Domingo, 5 de Dezembro de 2010
"Common Decency”
Fernando Pereira Marques

George Orwell


Em entrevista ao Le Monde, o sociólogo Alain Touraine - meu antigo professor -, falando da França, afirmava que se vive no tempo da “mini-política”, em que se baixa o nível dos debates para iludir as verdadeiras questões e se é incapaz de responder às profundas transformações dos dias de hoje.
Mutatis mutandis tais asserções são aplicáveis também entre nós. Quando se observa o funcionamento das instituições, dos partidos, do sistema político, fica-se preocupado com múltiplos sintomas de imaturidade e de fragilidade democráticas. Por exemplo, no estilo dos debates parlamentares, onde continua a predominar um tom demagógico, superficial, frequentemente roçando o exibicionismo histriónico, que já não se usa nas democracias consolidadas; ou, ainda, no carácter artificial que ganha a salutar conflitualidade entre partidos, entre oposição e maioria, com o recurso à mediatização da retórica enfatuada de porta-vozes ou ao sistemático elevar de voz entre líderes, em que se joga com as palavras, mas se secundarizam os conteúdos e se escamoteia a complexidade das situações. Para não falar da degradação aparelhística e clientelar dos partidos, em particular dos dois principais, ao nível do pior do rotativismo oitocentista.

Acontece, assim, por entre declarações e contra-declarações, que juntamente com os dramas (terríveis) do futebol alimentam a espuma dos dias mediática, ver-se o PS agitar, como grande acusação, o facto do PSD se estar a mostrar liberal, mais ou menos “neo”. Mas onde está a surpresa? Ou seja: será que constitui argumento de fundo o PSD ter propostas e perspectivas diferentes das do PS? Ou será que o busílis é o PS ter pouco que o diferencia do PSD e a verdadeira questão ser a disputa de um mesmo espaço eleitoral? Aliás, e pelo contrário, é positivo e necessário que cada partido assuma as suas diferenças, construa uma identidade programática e estratégica que permita aos eleitores estabelecer os seus alinhamentos e estruturar os conflitos. Tais diferenças não devendo impedir as convergências necessárias para garantir a governabilidade em nome do interesse nacional.

O que urge entre nós – e não só entre nós – é que se instale na vida política, na democracia e na sociedade em geral, aquilo a que George Orwell chamava a “common decency”. Na verdade, o escritor inglês que sob esse pseudónimo se notabilizou, além das obras de ficção (como o presciente 1984), deixar-nos-ia vários testemunhos notáveis (recorde-se a Homenagem à Catalunha) e menos conhecidas reflexões de carácter doutrinário onde expôs a sua concepção de socialismo. Para ele, pouco atreito a grandes especulações teóricas e que tinha conhecido bem, durante a Guerra Civil espanhola, os frutos do dogmatismo marxista-leninista, no cerne da ideia de socialismo devia estar o sentido de “common decency”, que poderá traduzir-se em português por “decência ordinária”. Ou seja, uma síntese dos valores morais das pessoas comuns que não perderam o sentido da honra, da honestidade, da modéstia, da delicadeza, do valor da palavra dada, da coerência entre o dizer e o fazer, do respeito pelo outro, da justiça e da dignidade no trabalho e na vida.
Porque Orwell, que arriscou a pele e pegou em armas na defesa das suas convicções, não partilhava de certas mitologias providenciais, nem acreditava em entidades portadoras do sentido da História como o “proletariado”, e muito menos no “homem novo” pretensamente produzido pelos totalitarismos de qualquer cor. Antes considerava existir essa espécie de sentido moral elementar capaz de permitir aos cidadãos distinguirem o justo do injusto na comunidade a que pertencem e, deste modo, pugnarem por uma organização política e social onde deixem de ser encaradas como normais as obscenas desigualdades na distribuição da riqueza e de rendimentos, a desumanidade na utilização dos trabalhadores, a condenação dos idosos à solidão e das novas gerações à precariedade e à marginalidade social, a magnanimidade da Lei com especuladores ou supostos empresários que se mantêm respeitáveis quaisquer que sejam as malfeitorias praticadas. Aspectos indecentes do actual darwinismo capitalista que subvertem a democracia e matam as liberdades, na medida em que os políticos tornam-se mandatários, não de quem os elege, mas dos interesses organizados que na realidade decidem graças à opacidade corruptora gerada pelo sistema.

Os governantes hoje, de esquerda, de direita, de centro, são marionetas nas mãos dessas entidades tornadas transcendentes chamadas “os mercados”, desnudam-se de convicções para salvaguardar as prerrogativas de uma ilusão de poder, são fortes com os fracos e dobram-se perante a tirania da economia e da finança mundializadas, gerem o imediato das eleições mais próximas e menosprezam o futuro. Por isso perdem a confiança e o respeito dos cidadãos, assim se minando o tecido e o contrato sociais, como se observa através das crescentes manifestações de revolta das populações. Acresce, inclusive, que continuando-se por esta via, fracassará o projecto de alcance civilizacional da construção de uma Europa unida de povos livres e prósperos.

Em suma, precisamos de “common decency”. O socialismo, afinal, não devendo ser mais do que a introdução dessa decência na sociedade e na vida. O que implicará libertarmo-nos do império da “mini-política”, despertar da alienação consumista e hedonista, tomar consciência dos direitos e também dos deveres agindo em conformidade, exigir de quem governa que seja radical, isto é, que vá às raízes das coisas, aos verdadeiros problemas de que depende o bem comum.


publicado por Carlos Loures às 02:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 5 de Dezembro de 2010 às 02:34
Esta "normalidade" é que aterroriza.Não há espaço para a indignação é "normal" o Estado envolver-se nos grandes negócios, é normal ser "compagnons de route" de grandes grupos de interesses, é normal os políticos passarem do Estado para as empresas que tutelaram e vice-versa.A "normalidade" é um pesadelo!


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