com Maria da Graça Pimentel, fixamos o texto, ou, mas bem ela corrigiu os erros gramaticais, o que agradeço profundamente. Ela não trabalha com crianças, mas cria aos seus descendentes e ensina-me como é que se faz. Agradeço. A mente cultural é resultado da interacção social entre crianças e destas, com os seus adultos. Comparei três culturas, uma delas foi o paradigma: os estudo das crianças Picunche, clã da etnia Mapuche que habita na Cordilheira dos Andes entre Chile e Portugal. Esta pesquisa foi financiada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, por meio dos fundos do Instituto da Ciência e Tecnologia - ICTI, aos que agradeço, especialmente ao seu Presidente, o Engenheiro Armando Trigo de Abreu e ao Ministro da Ciência, Doutor Engenheiro José Mariano Gago, fomos juntos ao Chile, fiz parte da sua comitiva. Ainda não tinha sido honrado com a concessão da cidadania portuguesa, que me fora adjudicada pelos serviços prestados neste país, mais 150€! Pelo menos não fui obrigado a passar a prova da Língua Portuguesa…pelos livros que tinha escrito e por um parecer do meu grande amigo, o Professor Doutor Carlos Sá da Costa, a quem agradeço esta sua simpatia.
Raúl Iturra
Lautaro@netcabo.pt


De Prof.Doutor Raúl Iturra a 11 de Outubro de 2010 às 10:22
Lamento o engano! Portugal está já tão metido na minha sangre, que o confundo com Portugal! Os Mapuche moram no bordo de Chile e Argentina!


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