Domingo, 26 de Dezembro de 2010
...

A FOME


Augusta Clara de Matos





(Cândido Portinari: "Retirantes")




Quando ouço um homem dizer que tem que pedir uns ovos, um pão e poucas outras coisas à família porque a empresa em que trabalha vai fechar e não lhe paga o que lhe deve e que essa é a única refeição que come durante o dia…

Quando ouço outro homem dizer, de cara baixa, que tem a seu cargo o filho e os netos a quem tem que garantir uma merenda para levarem para a escola, quando a voz desse homem se embarga afirmando ser capaz de explicar ao filho que já quase não há dinheiro para nada, mas não conseguir dizer às crianças que vai ter de lhes retirar os poucos mimos que já têm…

E quando ouço ainda um terceiro homem dizer que é viúvo com três filhos e que a renda da casa está por pagar há três meses …

Quando sei que estes três homens e as suas famílias se multiplicam por muitos mais e vão continuar a multiplicar-se por mais ainda…

Recuso-me a entrar em lugares-comuns, mas algum grito tenho que dar. E o que faço a seguir? Deixo de escrever? É que perdi completamente a vontade.

E todos aqueles que afirmam que estas medidas draconianas são necessárias, senão…mas, para estes e muitos outros já não é senão nada. Já lá chegaram. Que mais condicionantes pode haver para quem já não come como gente, já não vive como gente, já não consegue olhar nos olhos da gente que ainda comemos o que precisamos de comer?

E, ainda por cima, têm vergonha de nos olhar nos olhos, como se tivessem cometido algum crime.

Não sei porque é que me veio à cabeça a Natália Correia. Talvez porque só assim, daquela forma histriónica que era a dela, se possa, se deva gritar contra a fome. Que outra maneira há de expressar isto? E o que é isto?

Não me importa a prosa. É olhar para aquela gente e, embora, vendo-os iguais a nós, não os vemos como nós. Eles estão acossados pela vida, foram marcados a ferro quente, tratados como gado, não sabem o que vai ser o futuro, mesmo o mais próximo.

E eu o que faço, que sou da mesma humanidade mas ainda não estou como eles? Ainda posso manter a minha alimentação, a maior parte dos meus hábitos.

Nunca tive fome, nem me faltaram nunca as refeições necessárias. Mas posso imaginar como me sentiria.

Nunca tive filhos, nem me faltou que lhes dar de comer. Mas posso imaginar como seria vê-los com fome.

E, se eu posso imaginar, como será a realidade?

Já não gosto das palavras que se usaram durante décadas. Estão coçadas, gastas. Que outras há que espelhem a minha desolação?

Só o silêncio mas o silêncio agora não chega.

Vou inventar as palavras que não me vêm neste momento. E, só depois, volto a escrever.


publicado por João Machado às 16:00
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14 comentários:
De A. Sales a 26 de Dezembro de 2010 às 17:17
Este é um texto que dói cá dentro, mas não passa de um desespero sem reflexo na realidade. Foi exactamente pelos motivos que aponta a Clara e por sentir que quanto eu escrevia nos jornais era besuntar papel com palavras gastas, preencher espaço que ajudava a descarregar as minhas angústias mas em nada ajudava as dos outros, que um dia decidi deixar de escrever em jornais. Se hoje escrevo para o Estrolábio foi o Carlos e a nossa amizade que me deu a volta (mas só uma pequena volta).
Doi ver e ouvir toda esa tragédia de pobreza que nos enreda e nos cai sobre a pele (aos mais velhos) como uma maldição porque nada isto desejámos ou imaginámos. Podemos protestar, lamentar, gritar, protestar com palavras. Não vamos lá. Os gajos riem-se de nós no fofo dos gabinetes. Dizem entre eles que somos otários, poetas, andamos na lua. O Estado rouba-nos e a gente deixa-se roubar como se tivessemos de cumprir tal penitência para ganhar o céu. Mas os donos do poder e da fortuna estão-se maribando para o céu, para a tragédia da alma mal comportada quando sai do corpo, para a reencarnação, para o julgamento final. Precisam é de ter 3 casas, bons carros, bons ordenados, bons barcos, boas gajas, boas férias, boas contas em off-shores, bons negócios por de baixo das mesas, boas lagostas ao almoço, vinhos seleccionados, sobremesas requintadas. Há gente com fome? Ah!, não mo lo digas!... Este ano pelo Natal vou dar um jantar a 200 esfomeados ali nas adegas.
E ponto, Clara! Se não fosse o meu neto já há 7 ou 8 anos que por esta quadra fechava-me em casa e não atendia ninguém. Mas tenho vindo a melhor. Este ano só fui ter com ele na noite de 24 para eviatr as palavras gastas: feliz natal e próspero ano novo.
Parabéns pelo seu texto. Li-o com emoção.


De augusta.clara a 26 de Dezembro de 2010 às 17:35
Sales, este texto já tem uns meses e foi fruto do desespero que me causou ouvir umas quantas pessoas, essas sim bem desesperadas, falarem num telejornal. Eu sei que eles não ligam, O pior é que a indiferença se vai generalizando. Obrigada pelas suas palavras.


