Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010
Concurso de Amuitamento Com Vista ao Próximo Ano
Augusta Clara de Matos

Quando eu andava na faculdade, uma coisa que nos tornava a vida difícil era, no meio da confusão e do vaivém daqueles corredores, nunca se saber quem eram os doutores, a quem não era preciso chamar nada, os professores, a quem chegava chamar-lhes assim, ou os professores doutores que ficavam sempre muito aborrecidos se não fizéssemos questão de pronunciar estas duas palavras em voz alta, sílaba a sílaba e que acrescentássemos, com o indicador no ar para chamar a atenção de quem passava, um sinal de letra maiúscula, traduzido por um som. Era um código específico da escola e toda a gente que ouvisse aquele som sabia que ia a passar um Professor Doutor com maiúscula.

É que a minha faculdade pertencia à área das ciências e nada ali se fazia ao acaso, sem rigor nem objectividade. Ah, e sem excelência! Daí esta exigência.
 

Mas era habitual entre os caloiros que ainda não conheciam as regras – e nós não tínhamos praxes para os educar nesse sentido -, trocarem os doutores pelos professores só, os professores só pelos professores doutores com maiúscula, os professores doutores com maiúscula pelos doutores, os doutores pelos professores doutores com maiúscula…

Enfim, como podem ver, as combinações eram tantas que o sinal sonoro passou a ouvir-se praticamente em permanência e a escola teve que fechar porque o Departamento de Matemática disse que assim era impossível resolver o problema. Ainda faltavam chegar alunos – os que vinham atrasados, os que tinham decidido mudar de curso à última hora, os que vinham ocupar lugares de desistentes – e, quando todas as vagas estivessem preenchidas, a frequência da sirene – porque, na realidade se assemelhava a uma sirene de emergência – iria disparar exponencialmente e ninguém ia conseguir dar nem ter aulas.
Os matemáticos tiveram mesmo que ir estudar o assunto. Avaliar as probabilidades de combinações de erros de identificação por parte dos residentes na faculdade, bem como dos que iriam chegar de novo todos os anos. E a escola fechou até o problema ficar resolvido.
Ora, eu, outro dia, lembrei-me desta situação porque, aqui no Estrolabio, estamos – graças a Deus! – a começar a ter uma crescente diversificação de títulos académicos e, qualquer dia, ninguém se entende.

Por enquanto, residente, que se saiba, ainda só temos um Professor Doutor com maiúscula, mas penso que deve haver por aí mais escondidos. E sei que vai entrar o nosso amigo de Coimbra que, com o seu magnífico texto, já tanto contribuiu para a animação do Estrolabio.
Dou-lhe as boas vindas mas confesso que ainda me é complicado saber se é dos professores a quem chega chamar assim ou dos professores doutores a quem é preciso acenar de forma diferente. O mesmo se passa com todos os que aqui ainda não arvoraram os seus títulos académicos: médicos, psicólogos, biólogos, sociólogos, linguistas, jornalistas, etc. Enfim, uma panóplia de formações que urge classificar sob pena do Estrolabio não passar de mais um blog, e não um blog de elite como se desejaria que fosse.

E, como isto é tudo uma questão de umbigo e nós não somos reais mas virtuais, para arrumar a casa e dar o seu a seu dono, só nos resta uma solução original: atribuirmos os títulos pelo tamanho dos umbigos.

Bem sei que é difícil ser-se completamente isento nesta matéria porque sempre há pessoas que ficaram mal rematadas a têm um umbigo maior do que as outras. Mas agora já está, não se pode fazer nada. E isenção absoluta não sei se alguma vez se atingirá em algum comportamento humano.

Por isso, o que eu propunha era que, cada um tirasse um fotografia de qualidade ao seu umbigo e a enviasse à Coordenadora do Estrolabio que, assim, ficaria com a tarefa muito mais facilitada. Os que tiverem os umbigos maiores serão Professores Doutores com maiúscula, os assim-assim Professores só, e os que têm uma covinha no meio da barriga serão aqueles doutorecos que nem a dr. terão direito.

Procurando contribuir para desfazer a confusão que por aqui anda, deixo à vossa consideração.



publicado por Carlos Loures às 17:00
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4 comentários:
De Luis Moreira a 21 de Dezembro de 2010 às 17:37
A mim, deram-me o nome de Luis ( por acaso tive uma sorte da caraças, o meu padrinho chamava-se Luis Queijo...) e nunca mais mudei de nome. Quando jogava à bola chamavam-me o "pingo de génio" mas, aqui no estrolabio não sei se dá jeito."Il bambino d'oro" também já foi fruta da época, agora está fora de tempo. Por isso vos digo, Luis, masculino, mais alto que pequeno, nariz de "romano"(uma preciosidade segundo dizem as entendidas...)calvo, barba de três dias "irresistivel, segundo as entendidas e, conto-vos uma história. a única vez que me deu gozo chamarem-me pelo título académico foi a primeira vez e foi o contínuo da faculdade.A partir daí só quero que as finanças se esqueçam de mim...


De augusta.clara a 21 de Dezembro de 2010 às 19:23
Se eu fosse da Coordenadora, metia-te já nos Professores Doutores com maiúscula.


De Luis Moreira a 21 de Dezembro de 2010 às 20:09
Augusta Clara, tu és a coordenadora...


De adão cruz a 21 de Dezembro de 2010 às 21:48
Bacano, Augusta, bem apanhado! Mas parece-me que esta treta dos profs e doutores é praticamente endémica nos portugas. Eu, pelo menos, em toda a minha vida contactei com muita malta de outros países que se marimbava para os títulos. Uma coisa é certa: De uma maneira geral,quanto maior é o valor e a competência da pessoa, mais essa pessoa deixa de se importar com isso, e maior é a humildade e a consciência de que por muito que se saiba, se está muito longe de saber tudo.


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