Segunda-feira, 9 de Agosto de 2010
Que importância tem o futebol
Carlos Loures

Está a começar uma nova época de futebol e vou hoje fazer uma reflexão sobre a real importância do futebol. Sem a mínima esperança de que produza algum efeito - as paixões exacerbadas, os insultos aos adversários, a  marginalidade das claques, a corrupção, o aproveitamento político, a demagogia barata de dirigentes cediços, tudo isso vai andar à solta. Mas eu gosto de pregar no deserto. Cá vai.

Gerhard Vinnai (Estugarda, 1940) é um psicólogo social alemão. Até à sua aposentação em 2005, foi professor na Universidade de Bremen . Escreveu um ensaio a que deu o título O futebol como ideologia. No prefácio da edição portuguesa – datada de 1976 – Vinnai, incorrendo num lugar-comum, afirmava que Portugal era um país em que «o futebol e Fátima competem ainda no esforço de consolar as massas da miséria da sua vida de todos os dias». De 1976 para cá, a situação alterou-se substancialmente – para melhor numas coisas, para pior noutras – Fátima e o fado (Vinnai esqueceu-se do fado), perderam terreno, mas o futebol que naqueles anos em que a luta política assumiu um papel importante na vida dos cidadãos, perdeu protagonismo, veio depois a recuperar o seu papel cimeiro nas preocupações mais ingentes de grande número de cidadãos.



Ainda me lembro, durante a ditadura, de ver em cafés, bares, em barbearias, em lugares públicos onde se juntavam homens, pequenos cartazes impressos que diziam . «Proibido discutir política e futebol». Não se podia discutir política porque era perigoso, a PIDE tinha olhos e ouvidos onde menos se esperava. Já discutir futebol era uma fonte de zangas e de desordens. Imaginem um bar ou uma taberna – vinho e futebol era uma mistura explosiva. Daí os cartazes. Mantenho uma opinião que tenho expendido abundantemente - discutir futebol na óptica clubística, reduz a capacidade de raciocínio, transformando pessoas inteligentes em mentecaptos. Gosto muito de futebol e até tenho uma forte e indeclinável opção clubística. No entanto, nunca atribuí ao futebol, que é só um jogo, a importância que vejo muita gente conceder-lhe. É um jogo e é um negócio. Mas hoje só quero falar do jogo e da sua incidência, quase sempre negativa, nas mentalidades.

O período de férias que atravessamos é uma época boa para abordar este tema. O ambiente está calmo. Ainda não entraram em funcionamento as utopias clubísticas e as teorias da conspiração que cada clube criou para seu uso exclusivo. Embora nessas teorias haja mais verdade do que seria desejável – corrupções, negócios obscuros, influências políticas… Será que um simples jogo justifica quer as cavilações imaginadas, quer as manobras sujas verdadeiras? Acho que não. O futebol bem jogado, sem trapaças, é um jogo muito belo. Mas é só isso. Um jogo. Ganhe quem ganhar, perca quem perder, nenhum dos problemas que afectam os portugueses ficam mais perto de ser resolvidos – desemprego, subida dos índices de pobreza, o estado do ensino, da cultura e da saúde, o baixo poder de compra, a marginalidade e a corrupção, ou seja, todos as doenças endémicas do País estarão longe de ser erradicadas e não será o futebol que as erradicará. Pode é fazê-las esquecer. Isto, por muito bem que o campeonato corra a uns e mal a outros.

Acho muito engraçado quando ouço dizer a um adepto de qualquer destes clubes grandes que ser benfiquista, portista ou sportinguista é qualquer coisa de especial, de único. Embora eu próprio experimente essa sensação - sobretudo com o estádio cheio e com a águia a voar - de quem basta estender os dedos para tocar o céu (dizem que o ópio provoca uma sensação semelhante). Acho graça, porque somos todos iguais, com reacções iguais. Por exemplo, se o futebol do Benfica anda, como andou em épocas anteriores, na mó de baixo, descubro-me a preferir falar de futsal ou de basquetebol ou de qualquer outra modalidade em que o meu clube esteja a sair-se bem. E se não estiver a sair-se bem em nenhuma, derivo para a música sinfónica ou para a banda desenhada.

Naturalmente que nada disto é exclusivo dos adeptos portugueses. Em Paris, nos tempos do Racing Paris, o Red Star (fundado pelo mítico Jules Rimet), do Stade de France, o futebol era o desporto-rei. Quando as equipas do Sul, como o Marselha começaram a ganhar os campeonatos, a pouco e pouco, os parisienses foram deixando de ir ao futebol. O Red abandonou o futebol em 1948, o Racing em 1964 e o Stade em 1966. Hoje, com o pífio Paris Saint-Germain a perder jogos, preferem o râguebi. Já, aqui há uns anos, me disse um parisiense «isso do futebol é lá para os marselheses», franzindo o nariz como se estivéssemos perto de peixe estragado.

O futebol transformou-se na ideologia de muitos milhões de portugueses de Norte a Sul. Claro que agarradas ao futebol vêem outras coisas, tais como ancestrais problemas regionalistas. Como já tenho dito, chamar mouro (ou galego) a alguém não constitui objectivamente uma ofensa. Porém, subjectivamente é-o. E é uma agressão sem sentido, pois Portugal, desde as suas origens, sempre foi um vórtice onde se sumiram etnias.

