Sábado, 18 de Setembro de 2010
Coisas elementares, gente simples na transcendente poesia de Neruda
Hoje a  nossa matinal hora da poesia é dedicada a Pablo Neruda, celebrando assim o Bicentenário da Independência do Chile que hoje se comemora.


Carlos Loures

«A 23 de Setembro de 1973, doze días após o Golpe Militar, morreu Pablo Neruda. Estava doente e os tristes acontecimentos desses dias acabaram com a sua vontade de viver.»(…)«que está a acontecer? Ficaram todos loucos? murmurava o poeta com a vista extraviada.»(…)«Enterraram-no no dia seguinte, numa cova emprestada, num funeral eriçado de metralhadoras ladeando as ruas por onde passou o negro cortejo. Poucos puderam ir com ele no seu último percurso, os seus amigos estavam presos ou escondidos e outros temiam as represálias.» («Paula»,). Pode, pois, dizer-se que Neruda morreu de tristeza. Uma tristeza profunda por tudo o que estava a acontecer no seu Chile. Estava doente, com um cancro na próstata; a emoção e a tristeza foram demasiadas. O coração do poeta não aguentou.

Li tudo o que pude ler de Neruda. Sempre em castelhano – naqueles anos 50, os livros dele, não só não estavam traduzidos, não se vendiam livremente, alguns livreiros tinham-nos «debaixo do balcão», como se dizia na altura. Lembro-me da emoção com que, adolescente, tocava os livrinhos de capa cinzenta da Editorial Losada, de Buenos Aires e devorava as suas páginas. Lia com a sensação transgressora de quem abre uma porta proibida, ainda com a ajuda de um velho dicionário de David Ortega Cavero. Sabia de cor muitos dos «Veinte poemas de amor y una canción desesperada» e, depois, deslumbrei-me com os ainda mais clandestinos dois volumes do épico «Canto general».

Anos depois, saboreei os quatro volumes de «Odas elementales». Encantou-me a ideia de se dedicarem palavras tão belas a coisas comuns, tão ligadas à face mais humilde do quotidiano, como uma cebola, o pão, uma colher, uma laranja, um cão, uma maçã… Tão simples como transformar chumbo em ouro. Alquimia que só está ao alcance de um grande poeta como Pablo Neruda.

Em «Confieso que he vivido», confia-nos que nas «Odas» quis descrever coisas já cantadas, ditas e reditas. Como se fosse uma criança que começa, mordendo o lápis, uma redacção sobre o sol, sobre a ardósia escolar, o relógio ou sobre a família humana. Nenhum tema podia ficar de fora da sua órbita, tinha de tocar em tudo, andando ou voando, submetendo a sua expressão à máxima transparência e virgindade. Ouçamos Pablo Neruda na voz do cantor andaluz Joaquín Sabina:




Isabel Allende conta como no funeral «diante dos olhares raivosos dos soldados, todos iguais para não serem reconhecidos e com as armas a tremer-lhes nas mãos», os amigos desfilavam lentamente, com cravos vermelhos nas mãos, gritando: «Pablo Neruda! Presente, agora e sempre!»

Agora e sempre, Pablo, as tuas palavras ecoam nos corações amantes da liberdade.




publicado por Carlos Loures às 12:00
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2 comentários:
De Luis Moreira a 18 de Setembro de 2010 às 12:15
Bela homenagem!


De Prof.Doutor Raúl Iturra a 18 de Setembro de 2010 às 15:54
Era evidente que o meu amigo ia-me honrar neste dia, ao falar de Pablo Neruda, poeta de Prémio Nobel, de quem eu falara antes. Admiro a sua consistência para ler o Canto General, que levara a Pablo Neruda, ao Nobel, bem como as lembranças de Isabel Allende. Tenho a premonição que ela será a nossa próxima Nobel de Literatura, pelo menos é o que transparece nas palavras sábias do Carlos Loures. Obrigado por esta homenagem ao meu país real!


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