Quarta-feira, 26 de Maio de 2010
Carta de Carlos Loures a Carlos Matos Gomes
Carlos Matos Gomes, meu caro amigo:


Muito obrigado pela tua resposta que, embora não sendo aquela que desejava, foi tão amável, esclarecedora e transparente.

Sobre os blogues, digo-te que até há bem pouco tempo não era nem produtor, nem consumidor. Uma experiência anterior, atenuou alguns preconceitos que tinha contra este meio de comunicar e confirmou outros. Continuo céptico em muitos aspectos. Julgo que uma das grandes vantagens que este meio tem sobre qualquer outro – a interactividade, o contacto entre quem escreve e quem lê - é também o seu calcanhar de Aquiles. Lêem-se coisas admiráveis a par de outras de uma total ausência de decoro, de cultura, de consciência cívica. É um meio aberto, como uma empena branca exposta aos grafitistas – a par de pinturas de grande beleza, surgem obscenidades e tags marcando os territórios do narcotráfico. Compartilho muitas das tuas ideias e reservas. E, como dizes, o risco de implosão por quezílias internas existe sempre.

Porém, como também dizes, o « blogue é o que os seus membros querem que seja». Quando o Luís Moreira me desafiou para esta aventura, ficou combinado que queríamos um blogue aberto a todas as ideias, apenas vedado às que neguem a liberdade e a democracia. Sou amigo do Luís há muitos anos, mas, não pensando da mesma forma relativamente a muitas coisas básicas, somos um bom exemplo do convívio democrático e civilizado de ideias diferentes. A coesão ideológica que detectas não é, pois, real. Haverá uma maioria de esquerda, interpretando o termo num sentido lato, pois o que há é um leque de ideias que vai de um quase neo-liberalismo a um quase anarquismo. Não nos estando vedado «conversar» entre nós, o nosso principal objectivo é «falar para fora», para usar a tua expressão. Este blogue não é caixa de ressonância de qualquer ideia política, corporativa ou de qualquer outra natureza.


Cada post tem uma lógica própria e não tem de coincidir nem com o que o antecedeu nem com o se lhe segue. Não enveredámos pela rotina de comentar o que cada um diz, embora não estejamos impedidos de o fazer. O tal debate interno, só ocasionalmente existe, Não, decididamente, o nosso blogue não foi criado para ser uma tertúlia. Cada um de nós fala para o exterior. A metáfora da praça onde cada um monta a sua banca, é a que mais se nos ajusta. No Estrolabio, onde há gente com diversas orientações políticas, apartidários, católicos praticantes, agnósticos e ateus, não se pode esperar que exista coesão ideológica. Poupo o trabalho a um investigador que se preocupe a indagar porque está então uma vintena de pessoas a trabalhar neste projecto – nada de ideológico as une. São meus amigos e fui-os convidando um a um.

Nessa feira, nem todos queremos oferecer o mesmo produto. Por exemplo, o botabaixismo que encontraste em alguns posts não é uma regra, nem obedece a qualquer estratégia - os «estrolábicos» que atacam o Governo e o primeiro-ministro, fazem-no por razões diferentes: uns porque entendem que no actual quadro político-partidário existem alternativas credíveis e outros que o fazem de uma perspectiva de que a mudança (ainda que seja para pior) é sempre preferível à imobilidade. Falando de mim, pois só a mim me represento, dir-te-ei que a minha guerra é com um sistema democrático que, depois de tanta esperança, quando vós, os homens do MFA, nos restituíram a Democracia, me desiludiu ao ficar cristalizado num sistema oligárquico e endogâmico, onde a rotatividade entre os dois partidos do «bloco central» permite perpetuar injustiças, favorecer clientelismos, eternizar a corrupção e a deturpação sistemática do que constitui a pedra angular do ideal democrático – a verdade.

Raramente me ouvirás condenar um primeiro-ministro ou um partido que esteja no poder. Não acredito na teoria do quanto pior melhor e entendo que Sócrates tem os defeitos que tem (não são poucos), mas não contem comigo para lutar pelo seu derrube para o substituir por alguém eventualmente pior. Digamos que estou desinteressado dessa luta. Quanto a mim, faz sentido, sim, atacar o conceito instalado de democracia. Aí não estou de acordo contigo, não aceito esta versão de democracia representativa. Estou com Jean-Jacques Rousseau quando no «Contrato Social» clama: «O povo inglês, crê-se livre e bem se engana; só o é enquanto dura a eleição dos membros do Parlamento; assim que estes são eleitos, é um escravo, não é coisa alguma». Mas estou plenamente de acordo quando dizes que os governos emanam da vontade das maiorias e que não é possível haver um modelo que todos satisfaça, nem seria legítimo que o nosso modelo triunfasse à custa da repressão dos que não pensam como nós. A História demonstra-nos que as «minorias esclarecidas» raramente foram longe.

