Segunda-feira, 24 de Maio de 2010
A linha divisória
António Sales


Deixei o carro no largo à entrada da vila, onde está o pelourinho e a capela do século XVI, fui subindo devagar, olhos repousados e coração livre, por entre a névoa fina que cobria de mistério ruas e casas.
Linhares da Beira tem a marca da sua identidade no castelo que se eleva no topo da urbe sobranceiro ao cabeço serrano. É uma terra medieval de pedras volumosas escorregando pelas encostas a formarem ruas ladeadas por casas baixas e graníticas.

Becos, arcos, palacetes, largos, construções primárias, alpendres a respirarem cor no cimo de escadarias em pedra, confundem-se no tempo da história mas também no na vida com a capacidade de a representar a nosso gosto.

Aqui, nesta minha hora solitária paira o silêncio húmido do nevoeiro. Pálido, esfuma o contorno de edifícios e pessoas tornando-as uma espécie de testemunhas mudas da existência. Tudo está suspenso da sua passagem acariciadora que me conduz para longínquas paragens onde sobrevive a consciência por sobre a força material dos sentidos.

Porque o silêncio que desfruto em Linhares da Beira paira acima do tempo cronológico. Vive para lá dele numa dimensão intemporal do pensamento onde o ciclo dos dias perdeu o desenho ancestral da matéria.

Sento-me numa pedra próximo da muralha do castelo olhando o horizonte e não o vendo porque são densas as neblinas geladas que me submergem. Transformam corpos físicos em fantasmas, que é a forma de não terem forma. assim como nós somos os crentes materiais da felicidade anunciada sem data no calendário da eternidade.

Neste recanto modesto e solitário onde as casas são cinzentas e escondem os segredos de geraçõess, o gado vai para o pasto quando o sol desenha os primeiros cânticos de luz nos contrafortes da Serra da Estrela, encontrei o meu anjo da guarda. Não tinha asas nem vestia de branco, nem trazia consigo sinais do paraíso. Chegou por detrás de mim, quedou-se algum tempo em silêncio antes de perguntar: Em que pensas? Nem sequer me voltei porque seria quebrar o encanto daquele instante em que a paz subitamente habitava em mim: O dia que nos trás a luz, a noite que no-la rouba. Vida e morte, respondeu, ambas são filhas da mesma raiz mas a travessia a cada um pertence.

E desapareceu no nevoeiro.


publicado por Carlos Loures às 10:00
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