Domingo, 21 de Novembro de 2010
A operação “Mar Verde” foi há quarenta anos
Carlos Loures
Faz hoje quarenta anos estava prestes a ser desencadeada a “ Operação Mar Verde”, nome de código atribuído a uma operação militar planeada pelas Forças Armadas Portuguesas levada a cabo em 22 de Novembro de 1970. Em Portugal, o governo de Marcelo Caetano, prosseguindo a rota traçada por Salazar, e ao contrário do que dera a entender que faria, mantinha a Guerra Colonial nas três frentes africanas. Em Portugal, onde se acalentara a esperança numa abertura - falava-se numa «primavera marcelista» - o novo presidente do Conselho limitara-se a mudar o nome a algumas coisas – A PIDE passou a DGS, a União Nacional  transformou-se na  Acção Nacional Popular… cosmética, nada mais.
Os órgãos de comunicação, controlados e impedidos de contradizer os comunicados oficiais, davam-nos do conflito a imagem de algo sem importância – acção de grupos terroristas que, vindos do exterior, atacavam e fugiam. Nesta versão poucos acreditavam – se era uma coisa tão simples, por que durava há tanto tempo?
Claro que a verdade era diferente. Principalmente na Guiné, enfrentava-se tropa bem treinada e, em alguns casos, mais bem equipada do que a nossa que, inclusivamente, em algumas dos seus ataques fazia prisioneiros. Foi então que foi concebida a «Operação Mar Verde». O destino era Conakri, capital da República da Guiné, ex-colónia francesa, com três objectivos centrais – libertar os militares portugueses, destruir as lanchas do PAIGC, matar Sékou Touré,  presidente da República.
 A missão foi confiada ao comandante Alpoim Calvão e a um destacamento de fuzileiros especiais. Diga-se que a competência profissional do comandante e dos seus homens foi comprovada - à excepção da eliminação física de Sékou Touré, todos os objectivos foram alcançados – prisioneiros libertados, lanchas destruídas, a força aérea da Guiné-Conakri quase totalmente posta fora de combate. O palácio presidencial foi ocupado e Sékou Touré só escapou porque se ausentara do país. Neste pormenor, parece ter havido uma falha do serviço de informações. Sobre esta acção militar pouco falada fora do meio militar, há um livro  de  António Luís Marinho  que descreve os pormenores - Operação Mar Verde - um documento para a História (Lisboa, Temas e Debates, 2006).
Apesar deste revés, as forças do PAIGC continuaram a atacar e, nos últimos meses de guerra, as nossas forças já não se podiam movimentar, os fiat G-91 portugueses não conseguiam levantar voo, pois eram alvo imediato dos temíveis mísseis Strela. Em 1973, ano em que Amílcar Cabral foi assassinado em Conakri (por dissidentes do PAIGC), a independência foi unilateralmente proclamada em Madina do Boé, vindo a ser reconhecida pelo Governo Português após a Revolução de Abril.
O comandante Alpoim Calvão foi um dos homens de mão de Spínola e organizou ao Movimento Democrático de Libertação de Portugal, organização de extrema-direita que levou a cabo algumas operações terroristas. A ordem de operações da “Mar Verde”  foi elaborada pelo comandante Calvão e terá sido supervisionada pelo governador militar da Guiné-Bissau, o general  António de Spínola que mantinha uma política algo distanciada da linha oficial, demonstrando algum desejo de criar condições para uma solução política do conflito. Como profissional, chegara já à conclusão de que não existia solução militar. Por isso, ao mesmo tempo que desencadeava operações como a que se refere, terá mantido negociações secretas com Senghor, presidente do Senegal.
Em 1973 regressou a Portugal. Por sugestão do general Costa Gomes, em Janeiro de 1974, foi nomeado vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Pouco antes da Revolução de Abril, publicou Portugal e o Futuro, onde expunha as suas ideias para a solução política da questão colonial. Marcelo Caetano ter-se-á oposto à proibição da circulação do livro e este foi um dos rastilhos que conduziram ao 25 de Abril.

Vejamos estes dois vídeos que nois fornecem pormenores sobre a complexa operação «Mar Verde», sobre a qual amanhã se completam 40 anos.






publicado por Carlos Loures às 12:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 21 de Novembro de 2010 às 12:14
Quando o livro de Spínola foi publicado, Marcelo Caetano leu-o nesse mesmo dia e terá dito "a revolução é inevitável".Ainda tentou a brigada do reumático...


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