Domingo, 19 de Setembro de 2010
Mãe
Adão Cruz




Mãe. A palavra universal, a palavra mais consensual da humanidade. Nem Deus. Deus é de uns e não de outros. Deus é conceito de muitos e negação de outros tantos. A mãe não. A mãe é de todos sem excepção. A mãe é de todos e é só nossa. A mãe é do crente e do ateu, a mãe é do pobre e do rico, do sábio e do ignorante. A mãe é dos poetas, dos filósofos e artistas, dos bons e dos maus. A mãe é do amigo e do inimigo. Não há mãe de uns e não de outros, não há ninguém sem mãe, não há mãe de ninguém. A mãe é de toda a gente, a mãe é de cada um, a mãe é do mundo inteiro e do nosso mais pequeno recanto. A mãe é do longe e do perto, da água e do fogo, do sangue e das lágrimas, da alegria e da tristeza, da doçura e da amargura, da força e da fraqueza.

A mãe é certeza e aventura, é medo e firmeza, dúvida e crença. A mãe é haste que se ergue no céu, ou se aninha rente ao chão para que a morte a não vença. A mãe é a outra parte de nós. Sem mãe somos metade, sem mãe nada é exacto, igual a um, igual a infinito onde se tocam princípio e fim, onde os tempos se encontram sem tempo presente, passado e futuro. A mãe é tudo, a mãe é de mais, a mãe é o máximo.

A mãe é a lágrima que não seca no sorriso que não se apaga, a nuvem que chove no sol que aquece, a mensagem da luz e da harmonia e dos acordes matinais com que abre o nosso dia. A mãe levanta-se no orvalho das lágrimas da noite, e mesmo cansada não perde a voz nem a cor da madrugada. A mãe é a voz que se não teme, a voz que se confia, a voz que tudo diz nas consoantes do grito, nas vogais do silêncio, nos abismos da agonia.

Mãe. Primeira palavra a nascer, a última palavra a morrer. A mãe é sempre a mesma, a mãe nunca é outra na sua infinita diferença. A mãe é criação, a mãe é sempre o fim da obra-prima inacabada. A mãe nunca é ensaio nem esboço nem projecto. A mãe é um milagre no milagre do mundo. O único milagre concebido neste mundo real e concreto.

Chora para que outros riam, ri para que a dor a não mate. Mistura-se com a luz das estrelas para vencer a escuridão, devora as nuvens por um raio de sol. A mãe é beleza e poesia, aurora fulgurante, aurora adormecida. A mãe é bela porque é simples, a mãe é simples porque nasce da silenciosa lógica da vida. A mãe é o que é, a mãe é a fragilidade da semente, a força do tronco, a beleza da flor, a doçura do fruto, o dom de renascer.

A mãe é tudo numa coisa só. Amor. A mãe é tudo. A mãe é de mais. A mãe é o máximo.


publicado por Carlos Loures às 21:00
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8 comentários:
De augusta.clara a 19 de Setembro de 2010 às 21:28
Este tema põe-me triste e, por isso, eu não falo dele. Mas falo do quadro que, se pudesse, te roubava.


De adão cruz a 19 de Setembro de 2010 às 21:44
Dar-to-ia se ainda o tivesse. É propriedade de America Sotto, uma amiga e galerista de Ourense.


De clara castilho a 19 de Setembro de 2010 às 21:53
Eu só acrescentaria que mãe pode ser a que nos trouxe na barriga ou outra pessoa... O que desejo a todas as crianças cuja mãe não foram isto, que não as trouxeram dentro da mente, como escrevi num texto anterior... Se todos pudessem sentir isto estaria o mundo muito melhor! Está lindo, vamos lendo e indo no embalo...


De Luis Moreira a 19 de Setembro de 2010 às 22:13
Clara, tens a razão toda.Eu quando era criança sentia algum conforto pensando que quando adulto isto passava. Não passa. Fica pior.


De carla romualdo a 19 de Setembro de 2010 às 23:22
Muito belos, texto e quadro.


De augusta.clara a 20 de Setembro de 2010 às 00:57
Olha, Adão, só vi agora o que tu disseste. E comoveu-me a valer. Um beijo por isso. Mas não te estava a pedir nada. Era só em sentido figurado.


De maria monteiro a 20 de Setembro de 2010 às 07:16
Mãe, mãe é um caminho de aprendizagem que nunca está concluído. Continuo a ser mãe-galinha... aquela forma de primeiro no bolso do bibe, depois dentro da mochila estar ali presente para os momentos mais sós, menos fáceis... para todos os momentos. O meu filho quando ficava sozinho com os avós em Portalegre pedia a minha almofada porque tinha o meu cheirinho (dizia ele)


De Luis Moreira a 20 de Setembro de 2010 às 12:06
Maria, o Tomaz é um aluno universitário tens que lhe dar rédea, embora não seja preciso ser solta...:-)


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