Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010
Antonio Machado - "O caminho faz-se caminhando"
Carlos Loures

Há quem cite  o verso - «O caminho faz-se caminhando»,  «se hace camino al andar», não sabendo que o autor foi um grande poeta castelhano – Antonio Machado. Trata-se de uma estrofe de «Proverbios y cantares» do livro «Campos de Castilla». Eis o poema completo:

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.


Note-se o emprego do substantivo «mar» no feminino, sabendo-se que embora tendo os dois géneros em castelhano, é mais usual o emprego do masculino, «el mar». «La mar», feminino, é coisa de poetas e de pescadores, de homens que amam o mar como se ama  uma mulher. Há um poema de Federico García Lorca, muito famoso, o «Romance sonámbulo» (do «Romancero gitano») no qual «mar» passa também ao feminino.:

            Verde que te quiero verde.
            Verde viento. Verdes ramas.
            El barco sobre la mar
            y el caballo en la montaña.
            Etc.

A literatura de língua castelhana é esplendorosa. E a poesia de  de Antonio Machado é uma das âncoras nos prende ao castelhano e ao prazer de o escutar.   O universo da literatura castelhana é inesgotável, porque se conseguíssemos referir todos os grandes escritores peninsulares que usam o idioma (e seria tarefa enciclopédica), teríamos depois de olhar a Ocidente, respirar fundo o ar do Atlântico, e recomeçar desde Juana Inés de la Cruz ( a que aconselhava: «não vos queixeis, homens tolos…») até Gabriela Mistral, Jorge Luis Borges, Ernesto Sábato, Pablo Neruda Carlos Fuentes, García Márquez, Vargas Llosa, Isabel Allende…

E um grande etecétera.

Hoje lembrei-me de Antonio Machado.

Antonio Machado nasceu em Sevilha em 1875. Foi uma das grandes figuras da chamada «Geração de 98», referindo-se este número á data de 1898, quando a Espanha foi derrotada na guerra que manteve com os Estados Unidos pela posse de Porto Rico, Cuba e Filipinas. A derrota significou uma tomada de consciência de jovens intelectuais da decadência do país e foi como que um ponto de viragem, caracterizando-se a escrita desses jovens pelo seu carácter revolucionário, em termos literários e em termos políticos. Foi rodeada de polémica, pois havia intelectuais, como Pío Baroja, que negavam lógica à designação. Esta classificação geracional refere-se a escritores que nasceram entre 1864 e 1875 – Miguel de Unamuno, Valle-Inclán, Blasco-Ibañez, Jacinto Benavente e Antonio Machado, são das principais figuras ligadas a esta geração.

Morreu em 1939, refugiado num quarto de hotel, fugindo dos assassinos da polícia política franquista, ele que era tudo menos um político. Sabendo que a morte se aproximava, escreveu num papel as suas últimas palavras - «Estos días  azules y este sol de infância», sinal de que antes morrer viajou até ao passado. Um grande poeta – se hace camino al andar – que grande verdade contem este verso que se transformou em lugar-comum.

Ouçamos Joan Manuel Serrat:




publicado por Carlos Loures às 12:00
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6 comentários:
De Luis Moreira a 17 de Setembro de 2010 às 12:05
Carlos, que me lembre, mar só é feminino em francês "La mer" de Debussy e, claro, na poesia, como bem aqui ensinas.


De carlos loures a 17 de Setembro de 2010 às 12:36
Em francês, e creio que no catalão, é sempre feminino; em português e no italiano, sempre masculino. Em castelhano possui os dois géneros.


De plácidoagitador a 18 de Setembro de 2010 às 05:00
A propósito do mar e de Lorca.

O "Llanto por Ignacio Sáchez Mejías" é um ciclo de quatro poemas, rico de referências literárias e populares, de que a celebridade do primeiro - "La cojida y la muerte" (com a genial cadência do "a las cinco de la tarde") tem empurrado para uma sombra injusta os restantes: "La sangre dearramada", "Cuerpo presente" e "Alma ausente".
Reparem na última quadra de "Cuerpo presente", que eu diria encerrar o sub-ciclo da Dor, da Revolta e do Luto, preparando a serena reflexão do último e a proclamção da perenidade do Herói, que triunfa no canto imortal do Amigo:

"No quiero que le tapen la cara con pañuelos
para que se acostumbre con la muerte que lleva.
Vete, Ignacio: No sientas el caliente bramido.
Duerme, vuela, reposa: Tambiém se muere el mar!"

Com "mar" no masculino!

Paulo Rato


De carlos loures a 18 de Setembro de 2010 às 09:54
Mesmo na poesia, é mais comum o uso do masculino para «mar». No castelhano coloquial, nunca ouvi ninguém empregar o feminino. Mas os exemplos poéticos desse emprego são relativamente abundantes. Dizem-me que também os pescadores, marinheiros e gente ligada à faina marítima, utilizam sem qualquer ênfase intelectual o feminino - «la mar». Belo comentário, amigo Paulo Rato. Para quando o seu primeiro post para o Estrolabio?


De Luis Moreira a 18 de Setembro de 2010 às 11:45
Paulo, avança e envia postes que isso de estares na posição de crítico de serviço é muito cómodo.Critica, apresentando a tua visão em postes. Que tal?


De augusta.clara a 19 de Setembro de 2010 às 15:54
Não sei como me passou sem comentar e agradecer mais uma das maravilhas com que o Carlos nos brinda a toda a hora.


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