Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010
Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio -
Ao contrário do que tem sucedido nos média africanos, o fracasso da recente Cimeira Europa-África não tem sido objecto de qualquer análise séria nos média europeus. No contexto global em que vivemos, esta ausência é preocupante, pois revela que a Europa ou nunca entendeu a África ou deixou de a entender. O silêncio afirma ruidosamente: "Isto é África. O que se espera?" E a pergunta é retórica. Perante ela, os africanos perguntam-se perplexos: "Que Europa é esta que pensa assim?" E, ao contrário dos europeus, procuram respostas já que, depois de séculos de colonialismo, não se podem dar ao luxo de não entender a Europa.

Há um ditado africano que diz: "Enquanto a história da caça ao leão for contada pelos caçadores, os leões serão sempre perdedores". O pouco de história de África que os europeus conhecem é a história do caçador, a história europeia de África, e enquanto isto não mudar a África só confirmará aos europeus o que já "sabem" dela. Ou seja, nada que sirva para fundar outro tipo de relações que não as coloniais e as neocoloniais. Para começar, seria importante ter em mente que a recente cimeira ocorreu no seguimento de várias outras – a Cimeira África-EUA, em 2005, a Cimeira África-América Latina, em 2006, e a Cimeira África-China, em 2007 – e que todas elas, sobretudo as duas últimas, tiveram resultados palpáveis, apesar de terem ocorrido com parceiros para quem a África, até há pouco, era algo estranho e remoto. Ou seja, ao contrário da Europa, os novos parceiros não tiveram dificuldade em entender a nova África.

E o que é a nova África? É uma África que procura aprender as lições da globalização neoliberal para receber dela, não apenas os custos, como até aqui, mas também alguns benefícios. Para isso, tem de unir-se para que o mundo desenvolvido não continue a dividi-la, tal como o fez a geografia colonial. Está em curso um novo impulso de pan-africanismo, mais pragmático que o anterior, centrado em instituições novas ou renovadas, quer de âmbito continental (a União Africana), quer de âmbito regional (por exemplo, a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, SADC), apostado em resolver com recursos internos as crises que ocorrem (de Darfur ao Quénia) e alimentando-se das vitórias que nascem da união. Em suma, a África sente que é preferível caminhar com os próprios pés, mesmo que sangrem, do que com muletas, mesmo que de ouro.

Por outro lado, a nova África interroga-se hoje intensamente sobre donde vem. De algum tempo a esta parte, está em curso uma revisão profunda da história do colonialismo que envolve uma reflexão sobre a África pré-colonial. O debate é intenso mas emerge dele um sentimento de que a África não pode desperdiçar nenhuma originalidade ou experiência histórica africana, mesmo que ela tenha sido desvirtuada e manipulada pelo colonialismo. Daí uma reavaliação dos sistemas de governo tradicionais (as autoridades tradicionais) e o modo como podem ser postos ao serviço de uma democracia que não seja apenas uma imitação ou imposição ocidental. Como construir uma cidadania articulada com as fortes pertenças comunitárias, sobretudo quando se sabe que um Estado-providência tipo europeu, mesmo se desejado, é objectivo distante? Como conceber um Estado que saiba articular várias fontes de legitimidade para estar mais próximo dos cidadãos e não cair na voracidade da corrupção, tantas vezes induzida de fora? A questão da relação entre cidadania e etnicidade torna-se premente. Mas os africanos sabem que por detrás do "tribalismo" de que a África é acusada pelo Norte desenvolvido, está o verdadeiro tribalismo, o tribalismo que divide a África em duas tribos: a dos que têm tudo e a dos que não têm nada, a imensa maioria. É neste tribalismo profundo que assenta o tribalismo que interessa aos média ocidentais. Violência no Quénia? "Isto é África. O que se espera?" E a estrondosa derrota de Thabo Mbeki, presidente da África do Sul, no recente Congresso do Partido do Congresso Nacional Africano (ANC), ante o seu opositor Jacob Suma, e o modo como o tsunami Zuma foi absorvido pela democracia sul-africana? Também isso é "Isto é África. Que se espera?"?

A imaginação catastrófica do Ocidente não sabe ler África senão através de metáforas apocalípticas, como genocídio e limpeza étnica. Se procurasse entender, veria que por detrás da violência estão conflitos de terra e pelo controle de recursos naturais, muitos deles resultados de tortuosas heranças coloniais, outros assentes em lutas pelo controle político e territorial pós-independência, mascaradas de nacionalismo e de identidade nacional. É, pois, a tribo dos camponeses pobres, expulsos das suas terras, tantas vezes em nome de mega-projectos de grandes empresas multinacionais europeias, financiados pelo Banco Mundial e com a conivência de elites políticas corruptas, é essa tribo que está por detrás dessa violência. E também em relação a ela a Europa não se pode considerar inocente. A politização da etnicidade começou com o colonialismo e, depois das independências, se as potências colonizadoras tivessem cumprido os compromissos assumidos de facilitar a reforma agrária, a tribo dos camponeses pobres não existiria hoje. De África, a Europa só vê as realidades que confirmam a sua nostalgia do colonialismo.

(Publicado na revista "Visão" em 17 de Janeiro de 2008)

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publicado por Carlos Loures às 21:00
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