Não tive a preocupação de te responder ponto por ponto. Muito do que dizes coincide com o que penso. Por outro lado, onde queria chegar é aqui - a tua voz não destoaria entre nós, pois não somos um coro afinado – cada um canta um melodia diferente. A tua visão serena e clara, mesmo quando não estivéssemos de acordo, seria uma mais-valia para o nosso blogue. Pode ser que um dia te convenças de que não estarás deslocado nem virás perturbar uma harmonia que não existe porque não queremos que venha a existir.

«A minha amizade e estima só morre pelas faltas de carácter, pelas traições, pelas indignidades». Esta, sim, é uma frase lapidar que subscrevo inteiramente. Que todos subscrevemos, estou certo.

Recebe um grande e fraterno abraço, Carlos Matos Gomes.

Carlos Loures (24-05-2010)


publicado por Carlos Loures às 12:00
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5 comentários:
De Luis Moreira a 26 de Maio de 2010 às 18:09
É isso, o Estrolabio, caro Carlos. Ninguem melhor o definiria. Eu sou o único de entre nós que acha que a única liberdade que temos é criticar quem tem a obrigação de governar bem.Os outros "caçadores de estrelas" voam mais alto, são homens e mulheres de cultura, não precisam de escrever sobre assuntos tão incómodos e tão rasteiros, mas alguem tem que o fazer. Não podemos calar face a um país cada vez mais pobre e injusto. Se ninguem grita que "o rei vai nú" o que nos resta?


De carlos loures a 26 de Maio de 2010 às 18:48
Acho que estás enganado, Luís - há mais quem pense que atacar José Sócrates e o Governo socialista é necessário. Provavelmente, quem está em minoria não o atacando pelas razões que explico, sou eu. E, sempre falando por mim, não me calo «face a um país cada vez mais pobre e injusto» - penso é que Sócrates, sendo o actual rosto do problema, não é o problema. Para mim, o problema não se localiza numa pessoa, chame-se Sócrates, Passos Coelho ou que for. Localiza-se num conceito de democracia que mais não é do que a adequação do regime democrático aos interesses de uma oligarquia. Essa minoria usando, manipulando, os instrumentos formais da democracia, controla a maioria e subverte a essência dessa democracia. São lutas diferentes. Quanto ao rei, vai nu desde 25 de Novembro de 1975.


De Luis Moreira a 26 de Maio de 2010 às 22:17
A democracia que temos tem muitos defeitos mas não vejo melhor. Eu a ti percebo-te - combates o sistema- que está abocanhado pelas classes dominantes, mas como eu sou um reformista, acredito que é possível melhorar introduzindo esperiências. Há milhões de pessoas que vivem bem há muitos anos com este sistema e não é possível deitar tudo fora.Por isso ataco "o rosto" do sistema, chame-se Sócrates ou Passos Coelho.


De carlos loures a 26 de Maio de 2010 às 22:23
Compreendo. Mas parece-me uma luta pouco eficaz, atacar o títere em vez de tentar desmascarar o bonecreiro que o manipula.
Quem verdadeiramente manda, terá sempre ao seu dispor sócrates e passos coelhos em grande quantidade - é só escolher. Mas já tivemos esta discussão muitas vezes.


De Carlos Matos Gomes a 31 de Maio de 2010 às 18:06
Meu caro Carlos Loures, mais uma vez obrigado pelo teu convite e pelas delicadeza da tua resposta ao meu texto. Ao ler os vários post do blogue senti que o mais importante é a possibilidade de vermos a hierarquia de prioridades dos seus autores. A escolha dos assuntos que cada um entende tratar e expor é mais importante do que o que ele pensa do assunto em si mesmo. Foi o que escrevi num comentário a um texto do Leça da Veiga. Confesso sentir dificuldade em integrar as minhas prioridades nas dos autores do blogue.
Confesso também que tenho tid a oportunidade de conhecer factos e assuntos do maior interesse, de ler textos pouco conhecidos e de grande qualidade. E continuarei a fazê-lo.
Um grande abraço e as maiores felicidades
Carlos Matos Gomes


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