Pensando bem, o futebol não tem qualquer importância. A não ser que o transformemos em ideologia ou em religião. Mas essa não é uma atitude sensata. O nosso clube estar a ganhar ou estar a perder, pode-nos dar alegria, boa-disposição, como disse Vinnai »distrair-nos das misérias das nossas vidas de todos os dias», mas para o que verdadeiramente importa, não conta. É igualzinho a zero.

Um zero tão redondo como uma bola de futebol.


publicado por Carlos Loures às 12:00
link do post | comentar

4 comentários:
De Luis Moreira a 9 de Agosto de 2010 às 12:07
Não interessa nada, Eu gosto de ver e analisar, joguei futebol muitos anos e comecei cedo, pagavam-me para jogar, foi como uma vacina. Ainda me lembro, dentro da cabine, gajos aos berros, assobios quando gritavam o meu nome no altifalante do estádio, eu que tinha 17 anos, ainda não tinha tido tempo de fazer mal a ninguem...


De Carlos Mesquita a 9 de Agosto de 2010 às 17:16
O Benfica perdeu ontem, o futebol não tem importância (Carlos, Luís, Dixit).
Feito o comentário sério, uma nota sobre o texto. A trilogia dos efes, "Fátima, futebol e fado" também não teve a importância que a propaganda contra o poder obscurantista lhe deu. Eram os entreténs baratos de um regime de botas-de-elástico; tivessem eles os meios de hoje e também fariam os reality shows, as novelas Freeport e os concertos pimba. Agora que o fado foi adoptado pela erudição, como a Igreja papou as práticas pagãs, e Fátima é a mais lucrativa partecipada nacional da holding do Vaticano, só resta o futebol para responsabilizar pela alienação das massas. Não pago quotas a esse clube. Sempre vi nos sindicatos militantes com "A Bola" debaixo do braço, e até em manifestações. Quase toda a gente que conheço, esclarecida, empenhada, tem um fraquinho por um clube (quando não é uma doença pelo clube) e não é por isso que deixam de se embrenhar em causas.
O problema em Portugal é que poucos gostam do futebol como jogo; dizia alguém que cá ninguém gosta de futebol, gostam do seu clube, e só quando ganha. É verdae é pena mas não há nada a fazer.


De carlos loures a 9 de Agosto de 2010 às 18:26
O princípio do teu comentário é a negação do que eu quis dizer (mas é uma ironia aceitável) - o texto estava escrito e em rascunhos muito antes de o Benfica ter perdido. É justamente contra o futebol como preocupação central que as palavras deste post se dirigem. Estou de acordo que o cliché Fátima, futebol e fado, é um exagero que o germânico professor interpretou à letra.


De António Gomes Marques a 9 de Agosto de 2010 às 23:09
Também eu gosto de futebol, ou melhor, gosto de ver o Benfica a jogar bem e a ganhar, sentado ou meio deitado no sofá cá de casa, com uma bebida bem pertinho. Ver o erro estratégico do JJ, o tal que é o rei da estratégia, também me dá um certo gozo (será por que assim justifico a derrota do Benfica, com a burrice do seu treinador?).
Claro que gostaria muito mais de discutir outras coisas, como gostaria também de ter tido reacções às provocações que deixei no comentário a «Esquerda precisa-se», do Carlos Loures, mas verifico que, afinal, o futebol é mais importante e que, para ter alguma emoção na vida, tenho de continuar a ver o Benfica na televisão, com a tal bebida ao meu lado (qualquer dia tem de ser com a garrafa!).
Nós criticamos as forças da NATO no Afeganistão, especialmente as forças americanas, mas não falamos da cultura da papoila e não tentamos saber a razão por que a NATO não se preocupa com isso, mais interessada em matar civis inocentes; mas não criticamos com a mesma veemência o que hoje se joga por detrás do futebol: as negociatas, a lavagem de dinheiro, a promiscuidade política/futebol, etc., etc.
O mais importante para a maioria dos portugueses, neste momento, é que o Benfica ganhe à Académica no próximo fim-de-semana. E, já agora que ninguém me ouve, espero bem que ganhe!


Comentar post

EDITORIAL
AUTORES
Adão Cruz

Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Antunes

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Moreira de Sá

Fernando Pereira Marques

Hélder Costa

João Machado

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Moreira

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Maria Inês Aguiar

Paulo Melo Lopes

Paulo Rato

Pedro Godinho

Raúl Iturra

Rui de Oliveira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Contacte-nos
estrolabio(at)gmail.com
últ. comentários
OláEu sou Ibrahim Mohammed do Emirado árabe unido,...
Eu sou um disposo privada de um fons de that em ro...
Eu sou um disposo privada de um fons de that em ro...
Potrebuješ pôžičku? Máte nízke kreditné skóre a ne...
Atenção; Você é um homem de negócios ou uma mulher...
Viveu bastantes anos em Portugal, mais precisament...
Empréstimo e InvestimentoOlá a buscar um empréstim...
No dia 08/01/1974, faleceu o furriel Zeca Rachide,...
Cheguei aqui pelo link no blogue O Cantinho da Jan...
Apply now for all kinds of loans and get it urgent...
pesquisar neste blog
 
posts recentes

De 26 de Setembro a 2 de ...

As minhas novas pegadas (...

A viagem dos argonautas

Portugal, a União Europei...

Políticos que cumprem ! P...

O Ministro Gaspar

Anima ver o lado positivo

Palavras Interditas - por...

Os jornais e as notícias ...

Summer Time - Ella Fitsge...

arquivos

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

tags

todas as tags


sugestão: revista arqa #84/85
links