De clara castilho a 26 de Dezembro de 2010 às 20:21
A escrita é uma forma de passar o que se pensa e sente. Como outras formas, a fotografia, por exemplo. Não deve haver nada que faça perder a vontade de escrever. Porque fazê-lo pode fazer toda a diferença. Por favor, continua!!!!


De Luis Moreira a 26 de Dezembro de 2010 às 21:54
É preciso continuar porque sem uma sociedade civil forte e actuante o Estado vai continuar a apoderar-se das nossas vidas, ser um factor de injustiça e desigualdade. Hoje a oligarquia que nos domina também domina o estado. Junta-se o dinheiro e o poder num caldeirão, e depois meia dúzia distribui como bem entende.


De adao cruz a 26 de Dezembro de 2010 às 22:48
É um texto que emociona Augusta. Mas eu não deixo de concordar com o Sales. Quantas vezes eu pergunto a mim mesmo o que vale tudo aquilo que escrevo, há já muitos anos, perante a filhadaputice destes predadores da humanidade. Em vez de textos eu deveria ter tido a coragem de pegar numa canhota e, como tantos outros, escrever direito por linhas tortas.


De Luis Moreira a 27 de Dezembro de 2010 às 00:00
Meu caro Adão, o problema é que hoje já ninguem tem dúvidas que este roubo a nível global começou a ser preparado por Tatcher e Reagan, isto é, há 30 anos. Num crescendo, enquanto houve para ir tapando, só viram os que nós pagamos para impedir isto. Mas não impediram e nada lhes acontece...


De plácidoagitador a 27 de Dezembro de 2010 às 01:20
Parece-me que andamos todos tolhidos, arfando num caminho incerto, com a angústia da nossa impotência às costas! Que pesa, que esmaga, que sufoca!
Onde chega o testemunho do que tanto nos dói na dor de tantos, se os poderosos - os que, não sendo "o Estado", o dominam, através de seus submissos "agentes" - também nos roubam os meios mais eficazes de comunicar, nem que seja tão só o grito iroso da nossa indignação?
Resta-nos este meio virtual, aparentemente o mais democrático que já houve, como muitos continuam a querer convencer-se e/ou convencer-nos... Não o é. Por muitas razões, algumas das quais - as mais decisivas, pois de poderes decorrem - se desvelam, sem pudor, nesta imensa Ágora, crendo-se os donos de tais poderes inimputáveis e eternos.
Um bom amigo, uns bons anos mais velho, diz-me que escreva sempre, porque "alguém" há-de ler e, concorde ou não, pensar. É o que ele faz e admiro-o por manter essa força.
Em mim, cada vez mais esta amálgama de repulsa e impotência parece reduzir-me à pura revolta, aquela que corre o risco de, abandonando a palavra, por inútil, facilmente se deixar seduzir por outras armas.
A História diz-nos que todas as mudanças começaram pela expressão, em palavras, dos ideais de uns poucos: e isso traz-me esperança.
Também nos diz, porém, que quase sempre tiveram de atravessar rios de sangue, onde se macularam palavras e ideais; e mesmo o que se salvou, jamais resgatou a pureza inicial: e isso perturba e turva a minha esperança.
Ouso, ainda assim, apelar a quem mantiver - ou recuperar - o ânimo que, por ora, me falta: que não desista do tempo das palavras - intactas, lavadas de suas manchas "Como casa limpa. Como chão varrido. Como porta aberta" (Sophia dixit); que só ele pode livrar-nos (e, sobretudo, aos que no tempo nos sucederão) do tempo das espadas.
Pode este ser o meu voto para 2011, ó meus tão diversos companheiros de busca de uma "justiça justa" (J. de Sena)?
Paulo Rato


De augusta.clara a 27 de Dezembro de 2010 às 01:44
Soubesse eu que vocês estavam aqui à conversa e já tinha vindo antes. E que bom ver os nossos poetas a acabarem o teu texto, Paulo. Eu também acho que sempre alguém há-de ler, ou não foi sempre através das palavras de alguém que todos nós despertámos?


De Eva Cruz a 27 de Dezembro de 2010 às 15:26
Augusta.
Cheguei tarde. Confesso que foi a festa de Natal que me atrasou na leitura do teu texto tão triste e tão terno ao mesmo tempo.
Mas não me "rogues pragas" por isso.
Também sinto tudo o que dizes como feridas na alma. E pior ainda,também sinto alguma culpa. Ou por calar, ou por não lutar à altura ou por ainda gostar do Natal apesar de toda a crítica e incoerência. Talvez seja o sonho, o mesmo vosso sonho que me leva a esfalfar-me por viver esta festa à minha maneira. Sem ostentação, no cantinho da minha aldeia onde ainda sinto o aconchego da dádiva e da partilha.


De augusta.clara a 27 de Dezembro de 2010 às 15:46
Coisas ditas por quem tem uma alma bonita :)


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